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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Poliana Paiva

 

Arte: Juca Oliveira

 

PERSONA

 

Outro dia conheci uma personagem de Comédia Romântica. Eu, que até hoje só fiz Drama, achei o maior barato conhecer gente diferente, com uma vida assim mais tranquila, um futuro mais garantido e coisa e tal.

O que acho mais curioso nas Comédias Românticas é que, mesmo quando dá uma merda muito grande e o protagonista se fode, nos 10 minutos finais alguém se redime e tudo dá certo. Até meio certo demais, mas, enfim, o fato é que eu conheci essa moça da Comédia Romântica. Ela era muito bonita. Bonita mesmo. Tá certo que ela tinha a cabeça meio grande. Cabeça de quem faz muita dieta. Sabe quando a pessoa vai ficando tão magra que a cabeça vai ficando um pouco grande em relação ao resto do corpo? Pois é. Essa personagem era assim. Cabeçuda. Em outros tempos até poderia chamar atenção, mas, hoje em dia, definitivamente, isso não importa tanto. A pessoa pode tá pobre, pode tá sem amor, pode tá doente, pode até ter caído na malha fina do Imposto de Renda. No entanto, se tiver magra, tudo se ajeita.

Era um domingo, isso eu lembro bem, porque o Aterro tava fechado e todo mundo pedalava com um sorriso de propaganda de margarina. Estávamos nos jardins do MAM. Lembro também que tinha muita gente nadando no trecho entre a Marina da Glória e a Enseada de Botafogo. Todos provavelmente vacinados contra hepatite B.

E não falo de vacina por mania de doença, não. Eu nem tenho como ser hipocondríaca. Até hoje só fiz Drama de Época. E nos Dramas de Época, a realidade é cruel. Personagem que não morre de peste, de infecção, nem de necrose, é minoria. E essa minoria, naturalmente, não tem tempo de ficar obcecada com dieta equilibrada. O buraco é mais embaixo. Se der pra procriar, pra comer e pra trabalhar, o corpo do personagem tá mais que bom.

O caso é que, mesmo sem ser hipocondríaca, acabei perguntando pra essa personagem minha amiga se ela tava se sentindo bem, se queria comer alguma coisa. Afinal, ela tava tão magrinha, que era bom um carboidrato, uma gordura, sei lá. Foi aí que ela sorriu de um jeito meio nervoso e disse que precisava mesmo era de um cigarro.

Nesse momento, do nada, apareceu a Elke Maravilha, dizendo: “- Criança, fumar é feio”.

Até aí eu tava achando tudo normal. Sempre encontro Elke no Leme. Uma fofa. Inteligentíssima. Libertária. Tudo de bom. Daí Elke pega uma canga, senta do nosso lado e pergunta: “- Viu se Painho já chegou?”.

Aí, sim, achei estranho. Pô, Chacrinha morreu tem tempo e Elke é uma das pessoas mais lúcidas que conheço. Foi então que comecei a juntar as peças: primeiro, o povo do sorriso de margarina pedalando. Depois, o pessoal nadando na baía mais imunda do mundo e, agora, Elke perguntando por Chacrinha… Minha espinha gelou e tive a certeza: “Puta merda, tô num sonho!”.

Não sei quanto a vocês, mas eu não curto nada a ideia de passear no sonho dos outros. É sempre dor de cabeça. Sempre. Todo mundo se acha cineasta nessa hora. Todo mundo quer brincar de narrativa, mas ninguém se importa se os personagens estão cansados, com fome ou com vontade de fumar.

Antes que a coisa piorasse, chamei minha amiga num canto e disse: “- Amada, isso é uma cilada. É um sonhozinho de quinta e, se a gente não se ligar, vai ficar aqui por muito tempo aplaudindo pôr do sol. E o pior: sem cigarro e sem bebida, que pelo visto a única droga que esse povo consome é televisão”.

Foi assim que consegui convencer minha mais nova amiga de infância a evadir do sonho alheio. Foi simples: começamos a cantar uma música do Ratos de Porão e fomos convidadas a nos retirar.

De volta à realidade, nos despedimos. Fui protagonizar o nonagésimo remake do “Direito de nascer” e ela foi pro ensaio de “Como perder um homem em dez dias – Parte 3”.

Agora, se fosse pra voltar pra realidade mesmo, essa que vocês encaram todo dia, de metrô cheio, neuroses de gaveta e regulagem de cu alheio, preferia ficar no Aterro, doida de vontade de fumar e ouvindo um bando de neohippie dizendo “gratidão”.

 

 

 

***

 

 

 

THAT´S IT

 

Chegou a hora dessa gente desbocada mostrar seu valor. Falar o que pensa. Desnudar a alma. É preciso mostrar ao mundo quem se é. Porque, de boa, tá cansativo abrir o facebook e receber convite pra curtir evento onde só tem foto tua expondo teus filhos e na legenda escrito “amor maior”. Extenuante também é ir às festinhas que você me convida e ter de responder de hora em hora que nunca engravidei e que isso não faz de mim menos mulher. Chato ter que ficar provando minha feminilidade o tempo todo. O que você quer? Que eu tire a roupa pra exibir minha aparelhagem? Que eu mostre exames ginecológicos? Porque você bem sabe que sou capaz disso.

Quer saber de outra? Poucas coisas são mais constrangedoras do que ouvir como foi lindo o filhinho da sobrinha do teu amigo que foi pajem do casamento da afilhada da tua ex-chefe, que, a propósito, conseguiu engravidar aos cinquenta anos, depois de gastar dois milhões em inseminação. “-Que bom para o casal”, sempre digo, pois acho que, se a pessoa quer, ela tem mais é que fazer, seja filho, bolo de milho ou merda. Tudo é válido. E é exatamente por isso que, apesar de não estar nem um pouco interessada na cotação mercadológica dos produtos infantis, escuto, com o máximo de atenção, discussões acaloradas sobre fraldas, leites em pó e papinhas orgânicas. Pra mim, isso é tolerar o diferente.

Quer ver outra situação que dá preguiça? Seus amigos me perguntando se vou congelar os óvulos. “-Não, não vou!”, respondo sempre horrorizada. Você bem sabe que não congelo nem carne moída. Aliás, cada vez mais penso que, pelo bem do planeta e da humanidade, carne, pra ser consumida, tem que ser crua, fresca e humana. É, eu gosto de meninos mais jovens. E, sim, tenho uma lista de homens que posso procurar quando quero. Porque dou muito. E sempre. E com vontade. Acredito que é dando que se reflete, que se constrói uma vida melhor, uma pele melhor, um humor melhor.

Outra coisa: se não falo pra tua mulher que te vi no tinder várias vezes dando pinta de solteiro, por que motivo você se sente no direito de vir me catequizar sobre as maravilhas do casamento? Quem é você pra dizer que eu estaria melhor do que estou se estivesse acompanhada de um cara como você? Quem é você pra achar que eu estou encalhada? Encalhada é quem não sai do lugar. Eu, baby, saio. E muito, viu?

Mais uma coisinha: se escrevo o que escrevo e digo o que digo é porque tenho mãos e língua e porque elas não servem só pra fazer as peripécias que fiz com você. Claro que adorava teu corpo nu na minha cama, mas você sempre queria mais, lembra? Mais amor, mais provas, mais privações, mais silêncios. Se nunca te pedi pra sair da lâmpada, como um gênio, nu e cheio de desejos, por que você achou que eu faria isso por você? Não sou sua “Jeannie”. Não tô aqui pra satisfazer tuas vontades. Tô aqui pra ser feliz, pra ser solidária e não pra ficar com raiva de todas as mulheres que você comeu enquanto estava comigo, sempre justificando que as vagabundas eram elas.

Saiba que, desde que nos separamos, li muito, estudei muito e sei muito mais do que você sonhou que eu fosse capaz. Seu problema é achar que só você é capaz. É dar pala pra essa sociedade falocêntrica, machista e misógina, que não acredita que posso ser protagonista da minha vida. Pois, pasme, amoreco, meu roteiro quem tá escrevendo sou eu. Um dia, quando você baixar tua crista, talvez seja capaz de acompanhar minha história, sem achar que tudo que faço está ligado a você, ao seu intelecto, à sua conta bancária, aos seus filhos e à sua incapacidade de dar duas sem tirar de dentro.

Uma vez te disse pra não me provocar, ao que você respondeu, em tom de deboche, cantando uma música da Rita Lee, que dizia: “Por isso não provoque, é cor de rosa choque”. Outro dia lembrei disso e tive vontade de te apresentar outra musa da música brasileira, Karina Buhr, que, no auge da consciência de gênero, costuma dizer: “Cor de rosa é a cabeça do meu pau”.

Essa é pra você parar de me enviar whatsapp em plena madrugada, quando estou sendo feliz com outro. Fique feliz você por eu não estar nesse exato momento encaminhando tua mensagem pra tua mulher.

