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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maria Camargo Freire

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Sítio

Foi a única vez que amei meu pai por detrás dos acordos sociais, do afeto obrigatório que irradia não do progenitor propriamente dito, mas na perversa escola de costumes sincrônicos que denominamos família por medo de alcunha pior; meu pai foi um bronco, crescido em sítio andava pela cidade nauseado pelo fascínio arredio de animal silvestre, se deixássemos correria em quatro patas por aí, se entocaria em uma viela arisco dos odores em cinza-chumbo espargidos pela rua; enriqueceu na vida de comerciante, mamãe deu-se até ao luxo de tornar-se alcóolatra com whisky, e ele continuou amarfanhado sob o casulo do terno que o repelia simplesmente pela alfaiataria de bom gosto, pinguim no deserto citadino, envergonhava-me dele; era de esquerda, lutava pelas minorias, contra o sentimento elitista que aflorava vez ou outra inopinadamente, mas na formatura lá estava ele, aquele homem que não diferenciava Rembrandt de Tintoretto, em sua tacanha mente esses nomes não soariam apenas estrangeiros, soariam intransponíveis, inaudíveis em comas de sutilezas desconcertantes; nem fingir sabia, mamãe ao menos escondia as origens em seda, em vestidos drapeados de alta-costura, papai comia de colher quando em casa; acordei conturbada por uma ressaca dessas que atravessarão o dia sem pestanejar, havia comemorado na noite anterior minha primeira exposição solo em galeria de arte, a única dissonância noturna era meu pai, pedaço de cerca-viva ali parado entre as telas, ondulando entre as brisas de um “Olá” ou um “Como vai?” em que respondia num farfalhar rupestre verde-oliva, roufenho, na orla entre palavras e ruídos indistintos; sobre a mesa um pequeno bilhete: “Eu te adimiro muito filha, seus desenhos lembram o sítio quando eu era pequeno, o pão da vó, as botas do vô que você não conheceu, eu te adimiro e te amo”, aquele “i” inteiramente inconveniente berrava, no lugar da mudez costumeira havia a interferência de uma tulipa nascida sóbria, lisa, envolta na graciosidade do próprio rubor, um tronco exposto, lisonjeiro, inefável, a xilogravura da face de papai impressa naquele “i” de sobrancelhas arqueadas, elevadas em busca da cabeça calva, na espera de um pingo de choro abscondido, naquele qualquer momento, amei papai.

São Paulo,11 de abril de 2013.

***

Tricô

Deito-me no mole solo oco na espera de que o opaco entardecer assopre as brilhantes velas dessa opressora luz diuturna, carregando-as para lá dos meridianos sem nome, nas beiradas de um precipício por se fazer, externo chão agora sóbrio na sisudez supostamente sempiterna, oculta na lisura do planalto a delgada vala tímida, semente de abismo vindouro, também sinto saudades da choupana ao pé da montanha que nunca tive, angustia meu corpo a nostalgia dos lugares que nunca estive, também sofro por paixões, rasgo o verbo em brigas homéricas com namorados, maridos, amantes furtivos que não me conhecem, às vezes basta um bom dia do padeiro para termos três filhos e um deles está de recuperação em matemática e por isso nada de jogos no computador; sou solitária e tenho de consolo os gatos que afago, o enfiar dos dedos nos ternos pêlos, pouso olhar sem pressa nos novelos trançados com poeiras que a brisa da noite trouxe, sou alérgica e por isso meus felinos são fogos-fátuos que eu pinto enquanto me balanço calma na cadeira que ainda terei um dia, de um vime lustroso que fará inveja nos olhos de minhas amigas, ficarão famintas, feéricas para fazer parte da minha família órfã, mas eu só permitirei que elas se sentem na sala ou, no máximo, na cozinha, nunca o quarto, lá meus segredos, as intimidades de minha vida proscrita em santidades exalam dos cantos, por mais que se guarde, alguma perversão de mesmidade corriqueira pode aflorar e flutuar em faces inocentes, depois terei de colher os espantos que elas soltarão espontaneamente, ali pausadas como espantalhos; saio para o jardim adornar com carinhos silenciosos as hortênsias juntinhas em favos de um anil amigável, ainda não tenho o terreno, o solo arado nem a disposição necessária; hoje o café da tarde será em Paris, quem sabe não encontre meu Sartre que tenha usado tampão na infância enredado na própria náusea de seu chá de hibisco morno, não é meu chá favorito, prefiro o de tília que nunca tomei, mas lembro-me de sua infusão levemente embriagante, de seu odor macio que sorvi enquanto lia Proust, não conheço Paris, nem quero; os únicos seres fascinantes que encontrei perambulantes por estradas de terra batida foram os que nasceram quase-abortados, que levam no pescoço a brandura frouxa de quem não sabe para onde olha, saíram espremidos para o mundo, no respirar nota-se que falta um dedo de fôlego, ainda que não tenham problemas respiratórios, queria cruzar com gente assim algum dia; o carteiro tomou-me por confidente, acho que por conta desse ar de anciã púbere, as rugas dobradas umas sob as outras por debaixo de minha pele lisa, adoentada de um rubor saudável, confessou-me que traiu a mulher com o vizinho já idoso que sofria de catarata, achava que ele tinha um espiar charmoso, um jeito elegante de ver todo mundo pela metade, meio invisível como somos mesmo, iceberg de vísceras às escuras, ele contaria se pudesse, mas tem jeito de solteirão, o cachorro dele precisou fazer uma cirurgia às pressas, não sabia que hérnia dava até em bicho, ficou nem quinze segundos, entregou a encomenda e não disse nem “oi”; pouso a caneta cuidadosa na caixinha, essa inimiga que me atormenta, que me torce os tendões e mói um tanto da minha loucura em pigmento escondido, depois de escrever fico um pouco translúcida, fantasmática, mas hoje acabou a tinta e o último caderno eu rasguei ontem, faz frio em Portugal.

Lisboa, 07 de setembro de 1998.

***

 

Estilhaços

 

Pendulo, desde antes da infância se perder póstuma numa parede de cal seco, pela posse de objetos quebrados, frágeis, seja um relógio sem ponteiros, um alfinete amassado descartado logo pela costureira na prova da próxima cliente, sentia na palma da menina muda que eu era a atmosfera lúcida das coisas falidas, o halo daquelas rebarbas do tecido, aquelas linhas inúteis que não ligariam mais nada, a liberdade do que deixou de cansar-se, o ócio daqueles fios viravam em minha mesa arabescos marroquinos desse lado do Atlântico, uma vez trouxe para casa quatro cacos de copo, a aba de porcelana que fora de uma xícara, dois isqueiros acabados e um gato morto, o que me rendeu várias cintadas e o primeiro berro de “Menina, você é louca” de minha mãe, depois ela descobriu minha coleção de bitucas, tampas, canetas sem tinta, jornais rasgados em que as notícias ou propagandas ficaram ilegíveis (eu tinha critérios), ouvi do quarto “Rogério, é mais sério do que pensávamos, mas deve ter tratamento” num timbre tão indiferente que se pudesse eu teria reunido à minha coleção de destroços;  passei a acumular seres imateriais, andava horas pela cidade coletando falas desgastadas, contornos de desvalidos estirados ali na praça da Sé, teve até um olhar fosco de um senhor alto que se sustentava pelo hábito de andar previsivelmente por ruas asfaltadas de certezas num cinza inóspito, outro dia há pouco colhi a elegância no desfilar de uma prostituta em fim de noite, voltava para casa mas mantinha os trejeitos infecundos miscigenados nos tons da maquiagem que se equilibrava indolente entre o vulgar e o borrado; acho que para comemorar minha cura milagrosa fomos em família ao circo, na época ainda havia leões, olor de estrume de animais repisado por desconhecidos envoltos em pipoca amanteigada, o palhaço no centro do picadeiro era hilário para todos que não fossem eu, meu riso viera cindido, um pequeno abscesso interno feito de frustrações com fraco efeito fora, o truque consistia em jogar uma azeitona para o alto e fingir que se engasgara, enquanto o público se acabava de gargalhar a brincadeira ia dando certo no esôfago do coitado, estertorou sufocado, embrulhado nos sons do próprio trabalho, agricultor soterrado em seu celeiro de amareladas sojas, foi se esvaindo o riso até que a tragédia consumada engoliu todos os lapsos de pilhéria, naquele instante pulei em risos, saltei no picadeiro levantando ao redor de mim uma poeira fina de tão agastada, raptei o rosto retorcido por debaixo da massa de pó branco, também o nariz de um vermelho vivo, enfiava no bolso enquanto os outros artistas vinham atropelados socorrer o cadáver; ainda hoje rio inaudível ao disparatar para mim mesma a imagem de que em algum cemitério pode ter nascido, transgredindo garganta, caixão e terra, uma vistosa videira.

Madrid, 22 de fevereiro de 1995.

 

Maria Camargo Freire é artista plástica, tem 63 anos e mora atualmente em São Paulo. Conjugou em sua obra o barroco de Caravaggio, a sinuosidade de Giacometti e o neo-expressionismo de Bacon; lacera-se em pequenos cortes de vida por respirar em excesso o bálsamo dos dias cinéreos. Escritora diletante, pretende esboçar um romance em prosas poéticas: suas “Telas de uma exposição”. Heterônimo de Caio Russo, escritor, historiador e pesquisador em Estética, Arte Moderna e Teoria da Literatura. Hedonista estóico, cínico peripatético que preza pela sutileza do sofrimento sentado. Tem por prazer fumar embaixo d’água. 

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anderson Fonseca

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

A caixa

 

Caro Williams, se porventura notar que a literatura como a conhece está assumindo outra forma, a culpa é minha. A razão que me levou a fazer certa escolha de valor ambíguo deve-se a um anseio natural de contemplar um universo ruir para outro nascer, como também a uma inclinação da alma para a desobediência – como sabe, não sou afeiçoado por ordens -, sobretudo, pela curiosidade, talvez de natureza infantil, em conhecer os mistérios que nos cercam. Creio que faça parte disso minha história com jogos de azar. Ainda lembro, quando com 17 anos, você deu-me um dado chinês do século XVIII e advertiu-me a respeito da sorte, o quanto ela possui duas faces – como Jano – e só vemos no momento em que é feito o lance. De lá para cá, meu espírito inclinou-se a crer que a sorte é a lei constituinte do mundo. A todo instante jogamos dados e alteramos a ordem dos eventos. Somos uma espécie de deus preso às próprias leis que criou. Mal da onipotência? Quem sabe. Por isto, reafirmo que a curiosidade aliada à paixão pelo acaso levou-me a imaginar as inúmeras possibilidades que cerceavam minha escolha tão funesta. Eu a fiz. Este é meu crime.  Mas a fiz por desejar, – como já afirmei -, que este universo ruísse para outro de suas cinzas emergir.

Certamente não está a entender nada do que lhe digo, e com isso pergunta-se do quê exatamente conto. Antes de esclarecer suas dúvidas, quero agradecer por ter sido meu mentor, pai e herói. Não me esqueço do pequeno ladrão que fui um dia, e, ao encontrá-lo, no bibliófilo reconhecido em que você me tornou.  E venho desculpar-me pela escolha que fiz, estou arrependido, talvez se eu não tivesse olhado, se eu não tivesse aberto a caixa, se não tivesse desobedecido à ordem do senhor Barrington, talvez… talvez tudo permanecesse o mesmo.

