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111ª Leva - 05/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – AINDA HÁ TEMPO

 

Capa Criolo

 

O messias do Grajaú está de volta para revigorar seu primeiro “sermão da periferia”. Lançado há 10 anos, com distribuição de pífias 500 cópias e repercussão reservada à orbe hip-hop, Ainda Há Tempo (2006) – primeiro álbum de Criolo (ainda Doido) – ganhou uma versão redux (apresenta apenas 8 das 22 faixas originais) em maio, pelo selo Oloko Records. O que poderia ser tão somente uma reedição remasterizada de um dos registros mais expressivos do rap nacional tornou-se uma nova versão – ainda que diminuta – que carrega o suprassumo do álbum de outrora. Se o rapper economizou no número de canções e na divisão dos vocais (há apenas a participação de Rael), abusou nas parcerias técnicas: cada faixa é assinada por um produtor diferente, o que, de certa forma, garante um frescor ao disco, novamente sob supervisão derradeira de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Como diz Criolo ao final de Tô Pra Ver: “2016. Eu escrevi essas músicas há 15 anos atrás e nada mudou, Senhor (…)”. Além dos beats, pouco mudou nesta versão compacta de Ainda Há Tempo. E talvez seja este o intuito: simplesmente formatar aquela proliferação de vinhetas e argumentos (mesmo que bons) que seriam dissecados em Nó Na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2014). Sente-se a ausência de algumas canções importantes que ficaram de fora da obra, caso de Rap É Forte, No Sapatinho e Aprendiz. Parafraseando o artista, “o que você quer, nem sempre condiz com que o outro sente” [necessidade de expressar].

É o Teste (more aonde for/viva o que viver/seja um homem/e mantenha a sua postura), repaginada por Nave, abre o álbum com um discurso positivo diante das desventuras cotidianas, comprovando que “sobreviver é só pros fortes”. Na sequência, Chuva Ácida (peixes mutantes invadindo o congresso/vomitando poluentes com o logotipo impresso/B e R, quem é do mangue não esquece/as vítimas perecem, as famílias enlouquecem), revitalizada por Sala 70, talvez seja a melhor canção do remake, fazendo jus a sua atualização (originalmente composta por Criolo para um concurso sobre meio ambiente) traz referências – em forma de pequenos depoimentos – ao desastre ambiental da cidade de Mariana (MG). Enquanto o reggae-rap Tô Pra Ver (tô pra ver um daqui sucumbir/você pode até sorrir mas no final vai chorar) tem a produção de Grou e repete a participação de Rael (que na primeira versão do álbum ainda era Da Rima), Bréaco (só pode falar de vida quem vive/só pode falar de sofrimento quem sofre/só pode falar de amor quem ama/só pode falar de flow quem desenvolve), produção de Deryck Cabrera, manteve o astral original através de uma bateria eletrônica marcante.

 

Criolo
DJ Marco, Criolo e DJ DanDan / Foto: divulgação

 

Em Até Me Emocionei (então, pra falar do que sinto cantei/cantei, me expus e até me emocionei), revigorada por Sem Grana – onde Ganjaman assume os backing-vocals –, Criolo explica por que “o homem é um animal que está sempre em conflito com a mente”. Em contrapartida, a sempre empolgante Demorô, produzida desta vez por Papatinho, perdeu a potência, tanto da versão original quanto da registrada no CD/DVD Criolo & EmicidaAo Vivo (2013), marcada por um vigoroso solo de guitarra de Guilherme Held. O mesmo aconteceu com a pró-AA Vasilhame (o governo libera porque lucra com isso/e a gente toma cachaça até no aniversário de Cristo) – presente no CD Criolo Doido: Live in SP (2008) –, recriada pela dupla Tropkilazz, ponto alto em vários shows do artista. Se a versão submergiu na empolgação, ganhou no politicamente correto. Originalmente, certos versos diziam: “Os travecos tão aí, oh! Alguém vai se iludir!”. Ao compreender o sentido pejorativo do termo, o MC admitiu a imaturidade da letra e resolveu alterá-la para a palavra “universo”. A propósito, Criolo e DJ DanDan aproveitaram seu último show no festival João Rock, em Ribeirão Preto (SP), para convidar o público a condenar a tríade do preconceito: racismo, machismo e homofobia. Por fim, a homônima Ainda Há Tempo (as pessoas não são más, mano/elas só estão perdidas), primeiro single liberado, quase cantado à capela, produzido por Ganjaman e Cabral, encerra o álbum em ritmo esperançoso: “não quero ver você triste assim, não. Que a minha música possa te levar amor”.