E saiba, por fim, que o clitóris que ponho na mesa agora nunca mais vai ser teu. Durma com essa.

Pronto, falei.

 

Poliana Paiva é formada em Cinema pela Uff e em Teatro pela Cal. Dirigiu e roteirizou 4 curtas, foi roteirista dos programas de auditório ‘Esquenta’ e ‘Papo de Mallandro’ e, no momento, escreve seu primeiro longa, uma série para tv e uma série pra web. Foi publicada em duas coletâneas de novos autores e selecionada no concurso ‘Poema nos ônibus e nos trens’, promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Fora isso, integrou as exposições ‘Liberte a literatura’ (2012), no Centro Cultural da Justiça Federal e ‘Caneta, Lente e pincel’, no subsolo do Monumento a Estácio de Sá (2013) e no foyeur do MAM (2014).

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mário Sérgio Baggio

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Noite de cachorro

Como faz todas as manhãs, o cachorro tira o homem de casa e o leva para passear. Andam pelas ruas ainda vazias, moldura adequada para a caminhada silenciosa de um cachorro e um homem. Toda manhã é o mesmo: o homem, animal treinado, ergue uma das pernas para mijar em cada esquina. É um hábito, coisa de homem que sai todas as manhãs com seu cachorro para passear. Um leva o outro, não se sabe quem conduz quem. Homem leva cachorro, cachorro leva homem.

Caminham evitando as poças d’água que a tempestade da noite anterior deixou como lembrança. Becos pichados, ruas cheias de sombras, avenidas sem viv’alma, ladeiras íngremes, praças desertas – o passeio do cachorro com seu homem não conhece limites nem escolhe atalhos. Caminhar é preciso. O chão molhado reflete a silhueta dos dois, fantasmas silenciosos que avançam e se apoderam do espaço estendido à frente.

O cachorro olha o relógio, o homem late. Ambos bocejam. Um pássaro negro voa baixo, pia de forma agourenta. O homem levanta uma das pernas e mija pela última vez. Hora de fazer o caminho de volta.

Acorda com o latido insistente de um cão na vizinhança. Apoia-se nos cotovelos. O suor escorre, abundante, empapa seu pescoço e peito. Sente o líquido que desce até os lábios, desaparecendo queixo abaixo. Engole uma gota: salgada. Respiração arfante, acende a luz e olha o teto. Estica o braço e alcança o caderninho de notas na mesa de cabeceira. Escreve: “Chamar o encanador, telhado ainda com goteiras. Urgente: pegar mais pesado na terapia”.

Devolve o caderninho à mesa e volta a encostar a cabeça no travesseiro. Olha a goteira no teto e suspira, exausto. Noite de cachorro, outra vez!

 

***

 

 

O pior que podia fazer

O pior que pôde fazer o imigrante foi oferecer resistência à autoridade. Claro, era normal que ele estivesse alterado, pois fora denunciado por abuso sexual pela senhora que morava na parte rica da cidade. Ele passava sempre por ali, voltando para sua casa, e naquele dia estava especialmente angustiado por receber mais uma maldita resposta negativa de trabalho. Nunca se metia com ninguém, cônscio de sua condição de estrangeiro, e sabia que estaria sempre melhor quanto mais se mantivesse longe de problemas. Que tinha mulher e filhos e estava buscando trabalho para sustentá-los.

Era isso que ele devia dizer ao policial que o prendera na rua, antes que ele lhe pusesse as algemas. Antes que o levassem para a delegacia para tomar seu depoimento. Antes que lhe dessem uma surra por abusar de senhoras de respeito. Antes que o jogassem numa cela, à espera de julgamento. Antes que, no dia seguinte, a senhora retirasse a queixa contra ele, dizendo com um sorriso amarelo que não tinha certeza de que aquele sujeito a havia molestado. Antes que ninguém lhe pedisse desculpas pelo engano e o pusesse de novo nas ruas.

Teria sido muito melhor se o imigrante conservasse sua calma e serenidade no momento em que fora detido. E não insultasse todo mundo, inclusive o delegado. E não enfrentasse a força da autoridade. E não tentasse fugir de modo intempestivo. E não caísse de bruços depois de receber um tiro pelas costas. Foi de advertência, disse o policial.

***

 

 

Liturgia

Primeiro a mão vai até o cálice grande e dourado, cheio de hóstias, recolhe uma delas e vai em linha reta até a língua estirada à sua frente. A mão deixa cair a hóstia, corpo de Cristo, a língua a recebe e se recolhe dentro da boca. O dono da língua, um senhor de olhos pequenos perdidos entre tantas rugas, fecha os lábios e os olhos e assume sua culpa católica e sua condição de pecador arrependido, mas apenas por alguns segundos, uns mínimos instantes, o suficiente para que transpareça verdade em sua intenção. Depois, sem nada dizer, com a hóstia derretendo no céu da boca, ele se levanta e volta, de cabeça baixa, para o lugar de onde tinha saído. Agora a mão está imóvel, esperando o próximo pecador.

Ela vem, não tão devagar, para não atrasar o andamento do ritual, nem tão apressada, para não perturbar a devoção do momento. Vem no ritmo certo, as passadas na cadência exata para que, aqueles que desejarem, apreciem o balançar de seus quadris, a pulsação de suas coxas, primeiro uma, depois outra, e os tornozelos finos e fortes na sustentação de toda aquela estrutura óssea que se move. A mão está parada, à espera, já com a hóstia entre os dedos. O dono da mão pigarreia e deixa escapar certo incômodo enquanto espera que ela se aproxime. Ela se abaixa na frente dele e quase roça os joelhos na barra de suas vestes sagradas, mostrando Que descuidada que sou! uma nesga de coxa. A mão treme, corpo de Cristo, ao esticar-se em linha reta conduzindo a hóstia na direção daquela língua esticada na medida certa – não tão fora da boca para não indicar lubricidade, nem tão dentro que o dono da mão precise roçar os dedos em seus lábios e dentes. Ela não fecha os olhos para o dono da mão, antes olha para ele no momento de receber sua porção de farinha e água. Ela recolhe a língua, abaixa a cabeça – culpada, católica culpada assumida! – e inicia o caminho de volta, no mesmo ritmo da vinda, na mesma cadência, sem olhar para trás.

Agora a mão já não consegue manter a mesma firmeza de antes. O que se vê é uma mão insegura, medrosa, cujo dono padece e sofre para fazer seu trabalho. Após a mão vêm o cotovelo, o ombro, o pescoço e o rosto, todos partes de um único ser que nesse exato momento chora. O coroinha não entende o que se passa, e o sacristão levanta as mãos para o alto, Mas o que é que está acontecendo com o padre Fernando?

Mário Sérgio Baggio é jornalista, morador da cidade de São Paulo, atua como Redator freelancer produzindo conteúdo para websites, blogs e redes sociais. Mantém o blog Homem de Palavra, em que publica seus textos de ficção.

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberto Dutra Jr

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

REI MIDAS [micronólogo]

 

Midas entra. Cambaleia e atira-se de joelhos, voltado para o público.

– Hoje cravei em meu peito uma cruz de metal. Faz frio na ferida e o metal oxida com o contato do sangue. Das muitas coisas que me lembro da vida, agora todas passando, eis aqui, fincada no mais fundo de mim, essa cruz de metal que cala meu peito. Essa cruz de metal cortando ao meio o fluxo vital de afeto e esperança para todo o resto do meu corpo. A cruz me impede de morrer, a cruz me impede de viver.

Eu vi o inferno. Não busque o inferno no subsolo. Não perturbe com sua bizarra curiosidade as marmotas, os vermes e os soturnos habitantes das sombras. Essa busca infrutífera de alquimistas e de líderes religiosos de sexualidade duvidável e vã. Essa busca tem sido vã pelo curso dos últimos séculos e levado tolos e sábios para arder em fogueiras martirizantes. O martírio de saber pode muito bem ser o martírio de ter que esconder, mentir, ignorar. Infernos inúteis!

Hoje cravei uma cruz no inferno! Aqui, bem no meio. Na base da carne nascem rosas rubras. Os espinhos das rosas do inferno não surgem dos caules, nascem de meus dedos, transformando minhas mãos em instrumentos de dor e solidão. Tudo que eu toco se transforma em sofrimento.

Um dia eu ainda me coço.

Fim.

***

 

 

 

O REMETENTE

Havia um homem que escrevia cartas sem nunca tê-las respondidas.

Em um passeio pelo cemitério, viu seu nome escrito e todas as cartas que remetera.

***

 

 

 

TENTÁCULOS

para Victor Giudice, que ainda observa do outro lado da porta

Nada impede uma manhã preguiçosa nessa cidade. Chegando serena com chuva tranquila. Daquelas que precipitam depois da temperatura gentilmente baixar grau a grau. Os primeiros pingos, pingo, pingos, pingo, ping, ping, pin… Até pensou que ouvisse as primeiras notas do piano de Tom naquela música. Mas, é outubro, e ao contrário das Águas De Março, o céu cinzento e a constância da chuva ensaiam outras promessas nos corações de todos.

