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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Dedos de Prosa III

Natalia Borges Polesso

 

ricardolaf
Foto: Ricardo Laf

Wasserkur

Se há motivos, eu queria começar te dizendo que odeio dias de chuva, mas não vou. Dias chuvosos me deixam tão triste que não tenho nem forças para odiar, na verdade, eu só tenho vontade de escrever. Não, vontade não, urgência. Só que acontece de, como hoje, eu estar ilhada em lugares distantes da minha casa, do meu computador, das minhas coisas de escrever, ou impossibilitada de alcançar meu caderninho e minha inspiração. E me dou conta de que estou com os pés encharcados, numa rodoviária, parada de ônibus, rua alagada, pensando em tudo o que eu poderia estar fazendo que não estar molhada. Ao mesmo tempo, se não acontecesse de chover, eu não teria essa vontade tão urgente. Aí eu fico mais triste, porque ouço no rádio a defesa civil falando sobre alagamentos, resgates, desabamentos, famílias perdendo tudo o que mal tinham em casa, bebês quase se afogando dentro do próprio quarto, idosos que enquanto dormiam foram levados pela correnteza e todas essas calamidades que vêm junto nas enxurradas, anunciadas pela voz muito dramática e bem articulada de um locutor. Hoje, especificamente, estou na rodoviária de Porto Alegre, e tu deve entender a implicação de caos nesse fato. Estou ilhada. A média de atraso é de três horas. As estradas estão alagadas e sofrendo interdições intermitentes. Acabo de ver, numa tela ensebada de televisão que a rodovia está parcialmente alagada no sentido Porto Alegre-Canoas, o que significa que não vou para casa tão cedo, por isso, no momento, eu não sei se há algo para gostar em dias de chuva, mas não quero dizer que os odeio.

Eu não gosto do barulho da chuva quando estou nela, nem das vozes que oferecem guarda-chuvas a dez ou cinco reais, esses guarda-chuvas não são honestos e se destroem logo na primeira rajada de vento que quebra na esquina. Eu não gosto do lixo que se acumula mais visivelmente nas calçadas e sarjetas, não gosto das pessoas que caminham com o guarda-chuva aberto sob as marquises, sendo que poderiam dar espaço para quem não tem um, não gosto de carros que avançam sem dar preferência para pedestres ensopados e não gosto do cheiro das pessoas também, especialmente aquelas que fumam, o cheiro de cigarro se potencializa na umidade. Eu odeio cheiro de cigarro, mas eu detesto ainda mais cheiro de cigarro molhado. Eu tinha uma colega que chegava de manhã cedinho na faculdade com o cabelo lavado e cheiro de cigarro. Cada vez que ela se mexia, na minha direção se espalhava uma nuvem meio doce, meio azeda, meio suja talvez com aquele cheiro detestável de cigarro e condicionador de cabelo.

Hoje o dia está especialmente triste, porque amanheceu sem promessa de sol. Sabe quando tu olha para fora e tem certeza das limitações do clima, tem certeza que o céu não vai te presentear com azuis e dourados, tem certeza que tudo o que vai ver é a cor cinza? Pois então, esse é o dia de hoje. Mas eu sempre tento me enganar com alguma coisa boa, como meias secas, almoços ou um programa tosco de televisão. Tomei dois cafés e dois canos hoje e a culpa foi da chuva. Assim como é culpa da chuva que todos os ônibus, que me levariam para casa, passem pelo box de embarque número três sem menção de parar. Acho que fico mais do que três horas por aqui.

Escrevo essas frustrações úmidas nas margens de um jornal.

Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e em derredor, e é difícil para mim, já que sou meio triste naturalmente, digo, não sou uma pessoa alegre, sou engraçada, mas isso é diferente, mesmo quando seca e quente, tenho esse tipo de humor melancólico que dizem combinar mais com dias chuvosos e por isso talvez eu os despreze tanto, por conta das potências. De qualquer maneira, é difícil para mim controlar essa espécie de choro que vem. Na verdade, são só umas lágrimas silenciosas que nem chegam a escorrer até o fim da minha cara, ficam ali paradas, pelas pálpebras e apenas marejam nas bordas. Algumas descem pelos cantos ou avançam pelas bochechas, mas acabam secando antes de fazer a curva final. Não pingam como choro de verdade. Por fora é só uma tristeza baça. O grosso do desânimo com a vida fica dentro, e me cava no coração uma força de melancolia, que eu tento cobrir com outras mentiras. Talvez eu não devesse ter dito isso assim tão meramente, tão explicado, mas é assim que acontece. Tudo o que meus olhos enxergam fica borrado como numa lente que tenta amaciar a realidade, mas não cumpre a fantasia, apenas borra. Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e ao redor, como disse. Talvez eu te entregue esse jornal, talvez eu jogue fora, talvez eu faça um barco e largue sarjeta abaixo até que ele entupa uma boca de lobo.

Tu me disse que em dias de chuva não consegue ficar lendo e bebendo café e eu acrescento, nem fumando cigarros ou esperando encontros fortuitos. Nos dias de chuva, eu existo, porque não posso não fazê-lo. Não quero morrer num dia de chuva. Não posso morrer em todos os dias de chuva e voltar apenas nos dias de tempo seco, nos quais os pés estão sempre quentes. Então eu imagino.

Eu imagino que em dias de chuva tu pensa no desenho que o parquet faz no chão da sala de aula e de longe ouve a voz monótona do professor, imagino que deseja estar mergulhada, imersa nas poças que se formam caudalosas lá fora, ou talvez, num bloco de chuva espessa que cai de uma só gorda nuvem, uma tromba d’água. Eu imagino que o professor fala de wasserkur, e tu perde o fim da frase, porque se distraiu com a vidraça, mas sabe que a frase era sobre arte e transitoriedade. Pensa. Não existe. Te imagino numa conversa sobre dentes e paredes.

Eu me sinto triste quando longe de ti, mas hoje, mesmo mais perto, continuo me sentindo triste. Eu não sei se é culpa da chuva agora, deve ser ainda. Mas por um momento me passa pela cabeça que tu mandou chover no nosso encontro. Eu sou meio desconfiada mesmo. Mais ainda quando sinto sono e dor de cabeça, talvez por isso o pessimismo todo e a desconfiança. É que eu passei a noite em claro pensando se nos veríamos e tive vontade de te encontrar porque gosto de ti como se há muito fizesse parte de mim. E a minha preocupação é criar um amor no espaço dessa distância que hoje, por conta da chuva, não se comprimiu. Agora eu olho para o chão embarrado da rodoviária sem ideia de como farei isso. Eu sei que essas coisas acontecem, talvez já estejam acontecendo. Eu não quero te proteger de nada, mas não quero que nada de ruim aconteça com teus dentes, como paredes em lugares errados. Só que eu sei que em dias de chuva, com o campo de visão diminuto, a gente pode muito bem dar de cara com algum empecilho, seja buraco, parede ou negativa para convite.

É que essa chuva me atrapalha as urgências. Isso é engraçado, né? Porque, se não fosse a chuva não haveria nem vontade e nem tristeza em potência, e aí está o paradoxo: ao que ela impede, também propicia.

Mais que um lugar seco e silencioso agora, eu queria ter os pés dentro d’água, talvez porque tenha lembrado de longe a voz monocórdia do professor dizendo que isso é um tipo de cura. Pés na água curam ansiedade, gripe e saudade.

Amanhã já é dezembro, depois outro ano e em setembro volta a chover e eu vou ficar sozinha. Então eu tenho vontade de mergulhar para me curar do amor que ainda não tenho e não sentir a saudade que nem existe.

Por isso, eu desisto de ir embora. Vou fazer dessas folhas de jornal um barco e das outras folhas um abrigo. Vou comprar cigarros para fumar debaixo de uma marquise, soprando fumaça nos apressados. Vou encharcar as meias para depois ver meus pés brancos e murchos. Vou inventar razões para amar e odiar a chuva, e o dia de hoje e, talvez, te odiar também. Até te encontrar naquele café que, em todos os dias chuvosos, tu vai para que ninguém te veja lendo e tomando um pingado, porque saberiam que tu mentiu quando disse que não conseguia fazer essas coisas em dias de chuva. E eu, eu vou te desmascarar.