Concebido inicialmente para celebrar os 10 anos de Ainda Há Tempo, uma vez que o registro nunca teve sequer um show de lançamento ou uma turnê, a ideia ganhou formato físico após o envolvimento de diversos nomes, tais como o do grafiteiro Alexandre Orion, que assina a direção de arte do projeto. Recebido sem muito alarde por fãs e críticos (sempre ávidos por novidades vindas da fonte do rapper, que parece nunca secar), o álbum, como de costume, está disponível para audição e download gratuito no site do artista. É interessante perceber que há uma década a poesia abstrata do profeta do rap já apontava a miséria, o desamor e o consumo de drogas pela bancarrota da humanidade. De fato, quase nada mudou. Ainda há lamento.

 

 

 

Larissa Mendes perde a rima, mas não perde a resenha. Em tempo: tal como o álbum de Criolo, a Diversos Afins também comemora 10 anos de estrada em 2016. Ao contrário, de lá pra cá, muita coisa mudou [para melhor] e o orgulho em contribuir com a causa de Fabrício e Leila só cresce. Parabéns pelas bodas de estanho. Vida longa e levas prósperas.

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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – CONVOQUE SEU BUDA

 

Criolo

‘Eu não venci nada, ninguém vence nada. A gente só passa’.
(Criolo)

 

Três anos se passaram e Criolo – codinome de Kleber Cavalcante Gomes – permanece honrando as raízes africanas do pai (meu lado África, aflorar, me redimir) e subvertendo a candura cearense da mãe (é que eu sou filho de cearense/a caatinga castiga e meu povo tem sangue quente). O álbum com nome de mantra é o terceiro registro de estúdio do rapper e um dos mais aguardados do ano. Lançado em novembro e novamente produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, ambos integrantes de sua banda, o disco está disponível para audição e download gratuito no site do artista. O trabalho comprova o amadurecimento sonoro do homem com olhar de profeta, que quase abandonou a música antes de gravar o impactante Nó Na Orelha (2011).

É preciso lembrar que no ínterim de um álbum e outro, o músico lançou o CD/DVD Criolo & Emicida – Ao Vivo (2013), filmado todo em GoPro (vencedor do 25º Prêmio da Música Brasileira), além de canções para projetos específicos. A exemplo de seu antecessor, as 10 faixas de Convoque Seu Buda (Oloko Records) continuam aproximando o rap aos mais diversos ritmos, como samba, reggae, soul e até mesmo ao baião. Criolo não só imprimiu definitivamente o gênero na música popular brasileira, como dividiu o palco com alguns de seus maiores expoentes, como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Milton Nascimento, comprovando que, de fato, não existem barreiras para sua poesia.

Criolo
Criolo nos trilhos de “Convoque Seu Buda” / Foto: Divulgação

 

A faixa-título, o rap-oriental Convoque Seu Buda (ao trabalhador que corre atrás do pão/é humilhação demais que não cabe nesse refrão) abre o álbum invocando Shiva, Ganesh e demais deuses para que mantenham nossa fé e equilíbrio diante do panorama atual. A letra incisiva de Esquiva da Esgrima (hoje não tem boca pra se beijar/não tem alma pra se lavar/não tem vida pra se viver/mas tem dinheiro pra se contar) mantém a tônica social, tecendo críticas que vão do racismo ao abuso de autoridade: é o ‘céu da boca do inferno esperando você’. O contagiante soul setentista Cartão de Visita – um dos momentos mais ensolarados do álbum –, parceria com Tulipa Ruiz, discorre sobre o consumismo-ostentação e relembra com bom humor a controversa entrevista concedida a Lázaro Ramos no programa Espelho, do Canal Brasil (Lázaro, alguém nos ajude a entender!), que virou meme na internet. Casa de Papelão (prédios vão se erguer/e o glamour vai colher/corpos na multidão) aborda a especulação imobiliária do centro de São Paulo, enquanto o samba Fermento pra Massa (eu que odeio tumulto/não acho um insulto manifestação/pra chegar um pão quentinho/com todo respeito a cada cidadão) – que bem poderia integrar a roda do Pagode da 27, nos domingos do Grajaú –, discute as manifestações populares.