Em algum conjunto de apartamentos, em algum subúrbio próximo, ele passa um café no coador de pano. Em algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo, alguém mais faz exatamente a mesma coisa que ele, na mesma sequência. Um conjunto habitacional suburbano é um conjunto de outros mesmos.

Ele ainda dorme, mas não sabe. Sempre repete isso mentalmente naquela mesma hora pela manhã. Pensa sonhar com o cheiro do café tomando a cozinha e invadindo o quarto. Ele senta-se sozinho à mesa e serve sua primeira dose. Ela gosta pingado, e o leite fumega sobre o forno, já fervido. Na mesa uma broa de milho fatiada e queijo branco. Toalha de algodão com motivos florais, daquelas que em qualquer armarinho se encontra. O tempo nublado deixa a cozinha escura demais àquela hora da manhã. O sol parecia atrasado.

— Até o sol pode chegar atrasado quando quer – balbuciou.

Ocorreu-lhe que ela já devia estar no banheiro, apesar do silêncio. Incrível o silêncio de uma manhã chuvosa, pensou. Não fosse pelo ruído da chuva, ele nem diria que realmente está no bairro. A cozinha parecia isolada do resto do mundo, já que as demais cozinhas do prédio existiam longínquas pelo silêncio. Todos poderiam ter desaparecido ou estar mortos. Calafrio. Foi até o basculante da cozinha e gritou:

— Olaaaá!

Nem um ruído. O silêncio induzia o pé ante pé para andar. Voltou-se para o armário sob a pia. Precisava de uma jarra para colocar o leite na mesa. Seria um toque especial. Começou a remexer o armário. Súbito uma rajada de vento bate a porta da cozinha. Ele, que estava inclinado para dentro do armário, move-se para fora, e a coluna fica retesada. Pura reação instintual, mas que sempre provoca uma gélida injeção de adrenalina. Voltou-se para o fogão, colocou o leite na jarra e aguardou sentado na mesa. Ouvia o registro do chuveiro ser aberto e a água descer intensa. Parece que hoje ela decidiu começar o dia com um banho, pra variar.

— Que mudança! — falou alto, tentando entabular uma conversa matinal.

— Me admira justo você começar um dia frio como hoje com um banho. Já preparei tudo aqui e estou apenas lhe aguardando. Ainda tinha queijo na geladeira e esquentei o bolo que sua irmã fez ontem. Tudo quentinho.

Ouviu um ruído de escorregão molhado, a luz piscou. Sem sobressalto, gritou:

— Opa! Tudo bem aí, moça?

Sem resposta. Silêncio quer dizer tudo bem e pronto.

— Liga não, outro dia eu também quase levei um tombo debaixo desse chuveiro. Preciso fazer uma faxina e tirar o limo desse banheiro. Vou comprar um alambrado de madeira pra colocar no chão assim que puder. Melhor que esses tapetes antiderrapantes que estragam logo. Olha, se você demorar muito eu vou comer o bolo sozinho. O café que acabei de passar ficou até fraco, do jeito que você prefere. Ah! eu não entendi porra nenhuma daquele filme que assistimos ontem.

Ela demorou. Foi o suficiente pra depois do copo de café o braço sustentar a cabeça sonolenta num cochilo. Acordou e a ouviu fechar a água no banheiro. O leite estava menos que morno agora. Ele voltou-se para acender o fogão. Uma batida estranha na porta, ainda fechada. Parecia que ela jogava o ombro na porta, em vez de bater com a mão. De novo, e de novo, e de novo mais forte.

Deixou o bule de leite e atravessou a cozinha. Abriu a porta e o vácuo do espaço tomou conta da cozinha. Do outro lado da soleira as estrelas e o vazio infinito, deste lado a labareda no fogão se mexia com um vento sobrenatural. De relance ele ainda segurou a maçaneta do lado oposto pensando em novamente fechar a porta. Sua mão congelou na maçaneta e apesar da dor, não sentia mais seus dedos. Com seu último esforço, revirando os olhos de terror, gritou a plenos pulmões, o que ele ouviu apenas na sua mente:

— R’lyeh!

Em uma explosão de movimento do outro lado da porta saltam tentáculos que prendem-se fortemente ao seu corpo. Segurou-se à passagem com o desespero dos condenados enquanto os tentáculos esmagavam seu peito e apertavam cada uma das pernas. Um último tentáculo enroscou-se no seu rosto. Sua última resistência, os ossos dos braços partiram-se como varas e sumiu no vácuo.

A porta se fecha. A investida termina, quase tão súbita como começou. De novo a chuva tranquila bate no basculante da cozinha de algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo. Silêncio completo novamente.

Ela abre a porta, enrolada na toalha e arrepiada de frio.

— Mas que droga! Putaquiopariu! O chuveiro queimou, quase entrei em choque com a água gelada! Isso sempre acontece na minha vez, já não aguento mais! Onde você está? Esqueceu o leite no fogo?

Demorou alguns minutos e então, sentiu algo estranho no ar. Olhou em volta da silenciosa cozinha. Arrepiou-se de novo quando uma rajada de vento bateu a porta atrás dela, e sem mover um músculo assistiu o leite ferver e inundar o fogão com uma espuma branca e com cheiro enjoado.

 

 

 

 

***

 

 

 

IDEA FIXA

Entra o fetichista:

– Mãos ao salto!

***

 

 

 

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha:       – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

Roberto Dutra Jr é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Cultiva um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente. Tem um livro de poemas publicado e mergulhado no esquecimento, assim como seus artigos críticos. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro, entre eles o Panorama da palavra.  Atualmente divide-se entre sua coluna semanal no blog zonadapalavra, eventualmente resenhando para a revista Mallarmargens, e integra o quadro funcional da Editora Ibis Libris.

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A mitologia do homem comum

Por Sérgio Tavares

 

Capa

“O dia em que comemos Maria Dulce” é, em grande parte, a saga de um herói inacabado. Jailson, um Ulisses nordestino, subalimentado, rústico, cuja viagem à procura da Ítaca de si deslinda as feridas sociais, o mapa da fome, as paragens castigadas daqueles desenganados de nascença. Na coletânea de contos do paraibano Antônio Mariano, pululam “Jailsons”, personagens que carregam o mesmo nome e singularidades, levando o leitor a crer numa ação romanesca. Ou seria apenas uma série de aparições aleatórias? Não fica claro. A narrativa decorre desse jogo movediço.

Sobre os motores temáticos, no entanto, não recaem dúvidas. Ora com uma crueza vibrante, ora com uma melancolia judiada, Mariano problematiza conceitos arcaicos, mas ainda latentes nos desvãos do Brasil, a exemplo do patriarcalismo, da submissão feminina, da impossibilidade de fuga, do asselvajamento das relações familiares e os conflitos gerados por essa colmeia de sentimentos peçonhentos.

Logo no conto de abertura, “A construção do silêncio”, pai e filho convivem separados por uma barreira de afonia, que os impedem de compartilhar suas angústias, de solucionar erros pretéritos, de, diante de uma terceira geração, rejeitar essa herança de estranhamento.

A figura paterna, na configuração de uma entidade implacável e intransitiva, é reprisada em outras narrativas, até ser exorcizada em “Chocolate quente”, quando o esboroamento físico do genitor possibilita o roubo da autoridade pelo filho. “Amo papai, imensamente. Principalmente quando é fraco, depende de mim e posso desprezá-lo”, regozija-se o protagonista.

É recorrente a incidência de uma maldade natural, intratável, sem explicação. “Papai, você matou mãinha, matou mãinha, matou mãinha!”, desespera-se o menino diante de um homem brutalizado que recorre à morte para a resolução de seus problemas. A condição humana não é apenas pobre, pois traz entranhada na alma a miséria, mas retroalimenta esse legado de parcos valores morais, ou de valor algum.

Nascendo e morrendo nesse cenário árido, rachado sob os pés descalços dos que não alcançam o que está à altura das mãos, reinam os “Jailsons”, um “sertanejo de uma cidadezinha pacata”, um demitido que não se condói à dor de parto da esposa, um “servidor público municipal”, um sujeito marcado para morrer. Múltiplos atores de um mesmo fado: ser coadjuvante da própria existência, apagar-se, nunca triunfar. Como sumarizado no conto “Estas imagens”: Teu nome é Jailson, deve ter sido a única frase que pronunciaram para me prender de vez a esse destino”.

As desventuras do personagem são também diesel para funcionar a máquina de vocábulos regionais, envernizados por um lirismo abrasador. Mariano, poeta de mão-cheia, faz de sua tessitura um fluxo sinuoso que vai atritando as palavras e obtendo desse movimento uma espécie de cadência própria da língua falada de um povo que tem de lidar com as agruras da vida e consegue extrair, da resistência, música.

