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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Kátia Borges

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A aerodinâmica dos pássaros

 

Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silverinha, no sítio de um tio no Litoral Norte. Não recordo com exatidão todas as circunstâncias, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa e que, após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, ele espetava os corpos dos pássaros caídos no arame farpado.

Fiquei vendo Silverinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho. Distraída desde sempre, andei uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Era apenas o sítio de meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos, e não a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.

Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio que ficava no terreno ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda, isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.

Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio. O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo.  Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.

Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silverinha. Ele era bem mais velho e penso que me desafiou a mostrar coragem. Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue.

Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperar durante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras. E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado desde então. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros. Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio.

Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença. É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda. Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica.  Ele apenas confia em seu instinto.

Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento. Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro. E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.

Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones. O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Escreve crônicas no jornal Correio semanalmente desde 2018. A teoria da felicidade (Patuá, 2020) é o seu sétimo livro.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Lorraine Ramos Assis

 

Foto: Almir Bindilatti

 

“Solipsismo nada analítico”

 

Uma vez um amigo disse-me que sou uma pessoa ‘’confusa e nada analítica’’.

A análise da ocasião de nossas falas, para aqueles que se proponham a exercer a função de analista informal, era de uma falha de comunicação tamanha que fazia tempo que não sentia a urgência de despersonalizar, por incrível autodepreciação que me acometeu naquele 483 irradiando suor dos trabalhadores do subúrbio.

A poltrona azul-marinho parecia regozijar-se de entusiasmo para analisar – de modo passado a ferro, com toda certeza – a linguagem corporal que expressava sob seus tecidos quase sintéticos.

A angústia inoportuna realizava-se sob gritos de camelôs e bufos de uma multidão assalariada em seus assentos.

“Você não é analítica, é pretensiosa e confusa.”

“Se concentra no que as pessoas falam, e não no que você acha que elas querem dizer.”

Pareciam períodos de crônicas clichês, mas era a realidade material e objetiva de uma amizade de anos que parecia corroer-se a cada mísera vogal que projetava na tela transparente de um Android.

Considero que a contextualização não tenha sido esmiuçada o bastante.

Vejamos, era uma conversa que revogava qualquer contato mecanicista que outrora tive com meu amigo. Éramos bons amigos, mas eu acredito que nunca tivemos uma projeção de honestidade para com o outro em critérios de personalidade expressada.

Éramos arquétipos estúpidos de uma massificação midiática que conduzia os jovens a serem hedonistas, porém inexpressivos em seus sentimentos e virtudes. Em suma, éramos um montante de personagens que queriam disputar o palco para ter uma autopromoção e aprovação de um e outro.

De um ano para cá, a crise endêmica assola o país – por ironia das casualidades – nosso perfil produtivo de personagens foi para o fundo do poço. Aliás, uma música que pode esmiuçar esse termo seria ‘’Exemplar do fundo do poço’’, do grupo de indie-rock, Violins (eles são bons subprodutos de uma hipermodernidade patológica, aconselho a escutarem após seus jantares). Éramos jovens de 20 anos, mas que parecíamos mais um mesclado de personagens de ‘’Skins’’, célebre e degenerada série britânica.

E essas memórias perpassavam entre várias partes de meu córtex, especialmente o pré-frontal, pois a oscilação de humor tornava-se crônica, como o balançar do 483 na Avenida Brasil.

Pela primeira vez, expus fragilidades de um dia de nascimento e de morte de uma terça-feira, para completar a dualidade jocosa que uma terça-feira evocava. Era de uma considerável humilhação abrir seu tecido emotivo para uma pessoa que, por mais que fosse seu amigo de anos, tenha se tornado seu inimigo que pertencia a um grupo divergente (e sabotador) de seu.

E perpassou, adentrou, erradicou após alguns minutos a discussão que mais parecia que romperia uma longa amizade, para se tornar um reduto de confessionários ético-morais.

O assunto era do fenômeno do individualismo, para ser pertinente à ocasião.

O confessionário alastrou-se da Penha até a Cidade Nova em uma vergonhosa performance de prolactina. Lágrimas brotavam – a este ponto – em meu colo. O sistema nervoso simpático não queria inibir; o confessionário do solipsismo tinha começado, e ele não atentava a contrações das emoções, independentemente de estar situado em uma frota de ônibus com uma aglomeração relativa de trabalhadores.

‘’Eu não sou legal, não, eu sou egoísta. Eu costumo colocar as pessoas em primeiro lugar, e eu, em contrapartida, em segundo espaço. Agora, pois, por que seria egoísta, você me pergunta. Eu não faço isso pelas pessoas, mas sim para não ficar com a consciência pesada, tá ligado.‘’

E ele começava a rir, mas eu tenho quase certeza que era de nervosismo e vergonha individual.

Eu conhecia a peça, igualmente da formação da psique condicionada por uma ideologia de uma classe individualista dominante da sociedade de lucro.

Eu o indaguei, questionei, atordoei, eu o expus – quem sabe, agora, de forma analítica – a gênese desse comportamento que, caso fosse materializado em uma maçã, e alguém fosse, por algum motivo, bater em uma árvore, a fruta iria cair em cada esquina e avenida desse Rio de Janeiro (e por que não falar do mundo inteiro).

Ele ignorou minha argumentação, que agora tinha se tornado um monólogo externo para uma tela de Android.

Porém meu confessionário ainda não tinha cessado, mas sim virado um monólogo – quem sabe, agora, interno –.

O garoto que contemplava os saberes éticos, metodológicos e morais de uma sociedade putrefata por dinheiro e solipsismo me deu um tapa tão forte que eu não me recordava da última vez que alguém tinha me transferido tamanha crítica – e olhe que eu recebo várias e espessas críticas, mas eu não as recebo bem, pois minha patologia moral não me deixa escoar as perspectivas –.

Tinha dificuldades em discernir tais indagações do jovem de óculos que se encontrava a malditos e distantes 21km de meu bairro, a 1h de ônibus. Calculava, agora – pela primeira vez, inclusive – a distância da convergência de nossa amizade no decorrer de quase 5 anos.

‘’Amizade’’.

Era uma condição de relação que não tínhamos aperfeiçoamento.

E talvez a magnitude dessa escassez de condição tão imediata para todos fosse um dos motivos que me afeiçoei a ele.

E por isso, logo, encontrava-me a tremer por uma possível perda.

Era ridículo e quase obscurantista pelo contexto geral de uma nação de adoecidos em suas morais.