***

 

 

Molotov

Que pena. É uma pena mesmo que esse encontro tenha acontecido assim tarde, assim tão tarde da noite. Já com os copos vazios e as cabeças cheias, que pena. Vai e vem de bilhetes inconsequentes, ou melhor, com consequências trágicas, não fossem patéticas. Essas ninfas, essas musas, essas mentes – torço meus dedos e suspiro pensando no coquetel molotov que veio a propósito de beijo de boa noite. Quando me dei conta, a garrafa já tinha explodido e o quarto pegava fogo – labaredas entre nós – senti os cacos de vidro me cortarem a cara. Abri a boca para respirar, os cacos na minha boca, mastigo. Vidro quente. Lábios, dentes e língua machucados. Fico com a boca cheia de sangue, engulo tudo. Pedaço de dentes, língua, lábio, vidro, gasolina e fogo e tento te alcançar com as pontas dos meus dedos. Tu está queimando. Tua pele arde e teus cabelos tomam um negror de carvão antes de ser brasa. Tu está imóvel, impassível, impenetrável. Vejo um homem surdo que sorri e me estende a mão, e por ser surdo não se afeta nem com o barulho do fogo, nem com o que em mim se faz mais estridente. O homem me abraça, eu me desvencilho, corro na tua direção, enlaço teu corpo que, abrasivo, me faz bolhas. Meu corpo dói inteiro. Sou carne, estou viva.

Natalia Borges Polesso é escritora, professora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. É autora de “Coração a corda” (2015) e “Recortes para álbum de fotografia sem gente”, obra vencedora do Prêmio Açorianos (2013) na categoria contos, e também da tirinha tosca “A Escritora Incompreendida”, publicada via facebook.

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cinthia Kriemler

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

Vigília

 

A velha sentada na varanda suspensa de madeira não mexe mais os olhos para ver o que acontece no chão, cinco metros abaixo. Ela não respira. Para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias nos ouvidos fracos e do tabaco vagabundo dos operários. Ela não está morta. Mas é como se estivesse. E talvez esteja. Não da morte que deita no caixão e põe nas narinas algodões para aparar os fluidos fétidos do corpo. Ela morreu de inexistência. Do dia após dia em que ganhar nunca foi opção. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tesão que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho insano; os filhos que não vingaram na barriga por causa da fome e das doenças; o companheiro que foi embora deixando para ela uma cria doente que mal vingou e quatro tíquetes de refeição que recebeu em pagamento por um serviço de pedreiro. Além dessa cria, que depois virou anjinho, ainda ficou para trás uma solidão que também tinha fome. A única que ela conseguiu nutrir até que os farelos se acabaram.

Inerte na varanda. É assim que ela vive. Na cabeça, um pano encardido para esconder a calvície. E um vestido preto que não é de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos já quase não se abre; e o outro não se importa. Ela não sente nada. Nem alívio. Ao lado, um prato de comida que alguém traz quando pode. Vazio. E uma caneca de água pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que mãos estranhas a banhem numa bacia de água fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabeça no mesmo pano encardido, e a levem de volta à cadeira na varanda. Ela come e bebe porque quer ficar forte para continuar a vigília. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na direção do céu que só existe bem longe. Lá, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a mãe costureira. Gente que a saudade desassossegada nunca deixou partir do pensamento. E vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que só Deus dá. No céu.

***

 

 

Na escuridão não existe cor-de-rosa

 

Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor! —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d’água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez.  Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command!

 

 

***

 

Bonecas

 

Sentada na beira da cama, inexpressiva, ela deixa que ele vista seu corpo com o vestido azul brilhante. O batom vermelho e os cabelos arrumados como os de uma boneca importada são detalhes que ele ajeita com meticulosidade assustadora. Com as mãos trêmulas, ele prossegue, tirando do bolso da camisa um par de brincos pingentes. São caros e já foram usados. Ela não é a primeira. Longe disso. É de meninas como ela que ele sobrevive faz tempo. Muito tempo. Meninas compradas por algum dinheiro, meninas que ninguém quer. Ele quer. Com a obscenidade dos monstros.

Não sente culpa. São elas as culpadas. Os demônios que o fazem desejar e obter. São elas, e seus olhos ainda sem história, e seus corpos ainda sem forma, que o atraem para o pecado. Por isso ele as odeia. Criaturas malignas. Feitas para lançar no inferno homens como ele, que não resistem à pureza.

É um vício caro. Porque ele não repete nenhuma delas. Uma vez tocadas, não servem mais. Mas de onde vem uma, vêm todas. Histórias e histórias que se repetem nas ruas e nas periferias miseráveis. Todos os dias. Meninas oferecidas por pais e parentes em troca de pouco dinheiro. Ou espalhadas por avenidas e portas de cinemas, de teatros, de igrejas, em bandos barulhentos. Ninguém sabe delas. Ninguém quer saber. Ele quer.

Geralmente, o cafetão as entrega num quarto de motel. Mas acontece de ele mesmo ir buscá-las, quando os instintos se descontrolam em urgência. As roupas, no entanto, ele faz questão de escolher. Cada vestido, cada sapato, cada colar ou brinco. Os batons e a maquilagem dos olhos são baratos. Comprados sempre em lojas diferentes, mas com a mesma desculpa: presentes para a esposa. Como se a dele usasse batom barato, maquilagem barata. Como se a dele não fosse tratada a coisas caras. Como se a dele se prestasse às imundícies que ele comete nos motéis. A cadela de luxo que não quer lhe dar filhos. Ela jura que não pode, mas ele sabe que é mentira. Logo ele não é pai. Ele que quer tanto as suas próprias crianças para ninar e pôr para dormir. Para serem só suas.

Faltam apenas as sandálias. Mas ela continua sentada na beira da cama. Esperando. Indefesa como todos os impotentes. Pensando que nas ruas estaria dormindo no chão duro, sem ter o que comer. Que estaria fugindo do cafetão que bate em todas as meninas como ela. Que estaria com frio. Apenas por isso, e por tudo isso, ela acredita que tem sorte de ter sido escolhida. E olha a boneca bonita e sorridente que ele lhe deu. A boneca que é mais cara do que ela. Mais limpa. Mais feliz.

Ele a toca. E ela pensa que talvez seja melhor dormir na rua, com fome, sobre o chão duro forrado com pedaços de papelão das caixas de supermercado, agarrando-se às outras meninas para não sentir frio. Mas também pensa em tudo o que mais quer: a boneca. Tão bonita, tão limpa, tão feliz.

Então, ela se lembra do pequeno presente que as meninas mais velhas lhe deram. Confere, cuidadosamente, sob a língua desacostumada, o aço da gilete. Ele se ajoelha para lhe calçar as sandálias douradas, de salto alto. Assim, os dois na mesma altura, ele lhe parece apenas o que é: um bicho pronto a dar o bote. Um bicho que agora esguicha sangue no vestido azul.

Lentamente, ela começa a tirar aquela roupa suja, mas sempre olhando para ele. Para as mãos que pararam de tocá-la e que agora tentam estancar o sangue que jorra do pescoço. Para os olhos que se desesperam, esbugalhados. Para o corpo que se contorce grotescamente. E os sons da besta em agonia estranhamente a alegram.

Ela não chora. Não pode. A boneca bonita, toda suja de sangue, precisa dela. Coitadinha.

 

 

***

 

 

Bomba suja

Sujos, mortos, frios. Sobre a lama misturada ao sangue, quatro corpos de crianças. Não. Cinco, que vejo agora mais um que se esparrama aos pedaços. Nos rostos, uma paz estranha que não tem em gente grande quando morre. Morreram sem saber, sem pressentir, sem querer, sem poder, sem valer para nenhuma estatística mundial ou para a grande mídia. Morreram de estilhaço, de explosão, de insensatez. Da contabilidade da guerra, que nunca fecha.

E, contudo, estão serenos na morte. Como a dizer que o deus que se chama Alá, Emanuel, Buda, Krishna ou Coisa Nenhuma está com eles. Será? Não esteve. E, se esteve, é fraco esse deus que não vê, não impede, não ergue a mão pesada sobre os poderosos gestores das carnificinas, nem estende a mão-escudo aos homens de boa vontade.

São anjos deitados em fila. Apenas dormindo. Um deles parece sorrir. E talvez seja isso mesmo. Ri de nós que sobramos neste lugar de desconsolos. Ri dos nossos protestos caseiros, das nossas teses distanciadas, dos nossos fracos vômitos de repúdio.