Foi na noite de terça-feira, 23 de abril, logo após ter saído do bistrô do Paço Imperial, mal ter entrado em casa, aberto o Cabernet Sauvignon, derramado em uma taça, umedecido os lábios, e deitado no sofá, o telefone tocou. Quando atendi, ouvi uma voz seca dizer: – Senhor Xavier? É o senhor Xavier?

– Sim. É ele quem fala.

– Boa noite. Perdoe-me o incômodo a essa hora tão tarde. Sou o Dr. Barrington, creio já ter escutado a meu respeito. Venho de uma família nobre, reconhecida por preservar artefatos históricos. Há dias estou em busca de um bibliófilo a quem conferir um objeto de inestimável valor, pertencente à minha família, até descobrir seu nome. Sua fama o precede, senhor Xavier, não somente por seus feitos, como por sua ética, por isso, quero muito seus serviços e será bem remunerado.

– Agradecido, senhor Barrington, por solicitar meus serviços. Estarei em sua casa na quinta-feira, pois amanhã preciso com urgência resolver uma questão de trabalho.

– Dr. Xavier, não tenho tempo para esperar. Meu chofer já se encontra em frente à sua casa. Por favor, venha logo.

Lembra-se da vez em que você deu-me um soco tão forte no rosto que caí? Foi assim que me senti quando Barrington desligou o telefone. E como um gato perseguindo o fio de lã puxado pelo dono, segui aquele misterioso convite.

O mordomo abriu a pesada porta de madeira maciça entalhada em flores; contei 12 passos até o salão principal. No centro, sentado à mesa de mogno retangular, o Sr. Barrington mantinha os olhos sobre a pequena caixa de ferro. Sentei-me ao seu lado, ele levantou os olhos voltando-se para mim, e disse com a voz trêmula: – Dr. Xavier, estava ansioso pela sua chegada. Agora, sinto-me aliviado ao vê-lo aqui à minha frente.

– É um prazer estar aqui, Sr. Barrington. Mas, até o momento, não entendi o motivo do convite. Estou ansioso a respeito do trabalho que irá me designar. Por favor, diga-me por que estou aqui.

– Direito e lacônico… Agirei do mesmo modo. – E sorriu. – Vê essa caixa? Ela é o tesouro de minha família. Há séculos protegemos seu conteúdo. E jamais algum de nós ousou abri-la. Esclareço: Nessa caixa está o texto original de O Fausto de Wolfgang Goethe. Sim, Xavier, a grande obra que influenciou a literatura moderna. Como sabe, Goethe escreveu duas partes da obra, a primeira publicada em 1808, e a outra em 1832. Ao menos é isso que sabem os especialistas. Na verdade, há uma terceira, intermediária entre as duas edições. Esta obra chamada por Goethe de Fausto – a tragédia humana ficou apenas como rascunho da segunda publicação. Nela encontravam-se resquícios da primeira edição e o projeto da segunda. Tratava-se, portanto, de uma obra intermediária. Diz a lenda que Goethe levou os rascunhos a um feiticeiro para lançar sobre as folhas um encantamento. Dali em diante, as duas publicações estariam entrelaçadas a esta, de forma que qualquer intervenção alteraria os traços das duas edições e, assim, a literatura alemã. Um efeito no tempo. Ciente do poder que continha os rascunhos, Goethe os guardou em uma caixa de ferro e ordenou que jamais fosse aberta. Dr. Xavier, o senhor já ouviu, sem dúvida, falar na mecânica quântica. Há duas teorias bastante interessantes propostas por essa mecânica. Uma delas é conhecida como entrelaçamento quântico. Imagine você dois objetos, digamos duas maçãs tão fortemente ligadas entre si que se torna impossível que uma seja descrita sem mencionar a outra. Ou seja, suponha que eu pegue uma dessas maçãs e gire para a esquerda, a outra irá girar subitamente para a direita. Eu poderia separá-las, colocando uma distante da outra por milhares de quilômetros, e ainda assim, ao girar uma para a esquerda, a outra se moverá na direção contrária. De um modo maravilhoso a informação viajou mais rápida que a luz rompendo com as leis da física.

– E se eu morder um lado da maçã? – perguntei para distrair.

Barrington riu escandaloso, depois olhou-me firme e disse: – Ora, Xavier, a outra maçã perderia sua parte. Agora não me pergunte se estaria no estômago ou não, pois ignoro a resposta.  – E voltou a rir. Depois emendou: – A outra teoria é o famoso paradoxo de Schrodinger. Trata-se de uma incoerência, uma incerteza que só é abolida mediante a interferência de um observador humano. Dessa vez, imagine um gato dentro de uma caixa lacrada. Nessa caixa há um frasco contendo veneno ligado a um contador Geiger que acionará um martelo para quebrar o frasco, caso seja detectada a presença de radiação. Para Schrodinger há duas realidades: uma em que o frasco está quebrado e o gato morto; noutra, não. No entanto, segundo ele, estas realidades existem simultaneamente, isto é, o gato tanto está vivo como morto. Acontece que, quando a caixa é aberta por um observador humano, a dualidade é desfeita e o gato aparece vivo ou morto. Isso depende do observador, ele decidiu a vida ou a morte do pobre felino. Se não fosse ele, se não tivesse aberto a caixa, o gato permaneceria nos dois estados. É uma grande surpresa. Só saberemos se ganhamos ou perdemos depois de olharmos para dentro do abismo. Você entendeu, Dr. Xavie

– Sim, entendi completamente. O senhor explica de forma tão clara que faz um assunto complexo parecer um jogo infantil.

– Quem sabe não seja isso o que diz… ser a verdade. Quem sabe não seja tudo o que vemos um jogo na mão de deuses. – refletiu. – Mas, veja, estas duas teorias explicam a importância de não abrir a caixa. Para tornar ainda mais óbvio esse valor, acrescento a teoria da causa retrógrada. Ela afirma, em poucas palavras, que um observador ao medir o estado quântico de uma partícula no presente está alterando seu estado no passado. Nessa linha de pensamento, é possível que o efeito seja anterior à causa. Assim, duas partículas entrelaçadas podem desobedecer às leis da física. Se eu medir uma partícula no presente, estarei alterando a outra partícula a qual está entrelaçada e que existe no passado. A informação viajou no tempo. Isso é paradoxal, mas possível. Da mesma forma, as duas edições de Fausto estão entrelaçadas à terceira, a que se encontra nessa caixa. Este livro aí guardado existe tanto no passado quanto no presente, e, enquanto ele não for observado por ninguém, as duas edições se manterão inalteráveis. Contudo, se a caixa fosse aberta, a dualidade desapareceria e a informação do presente viajaria ao passado alterando as edições emaranhadas à terceira. Isto afetaria toda a história da literatura e o mundo como conhecemos se tornaria outro. Portanto, escuta-me. Jamais… jamais… jamais abra a caixa e olhe para o livro. Estou morrendo, faltam poucos dias para eu partir. Ao contrário dos meus antecessores, não tive filhos. Então me perguntei a quem passaria este legado, e aí descobri você. Espero que aceite o convite. Será bem recompensado.

– Eu aceito, senhor Barrington.

Levantamos e apertamos as mãos, assinei um contrato de confidencialidade e voltei para casa. Quatro dias depois, Barrington falecia em seu leito. No dia seguinte recebi a caixa e toda a fortuna da família Barrington. Para manter meu novo status quo e a boa qualidade de vida, era preciso apenas não descumprir o acordo.

Os dias seguintes, as semanas, os meses… foram os mais terríveis que vivi, Williams. O que você teria feito em meu lugar? Aceitado aquela caixa de Pandora? Ou teria rejeitado? Para mim foi como receber das mãos do Diabo um maldito presente. Não sei por qual motivo aceitei o trabalho, quem sabe, insanidade. Ao longo de oito meses não dormi, meus olhos permaneciam fixos no objeto misterioso. Perguntava-me sobre as possibilidades ocultas na abertura da caixa. E se… e se… e se… Estava seduzido pela ideia do fim da literatura e o surgimento de outra. Obsessivo, paranoico, doente, tornei-me pela ideia. Nada me salvaria.

No dia 22 de maio, recebi o convite para uma conversa de Carlos Pinheiro, famoso crítico literário, ex-colega de faculdade. Precisava sair, respirar. Nos encontramos no bistrô do Paço Imperial. O prato: bolo de chocolate amargo acompanhado de café sem açúcar. Em meio à conversa, Pinheiro, declara: – Xavier! Vou deixar a carreira de crítico literário e me dedicar à pintura.

– Por que essa decisão brusca?

– Bastante simples o motivo. Cansei-me de buscar a obra que fosse o espírito de nossa nação no presente século. Nada encontrei. Desde 1980 que não se vê um autor cuja obra carregue essa alma. Estou arrependido, aliás, vencido pelo tempo.

Eu sei que você, Williams, já sabe o final. Já deves ter concluído minha decisão. No fim daquela tarde, escolhi olhar o livro, graças ao infortúnio da conversa. Embora não concordasse com Pinheiro, partilhava de sua tristeza. Até então não tinha visto obra comparável a de Goethe, tão impactante a ponto de influenciar os séculos. Saí da conversa, emotivo, abalado; destruído pela falta de esperança, de uma obra que contivesse em suas páginas o drama humano. Durante nove horas fiz-me a pergunta: “E se Goethe não tivesse escrito Fausto, será que outra obra surgiria em seu lugar – quem sabe neste século – e salvaria a história?” Pergunta estúpida. De repente, uma palavra que significa incerteza e possibilidade, invadiu minha consciência. E se… E se Goethe tivesse sua obra alterada? Bêbado e abatido, levantei-me da cadeira, peguei a caixa, joguei-a sobre a mesa, apanhei a chave guardada no criado-mudo, e, diante dela por uns instantes, hesitei. Depois pensei: “Dane-se, vou abrir”. E assim que abri a caixa e olhei, vi os papéis que ali estavam subitamente desaparecerem. Neste preciso instante, compreendi que havia destruído a literatura.

Pois, se agora Williams sente o mundo em ruínas e algo novo surgindo, a culpa é minha. E, apesar de estar profundamente arrependido, não posso fazer nada.

X.

 

Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor ensaísta, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou “Notas de Pensamentos Incomuns” (contos, 2011) e “Sr. Bergier & Outras Histórias” (contos, 2016, Penalux). Organizou a antologia “Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro” (2013). É autor de “O que eu disse ao General” (contos, 2014), considerado pela revista Literatsi um dos melhores livros de 2014.  Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE), com sua esposa e filha.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Denser

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Os autógrafos de Paul Anka

(Das DesMemórias – capítulo 12)

 

Jamais imaginei que fosse contar este episódio, era um dos meus segredos mais secretos e bem guardados, a sete palmos no último cofre da vergonha: foi precisamente assim que a garotinha de 11 anos se sentiu a vida inteira em relação à coisa toda. Não foi legal. Na verdade, foi horrível. Hoje, por exemplo, ainda é difícil contar essa história com alguma dignidade. Porque antes teve o episódio dos gibis – não sei bem por que estou associando esses dois eventos – talvez por implicarem em mentiras deliberadas.