Ressoava a porra de uma sirene em minha mente fragmentada, mesclando-se com o falatório do ônibus, que, para completar, estava em um clima quase semiárido pelo descaso.

‘’Você não o perdeu, qual é, é apenas uma projeção de uma possível perda, pois você nunca foi tão humilhada por ele.’’

– Pelo contrário, você o humilhava –

– E a autopiedade do semi míope confirmava a sua condição de fracasso personificada –

‘’Por isso você não o aceitava; pois você estava tão confinada a reter seus conflitos internos em sua condição moribunda, que não percebeu que tinha passado dos limites da fronteira de uma amizade, que somente depois de um ano foi ser de fato uma amizade na prática.”

O que mais parecia assemelhar-se a uma dinâmica de um jogo de simulação de um slice of life (vulgo narrativa do cotidiano), parecia a desertificação de perspectivas de afeição.

‘’Ah, meu ponto chegou. Vou soltar, piloto, para aí, na moralzinha.’’

Sabia, quem sabe, a partir de agora, que eu deveria ter maior autocontrole em minhas interações diárias.

E arcar com despesas desnecessárias com remédios de oscilação de humor desnecessários de uma condição físico-mental desnecessária por uma sociedade desnecessariamente degradante.

E desnecessária.

Desnecessariamente solipsista.

 

Lorraine Ramos Assis, 22 anos, estudante de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Fotógrafa, cujos trabalhos podem ser acessados via Instagram (@catarseoculares). Escrevo para tirar uma sociedade da inevitável zona de conforto.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Por Saulo Dourado

 

 

Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homicídios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país, e não há sinais de diminuição. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evidências das mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas os ultrapassa: dá forma e nome aos números. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, mas não o afeto. Quanto mais se banaliza em ofício e em notícias um acontecimento, menos o sentimos, e disso é preciso curar-se. Como antídoto, devemos entrar no particular e no miúdo para que fatos se conectem de novo às tripas e às mãos, para o sentimento e para o rebote.

A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplidão, e o mote que ela alcança. Seus textos dão nome, corpo e presença: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Mirian França, Antônio Pompêo, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nathália, Liniker… Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadoras”, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?” Por que seriam anônimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa anônima? Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonificação, causa e efeito do prosseguimento de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princípio, para que o Alguém seja por princípio dignidade, e não camadas de ocultação e cinismo, como é no Brasil. “É preciso ir mais fundo”, diz Cidinha em Desde dentro, “É preciso ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (…) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.”

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas ao lugar da banalidade das informações: as mídias em geral. A princípio, pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais a comoção, a admiração, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos específicos de corpo e de pele.  Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sensível é cúmplice de seus acontecimentos.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, estranhezas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para além de si. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!”, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Wars”.

Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como “Obituário de uma lembrança”, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia…

Cada um dos que se vai nesse massacre é a primeira de algum círculo, é sentido com uma força que não acreditaríamos se apenas o subtraímos ou o somamos. Do contrário, se não conseguimos religar as dores aos sentidos, o que senão as palavras para fazerem a força de ligação? As crônicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva reúne.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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95ª Leva - 09/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

E lá se foi João Ubaldo Ribeiro

Por Gustavo Felicíssimo

 

João Ubaldo Ribeiro / Foto: Divulgação

 

Todo mundo tem um dom qualquer, ele dizia, e o grande pecado que se pode cometer nessa vida é o de trair esse dom. Acho que João Ubaldo Ribeiro chegou a essa conclusão com um empurrão de Jorge Amado. Explico. Não sei ao certo em que local do mundo se encontravam, mas o correto é dizer que João e Jorge estavam no saguão de um hotel e preenchiam, como de praxe, uma ficha cadastral. No campo dedicado à profissão do hóspede, João grafou o termo “jornalista”, no que foi repelido pelo amigo que lhe exigia a substituição do termo por “escritor”, e dizia: Escritor, é isso que você é!

“A morte não existe, todos sabem”, diz-me um poema. Que tolice! Morreu João Ubaldo Ribeiro, estampam os jornais. Mas o fato é que morreu um escritor que soube nos mostrar um país verdadeiro, um país Made in Bahia, feito de gente comum, como os seus convivas da Ilha de Itaparica, com suas falas e trejeitos, muitas vezes tornados personagens de suas histórias, um escritor que exibiu o que de melhor e mais autêntico tem a nossa gente, ofuscando o grande mar de lorotas produzidas pelas vanguardas. Vanguarda, coisa nenhuma! Aliás, a única vanguarda que existe se encontra na linha direta que une, na língua portuguesa, Camões a escritores do porte de um João Ubaldo Ribeiro.

E quando morre um autor dessa envergadura, que nos traz a sensação de sermos herdeiros de uma tradição cultural fora do comum, pois edificada em nossa própria história, acontece o que estamos vendo: em todo o mundo leitores de João Ubaldo Ribeiro se consolam exibindo mensagens, em meios virtuais, que expressam o seu pesar, como se a literatura tivesse hoje todo esse prestígio, são linhas breves que parecem conter mais do que de fato apresentam. Como suportar tantos dias com um abalo emocional de tal intensidade?

Ainda ontem, sabendo que novamente assistiria Deus é brasileiro, resolvi reler “O santo que não acreditava em Deus”, crônica de Ubaldo que deu origem ao longa-metragem, mas não farei comparações. Não direi que a crônica é melhor que o filme. Deixemos isso pro Nelson Pereira dos Santos, que é da Academia Brasileira de Letras, como o João foi, e estamos conversados.

Sei apenas que a definição do gênero literário “crônica” é muito ampla e variável, até já escrevi sobre o tema, defendendo que o caráter ficcional amplifica a sua qualidade artística. Entretanto, me parece que “O santo que não acreditava em Deus” está mais para o conto (anedótico) que para a crônica, pois não encontramos no texto nenhum resquício do hibridismo entre a ficção e a realidade como tal, excetuando a possibilidade de analisá-lo através dos meandros das entrelinhas, ou seja, pelo viés da alegoria.