Seriam adultos bonitos, posso ver daqui. Quatro deles. A menina — única em meio aos corpos — cresceria mãe. Essa profissão macabra que engendra e alimenta humanos para depois vê-los cair, cadáveres, sobre a lama remexida pelas bombas sujas. Os três ao seu lado, eu os diria homem santo, agricultor e soldado. Dou-lhes profissão para não os imaginar mendigando pão ou carregando água em vasilhas sobre as cabeças infantes. Disso, já me fartei.

O homem santo ensinará aos outros que ter virtudes neste mundo garante apenas o próximo. O agricultor contará aos outros que não conhece o gosto do alimento que produz. O soldado mostrará a eles que a blindagem antiminas do moderno Al-Zarar que conduz é a única fé que o satisfaz.

Para a quinta criança não tenho profissão. Nem palpite. É um menino — conta alguém que o reconhece não sei como. E permanece lá, multiplicado pela lama ensanguentada. Sem rosto sereno, sem rosto algum. Apenas um futuro estilhaçado em pedaços de carne imolada. Ele me lembra o cordeiro em sacrifício, morto em honra do deus que se zanga e vira as costas e se esquece de ser mais pai que senhor.

Sigo a trilha abjeta daquele corpo de criança explodido pela bomba suja e ensurdeço meus ouvidos aos lamentos das mulheres que choram em ódio e incompreensão. Elas não me interessam. São, como tudo o que ainda resta vivo, revolta inútil.

Quero vasculhar o barro fétido. E buscar os olhos da criança enterrada na lama vermelha. Só eles me mostrarão se a dor se leva para o outro lado.

***

 

 

Arremate

Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.

O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.

 

Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É contista. Queria ser poeta. Autora dos livros: Na escuridão não existe cor-de-rosa (2015); Sob os escombros (2014); Do todo que me cerca (2012), todos pela Editora Patuá. E de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Na Amazon Brasil, mantêm os e-books Atos e omissões e Contações. Está em diversas antologias de contos, em algumas poucas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT.

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Cristiano Silva Rato

 

deborah dornellas int
Desenho: Deborah Dornellas

 

Holofotes

As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.

Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.

Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.

Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.

Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.

***

 

 

Trilha sonora

Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifestação. São professores, músicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois ônibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem é mais só o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som portáteis e uma infinidade tecnológica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a violência do Estado. Eu, vamos assim falando, há muito tempo cansei de pedir explicações destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, há muito tempo ocupo isso aqui, a única verdade, acredito, estas veias que pulsam.

De repente o tempo não era mais… Há alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, à revelia no poste à minha frente. Em seguida cambaleio até o Fórmula 1. Não sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psicanálise clássica. Seu grupo. A música é a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento mágico. Há sempre um compasso, uma cadência, uma levada, mesmo quando nós… Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em papéis descartáveis, leve fantasia de uma criança sendo arrastada pela mãe, pela tarde. O medo.

Me surpreendi aquela manhã. Ouvi rumores. Mega manifestações em São Paulo, não achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energético, vandalístico, vivo. Por aí vai. Creio, até, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espaço que sobra, os pés tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, três, não consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multidão. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba…

Mais um… engrosso o caldo desse feijão… tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoroço pela manhã? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, polícia para todo o lado. A praça. Aquela manhã não. Apareceram uns “bombadinhos”, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. Filha da puta! Pensei. Em manifestação tem de tudo, até caso de possessão, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.

Não querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Tropeço e erro a nota caída ao chão. Sorrio bem alto. Há uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consciência quando queimo. Não deixo escapar o barril de minhas mãos. Álcool. Amargo, adoçando o fogo cristalino de séculos de abandono. Eu. Nunca estive tão só. Uma moça de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, realçando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu pé. Carrega um cartaz. Me olha com desdém, como se tivesse pisado em merda. Pegue minha mão. Pois a casa está quente garota. Me deixe levá-la para dançar. A casa está quente, baby. Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. A casa está quente. Todas as calças são iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multidão.

Relação mais próxima com a praça, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artesãos de rua, ou hippies, e/ou micróbios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma controlável, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de… “Traz logo a cerveja pô”. Como ia dizendo, maluco… A cidade é mesmo algo insondável, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na praça sete de setembro, em junho, foi um hospício. O que teve de notícia, de branquinho voando para o exterior, não cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito até com papel higiênico. Acho que até vi alguém vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, né? Quando aquele povo todo começou a andar em uma direção, pensei umas duas, três, e por aí vai, se ia ou não com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, violão, pandeiro, apito…

Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. Fé. Tudo misturado. E alguém, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, não escondo o volume crescendo. Meu escárnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei Sing Sing Sing, em homenagem ao seu belo sorriso… sua luta… e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia… perde… a alegria… entra tristeza. O sentido do domínio. A alegria. Deixamos de sonhar… ou sonhamos demais? É preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa não está para alegrias anunciadas. Ela adentra a multidão, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irmão, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria difícil para um químico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.

 

Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a infância em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de Fátima); a adolescência em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ruína II (V. Primavera), em Ibirité, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, também na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lançado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Claudio Parreira

 

deborahdornellasi
Desenho: Deborah Dornellas

 

RACIONAMENTO

Estão racionando as minhas palavras.

Sim, Eles estão.

Tenho notado isso; a minha fala está cada vez mais pobre. A minha escrita também.

E isso não me surpreende: diante das circunstâncias, acho até natural.

Eu vejo TV, leio jornal, acesso as redes. Só não percebe quem não quer.

Eu não queria perceber; não era meu interesse entrar em conflito com Eles. Não é.

Tanto que só gritei quando a primeira palavra me foi subtraída. Um grito rouco, doloroso. Mas foi só. Não quero problemas.

Não sei como será amanhã — porque Eles estão em toda parte. Agora ainda mais.

Estas palavras, portanto, são importantes.

Podem ser as últimas.

***

 

 

 

TEORIA NA PRÁTICA

A coisa toda é bem simples: primeiro o pé direito, depois o esquerdo, um degrau, outro, e assim sucessivamente. Um piscar de olhos e pronto: alto da escada.

Bem simples — mas não pra mim. Faz dez anos que estou diante dessa escada e não consigo subir. Sei a teoria, mas a prática, ó, nem pensar.

Muita gente veio aqui me visitar: cientistas, engenheiros, vagabundos, todos eles me ensinando como é fácil atingir o alto da escada. Fui educado com todos, agradeci pela generosidade — mas sempre sinto vontade de mandá-los todos à merda: o que acham de mim? Que eu sou um idiota? Não, não, conheço a teoria melhor que todos eles. Só não me entendo direito é com a prática.

Dez anos. Onze, acho. Doze. Imóvel diante dos degraus. São Eles, é claro, são Eles que me impedem de subir. Não é nada surpreendente: Eles sempre fazem isso, basta um sujeito demonstrar conhecimento suficiente e Eles vêm atrapalhar. Tem sido assim desde sempre; Eles sabem e eu sei.

Já vi outros subindo essa mesma escada. Outros nem tão capazes quanto eu. Muitos não sabem sequer a teoria. Mas estão lá no alto, sorridentes e felizes como eu jamais serei. Sim, jamais. Eu, que sei que a teoria, na prática, é outra.

 

 

 

***

 

 

 

A GRANDE FOGUEIRA

Não era possível mais comer, onde é que já se viu? A água estava racionada. Oferta grande só mesmo a de oxigênio — mas por quanto tempo ainda?

Tudo dependia do Ministério. Da vontade do Ministério.

Do abençoado Ministério que ainda permitia, pelo menos, filmes & livros.

Mas um dia, é claro, o alto escalão do Ministério se reuniu e os homens, austeros, chegaram à conclusão de que filmes & livros poderiam causar grandes danos à ordem e aos bons costumes.

A grande fogueira de livros & filmes durou exatos 70 dias, ao fim dos quais a população, aliviada, agradeceu:

— Graças aos céus temos o Ministério aqui na terra!

O alto escalão sorriu. É claro que sim.

 

***

 

 

 

NADA É O QUE PARECE

Ele chegou ao balcão completamente exausto. Grossos cordões de suor amarelo lhe escorriam pelo rosto, pelo pescoço fino e comprido. O olho direito completamente fora da órbita.

O funcionário do outro lado do balcão sonhava paralelepípedos & centopeias. Seus dutos auriculares desconectados davam a notícia de que não queria ser incomodado. De jeito nenhum!

