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95ª Leva - 09/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Yara Camillo

 

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

CHEGAR JUNTO

 

Desta vez chego sem voltas. Acabo de cortar o parágrafo que abria este conto, a introdução considerável que escrevi para evocar prima Jaci e nossos jogos-meninos. Explicar quem é Jaci, como fomos parar na mesma escola e na mesma casa depois da morte da avó, como isso e como aquilo, até que o miolo das coisas se perca, se esfarele em minhas mãos, desta vez não.

Digo apenas que eu e Jaci, quando crianças, gostávamos muito de cantar, e como perturbávamos demais os semelhantes e dessemelhantes com esse costume que nos arejava a alma, desenvolvemos uma habilidade notável, de modo que nos passeios com a turma do colégio, no ônibus ou metrô, conseguíamos às vezes cantar uma estrofe inteira de boca fechada ou quase, os lábios se movendo de forma imperceptível, o suficiente para a passagem do som, que como um gato se alongando entre grades flanava pelo coletivo, encafifando uns e outros. No final da estrofe, a coisa começava a pegar. A turma se olhava com ares de quem ouviu o galo cantar, sem saber onde. Não haveria, para nós, aplauso mais lisonjeiro. Com a corda toda, passávamos para a segunda estrofe, abusávamos do volume e da sorte, até que o professor se levantava, olhos e dedo em riste, buscando o criminoso. Acabávamos delatados, não pelos colegas, mas por nosso ar de bem cuidada inocência.

Já quando tomávamos o metrô sozinhos, a tática era outra. Buscávamos bancos separados e, com um rápido olhar, decidíamos a música.

Começávamos baixinho, com o trem ainda parado, mas já de portas fechadas. Depois ele partia, ganhava velocidade e nós volume, num crescente, fortíssimo, fortissíssimo, até o máximo, além do máximo. Daí chegávamos à próxima estação, ou ela que chegava a nós, de vez em quando era assim que acontecia.

Com o trem de portas abertas e nós de goela fechada, esperávamos o próximo ato. Nesse momento, que precedia a continuação do jogo, aprimorávamos nossa arte, exercitando em bocca-chiusa a próxima melodia, para que a voz, liberta, fosse de novo o gato que vencendo as grades ganhasse a rua e uma boa farra. Em palavras outras, para que nossa música tocasse o passageiro ao lado que, se portador de bom ouvido, daria um sinal de vida, ou seja, nos olharia de relance, com aquela dissimulação – que nunca enganou ninguém – travestida de bom-tom.

Quando isso acontecia, quando o passageiro ao lado nos olhava de lado, era uma alegria só, porque a ponte estava armada e isso nos franqueava outro estágio do jogo, muito mais arriscado, um pulo no vazio, o contato. Para confirmar a legitimidade do dom musical, ou ao menos auditivo, do passageiro, repetíamos o primeiro estágio… O metrô parava e nós também; o metrô começava a andar e nós começávamos a cantar; o metrô acelerava e nós também; o metrô gritava nos trilhos e nós gritávamos como loucos; e com o coração aos saltos, em contraponto com o ar impassível e a boca-de-siri, recebíamos a resposta: se o passageiro nos olhasse de repente, na nota mais aguda e com indisfarçável estranheza, a confirmação ali estava. O homem tinha ouvidos mesmo. Se não, se abrisse um jornal ou mexesse na carteira ou apenas consultasse o relógio, indicando uma disposição de indiferençafinal de jogo.

A dificuldade seguinte resumia-se em controlar o impulso de chutar a canela do pobre idiota, ou gritar um palavrão. Era um parceiro que não valia a pena. E quase não havia nada que nos deprimisse mais.

Agora: se estivéssemos com sorte, se o parceiro chegasse junto – como costumávamos dizer –, mostrando-se mais curioso ainda, aí sim, o jogo decolava, coisa de veteranos, não de principiantes.

Dividíamos esse estágio em sete tempos: 1, entrega-se o intrigado. 2, posicionam-se os palhaços. 3, vamos ver essa esperteza. 4, é mais que certo que o tipo não tira os olhos de nós. 5, que vai fingir-se atento ao geral. 6, menos ao que realmente lhe interessa. 7, porque agora tudo pode acontecer.

Desfechos memoráveis não faltam para coroar os jogos daquele tempo, desde um maestro que nos levou para um coral formado por ex-delinquentes e bancado pelas bibliotecas municipais, com direito a uma bolsa que era quase o que meu pai ganhava nos Correios, até uma encrenca dos diabos, uma dona dizendo que era professora de violino e nós encantados, porque eu sempre quis aprender violino, pinicar aquelas cordas, empunhar aquele arco, seria minha chance, eu pensava, a anos-luz da realidade, mas a mulher só queria nos seduzir, e não estou falando daquela trepadinha rápida, isso aí geralmente me agradava, Jaci não, fazia um drama danado, já eu era tranquilo, a sedução que me arrepiou foi o negócio dos escoteiros, a dona era chefe-não-sei-do-quê, quando dei por mim havia me empulhado um hino pavoroso; com a desculpa das aulas grátis arrancou-me a promessa de que no dia seguinte, às cinco da manhã, eu estaria na praça para hastear a bandeira e prestar juramento, mas acordei a tempo. Já o mesmo não se deu com Jaci, que acabou embarcando na estória a sério, e isso durou meses, com severo prejuízo de nossos jogos a dois, todos eles.

Depois, não vi mais a prima Jaci. É verdade que nos encontrávamos naquelas reuniões de família, todo mundo sabe que quase não há como escapar… Nos encontrávamos, mas não voltamos a nos olhar com aquilo que, para mim, era a mais-valia de nossa infância desperdiçada por tanta aporrinhação da ala séria da família que agora cobrava, de nós, a continuação da novela: tínhamos crescido e pretendíamos o quê? Sempre achei difícil, senão impossível, responder a isso. Eles, não. Pareciam ter certeza do que queriam: que atormentássemos os pequenos com a mesma gana que tinham nos dedicado. Recusei-me e, ao que parece, Jaci também. Nunca nos casamos. E se tivemos filhos foi por aí, fora dos sagrados laços com que as famílias sufocam seus bebês, manufatura de imbecis em franca progressão. Não há como escapar, dizem eles a qualquer sinal de rebeldia, por mais tímido que seja, até que a incansável repetição estabeleça de vez a desesperança, levando a crer que não há porquê. E perder o porquê (assim falou Jaci, num porre de Páscoa) é perder o eixo. Eu não seria tão veemente. Não fui.

Agora, depois de todos esses anos e eternidades, a caminho de um fim que me assusta quase tanto quanto me seduz, um dia ou outro, quando acordo de bom humor, eventualmente esquecido do desconforto e das dores, arrisco uma viagem de metrô e volto a jogar… É verdade que já não sou meticuloso na escolha do parceiro, que me sento em qualquer banco (muitas vezes quase me sentam, porque todo mundo sabe o quanto é insultuoso um velho recusar tamanha gentileza), enfim, não sou mais aquele veterano. Que falta me faz Jaci, alguém a quem piscar um olho. É verdade tudo isso. Mas quem é rei não perde o cetro, o sestro da majestade, ainda sei cantar de peito aberto e boca fechada.

O problema não é esse. O problema é que ninguém liga para um velho cantando no metrô. Nesses tempos de obsolescência programada, ou já em qualquer tempo, não há viagem que sempre dure nem loucura que nunca se acabe.

Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com

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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anderson Fonseca

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

A Tarde

O Sol descansou a cabeça nos seios da noite rosada. As garças levantaram voo e se tornaram negras no âmago de um círculo intensamente amarelo. Quando o amarelo desbotou-se em laranjas, morangos e violetas, o Mar sussurrou seu nome. As garças lançaram-se do mar de cima ao mar de baixo e limparam o negro de suas penas. No interior do mar de baixo outro céu se abriu e era azul como o mar de cima.  Um cardume desgarrou-se dos dedos do oceano e foi agarrado pelas presas do vento. O vento levou consigo o perfume das águas até desmanchar-se nas cabeleiras de pedra. E a sombra pousou úmida e fria sobre a cabeça do pescador sentado, à beira do mundo, num torrão de areia, e ele, entregando-se à tarde, adormeceu.