Disse anteriormente que ontem li uma crônica do João Ubaldo Ribeiro, isso equivale, ao menos para mim, dizer que ontem estive com João Ubaldo Ribeiro. Agora, essa notícia. Lembrei-me inevitavelmente da última vez que estive na festa do seu aniversário, em Itaparica, creio que em 2010. Estava na companhia do poeta Bernardo Linhares, vizinho de João. Encontrávamo-nos no saudoso Bar do Capitão quando ele chegou acompanhado por uma filha. Bebíamos, mas João, por recomendação médica, estava na fase do guaraná. Ele tinha lá a sua marca preferida do refrigerante, mas como não ganho nada a mais com isso não revelo qual era. Como se isso tivesse alguma importância para essa crônica. Relevante mesmo é dizer que a filha insistia a todo instante para voltarem à casa, mas João reiterava pedidos por minutinhos a mais. E assim, outro dedo de prosa.

O papo, como de costume, suscitava em nós largas gargalhadas e fazia a alegria dos que se encontravam próximos, o motivo da pilhéria foi o resultado da eleição para Miss Gay, que acabara de acontecer e que elegeu como rainha uma figura muito sem graça, contrariando a opinião do público e em especial a de Bernardo Linhares, o rei da galhofa, que, insatisfeito com o pleito, a todo momento recitava epigramas contra a comissão julgadora e contra o pobre do Sapoti, organizador do evento e agitador cultural durante os verões itaparicanos.

Não demorou muito e estávamos descendo o cacete nos escritores que vivem de afagar o ego alheio e de conchavos escusos. Tudo em nome da boa literatura. E Bernardo, como sempre, recitando epigramas contra os seus desafetos, trago um deles até hoje na memória:

 

………………….Desde que penetrou
………………….lá na velha academia,
………………….a cadeira que ocupou
………………….não é mais vaga, é vazia.

 

João, que era compadre de um dos maiores desbocados da Bahia, o mestre Ildásio Tavares, adorava. Quando o papo pendeu pro campo minado da política, ele encontrou a deixa que precisava para ceder aos apelos da filha, não sem antes deixar-nos uma anedota digna da sua verve cômica. Debruçado sobre a mesa e com um tom de voz mais baixo que de costume, gesticulava e pronunciava um calão monossilábico indicando o orifício em que o ex-presidente Lula havia perdido, segundo ele, o dedo mindinho. Não houve santo que ficasse indiferente.

E lá se foi João Ubaldo Ribeiro. Acompanhei seus passos desassossegados até o perder de vista, sem imaginar que seria aquela a última vez que estaria na sua companhia. Agora o sacana vai contar as suas histórias em outra freguesia e eu acho que Deus está muito contente com isso.

 

Gustavo Felicíssimo é escritor e editor da Mondrongo Livros.

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88ª Leva - 02/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A crônica e a crônica de José Saramago

Por Gustavo Felicíssimo

 

José Saramago / Foto: divulgação

 

Sempre fiz da literatura uma espécie de sacerdócio. Organizei encontros com escritores, editei jornais e revistas, publiquei uns tantos livros, colaborei para a publicação de outros tantos e fiz um percurso literário priorizando a publicação de poemas, afinal, era perda de tempo um autor tão pouco lido, e naquele momento tão jovem, se precipitar a publicar contos e crônicas apenas porque era conhecido de meia dúzia de leitores dessa nossa imensa Bahia de todas as dores.

Como durante algum tempo mantive-me publicando em jornais, revistas e no meio virtual, artigos sobre poesia, algumas leituras que fiz se deram um tanto por obrigação de ofício, outro tanto por conta de uma vontade insana de colocar à prova as leituras teóricas que detinha a fim de adequá-las à minha visão particular sobre o fazer poético, e por fim, sobre o poema.

Embora me sinta poeta em tempo integral, todos os dias, as leituras que sempre e mais animam meu coração sucedem da crônica, essa forma literária que nos impele à reflexão, em que o narrador está desnudo e desvelado, especulador e concludente, poeta e ficcionista. Um gênero literário cujo conceito é altamente variável e que pode englobar tudo: páginas de memória, lembranças de infância, flagrantes do cotidiano, comentários metafísicos, políticos, considerações literárias, filosóficas, poemas em prosa, trechos de romance. Mas é o tratamento com feição ficcional que muitas vezes lhe é dispensado, aproximando a crônica de verdadeiros contos, que lhe dá a qualidade artística digna de grandes mestres, como é o caso de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino ou de um Saramago, a respeito de quem passamos a tecer alguns comentários a partir das próximas linhas.

Devo admitir que não li ao todo mais que três ou quatro romances de Saramago, e que pouco ou quase nada soubesse de suas crônicas até ler algumas, dessa vez por ofício de estudante, graduando que sou em Letras. Delas o que me ficou foi a certeza que trazia comigo há tempos, que sua prosa é um exemplo de apuro do instrumento literário, para dizer o mínimo, dado que atualmente é impossível qualquer análise da prosa em língua portuguesa sem o conhecimento e o inevitável reconhecimento de sua obra, como atesta a imensa lista de estudiosos e críticos que possuem consciência do seu legado, à qual não falta em doses certas, reflexões existenciais, críticas, ironia, humor, a mais íntima relação com suas crenças ideológicas e observações ligadas às fontes da vida.

Pelas crônicas de Saramago abundam exemplos do seu compromisso com a sociedade e o desconforto sentido com a circunstância do homem entre os homens, coisificado, como em “O grupo”, mas que procura dentro deste mesmo universo uma ressignificação dos próprios valores, da existência, assim como vemos também em “O cego do harmónio”, texto que ainda apresenta em si, assim como em “O inevitável poente”, uma narrativa de envergadura onírica, em que se nota acentuada inclinação do escritor para os domínios da poética.

 

José Saramago / Foto: divulgação

 

Entre os textos selecionados, um em especial chama a atenção, é “A palavra resistente”, em que o autor sugere ao leitor a escolha de uma palavra qualquer a fim de dizê-la seguidas vezes até que sentido e densidade se esvaiam ao ponto de se transformarem num articulado sonoro, que nada exprime. É evidente que a sugestão de tal experiência pouco ou nada importaria se o próprio autor não a tivesse vivenciado pessoalmente. E viveu. A palavra escolhida por Saramago foi “horizonte”, repetida insistentemente por ininterruptas cinquenta vezes para enfim descobrir que o prestígio que ela possui advém do caráter particular daquilo que exprime. Ou seja, para Saramago o horizonte não simboliza apenas o espaço que a vista abrange ou a linha que limita circularmente todas as partes da terra que se podem ver de um ponto determinado. Para ele, tal palavra possui dois sentidos: o próprio, que exprime a realidade contra a qual nada se pode fazer, posto nos ser impossível estar no horizonte, esse lugar que tanto mais se afasta quanto mais queremos nos aproximar. E há também o figurado, o que em verdade mais importa, pois é o lugar no qual se aclaram as perspectivas do amanhã.

