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115ª Leva - 09/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Helena Terra

 

Re
Desenho: Re

 

Passado a limpo

A Raduan Nassar      

O que registro agora aconteceu anteontem, ontem e hoje de madrugada quando abri a porta do quarto de trabalho. Talvez tenha acontecido também em outras noites e mesmo durante outros dias. Não me lembro dos dias. Passaram, devagar, sem testemunhar a nudez da luz noturna. Nunca escrevi sobre eles. Pensei que escrevia enquanto dava nomes às plantas e substantivava os perfumes e os detalhes da casa. Mas as palavras nunca foram minhas. As letras e os sons sempre pertenceram aos rasgos e à caligrafia do mundo dele, torrão alquebrado pelas estantes e pela imortalidade da mesa –  madeira de lei como a carne de seus pés úmidos –  perdido por entre os papéis amassados e os relógios repletos de hiatos.

Ele me viu espremida no canto, e não se mexeu na cadeira. Por um momento, abriu e fechou os olhos, mapeando minha presença em seu solo sagrado. Por um momento, pensei ele vai estender-me as mãos e depois aferrolhar-me em seus braços. Dos meus, escorriam saudades. No entanto, nem nossos olhos nem nossos corpos se falaram. Então, avancei, escondendo, ainda, a súplica sob a camisola. Ele não disse nada. Tampouco eu pude. Dizer seria uma desonra.  Apanhei o bloco de rascunho e um lápis e, sem arrancar a folha, fui vencida pela repentina desobediência dos dedos: vim em busca de amor, escrevi. Frase curta, certeira. Dentro e fora do coração. Ele, o náufrago capaz de chorar apenas de rir, manteve o olhar pregado nas ranhuras da mesa, provavelmente, calculando em que momento as lágrimas me avassalariam o sangue e a debilidade. Responda, insisti em uma letra desesperada, jogando o bloco em seu peito para que ele rompesse com a falsa concentração do que antes fora sua labuta. Não tenho afeto para dar foram as cinco palavras escolhidas.

Zelosa, ajeitei o bloco no lugar de costume, ganhando tempo para refletir sobre a sentença. Meu marido não seria capaz de acreditar em meia palavra do que escrevera.  Se sua verdade escapava deformada, era porque ele pensava não precisar mais dela. Precisava, sem saber o porquê, ofender, esfolar de modo absurdo. Portanto, não hesitei em dar a volta na mesa e, como em tantas vezes, parar atrás de sua cadeira. Ele continuou imóvel, decidido a ignorar-me, mas eu, habituada a seu ritmo, não me dei por vencida e, com a ponta das unhas, rocei seu pescoço e cabelos como antigamente nos pedíamos nos instantes de gozo. Ele fechou sobre a minha mão o punho, apertando-me os dedos cada vez mais e mais até a dor calar o gemido. E foi nessa altura que eu, num gesto explícito, puxei meu braço, flutuando, rápida e miserável, em direção à janela em busca de um copo de ar.

Deparei-me com o meu colo sufocado pelos botões e pelo laço da camisola.  A rotina a usara contra mim, contra ele. Cerceara-me os contornos, os vícios. A fidelidade dos meus desejos secara sob o tecido opaco como murchara a de meus seios e de meu ventre inconfundível, o ventre seco e desprezado pelo sêmen dele, pela vontade do deus e dos demônios dele. Meus demônios. Devassos e impuros, ao alcance também de minha fome e das artimanhas, todas, mescladas a tudo, misturando tudo, inconfidentes, terríveis no comando, provocando os limites do perigo.  E eu cedi a elas e voltei à ação, desamarrada, quase despida, crua, oferecendo-me para um último golpe, esfregando-me na densidade de sua pele, abocanhando os seus pelos, forçando com o pé a entrada do meu prazer, do meu amor, mas ele se desembaraçou sem pressa, ajeitando o pijama e recolhendo os pés dele um por um sob a cadeira como se eu estivesse parada na vida e ausente feito um sonâmbulo.

 

Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance “A condição indestrutível de ter sido”.

 

 

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa

Dedos Prosa II

Samantha Abreu

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Faz sol

 

Logo agora que a chuva parou e que voltamos a ter vinis na estante. Agora, bem agora que não queremos mais ter tudo pois estamos de folga. Que não precisamos calçar sapatos, que a lua de mel mora no sofá de veludo. Bem agora.

Estava chovendo antes de ser hoje. Antes de ser este cabelo ruivo secando ao vento antes de ser vida acontecendo a partir das dez da amanhã. Mas dormir é sonho que também é noite. Bem agora que dormir é sonho eu escuto esses gritos lá fora e corro pra ver a morte, o ardor, a bomba. Bem agora, bombas. Explosões que não são coloridas e a gente querendo um banho morno seguido de pijama cama pra dois nossa comida. Bem agora que acabou a comida, que o sapato aperta e que a gente desaprendeu a dançar, já não temos cabelos nem sono nem os sonhos.

O que é que a gente vai fazer quando essa guerra acabar?

***

O golpe

 

O tempo entre a pancada e tombo está no cambalear das pernas.

As mesmas que vibram durante o ato – teu dia amanhecendo em mim – são as que cedem diante do fato de que tua ausência seja sempre

passagem.

O teu perfeito golpe

me pega na rigidez das coxas, para o amparo dos braços antes da queda.

Mas o tombo chega

inelutável,

fazendo do susto o sonho sempre depois do nascer do dia

o nocaute, a lona.

***

Guerrilha

 

Simulo que não, ele provoca o sim. Tem fácil acesso, nome na lista, ingresso livre. Entra, carrega as malas, todas as balas e todos os concordantes motivos. Ele me arranca os sorrisos, os suspiros. Arrasa todos os atinos.

Faz que não faz e desfaz a completa certeza do não.

E daí já não sei, já não importa: roupa, brincos e cordas. O banco de trás, o beco e o balcão. Guerra indeclarável pelo território alheio. Língua na boca do outro e cerveja esquentando na mão.

Enquanto ele derrete, eu sua.

Líquido e rubro amor que escorre. Terra invadida que ferve por toda a veia que corre,

briga no escuro, gangue de rua.

 

Samantha Abreu é professora em Londrina/Pr. Já foi publicada em antologias e revistas, além de participar de debates, projetos e eventos literários. Lançou o livro de poemas “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011) e o livro de contos “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015). Integrou as antologias “O Fio de Ariadne” (Atrito Arte, 2014) e “29 de Abril: o verso da violência” (Ed Patuá, 2015) junto com autores contemporâneos de todo o país. Seus textos poéticos foram adaptados para o teatro na montagem “Trouxe a chave para libertar sua tristeza”, da Cia AARPA.

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

[1976] A ALMA DO DIABO*

She has given her soul to the Devil
but the devil gave his soul to God
Caetano Veloso

Quando o Major Andrade passou mal em casa, acabava de colocar o uniforme para ir ao quartel. Tinha acordado cedo para engraxar os sapatos e polir o cinto. Podia ter feito isso na noite anterior, mas há muito tinha adquirido o hábito de revisar seu uniforme pela manhã. A mulher deixava tudo passado e em ordem. O que lhe cabia, cinto e sapatos, ele cuidava logo quando acordava. Deviam estar sempre brilhando, impecáveis e, mesmo já limpos, ele tornava a escovar e polir. Depois era vestir-se. As meias esticadas até o alto da canela, a calça verde-oliva com o vinco exato, sapatos, a camisa cáqui, a gravata de mesma cor, a túnica também verde-oliva e o quepe. Vestia-se nessa ordem. Naquele dia, por um motivo que não saberia dizer, mas que, depois, pensaria ser um indício já de sua doença, um indício da desordem do corpo na rotina de vestir… naquele dia ele colocou a túnica antes da gravata.