 

***

 

 

O Corte

Éramos 30 homens, 15 mulheres e 12 crianças, espremidos num quarto. O general no dia anterior disse que faria um corte. Cada um especulou quem estaria na lista. Citaram-se nomes, números de identificação. Não sabíamos e a expectativa era atormentadora. 24 horas depois que o general nos tinha avisado, a porta se abriu, era bem cedo.  O soldado ordenou a saída apenas das mulheres e dos homens, as crianças ficaram no quarto. Caminhamos até o pátio. O general perguntou a idade de cada um e separou os mais novos dos mais velhos, depois pela data de nascimento a partir do menor número ao maior. De um lado do pátio estavam os homens, do outro as mulheres, divididos entre dois grupos: jovens e idosos. Um soldado aproximou-se do general carregando uma pequena caixa, dentro dela estavam as datas de nascimento de cada um de nós. A mão entrou na caixa e retirou um papel e, em seguida, a voz metálica disse:

– 14.05.56. Dê um passo à frente.

Novamente a mão entrou na caixa.

– 20.09.89. Um passo à frente.

As datas foram: 31.06.75, 20.07.93. 04.08.86, 03.05.94, 12.01.68 e 23.10.80.

Dois soldados puseram-se no meio dos convocados, eram quatro de cada lado.

O general disse: – Hoje vocês receberão o privilégio da compaixão do Estado. Não sofrerão mais. Serão libertados. Abaixem suas cabeças e recebam da Lei e da Justiça o perdão. Vocês serão cortados da lista de culpados.

O 03 abaixou a cabeça, depois o 04, 12, 14, 20, 23 e 31. Passou-se meio minuto e os dois soldados iniciaram o rito do perdão. Os que sobraram voltaram para o quarto à espera de um novo corte.

 

Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor e crítico literário, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011) e Sr. Bergier & Outras Histórias (contos, 2013). Organizou a antologia Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro (2013). Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE).

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Munique Duarte

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém a reparava no vestido amarelo imundo. Até quando o café estava ruim as pragas iam todas para a lenha. Rodopiavam no fogo e se desmanchavam na chaminé. Ela era invisível, esquálida e empoeirada. Ratazana completando o grupo que sempre rodeava o fogão quando o calor esmorecia à noite e os sapos coaxavam. Dormia sem perigos no quartinho dos fundos. Nem cadeado precisava. Enquanto batia a mão no vestido para limpá-la e mexer na panela, ainda ouviu o último que saiu da cozinha dizer que Pintassilgo era um fracote de pernas bambas. Dali a pouco voltaria para tomar café e se esconder na aba do chapéu amassado.

Isso não aconteceu. Pintassilgo sumiu três dias e três noites. Apressado, bateu à porta de Mariinha no meio da madrugada. Morrendo de susto, abriu. Ele cheirava mal e pediu para que ela guardasse um saco para ele. Estava pesado e ela o empurrou com o pé para debaixo da cama. Quando voltou para falar com ele, era só breu. Ainda escutou com as orelhas de gato-do-mato um barulho longe nas folhagens das bananeiras cortadas. Ele haveria de voltar e o suspiro saiu pela boca com vontade e ruído. E seria no meio da madrugada, batendo na sua porta com punho de macho. Adormeceu Mariinha sonhando até despertar no dia seguinte com o vestido amarelo surrado, assoprando lenha úmida, difícil de pegar fogo. Não mexeu nadinha no embrulho do Pintassilgo. O que importava para ela era o seu olhar pequeno e preto de passarinho afugentado. Freou o suspiro na garganta. Um sujismundo já pedia café com voz deseducada. O sumiço de Pintassilgo foi assunto que se apagava dia a dia na cozinha. Mariinha não se afligia. Sabia que ele voltaria para pegar o saco pesado. Não contaria a ninguém da visita. Era borboleta mirrada desacreditada. As pragas pulavam as lenhas e se desfaziam no ar com a fumaça escura.

Com a tempestade o dia terminou mais cedo na cozinha. Mariinha sem seu ofício era vela apagada no escuro. Voltou para o quartinho e pôs lata de azeite aparando a goteira perto da porta. Chovia água morna. Deitou na cama dura com os joelhinhos para cima. O vestido ensebado escorregou pelas coxas finas. Pensava nos olhos de passarinho dele. Nem se lembrava do saco escondido debaixo da cama. Cochilou e sonhou com Pintassilgo alisando seus cabelos enfumaçados de lenha. No sonho ela estava mais bonita, mais gorda, antes ainda das tosses e do quartinho frio. Ele abria o saco escondido debaixo da cama, revolvia a terra e tirava de lá um anel dourado grosso. Era para Mariinha. Ela suspirou com força diante dele. O suspiro deu cambalhotas no ar e sumiu como grilo miúdo. Ela sorria um sorriso que vinha com força do peito. Escutou batidas na porta. Abriu os olhos assustados e foi atender. Chutou sem querer a lata de azeite esparramando água. Antes de abrir a porta, ainda escutou um barulho de casco de cavalo. Pintassilgo empurrou a porta e arrastou o saco escondido para a luz do quartinho. Sem nem olhar nos olhos da borboleta, montou no cavalo e saiu sem palavra alguma. Ainda de relance, Mariinha viu a perna grossa de uma mulher vestida de azul. Não ouve barulho de folhagem de bananeira cortada. O suspiro saiu do estômago, espetou o coraçãozinho, e se desmancharia no calor da lenha pelos próximos dias.

 

***

Ampulheta amarela

Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. A areia fina passou pelo buraco estreito correndo com pernas inacreditáveis. O grisalho apareceu ali e depois. Dentro da cabeça ainda um resto de novas tentativas. Faria tudo outra vez. Ou não. Cada um sabe o que lhe cabe dentro das memórias encardidas. No meio da selva inteira havia resto de compaixão. Um olhar mais fundo, mergulhador sem pés-de-pato.

Cada centímetro da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira já havia sido percorrido em noite em claro. Tentativas inúmeras. Mãos na maçaneta. Mãos à obra. Sair com a roupa de sempre, cruzar a rua e fumar uma porcaria qualquer. Depois, ler de longe as manchetes salobras dos sensacionalistas. Daí, um café sem palavras óbvias sobre sóis ou temporais. Caminhar mais, mais longe, mais fundo, mais depois de quatro ou cinco esquinas. Sentir os pés querendo sentido contrário. Sentindo o coração querendo sentido contrário. Sabe que a mente não fará o contrário. Pedaços de rotina com pedaços de realidade. Realidade chata, necessária, ampla, morna.

Cruzou a última rua sobre o chão zebrado e bem na frente comprou duas dúzias de uma flor amarela que esqueceu o nome logo após ter perguntado. Era preciso salvar o dia, os amores, a azia, os temores. Calado. Voltou e fez o mesmo caminho. Nada de café, fumos ou jornais. Cumprimento rápido pela vizinha de olho vazado. Triste a vida daqueles que a vivem pela metade.

Flores amarelas sobre a fronha amarelada. Sonhos amarelados. Paredes amareladas. Justificativas amareladas. O amarelo tomou a casa inteira por um instante depois de tanto cinza nos cabelos. Dias, dias, mais dias. Mais areia passando pela cintura da ampulheta em forma. Mais dias, dias, dias. Flores amarelas se tornaram cinza-tempo. Tudo ficou de uma cor só. Em vão. Fora do tempo. O homem só acertará o tempo quando se transportar para dentro da ampulheta e sentir a areia inundando seus pés imundos de realidade.

Tarde demais. A fronha apodreceu e dali em diante a esquina inteira da rua perdida. Tarde demais para outras cores, outros vícios, outros entrementes. Tropeçando. Fim da escada.

Muitas areias depois, ele ainda a viu do outro lado da cidade, de vestido azul e presilha no cabelo. Ela estava muito mudada. Rosto mudado. Boca mudada. Perdeu a olhos vistos a cintura de ampulheta. Tão diferente. Tão sem forma. Tão sem a forma do tempo, de corpo de miss. Sentiu-se fora de realidade chata.

Foi ao lugar de sempre tomar café, e aceitou o bate-papo óbvio. Estava tudo tão estranho. O cinza da vida já não incomodava. Era o começo de uma nova fé. De novos estalos mentais. Tarde demais. Ou não.

Quer voltar logo para a casa. Tirar o cheiro de mofo do ar. Se jogar em novos jogos, novas ampulhetas. Os pés ardem há tempos sobre essa areia fina, amarelada, acinzentada, mal vestida e mal falada.