Melhor falar antes dos gibis: eu tinha oito anos e era uma devoradora selvagem de gibis – Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey, Luluzinha, Superman, Fantasma (era fissurada no Fantasma!), e como já expliquei também era filhadaputamente discriminada pelas colegas do colégio de freiras, minha vida era uma merda. Por mal dos pecados, Isaura se enturmara com a mãe delas e agora vivia marcando cabelereiros, dentistas, chás, compras na Clipper direto com as novas amigas.

Que traziam junto as filhinhas cretinas – as mesmas que me maltratavam na escola. E minha mãe: o que é isso, filha, que implicância! (eu simplesmente queria matá-la!) Significando doses extras de desaforos sub-reptícios que eu não precisaria engolir, não em casa, não à paisana, não mesmo: Yarinha, Julinha, Clarinha perto das mães era uns anjos: vamos, Marcinha, lá fora pular corda.

Sei.

Lá fora, me gelavam, fingiam que eu não existia, me davam as costas, deixavam de lado, no toco, de castigo da vida, sempre a mesma merda. Quando não insultavam a troco de nada: tenho-te nojo, garota, diziam: olha só a cara dela, parece débil mental, ha,ha,ha! Filhas da puta, eu trancava o choro, cerrava os dentes e os punhos, vermelha feito um pimentão: simplesmente queria matá-las!

Teréca não, essa se enturmava, porém com as pequenas – aí meio que não valia, tinha graça brincar com as nanicas? Humilhação em dose dupla (quando se é criança, dois anos e meio fazem uma tremenda diferença).

Certa vez, na casa de Dona Yolanda, mãe de Yarinha e Clarinha, duas das mais cretinas, esta me vendo jururu num canto, me levou até o sótão lotado de gibis: mergulhei feliz no meio deles. A tarde ia avançada quando percebi que não conseguiria ler todos, de forma que enfiei um monte sob o vestido, abotoando o casaco. Já anoitecia quando mamãe e a dona da casa vieram me buscar: íamos embora. Levantei, me ajeitando.

Você ainda está lendo? perguntaram, percebi que mamãe e D. Yolanda se entreolhavam, constrangidas: pode levar quantos quiser, meu bem, vejo que gosta de ler, disse esta. Encabulada (poxa, se soubesse que ia ganhar, não teria enfiado na roupa, ainda pensei), respondi que não, obrigada, Yolanda insistia: mas leve quantos quiser, encabulei mais ainda: não, não precisa, obrigado!

De repente, com um puxão, mamãe me arrastou até o banheiro e arrancou-me os gibis: e agora vá devolver e pedir desculpas já, tremendo vexame você me fez passar! Afinal, devia estar IMENSA com aquele volume sob o casaco, mas não percebera: auto-imagem aos oito anos? Bobagem.

Mas esta é uma história de rejeição: se estivesse na rua, brincando de pegador, não precisaria enfiar gibis na calcinha. A outra trata dos autógrafos de Paul Anka.

Três anos depois – eu já era quase uma mocinha – as coisas tinham melhorado um pouco para o meu lado no ginásio, eu fizera a primeira cirurgia plástica que corrigira o lábio, simetrizara o nariz. Já a cicatriz, esta enraizara na alma. E aí não havia plástica nem cirurgia que resolvesse: o mal estava feito.

Experimentava minha primeira paixonite pra valer: o cantor e compositor de rock balada de origem sírio-libanesa, o canadense Paul Anka – da mesma safra de Neil Sedaka e do rei Elvis Presley. Tinha todos os seus long-plays, sabia sua biografia, acompanhava a coluna do Louis Serrano na revista Cinelândia onde este relatava as peripécias do meu ídolo em Hollywood, seu namoro com a starlet Annette Funicello, aliás eu andava furiosa com o Louis: este previa que Anka seria um astro passageiro, não ia ficar.

(De fato, atualmente no Brasil ninguém mais se lembra de Paul Anka, eu mesma precisei entrar no Google pra conferir sua trajetória: por exemplo, no próximo sábado, 30 de janeiro de 2016, descubro pelo viagogo, que ele estará em Barcelona no Gran Teatre del Liceu, apresentando-se a seguir na Polônia, República Checa e Eslováquia, um  circuito bem of-of. Depois dumas 47 cirurgias plásticas, não lembra nem vagamente o rapazinho árabe das fotos dos LPs gravados em 1960 quando cantava Diana e My Heart Sings. Leio que fez carreira em Las Vegas na esteira de Elvis, sendo compositor de alguns sucessos como My Way de Frank Sinatra e She’s a Lady de Tom Jones).

Então Paul Anka veio ao Brasil indo se apresentar no Teatro Record. Não sei como tive a ideia, mas inventei (já era ficcionista naquela época) que minha prima e o namorado iriam me levar todas as noites para vê-lo, aí não sei qual das colegas da classe pediu: me traz um autógrafo? Como eu hesitei, as demais fizeram coro, me assediaram, caíram sobre mim: subitamente eu virara o centro das atenções!

Aquela tarde e todas as subsequentes – enquanto Anka estivesse por aqui – eu carregaria cerca de 30 a 40 livros de inglês no trajeto de ida e volta ao colégio – um peso considerável! – a serem autografados advinhem por quem? Eu, naturalmente, que garatujava algo assim “Of me for you, Paul Anka” (Eu queria dizer “De mim para você” e saiu isso, até porque não sabia nadica de inglês nem ia perguntar, right?).

Repetindo, estas são histórias de rejeição: uma delas foi descoberta, pois a ladrazinha era demasiado estúpida. A outra não – mas pela estupidez alheia! Até porque as pessoas odeiam admitir que foram feitas de idiotas. Histórias que não acabam bem, não acabam nunca: são a crônica duma cicatriz.

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Fernanda Fazzio

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

 As definições acerca do Belo são há muito tempo o alvo de inquietações de filósofos e de artistas. E é devido a elas que se tornou possível reconstruir uma história da estética. Contudo, o mesmo não aconteceu com o Feio, havendo poucos tratados e considerações relevantes sobre o tema. Aqui, partindo das reflexões de Umberto Eco, não se pensa o Feio em oposição ao Belo, mas sim em suas características peculiares, considerando conceitos próprios, relativos aos vários períodos históricos e aos seus estranhamentos nas diversas culturas.

 

A primeira margem

 

Eu sou o Bobo da cidade. Porque, em todas as cidadezinhas com pôr do sol entre as montanhas, precisa-se de um tolo, de um idiota, daquele a quem todos se referem como o lunático-fracassado-da-cidade. Sim, eu, muito prazer. Mas nada peço a ninguém, não preciso de esmolas, só propicio um encontro quando me ordenam. Eu, descuidado, vivo assim mesmo, no meio-fio de uma existência imprecisa. Um poeta um dia disse: “Esquecer é des-existir”. E fiz disso meu amuleto profético, eu não desisto, eu existo tecendo o vislumbre do invisível.

No começo dos tempos, já invejei os homens engravatados da cidade grande, aqueles que saem de casa com aroma de pó de café. Percebo que gozam de uma rasa felicidade, agarrando com destreza uma gravidez próspera de certezas, mas não percebem que são escravizados dia a dia por aquilo que mais lhes falta: tempo. E depois se corroem pelos equívocos de suas vidas empacotadas – meras verdades chamadas de absolutas e que costumam ser levemente incômodas. Isto também acontece por aqui, algumas pessoas se acham, sem mais, imortais. Formados para obter resultados, às vésperas do dia final, arrependem-se de uma existência com sentidos rasgados, amores incompletos e escolhas interrompidas em uma vida que não valeu a pena ser vivida. E o que lhes resta? O indizível, eu lhes digo, junto ao seu último suspiro.

Eu logo percebi que essas coisas não eram para mim, sujeito de uma autoria que não se escreve em pauta, mas que se esgarça entre uma linha e outra da existência. Foi então que, certo dia, adormeci no trajeto, cheguei até o final da linha do trem e, distraído, vim parar aqui em Vila Grandina.

Sou odiado por muitos, não nego. Por sempre conversar com os detalhes inquietantes da cidade, sutilezas despercebidas aos olhos comuns, sou conhecido por muitos como “aquele lá”. E quando me chamam, algo da ordem do oculto parece surgir. Mas, como eu lhes disse, sou necessário aqui. Sem mim, Vila Grandina se tornaria uma cidade ainda mais morta, sem memória, sem lembranças, sem passado nem mesmo uma história.

Admito que meus pensamentos desaforados são como as águas dos grandes rios. Em tempos de chuva, chegam como enchentes aos ouvidos desavisados. Minha consciência lampeja quando sou tomado por ideias estranhas sobre os moradores daqui. Meu talento é decifrar as pessoas desta cidade, até aquelas que parecem mais assustadoras do que eu. Eu sei de tudo, conheço o jeito de cada andar, os seus perfumes caros ou comprados de viajantes clandestinos, os vícios mais secretos e as singelas virtudes em suas vicissitudes. E também o mais terrível escondido: eu sei dos segredos, das histórias contadas por jurados, dos encontros sorrateiros, até das lembranças que deveriam permanecer esquecidas, que faço retornar como reminiscências opacas.

Moro nas coisas deixadas pelas pessoas. Carrego tudo o que posso comigo, nunca me desfaço de nada, tudo aqui assim, junto a mim, nesse lhano carrinho de mercado. Ando a cidade inteira com ele. Os moradores de Vila Grandina se livram do lixo de suas casas, mas não conseguem tirá-lo do bairro. E as pessoas me veem atravessando as ruas com essa carga de outros e não me compreendem. Crença ou ciência, eu também já desisti de tentar explicar sobre as incessantes vozes lancinantes e memórias perdidas. Mas mesmo assim elas me dão comida, às vezes um casaco ou um livro. Talvez porque ainda me reconheçam dos anos de trabalho na Biblioteca Municipal, dos tempos de uma vida ordenada, regrada por garantias institucionalizadas. Contudo, foi preciso abdicar de tudo, essa minha essência necessita de solidão, de quietude sem lugar comum. Só assim chego à superfície do manto de angústia quase insuportável, meu companheiro fiel no desespero gelado.

Nunca se viu por aqui, nem se ouviu de terras longes, do enterro de um anão, menos ainda de uma anã. Talvez eles nem se autorizem a aparecer com as marcas do tempo. Eu sempre penso sobre isso. Os anões não morrem, como dizem, viram alguma outra coisa, não se sabe ao certo à qual maldição estão destinados. Crueldade ou destino, pouco importa agora, as atitudes mais terríveis são por vezes camufladas em perfumes importados e saltos de verniz, doces vozes escondem as ações mais desagradáveis.

Às vezes eu vou até os trilhos abandonados onde a pequenina foi encontrada e me recordo do dia em que ela chegou aqui. Fico à procura de alguma explicação para não deixar aquele corpo condensado morrer em mim. As vozes silenciam naquele lugar, acho que não podem se manifestar ali, há sem dúvida algo de sagrado nos cascalhos. Por isso, quando estou perturbado em meus devaneios confusos, vou até a estação para tentar assentar minha cabeça no lugar. O único que me acompanha fielmente nesses retiros é Preto, ficamos sentados nos trilhos, olhando um para o outro, desatando sentidos em um infinito sem tempo. Eu tenho cá para mim que ele sabe de tudo, mesmo em sua condição de gato que emudece o seu miado, eu sei que não ignora o fim da pequenina. Nós bem sabemos que ela deixou esse mundo na sutileza da sua menor grandeza.