Não era uma gravata comum, mas daquelas de nó pronto com um gancho para encaixar no colarinho. Foi por isso que ele, ao sentir o aperto na garganta, teve certeza de que a gravata não lhe apertava. Algo o enforcava e não eram as roupas, mas ainda assim tentou se desfazer da gravata que teimava em não sair, agarrada ao botão do colarinho. Teve de puxar com força e rasgar a camisa. Com o alívio momentâneo é que se deu conta. O braço formigava como se dormente e o peito estava apertado numa angústia de morte anunciada. A cabeça latejava. A rigidez da túnica lhe impedia de levantar direito os braços, não conseguia tocar a testa com a mão. Naquele momento não sabia se era uma fraqueza do corpo ou se tinha esquecido o movimento da continência. Para vencer as mangas rígidas do uniforme tinha de esticar primeiro o braço para a lateral. Assim ele escapava um pouco do tecido. Só então fazia o gesto de levantar o braço até a testa. Pronto. Estava feita a continência.

Naquela manhã não foi assim. O uniforme apertava e mais parecia uma camisa de força do que uma roupa e seus símbolos. O Major Andrade caiu no chão do quarto e lhe pareceram muito longos os instantes em que ficou ali sufocando. Antes de perder a consciência, imaginou ser essa a sensação de quem é torturado: um quase morrer que nunca se completa. Uma agonia sem fim. Esse foi seu último pensamento antes de tudo escurecer no quarto, enquanto lá fora, às cinco e meia da manhã, começava um novo dia.

*

O quarto era branco.

Dizer assim uma simples constatação parece redundante e desnecessário para qualquer um, mas para o Major Andrade era uma constatação infeliz. Ali naquele quarto de hospital tudo era branco. Faltava algo verde-oliva nas portas que pudesse lembrar o Hospital Militar de Salvador. Quando ele acordou pela primeira vez, quis saber por que não estava lá.

— Eles não têm equipamento para cuidar de você, querido.

A esposa tentava a todo custo convencê-lo a aceitar o hospital civil sem reclamar. Ele aceitava, dava-se por rendido, mas reclamava e acha defeitos em tudo. Tinha tido um infarto, estava ferido, fora de combate, mas não se conformava. Por que o exército não tinha um hospital bem aparelhado? Que diabos estavam fazendo com a tropa?

— Se você ficasse lá ia morrer.

— Palhaçada! Saindo daqui vou falar com o Comandante da Região. Se um soldado não tem tratamento certo, seguro, como pode defender o país? Se precisar, mando carta pro Geisel. Absurdo.

— Meu velho, você tem de ficar calmo. Assim só piora.

O médico, que já entrava no quarto enquanto a mulher falava, emendou.

— O senhor tem de relaxar pra ficar bom logo.

Andrade olhou para o médico com algum desprezo. Era novo, não devia ter nem trinta anos. O que ele sabia de medicina?

— É esse menino que está cuidando de mim?

A mulher respondeu com um olhar de recriminação.

— Ele não fica quieto, Doutor, não se acalma.

— Se o senhor não se acalmar, vamos ter de lhe dar um calmante.

O médico falava com uma paciência estudada, complacente, como se lidasse com uma criança. Aquilo só irritava mais ainda o Major.

— Quando ele sobe pra cirurgia, Doutor?

— Marcamos pra de manhã.

— Cirurgia?

— Sim, querido, eu lhe falei.

Ele não lembrava. Como iam operá-lo naquele hospital? E sem nem mesmo ser consultado? Começou a praguejar, queria uma explicação, queria sair dali.

— Esses médicos não sabem nada. Eu não vou ser operado por esse menino.

— Calma, meu querido.

O médico resolveu que era melhor deixá-los conversar. Ele teria de ser operado. Teria ainda de esperar até o outro dia e, depois, repouso. E quem sabe quais as consequências? Talvez fosse reformado, fosse para a reserva e fim. Acabado. Morto ou vivo não seria mais o soldado que era. Tanto tempo de dedicação ao Exército; aqueles anos todos defendendo o país e justo naquelas circunstâncias, o país em crise. Os comunistas.

A mulher tinha conseguido acalmá-lo. Deixou-o sozinho no quarto.

Veio, então, uma enfermeira. Era uma mulher de uns quase trinta. Todo mundo tinha quase trinta naquele hospital e ele não confiava em ninguém com menos de trinta anos. Era morena clara. O cabelo meio cacheado estava esticado e preso num coque atrás da cabeça. Via-se que todo o desalinho do cabelo tinha sido domado com mão de ferro. Uma disciplina militar. Ela o cumprimentou sem nem mesmo olhar e começou os preparativos para um remédio. Preparava uma seringa.

— Vai me furar com isso pra quê?

Ela finalmente olhou para o paciente assustada. O major percebeu o susto.

— Que é? Estou mal assim?

— Não, senhor.

— Pra que é esse remédio?

— É pro senhor relaxar um pouco.

— Vai me dopar?

Ela não hesitava ao colher o remédio com a seringa. A mão firme. Depois foi só injetar no soro lentamente.

— Já, já o senhor vai estar tranquilo. Vai ser bem suave. Tá?

Era verdade, aos poucos ele se acalmava. Ela arrumou os apetrechos e se preparava para sair quando ele a chamou.

— Vem cá, eu já não te vi antes?

A moça se virou. O rosto estava imóvel, sem nenhuma reação, uma frieza típica de enfermeiras. Já tinha visto tantas coisas.

— Como é seu nome, menina?

— Maria.

— Maria de quê?

— Só Maria, senhor.

— Tem sobrenome?

— Sim, senhor.

— E não vai me dizer?!

— Não, senhor. Agora o senhor precisa relaxar.

— Eu lhe conheço.

— Acho que não.

— Conheço, sim.

— Senhor, talvez seja o remédio. Ele já deve estar fazendo efeito. Vou deixar o senhor dormir. Boa noite.

Ela saiu e fechou atrás de si a porta branca. O quarto ficou numa penumbra branca. Com se estivesse numa noite glacial. O branco foi se desgrudando das paredes como se fosse algodão e aos poucos começou a cobrir a cama onde estava o Major, lentamente, como neve. Ele se viu inteiramente coberto. Sentiu-se um pouco sufocado. Teve medo de morrer, um medo vago, um sentimento que pouco a pouco se distanciava, ou era ele que parecia estar cada vez mais distante. Parecia escapar, sumir, até que finalmente o branco escureceu de vez e tudo se apagou.

*

Acordou no escuro. Apenas o retângulo da porta fechada se destacava. Voltou a fechar os olhos e a imagem da enfermeira apareceu na sua frente. Não estava de cabelos presos. Eles estavam soltos, ondulados, desalinhados. Usava um vestido azul, simples, que descia reto até os joelhos e era abotoado na frente. Não tinha nada do espalhafato dos jovens daqueles tempos esquisitos. Nada de estampas, calças jeans. Uma moça de família. Ela chorava e repetia “meu irmão”, “meu irmão” e então desapareceu de novo no escuro meio avermelhado das pálpebras fechadas do homem. Ele voltou a dormir o sono químico do remédio, o sono profundo de um corredor longo em que podia ouvir portas de ferro se fechando e gritos. Eram gritos distantes, abafados, como se alguém estivesse sendo sufocado. Ele andava e os gritos pareciam mais próximos, como se fossem sussurrados em seus ouvidos. Vinham cada vez mais perto, até que pareceram entrar na sua cabeça e ficaram mais e mais abafados e, por fim, viraram uma tosse descontrolada.

Acordou tossindo, engasgado na própria saliva. Por um segundo, sentiu que ia sufocar. Precisou levantar e sentar na cama. Queria gritar, mas a voz não saía, pelo menos não audível. Pensou que sua mulher pudesse estar ali no quarto velando seu sono. Não estava. Estava só no escuro. Aos poucos a garganta se desobstruiu e pôde emitir um pigarro mais alto. Queria cuspir, mas onde? Não tinha nenhuma aparadeira perto. Acabou cuspindo no chão, um cuspe grosso, escuro, que logo se transformou em vômito. Ficou um tempo debruçado para fora da cama até que a ânsia acalmou. Ainda recostou um tempo na cama para só então ouvir algum barulho. O retângulo de luz se abriu na porta e entrou a enfermeira.