Enquanto o reggae Pé de Breque (o Criolo Doido respeita o rastafári/e pede licença pra poder cantar/essa nossa teoria secular/és responsável por tudo que cativar) celebra o estilo Bob Marley de ser, o baião Pegue Pra Ela tem um quê de Chico Buarque e deixa qualquer um com vontade de puxar seu par para dançar. A densa Plano de Voo (e por mais que eu tente explicar, não consigo/de tornar concreto abstrato que só eu sinto/é como se eu ficasse aqui nesse cantinho/vendo o mundo girar no erro abusivo), que flerta com o hip hop de Ainda Há Tempo (2006), seu primeiro álbum, tem a intervenção do rapper Neto (Síntese) e atinge o clímax do álbum. Duas de Cinco (e eu fico aqui pregando a paz/e a cada maço de cigarro fumado/a morte faz um jaz entre nós), lançada inicialmente em 2013, em EP homônimo, faz as honras para ‘tombar o mal de joelhos’ no experimentalismo regional de Fio de Prumo (Padê Onã), que tem participação de uma onipresente Juçara Marçal e fecha o álbum no melhor estilo africano.

É notável que o discurso de Criolo está cada vez mais contundente e aprimorado para além da crueza periférica. Em sua poesia abstrata, ele responsabiliza a miséria, a inveja, o desamor e principalmente o consumo de drogas pela falência do ser humano. E cita ainda a depressão como “a peste entre os meus”. Os arranjos estão cada vez mais experimentais e ousados, assim como a arte do álbum, que se apropriou do acervo digital liberado pelo Museu Nacional da Holanda (Rijksmuseum) para construir uma bela colagem, onde a figura central é um oficial da Corte da Ilha de Java (Indonésia) de saiote, pintado a óleo, em 1820, por um artista não identificado – e que se assemelha muito ao rapper.

Em tempo: assisti o terceiro show de lançamento da nova turnê, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, que contou com os convidados especiais Síntese, Tulipa Ruiz e Ricardo Rabelo (Pagode da 27) e afirmo que Criolo continua em perfeita comunhão com seu público. Ao final da celebração como costuma chamar seus espetáculos , o artista recebeu calorosamente os fãs. Posso dizer que o abraço apertado do messias do Grajaú conforta e abençoa. Convoque Seu Buda é o relicário do ano e Criolo não passará tão cedo.

 

 

 

Larissa Mendes não é uma pessoa de muitas crenças, mas ainda acredita no ser humano.

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Brasil. 2010.


 

“(…) Mas só viveu de fato quem conheceu luz e sombras”.

É inquestionável que O Bandido da Luz Vermelha (1968), primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, então um jovem crítico de cinema de 22 anos, tornou-se um manifesto do denominado cinema marginal. O filme – baseado na história de João Acácio Pereira da Costa, lendário assaltante de mansões paulistanas que usava um lenço para cobrir o rosto e uma lanterna de bocal vermelho – revela todo o experimentalismo, estrutura díssona e estética radical que romperam o tradicionalismo narrativo da época, ignorando censura e mercado e conquistando público e crítica. Endossado por nomes como Ozualdo Candeias, Andréa Tonacci, Júlio Bressane e João Silvério Trevisan, os marginais foram grandes entusiastas da ironia e da subversão da linguagem cinematográfica brasileira. Pressionado pela ditadura militar, o movimento teve seu fim em meados da década de 70, com vários cineastas exilados na Europa. Sganzerla faleceu em 2004, vítima de um tumor cerebral, mas deixou como legado o que seria o roteiro original de uma continuação deste clássico: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, adaptado anos depois pela atriz Helena Ignez (viúva do cineasta e sua eterna musa) e transformado quase em projeto familiar, produzido e protagonizado pelas filhas do casal.

Jorge Prado – uma das identidades do Bandido da Luz Vermelha – ou simplesmente Luz (Ney Matogrosso) é um prisioneiro de si mesmo. Condenado a 300 anos de cadeia e recluso há 30, o “malandro forçado pelas circunstâncias” viu sua pena gradativamente reduzida (e suas regalias atendidas) de acordo com os crimes não-resolvidos que assumia ser autor. Os mais atentos logo questionarão: como pode Luz estar preso se ele morre eletrocutado no filme de 68? Ao que o próprio detento protesta enquanto assiste a cena: “– Não foi assim que eu ensaiei pra morrer!”. Jorge Bronze (André Guerreiro Lopes), codinome Tudo-ou-Nada, é filho de Luz, fruto de seu relacionamento com Olga (Sandra Corveloni), uma das muitas mulheres que realizam suas fantasias sexuais em visitas íntimas na prisão. Tudo-ou-Nada ingressou na marginalidade ainda moleque, cometendo pequenos furtos antes mesmo de saber sua filiação famosa. Após a revelação da mãe, torna-se uma espécie de sucessor de Luz Vermelha (ou de Michel Poiccard, em referência ao personagem de Acossado, de Goddard), tanto na indumentária criminal quanto ideológica, cujo lema é “ouro ou euro”.