Mesmo assim, ele chegou ao balcão completamente esdrúxulo. Grossos fitilhos de suor regular lhe escorriam pela boca, pela língua torta e esburacada. A mão direita completamente entediada.

O funcionário do outro lado do balcão babava lembranças & meteoritos. Seus dutos fonéticos atentos:

— Quiqueres, quiqueres, estranho?

Ele chegou ao balcão completamente. A língua se desenrolou feito um tapete:

— Preciso falar!

O funcionário do balcão levantou a sobrancelha velha e desgastada. Do seu olho dormente escorreu um sentido:

— Já falou.

O funcionário do balcão suspirou tulipas & ornitorrincos. Era sempre assim: uma massa de gente dodecafônica e estropiada. Humpf!

— Próóóóximo!

 

 

 

***

 

 

 

VIDA NOVA

Já estou na terceira vida. Mas nem por isso diminuíram os meus problemas. Basta alguém do Ministério saber que estou de vida nova e tudo vai por água abaixo.

Muitos problemas, sabe como é. Não problemas meus, é bom que fique bem claro; o Ministério está sempre se superando em matéria de inventar problemas que não temos. Foi assim na primeira vida. Tudo se repetiu na segunda.

Esta terceira vida me assombra um pouco. Ainda não descobriram. Mas sei que o mercado negro de vidas está sendo ostensivamente combatido. Por Eles.

Ainda não descobriram. Mas o Ministério, eu sei, tem mil olhos, muitas bocas & braços também. É só uma questão de tempo. E depois, ah!, e depois?

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Tem contos incluídos em diversas coletâneas. É autor, pela Editora Draco, do romance “Gabriel” e também da coletânea de contos “Delirium”, pela Editora Penalux.

 

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107ª Leva - 01/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Kátia Borges

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Escorpião amarelo

 

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus! Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho. Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento. E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos. Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito. Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo. Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.

 

 

 

***

 

 

 

Madrugada do dia dos mortos 

 

Perto da meia noite, veio do nada e deu um chute na porta da casa frágil. Escutei a pancada e cobri a cabeça. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto? Talvez. Quando fez silêncio, arrastei o que restara de mim para fora. “Polícia é assim, não livra a cara da gente nem no Ano Novo”. O homem me puxou pelos braços e foi me empurrando para baixo até me esconder inteiro sob a cama. Vi uma mancha de sangue, uma rolha de champanhe no assoalho, a queda de um projétil. No céu, saraivada de fogos. No dia primeiro, o primeiro de todo o resto, finalmente conferi meu corpo. Intacto. Trêmulo. Pele e ossos.

 

 

 

***

 

 

 

Sui Caedere 

 

E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.

 

 

 

***

 

 

 

O céu da boca

 

Os dentes do meu pai, envolvidos em um guardanapo, roçavam as pontas dos meus dedos sempre que enfiava, esquecido, a mão no bolso. Estava no centro, atrás de um protético que desse jeito na parte superior da dentadura. Fazer uma nova custaria dez vezes mais, mas esse nem era o problema. A questão é que, aos 90, o velho já não conseguiria passar pelo processo de adaptação da boca à prótese sem me enlouquecer completamente. Então, genial como sempre, tive a ideia de encontrar um profissional capaz de restaurar a arcada, reconstituindo a porcelana que eu havia quebrado acidentalmente logo que fiquei responsável pela escovação diária.

Não que eu fosse descuidado com as coisas do velho, entenda. De início, no entanto, confesso que olhava bem pouco o objeto em minhas mãos, limitando-me a fazer movimentos circulares com a escova ensopada em dentifrício, como havia lido em um anúncio de creme dental. Isso, somado à distração habitual, permitiu que a chapa escorregasse algumas vezes na pia do banheiro, danificando a ponta dos incisivos lateral e central. Não eram danos muito visíveis mesmo para quem olhasse meu pai bem de perto. Em nossa família, todos têm bocas pequenas e lábios finos, e a verdade é que ele sorria cada vez menos.

Mas, os danos nas pontas dos incisivos lateral e central, embora pouco visíveis, dificultavam a mastigação, e o desconforto do meu pai era suficiente para justificar a heróica travessia da cidade no inverno. Salvador ao Sol é uma Aldeia Potemkin. Engana britânicos, franceses e prussianos. Sob a chuva, no entanto, todas as suas estruturas parecem se desfazer em papelão. Saltando poças de lama, pulando entre as marquises dos prédios de outro século, eu caçava abrigo da água, movendo com desajeito o corpo magro, projeto inacabado de Shigeru Ban, à cata do consultório de um tal Heráclito Hernandes. Rua Chile, 190.

Ainda há pouco, no táxi que me levara aos solavancos do bairro nobre à parte antiga, comentara com o motorista o fato de o nome do protético ser Heráclito. “O obscuro”, me disse o homem ao volante, como se soubesse um bocado sobre filosofia e dialética. Eu só conhecia o Panta Rei e me inquietava a ideia de que tudo muda e a metáfora das águas e dos rios. Estivera a vida toda obstinado na construção de pontes, pontos fixos de observação e travessia. Tudo sem molhar os pés. “Mas, esta nobre arquitetura demanda grande conhecimento”, ouvi ao descer do carro. Isso eu sei. Demanda pilares e arcos muito sólidos e pedras e madeira de boa qualidade e metal e concreto e partes que são montadas aos poucos como num quebra-cabeça.

Há ainda pontes suspensas, mas isso eu não disse ao taxista. Pontes suspensas que são erguidas bem alto por cabos de aço. Toda vida, meu caro condutor, é apenas técnica.  Tudo demanda grande conhecimento, pensei, já entrando na viela estreita que dá acesso a Avenida Sete de Setembro. Mesmo o mais simples objeto, veja bem. Mesmo a dentadura danificada em meu bolso. Mesmo eu, o nobre, o filho generoso, o herói do velho, hoje frágil, incapaz de limpar os próprios dentes. Pouco restara do homem que conheci forte e macho a me ensinar a ser. A encher de sabão a minha boca para lavar com violência palavrões, nicotina e esperma.  A vida nos moldou, os dois, a foice, como sói acontecer a toda gente. Se há um consolo, este é ser como todos.

Maldita seja a diferença, dizia meu pai em seus ensinamentos sem o dizer. Seja honesto com os honestos e valente com os valentes. Nunca seja apanhado, faça o que fizer. Aos poucos, todas as lições seguiram para o ralo e ele parecia saber. Aquele moço magro e molhado que carregava seus dentes no bolso pelas ruas do centro em busca do consultório do protético era, sobretudo, um fraco. Sim, um fraco. Por mais que em mim ainda residisse a pouca força do velho e sua dinâmica viesse do apoio dos meus braços. Quis o destino que coubesse ao filho maricas cuidar de suas escaras, trocar as fraldas, levar ao banho,  limpar as fezes. Agora, concentre-se, pedi a mim mesmo, devidamente perdido em meio à chuva. Onde, nesta avenida, entro para a Rua Chile?

Apenas siga adiante, disse uma senhora meio curva. E eu segui. Incerto, pelo caminho conhecido desde a infância. Subitamente alterado, tonto. Em algum ponto, na altura do Relógio de São Pedro, senti que algo havia se partido, uma fenda no tempo, e todas as coisas do mundo, como no Aleph de Borges, pareciam espreitar sorrindo. Olhei seus dentes como se examinasse a boca de um animal antes de submetê-lo a grande esforço. E, nela, na boca do centro, enxergasse o escuro formado pelo palato. O céu. Algo apertava meu coração, como se uma grande mão, a grande mão do sofrimento, estalasse todos os seus dedos no céu de chumbo e, ao redor do meu peito, voltasse então a contraí-los. Eu precisava ir, localizar o endereço, achar o protético. Imaginei meu pai, perdido em mutismo e desespero, e me agarrei à expressão murcha de seu rosto por alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos…

 

Kátia Borges é escritora, jornalista, mestre e doutoranda em literatura e cultura pela Ufba e professora. É autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012) e São Selvagem (P55, 2014). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013) e traduzidos para o francês, espanhol, inglês e alemão.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Caio Russo

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Confissão ao pé do caixão

Murmuras: mamãe.