— O senhor está bem?

— Claro que não. Não tá vendo?

A moça olhou o chão sujo.

— Quase morri aqui sozinho. Não tem ninguém aí, não?

— Eu estou aqui, senhor.

— Minha mulher?

— Não sei dizer. Deve ter descido. Eu mesma vou limpar isso.

Ela acendeu a luz e saiu, voltou logo com um carrinho de material de limpeza e uma bandeja com vários outros materiais.

— Estamos sem pessoal de limpeza à noite, mas já vou limpar isso tudo.

— Hospitalzinho de merda.

Ela se concentrou primeiro no chão. Enquanto ia de lá para cá entre quarto e banheiro, o Major Andrade voltou a reconhecê-la.

— Eu conheço você, sim.

Ela não parava a limpeza. As mãos enluvadas para recolher o vômito do chão.

— Acho que não, senhor. Eu, pelo menos, não me lembro.

— Você tem um irmão?

A enfermeira o olhou sem expressão. Mesmo enquanto limpava o chão sujo sua expressão era impassível. Nenhum nojo aparente.

— Não, senhor. O senhor fuma, não é? Não precisa ficar preocupado com esse muco. Vou relatar ao médico, mas tenho certeza de que não é nada grave. Pelo menos não agora.

Levou o pano sujo para o banheiro e de lá continuou. A voz saiu um pouco mais alta, mas ainda calma e controlada.

— O senhor fumava sem filtro?

De volta ao quarto.

— Ou cigarro de palha?

— Os dois.

— O senhor devia fumar só cigarro. E com filtro. É melhor.

— Eu lembro de você procurando seu irmão no quartel.

— Eu não tenho irmão, não. O senhor deve está me confundindo com alguém.

— Tem, sim. Ou tinha. Ele foi preso, não foi? Era subversivo.

Ela tinha terminado a limpeza. Preparava, agora, um chumaço de gaze.

— Era comunista.

O rosto de Maria continuava imperturbável. Havia apenas um esboço de compreensão, o ar compassivo que as enfermeiras fazem para qualquer dor que um paciente sinta, seja uma febre ou um câncer terminal, a mesma face suave e calma. Confiante.

— Eu preciso limpar o senhor. Posso?

Começou a limpar o rosto do paciente, queixo, pescoço.

— De manhã um enfermeiro vem lhe dar um banho. Isso é só pro senhor não dormir sentindo o cheiro do vômito. Não vale a pena perder o sono agora.

— Você é muito educada, mocinha. Me admira ter um irmão comunista.

— Me desculpe, mas não sei do que o senhor está falando.

— Sabe, sim. Você foi várias vezes atrás dele. Isso aconteceu há uns dois ou três anos. Não lembro bem, foram tantos. Ele tinha desaparecido. Fazia tempo que você não o via. Ele tinha ido pra clandestinidade. Não sei o que fazia antes, algo na universidade. Professor ou estudante? Tinha sido expulso e entrou na luta armada. Uns marginais, você sabe.

— Eu não acompanho política.

— Pelo visto, não mesmo. O que eles não entendem é isso. Os subversivos. O povo está do nosso lado. Ninguém quer saber dessa história de comunismo. As famílias não querem. Alguém precisava fazer alguma coisa. Foi o povo que pediu a Revolução. E o Exército apenas protege a vontade do povo.

Ela não respondia nada.

— A influência deles é nefasta. Eles se metem na música, nos programas de televisão. É esse desregramento; a nossa juventude está se perdendo.

Ela acabou o que estava fazendo e começou a arrumar as coisas para ir embora.

— O senhor precisa voltar a dormir.

Ele a segurou pelo braço. Segurou forte. Queria que ela o olhasse nos olhos. Puxou-a.

— Você achou seu irmão?

Ela pegou a mão, tirou-a do próprio braço e a colocou de volta sobre o peito do paciente.

— Agora o senhor precisa dormir.

A voz era mais firme do que antes.

— Menina, eu sou um Major do Exército Brasileiro. Só recebo ordens de meus superiores.

— Mas aqui o senhor tem de obedecer. É para sua saúde.

Falou no tom amigável com que se fala com as crianças. Arrumou suas coisas e ia saindo quando ele a chamou.

— Não quer saber o que aconteceu com seu irmão?

Ela parou na porta. Ficou um instante em silêncio até voltar-se com o rosto plácido de sempre.

— Parece que o senhor não vai dormir, não é?

— Quer saber se ele está vivo?

Ela continuou parada na porta.

— Sente aí.

Não sentou. Ficou imóvel no mesmo lugar.

— Seu irmãozinho era um agitador. Tinha mesmo de ser expulso da Universidade. Acho que era estudante, não é? Nossos homens estavam na cola dele há muito tempo. Sumiu, mudou de nome. Ele era o tal Carlos, não era? Você parece que não sabe de nada. Ou sabe? Essa cara tranquila…

Ela continuava no mesmo lugar.

— Sente.

Apontava a cadeira convidativo.

— Seu irmão não era assim. Era fraco. Não fui eu que prendi, mas sei que ele foi encontrado numa casa na Ribeira. Quando os colegas chegaram, ele se escondeu na caixa d’água. Quase se afoga, o idiota. Chegou na unidade molhado e sangrando. Às vezes é preciso dar um corretivo nos caras. Sabe como é, né? É preciso pôr ordem nas coisas. Jogamos ele no buraco e esquecemos lá. Nem sei quantos dias. A ordem era essa. Primeiro uma adaptação, pros caras esquecerem o mundo lá fora. Quando tiramos, ele tossia muito. Estava todo vomitado, mijado, cagado. Fedia muito.

Maria franziu um pouco a testa, muito levemente.

— Tá com nojo? Mas você não teve há pouco quando limpou meu vômito.

— Não.

— Pena? Eu entendo, afinal era seu irmão. É compreensível. Você é uma boa moça. Católica, temente a Deus. Eu também. Vou à missa todo domingo. Faço meus filhos irem também. Tenho dois filhos, um casal. A moça ainda está na escola, dezesseis anos. O rapaz já é casado, é engenheiro. A esposa é professora, fez escola normal, mas não trabalha mais. Casou. Tem de cuidar dos filhos que vão nascer e não dos filhos dos outros. Você é casada, minha filha?

— Não, senhor.

— Mas ainda é moça. Logo vai casar. Quem sabe um médico desses daqui, um rapaz direito. Tem um oficial recém incorporado no meu quartel, um tenentinho. Não namorou ninguém desde que chegou. Já falei pra ele arrumar uma noiva. Assim é esquisito. As pessoas comentam. Quem sabe ele vem aqui, hein? Você é uma boa moça.

Eles ficaram um pouco em silêncio.

— Quer que eu continue?

— Não precisa. O senhor tem de descansar.

— Mas eu vou continuar. Seu irmãozinho estava muito mal, com febre. Sabe Deus que doença tinha. Mas era preciso limpar, né? Ali só tinha um jeito. Botaram ele no pátio e lavaram com um banho de mangueira. Ele tremia tanto, era incontrolável. Parecia um boneco. Foi a diversão dos soldados. Depois demos toalha e roupas secas pra ele. Ele não podia piorar. Tinha muito a falar. Olha, quem fala sofre menos. Ele devia ter falado logo. Esses caras são assim. Sabem que vão soltar a língua, entregar todo mundo, mas demoram, ficam sofrendo. Era tão mais fácil entregar logo o jogo. São muito burros. Seu irmão foi muito burro.