 

Fernanda Fazzio é psicóloga pela PUC-SP e bacharel em Teatro formada pela Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). Buscando aperfeiçoar a sua escuta clínica, especializou-se em Semiótica Psicanalítica: Clínica da Cultura (PUC-SP) e realizou a sua formação em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae. Escreveu a “A Inquietante Beleza do Feio” (Patuá, 2014), livro de ensaios e contos poéticos sobre as máscaras, o feio e a criação artística.  

 

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberta Silva

 

suzanalatini
Foto: Suzana Latini

 

O Lamentável fim da família de Dr. Conrado, o Benemérito

 

Moro numa daquelas casas que rodeiam o belo Central Park, nome atual do antigo parque da Colina, área nobre de nossa pequena e antiquada cidade. Ao redor desse parque, a nata de nossa sociedade. Famílias invejavelmente bem sucedidas e felizes que passam os domingos fazendo piqueniques no verde gramado do parque, como este fosse, e é, uma extensão de seus jardins. Nossa cidade é próspera, apesar da pequenez e pacata, apesar da rotina e grande distanciamento social entre as classes. Somos pacíficos e católicos e isto nos basta. Durante muitos anos, somente dois acontecimentos causaram escândalo entre o seleto grupo dos moradores do parque. O primeiro foi minha mudança para cá. Eu, Maria da Piedade, ou Piê, como era chamada no posto de saúde em que trabalhava como atendente de farmácia, filha de mãe solteira, herdei esta casa de meu pai, um ilustre personagem político da cidade. Seu desejo último foi redimir-se de sua omissão deixando para mim todos os bens que possuía. Nos primeiros anos fui apontada por meus vizinhos na rua e no parque e, primeiro por causa de uma exclusão descarada, depois, por convicção, passei a aproveitar os domingos na janela a observar o balé social, no qual bailam e representam nossa tosca comédia as pessoas respeitáveis de nossa sociedade. Deixaram de falar de mim após a morte de Dr. Conrado, o benemérito. Morte lamentável, mas não tanto quanto o lamentável fim de sua família, que aconteceu após a trágica morte.

Dr. Conrado era um advogado conhecido. Bonito, jovem, culto, bem sucedido. Era casado com uma mulher bela, jovem, culta, extremamente tímida, excelente dona de casa e pai de três adoráveis, educadíssimas e também belas crianças, o primogênito e duas meninas. Eram invejados pelos vizinhos, inveja branca dizia-se, daquela que não se deseja o mal. Exemplo vivo de uma família perfeita. Durante as tardes de domingo, no parque, estavam sempre rodeados de amigos. Seus quitutes eram fartos e os mais saborosos, a conversa deles era a mais agradável e suas crianças nunca davam um pingo de trabalho. Quando as mães tinham de ralhar com seus filhos por terem cutucado os peixes do lago com espetos ou darem rasteiras nas bengalas dos velhinhos, quando uma esposa descontente cobrava do marido um pouco mais de zelo ou um marido, cansado das lamúrias da mulher, desejava secretamente que a dita engolisse a língua e se calasse numa crise convulsiva de auto sufocamento recorriam à imagem da família de Dr. Conrado como exemplo a ser seguido, meta a ser atingida. Eram assunto também, nas rodas, as diversas obras de caridade que patrocinavam e as gordas doações nos jantares beneficentes feitos por ele e sua família.

Como num conto de fadas invertido, essa era uma história feliz que tivera um triste final. A princípio notaram que o jardim de Sra. Conrado não estava mais impecável. Ervas daninhas proliferavam a olhos vistos e depois estas substituíram definitivamente os lugares de destaque das folhagens nobres. O pior era que isso não acontecera por falta de zelo, tristeza recolhida ou luto. Parecia que a jovem viúva estava dando os primeiros sinais de enlouquecimento. Fora flagrada diversas vezes cultivando os capins, carrapichos e ervas de passarinho no que agora não era mais uma pálida sombra do lindo jardim de antes. Pararam de frequentar o parque aos domingos. O filho mais velho, depois que adolescera, perdeu-se completamente. Fazia teatro de rua, pintava os cabelos de cores vivas e os olhos e as unhas de preto. Viam-no circular com um colega um tanto afeminado diversas vezes pelo bairro em conversinhas purpurinadas, trôpegas e cheias de risinhos. A filha do meio vestia-se à moda dos novos hippies e vivia acompanhada de pessoas que não condiziam com sua classe social. A caçula ainda trazia muito dos modos de antes da morte trágica de seu pai, mas temiam cedo ou tarde contaminar-se também com o caos que se instalara no seio daquele lar. No seu andar, apesar de ainda elegantemente vestida, notava-se um leve desleixo nos movimentos, um desleixo que não se permitiria antes, visto que era, dos três, a mais elegante. Pela ausência demorada aos piqueniques de domingo descartaram a possibilidade do luto familiar, pois saiam todos, nesses dias, animados em seus novos trajes, rumo a um programa desconhecido além das fronteiras do rico boulevard.

Pela janela presenciei a chegada de um caminhão de mudança que parou à porta da casa da família de Dr. Conrado. O grand-finale deste escândalo será quando descobrirem que Sra. Conrado está de mudança. Com a família, mudará para outro lado da cidade para amasiar-se com um livreiro comunista e pé rapado com quem ela havia tido um pequeno affair na juventude. Superará, por certo, em pontos de audiência a notícia da morte do estimado doutor após ingerir uma sopa de mandioca brava, preparada para ele pela zelosa esposa, naquela tranquila noite de inverno.

Conheci Sra. Conrado tempos antes de me mudar para cá, durante os anos em que ainda trabalhava na farmácia de um posto de saúde afastado. Ela veio pegar gratuitamente os medicamentos receitados pelo doutor do posto em nossa farmácia. Ela apresentou-se na portinha apresentando a receita, minha repulsa foi imediata, pois se via logo de cara que era uma mulher que não precisava dos medicamentos grátis que distribuíamos para as pessoas menos afortunadas que eram tratadas ali. Era uma lista enorme, antiinflamatórios, antibióticos e ataduras. Ofereceu-se muito constrangida para pagá-los e senti-me um tanto arrependida pelo julgamento precipitado. Depois daquele dia, ela voltou várias vezes. Comentava-se a boca pequena entre os funcionários a natureza de suas consultas secretas. Ela entrava, às vezes só, outras acompanhando um dos filhos e depois passava na farmácia. Nunca dizia nada e parecia resignar-se ou não perceber os olhares de reprovação dos outros pacientes e funcionários dali.

Num dia igual a muitos outros, em que ela havia ido ao posto em busca de cuidados e remédios, sem motivos aparentes, ignorando completamente a fila que formara atrás de si, começou a falar. Sua voz era baixa e suas palavras polidas e bem escolhidas. Contou-me como alguém contaria a um padre em uma extrema-unção sobre como havia conhecido o marido. Após um namorico problemático com um colega de escola de nível social muito inferior ao dela encontrou-o, recém formado, belo, companheiro e disposto a terminar com suas angústias para sempre. Foi o casamento dos sonhos. Pouco depois da lua-de-mel, o marido dera os primeiros sinais que nunca esqueceria que um dia ela havia amado outro homem. Desconfiava de seu amor. Vasculhava suas coisas, seguia-a pelas ruas. Primeiro veio as discussões à meia voz para não serem ouvidos pelos empregados. Depois o primeiro tapa, o primeiro soco. A primeira gravidez frustou-se em um aborto devido a um chute que levou na barriga. Tirando a vez em que ele lhe socou a primeira vez, as outras nunca lhe deixaram hematomas que não pudessem ser omitidos por uma blusa, um echarpe, um xale. O médico da família ameaçou denunciá-lo, depois que se esgotaram as desculpas para os ferimentos e infecções, caso ela não o fizesse pessoalmente. Ela não o procurou mais e nas reuniões em que se encontravam convencia-o de que não aconteciam mais aquelas coisas e que estavam todos muito bem e felizes. Além do ciúme, sua excessiva mania de limpeza e perfeccionismo o fazia perder a paciência com a menor sombra de poeira ou objeto deixado fora do lugar. Isto era mais fácil de controlar antes da chegada das crianças, mas depois dela sua vida era uma eterna inspeção atrás de coisas que pudessem desagradá-lo. Lógico que os filhos não podiam acompanhar o cuidado da mãe. Vez ou outra deixavam cair um talher, manchar um vestido ou soltavam uma risada inoportuna e também sofriam com os corretivos do zeloso pai. Ouvi calada e depois a chamei para dentro do meu cubículo. Atendi as pessoas que esperavam na fila rapidamente e tranquei a portinhola. Conversamos durante algum tempo. Ela dizia que não havia como sair de lá. Todos iriam ficar contra ela, era impossível imaginar que Dr. Conrado, o benemérito, fosse capaz daquelas coisas. Ele mesmo a advertira que a internaria num manicômio caso tentasse levantar algum falso sobre sua honra. Ficamos amigas, eu a ouvia, quase todas as semanas, sobre a violência que aquele homem cometia impunemente contra a família acuada e indefesa. Um dia decidi por tentar ajudá-la. O filho tinha sido submetido, pela terceira vez, a uma sutura de pontos de um ferimento. O pai tinha por ele uma fúria mais contundente. Dizia que daria àquele ser patético uma postura máscula e viril nem que para isso tivesse que quebrá-lo em pancadas. Eu disse à minha amiga que tinha como dar a ela um veneno que ela poderia misturar a sua comida e ele morreria rapidamente. Sugeri que ela fizesse uma sopa de mandioca, pois era sabido que esse tipo de alimento vez ou outra causava uma desgraça.

O velório foi preparado com muita pompa pela família do doutor. Queriam aproveitar a visita relâmpago do governador pela cidade e pediram ao diretor do hospital, que era o mesmo que acompanhava a família do venerável defunto, para que fossem dispensadas as formalidades e que este assinasse o atestado de óbito o mais rápido possível. Foi mais fácil que imaginavam e foi, na época, aquele velório o evento social mais elogiado nas colunas sociais.

 

Roberta Silva é escritora, edita o blogue Ragi Moana. Tem poemas publicados na internet, entre outros sites, na revista Germina e no Escritoras suicidas. Faz parte de Dedo de moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Vive em Belo Horizonte.

 

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Héber Sales

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

ACIDENTE ECOLÓGICO

Pesquisadores investigam por que, poucos anos depois da introdução do Like na sociosfera, a Conversa e o Entendimento entraram para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

Muito preocupados, alguns cientistas recomendam que, nas zonas mais infestadas por Likes, as pessoas coloquem seus smartphones em modo avião. O procedimento costuma manter esses animais afastados um do outro, evitando assim que copulem e se proliferem ao longo do chamado circuito sedutor das redes sociais, área onde reside hoje pouco mais de metade de toda a população brasileira.

Nas regiões em que esse método já foi testado, Conversas de 20 minutos, até então praticamente extintas no local, começaram a ser vistas com frequência novamente. Pelo menos meia dúzia de pessoas declararam ter interagido com elas no jardim ou no quintal da própria casa.