“Mais longe, um galo sola o seu canto simples, zurra um jumento, escarra um ancião. A fruta de fogo despertando a cidade com seu grito de luz e calor. Surpresa alguma. A aurora cai, de vez e já apodrecida, no colo magro da manhã que nasce”. Com um canto bem afinado, “O dia em que comemos Maria Dulce” retrata a mitologia do homem comum.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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103ª Leva - 06/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Confabulário canino

Por Sérgio Tavares

 

 

 

Há uma corrente que defende que uma antologia de contos, mesmo de maneira involuntária, persegue uma unidade temática. Se isso for verdade, “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile, deixa rastros bem delineados na sua forma de investigação.

Seccionado em três departamentos: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”, a obra é composta por narrativas mobilizadas pela literatura, pelo sexo e pela violência, respectivamente. Dentro dessas divisões, no entanto, os formatos são os mais variados. Fazendo uma alusão ao título, há animais de diferentes portes e aspectos. Contos maiores, contos menores, minicontos, frases.

Amabile também condiciona a estrutura a um exercício multifário. Alguns textos se resumem a um recorte de diálogos, do mesmo modo que, outros, a fluxos interruptos. Uma história se apresenta em modelo clássico para, em seguida, fracionar-se em duas colunas com mais de um relato. Há digressões, elipses. Vozes em primeira pessoa que passam para a terceira, depois voltam para a primeira. Um tipo de confabulário dissonante que encontra, justamente na irregularidade, a força sobre os assuntos a que se propõe literaturar.

Em “Sobre o não-dito”, que abre o livro, uma discussão a respeito do fazer ficcional vai se infiltrando paulatinamente no plano entendido como realidade, até arrevesar a história na própria história. A origem da autoficção é o que motiva “O frio”, texto seguinte, ao passo que “Espelho” é um jogo caricatural, uma ideia de paródia para um conto célebre do célebre escritor K., acerca de um homem e um inseto, ou uma amálgama disso.

Amabile joga a todo instante com a literatura e, automaticamente, joga com o leitor, que se vê numa zona de estranheza, levado a achar cômico algo que não deveria ser, mas sem entender o porquê da autocensura. “O herói peludinho” ilustra bem esse sentimento. Um adolescente feioso, gamado pela atriz Kim Basinger, começa a direcionar seus suores púberes a uma menina de sete anos. Não há gratuidade, mas a intenção já carrega o choque possível.

A narrativa também deixa mais latente a obsessão do autor: a cultura dos anos 80. Embora os eixos temáticos sejam bem definidos, paira sobre esses uma atmosfera oitentista, substanciada por referências a filmes, músicas e programas de tevê. Em alguns casos, estas ocorrem de maneira bem sutil (Piuí Abacaxi…), mas estão lá, para os olhos treinados, pulverizadas por todo o livro.

O excelente “Buraco”, no qual dois relatos vão se confrontando até um final surpreendente, inaugura a busca por inspirações mais umbrosas, da seara da perda, da detenção da infância, do desejo e da repulsa pelo outro. Um cenário mais nitidamente urbano também se mostra; um tipo de selva de pedra onde personagens animalizados perseguem outros a fim de saciar vontades e apagar solidões.

“Umidade”, um encontro entre balzaquianas à procura de sexo casual e um vendedor de guarda-chuvas, dá partida a um elenco de taras, compulsões e fetiches, cujo senso de utilidade é melhor descrito nas últimas linhas do conto “Fumaça”: “E gozavam. Depois fumavam (…) E conversavam. Quando a fumaça se dissipava, voltavam para seus lares e por algum tempo a vida parecia mais suportável”.

O vazio anímico também dá o tom da parte final, imantada por cenas de violência. “O que acontece no tempo de um tiro?”, reverbera a voz do conto “Gatilho”. Uma combinação de mínimos mecanismos para gerar uma tragédia, mas um intervalo. Todos os personagens estão ali, esperando para matar ou para serem mortos. Uma multiplicidade de mortes, como as descritas no conto “Como estou dirigindo?”, em que um taxista vai narrando causos de crimes durante uma corrida em que leva dois namorados, até mesmo aquela que pode servir para a literatura.

Com uma linguagem ágil, coloquial e bem polida, Amabile trafega por vários estilos, apostando na inventividade em detrimento da forma. “O livro dos cachorros” pode não ter raça específica, mas não deixa dúvida sobre o pedigree de contista do autor.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Geraldo Lima

 

Ilustração: Caroline Pires

 

MULHER NA CADEIRA DE VIME

 

O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.

Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.  Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.

Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.  Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.

Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.  Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.

 

 

 

***

 

 

 

DOIS

 

Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.

 

 

 

 ***

 

 

ELA

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).

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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Priscila Lira

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

O barulho do mormaço

Tu não sabe o que é conviver com o Diabo a vida inteira, conviver com o Diabo a vida inteira é duvidar de Deus a cada segundo.  O Diabo, quando te odeia, te prende e algema tudo ao teu redor: tua mãe, que ama o Diabo, e teus irmãos. É assim que ele consegue te fazer ficar. Lama, lama e lama tinha gosto a minha vida. Nasci na lama, feito um porco. Burra que era a minha mãe (de ter uma ninhada, de ter olhos de bicho que não enxerga xyz, que não sabe o que é o Diabo, que não sabe nem o que é a loucura de viver na lama com uma ninhada e o Diabo), burra que era eu, menos que a minha mãe, burros e esfomeados que eram meus irmãos, burro que era o Diabo, burro e cruel, burro e tarado, burro e nojento. Porca que eu sou, porque convivi na lama com o Diabo a vida inteira.

Quando era criança e, na catequese, me ensinaram o que era o Diabo, logo vi que ele estava na minha casa, escondendo comida, me comendo, quebrando garrafa, quebrando a burra da minha mãe, esbugalhando de medo os olhos esfomeados dos meus irmãos. Quando o Diabo vive contigo, ele nunca mais sai de ti.

Eu corria para a esquina e tentava fugir do Diabo. Subia na mangueira e gritava o nome do meu pai, mas só ouvia o barulho do sol quebrando as folhas. Porque meu pai morava com Deus, ele nunca me responderia, a gente trocou ele pelo Diabo. Eu gritava o nome do meu pai, gritava que ele tinha me abandonado e me deixado na lama, no inferno, ele não respondia, estava feliz, no céu, com Deus, sem fome, dormindo nas nuvens e decepcionado com a gente, que dormia com o Diabo.

Meu pai não respondia, mas meu estômago Gritava, meus irmãos choravam na minha lembrança e eu, pequena e burra, presa na lama, lesma inútil, voltava para o inferno. Se tu pensa que o Diabo sempre maltrata, tu é mais burro que eu. O Diabo engana, te abraça, te dá pão e café com leite, corre contigo no quintal, depois te come, te bate, te joga no chão e quebra garrafa. O Diabo toma banho, passa perfume, vai na igreja, reza o pai nosso, aperta a mão dos irmãos, conta histórias inventadas da vida, diz que ama, diz que cuida, depois te fode, te todos os lados, de todos os jeitos, de todas as formas. Fode, fode, fode. É nojento o Diabo, feito de barro por dentro e por fora, com cheiro de fossa e pele de pedra. Eu via o desgraçado passar perfume, mas aquilo, no meu nariz, era essência de esgoto, cheiro de raiva guardada, que rasgava meu olfato feito gilete, chegava na goela e dava ânsia. Barro e enxofre formavam aquele monstro com a Bíblia debaixo do braço apertando a mão da vizinha burra, que me olhava de cara feia e dizia pros filhos não andarem comigo, que eu era indecente.

Indecente eu era na minha rua, na minha escola, a indecente, burra, estranha, muda, feia, suja preta fedida, mas não era surda. O Diabo me chafurdou na lama, eu era toda lama, assim ele fez da minha vida um inferno, até longe do inferno, porque suja de lama que não tinha água que limpasse, o Diabo fez de mim o Diabo.  Ninguém tinha medo de mim Diabo, tinha ódio, nojo, eu não era bem-vinda no céu da vida dos outros, nem por meu pai, Deus o tenha.

Por isso fugia e me escondia, até a fome bater, no escuro empoeirado da sala de livros da escola, porque lá ninguém sentia meu cheiro, nem via minha cara diaba, lá eu não ouvia me gritarem de muda. Foi lá que tive a ideia de matar o Diabo. Mal eu sabia que uma vez na tua vida, nunca mais ele sai.

Mas o Diabo tinha a herança do céu, do tempo que Deus o criou do barro. O Diabo gostava de doce, de suspiro. Todo dia comprava suspiro na padaria. E ficava feliz, sorridente, comendo suspiro. Dava café com leite e pão pra mim e meus irmãos, corria com a gente no quintal, mas aquilo era a porta do inferno, a gente sabia e aproveitava, não havia como correr da porta do inferno, só nos restava aproveitar o prelúdio da desgraça. A gente não tinha raiva do anúncio que o suspiro trazia da padaria nas mãos do Diabo, porque sabíamos que o suspiro era o que restava do paraíso naquele enxofre de homem.