— O senhor torturou ele?

— Sim. Quer ouvir? Senta e escuta.

Uma sombra tomou conta do rosto dela. Ela sentou na cadeira e esperou. Não olhava para o paciente, olhava para os lençóis da cama.

— Eu ainda era Capitão naquela época. Meu trabalho era interrogar os subversivos. Fiz isso muitas vezes. Era assim que a gente descobria os planos deles, era preciso. Uma questão de segurança nacional, sabe? Esses terroristas estavam à solta por aí fazendo baderna, assaltos, sequestros, explodindo coisas. Ainda estão. O país não está seguro. Nós vivemos anos perigosos, uma guerra.

— O senhor torturou muita gente?

— Foi preciso. Seu irmão foi um caso. Não colaborou. Poxa, na primeira surra era pra ter falado. Peguei dois soldados e mandei espancar. Primeiro de leve. A gente tem sempre a esperança de não precisar pesar a mão. Eu sou muito humano. Não sou de exagerar. Levou pauladas nas mãos e nas palmas dos pés, telefones. Sabe o que é um telefone?

Ele acenou positivamente com a cabeça.

— Você sabe. Pois não adiantou. Botamos na geladeira um tempo, nada. Geladeira é um cubículo baixo. A gente esfria, esquenta, esfria… o marginal fica uns dias lá debaixo de uma barulheira infernal. Seu irmão ficou. Nada. Ele não dizia nada. Foi aí que eu tive certeza. Um terrorista treinado. Ele resistia bem. Tava na cara que sabia de alguma coisa grande. Quanto mais eles se calam, mais a gente sabe que estão escondendo algo. É sempre assim. Seu irmão não seria diferente. Depois disso, fizemos afogamentos. Sabe como é?

Ela fez que sim novamente.

— Sabe não. Pensa que é só enfiar a cabeça num balde ou num tonel com água? Tem isso, ok, mas não é só. Pra mim funciona melhor tapar o nariz do sujeito e enfiar uma mangueira de água na boca. Liga e pronto. Ele vai engolindo água até sufocar. Quem já engoliu água na praia sabe o desespero que dá.

Ela se levantou.

— O senhor vai me desculpar, mas eu preciso ir.

Os olhos piscavam para disfarçar as lágrimas que queriam vir. O nariz estava vermelho.

— Não que saber mais?

— Não, senhor.

— Ele precisou ir para os choques, o pau-de-arara. Era teimoso o danado. Gritava, gritava muito, muito.

Ele colocou as mãos nos ouvidos, como se ainda pudesse ouvir os gritos dos presos, todos dentro de sua cabeça. Os olhos fechados.

— O senhor me dá licença.

Maria aproveitou o momento para fugir daquele lugar. Já saía do quarto quando ele completou.

— Ele acabou falando, menina. Contou tudo. Eles sempre falam.

Ela parou na porta entreaberta.

— E depois?

— Depois, pegamos os comparsas todos. Todo mundo. Fim.

— Assim? Fim? Acabou?

— As coisas não acabam assim, minha querida. Essas coisas não acabam bem.

Ela não conseguiu dizer nada. Saiu e fechou a porta atrás de si.

Ele ficou sozinho de novo. Por que tinha dito tudo aquilo à moça? Estava meio alterado, a respiração ofegante. Ia morrer logo, achava. Sussurrava para si “não passo de hoje, não passo de hoje”. Sentia que ia morrer, sabia disso enquanto fechava os olhos. Via um escuro diferente, mais negro que o normal. Definitivo.

*

Do seu sono ouviu a porta do quarto abrir. Abriu os olhos e viu a enfermeira novamente. Estava plácida, equilibrada. Manejava uma bandeja com seringas e remédios.  Quando percebeu que ele estava acordado, sorriu.

— Está acordado? Como está se sentindo?

— Bem.

Ele estranhou a calma da moça. Tinha saído transtornada antes e agora voltada como se nada tivesse acontecido. A mesma feição compassiva de antes.

— Você deve me achar um monstro, não é?

— Como?

— Depois de tudo que eu lhe contei.

Ela sorriu compreensiva.

— O senhor não se preocupe. Está tudo bem.

— Você está com ódio de mim, não é?

Ela preparava o medidor de pressão.

— Deve me achar um torturador de merda. É isso.

Encheu o medidor de pressão. O braço do paciente ficou apertado. Ele achou que estava exagerado, doía. Pensou em reclamar, mas logo a pressão começou a diminuir. Ela se concentrava na medição.

— Sua pressão está alta. Vou precisar lhe medicar.

— Você?

— Sim.

— E onde está o médico?

— Ele vem mais tarde, não se preocupe.

— E minha mulher?

— Ela está lá embaixo, já vai subir.

Ele desconfiava da calma da moça. Como ela podia estar assim tão calma depois de tudo que ele falara?

— Você vai me matar.

Ela olhou para ele surpresa. A seringa estava na mão pronta para colher o remédio na ampola.

— O senhor está agitado. Esse remédio é justamente pra lhe acalmar.

— Você quer se vingar de mim. Eu não tenho medo. Se eu morrer, não vou para o inferno. Tudo que eu fiz foi pra defender o meu país. Já você, você é uma assassina. Eu sou um soldado, eu obedeço ordens. Ninguém pode me culpar de nada. Sou católico, vou à missa, confesso, comungo. Eu entreguei minha alma a Deus. Quando eu morrer o próprio Jesus vem me buscar porque eu defendi meu povo. Eu fiz o que era preciso. E se fiz alguma coisa de errado é porque precisava fazer o certo. Alguém tinha de fazer. Você, não. Você é uma assassina. Vai pro inferno.

Ela olhava para ele com uma expressão diferente da placidez de antes. Era como se controlasse uma impaciência. Quem a visse fora daquela cena sentiria que algo a incomodava.

— Senhor, esse remédio é apenas para acalmá-lo.

— Você vai me envenenar. O que é isso?

— Um tranquilizante leve. Apenas para o senhor dormir melhor. Foi o médico que passou.

— Eu não vi nenhum médico.

— O senhor estava dormindo, um sono agitado. Ele achou melhor repetir a dose do remédio.

— Não.

— Por favor, Capitão. O senhor vai ver como tudo vai melhorar.

Aquela voz lhe chamando de capitão lhe fazia voltar no tempo. A menina implorava pelo paradeiro do irmão. A mesma frase repetida várias vezes, chorosa, desesperada. “Por favor, Capitão.”

— Major. Eu sou um Major.

— Me desculpe, eu me confundi.

Ela enfiou a seringa no receptáculo do soro e injetou o remédio. Ele sentiu o líquido entrar no seu braço. Com a outra mão quis puxar a agulha, mas ela o impediu. Ela era surpreendentemente forte para uma moça. Olhava com a expressão firme. Ele repetia entredentes.

— Assassina.

— O senhor não se preocupe, Major. Acabou. Agora tudo vai ficar bem.

Ele sentiu o branco do quanto avançar sobre sua vista. Tudo ficou enevoado. Só os olhos negros na enfermeira permaneciam visíveis. Depois, esse negror se ampliou como se o sugasse, como se ele fosse levado por um corredor escuro com um barulho longe de portas de ferro e uns gritos desesperados, cada vez mais longe, cada vez mais longe, e no fim de tudo, nada.

*Conto de abertura do livro A Eternidade da Maçã, obra vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2016.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Recentemente, lançou “A Eternidade da Maçã” pela Editora 7Letras.