Os especialistas responsáveis pelo projeto estão bastante otimistas com esses resultados iniciais e vivem a expectativa de encontrar a qualquer instante Conversas de 1, 2 e até 3 horas de duração. Com um de pouco sorte, afirmam ser possível achar inclusive algum Entendimento entre elas. O planeta agradece.

***

 

FORMAS DE RESISTIR

Ocupamo-nos todos demais e fazemos ruído demais, procurando um modo de escapar ao inquérito do silêncio. Há tantas questões… Respondê-las não cabe em uma só vida, e nós não temos tempo, é preciso viver. Alguns ainda se calam e se trancam em monastérios, cumprindo os seus rituais sem uma palavra sequer, e mesmo assim não estão alertas o bastante: a liturgia, afinal, exige toda a sua atenção. Compreensível, é realmente duro aceitar tudo como o silêncio nos pede, sem desviar o olhar de nada – as coisas incertas nos parecem más e a certeza do mal nos faz crer que o bem existe.

***

 

O ANACORETA

Foi no parque da cidade, o sol entre névoas dormente ainda, no instante seguinte ao coro da alvorada, quando tudo aquieta e sonda, de si para si, a glória e o terror de um novo dia, o velho professor, ali, na hora em que, por demente ou asceta, sempre se ausentava do cotidiano, resolvera: queria continuar com a manhã.

Esperou o amém de um louva-a-deus para sorte e fez a imaginação correr com um riacho – concebera dar leito às suas visagens, que pudessem se por, uma após da outra, de volta ao sonho, e narrar desde quando renasciam, multiformes e afoitas.

O córrego porém, vadiando em peraltices e folguedos, fez do venerável repetente e barroco: labirinto, de cuja libertação precisou rogar a uma formiga, pelo atentar à sua trilha, para logo a descobrir tão alheia ao enredo quanto ele: a saúva, à paisana, gozava um feriado.

Só lhe restasse então aventurar o devaneio no voo de um pássaro, de modo a lhe dar destino.

Não demorou muito, um sabiá apareceu na boca da mata sobre um galho de marianeira. Eis a sua melhor oportunidade, pronto pensou, pois, além de lhes fazer sentido, a ave colocaria ainda um canto em suas palavras. Determinou-se. Fixou os olhos no pássaro, segurou o meu braço com força e, levando aos lábios o indicador em riste, arrastou-me para dentro do seu silêncio. Era uma questão de vida ou morte, pude sentir, arremeter com o caraxué.

Setembro, com tudo, conspirava contra nós: a temporada havia posto em cada ramo uma farta porção de bagas, e o sabiá, alheio ao velho mestre, já não tinha mais o que buscar no restante do ensolarado – o anacoreta precisaria de uma outra ave, de uma espécie tão estrangeira quanto a dele.

Foi afrouxando os dedos, devagarinho e derrotado, mas sem soltar de todo o meu pulso, pois não se havia seguro vagando sozinho no ermo que o acometia. Logo adiante, à nossa esquerda, observou uma vasta campina de flores desaparecidas; deixou perambular nela o olhar perdido: alguns canários colhiam sementes na gramínea madura; refastelavam-se também noivinhas e cardeais…

Nem nenhuma dessas aves, com tanto, emigrava!

“Elas ao nada se destinam, eu ao nada me destino, e nem você vai mais ao nada além do nada me destinar, em parágrafo algum”, falou finalmente, quase de áspero.

 

Héber Sales escreve. Natural de Pernambuco, reside atualmente em São Paulo, onde coordena o Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada do UNASP (Centro Universitário Adventista) e atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns dos seus textos também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras. Tráfico de Drogas, seu primeiro livro de poesia, será lançado em breve.

 

 

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109ª Leva - 03/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Priscila Merizzio

 
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Uma história escrita com a ampulheta de Cronos

 

 

I

Havia debaixo do colchão de sua cama um facão para cortar pela metade a dor e os sonhos. Julgava uma inépcia pessoas que se refugiavam em fantasias e escutava com lassidão seus discursos. Carregava consigo uma assepsia de emoções que o deixava embotado diante de sentimentos profundos. Foi uma criança sisuda e pautada nas farmacopeias que os mais velhos ensinavam. Considerava frugais as brincadeiras das outras crianças, optando quase sempre pela aspereza da solidão. Cresceu com os ossos dos joelhos ensimesmados e não houve especialista que conseguisse curar a dor lancinante em dias de tempestades. Embora ganisse a cada trovoada, deixava que a natureza se ocupasse de ficar úmida e trincava os dentes com força para não derrubar lágrima sequer. Tão logo alcançou maioridade, partiu de casa em busca de independência. Ambicionava ser um homem rico e também preencher a arcada dentária com ouro trazido de minérios negreiros. Sua personalidade compenetrada lhe rendeu um emprego promissor em uma importante madeireira. Tinha brios luciferianos e nas parcas correspondências que trocava com a mãe não se queixava de saudades, doenças ou escassez de comida, como costumavam fazer os outros rapazes de sua idade. A madeireira foi seu único emprego. Começou como estagiário e aposentou-se como sócio majoritário, exportando pinus à Europa e, para espanto dos colegas, também para as Índias. Saía com mulheres aceitáveis, mas nada extraordinárias. Permitir-se ao extraordinário era fado dos românticos. Jamais armazenou velas para gastar com defuntos. Permitia-se ternura e superstição apenas com seus gatos, que não lhe exigiam cuidados demasiados.

II

Havia algumas raras situações em que ele cruzava o olhar com mulheres que o deixavam em estado de Lua Cheia. Ele tinha pavor do efeito hipnótico e destemperado que elas produziam em seu comportamento. Após sentir o perfume de Cleópatra que emanava do tufo de pelos no meio de suas pernas e de bebericar seus orgasmos de ambrosia, voltava-lhe impiedosa a dor nos joelhos. Ele urrava quase esfarelando os dentes entre as mandíbulas, mesmo que lá fora fizesse um sol de latejar as têmporas. As enxurradas de suor daquelas mulheres lhe valiam mais do que três mil tempestades e não havia nada que amainasse sua dor. Concluía que elas eram ardis feiticeiras, com seus seios de Medeia e gracejos de fogueira, distribuindo sorrisos como quem despeja moedas estreladas em danças ciganas e mesmerizantes. Após o encontro com essas mulheres, caía em si e rechaçava a si mesmo por ter se permitido enveredar nas ratoeiras do desejo descomedido. Punha-se então a ruminar saídas mentais e estratégicas e empunhava tochas gélidas de racionalidade que o livravam do labirinto das câmaras dos átrios e ventrículos daquele monstro sentimental que pulsava na cavidade de seu tórax. Ele não concebia a ideia de ter um coração, apenas um cérebro. Seguinte ao pequeno descarrilamento emocional, retornava a seus afazeres, se inteirando em cálculos e bebericando conhaque em negociações com outros poderosos. Voltava a esvaziar as necessidades de homem em bordéis com gorjetas mesquinhas e não beijava a boca das putas. Substituiu os dentes naturais por dentes de ouro egípcio.

III

Embora tentasse fugir dessas raras mulheres feiticeiras, houve uma delas que fatalmente o envolveu em um véu de brumas aquáticas. Quando deu por si, estava se deitando com ela em meio a incêndios oceânicos que repartiam Netuno em dois e ásperos pedregulhos vigiados por cascavéis que avisavam com seus guizos plutônicos que, frutos férteis e lunáticos, estavam quase caídos dos pés. A feiticeira estendia seu efeito desagradável também sobre seus gatos, que em noites enluaradas estranhamente tomavam formas de enormes lobos, uivando insaciáveis. Os gatos, transmutados em lobos, sumiam na escuridão e traziam consigo, na manhã do dia seguinte, embutidas dolorosamente em seus membros ainda intumescidos, delicadas fêmeas andorinhas. Ele ficava horrorizado com tamanho espetáculo e esguichava água fria para que seus gatos deixassem de ser lobos e as fêmeas partissem, incumbidas de bicarem sozinhas suas feridas. Não se solidarizava com a dor alheia. Ademais, ele estava ranzinza a maior parte do tempo. Ora porque a feiticeira não estava por perto, ora porque ela se ausentava. Ansiava em ter sua sobriedade de volta, embora soubesse que o preço a pagar seria alto. Teria de expelir todo o carmim de suas paredes para revesti-las novamente com o cinza dos bordéis e dos números certeiros de seu livro de contas. Além disso, os gatos pareciam conspirar contra ele quando não transfigurados em lobos. Quando ele começava com suas especulações taciturnas sobre as implicações negativas acerca da feiticeira, os bichanos bocejavam modorrentos. Desde que haviam experimentado os presságios mágicos da Lua Cheia eles observavam sua soturnidade com audaz desprezo e abençoavam a entrada daquela mulher bruxa em suas vidas.

IV

Mal ele sabia que os gatos haviam desenvolvido o desagradável hábito de espionar suas noites de volúpia com a feiticeira, que dominava a arte do amor e entregava despudorada cada nuance de seu corpo quente. Ela engatinhava pelo quarto como uma pantera e colhia seu sêmen em uma taça de ouro.  Quando ela fazia isso, os gatos que estavam espionando pelo vão da porta, ficavam de pelos eriçados e salivavam inebriados. Para ele, aquelas foram noites guiadas por um deus ébrio de Vênus e nada daquilo lhe soava linear. A passagem arrastada do tempo o deixava Saturno. Decidiu que era a hora de findar aquela desgraça. Após uma noite ardente, ele acordou e sentiu falta da feiticeira ao seu lado. Foi procurá-la pela casa e flagrou-a dando seu sêmen de beber aos gatos. Eles lambiam a taça de ouro e ameaçavam transformar-se em lobos. No lugar dos cabelos escuros e sedosos da mulher, brotaram-lhe serpentes que ondulavam sensualmente ameaçando o picar nos olhos para que ficasse cego. Ele começou a gritar apavorado, ordenando que Medusa fosse embora e que levasse com ela as serpentes e aqueles gatos-lobos repugnantes. E assim foi. Para disfarçar a sensação de perda ele iniciou uma criação de cabras. Elas talvez lhe pudessem render calmaria e algum trocado com o leite que produziam. Nutria uma raiva sombria daquela mulher que surgiu em sua vida para levar o que mais de precioso ele tinha: os gatos. E sua inconfessável presença de bruxa. A dor dos ossos do joelho se tornou violenta como uma maldição. Em vez de surgir em meio às tempestades, ela agora anunciava sua presença nas noites de Lua Cheia. Enquanto lobos uivavam ao longe, primeiro partiram-se as juntas e depois os ossos de seus joelhos. Os dentes de ouro de sua boca derreteram-se como argamassa, grudando seus beiços definitivamente. Ele morreu de hipotermia, julgando escutar lobos afônicos uivando lá longe, enquanto suas cabras pastavam tranquilamente na colina. Jamais derrubou lágrima sequer.

***

Domingo maravilhoso

A madrinha arrumou-se com vaidade para participar das costumeiras novenas de quarta-feira que dona Neide, uma senhora ucraniana, grandalhona e azeda organizava na garagem de seu filho. Ordenou à afilhada para que tomasse conta do cachorro e da casa, que logo voltaria para prepararem o jantar e arrumarem as fotografias da parentada. Estava um mormaço por causa do extenuante calor e a afilhada estava deitada, lendo tranquilamente na rede da área, quando em meia hora a madrinha voltou para casa ofegante, dizendo que havia saído no jornal local a notícia mais fantástica do mundo: na paróquia onde ela assistia às missas de domingo, atraído pelos miados medrosos de seu gato, o padre entrou correndo na nave pensando tratar-se de um assalto, quando viu as chamas das velas num fogaréu atiçadíssimo, quase atingindo a cúpula da paróquia. Os santos todos flutuando sobre a mesa do altar. A madrinha em êxtase infantil, exibindo as pontes d’ouro dos dentes enquanto sorria.

***

Aos anjos de Ana Cristina Cesar

 

20 de agosto de 2010

 

Quando vi o porteiro, contrariei as regras sociais todas e pedi para que ele me desse um abraço, na ânsia de consolo para a argamassa de ruínas que eu fechava atrás de mim no portão do prédio. Vesti-me de puta para agradar aquele homem. Puta mesmo, capa de chuva e nada por baixo, apenas as botas de cano alto. Quase cinco anos encarnando a personificação venusiana de um espancador de psiques.

16 de dezembro de 2000

 

A vó ficou preocupadíssima porque saí de casa às 2h da manhã com uma turma para ver o sol nascer no aeroporto. O carro de meu amigo estacionado na frente de sua casa e AC/DC no último volume a deixaram horrorizada. Eu carregava na mochila “O apanhador no campo de centeio” e “A hora da estrela”. O sol nasceu lindo naquele dia. Não me deixei ser beijada por W. Não queria ser beijada naquela manhã.

23 de setembro de 1999

M. e Carlos disseram-me para que eu não chorasse. Deram-me um baseado enrolado com muito amor e serviram-me vodka no maior copo de plástico. Carlos pôs um gomo de mexerica e mexeu a bebida com um galho de árvore. Estávamos na pracinha perto de minha casa. O namorado de M. dormia sobre um banco que nós duas já havíamos urinado, bêbadas. Senti-me em comunhão com o mundo compartilhando olhares cúmplices com minha primeira amiga de Escorpião. O busto do marechal piscou para a cadela no cio que revirava os lixos. O sangue dela pingando na calçada, que o absorvia como nanquim.

11 de junho de 2011

 

No plantão da clínica veterinária, 22h, com as mãos e o rosto cheios de excrementos de meu cachorro que estava morto, sendo em vão reanimado na sala de emergência. Joguei-me nos braços do guardião, dizendo a ele que a única coisa que poderia fazer por mim era me abraçar. Também sujei suas roupas com o excremento de meu cachorro e o cheiro não enojou nenhum de nós, pois fomos humanos e sabíamos que havia muito mais em jogo. Antes disso, quase lanhei o rosto do taxista que quis cobrar-me a lavagem do banco do carro. Disse-me que havia perdido todas as corridas da noite com a morte de meu cachorro em seu automóvel. Atirei uma nota de cinquenta reais em sua cara. Disse que no outro dia daria mais. Estava prestes a saltar sobre ele, pantera e mãe. Expus sua vergonha capitalista.

10 de setembro de 1998

 

Nunca havia me sentido tão feliz e parte de alguma coisa. Nós dois nos amávamos e um de nossos jogos favoritos era transmitir por pensamentos a cor da roupa de cada um enquanto conversávamos por telefone. Sempre acertávamos. Nossos amigos escutavam Garotos Podres, ensaiavam no porão da casa de Rodrigo e, nas horas vagas, jogavam cartas. Eu aproveitava tudo até à exaustão. Sabia que aquilo um dia viraria memória, eu não seria a noiva carregando flores de pitangueiras na catedral, então, parte de mim já despedaçava-se antes do tempo previsto, antecipando crises e passeios no cemitério municipal. Não perdi minha virgindade com B. Sentei-me em lápides e conversei com mortos.

24 de maio de 2000

 

Estava tentando gostar de Megadeth, por indicação de uma amiga que era apaixonada por eles. Ela era loira, com o cabelo ondulado gigante, caindo até seu magro quadril. Uma sereia simbolista. Em seu queixo havia algumas espinhas, o que estranhamente tornava-a mais charmosa e valente. Eu tentava ser vocalista de uma banda punk das meninas ricas do colégio. “Casa de bonecas”.  Não pude seguir as penosas ordens das donas dos instrumentos e locais de ensaio, exigindo de mim uma disciplina de convento. Eu não era uma boneca. Eu não tinha casa. No fim, afastaram-se de mim, por ser “má influência”. Julio havia tomado muitos Benflogin e conversava com uma vaca que estava sentada no banco de trás, ao meu lado.

12 de junho de 1988

 

A falta de notícias suas atirou-me na gruta dos perdidos escandalosos por migalhas da sua boca que me navalha. Da sua ausência que me espicaça. Enterrei o peixe petit poá junto com o canarinho Kenny G.  A tartaruguinha de Carolina perdida no acidente de carro. Exorcizar fantasmas alheios e atentórios dói. Frustrações atiradas como sacos de gelo sobre uma alma quente, porém destemperada. Incendiando nas labaredas de paraísos maniqueístas. Carolina levava-me ao cinema e dormíamos no banheiro, assistindo a várias exibições escondidas, de graça. Nossos corpos vicejados foram atravessados por um raio. Carolina cantou para mim. Você vomitou no BH Lanches. A cicatriz no ventre de sua mãe é profecia.

 

Priscila Merizzio é curitibana. Editora convidada da Germina — Revista de Literatura & Arte. Tem textos publicados em jornais, revistas literárias e antologias brasileiras e estrangeiras. Participou da Bienal Internacional de Curitiba de 2013 e outras exposições e mostras. É uma das organizadoras da Antologia 29 de abril – o verso da violência (ed. Patuá, 2015). Minimoabismo (ed. Patuá, 2014) é seu livro de estreia e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2015.

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109ª Leva - 03/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Herculano Neto

helenabarbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

NO QUARTEL DE ABRANTES

Recebi o último telefonema. Ele queria o dinheiro ao meio-dia, nenhuma hora a mais. Tentei argumentar várias vezes, disse que não tinha tanto dinheiro assim nem tinha como conseguir, que eu era apenas um reles assessor de vereador (o cargo pode parecer pomposo, mas fora a pose e a vaga cativa no estacionamento eu não era ninguém). Mas ele sequer parecia me escutar, não se alterava com a minha histeria e nunca conversava comigo. Telefonava e só falava o que tinha planejado. Devia ser parte da estratégia não dialogar, o que me deixava mais enfurecido e acuado. Se existe algo que me tira do sério é ser ignorado, gosto de falar, gosto que me escutem, gosto de plateia. Confesso que sou até indelicado com meus interlocutores e mal os concedo o direito de abrir a boca. Agora ele fazia a mesma coisa comigo. Ele devia me conhecer, ele não apenas sabia quem eu era; ele sabia como eu era. Ele também sabia que eu seria capaz de tudo para destruir aquela gravação, que eu estava desesperado. Por isso não o subestimava, todo adversário de mérito tem o meu respeito.

Rastreei suas ligações, em vão. Cinco ligações, cinco horários diferentes, cinco telefones públicos do centro da cidade. No começo, pensava que era alguma brincadeira, porém ele logo me fez perceber que a história era à vera, ele sabia demais. Se aquele vídeo aparecesse eu estaria perdido, seria o meu fim. Com uma arma invisível engatilhada na minha testa não havia muito a ser feito. Saquei o que tinha disponível nos bancos, fiz dois empréstimos com terceiros e vendi o automóvel da minha esposa, ainda assim faltava bastante, mas acreditava que conseguiria renegociar cara a cara. O encontro ele marcou no Largo Dois de Julho, local muito movimentado, frequentado por todo tipo de gente, certamente pra não chamar atenção. “Como saberei quem é você?”. “Não se preocupe, você saberá”. Desde o início foi a única pergunta que ele respondeu.

Duas horas antes, já estava no local combinado. Comprei uma latinha de cerveja num bar e me sentei num banco de praça, com a maleta entre as pernas, tentando aparentar tranquilidade. Ele não demoraria, talvez já estivesse me vendo de uma daquelas janelas velhas, se divertindo com a minha tensão, mas não dei esse prazer a ele, não novamente. Em um dos seus telefonemas ele mandou lembranças para Melissa antes de desligar. Melissa é minha filha do meu primeiro casamento, tem dezessete anos e mora com a mãe na Federação. Me controlei enquanto pude, antes de decidir investigar — acho que eu estava vendo muitos filmes. Quis saber se ela tinha e quais foram seus últimos namorados, seus horários, suas rotinas, coisas que eu não fazia a mais vaga ideia. Cheguei a imaginar que ela e a mãe poderiam também estar envolvidas, porém vi o absurdo a que eu estava me submetendo: era só uma jogada, e eu caí. Não sei se era a intenção dele, mas comecei a desconfiar de todos a minha volta, ninguém escapava do meu paranoico controle de desconfiança. Concluí que era uma pessoa próxima, que ele estava acompanhando meus passos, me analisando, averiguando o efeito dos seus telefonemas, aguardando o momento oportuno para me desestabilizar. Era realmente um adversário que merecia meu respeito.

Meio-dia e nenhum sinal dele, comprei mais duas cervejas e continuei na minha espera. Todos que passavam por mim eu olhava detidamente, como se a qualquer instante fosse falar comigo alguma frase solta, codificada, que facilmente eu interpretaria. Um mendigo, um flanelinha, uma estudante, um bêbado, uma periguete, uma dona de casa carregando sacolas de compras, um vendedor ambulante, um velho, todos eram suspeitos. “Nada de gracinhas”, foi a recomendação que ele mais repetiu. Quis recrutar alguns amigos que eu tenho na milícia, gente experiente que sabe fazer um trabalho limpo, sem vestígios, sem alardes, mas seria melhor não correr nenhum tipo de risco, ele parecia ser muito esperto, não era um aventureiro, sabia o que estava fazendo. A cada minuto minha ansiedade aumentava, não queria, mas estava nervoso. Mais de uma hora da tarde, quanto ainda devia esperar? Sem saber a resposta, fui ficando, entre uma cerveja e outra, até ao anoitecer.

Voltei para casa exausto, me sentindo pior do que eu estava, o pesadelo não tinha acabado, brevemente começaria tudo outra vez. A qualquer momento o telefone tocaria, mantendo o suspense, foi o que eu pensei quando resolvi dormir na sala. Ele deve ligar hoje, foi o que eu pensei quando disse para a secretária do gabinete que eu não estava para ninguém. No entanto, seguiram-se os dias, os meses, e nenhuma notícia dele. Misteriosamente, ele tinha desaparecido. O que aconteceu? Provavelmente, jamais saberei nem pretendia especular. O certo é que aprendi uma grande lição disso tudo: não negocio mais nada, nada mesmo, sem ter a mais absoluta certeza de que eu não estou sendo grampeado.

***

 

 

 

“A MINHA ALMA NUA”

“A minha pele de ébano é/ a minha alma nua”
(Alegria da Cidade, Lazzo/ Jorge Portugal)
 

Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, “a de qualidade”. Curtia a noite até a última ponta: suas dores, seus atalhos, seus clichês, suas miragens. Até conhecer Clara, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, “o que mata sem faca”. Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi a minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela. Clara era o arco-íris de Madagascar, mas me considerava muito branco para o seu universo.