Uma vez o Diabo me obrigou a fazer uma receita de suspiros, porque a padaria não abriu. Eu coloquei purgante no suspiro para me vingar, e depois o Diabo se vingou de mim, em mim, na minha mãe e nos meus irmãos. Nesse dia eu corri do inferno e no dia seguinte, na sala de livros, decidi matar o Diabo. Não seria uma morte cruel, como as que eu fantasiava para ele todos os dias, porque eu não queria ver ele morrer, eu queria o Diabo morto!

Eu, a indecente, suja, nojenta, rasgada, roxa, muda, lesma inútil, não queria voltar para casa depois do terror da noite inferno passada. Não queria ver a cara de paraíso dos outros. Queria morrer, mas se morresse, iria para o inferno eterno e nunca mais veria meu pai. Por isso resolvi matar o Diabo, assim teria tempo de pagar meus pecados e finalmente dormir nas nuvens.

Escureceu, ninguém deu por minha falta, voltei para casa e o Diabo dormia virado de costas para a burra da minha mãe. Matando o Diabo, eu fugia, e ela podia ser burra e feliz com a ninhada de infelizes longe daquele inferno, enquanto eu pagaria os pecados e depois encontraria meu pai. Uma faca de cozinha no peito, ele arregalou os olhos e me agarrou o braço. Foi virando água e me largando len… ta… men …t… … … e. Roubei o saco de pão na cozinha (mais um pecado para pagar nessa vida desgraçada), corri e subi na mangueira da esquina, a esperar que o inferno final se armasse lá em casa com gritos e polícia. Silêncio.

O que eu não sabia é que a vida é um formigueiro de infernos e que o Diabo me perseguiria, agarrado no meu braço com os olhos assustados, para sempre. Fugi, mas a fome, a rua, a chuva, o sol, o frio, me transformaram no Diabo e eu não conseguia terminar de pagar meus pecados. Jamais chegaria no céu, meu pai se esqueceria de mim ou rezaria para que a Diaba que ele um dia chamou de filha, nunca mais aparecesse na sua frente. O mundo me fodia, fodia, fodia, de todos os jeitos, todos os lados, todas as formas, cuspia em mim, na porca, nojenta, fedida, burra, Diaba. Numa noite, sem dormir, com medo do Monstro que matei, percebi que inferno maior que esse não havia, que o inferno estava na minha cabeça e de lá não sairia sozinho.

Por isso deixei que um homem sorridente me fodesse pela última vez, por um saco de suspiros. O que eu farei depois? O que devia ter feito desde o ínicio, mas burra que sou, não percebia: Abrir a minha cabeça com a faca ainda suja de sangue do Diabo, tirar aquele ninho de enxofre lá de dentro e encher o vazio com suspiros. Os suspiros, resto de céu que sempre esteve na minha vida, me levarão até meu pai, com quem dormirei nas nuvens, a esperar o dia em que minha burra mãe e a ninhada façam o mesmo.

O formigueiro continuará aqui embaixo, misturado aos sangues da faca.

***

 

Petit Mort

As flores amarelas de medo daquele velhinho pornográfico estão por toda parte. Hoje, domingo ensolarado, uma delas acordou tremelicando sobre o meu peito. Desonrarei os compromissos, quebrarei amizades novas, pouparei o exercício de simpatia alheio, não sairei de casa. Além do mais, posso aproveitar o calor e lavar minhas calcinhas.

É crua a vida. Alça de tripa e metal. / Nela despenco: pedra mórula ferida. / É crua e dura a vida. Como um naco de víbora“. Será que a Hilda lavava suas calcinhas? Será que as estendia no varal da Casa do Sol? Ou, como eu, não gostava de expor assim o seu sexo e as secava atrás da geladeira?

Por todo lugar brotam as flores amarelas, hoje o mundo tremelica de medo, os ditadores, o povo, os democráticos, os ex-militantes, as mães de estudantes, o moço revistado com maconha no bolso, as mulheres com o rosto escaldado condenadas à feiura eterna, eu. Morreremos todos, medrosos. Mas preciso lavar as calcinhas.

Sonhei que havia um espelho na cozinha, eu parava em frente a ele e me observava, tirava a camisa e o reflexo me dava um tesão imenso. Deslizava a mão sobre os seios e descia até a barriga, os olhos fixos no meu outro. Acordei. Uma pena, a excitação do sonho perdeu-se junto com ele.

Fumarei um cigarro, colocarei uma música e vamos às calcinhas. Também não gosto de lavá-las na área de serviço do prédio, uso a pia da cozinha mesmo, podia ser a do banheiro, mas a janela que fica contra a torneira é muito agradável. Gosto de pensar que as tantas janelas vizinhas estão logo ali, de frente para esse quadrado, a me olhar, de costas, esfregando minhas calcinhas. E saber que, apesar disso, ninguém está vendo.

Eu cheiro cada fundo antes de lavar, para ter certeza que meus fluidos continuam transparentes e inodoros, ou com o odor de sempre. Imagine um voyeur assistindo isso tudo e ficando louco. Essa branca de bolinhas pretas eu usei no dia em que esqueci de descer no ponto de ônibus do trabalho, a rosa, não lembro, a cuequinha preta foi naquele dia que encontrei o pessoal, ela fica bem com a minha saia longa, aperta a barriga e meu corpo parece mais bonito.

“Tinta, lavo-te os antebraços. Vida. Lavo-me”

Essa é a melhor parte, o momento em que eu coloco as mãos dentro do vestido, seguro em cada ponta do meu quadril e deslizo a calcinha que uso. Sinto-a passando pelas coxas, até ficar cambaleante e eu apará-la no pé. Ah, um voyeur assistindo isso tudo. Assistem, todas essas janelas me veem tirando a calcinha e ficam boquiabertas, fazendo promessas para que eu também lave o vestido.

“No estreito-pouco / Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida”  

Calcinhas escondidas, uma por uma, no varal elétrico. Meio domingo para ainda existir. Podia continuar a brincadeira do sonho, não mais com o espelho, com a janela do quarto. Todos esses quadrados, preparem-se, o vestido cairá! A cama de frente para o sol, as pernas abertas para todas essas pessoas, o meu corpo despido para mim. Todos esses sinais, esse par de seios que contrasta tanto com os meus braços bronzeados, o pequeno relevo que se forma nas costelas, o umbigo, o quadril estreito, as coxas com uma leve penugem que reflete a luz, as canelas ásperas, quando tomar banho vou depilar, tudo isso é meu. No sonho, eu tinha razão. Vocês, medrosos, olhem para mim, esqueçam o câncer de próstata e as doenças venéreas, esqueçam as crianças mortas da Síria, esqueçam Fukushima, eu estou aqui, de pernas abertas, o vestido caiu, paguem suas promessas.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos”. A Hilda ia gostar de me assistir.

Meu dedo andando em círculos percorrendo os pelos, desce, desce, molha-se. Desculpem-me, não há narrativa aqui, apenas hidromúrias rebeldes, solitárias, quebrando o protocolo. O meu corpo convulsiona na cama, os dedos encharcam, “a vida é líquida“. Fecharei as cortinas, uma salva de palmas antes e voltem aos seus afazeres dominicais ensolarados. Preciso chorar o medo do mundo.

Priscila Lira (Pitinga/AM, 1991) é uma poeta e contista amazonense radicada em Curitiba, onde faz mestrado em literatura (UFPR). Tem um e-book publicado, Manual de Feitiçaria, disponível no Scrib e no Camaleo, e um livro de contos no prelo: O Barulho do Mormaço.