 

 

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Barbieri

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

Carta a um anônimo

Não, não te escrevo do silêncio incômodo das madrugadas, embora tenha certo apreço pelos guinchados dos ratos domésticos, escrevo com o barulho imperceptível dos automóveis, o barulho das velhas máquinas de ponto, os ruídos dos estômagos de crianças famintas e com o sol se pondo em algum beco que não posso prever. Quando nos habituamos à loucura das cidades, os rumores deixam de ser ensurdecedores. Pensei muito sobre tudo que me disse, agora tento me organizar e respondo um pouco das suas indagações, contudo nunca tive o dom da clareza, não herdei o cérebro sistemático de certos predadores. Me pergunto, como poderíamos manter uma encenação amorosa dentro desses hotéis baratos com ambientação minimalista e objetos impessoais, com toalhas e lençóis mal higienizados e com espelhos embaçados duplicando o trágico-cômico de nossos corpos? Não sei se já te disse o quanto ando cansada de ter um corpo, preferia ser feita desses materiais sintéticos e impermeáveis, que se lava de quinze em quinze dias.

Como poderia te oferecer a ilusão de um amor se tenho consciência que tudo não passa de uma mentira burguesa bem contada? Nos ludibriaram feio, pode crer. Como posso dormir sossegada nos braços de um estranho se o amor não passa de um disfarce para negar nossa íntima semelhança com os primatas? Sim, sinto decepcioná-lo, embora saiba que você não é ingênuo, apenas se recusa a acreditar que animais são seres fatigados e não se procuram além da carne, não passamos de macacos com terno, gravata e emprego fixo.

Como te enganar se o desejo apodrece rente aos latões de lixo e a rua mal iluminada? Se a morte também estraga os cadáveres jovens? Se a vontade se desvanece perto dos cachorros sarnentos e abandonados pelos seus donos, que procuram bichos menos trabalhosos e mais ornamentais? Como ainda querer se há muito me perdi entre as compotas vermelhas, a pia abarrotada de louça e as faturas exorbitantes do cartão de crédito?

Não posso deixar esse espaço quase claustrofóbico, mesmo por poucas horas, apenas na invalidez desses cômodos eu suponho o significado da palavra imensurável, aqui eu já conheço o hábito das formigas, sei onde devo espalhar o inseticida, já experimentei a fúria dos marimbondos, conheço os pardais entediados que batem com frequência nas vidraças fechadas, sei onde as rachaduras deram lugar a infiltrações impossíveis de conter, sei onde as aranhas tecem suas teias e esperam compassivas para devorarem suas presas, sei em quais buracos as minhocas se escondem, sei o trajeto suicida dos pernilongos, sei da fome mediana dos peixes de aquário, sei como os cupins foram desaparecendo quando trocamos os móveis de madeira maciça pelos de MDF, sei que as abelhas sumiram há algum tempo e muitos afirmam que isso é uma das piores catástrofes ambientais e trará danos irreversíveis, mas nos calamos, agoniados pela cumplicidade do mesmo assassinato, a verdade é que a polinização das abelhas nos parecia afrontosa.

Como posso te vender um engodo? Se ao menos eu tivesse o corpo bonito, apetecível… se pudesse subtraí-lo ou doá-lo… No entanto, meu corpo é pesado, insosso, sem querer me recordo da anatomia intrigante dos elefantes, sinto a flacidez se instalando no meu ventre, as pernas perdendo os músculos, a gordura se acumulando e me proporcionando o aspecto de um ser dócil e inofensivo como as toupeiras. Invisível sim, não entendo como pode reparar na minha existência transparente, depois de certa idade as mulheres deixam de ser enxergadas, nos tornamos fantasmas gordos, cansados e sonolentos e quase sempre atrapalhamos a felicidade inconsequente dos adolescentes, porque fazemos questão de explicar antes de sermos interrogados sobre as necroses das paixões.

Entretanto, se apesar de tudo isso ainda me quiser, venha, eu te espero, mas venha rápido, pois está entrando dezembro e as baratas voadoras costumam romper os ferrolhos e se instalar nas frestas poeirentas da veneziana.

 

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maira Moura

 

rety ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

52 hertz

 

Muito longe das bravuras humanas, dos arcos urbanos e das balbúrdias eletro-retrógradas, dos klaxons e apitos polifônicos, das freadas aromáticas, do parquinho das crianças, do farfalhar e do piar, da massa atmosférica que uiva no campo, no deserto, na charneca, e mesmo longe das costas salgadas, das areias meladas e da última espuma.

Longe demais, em um universo todo azul, maior ou do mesmo tamanho que o universo estrelado; um sítio de densidade, iluminado por cima, trevoso por baixo, é onde mora a última de sua espécie. Queria dar um bom nome para ela, como uma espécie de consolo: “você é especial, merece nome de gente. Que tal Elizabete? Catarina? São nomes de rainhas”. A baleia tem olhos pequenos e doces e uma potente voz que satisfaz a música de todo um mar. Vaga pela estrada submersa de joias crustáceas e… “vaga”? Seria mesmo um vagar sem rumo ou teria um propósito? Não é por lhe faltar um papel na família tradicional, uma ocupação burocrática na conjuntura dos mamíferos marítimos, ou da idosa moderna, que ela seria uma vadia. Caso contrário, seriam os animais todos uns vadios. Nada disso. Ao menos para os animais, existe um propósito suficientemente definido e propriamente nominado: o Ciclo.

Mas a senhora não procriará, ela é a última de sua espécie.

Cresceu redondinha, adolescente tímida, embaraçada de sua própria falta de jeito perante os animais menores; sua dimensão astronômica que ao mesmo tempo que a aproxima dos outros seres (por uma questão espacial), a distancia dos mesmos. Tentou penetrar uma família de jubartes, como um pato criado por cisnes, mas só conseguiu que a chamassem “baleia feia”.

Baleia
Como és feia
Uma chata bedelha
Some, se der, esgueira
Que o mar te aconselha

Por isso geme. Na infância gemeu “Papai? Mamãe?”; na adolescência gemeu por seu par. Agora, velhinha, não nos dá pista de quem chama. Não há em sua estante uma caixinha de contas com o retrato adesivo do neto sobre a tampa, nem na geladeira um desenho feito pela neta pregado com o ímã-lembrança da viagem para o litoral. (Preciso colocá-la em uma casa de senhora porque não compreendo suas referências azuis – porque entendo a essência de sua solidão, mas não a dimensão. E porque saio a humanizar tudo o que não compreendo, para satisfazer meu desprezo à ignorância. Não suporto ser ignorante.)

Medrosa da humanidade, não se permitiu ser vista, somente escutada. Um dia vai morrer e consigo enterrar a história de sua família (o que seria uma boa vingança). Os cientistas não vão prestar luto, mas criarão muitas teorias em sua memória.

Nunca nos encontraremos, me basta a gravação do seu gemido, frequência 52 hertz. Embora seu rastro seja sonoro, tão audível quanto o desabrochar de uma flor, e o meu seja o desastroso rastro da humanidade, ainda insisto em levá-la no coração, como uma irmã sentimental. Porque também sou uma solitária, a última de minha espécie.

 

 

 

***

 

 

 

Trecho para hipnose

 

Não estou dizendo que o livro funcione como um estimulante psicoativo, mas digo que aconteceu comigo. De qualquer forma, não é nada prático como uma pílula ingerida com saliva ou o método sublingual, mas leva pelo menos trezentas páginas até a primeira onda, que é pseudo-onírica, porque você precisa estar encaminhado para o sono, ainda sem dormir. Depois das seiscentas páginas os cavaletes e cavalinhos começam a cair como chuva no seu quarto, mas talvez isso seja pessoal porque os cavaletes são o símbolo do meu suporte e cavalinhos, símbolo da minha força. Chegando às oitocentas páginas, você não vai lembrar quem é e andar nu publicamente não é uma impossibilidade. Já ouviu falar na loira nua do parque Ludwig? Ela estava carregando um exemplar pocket totalmente improvável desse livro.

 

 

 

***

 

 

 

Saudade e nostalgia

 

Um menino perguntou ao avô:

– Qual é a diferença entre saudade e nostalgia?