Sonolenta a cabeça em cadência. Tocas aqueles tecidos turquesa. Toga da matriarca.  Tempo teve que desejaste a imobilidade desse superego que bolo de fubá tão bem fazia. Tua vontade era um tanto mais volátil, que fosse dar uma volta por uma semana até a raiva do “Você não vai filha, nem pensar” passar. Folga de filha. Férias da família. Pobre pequena, das Fúrias nada vem que não seja fulminante.

Murmuras: mamãe.

“Se você ficar de mentirinhas vai ver só, venho puxar teu pé de madrugada depois que morrer, ah se venho, faço questão, moleca”. Ria um riso dúbio, danado de delicado. Sabia ser tácita, tênue, torpe e tenra como tu que dela tascou os traços por atavismo. Não consegues derramar lágrimas. Levanta em ti uma confusão, balbúrdia como se de uma ora para outra passaste a sentir em mandarim. Tua mãe ali tensa, num sono nada tranquilo, parecia o ideograma de um rio em coma. Também os trapezistas ao redor, artistas dos sentimentos, como equilibravam bem tormentos, lágrimas caiam num choro compassado, conivente com a morte, morto, consonante ao ambiente. E tu esturricada como tundra gelada.

– Gente, que menina estranha, nem chorando está…

– Meu Deus, perdeu a mãe e parece que nada aconteceu…

– Sempre foi problema essa menina, precisava ver…

– Lembro que dava um trabalho para a mãe dela, nossa…

– Morreu de desgosto…

– Morreu de tanto passar nervoso…

– Infarte, nova como era?

Murmuras: mamãe.

Deslizas por entre as difamações ditas entre dentes. Aproxima-te do caixão e confessas ao ouvido de tua mãe o segredo. Sorri e segue em solilóquio com tua confidente, aquela que cobrirá teus pés noite afora.

Murmuras: mamãe.

***

Releitura de Caravaggio: Narciso em plástico

Ana: esburacas a terra seca ainda que sem unhas

Frio lá fora, sobretudo no imo de ti; espelhavas como uma patinadora sob o lago de vidro; encantavas, teu observar espalhavas em teus esporádicos anseios; trepidavas o olvido de quando embrenhavas nas nódoas de teus rastros náuticos. Quem defronte o espelho? Quem és senão tu no vácuo de ti?  Quem formula essas perguntas? Quem senão a agrilhoada consciência de si, encarcerada numa das tantas salas de tua íntima morada…

Enluarado teu dia é de uma noite imperturbável; num átimo tua face escorrega do congelado espelho, no lugar a vala translúcida da ausência de ti; emoldurada uma diáfana porta ao nada; eras inteiramente nariz, quem organizava tua face senão esse imenso olfato físico, adunco, herança em caídas moedas de um bolso judeu…

Rapinar transbordavas tua arguta inteligência, teu narigão, esse quem impunha tua presença, caneta que assinava o espaço por onde passavas; Lírio da paz, dependurado níveo em teu rosto angular, depois da cirurgia tomou-lhe o lugar essa desenxabida margarida; tiritas a cavar na face um oco de cartilagem, eras inteiramente nariz…

Narciso foste num livre índigo agreste, hoje ninfeia a boiar no estranho licor especular, não afundas, não afundas em ti, soterrada de ficares fora d’água; impressa na tua cara dois ofídicos buracos em catálogos comprados.

Eras nariz.

Toda nariz: respiravas hélio acima das nebulosas: de ora em diante carbono fluente nos escapes dos autos…

***

 

Zoom

Fulgura Ibirapuera no verão: sob verde acobertam asfaltado esgoto: menino lambe prazer absorto em sorvete: favor compensatório do pai no poro: embaixo do músculo fraturada infância: engole difícil: lodoso escuro esôfago.

Caio Russo é escritor, autor do livro “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), pesquisador na área de Estética, História da Arte, Nova Música do século XX e Rugas em Rostos de Velhas. Tece seu tricô numa cadeira de balanço embaixo d’água. É iminente afogado ao longo do tempo em pausa.

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Aden Leonardo

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 Autópsias de flores. Ou por uma causa mortis.

 

Não há flores colhidas que resistam ao sol. Colhidas são a pré-morte. Uma espécie de carimbo “frágil” bem ralo, mal batido numa repartição pública mofada.

Há outras maneiras de deixá-las bem mais mortas. Fazendo confete, carnaval, um segundo de festa com nome polido: homenagem. Sim é possível matar bem mais se você despetalar. Despetalar é autópsia. Descobrir a causa mortis.

Acha que é cuidado colher flor em diagonal nas hastes? É lindo campo de flores programadas para datas? É uma carnificina agendada, meu caro.

Ela floreou meu terreno. Meticulosamente ordenou linhas e talas às hastes. Foi ensinando o caminho reto de ser flor. Flor ensinada: assim pode, assim não pode. Nesse dia você venha, no outro se afaste. Tratou como tempestade uma nuvem banal. Deu uma cobertinha coberta de insegurança. Furos por toda parte. Estufa de calor. Água às vezes.

Adubou, cortou folhas. Fez da flor muito menos que outra. Num dia comercial qualquer vendeu um caminhão bem cheio. Jogou lá como coisa reciclada.

Pela estrada foram as mortes, cada uma com véu branco na cabeça segurando a decadência da leveza.

Única beleza, disse o motorista, como se elas existissem: todas exalam medo silencioso e parecem coração solto.

Toda flor que foi trocada por volta de meio-dia sofre. Quando o telefone tocou e ficou dito “não venha” foi o sol quem cegou e estragou a esperança. Lembrou da sua condução em hastes eretas. Doeu demais ser flor correta.

Foi o sol de meio dia.

 

 

 

***

 

 

 

Dançava na terceira lua cheia do ano.

 

Foi vista andando pela cidade novamente.

Ela que tentou tanto o não, guardando todas as mazelas debaixo das dúvidas já sofridas e escarnecidas. Falou docemente de nenhuma expectativa, querendo sempre o não, o nunca. Aplicou não nascer. Cobriu sua casa com os mantos das benzedeiras. Deu machadadas na porta para o mal colar e ficar.

Dava pena… Dizem que dava pena. Não sei bem. Dançava no vento junto com as sacolinhas plásticas. Abraçava aos sussurros nos muros chapiscados a sua imaginação. Sangrava toda tarde de segunda-feira. Já foi vista à meia noite correndo pela rua. Capturando e bebendo no seu ser a mistura da razão com coisa nenhuma. Foi assunto de dona de casa de cidade pequena. Um boato corria que fazia mensalmente dois vodus com muitas agulhas. Satanicamente dançava na terceira lua cheia do ano. Disse sempre uns berros doidos e roçava seu rosto no chão da dor. Embruteceu sem mais desejos.

Não houve mais luz do dia, nem distração à toa, nem corrida matutina, nem dia de nada, sequer três de janeiro… oito, nada…

Não impediu. Ficou uma pedra no meio de tantas cores, tanto nada jogado fora.

Triste ver hoje sua dança ao som de um bandolim imaginário, recitando a história do limbo humano. Canta ela num lirismo antigo: sua papoula de vícios guardados foi colhida inadvertidamente por um encanto, que tolheu seus sentidos. Queimou-se na poção errada. Morreu aos gritos de pavor.

Sobrevive hoje fazendo reza para tirar brabeza de criança. Ri e conta graça. Como todas as flores, essa mulher foi flor colhida, morta, simplesmente ignorada.

São raras as replantações de flor. Hoje os vales têm capim. Uma armadura leve.

Não acha viver ilusão. Acha ilusão o que vê.

 

 

 

***

 

 

 

Tenho segredos guardados no escaninho da sala 

 

Quis miseravelmente sua ausência. Sombreei meus olhos com cor de quadro negro antigo. Desenhei duas funções de x. Como me decifraria? Está sempre tão longe.

Tenho segredos guardados no escaninho da sala dos professores. Alunos obcecados por pontos planejam copiar as chaves. Mas somente eu tenho as provas.

Sonho aplicar a medonha e fatídica prova final. Escrever bem de vermelho para seus pais verem sua vagabundagem: excesso de faltas. Mas vou te obrigar a ficar horas teimando em resolver. E no fim, bem no fim, quando tocar o sinal, sua súplica será rasgada.

Cada rasgo vai cortar seu coração. A princípio se sentirás injustiçado. Recorrerás aos gritos injuriosos das mais mal amadas das pessoas. Sorrindo sentirei todo rancor dos meus lábios.