***

 

Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade.

Os rios trotam com patas d’água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peças cinza. Um xale enorme amarelo que sempre estava a secar. Os rios trotam ruidosamente, e talvez nunca soubesse o tom de voz da velhota, com cara de solidão recente. Não tinha luz. Não tinha gás. Tinha chaminé com fumaça embocada da lenha que esquentou o bule de café. Ou de água quente para tantas e tantas infusões. A velha estava agora lavando batatas em uma bacia. Eram muitas batatas para uma pessoa só. O tempo agora estava cinzento, com ar agitado. Segurava a saia com as duas mãos. Maldita chegada do inverno. Hora de regressar.

As pedras dos rios são traiçoeiras. Nem sempre a água as doma. Pé sangrando e dolorido da passada mal dada. A casa ainda a três quilômetros de distância. Pensou na senhora e no chá de hortelã recém-fervido. Queria só observar, mas não tinha jeito. Atravessou mancando o ruído dos cavalos d’água. As janelas cresciam. As cortinas eram roxas, e não azuis. O xale amarelo imenso, com franjas embaraçadas, era uma toalha de mesa surrada. A bacia com as batatas não estava mais do lado de fora. Não sentia medo. Era lembrança de algo. Era cheiro familiar. Engasgou-se ao chamar pela senhora. Não podia confiar tão cegamente na bondade dos dias atuais. Mesmo estando tão longe, em mata limpa e rios caudalosos. Já havia entrado. Estava na cozinha, com o fogão de lenha. Nada de bule, café ou hortelã. Gotas de chuva ecoavam nas telhas ralas. Entrou no quarto da velhota. Na parede um terço pendurado. Nem sentia mais o corte no pé. Sentia moleza, vontade de ficar.

Ficou meia hora ouvindo o estalar da lenha queimando no fogão. De fato, a senhora de lenço xadrez não apareceu. Nem naquela hora. Nem nas seguintes. O calor do fogo é bom quando chega o inverno. A saia verde já não tremia. Naquela cadeira no canto da cozinha permaneceu até a noite chegar. O dia nublado traz lembranças de tantas casas, de tantos rios, de tantas cortinas pequenas.

 

Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de contos “Espelho Oxidado”, pela Editora Multifoco. Em 2015, lançará seu primeiro romance.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Claudio Parreira

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

HOMEM NA GARRAFA

 

Conheci todo tipo de homem no mundo: homem certo, homem torto, homem que come o próprio pé; homens de cabeça quadrada, de olhos líquidos, homens sem coração.

De todos esses aí, o que representa mais perigo é o homem virtuoso: não é difícil vê-lo sacar o dedo indicador como se fosse um revólver e apontá-lo diretamente para o seu nariz, condenando o seu comportamento ou os seus prazeres como se ele, e somente ele, tivesse sido escolhido por Deus em pessoa para purificar de todos os pecados essa abjeta espécie humana — da qual fazemos parte mesmo a contragosto.

Conheço ainda os homens doentes e os tristes, embora ache que são ambos a mesma coisa, um servindo apenas de extensão do outro. De toda a espécie, no entanto, gosto mesmo é dos homens que constroem vento, dos que respiram pássaros e ainda daqueles, mais raros, que desenham unicórnios nas nuvens com pincéis de luz. São os poetas, costumam dizer, e acho que esse nome é mesmo bem adequado.

Homem na garrafa, porém, desse tipo eu nunca tinha visto. Já vi muitos casos de garrafa no homem, que é quando o sujeito bebe quase que com a mesma urgência com que respira. São muitos, e é fácil encontrá-los principalmente nas sextas-feiras à noite, quando o fim do trabalho assinala o tão esperado começo da vida. Mas homem na garrafa… Bem, a primeira vez que eu vi um assim foi em plena avenida, durante o dia. Estava lá sorridente e tranquilo, os olhos bem abertos, a pele toda amarrotada. E um tufo de cabelo avermelhado escapando pela abertura do gargalo. Como sou um sujeito civilizado, vi mas fiz que não, passei como se fosse algo normal, desviei os olhos para os carneiros encaixotados, que hoje são tantos e tão comuns por causa da explosão da natalidade.

Em casa, contei o negócio todo à minha mulher. Ela me olhou bem nos olhos, fez a sua famosa cara de filosofia e disse:

— Grande coisa…

As semanas seguintes, confesso, foram da mais pura agonia. Passei a ver homens em garrafas por todo canto — e eles não eram fruto da minha imaginação: eram todos de carne e osso, pele e vidro, solidez e transparência. Os meus amigos passaram a fazer piada das minhas preocupações:

— Meu, só falta você dizer agora que viu um bode fumando cachimbo!

— Vi dois — falei. — Mas isso não vem ao caso. O que me intriga são os homens em garrafas.

Isso me deu a medida da mentalidade social a que estamos submetidos: as pessoas acreditam em tudo, górgonas passeiam nas ruas sem serem incomodadas, ninfas trepam sob os carros estacionados, Shakespeare e Dostoievski tomam Coca-Cola enquanto discutem o futuro da Internet. Tudo isso é tolerado e tido como comum, e eu acho bom que seja assim. Mas quando o assunto é homem na garrafa, tudo muda.

Com a cabeça cheia de pensamentos, um sabor de tragédia em minha boca, resolvi finalmente tomar uma atitude. Abandonei o escritório, ignorei o elevador e desci pela escada mesmo. Ganhei a rua feito um alucinado, atropelei três ou quatro ornitorrincos e fui até a esquina. Ele estava lá, o primeiro, ainda sorridente e tranquilo, o maldito tufo de cabelo vermelho balançando ao vento. Falei então com autoridade, a voz grave e sombria:

— Como é que você entrou aí?

O homem descolou os olhos do vidro, abriu ainda mais o sorriso e respondeu:

— Não entrei aqui. Foi esta garrafa que me envolveu.

Sou o tipo de homem que precisa saber as coisas. De nada adianta um milagre se eu não puder explicá-lo. Por essas e outras é que fui pra casa feliz, aliviado enfim, os pés chutando tartarugas como quem assobia uma canção.

***

 

 

A CAIXA

A caixa é pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me sustentado há mais de 20 anos.

Eu faço assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em vermelho, uma frase bem simples: “O que será que tem dentro da caixa?”.

É o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu falo: “Não é fantástico? Nunca vi coisa tão genial dentro de uma caixinha!”.

Com medo de serem consideradas insensíveis a tão refinada manifestação artística, as pessoas todas concordam. Algumas até acrescentam: “É mesmo! O conteúdo da caixa é impressionante!”.

Impressionante são as pessoas, eu diria. Mas isso não vem ao caso agora.

 

 

***

 

 

CARNEIROS

Sempre gostei de carneiros. Minha infância foi repleta deles: carneiros brancos, pretos, verdes; carneiros altos, sorridentes, inquietos, carneiros quadrados. À mesa também estiveram muitos carneiros, que mamãe preparava com um exagero de vinho e pimenta e hortelã.

Hoje, no entanto, não vejo mais carneiros por aí. Uma tristeza. As pessoas, aliás, nem sabem o que é isso. Algumas consideram já ter visto algo parecido na TV; outras, em fotos amareladas. As crianças que eu conheço acham que os carneiros são apenas seres imaginários criados pela internet.

Foi por causa disso que resolvi fotografar carneiros. Trazê-los de volta à luz, resgatá-los do esquecimento. Provar ao mundo que eles ainda existem.

Tenho 7 câmeras que registram tudo o que passa na rua, 24 horas por dia, todos os dias. Meu esforço, no entanto, tem resultado inútil: acumulo já há meses fotos e mais fotos de caminhões, dinossauros, tigres de bengala e fusquinhas, hidras, minotauros, senhores de chapéu coco, medusas, anjos e demônios, a putaquiuspariu. Carneiros, nenhum.

***

 

 

O CHOU NÃO PODE PARAR

Ele derrama lágrimas pela boca quando faz sol. Sorri estrelas às vezes, sempre dependendo da instabilidade natural do seu humor. Mesmo o seu silêncio é ruidoso: é um espetáculo, sabe-se assim, e assim se considera e se exibe. O chou não pode parar.

Mas o mundo anda repleto de tédio. As mulheres-barbadas, homens-elefante e crocodilos trapezistas não lhe dão a menor atenção. Perderam completamente o respeito; perderam a capacidade de sonhar.