– Bem, é muito pouca e só tem uma maneira de explicá-la, que é contando a história do homem que foi para guerra. O homem que foi para guerra havia acabado de se casar, ou estava prestes a casar, quando partiu e deixou sua mulher, que era tudo para ele. A partir do momento em que saiu pela porta de casa duas meninas começaram a segui-lo, e com ele foram à guerra. Estavam quase sempre ao seu lado – evitavam as trincheiras e tinham medo de armas, mas bastava que ele se desocupasse por um segundo que elas surgiam. Eram duas irmãs muito parecidas, quase gêmeas, e seus nomes eram Saudade e Nostalgia. Às vezes, o homem cobria os olhos com as mãos enlameadas, enquanto as meninas corriam em sua volta, cantando cantigas de distância.

“Um mês, duas milhas,
Meu amor está longe
Três cartas, quatro feridas,
Nos separa um monte”

– Outras vezes, tinha vontade de estrangular os pescocinhos, mas isso não podia fazer. Quando a guerra acabou, as meninas os seguiram até a porta de casa. Era branca, a porta, e por trás dela vinha a mulher, que ia dizer o seu nome quando ele a pegou, abraçou e beijou, sem intervalo entre essas coisas.  Não se deram conta da segunda explosão, que foi o tiro que ele deu em Saudade. Ela não morreu imediatamente, foi agonizando por dias, enquanto o homem e a mulher se acostumavam, outra vez, um com o outro. Contudo, Nostalgia seguiu ao lado do homem. E era justamente perto da esposa que mais ele escutava a canção de Nostalgia. E por mais que tentasse pegar Nostalgia, não conseguia alcançá-la.

 

 

 

***

 

 

 

Mania

 

Jéssica tinha a mania irritante de comprar relógios caros e olhar, quando perguntamos a hora, o visor do celular. Mateus escrevia sem usar vírgula e isso era além da conta. A mania irritante de Cléber era a música alta no carro dele (e ainda achava que dava para conversar). Sócrates tinha a mania da higiene dental e escovava os dentes à cada balinha de menta que lhe ofereciam. Carlos Alberto era um falastrão, mentindo sobre números e mulheres, mas ele não podia parar, era mania. Lola, quem eu nunca chamava para jantar, comia fazendo barulho que nem uma engrenagem. A mania irritante de Sofia era mostrar para todo mundo a foto que tirou com a Madonna e a minha é anotar manias irritantes.

Nascida e residente do Rio de Janeiro, Maira M. Moura é formada em Letras, leitora, contista e autora do livro O Jardim Animado (ed. Multifoco), além de ter contribuído para alguns periódicos, de papel ou não.

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lima

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

TRAJETO

 

Esperou por ela ali no quarto.

Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta e, por fim, o som de passos vindo em direção ao quarto.

Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta.

Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio.

Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo.

Esperou sentado na borda da cama até aquele instante, em que ela adentrou o quarto com o rosto banhado em luz e graça. Ela vinha de uma outra alegria que não podia se conter, mas, ao deparar-se com a imagem corrompida pela dor e exposta com tanta nitidez, acusou o baque, – o rosto desbotou-se e ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria diante dos seus olhos.

 

 

***

 

ASSIM, DO NADA

 

A duas camadas de tecidos abaixo da pele negra, sentiu o motor da máquina-corpo falhar. A disritmia. O corte brusco no bombeamento de combustível através da malha de veias. A fisgada, não de peixe, mas de faca que penetra aguda e tensa.  Queria duvidar: cessar assim, sob sol matinal, o pulsar forte de todos os dias? O pulsar sanguíneo, ininterrupto? Pois não estava de pé há anos, numa demonstração de vigor e saúde esse tempo todo? Árvore frondosa, milenar, que não tomba nunca – baobá invencível pelo tempo. Até uma certa arrogância, de pretensa eternidade, nesse modo de viver. A esposa, mesmo pregando no deserto, alertava sempre, Não facilita, com saúde não se brinca.

Ainda há pouco havia planejado uma série de ações para os próximos dias, tal o estado de excitação e energia que lhe tomava o ser. Bebeu uma xícara de café bem quente e acendeu um cigarro. Ah, não poderia haver prazer maior que esse. Fuma lá fora, a esposa lhe pediu. Então abriu a porta e a brisa morna da manhã bateu de leve no seu rosto. Uma carícia tão agradável que o fez lembrar-se dos primeiros anos ao lado de Alice. Afastou-se alguns metros e foi aí que sentiu como que um soco no peito.

A duas camadas abaixo da pele negra, o motor da máquina-corpo enguiçando, dando sinais de uso e corrosão, de sobrecarga de emoção e estresse. Um bater agora fraco, quase nenhum. O som abafado do motor de um Teco-Teco pifando no alto, até vir abaixo e bater no solo. A mão invisível que puxa uma cortina enorme para diante dos olhos, isolando-os da paisagem. Não poderia esperar jamais um final assim tão abrupto, fora do script, sem tempo nem para agradecer ou dizer adeus.

***

 

DONA DE SI

 

Era uma mulher livre – no sentido pleno da palavra.

Ele a conheceu assim, um horizonte amplo e indefinido. Ainda que o amasse, não conhecia fronteiras nem amarras. Era uma dessas capazes de nos fazer sofrer mesmo em pleno gozo, tal a sensação de fluidez do seu espírito e o estado sempre movediço do seu corpo. Um corpo que, estando em nossos braços, já escorregava para outro plano, outros desvãos de desejos e sonhos.

 – Morri no dia em que ela me deixou – ele me revela com a voz ainda doente, cravada de pus e dor. Essa sua voz sem cura reverbera em minha pele e atravessa minha mente de ponta a ponta.

Dela, ele se recorda principalmente do cheiro de carne e de alma em brasa. Isso que, para ele, é uma incisão profunda na memória, como essas que o vento, ao longo de séculos, milênios, inscreve nas rochas.

***

 

 

ODISSEU

 

Estou prestes a adentrar uma região vasta, assustadoramente vasta. Mundo ermo, movediço, imprevisível. A partir daquele ponto ali, onde a luz cega e alucina, meu ser vagará à deriva, entregue aos caprichos da sedução.

Posso, nesse caso, fechar os olhos e tapar os ouvidos, blindando-me contra o fascínio da beleza e a magia da voz. Poderia, inclusive, fazer meia-volta e retornar daqui, onde sinto ainda a terra, firme e segura, sob meus pés. Poderia. Mas uma força extrema me arrasta para fora de mim.

Ah, um deus furioso deve ter me atirado nessa aventura insana, pois nunca alimentei em mim tanto desvario. O fio da razão rompeu-se. Ouço o canto da sereia e avanço despido de juízo e prudência.

 

 

***

 

 

GRITOS

 

De repente o tempo fechou dentro do salão. Vi um brilho de metal luzir sob a luz da lâmpada e dezenas de pessoas precipitarem-se em direção à porta. A porta, como era de se esperar, tornou-se estreita demais para tantos corpos, para tanto desespero. Consegui vazar pela janela e sumi dentro do breu. Parei uns quinhentos metros depois, sem ar nos pulmões e coragem para avançar no escuro. Então fechei os olhos e tapei os ouvidos para não ouvir nada, nem o tinir do aço nem o estalido das armas de fogo. Mas na mente, sem que eu pudesse interromper, a cena continuou a desenrolar-se violenta e gangrenada.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora/FAC), UM (romance, LGE Editora/FAC), “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições) e “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org, por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial/FAC, 2004); Todas as gerações – o conto brasiliense contemporâneo (org. por Ronaldo Cagiano, LGE Editora, 2006); e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013).  É autor do roteiro do filme O colar de Coralina (em fase final de edição).