Ney Matogrosso na pele do Luz Vermelha

Vale salientar que em nenhum momento Ney Matogrosso fica intimidado pela sombra de Paulo Vilaça (o bandido original): o cantor está magnífico e totalmente entregue no papel de um Luz Vermelha enjaulado e amargo, que se exercita com aparelhos improvisados, lê Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, recita Kant em espanhol, declama com veemência profundas reflexões sobre a prisão e a vida, e faz uma performance de seu próprio Sangue Latino. O longa (que à primeira vista pode ser confundido com título de terror) conta ainda com rápidas participações de Bruna Lombardi, Maria Luísa Mendonça, Simone Spoladore, Paulo Goulart, Sérgio Mamberti, Arrigo Barnabé, José Mojica Marins, Thunderbird e Criolo. A própria Helena Ignez está no elenco como Madame Zero, uma antiga confidente de Luz, assim como sua filha Djin Sganzerla, que interpreta Jane, personagem homônima e semelhante (inclusive fisicamente) ao de Helena no primeiro filme. As “Janes” são namoradas, respectivamente, de bandido-pai e bandido-filho e protagonizam a mesma cena a bordo de um Galaxie conversível em direção à praia.

Menos que uma sequência e mais que um remake (além da inserção de cenas do original, estrutura, planos e mesmo determinados diálogos se mantêm idênticos), Luz nas Trevas é um tributo a criador e criatura. Montado em 2010, o filme participou de alguns festivais e sofreu vários cortes até chegar a sua versão definitiva, lançada oficialmente sem muito alarde somente este ano. Dirigido por Helena Ignez em parceria com Ícaro C. Martins, a película revisita e reverencia um artista e sua principal obra que – mais de 40 anos depois – continua moderna e transgressora. Mantendo o discurso político do filme referencial, através de locuções radiofônicas sensacionalistas (com narrações também de Helena, Ney Latorraca e Gilcivan Carvalho) e de uma coletânea de frases de efeito (várias delas em letreiros luminosos), Luz nas Trevas permanece criticando a mídia e a polícia, o sistema carcerário (“numa penitenciária ninguém se penitencia de nada”) e a justiça brasileira (“os grandes espertalhões do Brasil não vão pra cadeia”). Definitivamente o cinema-herança do catarinense Sganzerla segue vivo, contestador e atemporal. Se há luz nas trevas [da prisão], por que não haveria originalidade na aparente mesmice?

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TULIPA RUIZ – TUDO TANTO

 

 

 

Tulipa Ruiz ataca de novo: fato consumado. Não foi uma emoção “efêmera” acreditar que a cantora e compositora aconteceria bem mais do que um instante primeiro. Não, não foi. E o ato de pensar que as coisas não cabem em si mesmas pode até justificar, de imediato, o título da nova investida. Tudo Tanto é, sim, uma espécie de incontido, talvez o algo indefinido da pós-modernidade. E deixemos de lado as redundâncias aparentes desse somatório de palavras que se traduzem no rumo da intensidade.

O segundo disco dessa arrojada criadora é um beijo de língua na contemporaneidade. Sem exageros e afetações, a moça se agarra ao presente como o único lugar quase certo que habitamos. Seu canto preciso emana de lugares que não deixam a vida parar de girar. Nada de promessas do paraíso nem tampouco receitas prontas de felicidade, principalmente quando a tônica é falar do amor e seus apetrechos. Viver, aqui, é fazer travessias sem saber o que está do outro lado. A receita é tatear o invisível e não profetizar os desvios. Apenas seguir.

A marca autoral de Tulipa confere uma singularidade aos caminhos percorridos, tanto que seu traço criativo está espalhado por todas as faixas do disco. Diga-se de passagem, o peso que a porção de compositora exerce sobre o trabalho da artista é significativo e reforça as bases de um perfil cada vez mais próprio. Se em Efêmera (primeiro disco da cantora) já tínhamos pistas do terreno valioso no qual nossos ouvidos estavam penetrando, agora fica a certeza de que algo muito melhor estaria à nossa espera.

Tudo Tanto é, sobremaneira, um disco sensorial, repleto de experiências não apenas sonoras, mas também imagéticas e quiçá táteis. A canção “É”, por exemplo, espécie de abre-alas, já nos coloca em conexão com a dinâmica dos sentimentos sublimes em torno do amor e da vida. E tudo ali a passar como num filme no qual cada um de nós se identifica à sua maneira. De fato, o que há de sobra no álbum é uma multiplicidade de cenários possíveis para nossa volátil existência.