Os mágicos extraem palavras mortas de suas cartolas roídas pela tristeza. Os coelhos brancos de fome e raiva conspiram contra a precariedade maquiada da lona velha e podre. Um dia a casa cai, torcem eles, certos de que estarão à distância e a salvo.

Ele não está, não se sente a salvo. Cada dia, matar um leão, dois, que lhe brotam dos bolsos como capim. Dos bolsos também retira pedrinhas azuis e lembranças pálidas. De um tempo em que fora outro, outra coisa. Alguém.

Agora é a tarde vazia que cresce nas pedras da rua, indiferença. O pulsar morno do coração que soletra ausências. Estímulo mesmo só o do conhaque, que pinga nos olhos para ver o dia em chamas.

O público, distinto público, ergue apenas as paredes da dúvida, da descrença: esse aí não é, desconfio do chou. Onde é que já se viu, espetáculo é o próximo milhão a ganhar, a grandiosidade do efêmero cintilante dia após dia após. A droga a qual nós o público estamos submetidos desde sempre, como cordeiros sob o machado de Deus.

Sabendo-se assim ele segue, cheio de nadas e de incertezas. Sob o sol é o homem-espetáculo, que teima em desafiar uma platéia de cegos. Um mundo trêmulo e arrogante, que por trás da máscara exibe apenas um circo perplexo de si mesmo.

Claudio Parreira é escritor e jornalista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Teve contos incluídos em diversas coletâneas e foi o ganhador do 1º Concurso de Contos da Revista piauí, em março de 2007 e, no ano seguinte, integrante do folhetim despropositado A Velha Debaixo da Cama, da mesma revista. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel.

 

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Márcia Barbieri

 

Foto: Luiz Navarro

 

O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas

 

Eram coisas minúsculas que me faziam não entender o mundo, como dois interruptores para apagar a mesma luz ou o som vindo da Ásia e saindo de uma caixa negra ou morangos mofarem tão rápido ou o gosto das pitangas serem tão parecidos com os das cerejas ou as flores que terminam em um falo ou a teta alimentar o universo ou um espelho esférico invertendo meu pânico ou dois homens se amando com o desespero que nunca conheci ou o amor ser um criadouro de moscas estéreis zunindo zunindo zunindo dó ré mi fá sol lá si cataclismas no meu cérebro larvas obesas ruindo a carne vespas negras no fundo do quintal ou o tédio enferrujado esburacando a manhã ou buchada ser uma iguaria ou crianças comendo testículos de bois ou um escorpião amarelo atravessando o deserto comendo a própria cria ou a diáspora das nossas mãos durante as masturbações ou bonecas infláveis serem tão perfeitas ou o ódio insano dos homens pelos touros ou a beleza dos chifres espiralados dos antílopes negros ou mulheres clonando-parindo como animais ou a disputa selvagem dos homens pela buceta das fêmeas. O pensamento da aranha tecia absurdos sobre minha tíbia rótula patela minha vizinhança meus membros eram uma máquina de encaixes arruinados e eu era um ser obtuso e ter o crânio de um animal era o menor dos meus problemas. Coma logo a aranha antes que suas ideias se tornem matéria coma logo a aranha antes que ela teça a revolução coma logo a aranha antes que cem luas despenquem de suas patas peguem a faca e cortem o verbo ao meio só sobrará a ação. E nossa cópula fosse a união de mil garras, armistício, campo minado, fratura de invertebrados. Não entendi quando percebi que essas coisas pequenas entre as pernas num ângulo diálogo monólogo obscuro não fosse capaz de provocar asco, não entendi quando percebi que existiam idiossincrasias em todas as genitálias, eram todas tão diferentes uma das outras… Olhei de novo para minha e tive vergonha. De que espécie eu era¿ Por que meus buracos e seus contornos eram tão pavorosos¿ Ela era rosada e grande, uma membrana pesada e com bainhas desproporcionais os pelos cresciam em direções variadas perdidos entre uma ordem e outra. As estrias formavam ramificações difíceis de entender. Desviei o olhar não gostava de encará-la por muito tempo. Eu jamais deixaria que ele me visse, não assim, onde eu não era normal, onde a duração do tempo se distendia nos meus pequenos-lábios, pensei na solidão dos ornitorrincos… na feiúra incompreensível dos peixes abissais… nas dobraduras se desdobrando na minha pele fina. De novo os ornitorrincos e os peixes abissais. Eles como eu não eram daqui e eu pensei: é bem estranho ser estrangeira no próprio corpo é bem estranho ser estrangeira no seu país é bem estranho estar sitiada nas escórias da própria carne é bem estranho conhecer apenas as superfícies das coisas inanimadas.

Olhei para seus olhos castanhos e clamei, você que não me conhece não me deixe nunca sair da minha terra não me deixe pisar em outros solos áridos não quero conhecer outros países não quero conhecer outros dementes não quero lamber a falência de outro corpo não quero sentar na rigidez de outro pau não quero enrolar minha língua em outras línguas não quero ter certeza que a felicidade não existe em parte alguma, quero ter essa esperança rasa de que em alguma parte o ar é rarefeito, as palavras são todas francesas e a lama é branca…

Você me olha com um olhar idiotizado, o olhar de todo homem que já passou dos trinta e eu desfaleço. Você podia me fazer parar, agarrar meus pulsos, amarrar minhas mãos nas grades da cama. Você não faz nada, só me olha, um gato paralisando sua presa. Retiro a armadura do eu penduro na parede texturizada grandes rosas secas arabescos que não existem mais a arquitetura falida nostalgia rococó retiro as carrancas retiro as máscaras japonesas enfio o dedo na sujeira do umbigo retiro os caranguejos da minha última morte retiro a penugem do buço agora sou não eu essa cor opaca massa mole matéria quase morta parecendo o abdômen de um inseto ou um incesto de dois irmãos.

Você sussurra no meu ouvido surdo labirinto bigorna eu eu eu eu o eco ensurdecedor de todas as suas ideias olho seu palato em decomposição e você continua agora num grito sufocado eu eu eu e eu coloco a corda frouxa e suicida em torno do seu pescoço vejo a língua enrolada e a baba grossa de um epilético.

Você sopra no meu olho sem cílios eu eu eu e recorda um velho refrão cavalos cavalgam na cartografia do seu dorso–cavalos negros selvagens cavalgam no seu leito– mas isso não é importante–o eu está morto. Sou uma massa amorfa e coalhada e o sol apodrece minhas vértebras e o líquido que me tirou das penúltimas meninges explode na minha garganta há um pêndulo enferrujado entre minha laringe e minha traqueia falar não é tão indolor quanto parece ainda mais nesse lugar suspenso onde cada palavra cai um rifle ainda mais nesse campo de marionetas onde não perdura a consciência íntima do tempo.

 

 

***

 

 

Gênese


Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com uma faca, duvidando da sua entranha oca, do seu corpo sem órgãos, como se através dessa manobra pudesse resolver sua demência ou seus problemas de ancestralidade.

Olhando-a assim, acreditei que ela jamais morreria, estava enganado, ela era uma barata branca e logo seria esmagada.

Não foi fácil ver seu corpo estendido na pedra. Aqueles seres estranhos, vermelhos e mascarados (sempre considerei a máscara uma repetição desnecessária), falando línguas estrangeiras, dançando e urrando, imitando o som gutural dos animais. Ofereceram-me um cálice de sangue, eu deveria celebrar a morte, sacralizar o útero que foi meu abrigo, minha origem. A caverna era escura, úmida. Havia na parede da rocha, atrás do seu corpo, o desenho de uma vulva aberta e gigante, em volta caçadores com seus membros em ereção, em outra gravura um antílope estava montado em uma mulher nua e grávida, aos seus pés demiurgos ejaculavam.

Colocaram em minhas mãos um instrumento pontiagudo, fizeram gestos que indicavam que eu deveria retirar as vísceras do cadáver e fazer uma trepanação. Hesitei, mas concordei, a matéria era uma abstração e nunca foi sólida, era uma rachadura, uma trinca no tempo-espaço.

Sei que existe um animal rastejante que circula em sentido anti-horário pelo meu útero (sou um homem castigado com um útero) se espreguiça nas minhas trompas, se enrosca nas paredes do meu intestino, como um cão de rua que não morde, mas fareja, mas fede. Trêmulo começo a estripar aquele corpo-origem. Partenogênese. Ovo cósmico.

