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104ª Leva - 07/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos.  Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!

Os Leveiros

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104ª Leva - 07/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mulher gato

 

Olhos que gritam
Miados de amor
Noite gelada
Meus seios serpenteiam
Enroscam
Nosso fogo cruzado.

 

Cristina Arruda 

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

             

Lamento

……………

.mia
vasculha muro
carteira vazia
esquece a lua

odeia o miado
do gato, engole o rato
sapo no furo do queijo
espera

lata vazia
agrada
ronrona a gata
enquanto só
e vadia
arranha brisa.

Adriana Aneli

                       

 

 

***

 

 
Mulher polvo

 
Cabeça forte
Na luta do cotidiano
Tinge o mundo
Que não quer
E foge para se esconder
Na força de seus braços
que desejam.

 
Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Ultrapassagem

……………………

sai da toca
cruza mares
caprichosos pensamentos
escapam
………………..presa
ou caça
mimetiza
fundo de céu
………………………em mar de
estrela
a sua hora.

Adriana Aneli

***

Mulher Pássaro

 

Flores no corpo
Penas que cobrem
Braços não tem
Chegaram asas
Acordou o afeto
Que motivou o voo
Pode saltar.

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

 

constrói poesia
com pés de vento
grito cortado
coração a pena

silêncio fala
cala
a vontade
em sonho
peixe do mar
….nada?

: voa.

Adriana Aneli

***

Lagarteio

 

Aonde vai mulher?
Com estes olhos de borboleta
Se ainda vive lagarta
Morreste sem perceber
Arrastando asas
Por um amor qualquer
Aonde vai mulher?

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Cilada

despejada do casulo
aposta em asas
rotas
costura destinos
fabrica redes

felizarda
desde menina sabe
cair.

Adriana Aneli

***

Sobrevivência

 

Corpo de mulher
Recortado se esvaindo
Alma ferida
Num lento ritmo
Move a nova vida
Protege a cria
Diz adeus
E entra no mar.

 

Cristina Arruda

 

Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda

 

Corpo lunar

onda gelada
castelo de cartas
perdoa
e não esquece

um dia volta
casca quebrada
para recuperar o ninho.

Adriana Aneli

 

 

Mineira de Belo Horizonte, Cristina Arruda é formada em ciências biológicas e odontologia pela UFMG. Artista plástica autodidata há mais de 15 anos, vive em Belo Horizonte onde realizou exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, ambas no Centro Cultural Lagoa do Nado, além de exposições coletivas.

Adriana Aneli é escritora e dramaturga do grupo Baila Comigo. Membro Correspondente da UBE-RJ e do Coletivo Marianas. Idealizadora do projeto Tempestade Urbana, comunidade que reúne artistas e trabalhos de várias partes do mundo. Ao lado de Chris Herrmann, é editora da página literária Boca a Penas. Formada em Direito pela USP e pós-graduada em Direito de Família e Mediação de Conflitos familiares.

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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Olhares

Olhares

Sob tramas da alma

Por Fabrício Brandão

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Dizer do manto que recobre o universo feminino significa mergulhar em profundezas de mistério. Na medida em que tentamos desvendar sua complexidade, o sabor crescente do indecifrável acaba tomando corpo vigoroso diante de nossas percepções. E não funciona ter em conta a visão simplista e limitada de que tudo é acometido apenas por sinais de delicadeza e sensibilidade.

Definitivamente, a desgastada noção de que o feminino navega águas de fragilidade vem perdendo sua razão de ser entre nós. E não se trata também de ressaltarmos aspectos que apontam para uma mera afirmação de gênero. Pelo contrário. Significa levarmos em conta a genuína expressão que brota dos olhares particulares de mundo. Assim o faz Cristina Arruda quando nos propõe pungentes observações sobre as epifanias que brotam das mulheres.

Fazendo uso de curvas, traçados, contrastes entre o preto e o branco, além duma profusão de cores, Cristina nos convida a viajar por uma espiral dotada de contornos poéticos. E mencionamos poesia aqui pelo caráter sintético da apreensão dos sentimentos humanos. Trata-se de uma condução sem afetações ou contaminações imediatas e apressadas, ou seja, sem viciar o olhar em torno duma acalorada visão restrita de mundo. Segue-se um fluxo natural e deveras intuitivo de recortes existenciais sem que isso possa resultar num arroubo apoteótico.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Quiçá seja a simplicidade o que buscam os poetas em seu engenhoso ofício. Quiçá seja também essa condição a melhor forma de significar o trabalho de Cristina. E, como a própria artista nos confessa, há uma imersão diária nos cenários que compõem seus domínios, principalmente quando se trata de vislumbrar a mulher em sua interação com o ambiente externo.

Seja nos desenhos, munidos a giz, lápis de cor e nanquim, seja nas pinturas em aquarela e acrílica, essa mineira de Belo Horizonte ressignifica os espaços e os personagens do seu entorno físico e imaterial, dando margem também a uma apreensão mística da vida. Perfazendo mais de 15 anos de trajetória autodidata, Cristina Arruda apresenta em seu currículo as exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, além de outras de cunho coletivo.

Na edificação dos cenários e seus habitantes, a artista apropria-se de um tenro fio que sutilmente costura a vida. É como se tudo estivesse mesmo sustentado por um sentido de leveza. Caminhos de ida podem ser levados aos da volta com natural facilidade, ou o contrário também pode acontecer. Para a essência que nos abraça, as linhas e curvas de Cristina são um lembrete de que somos feitos pela substância inexata da alma.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

 

* Os desenhos e pinturas de Cristina Arruda são parte integrante da galeria e dos textos da 97ª Leva