Neste ponto tudo parece palpável, lava-se com o poder da palavra o rosto da realidade de pedra, afinal, existimos sobre o mesmo chão e sob o mesmo céu, muito embora cada um de nós traga consigo seu horizonte pessoal mais ou menos alargado, a depender do ponto de vista. Saramago nos guia para o ponto nevrálgico do texto: a questão da realização pessoal. E assim, horizonte não é mais um fenômeno dado apenas ao sentido da visão, mas às perspectivas que a palavra revela em si e na confluência com tudo o que é humano. Para uns significará a realização de um propósito, para outros, se revelará na satisfação de se empreender qualquer tipo de esforço e não apenas no resultado final de sua consecução.

Escolhi também a minha palavra, e foi “silêncio”, algo que uma alma irrequieta como a minha necessita em altas doses. Descobri muitos silêncios, o primeiro deles encontrei naquilo que faço agora. Escrever é refletir e silenciar. Por sorte, o lugar onde escrevo é o meu santuário, nada comparado à turba que se faz lá fora. A cidade e seus pregões. E como escrever não se faz sem o ato de ler, o que requer penetrar surdamente no reino das palavras, como aconselha Drummond, um e outro verbo estão intimamente relacionados ao substantivo silêncio. Mas existe outro silêncio, maior e mais duro, incrustado no íntimo de cada um de nós. Ele nos emudece aos gritos e se o conseguimos ouvir, lá no fundo do nosso ser, estará dizendo de nós o que pouco estamos acostumados e que a ninguém necessitamos revelar.

Escuta-me, leitor, pois me revelo mudo. Disse isso em um poema. E se me coubesse fazer uma pergunta ao Silêncio, uma pergunta apenas, certamente seria a seguinte: O que anseia dizer? Ele responderia: de nada adiantam as palavras se não me conhece por dentro, se não consegue me ouvir. Eu sou a pedra de toque que a tudo transforma, arremataria.

Chega de divagações existenciais. Melhor voltar ao Saramago e suas crônicas, pois nelas, assim como em tudo, e a tudo que faz, Saramago parece impor seu modo particular de enxergar vida e existência, sua atividade de escritor e o papel de intelectual, nunca se resignando, antes se indignando com todo tipo de iniquidade, certo de que um homem digno é um vagabundo a menos no planeta.

Muito mais poderia dizer sobre as crônicas do bardo lusitano, mas como se aproxima o horário de estar na universidade e entregar o texto à professora, pois como dizem os mais antigos: manda quem pode, atende quem tem juízo, arrisco dizer, enfim, que, embora o gênero pareça estar destinado a temas limitados no tempo, escritos para um leitor que compartilha desse tempo, a crônica, pelo seu valor intrínseco, ou seja, pelo seu hibridismo, encontra em José Saramago um dos cultores mais originais – quer pela graça, quer pela seriedade dos temas que aborda – e determinantes para a definição da real dimensão e status do gênero entre os gêneros literários.

 

Gustavo Felicíssimo é escritor e editor da Mondrongo Livros. Publicou “Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna” (Editus/Via Litterarum, 2009) e “Blues para Marília” (Mondrongo, 2013).

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maria Lindgren

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Sol de outono em pleno verão

 

Amanheço e anoiteço com a mesma dor, todos os dias. Indefinida, parece que veio para ficar. É uma dor que qualificaria como insuportável, porque não explicada. No telefone, o doutor me recomenda um Paracetamol de quatro em quatro horas e observação.

Ah! Meu Deus! Como é difícil observar a própria dor. Primeiro, sigo os caminhos ditados pela configuração de meu corpo: começo pelo ponto mais alto: a cabeça. A dor nas têmporas, por acaso minha companheira de muitos e muitos séculos – tempo de minha vida na percepção de hoje – não aparece. O órgão responsável pelo resto todo está intacto e indolor, qual bola de futebol na prateleira, antes dos chutes. Nem os ossinhos do rosto, nem o maxilar me incomodam. Nem mesmo os lábios desprotegidos pela falta de batom. Ouvidos ouvem, olhos veem, nariz cheira, queixo se assenta na mão sem desvio. O pescoço, revelador  de tensões, sai ileso da inspeção, tanto na parte das rugas e papeiras, como na parte de trás. Tronco: tem que ser o tronco o responsável-mor do que sinto. Percorro os ombros pesados de pouca carga física, mas de muito problema, vou direto ao coração. Nada diverso do dia a dia do batecum compassado. Nem o sopro outrora acusado pelos auscultadores sensíveis. Parto para as costelas:  frágeis, mas inteiras,  até bonitinhas em seu paralelismo encurvado, que é como as vejo nas radiografias. Detenho-me nos  órgãos de comer e descomer: ultimamente, funcionam à perfeição, talvez pela marmita de remédios que engulo diariamente ou pelos pozinhos cor de poeira de deserto que a nutricionista me faz engolir, em lugar do feijão com arroz bendito. O local do xixi e das sensações sexuais….:  tudo comme il faut. Agora, faltam os membros. Os inferiores me atrapalham, sobretudo quando chego às extremidades, aos pés de pele fina e aos dedinhos, que me impedem de usar sapato fechado de salto alto e bico fino e me obrigam a ridículos saltinhos da última moda de jeune-filles en fleur. Retorno ao andar de cima, diante do espelho e constato os ombros levemente inclinados para a direita, por conta de escoliose caduca de velha. E uma vez ao espelho, sigo a olhar os braços e as mãos, sem grandes discrepâncias ou desilusões, um tanto gastos pelo tempo e ponto. Pulo para os joelhos e paro por instantes. Talvez lá encontre motivos para  a dor, como de hábito. Hoje não chiam nem fazem troc-troc os miseráveis, que atazanam as senhoras de setenta em diante. Estão santos e sanos como neném adormecido. As pernas, ou melhor, as coxas, encontro-as  musculosas, de muito exercício físico, mesmo assim, forradas da celulite a que me conformei. Nada de agudo, de diferente. Na pele, um ou outro sinal pretinho encabulado, sem importância, desses que jamais viram câncer de pele, umas poucas manchas brancas, provocadas pelas longas exposições ao sol que, uma vez instaladas, grudam para nunca mais sair, nem com os inúmeros cremes descobertos pelos cosmetólogos.