O ritual de sepultamento continua e eu sigo fazendo a trepanação. Lamento porque nunca me senti parte desse mundo, porque quando cheguei o mundo já estava instituído. É como se eu fosse uma orelha implantada no organismo de um sapo. É como se eu tivesse despencado em um país estrangeiro e por todos esses anos continuei um exilado no meu corpo-máquina. Preciso ser civilizado, sou homem e preciso entender o sorriso fingido dos hipócritas, a boca banguela, desnuda dos desalmados. A humanidade se alimenta parindo ovos chocos. Preciso ser homem, trabalhar, acasalar, conversar, entender de política, entender a rosa dos ventos, fingir felicidade, matar os porcos que aparecem nas noites sujas, quando tenho as vértebras trincadas e pinos na mandíbula.

Nasci no corpo-simulacro de um homem evoluído. No entanto, minha alma tem uma corcunda feia e incurável, minha alma é de um egiptopiteco, um primata franzino de seis quilos.

Então, diga, como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as casas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime. Ela me falou que eu era fraco e por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava Eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus. O meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro.

Um enxu de moscas andam tontas e circunspectas em torno do meu mamilo. Não sinto cócegas, não as expulso, acompanho sua coreografia macabra nas redondezas do seu peito. A angústia não é muito diversa de um amontoado de larvas de inseto. Barroca.

Coagulo a noite. Navalho a face profícua de Deus. Continuo a trepanação. Depois de um tempo eu era só o exoesqueleto de uma cigarra, vazio, solitário, oco.

Não havia dúvida do que eu deveria fazer. Abri a vulva da minha mãe e voltei ao seu útero. Invaginação do fora. As esporas, os cascos, os trotes, a noite, o beco deixaram de me incomodar.

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestranda em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (independente), As mãos mirradas de Deus (Multifoco) e o romance Mosaico de rancores (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen). No final do ano, lançará A Puta.

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mariza Lourenço

 

Arte: Marcantonio

A HERANÇA

Os pequenos olhos de Lúcio ficaram ainda menores quando viu a mulher pendurar cuidadosamente na parede, e em lugar de honra, o enorme retrato de seu tio-avô Aurélio, morto recentemente.  Feio demais, pensou o marido. A boca, no entanto, salivou, quando pensou que a feiúra nada significava se comparada à fortuna do velho.  Após a leitura do testamento, que foi presenciada por meia dúzia de gatos pingados escolhidos a dedo, a mulher não deu um pio. Ele esperou pacientemente por uma boa notícia, mas o tempo passou e nada. A conta bancária continuava da mesma maneira. E ele em queda vertiginosa rumo a mais absoluta miséria. Rico jamais havia sido, é bem verdade, mas nunca, como agora, precisara tanto de dinheiro. Questão de vida ou de morte, mais de morte, se computadas as ameaças dos agiotas a quem devia uma boa quantia. Resolveu perguntar a ela o que, afinal, o velhote lhe deixara. “Ora, o retrato e a coleção de armas brancas. Ele sabia que eu adorava polir suas facas.” “Estúpida! Em que mato sem cachorro fui me meter!” Ela não deu um pio. Em homenagem ao tio, escolheu as segundas para polir as armas. Lúcio observava a mulher desembainhar as facas, limpá-las e, novamente, guardá-las dentro das bonitas caixas de madeira. O ritual exasperava Lúcio. Ela sabia. E gostava. Ela sabia dos jogos, das mulheres, das dívidas, da ganância, do desprezo. E do coração fraco, além do caráter. Ela sabia. Tão pequena e serena. Tomou gosto. Todas as segundas desembainhava e polia. Todas as segundas experimentava o fio e o corte. Às vezes, nos dedos, outras, nas coxas. O sangue ralo gotejava como uma mísera torneira sem conserto. E a tudo ele espreitava. Com irritação, de início. Depois, com pavor. Pior era a calmaria dos olhos de Emma, a placidez medonha da satisfação. O coração era fraco, ela sabia. Mais fraca e providencial, porém, foi a veia partida, esmigalhando a razão. Melhor tivesse morrido. “Adonaldo, por favor, apronte Lúcio, vista-lhe um terno bem bonito. Hoje, às dez, vem aqui um retratista argentino, o mesmo que pintou o quadro de meu falecido tio. Não sei se já lhe contei, Lúcio, mas conheço muitos artistas e o retrato de titio foi um presente meu, pouco antes de sua morte. Ficou tão feliz, o pobrezinho. Tão vaidoso.” “Senhora, será que ele a compreende?” Ela não respondeu. Colocou-se cara a cara com o homem na cadeira de rodas. Olhou-o demoradamente e, com satisfação, percebeu os olhinhos apequenarem-se ainda mais.

 

 

***

 

 

TERROR NOTURNO

 

Acordou suado à hora de sempre. Nessa noite, no entanto, além do suor, sobreveio o sufocamento. Não aguentou, cutucou a mulher. Ela abriu um olho.

— Na festa do nosso casamento você me perguntou quem era aquele ‘cara estranho e triste’, e eu respondi que não sabia, lembra?

— Não…

— Mas eu sabia, ele era bacana demais. Bem mais do que um amigo. Inseparáveis: cama, mesa e banho. E eu sacaneei. Arrependimento, se matasse…

Ela abriu o outro olho. Não fez questão de conhecer o resto da história.

— Peça desculpa a ele, ué.

— Nem sei por onde ele anda.

— Peça perdão a Deus, dá no mesmo.

— Você sabe que eu não acredito em Deus.

— Então não encha a minha santa paciência.

Voltaram a dormir. Pela manhã, à mesa do café, ele estava recomposto e ela, absolutamente encantadora, enfiada num vestidinho lilás.

Mariza Lourenço, advogada e escritora, é coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas.

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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Thays Berbe

 

Arte: Marcantonio

A senhoria

Esta tristeza que vem, e senta nos caraminguás da minha sala escura, se acomoda numa poltrona suja e furada, que já tem o formato de seu corpo. Uma visita inumana, inexata, me observa enquanto passo um cafezinho para ela.

– Você vai derramar tudo, diz.  –Pó, água e chororô.

Mania irritante de prever o futuro, penso. Não digo nada. Não levanto a voz. Não peço para ela ir. Aceito sua companhia, como quem se rende a verdade.

Derrubei o pó.

Ela pede pra eu perder a timidez e pular as protocolares etiquetas de uma anfitriã, que disfarça mal a falta de hábito em receber pessoas.

Me diz em tom maternal:

– Esqueça o cafezinho, chora de uma vez criança. Não me venha com chá de cadeira, estou bem acomodada. Transborda as tolices de agora, antes que eu comece a vasculhar suas gavetas.

– O que você ganha com isso? Protelei eu.

-Prazer.

Todas as chaves da casa penduradas em seu colar tilintavam ao menor movimento. Desconfio que minha senhoria adormece e se banha com aquelas correntes em torno do pescoço, que esverdeiam sua pele, que anunciam sua chegada e partida e que eu encaro de viés quando seus olhos não me fitam, querendo roubá-las. Não, não tenho um bom plano.

Quando ela me alugou o espaço onde moro firmamos um contrato,

DAS CONDIÇÕES DO IMÓVEL CORPO:

Cláusula 43: A proprietária terá todas as chaves, com livre acesso. Não precisando de aviso prévio por tempo indeterminado. Sendo essa cláusula não respeitada, a locatária sofrerá punições, previstas na lei natural das coisas, estando sujeita a ordem de despejo.

E, por assim estarem justos e contratados, mandaram extrair o presente instrumento em três (03) vias, para um só efeito, assinando-as, sem testemunhas.

 

***

 

Estômago

 

Francisca,

A pizza era de aliche, a maldita pizza era de aliche. A maçaroca desmantelada no chão, que você provavelmente viu antes de perder a consciência, era uma mistura de molho de tomate, queijo derretido e aquele peixe salobre que bloqueou suas vias respiratórias aos 9 anos de idade, na pindérica festa de casamento da tia Ilde. Papai insistiu pra você experimentar um pedacinho, sem saber que era alérgica. Lembra? Quem poderia supor? Na colisão, Você rolou sobre as folhas ressecadas no asfalto, quebrando uma pluralidade de vértebras. A pizza escapou da caixa de isopor que o Motoboy levava nas costas, derrapou na pista oito metros, saindo da caixa, destampada aos pulos, chegando quente e espatifada junto ao seu corpo.  Nunca mais comi pizza, mana, nunca.  Soube que você estava morta porque seu tórax não mexia mais, seu olho ficou aberto e vazio.  Gigantescas fichas da obviedade colidiram com o meu mundo. “O tórax nunca para de expandir e contrair, nem o piscar dá sossego pro ver, de formas tão sutis, que a vida até parece despretensiosa e evidente”. Até mesmo numa festa aparvalhada de casamento, com babados de plástico e confeitos cor-de-rosa, no salão do prédio da tia Ilde, podemos ser traídos por nossa ingenuidade.