***

 

 

 

AQUELES SEIOS

 

Trabalho no setor de mamografia de um hospital público há pouco tempo, mas o suficiente para eu perceber que sou o homem errado no lugar errado. Não sou uma peça na engrenagem, sou um hamster na roda. Atendo oito pacientes por turno, nenhum a mais. Mulheres amedrontadas na companhia dos maridos ou das filhas, com suas tetas velhas, flácidas, pálidas, gastas e adormecidas. Para mim, indiferentes montes de carne. Até eu conhecer Dona Filipa.

Dona Filipa apareceu no meio do expediente de uma quarta-feira. Quarenta e quatro anos, seis filhos, semi-alfabetizada, moradora da zona rural. Era o que dizia sua ficha. Tomei o último gole do café frio e, enquanto assinalava mecanicamente algumas opções do formulário, pedi para ela fazer a gentileza de tirar a roupa. No entanto, quando vi aqueles seios, emudeci assustado, logo eu, tão acostumado à malta infinda de donas de casa desnudas deparei com o mais belo e perfeito par que já  existiu. Antes, acreditava que peitos bonitos só frequentassem clínicas particulares. Dispensei-a sem realizar seu exame.

Alguns meses depois, Dona Filipa retornou. E novamente não realizei seu exame. Se aqueles seios tinham algum vestígio de câncer eu preferia não saber.

 

 

 

***

 

 

 

DIA DE VISITA

 

Hoje é dia de visita. Se fosse em minha casa, deixaria tudo arrumado, arejado. Prepararia aperitivos, abriria as janelas, trocaria as cortinas, lustraria os móveis, teria livros de fotografia e poesia na mesa de centro, colocaria os gatos do lado de fora, flores nos vasos da sala. Mas só se a visita fosse em minha casa. A visita em questão é à penitenciária, onde sou simultaneamente convidada e anfitriã. Sou eu que preparo os biscoitos, bolos, pães; compro frutas, cereais, cigarros. Esse rito semanal tem quase dez anos, desde que Pedro fez aquela bobagem, não deveria, mas me acostumei.

A palavra penitenciária é derivada de penitência, que quer dizer arrependimento de algum pecado ou culpa. Mas a última coisa que se encontra lá dentro são arrependidos, apenas amontoados de presos. A palavra presídio define melhor a situação.

Minha preocupação agora é a frente-fria que aportou sobre a cidade, dizem que nos últimos dias choveu o esperado para o mês inteiro, a capital praticamente parou, o que não é nenhuma novidade. Salvador é uma cidade de verão apenas no cartão-postal. Basta qualquer chuvinha para alagar as ruas, congestionar o trânsito, desmoronar encostas, desabrigar o povo e aparecer governante na TV fazendo promessas. Será mais trabalhoso sair com tantas sacolas debaixo desse temporal; no entanto, esperar é correr o risco desnecessário de perder o horário de visitas. De ônibus, com sorte, chegarei em duas horas.

O diretor do presídio, para não criarmos vínculos, costuma revezar as agentes que fazem a revista: procedimento inútil. Venho aqui há tanto tempo que sou amiga de todo mundo, nem me revistam mais. Porém hoje a funcionária nova quer que eu deite e abra as pernas, pede com a autoridade de recém-empossada. Ela está toda orgulhosa em seu colete preto, deve ser do tipo que engraxa repetidamente os sapatos e o distintivo. Não me incomodo, passo pelo constrangimento como se fosse uma consulta ginecológica.

Enfim, o portão principal é aberto e o primeiro grupo revistado é liberado para entrar. Voltou a chover forte. A área de visitas fica numa galeria do outro lado do pátio.

Não é permitida a entrada de guarda-chuvas.

 

Herculano Neto nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA). Publicou pela Fundação Casa de Jorge Amado o livro de poesia “Cinema” (Prêmio Braskem Cultura e Arte, 2007) e pela Coleção Cartas Bahianas da Editora P55 o volume de contos “Salvador abaixo de zero”. Organizou a coletânea de contos inspirados em canções de Raul Seixas, “Outro livro na estante”, pela editora Mondrongo; pela mesma editora lançou “A Casa da Árvore” (poesia).

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109ª Leva - 03/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Tom Correia

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Benguela

 

Quando se está preso a um futuro morto perde-se o senso
É impossível anotar com exatidão a passagem do tempo:
Os séculos que conduzem ao exílio sem salvação
Ao desterro compulsório que aniquila
Se há um despertar dos escombros
Não se pode mais compensar as milhões de horas escoadas
Os milhares de dias melancólicos
Febre por respirar coisa morta
Comida arremessada do céu sobre um tronco que navega
Intestinos que se esvaem
Lamentos da costa cada vez mais distante,
Peças desencaixadas para sempre da pangeia original
Corrente subterrânea que faz oscilar
Vidas-dejeto sepultadas em naus fantasmas
Fome e sede amontoadas
Corpos em pus despejados no oceano
Travessia malsã, coleção de moléstias sob ouro e marfim
Tumba flutuante que vomita almas lucrativas
Em portos hostis

A família estrangeira se reunia festivamente etílica ao redor da mesa posta. Havia comida para alimentar um exército, mas em vez de iguaria da terra deles ofereciam algo típico da cidade que os acolhera. Comemoravam o aniversário da matriarca, jovial e de sotaque carregado. Ela não parava de falar sobre os costumes e vantagens do seu país. Os convidados, informais, fingiam interesse. Não se cansavam de elogiar a comida, alguns repetindo pratos vigorosos. Para manter as panelas sempre cheias, a anfitriã sumia por alguns minutos e logo depois retornava carregando porções fumegantes em utensílios inox.

Eu conhecia bem o local da festa, a casa ampla e avarandada que trazia em si uma preciosidade: um quintal com árvore e sombra. Quando o patrão me disse o roteiro no dia anterior, quase me denuncio, porém mantive a frieza profissional. Passei a noite em claro, lendo no meu quarto, e imaginei dar uma desculpa por motivo de saúde. Porém, faltar ao trabalho daquela forma teria sido indigno. Quando chegamos, confirmei o meu eterno estado de invisibilidade em certos ambientes, especialmente quando estou de uniforme. Sentei a um canto para observar os atores principais. Efusivas, as pessoas andavam de um lado para o outro segurando pratinho e copinho cheios. Talheres caíam no piso produzindo o som metálico que trinca os dentes e arrepia o braço. Também havia cerveja barata e cachaça artesanal. A primeira circulava sem limites; a outra, servida a conta-gotas. Os filhos da aniversariante mantinham distância. Comiam pouco e não bebiam. As breves conversas não envolviam histórias engraçadas de infância. O relógio era consultado a intervalos cada vez mais curtos.

“Mas onde a senhora aprendeu a fazer tão bem nossa comida?”, alguém perguntou a certa altura. “Ah, filho meu, isto é segredo”, disse sorrindo. “E depois de tanto tempo aqui a senhora ainda sente saudades da sua terra?”, outro perguntou. “Sinto… É tanta falta que às vezes penso que voy a morrer sufocada. Só vim pra cá porque não tive outra saída, me arrastaron sem me perguntar nada. Quando me desperté estava enfiada dentro de uma lata velha que quase afunda”, respondeu, enquanto se dirigia saltitante em direção à cozinha. Devido ao álcool, todos riram. Menos eu.

*  *  *

Eu não era dono do meu tempo. Tinha de esperar quando quisessem ir. Sentei no sofá pra ver um pouco de tevê. A comida pesada me fez cochilar, mesmo com a gritaria histérica. Sonho: eu e Debrê tomávamos cravinho num boteco próximo ao Parafuso, na Conceição. A gente bebia e jogava dominó, enquanto ele explicava a mudança de ramo, que arte não tinha futuro e seus quadros estavam todos encalhados. Resolveu abrir uma agência de cordeiros e uma construtora de camarotes para o Entrudo. Ele bebia várias doses e permanecia sóbrio, enquanto eu tinha a visão cada vez mais embaçada. Eu perdia todas as partidas sem conseguir dar nem mesmo um passe. Também, pudera. Ele pintava as pedras. No meio do jogo, Debrê atendeu a uma ligação do sócio. “Era o Rugendas, tá vindo pra cá”, disse ao desligar o aparelho. “Não vai demorar”, ele levantou-se e anunciou eufórico, “pra esta cidade ser tomada por hordas de imbecis dispostos a pagar fortunas pra pular atrás de qualquer geringonça bem barulhenta. É um filão que precisamos explorar logo, entende, meu nobre?! A flutuação cambial no mercado de idiotas e espertos está favorável e temos de aproveitar. Hoje, um tolo vale cinco virtuosos, porém você não faz ideia de onde isso vai parar, meu bom rapaz!” Quando ele piscou para mim, levantando outra dose de cravinho com a mão esquerda, acordei.

As pessoas falavam cada vez mais alto. Alguns assistiam a um jogo sem importância, um desses esportes de praia inventados pelos departamentos de marketing dos bancos estatais. Ouvi barulho de copo quebrado em algum lugar vago da residência e fui procurar o meu banheiro. Passei pela fila de mulheres contorcendo as pernas e cheguei ao quintal vazio pra regar rapidamente a árvore, uma das minhas mais remotas lembranças infantis. Notei o mesmo casebre atrás de um muro de plantas, a fumaça branca saindo por uma chaminé de metal no teto da construção. O cheiro não podia ser confundido, não por mim. Antes mesmo de saber onde seria o tal almoço, uma coincidência desconcertante, eu já ensaiava uma visita.

Fui me aproximando e empurrei a porta entreaberta. Ela estava de cócoras, soprando as brasas de um fogão feito de tijolos e pedaços de pau. Eu conhecia bem a fonte da comilança na casa-grande: um centenário panelão de barro coberto de fuligem que eu lavava todo sábado. Uma tarefa detestável. Quando me viu, levantou-se, limpando a mão no vestido roto. Parecia esperar eu pedir algo. Estava descalça e sua pele azul de tão retinta exibia pequenos pontos de suor estático. Cabelos desgrenhados como palhas de aço, massa disforme e espessa repuxada a fórceps. O fundo branco dos grandes olhos contrastava com o sorriso feito só de gengivas roxas. Ficamos assim, um procurando no outro mudança e permanência. Ela tocou meu rosto e ia falar alguma coisa, mas percebeu uma movimentação. “Eita, que lá evém minha patroa…”, estalou a língua e apressou-se em voltar a mexer na panela. Tive de ser rápido pra achar um vão que me mantivesse oculto. Uma encheu os vasilhames e saiu; a outra respirou fundo e se sentou no chão de terra batida, recostando-se à parede. Perguntei se ela precisava de alguma coisa, mas a mulher permaneceu alheia, de cabeça baixa, dividida entre lavar os pratos numa bacia e manter o fogo aceso. Várias vezes pensei em levá-la comigo. Teria sido um grande erro. Além disso, ela queria ficar só. Eu também.

