Como é ridículo falar amor
E, belo, falar dor.
Ah, duas palavras, rimam,
mas uma é água
e a outra é lama sufocando lentamente o rio.
Ah! Por que querem que eu fale sobre o ódio?
Quero dizer coisas ridículas,
que esta raiva passe
e gritar pelado, pelas avenidas, ruas e becos
Amor,
Amor, venha me salvar da selva,
venha salvar meu corpo caído
estancar o sangue que corre como lama
por este buraco de bala.
***
Sem resposta
Sei, estou fora do tom,
do dom
da porra toda.
Recomeçar é difícil
como uma cãibra
no meio da madrugada
enquanto se dorme.
Mas não movo
um dedo.
Observo
toda a velocidade
os amigos que saem,
as pessoas que se vão
Estou no centro
não sou ninguém.
Quem é você?
Me perguntam.
Eu sou uma selfie muda.
***
Para os fracos
Nesta época
não se pode fazer poemas de amor,
temos que ser fortes
e sentimentos não combinam com a luta.
Tempos de guerra,
tempo líquido, gasoso, sem piedade.
De venenos destilados,
jogados em passeatas.
Mas me recuso, tudo me afeta,
a falta, a presença,
os raios de sol,
os sorrisos que não tenho mais.
O amor é para os fracos,
para os pobres,
para os que perderam,
para quem nunca teve,
aqueles que não conseguem dizer uma palavra
sem lembrar da sensação de um beijo.
***
Dormente
Outra noite, e algo estava perdido,
minha consciência já não existia mais,
não era eu.
Você pode me odiar
me ridicularizar,
mas minha mente se foi,
eu não lembro.
Outro dia,
o álcool já não fazia mais efeito,
a cocaína já não era tão boa assim,
o thc já não me acalmava,
minha alma já não era minha,
eu não lembro,
minha mente se foi.
***
… 1
Não me agradeça
repetidas vezes.
Não diga obrigado
quando eu lhe entregar as chaves.
Não diga obrigado
quando eu lhe der uma palavra.
Não diga nada,
não me olhe nos olhos.
Não ouço mais as revoadas de pássaros,
os latidos.
Eu não tenho mais que levantar,
não consigo mais.
Não me agradeça,
eu sinto um grito agudo,
uma canção de Dylan
e lágrimas,
acho que estou mole,
hoje em mim bate um silêncio,
não quero mais poesia e
palavras em
primeira
pessoa.
Cristiano Silva Rato é autor de “Todos que conheço são suicidas” (2019, Editora Caos & Letras) e “Sentido Suspenso!” (2012, Multifoco), tem diversos textos espalhados pela internet e em antologias. Documentarista, ajudou a criar e dirigiu o programa de websérie Literatura no Boteco. É Coordenador do Coletivo Terra Firme, responsável pelo selo editorial e agência multimídia Marginália Comunicação, locutor e produtor do programa Cemitério dos Vivos, na Matula Web Rádio, co-fundador e editor na Editora Caos & Letras. cristianorato@caoseletras.com
O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!
As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.
Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.
Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.
Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.
Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.
***
Trilha sonora
Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifestação. São professores, músicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois ônibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem é mais só o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som portáteis e uma infinidade tecnológica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a violência do Estado. Eu, vamos assim falando, há muito tempo cansei de pedir explicações destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, há muito tempo ocupo isso aqui, a única verdade, acredito, estas veias que pulsam.
De repente o tempo não era mais… Há alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, à revelia no poste à minha frente. Em seguida cambaleio até o Fórmula 1. Não sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psicanálise clássica. Seu grupo. A música é a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento mágico. Há sempre um compasso, uma cadência, uma levada, mesmo quando nós… Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em papéis descartáveis, leve fantasia de uma criança sendo arrastada pela mãe, pela tarde. O medo.
Me surpreendi aquela manhã. Ouvi rumores. Mega manifestações em São Paulo, não achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energético, vandalístico, vivo. Por aí vai. Creio, até, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espaço que sobra, os pés tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, três, não consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multidão. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba…
Mais um… engrosso o caldo desse feijão… tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoroço pela manhã? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, polícia para todo o lado. A praça. Aquela manhã não. Apareceram uns “bombadinhos”, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. Filha da puta! Pensei. Em manifestação tem de tudo, até caso de possessão, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.
Não querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Tropeço e erro a nota caída ao chão. Sorrio bem alto. Há uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consciência quando queimo. Não deixo escapar o barril de minhas mãos. Álcool. Amargo, adoçando o fogo cristalino de séculos de abandono. Eu. Nunca estive tão só. Uma moça de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, realçando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu pé. Carrega um cartaz. Me olha com desdém, como se tivesse pisado em merda. Pegue minha mão. Pois a casa está quente garota. Me deixe levá-la para dançar. A casa está quente, baby. Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. A casa está quente. Todas as calças são iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multidão.
Relação mais próxima com a praça, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artesãos de rua, ou hippies, e/ou micróbios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma controlável, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de… “Traz logo a cerveja pô”. Como ia dizendo, maluco… A cidade é mesmo algo insondável, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na praça sete de setembro, em junho, foi um hospício. O que teve de notícia, de branquinho voando para o exterior, não cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito até com papel higiênico. Acho que até vi alguém vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, né? Quando aquele povo todo começou a andar em uma direção, pensei umas duas, três, e por aí vai, se ia ou não com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, violão, pandeiro, apito…
Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. Fé. Tudo misturado. E alguém, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, não escondo o volume crescendo. Meu escárnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei Sing Sing Sing, em homenagem ao seu belo sorriso… sua luta… e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia… perde… a alegria… entra tristeza. O sentido do domínio. A alegria. Deixamos de sonhar… ou sonhamos demais? É preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa não está para alegrias anunciadas. Ela adentra a multidão, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irmão, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria difícil para um químico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.
Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a infância em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de Fátima); a adolescência em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ruína II (V. Primavera), em Ibirité, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, também na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lançado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.