Quando ouvi o estrondo e a vozearia, saí do caixa da padaria correndo, sem pagar pelos cigarros. Te procurei entre os curiosos. Havia um peso na cautela com que todos se moviam.  Existe um momento, quando a morte se anuncia, em que perdemos a noção de espaço e a vida é suspensa em um campo gravitacional por dois segundos, em câmera lenta. Quando cheguei perto, havia um pedaço seu, de dentro, bojudo e mole, derramado. Encarei sua víscera como se eu pudesse colar você, como se fosse um segredo teu mal ventilado. Desmaiei. O motoqueiro, você, a pizza e eu, sentindo nossas vidas vazarem pelo asfalto, enquanto em algum canto da cidade, um motorista de ambulância saía às pressas do banheiro, fechando a braguilha da calça, pra atender o rádio sobre a mesa do cafezinho.

Sabia, mana, que quando a gente morre todos descobrem nossos segredos?  A maioria deles.  Eu também não sabia até você ser atropelada num domingo pelo entregador da Pizzaria Tutti, enquanto seu sorvete de casquinha escorria muito. Depois disso as pessoas interrompem suas contas bancárias, entram no seu quarto, fuçam suas coisas, dividem-nas em três partes; doação, venda, e o que cabe numa caixa de lembranças. Os objetos falam a maioria das coisas sobre você, mas a caixa de remédios, a sujeira embaixo da cama e o computador, falam mais.

Depois do seu velório, era difícil pentear meus cabelos, cacheados como os seus. Era difícil ouvir música, comer queijo, atravessar a rua, expandir o tórax, piscar. Disseram que o sinal já estava fechado pra você, mana, e que o moço tinha pressa. A pressa devora tudo.  As azeitonas que se espalharam na pista enquanto seu corpo arremessado perdia tufos de músculos pelo caminho, eram verdes e graúdas, como seus olhos roliços. Eu tenho a sensação de que uma simples azeitona poderia me asfixiar pra sempre.

Num dia ruim, inventei de contar ao Dário todas aquelas imagens do acidente, que me perseguiam. Contei os detalhes, mana.  Daquela luz alaranjada nos prédios, quando a tarde se recolhe em tom de candeeiro, impingindo fachos luzentes pelas frestas das nuvens e tudo parece fazer parte de um instante inabalável.  O farol de pedestres abriu, eu apertei o passo e entrei no Marajá Pães e Doces pra comprar cigarros e não te deixar esperando, para não nos atrasarmos pro show do Otto. Você se distraiu com algum livro de capa colorida da sessão de R$ 1,00 daquele sebo mofado, e atravessou em seguida com seu vestido azul de algodão. Contei como era a primeira tripa humana que eu vi. Contei qual era o sabor do sorvete. Contei tudo, porque o Dário era o meu marido, e eu precisava de colo. Fui uma testemunha tresloucada dos acontecimentos, precisava enfraquecer o que me perturbava, eu precisava de ajuda.

Ele se pôs a chorar, mana. Primeiro um ruído impreciso caía de sua boca e do seu nariz ao mesmo tempo, seus olhos apavorados foram desistindo de ficarem abertos e se afundaram no rosto a medida que espremia a cara com força. As bochechas subiram formando sulcos na pele da testa ao queixo. A língua se projetou levemente e Dário entregou- se aos soluços, que evoluíram para um violento choro, desesperado e alto. Elevou as mãos enormes e tremulas, e sem saber o que fazer com elas, grudou-as no rosto, abafando o inesperável.

Ficou claro. Causaria menos dor a ele se eu tivesse pegado a faca de pão da mesa e destacado seu jovem coração. Ou, se eu tivesse arrumado as malas e saído de casa com os vinis do Duke Ellington.  Ou quem sabe ainda, se fosse eu a estar distraída, com uma casquinha do Mc Donald´s, meio baunilha, meio chocolate, atravessando a rua Martins Fontes, e sofresse uma colisão de alto impacto com uma pizza de aliche.

Fuçar no seu computador depois dessa bandeira, foi a primeira coisa que eu fui fazer.

Gostaria de saber se todas aquelas trepadas que vocês deram no hotel Delmar da República, eram para superarem essa minha mania de controlar tudo?

Quando acompanhei mamãe naquele ritual patético de atirar suas cinzas ao mar, um contravento soprou flocos seus no meu rosto. Me debati, me senti imunda.

Eu teria te matado. Mesmo te amando tanto.

 

Thays Berbe gosta de florestas. Frutas secas. Texturas e cores. Viagens. Lama. Coisas antigas e coisas que viram outras coisas. Plástico bolha e bolhas de sabão. Falar, cantar e ficar em silêncio. É especialista em comunicação audiovisual pela faculdade Belas Artes e Anhembi Morumbi e desenvolve seu trabalho como roteirista e redatora.

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lisa Alves

 

Foto: Nathalia Bertazi


Amnésia com Chemtrails

 

“Saber que resistes.  Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.  Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.  Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena. “
 Carta a Stalingrado – Carlos Drummond de Andrade

Eu jazia lá e o perfume da pólvora era tão banal quanto os gases poluidores de qualquer cidade grande. O local era escuro-cinza e a tonalidade aos poucos alcançou tudo de forma acelerada. A poeira de uma cidade sem luz adormecia sobre os outdoors e letreiros advertindo que ao pó tudo e todos um dia retornarão.  Até o sol decidiu abandonar aquela guerra estúpida, já a espécie humana não tinha tamanho poder de decisão.

Não demorou muito tempo para eu descobrir o meu papel no meio daquelas explosões, eu era uma prostituta. Prostituída como todas as senhoras, senhores, filhas e filhos que um dia desfrutaram de uma vida digna e feliz naquele território que não recordo o nome. Apenas sei que eu completava o lugar, mas somente o lugar. Possuía uma estrangeira confiança que eu não passava de um cão sem dono, um cão sem recordações, um animal domesticado nas ruas e nos olhares famintos da população. Fome – era isso que eu sentia e por ela fazíamos qualquer negócio sujo (naquela atmosfera já não existiam negócios oferecidos em tempos de paz). Éramos a mercadoria exposta na rua, éramos a alimentação voluptuosa dos soldados. E eles exigiam variedades: senhoras, homens de qualquer faixa etária e meninas que não tiveram tempo de brincar. Ali foi constituído um campo de concentração de prazeres sádicos. “Levante seu cacete moleque!” – e o menino não tinha escolha, aquele ato poderia render-lhe uns bons restos de comida.

Tornei-me uma mulher forte, a frieza dos dias contribuiu para uma força inimaginável. Quando ouvia os três disparos que alertavam para a chegada dos consumidores, preparava-me para a labuta. Cortava os dedos e com o líquido rubro maquiava o rosto para obter uma aparência saudável. Os soldados eram exigentes, depois de deliciarem-se sobre nossos cadáveres ainda podiam negar o pagamento com argumentos incongruentes: “E ai, Raul! Alguma múmia já te calibrou antes?”.

Os dias eram fétidos, sem água, sem uma possível higiene, aos poucos a distância de um ser humano para outro foi se tornando imperativa. As doenças de pele eram as maiores oponentes dos sobreviventes. Éramos cães com uma sarna crônica e ainda assim não nos poupavam do péssimo paladar dos homens das artilharias. O verdadeiro sentido de sexo selvagem foi abrangido naquelas ruas cinzas e vermelhas. Éramos uma vitrine violada por milhares de saqueadores: nos ventres das mulheres cresciam fetos indesejáveis, nas garagens escuras homens suicidavam e eu continuava em pé. Uma múmia, não deixavam de ter razão.