Viro de costas rápido até porque a visão não é inteira. Meio de lado, noto barriga e nádegas protuberantes:  desafiam a elegância tábua dos dias de hoje. Não gemem, entretanto. Costas ainda queimadas do sol de verão se recusam a me denunciar maus tratos. Vou desistir. Deixo a inspeção para a próxima ida ao médico generalista, uma das diversões das senhoras aposentadas de minha vizinhança, motivo para se colocar roupa mais caprichada e sair ao mundo exterior.

Decido ir à piscina azul de cada dia. Um friozinho de outono me faz crescer uns pontinhos de arrepio na pele dos braços, apesar do roupão preto e atoalhado. Continuo a passo de soldado, chego ao pleno ar livre, fonte de inspiração em todos os sentidos da palavra. Nem percebo a meia-luz do dia. Deito-me na espreguiçadeira, protegida por sundown 30 não sei para quê, ajeito a aba do boné de forma a não manchar a pele do rosto, imaculado pelo último tratamento facial.

Sinto-me pronta. Olho detidamente para a nesga de céu, doado pelos engenheiros de meu prédio. Flagro um solzinho friorento em luta vã  para furar a gigantesca nuvem cinza chumbo advinda da Gávea, sempre da Gávea. Não consigo me aquecer. Pingos de chuva iniciam seu itinerário de molhar minha toalha, meu corpo, meus cabelos, o chão. E enrugar a piscina.

Tenho que voltar para dentro de minha dor.

 

 

(Maria Lindgren é professora aposentada com Mestrado em Educação (PUC-RJ). São de sua autoria os livros “Uma Rolha na Lágrima” (2004 – Editora Mondrian/RJ) e “Habitantes de mim” (2008 – Editora MEMVAMEM/RJ). Tem textos publicados em sites e revistas eletrônicas)

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Psi, a penúltima

Por W. J. Solha

 

 

SF,

fica difícil falar sobre seu Psi, a penúltima depois de ler o Apêndice III do livro, com o que você chamou de Ecos da Crítica e da Generosidade. Não desato as sandálias de nenhum de seus comentadores, com os quais concordo totalmente, claro. Mas – como também faço versos – chamou-me a atenção a declaração de Lorca, citada no prefácio do Gerardo Mello Mourão:

Yo no puedo, yo no sé hablar sobre poesia. Yo la tengo aqui en mis manos, sé que está quemando mi piel, pero no lo sé lo que es.

Essa afirmação me leva diretamente às Confissões de Santo Agostinho:

O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei

Coincidência ou não, vejo-me, de repente, com dois enigmas colocados de um mesmo modo: poesia e tempo. E me pergunto – oportunista – se o segredo da poesia, o segredo da sua poesia, não estaria…  no tempo.

Explico-me.

Lembro-me de que quando era garoto, lá em Sorocaba, São Paulo, ouvia sempre um vizinho, mineiro, cantar, deitado na rede, acompanhando-se no violão, a música “Felicidade”, apressada, como Lupicínio Rodrigues a compusera. Nem perca tempo de ouvi-la inteira, aqui. Basta a primeira estrofe, pra ver, em seguida, onde quero chegar:

Felicidade foi embora
e a saudade no meu peito
ainda mora,
e é por isso que eu gosto
lá de fora,
porque sei que a falsidade
não vigora:

Anos depois, quando eu já vivia na Paraíba, surge um novo sucesso de Caetano Veloso, e vi que se tratava da mesma “Felicidade” do Lupicínio, mas.. transfigurada  por aquela preguiça baiana. Basta, novamente, a primeira estrofe, pra que você sinta a diferença obtida com a mudança de tempo na interpretação, de modo a fazer com que uma grande poesia – que eu não sentia na versão original – de repente aflorasse das mesmas palavras e partitura:

O que isso tem a ver com a sua poesia. Bem.

Não sou grande romancista nem poeta, mas tenho trabalhado nas duas áreas e me parece que sei – com aquele saber no sabiendo / toda ciência tracendiendo de San Juan de La Cruz (e de Lorca e Agostinho) – quando devo me estender na prosa e me conter em versos. Umberto Eco goza com todos nós quando garante que poesia é aquele texto que não vai até o fim da linha. Só isso. Mas me parece que na brincadeira ele deixou escapar uma verdade, pois esse é um modo de se tirar o pé do acelerador de um texto, mudando – de modo mais imediato – o tempo do seu conteúdo.

O que noto de imediato é que você gosta de poemas que poderiam ser contos ou crônicas. Como Antífona, onde há uma estrofe que poderia estar assim:

Depois me mudei: fui para além das cabeças da Serra Branca, para além do lado de lá, atravessei o crepúsculo, debandei para etc etc.

Prosa. Mas…  “atravessei o crepúsculo”? Poderia ter dito “fui para o poente” ou “para oeste”. Seria mais pragmático. Mas o resultado é que imediatamente sacamos que a prosa foi pra cucuia e o primeiro mandamento de Eco nos vem à baila: nada de chegar ao fim da linha.

Assim,

Depois me mudei:

(tempo)

fui para além das cabeças da Serra Branca,

(tempo para degustar das cabeças da Serra Branca)

para o lado de lá,

(tempo pra sentir: para o lado de lá?)

atravessei o crepúsculo.

(Caramba!)

Mais adiante:

Passava
tonitruante o Poti,
um  rio velho, cobarde e mentiroso.

O poeta – ante o adjetivo “cobarde” -, puxa o freio de mão e faz o replay, em slow motion:

Era de medo da seca,
fugindo do Ceará;

(Pausa. Pra que se sinta a beleza, a força da imagem que vem a seguir:)

troava o Poti, dentro dos abismos da serra,

Claro que não estou a lhe dizer novidade. No Apêndice I do Psi, “Os Poemas da Besta (ensaio)”, seu tema é justamente o tempo. Logo na epígrafe, tirada do Apocalipse 10, 5-6, você se extasia com a frase terrível do Anjo: a de que “já não haverá mais tempo!” Desencantei-me com a redução prosaica de outra versão, onde li: “Já não haverá mais demora!”, e fui à Vulgata:

Tempus amplius non erit.

E à fonte grega:

Χρονος. Cronos.

Volto às “Confissões” de Agostinho. Ele tenta responder, no capítulo XIII, a pergunta O que fazia Deus antes da criação. E conclui como Einstein, dezesseis séculos depois:

Se antes do céu e da terra, Senhor, não havia tempo algum, porque perguntam o que fazias então? Não poderia haver então se não existia o tempo.