 

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Tadeu Sarmento

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Flores no microondas       

 

O que mais gosto é que você parece ter guardado um segredo durante todo o dia só para me contar. No fundo sei não ser verdade. O fato é que abro tuas pernas como facas uma ostra. Isso é real. Mas o real nem sempre é melhor. São os mal-entendidos que colorem o mundo. O melhor é depois conversarmos na janela do nono andar, fumando, olhando os (daqui) pequenos carros na rua. Da janela sinto o mundo recolhendo acontecimentos que nos atingiriam em eco caso estivéssemos lá embaixo. Mas, não estamos. Saio do teu corpo como um prazer satisfeito ou uma doença. Dentro você é macia pista de gelo quente. Fora, todo este teatro à disposição. A luz é a continuação de outro mundo, refletido em teus cabelos. O segredo que você tanto guardou durante o dia é sempre a mesma história, com pequenas alterações. Surpreendo teus lapsos como às vezes a vista surpreende a mão em gesto automático. Mas, sempre finjo não notar. Gosto de ouvi-la, desse hálito golpeado pela hortelã do teu cigarro mentolado. Por exemplo: a cada vez você troca o nome dos mortos que inventa. Por mim tudo bem. Nomes de mortos não são mais úteis. Só acho engraçado esse esforço de encenação. É como se eu me importasse. Finjo me importar. Bato à tua porta porque estou cansado. Entro carregando nas costas meu próprio corpo. A mim bastaria que você apagasse os incensos da sala. Eles fedem a pétalas de plástico queimado. Você se deixa entender; eu me deixo escutar. Com você o sexo sempre vem acompanhado pela máscara da compaixão. Teus pais são indianos e te prometeram em casamento a um velho de setenta anos. Por isso você fugiu de casa e está aqui, vivendo essa vida. Mas, quantos nomes diferentes teus pais têm? Eles já morreram mesmo, e de tantas formas assim? Teus lábios são lâminas líquidas mordendo pequenas peras de luz. Percebi que quando você mente esfrega o pulso com o nó dos dedos. Mas, quem não mente? A mentira é a principal função da linguagem. Só que poucos esfregam o pulso como você. Quando você se espreguiça lembra um anjo abrindo as asas. Outro dia você disse que eu era apático. É que gosto de ficar quieto, silencioso, observando você. Tenho quatrocentos adjetivos diferentes para falar das tuas costas. De qualquer modo, tomei como um elogio. Nossas vidas são tão minúsculas. Somos tão indefesos, tão pequenos, que tenho vontade de rir. Gosto das suas estórias. São segredos escritos a lápis. Por isso você os apaga e os reescreve toda vez que eu chego. E eu sempre chego, carregando meu cadáver nas costas. Retirando o peso da verdade, os corpos ficam mais gratificados, menos constrangidos. Ficam menores, mais do que já são. Vivemos a vida dentro de um sonho. Às vezes, quando estamos na janela, sinto um insuportável desejo de saltar.

***

Aeroportos de papel de carta

Conheço cidades distantes através das malas esquecidas no aeroporto. Não são muitas, nem é todo dia que as encontro. O ritual é tão estranho quanto gratuito. Geralmente sento em um dos bares próximos à pista de decolagem, para beber embalado pela tristeza do som das turbinas, admirando, sem entusiasmo, a indiscreta velocidade dos pássaros pesados, as asas de cor cinza, metálicas. Depois, atravesso a rua como se fosse viajar. Outra tarde, dividi a mesa de um desses bares com Diego M., ator, escritor brilhante, biógrafo de índios assassinos, decidido a embarcar atrás de uma harpista francesa que, segundo ele, cheirava bem na pele de madrepérola, encimada por olhos mansos (cor de rins). Fique longe do amor e dos aeroportos, aconselhei, dessa combinação explosiva que seduz a alma dos ladrões, pintores, imbecis, palhaços descalços. O amor não deve nunca embarcar. Nunca. A curva do sol refletia nos copos um sorriso de luz quando eu disse: no dia em que os turcos tomaram Constantinopla derreteram os sinos da cidade para fabricar munição. De modo que o melhor é esperar em casa, sentado, a bala turca vir ferir de vez seu coração de puta, que decidir ouvir de perto a sacra música das catedrais. As malas, Diego, procure as malas com rodinhas nos saguões. Seus donos são descuidados. Abra-as, sinta o cheiro de vitrine das roupas amassadas, o odor gordo da fumaça dos carros impregnando as gravatas, leia os tíquetes de estacionamento que falam sobre esquinas desconhecidas, descubra assim as ruas dessa cidade de origem, proteja-se. Um erro convertido em amor. Não negocie sua alma por isso. Aprecie os aeroportos de longe, as delgadas aeromoças em uniformes azuis, esses patins rosa que giram sozinhos na esteira rolante, ou o denso cheiro desse plástico que brilha como ouro falso. Da espessa vegetação dos números coloridos calculando fusos horários aprenda a gostar desse sentimento de que nada dura até o fim da curvatura dos gráficos. Pois o amor acaba porque tudo acaba um dia. O amor sai na urina, entre os cristais da cerveja que tomamos agora, um brinde. De resto, mulheres são cruéis quando é você o estrangeiro. São muros cercando o incêndio brilhante. Se Henry Miller tivesse vivido na era dos aviões não teria ido a Paris atrás de suas bonecas vazias. De navio, teve tempo suficiente para se entusiasmar e arrepender-se, longe da enjoada sensação de primavera de tudo o que se movimenta rápido. Anaïs Nin, afinal, era só uma ninfomaníaca com curso de datilografia e, segundo Artaud, tinha um péssimo gosto para calcinhas. O amor não servirá de abrigo antiaéreo caso a bomba imploda da caserna. Ele acabará um dia, na sala de embarque ou desembarque, pois esse tipo de amor se apaixona por si mesmo, bebe de suas unhas o próprio futuro que não terá. É a estrela dos cansados, farol dos cegos, cartaz de filmes castigado pela chuva. Fique longe desse tipo de amor. Se possível, de qualquer tipo de amor. Fique longe de mulheres brancas, francesas, com sotaques estranhos, traços orientais de estátua. São anjos, mas usam coturno. E usarão os coturnos, quando você menos esperar. De modo que não é possível amar uma mulher para depois amar a cidade em que ela vive. Cidades distantes costumam enforcar os invasores. Melhor manter-se em pé, atrás das janelas. Sobretudo manter distância dos lugares onde poderia ter sido feliz. Não seja feliz. Não fará diferença alguma. Em breve estaremos todos mortos.

***

Subtração

Eu sempre vou te querer. Sempre. Quando ninguém mais te quiser, eu vou. Mesmo depois de você ficar velha, curvada, lenta, bem gasta. Quando ninguém mais te desejar, eu irei: desejá-la, querê-la tanto. Mesmo se você engordar, ou emagrecer demais, ou cortar as unhas até a pele sangrar. E quando a ninguém mais for suportável tua tristeza, teu humor negro, teu pessimismo, a mim será, pois, quando ninguém mais suportar ouvi-la falar de Thomas Bernhard, eu vou querer te ouvir falar de Thomas Bernhard. E mesmo se todos se cansarem dos teus longos silêncios eu não me cansarei, até por ser durante teus longos silêncios que eu escrevo. Porque quando você fala eu prefiro o som da tua voz ao dos meus dedos no teclado. Porque escrever é sempre dizer que você não está, ou está, mas calada. Que o teu silêncio é a minha imaginação. Então quando todos cansarem de ti, dos teus dentes manchados, tortos, afiados, do teu hálito de nicotina, das tuas mãos gesticulando nervosas, eu não me cansarei nunca. Mesmo quando teus seios caírem, teu rosto enrugar, tua memória falhar, teus pulmões virarem esponja. Quando você for traída, esquecida, humilhada, trocada por uma mulher mais jovem ou mais fútil, eu vou te querer ainda mais, e para nunca te trair, te esquecer, te humilhar, te trocar. Quando você estiver sem dinheiro, sem emprego, sem cigarros, esperança. Quando pouco ou nada sobrar de você, eu ainda vou querer esse pouco, esse nada, esse tudo que se puder raspar do prato raso dos teus sonhos. Sim, mesmo quando teu gato envelhecer, e passar a dormir dezoito horas por dia, e você se sentir sozinha sem ele, eu vou estar sempre acordado para você. Até mesmo se você tiver adquirido manias, tiques, doenças, dívidas, varizes, joanetes, verrugas, manchas na coxa. Pois, quando tuas tatuagens forem se apagando aos poucos e deformando-se conforme tua pele for enrugando, ainda assim gostarei delas, quererei vê-las. Digo: depois que o sexo (gás do pânico) já não for mais tão importante, e tudo for esse imenso vazio negro do desejo saciado. Sim. E depois de ninguém mais suportar teu bruxismo, tuas bebedeiras, teu choro, tuas olheiras, tuas cólicas, eu te pegarei pelos braços e te darei banho, e limparei teu vômito, e te deitarei na cama, e velarei teu sono por toda a noite. Enquanto eu estiver aqui eu estarei sempre aqui. Porque aprendi coisas novas para te contar. Que agora sei onde as modelos de Klimt enfiavam os dedos enquanto ele as pintava. Descobri hoje. Mas isso eu não vou te contar agora. Eu sempre vou te querer. Sempre. Mesmo que o amor não signifique mais nada para mim. Eu sempre vou te querer pelo simples fato de ser impossível para mim que eu não te queira. É impossível. Pois quando estou na rua e alguém me pergunta que horas são eu sempre respondo que é a hora certa. E sempre é a hora certa. Sempre será a hora certa. Sempre. Sempre. Sempre.

 

Tadeu Sarmento nasceu no Recife, safra de 1977. É autor dos livros “Breves Fraturas Portáteis” (Fina-Flor Editora, 2005) e “Paisagens com Ideias Fixas” (Bartlebee, 2012). Em 2014 foi um dos vencedores do II Prêmio Pernambuco de Literatura, com o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos” (Cepe Editora, 2015). Defende trincheiras indefensáveis no Visões de Ezequiel e despejou entulhos literários no Lontra Hiperbórea. As três narrativas acima integram o inédito “Sete Palmos Debaixo do Céu”.

