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153ª Leva - 01/2024 Destaques Olhares

Olhares

Refúgios cotidianos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Zô

 

Mirar as coisas diante das visões que se avizinham: eis uma das características do universo criativo daqueles que se dedicam a representar imageticamente o mundo. Ou termo melhor seria o de que artistas nos apresentam a multiplicidade de fenômenos mundanos? Impasses terminológicos à parte, já nos é dado saber que não saímos os mesmos diante da experiência que nos revela signos capazes de trazer à baila horizontes pautados na matéria da vida que testemunhamos incessantemente.

Então, o gosto pelas manifestações embotadas de rotina não nos mostra a inércia dos dias. Pelo contrário, faz com que vislumbremos em tais epifanias recortes marcantes da existência. E é esse olhar humano carregado de sutilezas e atento a detalhes singulares quem pode fazer a diferença no fértil terreno artístico.

De todo o dito acima, arrisco que a produção de uma artista como Giovanna Gonzaga, paulista de nascimento e hoje radicada em Curitiba, seja porta-voz dessa noção um tanto mais atenta aos pormenores dos cenários da vida. Assinando seus trabalhos como , que é como prefere ser chamada, essa artífice das imagens demonstra que é possível reter nuances do mundo em que habitamos através de escolhas confessadamente atravessadas por certa dose de encantamento.

E Zô revela que esse olhar que prima por tal encantamento busca nas paisagens do dia a dia a potencialidade encerrada nas expressões marcadas pelo anonimato. Daí que a face oculta dos agentes que fiam o tecido dos dias ganha uma outra possibilidade, pois se desdobram em formas e cores dispostas a uma reconfiguração das cartografias humanas. Dizer isso é reconhecer que há um sem fim de alternativas delineadas pelo traçado comum da vida, mas que se mostram através de perspectivas diferenciadas, denotando sentidos peculiares de abordagem.

 

Arte: Zô

 

A arte de Zô aposta na dose agigantada de distorção das formas, com criaturas com seus corpos alongados e na representação difusa dos espaços e ambientes. Diga-se de passagem, também o uso das cores aparece aqui conjugado a essa noção multiforme e não convencional da vida, pois tal predileção criativa aponta sobretudo para a ênfase que precisa ser dada a certos clamores existenciais.

Outro importante componente do trabalho da artista é sua inclinação para o território do fantástico, inclusive engendrando contornos, seres e cenários muito típicos daquilo que habita as entranhas do extraordinário. Com isso, Zô nos prova que é possível lançar lentes de aumento sobre a realidade, subvertendo, no bailado insubmisso das formas, qualquer lógica que tente limitar as alternativas de se flagrar a vida.

Entre gravuras, animações, pinturas, tatuagens e arte sequencial, Zô desfila toda a multiplicidade de suportes sobre os quais estão apoiados seus caminhos artísticos. E esse cardápio de opções variadas diz muito sobre a capacidade da artista em poder fundar mundos no mundo, descortinando predileções imagéticas que transbordam doses de intensidade. Sua voz, antes de mais nada, se faz sentir pelo teor abundante através do qual as criações recaem. Na interface profusa  entre seres, lugares e objetos, a arte aqui está posicionada como retratadora do gesto espantado que nos constitui.

 

Arte: Zô

 

* A arte de Zô é parte integrante da galeria e dos textos da 153ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ricardo Thadeu

 

“Desespero”: Claudio Parreira

 

VOZ

 

Está tudo aí:

Os discos de heavy metal,
O último discurso do condenado,
O recado na agenda do ministro,
O bem, o mal, a torpeza
E a bunda em rede nacional.

Somos abonados pelo futuro.
E não há tropeço.

Há caminho.
………………Apenas um.

E seguimos por ele, em fila indiana,
Adiando o regresso.

 

 

 

***

 

 

 

BAQUE

 

Aposentei o velho discurso.

De longe,
Acompanho o curso da história.

Há tantas célebres frases
E nenhum acelerador de partículas.

Há tantas formas de amoldar
E nenhuma de embrutecer.

Penso nos debates, nas contendas,
Nos homens minúsculos,

No mormaço dos becos;
Penso na sorte dos imaculados

E no monge, na montanha,
A descobrir novos silêncios.

De longe, muito longe,
Acompanho o cerco da morte.

 

 

 

***

 

 

 

REALEZA

 

A corte do passado
Passou dessa
……….Pra uma pior:

O príncipe pop
Virou ator pornô;

A rainha do rebolado
Mendiga likes e views;

O imperador
……….Do reality show
Foi achado morto.

A corte do passado ─
Quem diria? ─
Passou dessa
……….Pra uma pior:

Subiu às nuvens
Em arquivos virtuais.

 

 

 

***

 

 

 

ESCONDERIJO

 

Só acredito no que não sinto,
No mistério, na pergunta eterna.

Inferno? Deus? Extraterrestres?
Creio no enigma que os cerca;

Creio nos poemas não escritos,
Na poesia que emana do engano.

Não espero respostas definitivas,
Nem que um sábio dê o Veredito.

A face oculta das coisas táteis:
Eis aquilo no que (só eu) acredito.

 

 

 

***

 

 

 

MAKE DEATH GREAT AGAIN

 

Não estamos na Idade das Trevas,
Mas não estamos
……………..No Século das Luzes:

Estamos na época

Dos homens fartos
……………..De coisa alguma,
Das cruzes que viram espetáculo;

Dos celulares incríveis,
Dos dedos sujos apontados pro errado;

Dos argonautas virtuais
Presos em suas bolhas,
……………..Barcos naufragados;

Das dietas malucas,
Dos corpos de fast food,
Dos que não comem carne
…………….E dos que não plantam
…………….Uma só semente.

Não estamos na idade das trevas
Mas já não temos
……………..Tanto tempo assim.

 

 

 

***

 

 

 

ENCHENTE

 

Inquilinos tiram móveis
E rezam pro Santo de devoção.

Além das histórias,
Dos homens cobertos de lama

E da bondade dos abutres,
Há uma falsa esperança:

As águas do Jacuípe
Encontrarão novo caminho.

 

 

 

***

 

 

 

DAS MEMÓRIAS

 

Vejo tudo com bastante nitidez,
Mas não posso revogar o tempo:

Minha mãe mexendo o café,
Seu rosto sumindo entre nuvens;

Meu pai estacionando o Chevette,
Toda tristeza embaixo do bigode;

E eu, desperto, nutrindo planos
Que não realizo antes de morrer.

Vejo tudo num fio de memória
Tão nítido quanto não deveria ser.

 

Ricardo Thadeu (1989), nascido em Riachão do Jacuípe-Ba, é mestre em Estudos Literários (UEFS), professor e escritor. Publicou diversos livros, sendo “Você não deve pensar nessas coisas” (Penalux, 2020, poesia) o mais recente. É integrante de mais de uma dúzia de antologias, dentre elas: “Tudo no mínimo: antologia do miniconto na Bahia” (Mondrongo, 2018, miniconto).