Cada trecho desse agradável percurso musical tem algo a ser degustado e digerido sem medo de reações adversas. Mais provas? Basta captar as vibrações de Ok, Quando eu achar, Desinibida, Dois Cafés (com Lulu Santos), Bom e Cada Voz. Em Víbora, canção escrita em parceria com Criolo e que pode muito bem servir como verdadeiro ápice do disco, Tulipa mostra que seu momento é precioso, intenso e agarra com todas as forças de sua lírica voz o universo que a canção lhe oferta.

Para tornar o ambiente ainda mais especial, é impossível passar despercebido pelos arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias e devidamente regados a violino, violoncelo, viola, clarinete, flauta e clarone. Some-se a isso o dedo valioso de Gustavo Ruiz, irmão da cantora, na produção do álbum e na composição de algumas canções.

Em sua atmosfera essencialmente pop, Tudo Tanto é bem construído em forma e conteúdo. A simplicidade das letras ganha uma dimensão mais ampla quando somada ao precioso trabalho vocal de Tulipa e aos vigorosos arranjos. Falar de relações, sobretudo amorosas, não é tarefa das mais fáceis. E isso parece fluir com certa leveza nas mãos habilidosas da artista que sabe, como ninguém, transitar por lugares que tiram a maioria das pessoas do sério. No embate entre sentimentos certeiros ou imprecisos, tudo se desloca para adiante e o passado pode representar apenas uma mera lembrança nada nostálgica. Tudo isso talvez “porque estar vivo já foi mais estranho”.

 

 

* Tudo Tanto está disponível para download no site da artista


 

 

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67ª Leva - 05/2012 Gramofone Outras Levas

Gramofone

Por Fabrício Brandão

GUI AMABIS – MEMÓRIAS LUSO AFRICANAS

 

 

 

Reúna toda a sorte de sentimentos que possam tecer um mosaico de válidas lembranças. Em seguida, junte boas doses de afetos, algumas fotografias retidas na mente e outros ensinamentos impregnados do sempre útil tempo das escutas. Antes de cerrar o baú de sentidos múltiplos, não se esqueça de colocar, por entre as vestes embaladas do corpo, medidas abundantes de boas sonoridades. Depois que tudo estiver pronto, mire detidamente o tecido estampado e vivaz que envolve o todo organizado. Então, é partir para o universo paralelo, onde cenários abusam de colorir memórias.

Quem lê tamanha alegoria, certamente construirá o ambiente que lhe parecer melhor. E o segredo é não ter receita para perceber as coisas sublimes da vida. Assim nos diz o belíssimo primeiro trabalho solo de Gui Amabis. De início, é imperativo dizer que estamos diante de um disco cênico, no qual as imagens se multiplicam a cada som ou voz expelidos. Com isso em mãos, ou melhor, nos ouvidos, tudo ganha mais vigor e força, principalmente pela forma cuidadosa com a qual o músico compartilha conosco parte substancial de sua história.

Memórias Luso Africanas é um denso e contemplativo percurso pelas veredas familiares de Gui Amabis, tecendo um rico álbum de imagens que derivam das histórias construídas por avós, pais e outros entes queridos do artista. A mescla das tradições de dois povos, como o título sugere, ajuda a consolidar um espaço de sonoridades repleto de signos diferenciados, todos eles movidos pela poesia contida na sucessão dos anos vividos.

A costumeira característica instrumental sempre muito viva de Gui só reforça o caráter imagético do disco, transportando quem ouve para o local exato onde os instantes rememorados acontecem. É pensar numa ópera moderna e depois imaginar que cada faixa encerra um momento que jamais se perderá no turbilhão do tempo. Diante disso, não fica difícil entender por que canções como Dois Inimigos, Orquídea Ruiva, Sal e Amor, Doce Demora, O Deus que Devasta Mas Também Cura e Para Mulatu retratam com precisão e delicadeza um sentimento de gratidão à vida.

O que torna o conjunto da obra mais valioso ainda é ver ali, desfilando suas vozes e energias, artistas do quilate de Céu, Criolo, Tulipa Ruiz, Dengue e Lucas Santtana, todos eles bastante envolvidos numa atmosfera feita de luz e som. E a rica bagagem musical de Gui Amabis, sobretudo na perspectiva da criação instrumental, confere uma dimensão especial ao cd, tendo como norte uma seleção de repertório com traços devidamente aguçados de sensibilidade. Materializar sentimentos e outras tantas percepções derivadas da alma é a virtude maior encontrada por aqui. Em meio ao ato de recordar, saber-se vivo é, antes de tudo, compreender o que está por trás de nossas origens.