 

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101ª Leva - 04/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Jamais sorveremos o ar da perfeição. Quiçá consigamos algo que nos aproxime de um ponto de equilíbrio, alguma ínfima fração de ponderação entre acertos e desvãos. Vez por outra, alguém relembra-nos o quão imprecisos somos no quesito das certezas. Seria presunção demais apostar em cenários bem definidos quando o alvo é compreender a natureza humana?

Eis uma instigante questão. Por enquanto, ainda está longe ser possível estimarmos a dimensão das virtudes ou das quedas. Ousemos apenas respirar e seguir adiante construindo moradas na superfície das horas. Nesse ínterim, a nossa capacidade de abstração e mergulho pode, sobremaneira, fornecer-nos pistas valiosas sobre o que de fato nos tornamos. No diapasão que contém passado, presente e futuro, há algo além da materialização do pensamento em ações. Resiste a memória como peça fundamental da existência.

Nada melhor do que percebermos a visão que um determinado criador tem sobre o universo através do qual orbitam suas expressões, principalmente quando esse mesmo agente credita à memória um status de significativa importância. Assim o faz o escritor baiano Dênisson Padilha Filho quando lhe cedemos escutas. Mas ouvi-lo não é o bastante. Ler seus escritos revela-se um componente essencial para apreendermos um mundo no qual as perspectivas são múltiplas no quesito inquietude. Sentir-se incomodado parece ser um ingrediente especial na concepção criativa desse autor que, além de dedicar-se à literatura, é também roteirista de audiovisual.

A trajetória de Dênisson com as palavras está materializada em livros como “Aboios celestes” (contos – 1999), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (romance – 2003), “Menelau e os homens” (contos e novelas – 2012) e, mais recentemente, “O Herói está de folga” (contos – 2014). A consistência presente ao longo de sua obra é o grande motor que move a entrevista que realizamos com o autor. Seja na capacidade de construir imagens ou na dimensão que edifica o texto, Dênisson demonstra sua propriedade narrativa porque fez da leitura a gênese de seu ofício. Entrevistá-lo é desconfiar que, por trás das letras, habita um território de coisas insondáveis.

 

Foto: Renata Rocha
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha

 

DA – “O Herói está de folga” é título emblemático, que nos sugere percursos já em sua aparência nominal. As histórias nele contidas desnudam certa condição humana. Vivemos num tempo de desesperança?

DÊNISSON PADILHA FILHO – São nove contos que sugerem que os homens são virtude e vício. Naturalmente, são representações, alegorias, fantasias criadas sobre o arcabouço de desvio e de retidão que nos estrutura. Ter esperança não muda as coisas, a não ser pra quem a sente.

 

DA – Nesse caminho que perpassa altos e baixos da natureza humana, seu sentimento de autor prefere o estranhamento ou o espanto?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Estranhamento é condição fundamental para nascer a arte, não é? E causar estranhamento também. A literatura convoca o leitor não quando traz respostas, mas quando o inquieta com aquelas perguntas adormecidas que nos estruturam e desafiam nosso dia a dia. A literatura é vingativa na medida em que mostra que nós não temos respostas nem saída, mas por ela dizemos, “aqui estamos, Papai do Céu, estamos no mato sem cachorro, mas não pense que não sabemos”. Já espantar-se com as oscilações da natureza humana beiraria o patético. Essa perplexidade soa meio fresquinha; não combina com a literatura.

 

DA – Diria que a lucidez foi uma companheira inseparável na concepção do seu mais novo livro?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Acho que a idade trouxe um pouco mais de tentativa de lucidez e amadurecimento, ainda bem. É como se a pulsão que nos move a escrever ganhasse algo mais de serenidade e consciência de que o texto custa a estar pronto. Considero que meu caminho literário deu uma guinada a partir dos 37 anos (estou com 44). Foram novos conceitos, menos preconceitos estéticos. A visão de mundo e a lucidez se refletem, naturalmente, mas o que vou procurar fazer é sua recriação. A matéria prima é a verdade, a concretude, sem dúvida; mas a literatura se ocupa de alegorizar a vida e seus achaques.

 

DA – O ato de escrever encerra alguma espécie de libertação?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Libertação nenhuma. Muito pelo contrário. Embora a literatura seja a arte de fantasiar e reinventar – não só a língua, mas o mundo –, recorremos sempre à memória, porque, para nosso desconforto, é só o que temos. Da memória, derivam a dor, a culpa e a saudade. Há um mito muito citado que diz que quando realizamos uma história, processamos as coisas e nos livramos delas. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a meu ver. O escritor se distancia um pouco do mundo para criar, é verdade; isso traz uma analgesia, claro, mas nada de libertação. Se liberta, não é literatura.

 

DA – A pungência de uma cronologia interna toma conta de seres e lugares em “O Herói está de folga”. Assim, a sucessão dos instantes não é materialmente mensurável. Quem é este ser a quem chamamos tempo?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Eu não tenho certeza, mas desconfio que dentro de uma lógica divina, passado, presente e futuro são a mesma coisa. Nada vem, nada vai, nada existe, tudo é. Essa minha perspectiva naturalmente vai se refletir aqui e ali na minha criação; foi assim nos contos de “O herói está de folga”. Tudo está ali, os contos são quadros, e como toda alegoria da vida, os quadros não passam; a gente passa por eles. Isso confirma minha impressão de que as coisas não vêm, nem vão, simplesmente são; a gente é que passa por elas.

 

DA – “Menelau e os homens” é um livro especial pelo modo como os trajetos narrativos ali se constroem, sobretudo pela disposição das imagens, o que acaba por envolver o leitor. Qual o sentido maior dessa obra para você?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Concordo com você, “Menelau e os Homens” é um livro especial. Traz duas histórias marcadas pelo signo da memória. Em consequência disso, seus personagens são homens fugindo de homens e fugindo de si.  A primeira fase da obra do escritor estadunidense Elmore Leonard teve muita influência sobre a concepção das histórias. A segunda história que integra o livro – a novela Calumbi – está marcada também por um signo de opressão e terror psicológico, um pouco de Edgar Allan Poe; mas em todo o livro há situações de perseguição e suspense entre caçador e caçado; são tributos meus ao autor de Hombre e O último posto do Rio Sabre e de tantos outros. Creio que tenham sido de fundamental importância as sugestões de imagens e paisagens no livro para que o leitor sentisse todos os momentos de impotência, opressão, perseguição que as histórias propõem. Bem, sobre qual sentido maior dessa obra, devo dizer que não há o grande sentido. Eu costumo dizer que a literatura em prosa não deve ser regida apenas pelo plano do conteúdo, ou melhor, pela dimensão narrativa; mas também pela dimensão estética. Acho que o sentido, desse e dos meus outros livros é tentar alcançar esse equilíbrio. Em outras palavras, inquietar pela narrativa e reinventar a palavra. Não é fácil, mas é um desafio que resolvi encarar.

 

Foto: Renata Rocha
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha

 

DA – É razoável pensar que, por mais que tente, um autor não pode fugir de si mesmo?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Se pensarmos do ponto de vista da existência, teremos que parafrasear Antônio Cândido e dizer que a matéria prima do escritor é a memória. Por outro lado, se pensarmos na arte literária e em procedimentos estéticos, devemos pensar que o escritor dotado de um mínimo de consciência do seu fazer só se satisfaz quando viola seu modelo anterior. Porque arte é ruptura e, embora faça parte do grande campo da cultura, especificamente, ela, quando repetida, contraria suas próprias motivações. Nesse sentido, não conseguir fugir da memória, fugir de si, e encontrar saídas estéticas é um paradoxo que alimenta esse fazer artístico.

 

DA – Sob o ponto de vista autoral, há quem considere o conto uma espécie de escalada para o romance. O que pensa a respeito?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Vou confessar minha preguiça para responder essa (risos). Sinceramente, não há consideração mais sem sentido do que essa que dizem por aí. Posso ficar aqui citando à exaustão nomes de escritores, grandes mestres, que se eternizaram como contistas.  E por que será que ficaram nessa tal “escalada” por toda a vida? Não!  É um erro crasso, uma ingenuidade, até bonitinha, achar que o conto é rito de passagem para um romance. São pretensões diferentes; no romance há lugar para digressões que não vão caber no conto. Enquanto que, grosso modo, no conto, a concisão vai fazer pulsar a dimensão estética do texto muito mais do que num texto longo. Além de outros aspectos que não caberiam aqui. Apesar de discordar radicalmente e achar isso um equívoco, reconheço que é um erro muito difundido. Veja por exemplo, na América Latina, a grandeza de Carlos Fuentes – que além de romances e novelas, também exercitou o conto largamente – e Juan Rulfo. Embora notabilizados mundialmente, não alcançaram a popularidade de Gabriel García Márquez, eterno pelos seus romances. Parece que até o mainstream mercadológico insinua, “sem querer querendo”, que o texto longo é o ápice.