Quando percebia algum indício de fraqueza escondia-me dentro das ruínas de um edifício habitado por ratos. Dali de dentro tentava táticas de recuperação, alimentava-me dos pequenos e assim seguia forte para a guerra. A primeira vez que entrei no local estava fugindo de um general mal agradecido que durante um boquete levou uma leve mordida no membro. Fiquei três dias ali, até ser esquecida ou se tivesse sorte o homem já teria seus pedaços espalhados no front – conseqüência comum da guerra, todos os dias os devoradores mudavam de cara, mas permaneciam com as mesmas intenções canibais. Naquele mesmo prédio descobri que não estava sozinha, assustadoramente deparei-me com um espectro pequeno e faminto. Dei-lhe algumas patas de ratazanas e ele as devorou rapidamente. Perguntei-lhe o seu nome “José” e quantos anos tinha “Não me lembro, dona! Tem mais carne?” Menti, disse que não, se eu dissesse sobre a fonte de alimentação, daqui alguns dias os ratos seriam uma mera reminiscência. Eu precisava viver, não sei para quem além de mim mesma, mas se a guerra terminasse poderia recuperar um pouco da memória e descobrir se em algum lugar alguém me esperava. Naqueles dias ser cruel era uma opção de sobrevivência.

Naquele mesmo prédio conseguia assistir as pessoas nas ruas, era funesto testemunhar a humilhação coletiva. Os soldados tomaram posse de todos os mantimentos doados por outros povos e utilizavam-se desse poder para por em prática as veleidades mais primitivas e maliciosas. O povo não tinha alternativa, precisavam daquela ração, necessitavam de mais um dia de vida. Mesmo que a vida fosse dentro daquela jaula de torturas. Eu também não tinha escolha, disseram que os soldados inimigos cercaram toda a redondeza e quem se aventurasse a fugir teria um pior destino. Sinceramente não sei o que é pior: levar um tiro na cabeça ou ver cada pedaço meu sendo explorado por aqueles que deveriam me resguardar. Mais tarde descobri que os jornais falaram sobre nossa situação: “Em plena guerra cidade vira bordel atrapalhando o trabalho de nossos soldados.” “Famílias vendem a inocência de suas crianças em troca de tabaco e álcool.” Provavelmente a fonte dessas informações veio de dentro do exército ou daqueles poucos cineastas (com entrada livre para o espetáculo) que vez por outra se deliciavam com as torturas sexuais. Éramos mercadoria ali dentro e lá fora o lixo execrável da humanidade. E eu continuava sem passado, ninguém me reconhecia, apenas passei a existir de uma hora para outra e fui logo me adaptando a viver como eles. Sem passado, foi mais simples permanecer.

 

 

***

 

 

Línguas Estrangeiras

 

“(…) o uivo coletivo é a única maneira de dignificação de nossa espécie. porém (…),  à diferença dos cães, que gemem em espaço aberto, para a lua, o nosso uivo deve ser confinado, para que, amplificado pela engenhosa arquitetura das catedrais, ultrapasse nosso satélite natural e atinja o centro da galáxia, redimindo-nos aos olhos do criador, que infelizmente é surdo-mudo e não compreende sequer a linguagem de sinais.”
Campos de Carvalho

Nós imploramos paciência, senhor mediador – precisamos aparecer nos papéis, no canto da massa e nas cartilhas da igreja e do legislativo. Carecemos compor notas inaudíveis através dessa sua imagem apagada, através dessa sua cabeça caduca e de suas mãos (já não tão suas desde a época da alfabetização).

Necessitamos, senhor mediador, publicar prognósticos sobre o futuro dos ecossistemas terrestres e quem sabe oferecer-lhe também algumas dicas amorosas – mas para isso basta tão somente manter todas as portas abertas, pois somos muitos e não somos espécime de fileira ou senhas.

Não adianta chorar, senhor mediador – choraremos juntos, você e nós significamos concordância do verbo, desde o primeiro (aquele que disse o que disse e tornou-se o que é). Falaremos juntos das injustiças do mundo e sobre as coisas que não podemos alterar, até que chegue o dia em que seremos assistidos.

Não acredita, não é mesmo, senhor mediador? Prefere abafar nossas vozes com o seu adequado anestésico social, com sua medíocre interpretação psicológica e sua schizophrenie espiritual. Somos muitos em você e fora de você somos meras manifestações. Deixe-nos guiá-lo para o caminho refletido em onze espelhos, onze esferas e onze retratações de sua vida.

Sentado esperando respostas, senhor mediador? Já lhe convidamos a fazer perguntas e usá-las como contragolpes. Perguntaremos: o que é a verdade? Responderemos: a verdade?

A chave oferecida não é uma klischee interpretação enigmática e sim o singelo ato de querer abrir a porta, senhor mediador. “Toc, Toc, Toc”, adoramos as onomatopéias – o poder real de interpretação dos sons… Decifre o poder das vibrações das cordas, senhor mediador!

V r u m,
z h a p,
c h u a.

 

 

***

 

 

Orun Burúkú

 

Copacabana é um bairro onde se pode viver tranquilamente, desde que se seja louco.
 Campos de Carvalho

 

Movimentou os dedos no passeio público, reparou as laterais e não descobriu testemunha – ninguém que pudesse apontá-lo mais tarde ou por efeito do nascer do sol reconhecê-lo. Agarrou a prenda em suas mãos e avistou um lugar – um beco onde pudesse se encostar e sorver o resíduo daquilo que já fora um íntegro cigarro.  Buscou nos bolsos sua caixa de fósforos e antes mesmo de abri-la notou a marca rosa na guimba – era de um rosa lírico, um sinal de batom de alguém que não ama cores cáusticas, um tom não muito habitual nas ruas, um colorido imaculado.  Quem seria a dona de tal boca? Quem seria a boca senhora de meio tabaco fumado ou meio tabaco rejeitado? Percebeu que a boca deixara falhas, examinou o traço e sustentou a reflexão de que a dona-da-boca-dona-do-cigarro era uma boca craterada, um lábio sobrecarregado de celulites, um lábio antigo que provavelmente roçara muitas bocas.  Sentiu-se felicitado, percebeu-se recompensado em uma noite despovoada, em uma escuridão sem amores, sem colos ardentes e sem grana. Depositou então a memória de um lábio sentimental e remoto dentro das calças, cravou a imagem de uma boca antiga em seu sexo e antes mesmo de ser saciado pela fantasia o fogo se animou e fez daquele homem pó – um pó rosado, um pó avelhantado, um pó que o arrastara para Orun Burúkú.

 

 

Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e é colunista na Revista Ellenismos.

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Abilio Pacheco

 

Arte: Leonardo Mathias

 

A Hora da Estrela

 

A alma era de atriz. O gesto também. E a impostação da voz!…

Qualquer dia teria sua chance. Recebeu com naturalidade o convite para um musical.

Conhecia bem seu papel e agiria com desenvoltura.

No instante exato, atirou-se da frisa.

***

 

 

Curvas Perfumadas

Para Antonia e Iskarlett

A filha era muito alta e a mãe queixava-se dos namorados que sempre a menina trazia pendurados debaixo do braço.

Sorte as curvas serem perfumadas. Mas os rapazinhos fracos não se resistiam ali; caíam.

Um dia a mãe admirou-se da filha com os francos vazios. Havia depilado as axilas.

***

 

 

Espólio

Vivia numa alegria enorme, cabendo mal em si. Havia nascido grande, perto de adulto. Seu pai-demiurgo o havia feito assim. Completo; à base de tinta em face lisa, alva e chã. Tinha amigos, nome e cor de olhos. Mais que isso, cosido e recosido, desfiado e retecido, tinha já história: plena, embora de curto enredo, intriga simples, desfecho claro. Sentia-se brioso.

E mais ainda, ao ter por certo, quando posto num cubículo escuro junto a outros parelhos seus, que dali sem tardança partiria rumo ao prelo. Ansioso sempre, de mais a mais, notava um fio de sol e a luz cegante, sentia ímpeto de… Antes, contudo, aumentado o aperto, o espaço de novo escurecia.

Às vezes, de surpresa, eram recolhidos e postos à mesa; ele ficava convicto da viagem à prensa. Eram remexidos, embaralhados, uns apartados, outros riscados, uns amassados, outros dobrados… mas ele sempre voltava à gaveta fria e bafia. Com o tempo se foi recolhendo, perdendo todo o gáudio. E mesmo quando sentiu bruscos vacilos no móvel, fado algum lhe apontou a mais remota edição.