Genial.

Tempo, matéria-prima do poeta, daí essa sua epígrafe.

Curiosa – por causa disso – a quantidade de notas que seguem todos os seus poemas. Lembram-me o glossário que acompanhava o romance também inaugural, “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, ao apresentar – em 1928 – a Paraíba ao país, como uma terra ainda tão ignota quanto a civilização futura de a “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, romance também com seu glossário de gírias ainda não criadas. Lembra-me “Cem Anos de Solidão” começando assim:

El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.

Assim é o Siarah que você nos traz como que de um tempo-espaço que não nosso.

Acudam-me os cantadores:
Ignácio da Catingueira, negro e escravo;
Romano da Mãe d´Água;
vocês fundaram
o galope, a cantoria
(…)
Também a dona Barrósa, a senhora dona Barrósa,
De seu Neco das Martins, o desafio,
que também me acuda,
eram poetas,
ganhou, ganharam,
fundaram este país!
(…)
Ai do cantador que se atrever,
ai daquele que não possa dizer:
eu sou,
eu venho,
eis a essência,
a chave-mestra,
a gota primeira:
nós!!!  

 

 

Soares Feitosa / Foto: David Feitosa

Daí sua poesia frequentemente me lembrar a prosa de Guimarães Rosa, que falou de homens e terras de Minas tão de dentro deles, que apelou para os neologismos joyceanos, como Shakespeare fez ao praticamente inaugurar seu idioma, ainda sem sequer dicionários.

Você diz:

Venho de um poeta, digamos Euclydes,
Capitão Ocrides.

(…)

Falemos
do fogaréu deste meu chão sem águas,
Siarah de chãos e terra!

Siarah! Temos, realmente, de puxar – de novo – o freio de mão ante a beleza de seu desafio ao poeta Thiago de Mello:

Não te pabules dos teus rios
que (…) escorraço-te com os meus peixes,
não esses “peixes” de lenda-de-beira-de-rio  –
com os peixes verdadeiros, porém, peixes-de-mar,
de-mar-cheio, do-mar-oceano;
e os meus tubarões de vinte metros
e as baleias de duzentos

Pabulagem? Fantasia! Como as de Chagall, judeu com seus milenares mandamentos. Por que não, então, os do sertão profundo de sua distantíssima infância?

Não podia era tirar ninho,
nem judiar de inocente,
nem abrir-a-porteira-do-curral,
nem mangar do desvalido,
nem desrespeitar o mais velho,
nem deixar de socorrer, doente, o animal.
Tocar fogo no capim?
Nem pensar,
Pois o Cão “aparecia”…

Não à toa você se refere tanto a Jeremias, Salmos, Apocalipse. A memória de sua terra se enche da mesma linda magia, nos seus poemas, com que você a via:

Pois o vento dos céus, elemento novo,
d´abastança,
expulsava do ventre do tanque seco
aquele outro vento,
vento velho,
encardido, das vacas
magras!

O vento bom,
túrgido,
que descia dos céus,
entrava em luta com o vento do abismo,
trevas;
o mormaço era expulso
ao ribombar dos céus,
farra dos ventos!

Isso tudo é de uma beleza tão densa, intensa, que nos impõe seu tempo, seu próprio espaço-e-tempo.

Detalhe deslumbrante:

Era de noite que chovia:
gotas amarelavam
à luz frouxa da lamparina de querosene.

Há todo um trecho igualmente cosmogônico no poema “Panos Passados”, em que você nos leva a assistir a um fenômeno único: o nascimento de um rio! Permita-me uns grifos:

Chuva primeira:
folhas,
folhas secas, caducas, garranchos,
pó,
folhas formando levas
– retirantes –
tangidas ao estrondar,
relâmpagos e coriscos,
gentilíssimas gotas primeiras,
um leve fio d´água,
e era ali, solene, mítico,
que se fundava,
refundavam-se os fundamentos
renascidos,
refundados,
pela enésima vez,
do velho rio,
rios,
rios secos,
meus rios,
do quintal da nossa aldeia:
rio do Governo,
Jaguaribe,
Macacos,
Curtume,
Acaraú.

(…)

E o fantástico cheiro da terra,
da terra fêmea, terra molhada:
mais uma vez,
as primeiras estrofes do Gênesis,
como se fosse a vez primeira.

Assisti uma infinidade de vezes a este pequeno flagrante cinematográfico de “Convite à Saudade”:
Mestre Besouro Preto olhou e olhou,
avoou de uma árvore a outra,
fez um cocuruto de vôo, mais alto

Tudo, no seu livro, vive muito próximo da criação bíblica. Como em “Rio Macacos”:

Porque as vertentes disseram às águas:
– desçam!
E as águas desceram!

No poema Psi a penúltima, dou com sua poética:

Gritei:

– ἀλώπηξ (alopex)?!
Vulpes?!
Renard!?
Renaaard???

(…)

Fale simples,
Chame a “Comadre”
(disse o Santo).
É a senha,
batei, abrir-se-vos-á!

Pra encerrar: você diz, no ensaio já citado, que o baiano Luís Antonio Cajazeira Ramos “não sabe a força que tem (… ou sabe?)”. Acho que sabe. Você talvez não soubesse da sua. Pois ele diz:

– Que nos resta? Dessacralizar os sacros (ou sacralizar a Poesia?) Antes que blasfememos, leiamos Psi, a penúltima, caldeirão febril sobre uma trempe cultural – grecirromana, judicristã e mundinordestina – , de onde sai cozida a palavra justa, e mais:

o abismo.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Pintura: Sylvana Lobo

AOS EDITORES, UM NOVO AUTOR E SEU BELO LIVRO

Por W. J. Solha

Dois dias depois de me dizer que não lera meu poema longo Marco do Mundo porque uma virose que lhe afetava os olhos o atormentava, deixando-me muito preocupado, Esdras do Nascimento me passou e-mail falando da entrevista que eu dera aqui para o Fabrício Brandão, no Diversos Afins, e, mais:

– Gostei muito e me interessei por um romance que você elogia muito, nela, O Autor da Novela, de Tarcísio Pereira, que permanece inédito. Você poderia conseguir os originais para mim?