 

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vicente Franz Cecim

 

rety ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

 

K

 

O escuro da semente

 

um fragmento

 

…….. Era uma vez,
…….. em Andara

……. Fosse uma vez,
……. em Andara

……..Certa vez,
……..em Andara,

……..havendo adormecido sob a lua amarela, a que nos alucina nas noites, de olhos fechados

……..um tal K despertou

……..em pleno dia, sob o encanto da lua branca, a que nos alucina nos dias, de olhos abertos

…….. E viu que havia se transformado em homem aéreo, já não mais humano.

…….. Pois em suas omoplatas havendo sido semeadas asas, agora, já então, ele fosse:

……..  O umanoh.

…….. Ah,

…….. sendo assim possível essas coisas em Andara

…….. e aonde mais seriam? Na vida, a sutil que para nós se adensa, para nós, os ainda os que ficamos, humanos?

……..  Sendo assim então, e em Andara fosse possível isso de asas nascendo de omoplatas humanas

……..  – hein? Onde estou? O que foi, hein? O que? Isso? Que mão Imensa, esta, hein?

……..    Se perguntando aquele tal K, aquela letra que ascendendo havia deixado o Alfabeto Humano.

……..  Fosse uma vez, em Andara

…….. Enquanto isso, lá embaixo, na Terra se acendesse um fogo, mais uma vez um fogo, para em torno dele se contar histórias

…….. Enquanto no alto, um Céu escuro de estrelas

……..  Mas isso já seja a outra voz que me fala

……..  Vejam: depois dessas palavras descendentes, caindo dos céus como chuva sobre nós,

…….. agora outras palavras, em torno desse fogo aceso

……..  as que pesadas mas querendo ascender àquele Céu escuro de estrelas

……..  sua Areia Lenta

 

Vicente Franz Cecim é o autor de “Viagem a Andara oO livro invisível”. Lançado em 2005 em Portugal e agora, em 2016, no Brasil, “K  O escuro da semente” é um dos livros visíveis que integra a Viagem a Andara.

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lizziane Azevedo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Cama vazia

 

Acordei assustada ao sentir que ele me tocava. A mão dele estava fria, chamei a enfermeira. Ela veio, checou tudo o que podia e saiu. Pus-me em vigília novamente. Não havia outros acompanhantes. Para meus irmãos, nosso pai já havia morrido há muitos anos. Dormir era impossível naquele quarto de hospital. Um breve cochilo e os pesadelos me sacudiam o corpo. A presença dele me incomodava, sentia-me observada o tempo inteiro. Naquele lugar apertado e abafado eu podia apalpar o cheiro denso do suor azedo que sempre me nauseou. Ele acordou agitado, não dizia nada com nada. Segurava o peito com força, devia ser outro infarto. Demorei um pouco para chamar a enfermeira. No íntimo era bom vê-lo estrebuchar. Até sorri, vendo-o em agonia. Mal me virei para pedir socorro, senti a força da sua mão segurando-me o braço. A mesma força que me dominava quando criança para roubar de mim o meu sexo. Tremi. Sufoquei. Meu coração batia acelerado. Pensei em gritar, chorar. Respirei fundo e busquei me acalmar, quando percebi que ele queria dizer algo. Tive receio de baixar minha cabeça até ele; mesmo assim o fiz, reunindo minhas últimas forças. Ouvi um “perdoe-me” abafado que parecia mais uma de suas alucinações. Mas uma lágrima parecia confirmar a veracidade do pedido, que foi repetido: Perdoe-me, por favor. Perdoe-me. Paralisei com o que ouvia e via. Esqueci da enfermeira, da urgência… Pensei em dizer algo. Confusa, sem saber o que dizer, corri para fora do hospital. Chorei, chorei muito. Quando voltei, a cama já estava vazia.

 

 

***

 

 

Catecismo

 

Ele subia o morro todas as tardes. A batina preta fazia-o suar bicas. Apesar dos desconfortos, não deixava um só dia de cumprir sua missão. Uma bíblia enorme deixava-o com apenas uma mão livre, que estava sempre agarrada a um lenço branco. Todos os moradores do morro conheciam-no e saudavam-no ao passar. Com um sorriso gentil, ele acenava para todos; vez por outra parava para tomar um arzinho e conversar um pouco com Tuco, dono do bar da ladeira. Inteirado das novidades, bebia um copo d’água e continuava sua romaria até a casa que ele usava como capela, onde dava aulas de catecismo. Só crianças cercavam-no por lá. Os meninos predominavam no meio de duas ou três meninas. Aula encerrada, os alunos começavam a sair, um após o outro, mas não sem antes beijar a mão do mestre, que sempre se arrepiava com o gesto, invisível às crianças. Ele permanecia no local por horas com três meninos do grupo. Seriam coroinhas na sede da igreja, dizia o padre. Alguns achavam que era por essa razão que eles eram privilegiados, ganhavam presentes, roupas, sapatos. Era nítida a diferença deles para os demais, que andavam com suas havaianas furadas e shortinhos e camisetas enodoadas e rasgadas, mas ninguém parecia desconfiar do padre, até que uma batida policial desmascarou-o. De santo ele não tinha nada. Falso! Nunca foi padre. Voava pelo morro nos aviõezinhos dos meninos que aliciava.

 

Sou Lizziane Azevedo, uma advogada ávida por literatura, razão pela qual nunca dispenso a companhia de um bom livro, hábito que compartilho com meu esposo, leitor, revisor e primeiro crítico dos meus textos: André Sérgio. Moro em Monteiro, interior da Paraíba, onde fui criada e onde aprendi sobre poesia. Já publiquei diversos contos na Câmara Brasileira do Jovem Escritor; no suplemento literário Correio das Artes, do jornal A União; na Revista de Literatura e Arte Boca Escancarada e no site Diversos Afins.

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Isabela Rodrigues

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

O pedido

Adoro quando ela chega assim de manhã.

Uma morenice lavada de cara e de corpo. Um cheiro de banho, os cabelos molhados de uma água fria.

Adoro quando ela chega assim, com roupa de casa, ainda de chinelas. O cabelo meio sem jeito, a cara meio de sono.

 Chega, aperta os olhos, às vezes torce a boca como que fazendo movimentos pra lembrar o pedido que me faz todos os dias, igual:

– três pães, por favor.

***

 

 

A maquiadora

A maquiadora, enquanto eu piscava muito no momento em que ela tentava pintar meus olhos:

– se você sentir vontade de chorar…

– o tempo todo, amiga.

Nos abraçamos e choramos.

 

***

 

 

Se nasce só e se morre só

A saída do útero é completamente solitária, embora, por vezes, haja o amor.

A vida segue de forma a te fazer esquecer que, na verdade, é só você.

Estamos todos sozinhos nessa massa que se ajeita no vagão do metrô, nos bares em noite quente, no supermercado Mundial às 18h, nos elevadores ou nos velórios.

A verdade é que a solidão é a sombra contínua que nos segue por toda a vida.

Primeiro, há o cerco da família, e depois é preciso uma porção de amigos, e depois menos amigos, mas bons, e depois vêm os filhos os netos os bisnetos.

Mas é nesse meio de tempo, na gritaria de quem compra ouro na Siqueira Campos, no esbarrar de quem atravessa a Presidente Vargas quando o sinal fecha, ou no Carnaval em Salvador, cedo ou tarde, que chega o momento em que nos damos conta do inevitável: estamos todos sozinhos. Somos um e único a saber das próprias e verdadeiras dores, que vai sentir sozinho que no mundo é só você contra você mesmo.

Há quem tenha, nessas horas, suas pequenas epifanias. Há quem entre em desespero, há quem se mate, há quem se deprima, há quem se sinta verdadeiramente liberto.

O fato é que o ser humano nasceu de viver junto, de se aglomerar nos grandes centros, de querer morar um em cima do outro, de ter carro pra mais de um, de fazer filho, de ter gente. Por isso é que essa descoberta assim, tão de repente, pode acabar com um coração.

