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85ª Leva - 11/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Mar Becker

 

Arte: Julia Debasse

 

PERSÉFONE – I

 

penso na mulher que é inacessível como uma estrela de  sal.   um
cálice, uma chaga em backing vocals  no cair das horas.  penso na
mulher que pensa na palavra, e a palavra então se faz  aos poucos
nas bocas das demais mulheres: e a palavra se faz, com a matéria
das flores sonâmbulas e do marfim.

 

 

PERSÉFONE – II

 

sonho ou assédio
lunar,

meninas que se desgarram de si mesmas,

meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.

*

meninas que não falam, magras,
inacessíveis,

tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.

nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,

e das meninas às bonecas,

num processo difícil de perpetuação
da fome.

 

 

***

 

 

porque eu te amo

desenho teu rosto como abertura, milagre
qualquer dessas coisas que têm precisamente a ver
com o mar, a noite
o pássaro

porque de fato não caberia desenhar teu rosto como desenho
porque eu te amo

uma abertura
um parapeito de sons de sinos sutis
uma palavra com vista
para o mar, à noite

ou para isto que é precisamente o corpo de aléns
do pássaro

da travessia do sangue

teu rosto em teu rosto, apenas
meu amor

 

 

***

 

 

“para domenico a. coiro”

 

além da pele

a palavra

além da palavra

o poema

assim ela entra em tua respiração

em teus modos de ser prenúncio e desvio

para o fogo

o fim e o início: além

polifônica, viva

mulher-pássaro

pele-palavra-poema

o sangue em tuas noites incendiárias

assim: e sobe, enfim

indefinidamente

 

 

***

 

 

[HÁ PALAVRAS…]

 

há palavras para as quais
não há palavras

não se pode vê-las a olho nu, vivas
não se pode atravessar
turvar
o espelho

são
nenhuma
numa

e tantas

e se perdem de si mesmas

todas as palavras-luas virgens como pele: pálidas
à parte do que digo
do que dizes

refletidas
impelidas pelo desejo

da boca
na boca

 

 

***

 

 

[COMEÇARIA DIZENDO…]

 

começaria dizendo o que não posso

que teus suores formam hieróglifos de sal na pele
e que um rosário misterioso se enrola a teus pulsos quando me amas

começaria dizendo que tua respiração tem vista para o mar
e que à noite me debruço ali, silenciosamente

meus cabelos de água-viva
minha língua de virgem
madrepérola

e que à noite

e que me debruço e morro
em tua respiração

 

(Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia pela UPF, cursa Especialização em Epistemologia e Metafísica na UFFS e trabalha como professora. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir)

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética IV

Desenho: Felipe Stefani

ABREM-SE AS ASAS DOS CABELOS

Mar Becker

 

abrem-se as asas
dos cabelos,

digo-te: rosa

(uma trança a se
desfazer)

-dos-
ventos.

que mãos bordaram-na?,

(o que tu sangras,
sussurro.

digo-te, ave escarlate,

ao pé das pétalas
que encalham

nos meus ombros

como se fossem coágulos
de areia,

conchas: as pérolas
dos brincos).

é outono, meu bem; ouve,
todas as peles

rangem.

 

 

***

 

 

AGOSTO – I

 

respinguei no vidro
da palavra que

fechaste,

da janela que em
tão pouco,

tão perto,

se calou dentro de
ti.

agosto, ainda.
muita chuva,

(mas nenhuma fresta
nos lábios,

um sopro, que
fosse,

nenhum silêncio
entreaberto

para que à noite meu
nome

adormeça no teu).

respinguei no vidro,
no para-

peito,

o coração logo atrás.

 

 

(Marceli Andresa Becker é estudante de filosofia e professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Pausa e Eutomia, no Portal Cronópios e em diversos blogs. Participou ainda da Miniantologia Poética do Centro Cultural de São Paulo, organizada por Claudio Daniel, da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel, e do trabalho Canto Ancestral (CD e livro), do cantor nativista Lisandro Amaral. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Contato: mab_1109@yahoo.com.br)