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68ª Leva - 06/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Juh Moraes

 

 

 

No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Paulo e Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!

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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Juh Moraes

CEMITÉRIO SÃO PAULO

Daniel Faria

Para o Marcelo Ariel

Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.

Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.

Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de dentes afiados, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.

Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.

 

(Daniel Faria é historiador e poeta. Autor do livro O Mito Modernista, publicado pela EdUFU em 2006. Publicou Matéria-Prima, pelo projeto Dulcinéia Catadora em 2007. Acaba de ser incluído na Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel e editado pela Caiçaras. Seu Livro de Orações está no prelo, pela série Caixa Preta, da Lumme. Participa da Revista Mallamargens)