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80ª Leva - 06/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

José Aloise Bahia

 

CONTRATEMPOS LIBERDADE || O BEM-TE-VI ABSTRATO-GEOMÉTRICO || A HISTÓRIA SE REPETE

Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. [André Gide]

 

Tela: JB Lazzarini
                                                                                                                                        

JANEIRO || FEVEREIRO: “Começou o ano martelando água em Inhotim. Salvou a paisagem tropical da morte, e renasceu contemporâneo. Num dado momento, a andorinha pinta o céu de vento. Passa o gato movido a álcool, e outra nuvem anuncia a substância do verbo. Tirou as roupas das expressões e assoviou bem-te-vi.”

MARÇO || ABRIL: “O bem-te-vi quer ter filhos. Ampliou a solidão com lápis cinza na máscara de Carnaval. Sua mãe diz que não é coqueluche. Vacinou contra catapora. Mesmo assim, rastejou entre moscas, segurando os ovos entre palhas escuras.”

MAIO || JUNHO: “Os ovos chocaram verdes com tons amarelados. Duras penas aguentam a picada da cobra coral, que engole o perfume da trepadeira. Vermelho com amarelo perto, fique esperto; vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado. Não é uma jararaca. Sobrou só um bem-te-vi abstrato-geométrico no silêncio que estica a noite.”

JULHO || AGOSTO: “Tentou criar o bem-te-vi na gaiola com pedaços de palavras açucaradas. Veio o gato entortar a gaiola. Comprou pastilhas Valda. E tomou remédio alopático para começar o mês, numa escrita automática, contando os riscos de dar nomes existenciais às flores.”

SETEMBRO || OUTUBRO: “Desmanchou o quintal, fez florir três jardins, e soltou o bem-te-vi. Perdeu aquilo que encontrou, quando o gato retornou. Os ratos detestaram a ideia. Almoçou frango xadrez, sentindo gosto de liberdade, inventando nova gaiola.”

NOVEMBRO || DEZEMBRO: “Queria ser lido nos bicos dos passarinhos. Contrariado, armou a arapuca. Foi repetir o canto do bem-te-vi, a história. Criou a ilusão de que a metamorfose poderia ser contrariada. Tempo passado, abusando gerúndio: o cisco incomoda muito o olho esquerdo, pois a liberdade sempre machuca num abandono sem fim.”

A HISTÓRIA SE REPETE || O BEM-TE-VI ABSTRATO-GEOMÉTRICO || CONTRATEMPOS LIBERDADE

 

Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. [André Gide]

 

NOVEMBRO || DEZEMBRO: “Queria ser lido nos bicos dos passarinhos. Contrariado, armou a arapuca. Foi repetir o canto do bem-te-vi, a história. Criou a ilusão de que a metamorfose poderia ser contrariada. Tempo passado, abusando gerúndio: o cisco incomoda muito o olho esquerdo, pois a liberdade sempre machuca num abandono sem fim.”

JANEIRO || FEVEREIRO: “Começou o ano martelando água em Inhotim. Salvou a paisagem tropical da morte, e renasceu contemporâneo. Num dado momento, a andorinha pinta o céu de vento. Passa o gato movido a álcool, e outra nuvem anuncia a substância do verbo. Tirou as roupas das expressões e assoviou bem-te-vi.”

MARÇO || ABRIL: “O bem-te-vi quer ter filhos. Ampliou a solidão com lápis cinza na máscara de Carnaval. Sua mãe diz que não é coqueluche. Vacinou contra catapora. Mesmo assim, rastejou entre moscas, segurando os ovos entre palhas escuras.”

MAIO || JUNHO: “Os ovos chocaram verdes com tons amarelados. Duras penas aguentam a picada da cobra coral, que engole o perfume da trepadeira. Vermelho com amarelo perto, fique esperto; vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado. Não é uma jararaca. Sobrou só um bem-te-vi abstrato-geométrico no silêncio que estica a noite.”

JULHO || AGOSTO: “Tentou criar o bem-te-vi na gaiola com pedaços de palavras açucaradas. Veio o gato entortar a gaiola. Comprou pastilhas Valda. E tomou remédio alopático para começar o mês, numa escrita automática, contando os riscos de dar nomes existenciais às flores.”

SETEMBRO || OUTUBRO: “Desmanchou o quintal, fez florir três jardins, e soltou o bem-te-vi. Perdeu aquilo que encontrou, quando o gato retornou. Os ratos detestaram a ideia. Almoçou frango xadrez, sentindo gosto de liberdade, inventando nova gaiola.”

(José Aloise Bahia é jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta, colecionador e crítico de artes plásticas e literatura. Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004). Participa, dentre outras, das antologias O achamento de Portugal (Lisboa: Fundação Camões/Belo Horizonte: Anomelivros, 2005) e H2HORAS (São Paulo: Cronópios/Dulcinéia Catadora, 2010). E-mail: josealoise@gmail.com )