Dizendo silenciosamente que foi ausência. Ausência quem matou todas as aulas. De amor. Nenhuma lágrima. Apenas a dura, fria e calculada reprovação de seus atos.

Que cresça em outras bandas. Beba e enlouqueça. Que eu já me cobri no inverno infinito para que nada de bom me aconteça.

 

Aden Leonardo: pessoa engolidora de choros, por isso sofre de derrames por extensos quase todas as noites. Os assuntos que ela escreve referem-se ao enorme mundo à volta de seu umbigo. Adora escrever e fazer andanças, sobe morros e picos. Suspeita que a felicidade é algo tão difícil de alcançar que deve estar no mais alto ponto do Himalaia. Por isso escala em MG e RJ, vai que existem felicidadezinhas nas montanhas menores? Não suspeita que é escritora, é uma atrevida mesmo.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Geraldo Lima

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 REJEITOS, UMA PALAVRA E SUA SINA

 

De repente a palavra REJEITOS, feito um monstro de pesadelo, invadiu nosso sono tranquilo, nossa consciência cansada de batalhas vãs, nosso universo cultural saturado de tudo e nada, nosso cotidiano de uma aflição contínua e mórbida. Veio na enxurrada dos acontecimentos imprevistos e indesejados. Saltou dos manuais técnicos das mineradoras e dos órgãos de fiscalização ambiental, dos calhamaços da legislação brasileira, dos discursos vazios e inoperantes, das páginas amarelecidas de jornais e revistas semanais, para o palco do embate verbal que, pelo menos por enquanto, nos lembra da nossa humanidade e do nosso compromisso com a preservação do planeta.

Então a palavra REJEITOS sempre esteve aí, porém confesso que havia me esquecido da sua existência de coisa nociva e latente, acreditando que uma barragem, por sua musculatura de concreto, rocha e terra, pudesse mantê-la presa ad aeternum. Mas sua presença a partir de agora, sinistra e incômoda, parece-me impossível de ser ignorada, pois sabemos da tragédia que se instala quando ela atinge o pulmão de rios e oceanos.

A palavra REJEITOS camufla em sua semântica as palavras MORTE e DESTRUIÇÃO. Nela a palavra ESTÉRIL encontra um ventre que lhe dá vida e força. É irmã do ESGOTO e da LATRINA. Mistura-se à LAMA em concubinato suspeitíssimo. Não é palavra em que floresçam o sonho e a esperança. No seu espelho opaco não se reflete a “aurora de dedos róseos” de Homero nem o rosto de Diadorim após um dia inteiro de luta e amor inconfesso. Não há limpidez no seu sentido, não há humanidade no seu emprego. Nela cabem coisas como dinheiro e lucro, poder econômico e descaso, exportação e divisas, negócios e frieza, política e corrupção. Nela só não cabem coisas como oxigênio e cardumes de peixe, crianças nadando no remanso e lavadeiras entoando cantos de labor e festa, bichos saciando a sede e humanos se refrescando do calor. Nela não cabe, enfim, a água límpida (doce ou salgada) em que a vida, na sua multiplicidade, cresce em abundância e alegria.  Ela rima (rima pobre, é bem verdade) com DESLEIXO e DEFEITO. Bem poderia ser expulsa de todos os dicionários, mas, em tempos democráticos, não seria de bom-tom uma atitude tão extrema. Então conviveremos com ela, desassossegados sempre? Ou, num gesto de basta, a rejeitamos com tudo que há nela de ferro, alumínio e manganês?

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Um” (romance), “Baque” (contos) e “Tesselário” (minicontos).

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vanessa Maranha

 

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Foto: Sinisia Coni

 

Natal agreste

 

Acuado, o calango magro e comprido rebolou em ligeireza de pavor, riscando o chão de terra batida: hora ruim para errar ali. Fez-se dele caça, o mínimo peru, a porção de carne para aquela noite de Natal.

A guarnição, um punhadinho de vagens de feijão verde debulhadas vagarosamente pelas pequenas mãos de Ednaldo, Ednei e Edmilson – a mãe Lindalva os pusera à cata de véspera, e pedia cuidado para que nenhum grão se perdesse, a bacia de lata como bateia de pequeninas riquezas. Um naco de rapadura seca escondida num vão da taipa, pepita de ouro que adoçaria o desfecho.

Pai não havia, ou, antes, houvera, sem nome nem registro, Lindalva nem saberia dizer. Apenas que eram seus filhos, saídos de si, um tanto barrigudinhos e empoeirados pelas faltas tantas.

Para cada um dos meninos, embrulhadas em chita florida com o requinte do laçarote, duas bolinhas de gude verde-azuladas, gotas de vidro, simulacros de chuva no calorão trincado, desidratada a vida.

Na mesinha solenemente posta, a lamparina de querosene, um círio natalino; o calango magicamente dourado e trinchado para que se lhe borrasse a forma original, sobre cama de farofa branca. Os feijões verdes boiando cozidos numa água rara, muito caprichosamente chegados ao ponto de alguma dignidade – o dia todo vigiara a Lindalva o fogo pouco para que a ceia maturasse em perfeição.

No arremate, a rapadura, picada em cubos, nenhuma lasca de desperdício, de modo a render dois pedaços a cada um – abria mão da sua porção para oferecer os haveres aos filhos em número par, duas bolinhas de presente, dois pedaços de doce, recurso que era um refrigério imaginário, ilusão de abastança, um despiste à miséria, que alguma ilusão nos salva um pouco.

Pôs os meninos a ajudar depois na limpeza dos pratos de ágata lacerada, permitiu-lhes o jogo de gude, bolinhas que à luz da lamparina brilhavam como água abençoada, quicando e lavando a existência seca, até a exaustão lhe espreitar. Então chamou os seus três meninos às redes de dormir, alimentados, não fartos, mas pacificados, numa noite feliz.

 

 

 

***

 

 

 

Marina

Marina, porque é bonito, coisa de mar, a minha mãe me contou, justificando alguma coisa. Eu, substantiva e adjetiva demais. Eu um aposto, enfim. O meu tom é elegíaco.  Paixão me define, muito mais que beleza.  Só fiquei bonita aos vinte e seis anos, quando meus olhos enfim serenaram e adquiriram a expressão de muita coisa vista, quando o rosto perdeu o redondo infantil e rosado mantendo, entretanto, a inocência necessária. Eu mímica e atriz, porque não tinha um outro modo.

Cheguei ao mundo com o susto de quem veio de lugar nenhum carregando coisa alguma, o mesmo espanto de quem vê milhões de instrumentos ao seu redor e sequer sabe dar um passo adiante de si. Com aquele rancor de quem aparece e vê as coisas prontas sem que tivesse tido ao menos a chance de poder escolher participar ou não da feitura delas.

Eu era aquilo que chamam uma existência toda arredondada em si. Uma circunferência em que não havia cantos, não havia desvãos, inexistiam as angulosidades. Eu só era. Só havia. Só estava. Posta no mundo. Chegada à vida aterradora, que acabou me lapidando logo umas farpas e uns nichos dos bem sulcados; daqueles que não sedimentam nunca (tentei uns cimentos inúteis), mas agora eu os quero assim_ valas abertas, abismos sem fim, infernos abissais, por onde sobrevoam moscas de um esverdeado fosforescente para que eu não me esqueça do que está aberto e do que se esvai. Até agora, eu sou tudo isso_ ou enfim, nada disso.

Hoje o espetáculo. Ouço o burburinho dos primeiros espectadores tomando os seus assentos no teatro. Será que vou conseguir? Será que vou conseguir?_ sempre a pergunta rutilante. Ainda há tempo. Olho-me refletida no espelho. Há areia e pedras ancestrais, beleza, há vivência, uma aptidão para o prazer, há capacidade de ternura, há choro nesse rosto.

As lâmpadas emoldurando o espelho do meu camarim ainda não me desnudam e penso, quase ríspida:  o que quer que eu pareça ser, ainda não me tornei ou já deixei de ser. Não me defina nem ilumine, que eu quero sombra para ter contorno.

Vou maquiando lentamente minha face, que deverá parecer alegre em meus desdobramentos todos_ voz de arlequim, o nó na garganta da islâmica, o horror de uma górgona, a sabedoria das encantadoras, fertilidade de deusa minóica, feiúra de Medusa, o riso desdentado de uma andina miserável, leveza de ninfa, a gordura cumulativa de uma alemã calvinista. Catacúmena, casta, divina também eu sou. Dalí, Artaud e Tzara em mil cores na minha cama, _ na cabeceira dela_mimetizando-me em imposturas deliciosas.