Tarcísio Pereira é um profícuo dramaturgo, romancista de excelente nível e ganhara a Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte com esse livro. Residente, como eu, em João Pessoa, é oriundo de Pombal, no alto sertão daqui da Paraíba, cidade onde vivi oito anos como funcionário do BB. Ele se entusiasmou com o prêmio, e imaginava, por causa dele, ser procurado por grandes editoras afins de publicá-lo, mas botei seus pés no chão:

– Olha, Tarcísio: para mim, pelo menos, a Bolsa não me rendeu nada além do dinheiro que me permitiu uma deslumbrante viagem pra Londres e o pagamento de uma edição do Relato de Prócula pela A Girafa. Quem sabe meu nome – depois de editar pela Record, Bertrand Brasil, Ática, Moderna, Codecri e Itatiaia – esteja em alguma lista negra e pra você, desconhecido delas, a reação seja diferente.

Não foi. Daí que pensei duas vezes, olhando para o e-mail do Esdras, e concluí que deveria fazer a ponte entre ele e Tarcísio. Sua opinião – se favorável – poderia, quem sabe, abrir caminho pro amigo em dificuldade. Fiz isso e, dois dias depois, Tarcísio me manda uma cópia da mensagem que recebera do grande autor de A Rainha do Calçadão, romance para o qual, aliás, eu fizera alentada e entusiasmada resenha para o mesmo Diversos Afins:

Em 19/06/2012 16:06, esdrasn@uol.com.br escreveu:

OI,
Acabo de ler seu romance.
Excelente.
Há muito tempo eu não lia texto tão
bom, tão bem estruturado, tão divertido,
com personagens admiravelmente bem criados.
Parabéns.
Vindo ao Rio, me telefone para um chope. 22851682.
Espero já estar recuperado da paralisia facial que vem
me aporrinhando há dois meses, para que possamos conversar
à vontade.
Semana que vem lhe mando “A dança dos desejos, Opus 13”,
publicado pela A Girafa.
Li a resenha do Solha sobre “O autor”. Muito boa.
Vc deve conhecer o romance do Vargas Llosa sobre
tema idêntico.
O que achou?
Um abraço.
Esdras

Well, I… welll, I…. não veio  nenhuma promessa de intervenção para publicação da obra, mas esse e-mail pode ser lido por algum bom editor, agora, que adquira os direitos do achado.

O que é O Autor da Novela?

É um romance que literalmente li – como se diz – de uma sentada só. Faltavam cinco para as onze da noite quando cheguei à última das 170 páginas em A4, que devem dar cerca de 210 em livro. Tive a alegria de telefonar pro Tarcísio às oito da manhã seguinte, pra lhe dizer que gostara muito do livro. Muito mesmo. E que me surpreendera ver quanto o nosso escritor crescera como romancista, de Agonia na Tumba – que já é muito bom – pra cá.

O Autor da Novela tem uma desenvoltura, uma fluência impressionante, por servir-se do expediente das novelas radiofônicas – como a Maria de Todos, criada e dirigida por seu personagem principal – que é a de terminar cada capítulo curto deixando o ouvinte (e o leitor) com a velha pergunta “e depois?, e depois? ”, num macete – salientado pelo próprio Tarcísio, no livro – que já vem da Sheerazade de As Mil e Uma Noites.  Para minha felicidade, o romance não só sacia, como sempre supera essas expectativas. Para isso, conta com uma série de personagens dignas de Dias Gomes (que inclusive aparece na narrativa), e várias situações novelescas, todas criativas como o diabo.

A história se passa por volta de 1970, quando a televisão chega a Pombal e  à região circunvizinha, onde tudo acontece. Eu estava lá, por sinal, e trabalhei para isso – como presidente do Conselho de Desenvolvimento do Município – sem saber que estava – rs rs rs – lascando o personagem de Tarcísio. Explico: sem se imaginar às vésperas desse evento marcante na vida sertaneja, Diá – O Autor da Novela – evolui de seus trabalhos na difusora do lugarejo onde mora, aproveitando-se de sua experiência de escrevinhador de cordéis desde a infância, para passar a produzir em prosa, na forma de novela de rádio, nos moldes da extremamente popular O Direito de Nascer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que marcara sua infância. As repercussões de sua criação, bem local, na audiência da cidadezinha e arredores, são todas inteligentemente, humoristicamente exploradas por Tarcísio. E é aí, quando tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis, que o prefeito instala a tal TV na praça central do município, esvaziando toda a audiência do radialista que já se tornara celebridade. Por sinal, em 2002, quando eu trabalhava no filme Lua Cambará, vi, num lugarzinho assim, 70 km ao sul de Fortaleza, uma televisão acoplada a um poste, numa praça cheia de gente assistindo à novela das oito. O efeito dessa novidade no nosso herói fez com que ele me lembrasse Chaplin revoltado com o advento do som no cinema.

Meu grande medo era Tarcísio não sustentar o ritmo contagiante até o fim. Mas ele se sai notavelmente bem também nisso, de modo que a Paraíba já pode se orgulhar de mais uma obra literária à altura de seu invejável currículo.

Bem.

Conclusão. Não vou mais atormentar o Esdras a ponto de fazê-lo constranger-se ante o fato de não querer me dizer que não tolerou meu poema longo. Ele é apaixonado. Quando gosta de uma obra, gosta. Quando não gosta, não gosta mesmo. Nunca me incluiu em sua reiterada lista dos melhores romancistas brasileiros, mas chegou a dar uma oficina sobre meu Relato de Prócula, no Rio, o que me pareceu muito.

Que o livro do Tarcísio Pereira decole.

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Affonso SÍSIFO de Sant’Anna

Por W. J. Solha

 

 

 

Zaratustra – aos trinta anos – desce a montanha pra levar sua mensagem à humanidade, que está lá embaixo.  Sísifo, aos setenta e tantos, cansado de tanto sacrifício por nada, faz o mesmo, mas pra se despedir. Pois nós – seus leitores ou não – fomos contados, medidos e pesados por ele… com resultado bastante negativo:

A mim me tocou
viver numa época em que miúdos seres
rastejam sem visão no pó do instante
(DEPOIS DE TER VISTO)

Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
(RITUAL DOMÉSTICO)

Onde estão esses
que ao nosso lado
parecem tão passivos
com o ar silencioso
e corrosivo?

Onde estão?

Estão apenas vivendo
morrendo
como sub ser vivos.
(ONDE ESTÃO?)

Banqueteiam suas fezes em alarido
como se ouro fossem
e dançando à borda do abismo
se rejubilam
– com a vertigem.
(DEPOIS DE TER VISTO)

E isto – em ESCLEROSE E\OU MALEVITCH – é terrível:

Depois de aprisionar figuras
nas molduras de seus quadros
chegou ao ápice da arte
– e do espanto:
Emoldurou
– o branco sobre o branco. 