***

 

 

Tempo de Alice

Alice aos três já mostra espírito aventureiro quando
solta da minha mão para descer as escadas
sozinha.
Alice tem o cabelo amarelo e os olhos pretos de cílios
gigantes parecendo um bicho,
mas em Alice fica lindo.
Alice fala paia, porque não fala r ainda,
mas fala em alemão quando nervosa.
Ela tem um peixe laranja e escolheu dar de presente ao padrinho
um carro ou um interruptor.
Quando apertada, faz xixi de cadeirinha no meio da rua
e depois me pergunta por que é que o menino que dorme na rua está sem chinelos.
Eu e Alice sentadas tomamos picolé no sol.
Alice disse:
– É tão bom que até dá vontade de sorrir, né, tia Isabela?

Isabela Rodrigues é natural de Barra Mansa, interior do Rio, e reside atualmente na capital do estado, onde se formou como advogada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Seus textos também podem ser encontrados no blog “Com licença, poética!”

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

signo dar

troco os santos e os vasos e os espelhos de lugar: signo obsoleto. se não troco me aqueço em demasia ao secar os cabelos. não topo com minha cara e santa efigênia no mesmo caminho dos dias das horas pelos dias. trocaria as horas dentro dos dias trocaria o minuto por um segundo: signo mó. trocar os lugares pelas imagens. iemanjá espelho são francisco a carranca oca que ganhei de um amor que já não. trocar em acordo com o peso que a coisa perde e ganha. o peso: signo da propensão ao ato: trocar. troco um beijo por um pedaço de pizza trocada no momento do encaixe anterior à entrega. troco um olho do entregador por uma palavra espelhada. troco santos hábitos por cerveja gelada. troco signos troco idade troco as capas das almofadas os nomes dos gatos. troco o dragão de são jorge pelo espelho de ontem da noite de ontem. a lua: signo de troca. troca: signo vaso trincado.

***

congelo a cara e o corpo da cara diante da árvore da primavera. me paraliso me petrifico. em sempre foi a dificuldade em encarar a beleza crua cruel colorida cheirosa bem vestida galanteadora. sinto frio nos dentes diante da árvore: signo descascado vivo. cruel demais.  corre a seiva abusada nas minhas veias. medo e mitificação. seguro não subir o olhar até a copa não é seguro. crianças me olham passarinhos com olhos idosos e carteiros. todos eles trilham meu medo sou achincalhada pelos olhos. penso em agulhas alfinetes espetos lanças. a primavera me gela. sabe meu rosto nas todas espessuras desse horror e desse horror perfumado me esgano a descer a escadaria das flores. a escadaria das flores e estou frita para seguir resistindo ao mundo: signo em monet sob influências da camisola da época em questão. questão: o signo mais comum: doador universal.

***

o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem diz o mato. porque é mancha sobre mancha a onça não diz o homem. limpa os bigodes no mato mata um roedor para o filhote come o couro tritura os ossos. é o signo mar. pendure uma onça diante do mar. leve nos olhos e pendure a figura diante do mar. é o signo onça. no nada de mar dita a onça em tudo de onça todo o mundo com lua onde o mar. porque é cratera ante cratera o homem faz abismos entre o banheiro e a varanda. entender não dura: o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem se diz.

***

amo. amo até no desrespeito. até no desleixe até no despeito até no desespero. eu amo. e assim será o que sei ser até que sempre. porque vou morrer amando. me entrego ao cascalho. amo lascas da rua. amo até a vez que não é minha. não parece. mas eu amo. amo por não querer acabar e amo por querer tanto de mar e de fim. amo e tenho medo de cair do mundo. e odeio. porque é signo par. é estranho e eu amo me machuca mas eu amo. e odeio. porque é signo par nunca vou deixar de amar. até morrer até matar até derramar até engasgar até esganar. amo passarinho morto e o vivo. sobretudo o morto: porque as formigas que eu tanto amo.

***

a tarde carrega a noite na lomba da palavra mais corcunda. a manhã nasce no pôr dos olhos da mulher atrás do lençol no varal. seus filhos múltiplos de amanhã: o signo da lua e do adubo. suas plantas todas e suas unhas sua boca e seu dedal. a tarde lambuza as pernas da mulher atrás da máquina de costura. o sol cauteriza seus furos seus dedos suas plantas toalhas panos de prato lençóis. no mandiocal uma preá come sua cria morta. a névoa cresce pelos raios dos olhos da bichinha dolorosa. a mulher: signo do lençol. a alvorada desce os dedos na página 2: dia bom para anoitecer o fumo no peito esposo: signo d’água. a mesma tarde carrega a manhã na lomba da mulher. a noite nasce do pôr os pratos debaixo do alimento: signo de dois gumes.

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um casebre sem rio pela janela não tem signo. o homem corta a madeira pensando longe e longe é onde fica o rio. as formigas não respeitam mais a evolução nas redondezas. um rio faria tudo ser como abunda as redondezas de um casebre com rio: lá no alasca: signo dúbio e mantenedor do que se passa na cabeça de quem vê o vidro que falta à janela única. o homem esconde uma faca entre as pernas. faca bem próxima ao pênis. afiada feito o pênis: signo de três gumes. uma formiga passa rente carrega um pedaço do tudo: signo ímpar e provedor da vertigem que sentiria o homem. derrubaria o homem sobre a faca: signo movediço. seu duplo come e bebe além da conta num casebre inundado no alasca. a vida segue o leito daquilo que um dia foi caminho foi fadário de brocardos capados. o vidro que falta: signo da mulher que um dia. um dia: signo da vida dúbia.

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o lume do inseto noturno: signo par com o signo vítreo. limpamos o aquário três vezes por mês. meu ajudante limpa peixe por peixe até que o brilho: signo cruzado com o signo vítreo. meu ajudante limpa meus dentes com a língua até que o desrespeito. até que o desleixe seja calcado por mim para que meu ajudante. assim é assim será não tento e nem ele tenta me enganar. limpamos o aquário: signo usual. peixe por peixe: signo sujeito na frase: em lá as escamas. o lume nas ondas de lua cheia. limpo limpamos como é limpo o mar imundo de gentes nele. cruzamos espécies durante a limpeza do fundo: signo derivado do signo oriundo: é mar não é mar. reparamos o mundo aquário peixe por peixe. o lume do inseto nada. porque o amor: signo dessa luminosa psicose.

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sei que existe um desconhecido signo. maternal e inquieto. espera a convocação que se dará pelas cordas dos sinos. sob esse signo nascemos envelhecemos morremos sobrevivemos. com a óbvia exceção: caramujos e poetas. está para chegar o dia em que uma onda de mornura elétrica levantará todos os fios de todos os cabelos das criaturas sob o signo desconhecido. não sei se é astrológico. se é matemático ou escatológico. sei que o dia está chegando. dia maternal e inquieto feito o próprio signo. o dia em que caramujos e poetas herdam o planeta. sutilmente. temos motivos para a preocupação: signo das mutações.

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como se constrói um muro sem letras. o homem faz o muro e alguém coloca letras. o homem destrói o muro e faz outro. alguém coloca letras: signos solares. anos se vão e o homem faz outro muro para cobrir o muro com letras. alguém coloca letras e números no muro do muro do homem: signo da inconstância sob a distância da evolução. anos de amor e luz sem letras: signo do buraco sem fim. o muro é comportado e alguém coloca ovos sobre os tijolos do cume. o homem tem um rifle e mata ovo e mata ovo e mata ovo. alguém coloca alvará: signo dependente: o homem vive e morre sem pinto algum entre numerados muros letrados. fim: signo de derrubar muros.

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Formada em teatro. Seu livro de estreia, Amanhã Alguém Morre no Samba, foi publicado em Portugal pela Douda Correria em 2015. Ainda esse ano, publicará Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse, também pela Douda Correria, e a metáfora mais gentil do mundo gentil, pelas Edições Macondo.