Mora em mim a mulher de todas as mulheres, aquela que viveu em todas as outras anteriores a mim. Tenho útero para conceber, tenho seios para amamentar, tenho coração para sentir e uma armadura de aço na aura_ eu também empunho uma espada. E é no próprio seio da minha natureza que caio, quando, de tempos em tempos fico grávida de amores, de ideias, de esperança, porque o que se desfaz será refeito sempre.

Estou impregnada dessa mulher que há milhões de anos me persegue antes mesmo de ter tido a grande coragem de descer das árvores. Sou ainda aquela macaca robusta de tetas caídas que protege a cria entre os braços compridos, ainda aquela que se tiver fome mata os filhotes, aquela que teme e não explica os trovões, minha espinha dorsal ainda carrega uma curva que me aproxima mais do chão que do céu_minha porção primata não me permite grandes voos porque dela trago o medo, estou carimbada pela dor da minha espécie e gênero.

Afundo minhas mandíbulas num pedaço de carne qualquer e sou eu, há milhares de anos, a antropófaga, a hierática egípcia, sou a celta das adivinhações nos lagos, indiana deusa Kali com o encanto de uma flor no Saara, a bruxa perseguida, a fada incendiária, sou qualquer uma, uma Maria ou uma Joana, a ferina gueixa de lábios vermelhos, Xica da Silva em terra de zumbis, sou rainha chinesa sugando um narguillé porque quer vida, Sherazade nos jardins de Alá, sou babilônica prostituta caminhando por Sodoma e Gomorra, óbvia Eva que inevitavelmente abocanha a maçã, santíssima Nossa Senhora, sou assassina Lucrécia Borgia, concubina de Mefisto, domesticada Amélia, matrona italiana, uma troiana, sou a nordestina ressequida com os olhos úmidos da africana mãe que vive em mim. Substância de todas elas. Sou nácar de uma concha do mar feita de restos de estrelas: uma poeirinha cósmica, um quase nada.

Guardo os meus tótens e ritos, invoco aos deuses proteção nos ciclos em que a lua cheia me agita por dentro em caudalosas hemorragias. Nos dias de cio, loba de dentes afiados ardendo de desejo, os instintos derramados espargem mel. Sempre soube que a vida não me trataria bem gratuitamente, por isso aprendi a sorrir quando me atravessavam um punhal nas costas, por essa mesma razão aprendi a decodificar a mensagem de um olhar e a lançar o meu próprio olhar de intenções. A mulher de todas as mulheres me ensinou o feminino sedutoramente macio e próximo, às vezes, fatal. Sei que dessa mulher que mora em mim, suas fraquezas, suas pobrezas, seus pavores, suas forças, suas limitações me acompanharão, para que a minha célula da mulher de todas as mulheres, continue viva em todas as outras que me sucederão nos próximos milhões de anos_ será essa a minha ressurreição.

Giro pelo camarim à espera da centelha, aquilo que de repente me arrebata e puxa pelos cabelos_ um querer ser, um miraculoso tornar-me.

Na penteadeira, as cento e uma marcas de batons, os trinta e três frascos de tonalizantes epidérmicos, a cola para os cílios postiços, os incontáveis vidrinhos de óleo balsâmico para tensões musculares, os vinte e cinco tons de sombras para os olhos, os dois potinhos de purpurina, as quatorze perucas e as duas zibelinas que me constroem na mais imponderável criatura que houver dentro de mim.

Recebo um buquê de magnólias, uma edição amarelada de Gogol e Tchecov reunidos, um bilhetinho de amor, a proposta para um espetáculo Nô, um (ora!) ovo de avestruz embrulhado em celofane azul.

Olho-me mais fundo e começo a esfregar o rosto e lentamente vou me desfazendo ao retirar a maquiagem. Flagro a desconhecida na pele morena, nas linhas, diretrizes que o tempo deu de presente ao meu rosto, as quais, curiosa, vou seguindo e examinando uma a uma na esperança de saber aonde darão. O espelho me ostentando e ultrajando, simultaneamente, ali imóvel, os círios todos ofuscantes do lado de fora, a ribalta à minha espera enquanto me transmuto em outro personagem_ aquele que sempre mas nunca fui. Olho a majestática lagarta que há na crisálida, minhas olheiras dramáticas, minha cabeleira castanha delineando a cabeça.  Nesse assassínio, deviscerando minhas personas, matando-as uma a uma, as máscaras vão se crestando e despedaçando em plena pele, sinto a dor de um parto, dando-me a mim própria à luz.

Não conheço mais o íngreme caminho que terei de percorrer para subir ao tablado. E num clarão, num repente, vejo que não quero ser entendida (entendimento é silêncio dos menos profícuos, amordaçamento que impede a extensão, reticência infrutífera), não quero tampouco o favor de ser compreendida (quem compreende está intimamente contrafeito e quem é compreendido, fadado à compaixão); quero ser sentida. Quero ser respirada. Ah, a divina graça de ser sentida através do que tenho de mais real: a exalação de mim. E através das minhas maiores sutilezas: toda a suave e expressiva dança de um olhar que se prolonga na visão de algo e encomprida-se mais longe e vago, num tentáculo, na captação da coisa vista para dentro de mim.  Sinta esse movimento. E depois a respiração; vai daí a paixão. O contínuo do que se guarda e do que se expulsa.  Paixão é efervescência e viver, um total estremecimento_ finalmente o destino de almas perdidas que ruminaram formas, mastigaram livros, sentiram tanto, inventaram sons, estremeceram músicas, que nunca beberam paz.

Nesse momento sou apenas sangue, ganas e retórica e, toda rosto, como subirei ao palco? Assim? Desnuda? Personas, eu ainda vos imploro! Mas sei que já é tarde demais. Manca, de um só fôlego, numa súbita coragem, piso o tablado. E antes que algo me exclua da ideia de um passo adiante, eu me lanço, tornada absoluta interioridade visível em carne viva sobre o picadeiro.  Os olhares assustados que me recebem_ quase ninguém está realmente preparado para o tapa na cara que é a nudez de um rosto_ insinuam o absurdo da água marinha de que sou feita em terra. Uma voz longínqua dentro de mim sopra que algo se quebrou na suave remissão de uma rosa despedaçada.

Era a minha última e tão primeira vez. Palcos eu ainda pisaria. Outros.

 

Vanessa Maranha participou de diversas antologias de contos, entre elas “+30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira” (Record). Venceu concursos de contos como os da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, o Prêmio Off Flip de Literatura (2012), o Prêmio UFES de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo) com o livro “Quando não somos mais” (EDUFES, 2014) e também o Prêmio Barueri de Literatura com o volume de contos “Oitocentos e sete dias” (Multifoco, 2012). Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 pelo romance “contagem regressiva”.

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Poliana Paiva

 

Arte: Juca Oliveira

 

PERSONA

 

Outro dia conheci uma personagem de Comédia Romântica. Eu, que até hoje só fiz Drama, achei o maior barato conhecer gente diferente, com uma vida assim mais tranquila, um futuro mais garantido e coisa e tal.

O que acho mais curioso nas Comédias Românticas é que, mesmo quando dá uma merda muito grande e o protagonista se fode, nos 10 minutos finais alguém se redime e tudo dá certo. Até meio certo demais, mas, enfim, o fato é que eu conheci essa moça da Comédia Romântica. Ela era muito bonita. Bonita mesmo. Tá certo que ela tinha a cabeça meio grande. Cabeça de quem faz muita dieta. Sabe quando a pessoa vai ficando tão magra que a cabeça vai ficando um pouco grande em relação ao resto do corpo? Pois é. Essa personagem era assim. Cabeçuda. Em outros tempos até poderia chamar atenção, mas, hoje em dia, definitivamente, isso não importa tanto. A pessoa pode tá pobre, pode tá sem amor, pode tá doente, pode até ter caído na malha fina do Imposto de Renda. No entanto, se tiver magra, tudo se ajeita.