Sísifo, ante tal pedra no meio do caminho, dá um basta. Affonso Romano de Sant´Anna, que além de grande poeta é um contumaz viajante, dá com ela encalhada no Egito:

 

 

 

Vê, inacabado porque fraturado, o que seria o maior obelisco da terra em que tudo era gigantesco:  sua concreta pedra de Sísifo\Drummond. E escreve um dos melhores poemas de seu novo livro, com uma forte compulsão de se servir de um recurso… concretista:

Esse obelisco     inacabado
fora de Assuam     esse obelisco
o maior de todos    com a quarta
face não cortada     da pedra no chão
esse obelisco sem     inscrição alguma
a não ser as rachadu     ras do terremoto
que o partiu  esse  ob     elisco
abandonado ontem  ho   je visitado
por multidões atônitas    esse obelisco
inerte tem algo huma     no perturbador
em torno dele assim     morto e torto
estirado como se fo    sse um osso
ou algo nosso inse     pulto em torno
dele circulamos o     lhando o chão
como se algo e      m nós também
tivesse se par    tido
sem alcançar a perfeição

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Embora a tradição diga e Vinicius sustente que “poeta só é grande se sofrer” e o tema da proximidade da morte seja um achado – no Sísifo desce a montanha – do porte do corvo repetindo o nome da finada Lenora pro amante desconsolado – em Poe -, é claro que (para mim, pelo menos, que o considero nosso maior poeta vivo – e também, talvez, morto) não existe motivo real pro desconsolo. Pelo contrário: Affonso deixa o nome na História de nossa literatura, e – enquanto vai pra Cartago e Assuam, Chicago mais Teerã – nos intervalos descansa carregando pedra:

Sinto que o incomoda o fato de sua poesia, em certa fase, ter tomado partido por causas arriscadas, por conta dos sub ser vivos. Ele diz, em PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA:

Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
(…)

Impossível ficar no tempo que me coube
o  tempo todo
Preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
– que o tinha que carregar.

A epígrafe de seu livro, a propósito, vem de Clarice Lispector:

A gradual deseroização de si mesmo \ é o verdadeiro trabalho que se elabora \ sob o aparente trabalho.

Deseroização.

Seria isto?:

Olho e acaricio meu cão.
e apagando a luz da sala,
tranco as portas
exilando o medo.
(AQUELAS QUESTÕES)

É estranho ouvir sobre tal busca de autodesmistificação em Affonso, que me foi apresentado por Sérgio de Castro Pinto há séculos, e que me lembrou, na época – pelo gigantesco A Catedral de Colônia, que tentei emular com meu Marco do Mundo, e pelo bravo QUE PAÍS É ESTE?, sendo ele próprio de ombros largos e grande charme –  a mais marcante figura épica de minha adolescência:

 

 

 

 

Mas o tema é A Morte.

Sou apenas um pouco mais “novo” que ele. Affonso é de 37; eu, de 41. Tenho, portanto, sentido a aproximação dela, também. E, como sempre me pareceu caber à poesia tirar as palavras de nossa boca, os melhores momentos do Sísifo desce a montanha são – para mim – aqueles em que o poeta aborda – heroicamente, apesar da inspetora Lispector – o tão temido tema. PREPARANDO A CREMAÇÃO, por exemplo, é antológico. Pela simplicidade veraz ou feroz com que Affonso revela ter feito o que ainda não me decidi a fazer, embora seja um ato inevitável:

Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.

O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos os poemas.

“Solução final”. Veja a sutileza com que ele nos remete à Solução Final da Questão Judaica, como foram considerados os terríveis crematórios nazistas nos campos de concentração. Mais sutil ainda é o fato de que ele não lamenta ter o corpo em chamas e reduzido a cinzas, mas “todos os poemas” desintegrados com ele.

Confirmando a imagem que sempre tive a seu respeito, o poeta tem amor intenso pela vida. Daí que é comovente vê-lo dizer mais adiante:

Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despedindo dos livros
vizinhos e paisagens.

Claro: em RITUAL DOMÉSTICO ele nos fala do aconchego do seu lar, com toques de extrema delicadeza.

Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.

Essa cachorrinha meiga é presença recorrente no livro. Algo como a cadela Baleia de Vidas Secas ou o cão interpretado por Servílio de Holanda no espetáculo Vau do Sarapalha. Num desses instantes, Affonso se excede. Talvez haja me comovido mais porque tive, durante anos, uma pequinês chamada Lady, como a de Disney, e vi em casa cenas como essa, fantasticamente flagrada em LEVARAM OS SEIS FILHOTES. Não à toa os olhos de minha mulher marejaram quando li para ela:

Levaram os seis filhotes dessa cachorrinha
que chora
geme de desespero
procura suas crias pelos cantos da casa
sob a mesa
no jardim
na lareira
e pede socorro com seus olhos
exigindo explicação.

“E pede socorro com seus olhos exigindo explicação”!

É com detalhes assim que Affonso ressalta o apego à vida que sente estar por perder. Ainda em PREPARANDO A CREMAÇÃO, diz:

Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.

Já me vi fazendo o mesmo inúmeras vezes e me pareceu bem rever isso em versos.

Mas de repente, em COMPREENSÃO – num surto de otimismo – ele conclui que não há morte, tudo é recomeço. Daí que – tal qual num sonho – implicitamente evoca para si – ao optar pela cremação – um fim igual ao do profeta Elias… com o que tudo se transfigura:

Espero que um carro de fogo me arrebate numa tarde dessas
e sem estremecimento
me dissolva de vez na eternidade.

Mas  enigmas o cercam de todo lado e o angustia saber que a Esfinge vai devorá-lo sem que eles os decifre. No INDEPENDEM DE MIM diz:

Meus rins, meu pulmão, meu fígado
(e o coração)
não carecem que lhes ordene
o que fazer.
Na verdade me antecederam.
me hospedaram apenas. E se rebelam
se os forço a me obedecer.
são autônomos
mais que autômatos.
Eu é que sou essa estranha coisa
pensando movê-los.
(…)

E aqui termino, anotando o que ele diz a respeito, NO LABIRINTO:

Habito o mistério que me habita

O que me remete a uma frase do Ulisses que vivo me repetindo:

– Falar do mistério no seio do próprio mistério: isso é arte.

É, na verdade, arte.

 

 

 (W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)