Quando retornei, o pessoal acompanhava a música aos berros. Dei uma olhada no banheiro imundo. Eu sabia quem limparia tudo mais tarde. Evitei colaborar com a sujeira. A anfitriã estava meio anestesiada, devia ser o cansaço. Assistia a tudo com um rosto oleoso, incapaz de esboçar reprovação. Improvisaram um bloco carnavalesco no meio da sala, subindo nos estofados e rindo de tudo, até um deles chegar com a má notícia: a bebida terminara. Sob protesto, foram se recompondo, chaves de carros sendo recolhidas uma a uma. Também tive de sair, porém não podia deixar meu patrão ali naquele estado alcoólico. Fui obrigado a carregá-lo, ajeitando seu corpanzil no banco de trás. Tirei seus sapatos e meias, guardei sua carteira de cédulas e óculos no porta-luvas.

No dia seguinte, ainda trazia comigo as imagens do encontro. Caminhando pelo Vale de Nazaré, vi uma aglomeração ao redor de um caixote de papelão. As pessoas apostavam para descobrir sob qual das três tampinhas um sujeito escondia uma bola de plástico. Nervosos, homens e mulheres exibiam as cédulas que desejavam multiplicar facilmente. Tentei identificar golpistas e vítimas, mas todos eram iguais em suas ambições e trapaças. Recordei o sonho com Debrê. Existem infinitos meios de explorar o mercado de idiotas nos tempos de hoje. Eu tinha vergonha de pegar minha parte do lucro. Quase todos os anos vividos nos subterrâneos de um quarto minúsculo só foram dissipados com uma carteira de motorista, alforria conseguida a muito custo, só eu sei.

Nada mais era importante. A não ser o fato de eu sentir um aperto no peito toda vez que eu via o nome daquela negra na parte de trás do meu RG. Somente o nome dela, carregando nas costas cansadas o branco da outra linha vazia nos meus dados de filiação.

Tom Correia nasceu em Salvador. Jornalista, iniciou a carreira literária em 2002, quando ganhou o Prêmio Braskem com Memorial dos medíocres. Publicou Sob um céu de gris profundo (2011) e participou das coletâneas As baianas (2012) e 82: Uma copa, quinze histórias (2013). Integrou ainda a antologia Wir sind bereit (2013), a convite da editora alemã Lettrétage. Em 2014, foi selecionado para o segundo volume de Autores baianos: um panorama, publicação em quatro idiomas promovida pela Secretaria da Cultura e pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2015, lançou Ladeiras, vielas & farrapos e ganhou um prêmio de residência artística para escritores no Instituto Sacatar, Itaparica. A residência proporcionou seu retorno à Fotografia.

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Dedos de Prosa II

Thiago Mourão

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

Tim tim

Deixei minha covardia alimentar-se das decepções; não fui mulher pra te encarar, fazer de ti o homem que eu queria. Na cama e fora. Porque eu adoro quando seguras firme meu quadril e entras em mim, deixando que eu sinta cada milímetro do seu pau enrijecido e babado, num incontrolável desejo de ir além e gozas dentro ou em cima de mim, e, com a cara vermelha, dás um lindo sorriso despencando ao meu lado.

E você me dizia coisas doces no ouvido e me fazia surpresas, me deixando a mulher mais encantada e encantadora do mundo. Ficava segura quando pegavas em minha mão pra atravessar a rua. Assim, atravessaria cegamente qualquer avenida.

Mas meu orgulho não pode ser ferido desta forma, Lelo. Sou, como você chama com seu machismo, descontrolada. Faço qualquer loucura em autodefesa. Mas quando a lucidez do passional volta, Lelo, ela chega como uma ressaca moral sem remédio.

Você era a ponte da felicidade, o problema de todas as razões e a solução de todos meus distúrbios. A cura de feridas antigas, e a abertura da cárie do amor. Duvido se, onde estiver, não sentirá falta das minhas lembranças sobre os horários dos remédios, saber se você tinha lanchado de acordo com o que recomenda uma vida saudável.

E deves, neste exato momento, sentir falta da minha mão acariciando levemente seu braço, suas costas, te dando a certeza que há uma mulher de verdade ao seu lado. Eu sinto saudade da sua pele, dos seus pelos, do cheiro do seu perfume no pescoço.

Mas eu não sou submissa, por mais que ame e por mais que tenha te amado. Eu não aceito certos desmandos, de homem nenhum. Nunca aceitei, Lelo. E olhe que te amei e assim continuo. Tenho meus olhos cheios d´água e não sei exatamente porquê.

Por alguns milésimos, o arrependimento vem e, junto com ele, lágrimas salgadas de derrota, de covardia. Mas, por outros milésimos, penso que foi melhor assim, pra que não haja mais machucado na alma, nem sangue na mão.

Eu não quero fazer deste momento um drama, nem uma comédia, nem uma terapia mórbida, isto não é do meu feitio. Mas, enquanto te falo algumas palavras, meu coração se enche e eu tenho um imenso desejo de que me ouça. Ao menos, uma vez na vida, me ouça, Lelo, perceba o mal que você me faz em poucos minutos; em comentários desnecessários; em condenáveis faltas de atitude.

Mas além de tudo, quero muito que saiba de uma coisa: você vai estar dentro de mim, sempre. Dos meus gestos, da minha cabeça, da minha alma, da minha pele, de tudo que dirá respeito a mim como mulher. Porque assim me fizeste e me tornaste uma dama com seu cavalheirismo e companheirismo. Mas tudo se acaba em segundos.

É o momento de eu olhar seus olhos fechados, descansados, sua expressão de dor, e pensar nos bons tempos, pra achar alguma piedade em meio a esta cratera no meu orgulho. E encontro. Facilmente encontro, Lelo. Encontro bons tempos na nossa história. E tudo isto me faz sorrir. E é um sorriso diferente de todos que já experimentei. Do orgulho de mulher bem amada e o sorriso de mulher bem vingada. Eu vejo um anjo neste momento, que há pouco era um demônio algoz da minha feminilidade.

A saudade virá de tempos em tempos, arrebatadora como um tufão. Mas logo logo algum cavalheiro macho dará mais áurea a meu orgulho feminino e me fará ainda mais mulher, deixando-te apenas como especial. Alguém especial na minha trajetória. E nada mais. Talvez, Lelo, eu nem pense mais em você como homem.

E como sei que estará para sempre dentro de mim, vais ver os homens bonitos com os quais dormirei em Bali. Vais se banhar comigo nas praias paradisíacas, beber drinks com guarda-chuvinhas na borda do copo e azeitona. Se algum dia pensar em você com muito carinho, Lelo, prometo fazer-te a graça que sempre quiseste e deitarei com outra mulher. Que achas?

É estranho não sentir suas mãos acariciando as minhas de volta. Cada passo sem você, pelo menos neste início, vai ser muito estranho, tudo se tornará opaco, vazio… falta seu delicado toque de dedos em minhas mãos agora e falta sua voz em meus ouvidos e seu pau na minha buceta.

Você está quase gelado. Sinto seu dedo duro. O sangue está secando e fazendo uma gosma nojenta e eu esfrego em meu nariz, numa tentativa de colocar pra dentro seu cheiro, seus nutrientes, seus anticorpos – a química que equacionou com a minha e resultou em cumplicidade.

A temperatura do seu corpo alcança meu coração e me traz uma sensação de medo horrorosa. Eu queria de verdade era ficar ao lado do seu corpo pelo resto da minha vida. Mas com você assim, Lelo, sempre quieto e enrijecido. Frio, pra não ferir meu orgulho de mulher.

Não sei se tenho forças pra continuar, não sei se estou mesmo a fim de ver o mar de Bali ou tsunamis da Indonésia sem você fisicamente comigo. Meus desejos estão postos à prova, sendo encurralados, interpelados pelo machismo que carregas.

Eu não vou sozinha pra Bali, Lelo. Eu vou me entregar aqui mesmo. Tenho que engolir o sangue do meu orgulho, respirar fundo e voltar à vida real. Preciso olhar-te nos olhos e encostar minha taça na sua, respondendo-te a nós, selando ainda mais minha condição ao seu lado.

Sinto-me livre nestes pensamentos que insistem em cercar meu universo interno cada vez que vejo seu olhar cínico; sua arrogância machista. Imagino o que o destino teria nos reservado, caso estas cenas de despedidas, que insistem em rondar meu cérebro, fossem reais. Bom, o seu futuro não seria difícil de adivinhar.

Busco em você tudo que não podes me dar.

Então, eu saio destes pensamentos loucos que se fazem e desfazem em segundos da sua arrogância e brindo com você, Lelo.

Meu homem. Meu companheiro.

– Aos dez anos de casados. E que venha a segunda lua de mel.

Bali!

Tim tim.

***

 

 

Dose Fatal

 

Eu havia pedido apenas uma xícara, algo leve, o suficiente para me manter de pé e seguindo adiante, não tinha tempo para marcha ré. Foi meu amigo Grático quem me serviu dizendo que eu tomasse cuidado, pois era uma dose pequena, mas era uma dose forte. Eu falei a ele que estava acostumado com xícaras daquele tamanho e ele me disse que o problema não era a xícara, era a colher. A colher era pequena por demais, bonita até, quase sumia na mão dele antes de me entregar. Eu sorri quando a vi e perguntei que mal algo tão diminuto poderia provocar, até porque quando eu a usasse ela sumiria de vez e junto com o conteúdo da xícara e com a própria xícara, tudo entraria em mim e faria parte de mim, eu absorveria aquilo tudo e manteria meu caráter. Meu amigo riu e disse que não era bem assim porque eu não estava acostumado com a concentração de palavras, letras, ciências, astrologias e orgias que tinha ali naquele recipiente. Na hora, eu levantei a sobrancelha, peguei na colher fazendo-a sumir entre meus dedos e rodei, lentamente, a xícara. Vi aquele emaranhado de dizeres e regras e verdades misturar-se, pronto para encarar meu suco gástrico e meu amigo disse novamente que aquela pitada de matemática poderia me deixar infeliz, mas eu o tranquilizei porque disse que cinco mais cinco era vinte. Mas logo ele ficou nervoso de novo porque quando coloquei a ponta da porcelana na minha boca, ela era tão ácida, que queimou um pouco do meu lábio e meu amigo Grático mandou eu ir mais devagar e eu disse que não tinha tempo para marcha ré nem para paradas muito longas e deveria tomar aquele conteúdo de uma só vez para continuar andando, prosperar e nunca parar. E foi então que tomei a decisão, sem rima nenhuma me atrapalhando, de virar de vez para imaginar aquela acidez, que não tinha tempo para rima, digladiando com a acidez do meu ácido gástrico que chamam de suco, mas me faz mais mal que suco de laranja. E o conteúdo ácido e humano brigaria com meu suco ácido e biológico, transformando-me num homem desumano e cartesiano. Imaginei gregos e troianos, e me vi diferente e foi então que virei a xícara perdendo todo meu lábio, engolindo minha língua, minha acidez e o conteúdo quente que, imediatamente, esfriou-se dentro de mim, deixando-me uma estátua gelada e repleta de acidez, letras, ciências, astronomias, matemáticas e brochadas orgásticas.

Thiago Mourão é redator e escritor. Tem artigos assinados no Brasil Post, Gazeta dos Búzios e Jornal O Globo. Cursou cursos de pré-admissão para o mestrado em Literatura e Escrita Criativa da Harvard Extension School e está com o caminho trancado devido à alta do dólar. É especialista em Divulgação de Ciência pela Fiocruz RJ e é autor do livro Java Jota (ed. Patuá).