Era um domingo, isso eu lembro bem, porque o Aterro tava fechado e todo mundo pedalava com um sorriso de propaganda de margarina. Estávamos nos jardins do MAM. Lembro também que tinha muita gente nadando no trecho entre a Marina da Glória e a Enseada de Botafogo. Todos provavelmente vacinados contra hepatite B.

E não falo de vacina por mania de doença, não. Eu nem tenho como ser hipocondríaca. Até hoje só fiz Drama de Época. E nos Dramas de Época, a realidade é cruel. Personagem que não morre de peste, de infecção, nem de necrose, é minoria. E essa minoria, naturalmente, não tem tempo de ficar obcecada com dieta equilibrada. O buraco é mais embaixo. Se der pra procriar, pra comer e pra trabalhar, o corpo do personagem tá mais que bom.

O caso é que, mesmo sem ser hipocondríaca, acabei perguntando pra essa personagem minha amiga se ela tava se sentindo bem, se queria comer alguma coisa. Afinal, ela tava tão magrinha, que era bom um carboidrato, uma gordura, sei lá. Foi aí que ela sorriu de um jeito meio nervoso e disse que precisava mesmo era de um cigarro.

Nesse momento, do nada, apareceu a Elke Maravilha, dizendo: “- Criança, fumar é feio”.

Até aí eu tava achando tudo normal. Sempre encontro Elke no Leme. Uma fofa. Inteligentíssima. Libertária. Tudo de bom. Daí Elke pega uma canga, senta do nosso lado e pergunta: “- Viu se Painho já chegou?”.

Aí, sim, achei estranho. Pô, Chacrinha morreu tem tempo e Elke é uma das pessoas mais lúcidas que conheço. Foi então que comecei a juntar as peças: primeiro, o povo do sorriso de margarina pedalando. Depois, o pessoal nadando na baía mais imunda do mundo e, agora, Elke perguntando por Chacrinha… Minha espinha gelou e tive a certeza: “Puta merda, tô num sonho!”.

Não sei quanto a vocês, mas eu não curto nada a ideia de passear no sonho dos outros. É sempre dor de cabeça. Sempre. Todo mundo se acha cineasta nessa hora. Todo mundo quer brincar de narrativa, mas ninguém se importa se os personagens estão cansados, com fome ou com vontade de fumar.

Antes que a coisa piorasse, chamei minha amiga num canto e disse: “- Amada, isso é uma cilada. É um sonhozinho de quinta e, se a gente não se ligar, vai ficar aqui por muito tempo aplaudindo pôr do sol. E o pior: sem cigarro e sem bebida, que pelo visto a única droga que esse povo consome é televisão”.

Foi assim que consegui convencer minha mais nova amiga de infância a evadir do sonho alheio. Foi simples: começamos a cantar uma música do Ratos de Porão e fomos convidadas a nos retirar.

De volta à realidade, nos despedimos. Fui protagonizar o nonagésimo remake do “Direito de nascer” e ela foi pro ensaio de “Como perder um homem em dez dias – Parte 3”.

Agora, se fosse pra voltar pra realidade mesmo, essa que vocês encaram todo dia, de metrô cheio, neuroses de gaveta e regulagem de cu alheio, preferia ficar no Aterro, doida de vontade de fumar e ouvindo um bando de neohippie dizendo “gratidão”.

 

 

 

***

 

 

 

THAT´S IT

 

Chegou a hora dessa gente desbocada mostrar seu valor. Falar o que pensa. Desnudar a alma. É preciso mostrar ao mundo quem se é. Porque, de boa, tá cansativo abrir o facebook e receber convite pra curtir evento onde só tem foto tua expondo teus filhos e na legenda escrito “amor maior”. Extenuante também é ir às festinhas que você me convida e ter de responder de hora em hora que nunca engravidei e que isso não faz de mim menos mulher. Chato ter que ficar provando minha feminilidade o tempo todo. O que você quer? Que eu tire a roupa pra exibir minha aparelhagem? Que eu mostre exames ginecológicos? Porque você bem sabe que sou capaz disso.

Quer saber de outra? Poucas coisas são mais constrangedoras do que ouvir como foi lindo o filhinho da sobrinha do teu amigo que foi pajem do casamento da afilhada da tua ex-chefe, que, a propósito, conseguiu engravidar aos cinquenta anos, depois de gastar dois milhões em inseminação. “-Que bom para o casal”, sempre digo, pois acho que, se a pessoa quer, ela tem mais é que fazer, seja filho, bolo de milho ou merda. Tudo é válido. E é exatamente por isso que, apesar de não estar nem um pouco interessada na cotação mercadológica dos produtos infantis, escuto, com o máximo de atenção, discussões acaloradas sobre fraldas, leites em pó e papinhas orgânicas. Pra mim, isso é tolerar o diferente.

Quer ver outra situação que dá preguiça? Seus amigos me perguntando se vou congelar os óvulos. “-Não, não vou!”, respondo sempre horrorizada. Você bem sabe que não congelo nem carne moída. Aliás, cada vez mais penso que, pelo bem do planeta e da humanidade, carne, pra ser consumida, tem que ser crua, fresca e humana. É, eu gosto de meninos mais jovens. E, sim, tenho uma lista de homens que posso procurar quando quero. Porque dou muito. E sempre. E com vontade. Acredito que é dando que se reflete, que se constrói uma vida melhor, uma pele melhor, um humor melhor.

Outra coisa: se não falo pra tua mulher que te vi no tinder várias vezes dando pinta de solteiro, por que motivo você se sente no direito de vir me catequizar sobre as maravilhas do casamento? Quem é você pra dizer que eu estaria melhor do que estou se estivesse acompanhada de um cara como você? Quem é você pra achar que eu estou encalhada? Encalhada é quem não sai do lugar. Eu, baby, saio. E muito, viu?

Mais uma coisinha: se escrevo o que escrevo e digo o que digo é porque tenho mãos e língua e porque elas não servem só pra fazer as peripécias que fiz com você. Claro que adorava teu corpo nu na minha cama, mas você sempre queria mais, lembra? Mais amor, mais provas, mais privações, mais silêncios. Se nunca te pedi pra sair da lâmpada, como um gênio, nu e cheio de desejos, por que você achou que eu faria isso por você? Não sou sua “Jeannie”. Não tô aqui pra satisfazer tuas vontades. Tô aqui pra ser feliz, pra ser solidária e não pra ficar com raiva de todas as mulheres que você comeu enquanto estava comigo, sempre justificando que as vagabundas eram elas.

Saiba que, desde que nos separamos, li muito, estudei muito e sei muito mais do que você sonhou que eu fosse capaz. Seu problema é achar que só você é capaz. É dar pala pra essa sociedade falocêntrica, machista e misógina, que não acredita que posso ser protagonista da minha vida. Pois, pasme, amoreco, meu roteiro quem tá escrevendo sou eu. Um dia, quando você baixar tua crista, talvez seja capaz de acompanhar minha história, sem achar que tudo que faço está ligado a você, ao seu intelecto, à sua conta bancária, aos seus filhos e à sua incapacidade de dar duas sem tirar de dentro.

Uma vez te disse pra não me provocar, ao que você respondeu, em tom de deboche, cantando uma música da Rita Lee, que dizia: “Por isso não provoque, é cor de rosa choque”. Outro dia lembrei disso e tive vontade de te apresentar outra musa da música brasileira, Karina Buhr, que, no auge da consciência de gênero, costuma dizer: “Cor de rosa é a cabeça do meu pau”.

Essa é pra você parar de me enviar whatsapp em plena madrugada, quando estou sendo feliz com outro. Fique feliz você por eu não estar nesse exato momento encaminhando tua mensagem pra tua mulher.

E saiba, por fim, que o clitóris que ponho na mesa agora nunca mais vai ser teu. Durma com essa.

Pronto, falei.

 

Poliana Paiva é formada em Cinema pela Uff e em Teatro pela Cal. Dirigiu e roteirizou 4 curtas, foi roteirista dos programas de auditório ‘Esquenta’ e ‘Papo de Mallandro’ e, no momento, escreve seu primeiro longa, uma série para tv e uma série pra web. Foi publicada em duas coletâneas de novos autores e selecionada no concurso ‘Poema nos ônibus e nos trens’, promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Fora isso, integrou as exposições ‘Liberte a literatura’ (2012), no Centro Cultural da Justiça Federal e ‘Caneta, Lente e pincel’, no subsolo do Monumento a Estácio de Sá (2013) e no foyeur do MAM (2014).