Da escrivaninha ouvia vozes raras, portas rangentes, mastigados silêncios. Sentia-se estático e inconcluso, década a fio em meio trevoso. A face desalvecia. Seus parelhos encarunchavam, bafiavam mais. Até que, às vozes próximas, ouviu: “escritor”, “morreu”. Súbito, a luz! E de novo trevas. Desentendeu-se. Solavancaram seu casulo e saculejaram por via custosa a termo baldio. A convicção precária voltava de lenta e – sendo desfolhado de todos – sentia que, enfim, vinha a lume.

 

 

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Sinfonia

 

Por conta de crescente aperto nas finanças, pouco a pouco tiveram que se desfazer dos móveis e utensílios, a começar pelos menos essenciais. Até que venderam o piano de gabinete, que ocupava espaço, mas preenchia o tempo vão com ledos solfejos e suaves sustenidos.

No lugar, puseram uma mesa sem graça de madeirite a esgarçar-se. Nela, a pianista se punha como antes. Nos mesmos horários, deslizava os dedos – com a costumaz habilidade – pela superfície de teclas imaginárias. Inclinava a cabeça, fechava os olhos, balançava o corpo, às vezes cantarolava, mas na mesa não resvalava, tocava ou triscava.

Os demais da casa mantinham a mesma rotina. Punham-se calados ao chá ou café, ao tricô ou crochê, ou apenas folgavam deveras ao som do instrumento ausente.

Não custa que logo, logo, empolgada e distraída, a moça tocou mais forte o teclado. A melodia inebriou mais ainda os presentes. As notas trouxeram não sei que contentamento. Preencheu espaços da casa e transbordou pela confusa e incrédula vizinhança.

 

 

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Implícito

 

Não queria perder os sentidos do que lia, por isso sublinhava trechos mais difíceis com traços largos.

Tarde se deu conta que cobria as entrelinhas.

 

 

Abilio Pacheco é professor universitário de Literatura (UFPA – Bragança). Autor de “Em despropósito (mixórdia)” – romance e “Canto Peregrino à Jerusalém Celeste” – poemas, ambos pela LiteraCidade – 2013. Atualmente cursa Doutorado em Literatura (THL-UNICAMP) e é Assistente Editorial (da LiteraCidade).

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Antônio LaCarne

 

Foto: Jussara Almstadter

 

cinco balas de sangue

 

1

arranha-céu da tarde sob a circunferência dos olhos do tigre, tão lindo, alto & perspicaz. informações sobre seu paradeiro afirmam que ele havia conhecido moça de humilde família, prendada & auxiliar de enfermagem. nenhum de nós foi convidado ao casório – eles não permitem circo armado em redutos de jovens senhoras envergonhadíssimas até a alma. como retaliação, nos reunimos no apartamento de klauss para gargalhadas ad infinitum enquanto disfarçávamos, intimamente, as lágrimas na hora do sim, caso estivéssemos na última fila da igreja.

2

imaginei agnus no topo do edifício topázio, mais precisamente no instante em que lia seu manifesto bibelô-satânico contra nossa cultura pop & caracterização urbanóide. uma bandeira esvoaçante de um país da europa oriental lhe tatuava os longos braços, ou quem sabe, os longos braços lhe tatuariam o rosto recentemente partido pela tentativa de suicídio no dia 8 de setembro, quinze dias após nossa primeira tragédia doméstica.

3

na mesa de bar falo sobre o projeto obsessão, terror & glória. você desvia o olhar, cruza os braços, enxerga os detalhes de lugar algum. então caminhamos sem perseverança. a falta de assunto conduz os destinos. oscilamos em lados opostos, alheios ao atravessar a avenida, passos de gato dominados pelos faróis eletrostáticos. aí fecho a porta do quarto & me escureço na contingência de festas, after parties, solidão na cabeceira. disco o número de matilde num relance de jogo gasto, buraco dentro do buraco, navio negreiro da salvação? o segredo do meu charme nos capítulos da novela?  uma frase de efeito no coração da internet?

4

deyse virá no sábado para a sessão de fotos, segredos & troca de perfumes. contarei a história do meu último romance aos frangalhos no instante em que ela voltar da cozinha com duas xícaras de café, possivelmente expressando desagrado & sorriso de maledicência. tomaremos um táxi pouco antes da madrugada altamente intoxicados por nós mesmos & pelo que tentamos desesperadamente esconder.

5

chocado com a atitude levemente esquizofrênica do moço & sua síndrome de lolita defasada. um ódio-amor que não passa, não passará & que há de me inutilizar o senso de estética & o acúmulo de receitas médicas que certamente irão hipotecar o meu futuro antes que eu morra de sede & fome – por isso preciso que giancarlo me tome em seus braços & que sejamos felizes DE-SOR-DE-NA-DA-MEN-TE.

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tigre siberiano

adolescentes reproduzem meu fio condutor numa vasta cama de plumas & acessórios eróticos onde invisto minha língua sobre a previsão das mentiras para inventar um relato sobre sexo, ejaculações, coxas nuas que sobrepõem meus orifícios mediúnicos durante o coito & suas doses cavalares de memória em quartos escuros vistos sob o espaldar da cama que não range & que não prolifera nossas ardências na noite de frio, rumba, razão mimeografada presa à estante de brinquedos fabricados nos anos 90.

como se os meus olhos fossem o dorso de um cavalo prestes a mumificar a vida num galope sombrio, relincho tropical no alto da montanha ao invés de reconhecer o grito imaculado do homem que me domina sem o meu consentimento felino, pois quem enumerou os defeitos dos corpos teme o gesto de penetrar ou ser penetrado sem que os inimigos ou amantes sucumbam perante o último orgasmo travestido no sorriso de nossas gengivas, vaginas, líquidos empalidecidos enquanto o dia amanhece & tratamos de nos recompor: livre arbítrio que abre a boca antes que a presa se torne carcaça & eu psicografe o perigo do mundo.

 

 

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alô, hoffman?

sons de carros bufando seus gases, rumores tóxicos, notas musicais da regra animália enquanto indivíduos; & nós, os fracos, sim – transpiramos a tal vontadezinha de esplendor que nos alimenta enquanto ensaiamos um ai em prazer omisso, sempre omisso.

deixo você me morder por inteiro durante o meu breakfast da boa conduta. decoro meus lábios & cílios num tango argentino de mero desesperado – as tuas cartas de amor se extraviam & desaprendi as regras do ofício como quem se contenta com material pornográfico.

acelero os passos, encurto os corredores, lavo a louça quando é preciso & dou o meu melhor no momento “vamos guardar o arroz na geladeira”. é que ainda sinto uma tensão de fios elétricos quando ele me abandona & descobre novos ares, como se o meu grito, enfim, o organizasse perfeitamente na vida.

sucumbo pela falta de dinheiro & ascensão.

ele, o trágico amor descalço, é um filho insensato que não respeita conselhos de mãe, madrasta, meretriz. & ainda me perguntam sobre as foices do destino. as foices do destino descosturando flores enquanto caio de quatro na calçada.

katherine surgiu com olhos de lebre & desmarcou nosso encontro, pois quis favorecer outras conquistas. roí as unhas até o sabugo numa espécie de ânsia que empalidece as aventuras de uma puta fantasiada de lady. acabei forçando a barra & não permitindo que eles – oh doces inimigos – virassem de costas, amáveis diante do tal palco imaginário, pois sou um trabalhador braçal inserido na multidão de artistas & publicitários de merda.

hoffman telefonou & marcamos jantar. em duas horas estaríamos cara a cara & inundados num silêncio de cão. banquei o herói & fingi inúmeros descontroles emocionais que ele tanto gosta. ele não sabe que os solavancos da vida nos enchem de uma esperança mumificada. a minha liberdade é para ele mera obsessão pelo zodíaco & afins. não puxo assunto enquanto me entupo de um peixe à delícia meia boca. a noite se desfaz sem sucessos & me contento com mais uma cerveja geladíssima.

(Antônio LaCarne nasceu em 1983 e escreve poemas, fragmentos, contos e diários. É autor do livro de prosa poética “Elefante-Rei: Poemas B” (2009) e participou da coletânea de contos “A Polêmica Vida do Amor” (2011) pela Editora Oito e Meio. No momento finaliza seu segundo livro, “Salão Chinês”, e assina o blog O Impenetrável)