 

DA – O que mais chama sua atenção na literatura feita no Brasil hoje?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Não estou tão certo quanto à resposta, mas acho que é a diversidade do que se produz.   Há muita gente talentosa, de carreira sólida, e também surgindo. Vou esquecer o nome de muita gente que faz boa literatura, para além de José Inácio Vieira de Melo, Menalton Braff, Antônio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Lupeu Lacerda e Sérgio Faraco. Aqui tem de tudo, meu amigo. Por outro lado, isso não é tão positivo quanto parece, é uma constatação um pouco desanimadora, porque há muita coisa sendo chamada de literatura. Há um batalhão de gente fazendo ‘coisinhas bonitinhas’, interpretação enviesada da magnitude estética Manoel de Barros, arremedos de minimalismo; é gente que acha que basta que o besourinho seja citado para que se faça minimalismo. Vivemos a maior concentração de Bukowskis por metro quadrado de todos os tempos. O santo nome da corrente brutalista está sendo evocado de forma leviana por gente que coloca um punhado de tiros no enredo, dois palavrões e uma cara de mau na orelha do livro e pronto. Além disso, há a produção de muita coisa ruim mesmo. Muito texto ruim, muita gente sem leitura, sem estofo literário se arvorando a lançar livro. Não, não posso conceber que, por exemplo, um organismo seja rico em ferro, se não consome alimento rico em ferro. Sem consumir literatura sistematicamente, portanto, como um sujeito pode criar arcabouço? É muita ilusão de potência, mas isso é imanente ao homem, não tem jeito. Eu não consigo conceber a carreira de um escritor de verdadeira literatura (e não me pede pra explicar, por favor) sem uma rotina de investigação literária e leitura contumaz.

 

DA – O ato laborioso de escrever pode ser tido como um processo permanente de desconstrução?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Ainda hoje cedo pensava em algo parecido. Toda desconstrução pressupõe um mínimo conhecimento, por dentro, de como foi feita a coisa a ser desconstruída, não é? Senão é só uma implosão energúmena. 

 

DA – O quanto Dênisson Padilha Filho conhece Dênisson Padilha Filho?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Quase nada. Cada dia que nasce é uma nova muralha de Jericó.

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Desconfio que, em qualquer tempo, viver é tatear numa sala escura. Nesse nosso tempo, não acho que as incógnitas são mais numerosas que em outrora; acho que sempre foi assim.

 

DA – Somos algo além de uma matéria arremessada para o fim?

DÊNISSON PADILHA FILHO – Por enquanto, somos só esses bonequinhos de carbono mesmo. Depois é outra história, a orfandade acaba, a queda acaba. Mas isso é depois, bem depois.

 

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Fernando Marques

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Amor e seus disfarces

 

1. Longevos

 

Da mesa de trás vinha a informação:

– A cana tem 18 por cento de açúcar. Já isso aqui tem 99 – o homem referia-se provavelmente ao branco açúcar sobre a pequena mesa da confeitaria.

Ao chegar, eu os tinha notado, ele bem mais velho que a mocinha. Naquele momento, o tema da conversa era a longevidade.

Um homem maduro ao lado de uma quase adolescente – ela devia ter 20 e poucos – nos dá a impressão, decerto convencional, como que automática, do Lobo prestes a devorar Chapeuzinho, coitada.

Ele sabia coisas, verdades várias, e as depositava na mesinha, perdulário. A garota o seguia e, de vez em quando, falava. Uma dessas conversas que ouvimos sem querer e das quais só escutamos bem uma das vozes; a outra, casual e tímida.

O empenho virtuoso em assegurar afeto. Assim, até eu – a ponta perfurocortante da inveja. Vaticinava:

– Ainda estarei firme daqui a 150 anos! Espero que você esteja por perto – a voz sorria, insinuando a promessa.

Levantaram-se. Ele, a bolsa a tiracolo à maneira de outras décadas; o cabelo muito preto parecia pintado. Ela, pequenina, o vestido cândido a denotar simplicidade. Desapareceram de mãos dadas.

 

2. Papéis trocados

 

Adelaide devia ter 17 anos, estávamos na década de 70, 1979, talvez. Não sei ao certo. Lembro seu rosto suave.

O corpo acima do peso a incomodava, sim, mas o que de fato a fazia infeliz eram os pais fora do esquadro. O esquadro careta, sejamos claros.

A tendência para a obesidade vinha deles, ambos gordos; não desarmoniosos, porém. Aquele era seu estado natural, baixos e volumosos. Nada demais, pois.

O que chamava a atenção residia no comportamento. O pai tinha um ar lânguido, adocicado; a mãe, ostensivamente masculina, os gestos em ângulo reto. As vozes que usavam – a dele, aguda e ciciante, a da mulher, cava e rouca – também obedeciam ao lugar-comum dos papéis trocados.

A menina sofria com a evidente estranheza diante de seus pais, que muitos sentiam e que seus amigos adolescentes não disfarçavam. Não se fizesse uma piada, ficaria magoada, talvez chorasse mais tarde. Não se ousasse um comentário, neutro que fosse, já se conseguiria perturbá-la. Amava os pais; doíam as exclamações, o sarcasmo.

Eram diplomatas, cultos, de hábitos sofisticados. Praticavam equitação, coisa de grã-finos. Imaturo, uma vez os vi e achei engraçadas as roupas de montaria, as calças largas que se afunilavam, as botas de cano longo, o chicote petulante numa das mãos… As fatiotas tornavam-se mais curiosas ao ser usadas por aquelas pessoas, que pareciam não ter braços para a tarefa que as roupas sugeriam.

Manifestei o espanto divertido. Foi o quanto bastou para atingir a minha amiga, de quem gostava. Recordo a expressão machucada no rosto de Adelaide quando cometi a brincadeira ambígua, a palavra pouco generosa.

A menina pensava que, ao menos comigo, estivesse a salvo de tais grosserias. Creio que me achasse alheio, superior a elas. Não reagiu ao perceber que o jovem de conversas etéreas era capaz de perfídias. Mas a amizade acabara.

 

3. O beijo empírico

 

Sabemos que as brigas entre namorados podem ter motivos ocultos, diferentes daqueles que os próprios envolvidos alegam; razões alheias às disputas explícitas.

Já os arranca-rabos entre ele e ela, os dois iniciados em questões literárias e filosóficas, não faziam dessas questões meras desculpas, substitutos das verdadeiras desavenças. Não. O casal era capaz de arengar em torno de temas puramente abstratos:

– Pensei que você realmente acreditasse na possibilidade de totalização do real – disse ela com um travo de desencanto. – E não partilhasse o ceticismo que abre caminho a todas as desistências… Vejo que me enganei. Como fui tola – reclamou, enfática.

Era devota dos teóricos marxistas, entre eles Lukács, o da totalização.

– Pode-se até acreditar nas possibilidades racionais de apreender o real – respondeu, persuasivo. – Mas quem sabe o empirocriticismo estivesse correto ao combater as teses materialistas…

– Lenin é que estava certo; aliás, ele venceu a polêmica – rebateu ela, que não sabia direito o que era empirocriticismo, mas tinha ouvido falar.

– As bases de nosso conhecimento são sensíveis, sensoriais – afirmou, sutilmente explicando o que fosse aquele monstrengo conceitual, com o cuidado de não melindrar a namorada. – O que podemos afiançar sobre as coisas em si mesmas, amor? Nada! Somos reféns de nossos cinco sentidos. Dos sete buracos de nossa cabeça, entende?

Ela abriu o Dicionário de filosofia, volume de 1200 páginas que lhe pesava na bolsa, ao qual recorria nos momentos agônicos. Localizou ali o verbete “Materialismo dialético” e leu desafiadora: “Há coisas que existem independentemente de nossa consciência, independentemente de nossas sensações”, recitou nervosa, mas ainda afável.

– Como refutar a evidência? – ela fez a pergunta retórica. Ao ver que o namorado silenciava, insistiu: “Não existe e não pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A única diferença efetiva é a que existe entre o que é conhecido e o que ainda não o é”.

– Lembro perfeitamente dessa passagem – ele informou com uma superioridade quase imperceptível. Lenin dizia que “o conhecimento nasce da ignorância” e…

Não terminou a frase. A namorada calou sua boca, fechando-a com um beijo demorado e ávido. Adorava aquele homem porque sentia que ele estava à sua altura.

– Não podemos esquecer, porém, que entre Lenin e Lukács houve problemas sérios. Quando o filósofo lançou História e consciência de classe em 1923… – pontificou, valendo-se de certo tom didático, paternal, que a irritava bem.

Ela esperou por um longuíssimo instante, prestes a perder a calma. Ele:

– Ora, imaginar que os acontecimentos históricos estejam prefigurados na matéria, isto é, nas relações de produção, como pretende o Lenin…

A luta recomeçou. Logo berravam, batiam com os pés no chão, pueris e autoritários. Os dois se amavam.

 

Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva.