Desta vez chego sem voltas. Acabo de cortar o parágrafo que abria este conto, a introdução considerável que escrevi para evocar prima Jaci e nossos jogos-meninos. Explicar quem é Jaci, como fomos parar na mesma escola e na mesma casa depois da morte da avó, como isso e como aquilo, até que o miolo das coisas se perca, se esfarele em minhas mãos, desta vez não.
Digo apenas que eu e Jaci, quando crianças, gostávamos muito de cantar, e como perturbávamos demais os semelhantes e dessemelhantes com esse costume que nos arejava a alma, desenvolvemos uma habilidade notável, de modo que nos passeios com a turma do colégio, no ônibus ou metrô, conseguíamos às vezes cantar uma estrofe inteira de boca fechada ou quase, os lábios se movendo de forma imperceptível, o suficiente para a passagem do som, que como um gato se alongando entre grades flanava pelo coletivo, encafifando uns e outros. No final da estrofe, a coisa começava a pegar. A turma se olhava com ares de quem ouviu o galo cantar, sem saber onde. Não haveria, para nós, aplauso mais lisonjeiro. Com a corda toda, passávamos para a segunda estrofe, abusávamos do volume e da sorte, até que o professor se levantava, olhos e dedo em riste, buscando o criminoso. Acabávamos delatados, não pelos colegas, mas por nosso ar de bem cuidada inocência.
Já quando tomávamos o metrô sozinhos, a tática era outra. Buscávamos bancos separados e, com um rápido olhar, decidíamos a música.
Começávamos baixinho, com o trem ainda parado, mas já de portas fechadas. Depois ele partia, ganhava velocidade e nós volume, num crescente, fortíssimo, fortissíssimo, até o máximo, além do máximo. Daí chegávamos à próxima estação, ou ela que chegava a nós, de vez em quando era assim que acontecia.
Com o trem de portas abertas e nós de goela fechada, esperávamos o próximo ato. Nesse momento, que precedia a continuação do jogo, aprimorávamos nossa arte, exercitando em bocca-chiusa a próxima melodia, para que a voz, liberta, fosse de novo o gato que vencendo as grades ganhasse a rua e uma boa farra. Em palavras outras, para que nossa música tocasse o passageiro ao lado que, se portador de bom ouvido, daria um sinal de vida, ou seja, nos olharia de relance, com aquela dissimulação – que nunca enganou ninguém – travestida de bom-tom.
Quando isso acontecia, quando o passageiro ao lado nos olhava de lado, era uma alegria só, porque a ponte estava armada e isso nos franqueava outro estágio do jogo, muito mais arriscado, um pulo no vazio, o contato. Para confirmar a legitimidade do dom musical, ou ao menos auditivo, do passageiro, repetíamos o primeiro estágio… O metrô parava e nós também; o metrô começava a andar e nós começávamos a cantar; o metrô acelerava e nós também; o metrô gritava nos trilhos e nós gritávamos como loucos; e com o coração aos saltos, em contraponto com o ar impassível e a boca-de-siri, recebíamos a resposta: se o passageiro nos olhasse de repente, na nota mais aguda e com indisfarçável estranheza, a confirmação ali estava. O homem tinha ouvidos mesmo. Se não, se abrisse um jornal ou mexesse na carteira ou apenas consultasse o relógio, indicando uma disposição de indiferença… final de jogo.
A dificuldade seguinte resumia-se em controlar o impulso de chutar a canela do pobre idiota, ou gritar um palavrão. Era um parceiro que não valia a pena. E quase não havia nada que nos deprimisse mais.
Agora: se estivéssemos com sorte, se o parceiro chegasse junto – como costumávamos dizer –, mostrando-se mais curioso ainda, aí sim, o jogo decolava, coisa de veteranos, não de principiantes.
Dividíamos esse estágio em sete tempos: 1, entrega-se o intrigado. 2, posicionam-se os palhaços. 3, vamos ver essa esperteza. 4, é mais que certo que o tipo não tira os olhos de nós. 5, que vai fingir-se atento ao geral. 6, menos ao que realmente lhe interessa. 7, porque agora tudo pode acontecer.
Desfechos memoráveis não faltam para coroar os jogos daquele tempo, desde um maestro que nos levou para um coral formado por ex-delinquentes e bancado pelas bibliotecas municipais, com direito a uma bolsa que era quase o que meu pai ganhava nos Correios, até uma encrenca dos diabos, uma dona dizendo que era professora de violino e nós encantados, porque eu sempre quis aprender violino, pinicar aquelas cordas, empunhar aquele arco, seria minha chance, eu pensava, a anos-luz da realidade, mas a mulher só queria nos seduzir, e não estou falando daquela trepadinha rápida, isso aí geralmente me agradava, Jaci não, fazia um drama danado, já eu era tranquilo, a sedução que me arrepiou foi o negócio dos escoteiros, a dona era chefe-não-sei-do-quê, quando dei por mim havia me empulhado um hino pavoroso; com a desculpa das aulas grátis arrancou-me a promessa de que no dia seguinte, às cinco da manhã, eu estaria na praça para hastear a bandeira e prestar juramento, mas acordei a tempo. Já o mesmo não se deu com Jaci, que acabou embarcando na estória a sério, e isso durou meses, com severo prejuízo de nossos jogos a dois, todos eles.
Depois, não vi mais a prima Jaci. É verdade que nos encontrávamos naquelas reuniões de família, todo mundo sabe que quase não há como escapar… Nos encontrávamos, mas não voltamos a nos olhar com aquilo que, para mim, era a mais-valia de nossa infância desperdiçada por tanta aporrinhação da ala séria da família que agora cobrava, de nós, a continuação da novela: tínhamos crescido e pretendíamos o quê? Sempre achei difícil, senão impossível, responder a isso. Eles, não. Pareciam ter certeza do que queriam: que atormentássemos os pequenos com a mesma gana que tinham nos dedicado. Recusei-me e, ao que parece, Jaci também. Nunca nos casamos. E se tivemos filhos foi por aí, fora dos sagrados laços com que as famílias sufocam seus bebês, manufatura de imbecis em franca progressão. Não há como escapar, dizem eles a qualquer sinal de rebeldia, por mais tímido que seja, até que a incansável repetição estabeleça de vez a desesperança, levando a crer que não há porquê. E perder o porquê (assim falou Jaci, num porre de Páscoa) é perder o eixo. Eu não seria tão veemente. Não fui.
Agora, depois de todos esses anos e eternidades, a caminho de um fim que me assusta quase tanto quanto me seduz, um dia ou outro, quando acordo de bom humor, eventualmente esquecido do desconforto e das dores, arrisco uma viagem de metrô e volto a jogar… É verdade que já não sou meticuloso na escolha do parceiro, que me sento em qualquer banco (muitas vezes quase me sentam, porque todo mundo sabe o quanto é insultuoso um velho recusar tamanha gentileza), enfim, não sou mais aquele veterano. Que falta me faz Jaci, alguém a quem piscar um olho. É verdade tudo isso. Mas quem é rei não perde o cetro, o sestro da majestade, ainda sei cantar de peito aberto e boca fechada.
O problema não é esse. O problema é que ninguém liga para um velho cantando no metrô. Nesses tempos de obsolescência programada, ou já em qualquer tempo, não há viagem que sempre dure nem loucura que nunca se acabe.
Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com
A cadência do tempo corrói e aumenta a dor de uma criatura mesmo quando a esvazia. E não adianta o coração bater mais forte, o sangue se derramar, o comprimido mergulhar em um organismo. Quanto mais lenta, mais forte ela se torna. É o processo. É a mecânica. O trucidamento é sua matriz. O útero que a expulsa em milhões de pedaços, em partículas de angústia e de verdades sem amor. E quando tudo isso acontece, quando alguém é escolhido, não há cor que permaneça e não há vida que não exploda em coágulos. E foi, por isso, que no momento em que eles se encontraram no quarto, ele veio correndo até ela com os olhos fixos em um corpo invisível, obcecado pelo reflexo da ausência. E ela, indiferente, não disse nada. Atravessou o espaço, guardando os frascos do sentimento espancado, surda aos movimentos do afeto. Ele parou, surpreso. A mão roçando a cabeça, prevendo as inflexões de uma ruína. Quer tomar um banho? Ela sentou-se na cama. Não tive culpa por essa demora. Só agora liberaram o leito, minha querida. Onde está minha mala?, ela o interrompeu, vasculhando, com os olhos, o ambiente. As paredes se aproximando, perdendo largura, caindo profundas. Irradiando o calor opaco. Transformando os seus restos de fêmea em um concentrado disforme. E ele, ao lado, contínuo, homem ambivalente dos bastidores, estático em sua permanência secundária, incapaz de romper a cena de inércia e desalento. Onde está a minha mala, ela voltou a perguntar, dessa vez, mais alto. Não está vendo o sangue escorrendo por essa roupa horrível? O vermelho revelado na altura do ventre e das coxas. A solidão revelada nas manchas, em seu papel de mãe túmulo, mulher sepultura encarregada de abrir a própria carne e desenterrar, espasmo por espasmo, célula por célula, o filho. Também sinto muito, ele disse, também sintomuito, e, então, encolhendo-se, bombeou uma lágrima e mais outra e mais outra até ela, exausta, deixar-se levar, repousando o sofrimento sobre a água multiplicada, e desdobrando, finalmente, o seu colo destroçado sobre o do marido.
Helena Terra nasceu em Vacaria. Mora em Porto Alegre. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários. Publicou, em 2013, o romance A condição indestrutível de ter sido, pela editora Dublinense. É jornalista e ilustradora.
O travesseiro estofado de carpos e metacarpos tiritava ao movimento do crânio, me obrigando a levantar o tronco, insone. Como que por costume, viro os olhos, esperando que o breu me oferecesse alguma luz que fosse para ver o relógio a minha esquerda. O ponteiro menor permanecia entre os números 4 e 5, enquanto o maior, algo como no 36. O dos segundos, não havia, ou me despistava em sua velocidade. Esse dia haveria de ser uma segunda-feira, nada antes, nada após.
Sem olhar para o chão, evitando a vertigem, pouso os pés nas ossadas que encarpeteavam meu aposento. Ouço o estalar dos mais frágeis enquanto sacudia-os, cavando o chão por debaixo das mandíbulas a mordiscar meus tornozelos. Dou passadas firmes e lentas para não me ferir, e alcanço por fim a mesa. O relógio agora se atraiçoava atrás da nuca, e, como se não houvesse mesmo o ponteiro dos segundos, a engrenagem – podia jurar – não se ouvia.
O sono ainda ofuscava a fome daquele dia ainda não nascido, mas, sem acender as luzes, tateio as tíbias e rádios amontoados na altura de minhas canelas, à procura de algo com que ocupar os dentes. Encontro um fêmur levemente poroso e chupo um restante de cartilagem que se desprendia de sua extremidade.
Abri a primeira gaveta à direita e iniciei a checagem dos relatórios da noite anterior. Era um sem número de casualidades, anulações, aniquilações, espancamentos, mutilações, depredações e mais um tanto de hipotermias, náuseas, vômitos, tremores, cefaleias, mal estar, cansaços, dores musculares, diarreias e outros sintomas inespecíficos a preencher páginas e páginas lidas com um desconforto causado por aquela restolhada que assomava à minha cintura, me perfurando o tecido das calças, beliscando as coxas.
No intuito de libertar minhas pernas do acúmulo de escápulas, quase derrubo minha caneca de leite deitada à mesa. Era uma caneca longa, resistente e impecável, feita com um tipo de cerâmica incomum. Naquela segunda-feira, ela me era perfeita.
Já não sinto mais meus pés. Afogados naqueles restos extintos, não consegui movê-los e nem imaginar-lhes a situação. Minha cama certamente foi tomada pelo ajuntamento que me anavalhava as axilas, tilintando entre si ao mais leve movimento. Salvei os arquivos dentro das gavetas antes que estes fossem também engolidos, e levantei da mesa a inseparável caneca, prontificado a dar o último gole.
Com muita dificuldade sacrifiquei meu queixo e orelhas aos arranhões dos xifoides e sacros que me feriam o pescoço, e olhei novamente para o relógio escondido na bruma. O ponteiro menor, o das horas, se encontrava entre o 4º e o 5º número, enquanto o dos minutos era afogado por fíbulas, talos e mediais. Tive de cuspir alguns trapezoides para libertar minha boca ao derradeiro gole que me descia aos lábios. Com um rápido movimento dos dedos, pude ao menos limpar meus bigodes. A cor do leite se camuflava na cerração, enquanto me queimava a língua. Era negra, e tinha gosto de cinzas.
***
Matéria Assombrada
Acordo sem abrir os olhos. Aquela mão que me sobrevoa a testa e os cabelos tenta desviar-me do sonho anterior. Há como resgatá-lo, mantendo os olhos fechados. De uma carícia tão leve acima das sobrancelhas, não poderia sequer culpá-la, pois há anos não sonho, ou não lembro. Sigo a contar. Tenho uma vantagem em relação a minutos atrás, enquanto dormia. Meio desperto, acalentado por mãos pacientes, atento com clareza à história que se passava em minha cabeça, e posso controlá-la, controlar-me, com cuidado mover cada cor e gesto.
Havia uma ilha, cuja sinuosidade da costa se esticava de um lado a outro sem ceder à sua curvatura de contornos marítimos comuns às ilhas. E mesmo eu, ali pela primeira vez, a sabia ilha, talvez mais que ela. Sabia de sua cabeleira de folhas imitando com o vento o sussurro do mar, desajeitada, e que de seu topo pendiam pessoas, de lá nativos milenares. E olhando em direção a ela, com sua folhagem, com seus galhos colidindo entre si no balanço constante, guerreando espaço no universo acima da areia, tão úteis contra as chuvas, vejo que não rebatem a luz. Uma floresta espessa, mas tão clara quanto o litoral, refratava perfeitamente o sol. Sobre as árvores, não havia sombra.
Lembro-me intruso nesta ilha. Sim, mas não hostil, nem hostilizado pelos nativos. Quando, há cinquent’anos, cheguei aqui, vi do alto, despencando aos mil, os moradores daquele lugar. Aproximaram-se amigáveis, e de seus corpos, como que libertos do arco solar que acima clareava o dia em que cheguei, não possuíam também sombra alguma.
Mas talvez o mais interessante seja o modo como me olharam pela primeira vez. Seus olhos tinham uma cor chamuscada, não a cor baça dos cegos, mas uma queimada, fogueira morta, pela exposição perene durante o dia. Começavam a passear-me em volta, e contornavam cuidadosos a minha sombra indiferente. Uns mais corajosos chegavam muito perto dela, com os pés e as mãos e os olhos e as crianças, mas por medo não a tocavam. Alguns começaram a brincar com ela, pulavam de um lado a outro, enquanto eu ria. Vi alguns mais velhos reprimirem as brincadeiras, e seus olhos sem expressão se abriam inseguros. Minha sombra doía naqueles olhares.
Diferente das aventuras que li quando criança, não fui feito prisioneiro e muito menos fizeram festa pela minha presença. Puxado pelas duas mãos pelos nativos mais jovens, fui acolhido, sim, mas como um amigo mudado pelos anos, suficientemente distante para que qualquer tipo de rancor ou confiança se tivesse dissolvido no tempo. Para eles eu era um ser virgem, de natureza intocada. Eles me levaram por trilhas entrecruzadas na floresta, necessárias apesar da claridade que tonalizava de esmeralda reluzente o teto sobre nós.
Não havia palavras de agradecimento. Havia descoberto muito cedo que não havia palavra sequer por ali. Tive que adequar meus pensamentos aos gestos com os quais eles me envolviam durante os dias e as noites, enquanto as horas passavam, e eles passeavam a minha volta, numa ciranda lenta, comandada pelo sol, girando a minha sombra e consequentemente, eles. Queria falar para eles sobre o tempo, mas não pude.
Assustavam-se quando ela mudava de tamanho, se afinava e esticava quando o sol nascia ou se punha, e enfraquecia nas noites de lua. Pude jurar uma saudade naqueles olhos, olhando para ela. Via os mais velhos apontando os dedos para a sombra, explicando segredos para os mais novos de olhos curiosos. Perguntas curiosas sobre aqueles assuntos eram constantes, mas não conseguia tradução para os gestos que se seguiam, e permaneci ignorante àquelas histórias. Eu não tinha permissão de entrar nas moradas construídas nas alturas. Eles tinham medo de que minha sombra tocasse seus pertences, e pela primeira vez em vida tive de andar guiando minha sombra pelo tempo e pelo espaço da ilha.
Até o dia em que os mais velhos começaram a ficar sérios. Não frequentavam as histórias que eu gesticulava durante o dia, e começaram a acordar no meio da noite, sobressaltados por visões bizarras e escuras e incômodas. Não durou muito até eles chegarem a alguma resolução em relação a mim, e isto eu já esperava, dada a franqueza daquele povo.
Era final de tarde quando o grupo, representado pelo ancião de nome ingesticulável, iniciou diante de mim um complexo de movimentos, me explicando da forma mais clara e alentadora possível que eu precisava me desfazer da minha sombra. Dei um passo para trás, olhei para ela, para eles, para além das fronteiras de contornos marítimos. E com minhas mãos incipientes à comunicação dos assombrados, perguntei como poderia fazer o que eles me pediam.
Naquele mesmo instante, todos me guiaram até o litoral, de forma que minha sombra me seguia fina e enorme a minha frente, devido ao sol poente às nossas costas. Eles começaram um coro agudo e dissonante que se dissolveu em segundos nos meus ouvidos. O medo me ensurdeceu, meus pés se enterravam na areia, sem querer seguir em frente, a ponta da minha sombra quase a tocar a espuma branca daquele que a engoliria.
Eles colocaram a mão em meus ombros, me olharam enquanto cantavam e minhas lágrimas rolavam e meu peito doía e minhas pernas não mais me obedeciam, automáticas que estavam em direção ao mar. Minha sombra tocou as ondas fracas e calmas que forravam a areia molhada, dispersando os seus limites escuros no abismo. A metade dela já tinha seu destino para além das minhas reflexões, mas não sentia nada senão amor.
Quando senti a água fria nos calcanhares, já era noite, e afora o sopro das ondas e do coro eterno de meus companheiros, um coro que me espantava as memórias, vi centenas de olhos pálidos reluzirem em direção a mim. Todos eles me sorriam com os olhos, em círculo em volta do novo membro.
Mas em incertas manhãs, quando durmo com as marés, distante das árvores, tenho sonhos revestidos de saudade, e chego a sentir uma mão a me acariciar os cabelos, num gesto de calma e segurança. Se esta mão pertence a minha sombra antiga, nunca saberei. Sempre preferi manter os olhos fechados e a dúvida.
Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.
O Sol descansou a cabeça nos seios da noite rosada. As garças levantaram voo e se tornaram negras no âmago de um círculo intensamente amarelo. Quando o amarelo desbotou-se em laranjas, morangos e violetas, o Mar sussurrou seu nome. As garças lançaram-se do mar de cima ao mar de baixo e limparam o negro de suas penas. No interior do mar de baixo outro céu se abriu e era azul como o mar de cima. Um cardume desgarrou-se dos dedos do oceano e foi agarrado pelas presas do vento. O vento levou consigo o perfume das águas até desmanchar-se nas cabeleiras de pedra. E a sombra pousou úmida e fria sobre a cabeça do pescador sentado, à beira do mundo, num torrão de areia, e ele, entregando-se à tarde, adormeceu.
***
O Corte
Éramos 30 homens, 15 mulheres e 12 crianças, espremidos num quarto. O general no dia anterior disse que faria um corte. Cada um especulou quem estaria na lista. Citaram-se nomes, números de identificação. Não sabíamos e a expectativa era atormentadora. 24 horas depois que o general nos tinha avisado, a porta se abriu, era bem cedo. O soldado ordenou a saída apenas das mulheres e dos homens, as crianças ficaram no quarto. Caminhamos até o pátio. O general perguntou a idade de cada um e separou os mais novos dos mais velhos, depois pela data de nascimento a partir do menor número ao maior. De um lado do pátio estavam os homens, do outro as mulheres, divididos entre dois grupos: jovens e idosos. Um soldado aproximou-se do general carregando uma pequena caixa, dentro dela estavam as datas de nascimento de cada um de nós. A mão entrou na caixa e retirou um papel e, em seguida, a voz metálica disse:
– 14.05.56. Dê um passo à frente.
Novamente a mão entrou na caixa.
– 20.09.89. Um passo à frente.
As datas foram: 31.06.75, 20.07.93. 04.08.86, 03.05.94, 12.01.68 e 23.10.80.
Dois soldados puseram-se no meio dos convocados, eram quatro de cada lado.
O general disse: – Hoje vocês receberão o privilégio da compaixão do Estado. Não sofrerão mais. Serão libertados. Abaixem suas cabeças e recebam da Lei e da Justiça o perdão. Vocês serão cortados da lista de culpados.
O 03 abaixou a cabeça, depois o 04, 12, 14, 20, 23 e 31. Passou-se meio minuto e os dois soldados iniciaram o rito do perdão. Os que sobraram voltaram para o quarto à espera de um novo corte.
Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor e crítico literário, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011) e Sr. Bergier & Outras Histórias (contos, 2013). Organizou a antologia Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro (2013). Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE).
Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém a reparava no vestido amarelo imundo. Até quando o café estava ruim as pragas iam todas para a lenha. Rodopiavam no fogo e se desmanchavam na chaminé. Ela era invisível, esquálida e empoeirada. Ratazana completando o grupo que sempre rodeava o fogão quando o calor esmorecia à noite e os sapos coaxavam. Dormia sem perigos no quartinho dos fundos. Nem cadeado precisava. Enquanto batia a mão no vestido para limpá-la e mexer na panela, ainda ouviu o último que saiu da cozinha dizer que Pintassilgo era um fracote de pernas bambas. Dali a pouco voltaria para tomar café e se esconder na aba do chapéu amassado.
Isso não aconteceu. Pintassilgo sumiu três dias e três noites. Apressado, bateu à porta de Mariinha no meio da madrugada. Morrendo de susto, abriu. Ele cheirava mal e pediu para que ela guardasse um saco para ele. Estava pesado e ela o empurrou com o pé para debaixo da cama. Quando voltou para falar com ele, era só breu. Ainda escutou com as orelhas de gato-do-mato um barulho longe nas folhagens das bananeiras cortadas. Ele haveria de voltar e o suspiro saiu pela boca com vontade e ruído. E seria no meio da madrugada, batendo na sua porta com punho de macho. Adormeceu Mariinha sonhando até despertar no dia seguinte com o vestido amarelo surrado, assoprando lenha úmida, difícil de pegar fogo. Não mexeu nadinha no embrulho do Pintassilgo. O que importava para ela era o seu olhar pequeno e preto de passarinho afugentado. Freou o suspiro na garganta. Um sujismundo já pedia café com voz deseducada. O sumiço de Pintassilgo foi assunto que se apagava dia a dia na cozinha. Mariinha não se afligia. Sabia que ele voltaria para pegar o saco pesado. Não contaria a ninguém da visita. Era borboleta mirrada desacreditada. As pragas pulavam as lenhas e se desfaziam no ar com a fumaça escura.
Com a tempestade o dia terminou mais cedo na cozinha. Mariinha sem seu ofício era vela apagada no escuro. Voltou para o quartinho e pôs lata de azeite aparando a goteira perto da porta. Chovia água morna. Deitou na cama dura com os joelhinhos para cima. O vestido ensebado escorregou pelas coxas finas. Pensava nos olhos de passarinho dele. Nem se lembrava do saco escondido debaixo da cama. Cochilou e sonhou com Pintassilgo alisando seus cabelos enfumaçados de lenha. No sonho ela estava mais bonita, mais gorda, antes ainda das tosses e do quartinho frio. Ele abria o saco escondido debaixo da cama, revolvia a terra e tirava de lá um anel dourado grosso. Era para Mariinha. Ela suspirou com força diante dele. O suspiro deu cambalhotas no ar e sumiu como grilo miúdo. Ela sorria um sorriso que vinha com força do peito. Escutou batidas na porta. Abriu os olhos assustados e foi atender. Chutou sem querer a lata de azeite esparramando água. Antes de abrir a porta, ainda escutou um barulho de casco de cavalo. Pintassilgo empurrou a porta e arrastou o saco escondido para a luz do quartinho. Sem nem olhar nos olhos da borboleta, montou no cavalo e saiu sem palavra alguma. Ainda de relance, Mariinha viu a perna grossa de uma mulher vestida de azul. Não ouve barulho de folhagem de bananeira cortada. O suspiro saiu do estômago, espetou o coraçãozinho, e se desmancharia no calor da lenha pelos próximos dias.
***
Ampulheta amarela
Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. A areia fina passou pelo buraco estreito correndo com pernas inacreditáveis. O grisalho apareceu ali e depois. Dentro da cabeça ainda um resto de novas tentativas. Faria tudo outra vez. Ou não. Cada um sabe o que lhe cabe dentro das memórias encardidas. No meio da selva inteira havia resto de compaixão. Um olhar mais fundo, mergulhador sem pés-de-pato.
Cada centímetro da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira já havia sido percorrido em noite em claro. Tentativas inúmeras. Mãos na maçaneta. Mãos à obra. Sair com a roupa de sempre, cruzar a rua e fumar uma porcaria qualquer. Depois, ler de longe as manchetes salobras dos sensacionalistas. Daí, um café sem palavras óbvias sobre sóis ou temporais. Caminhar mais, mais longe, mais fundo, mais depois de quatro ou cinco esquinas. Sentir os pés querendo sentido contrário. Sentindo o coração querendo sentido contrário. Sabe que a mente não fará o contrário. Pedaços de rotina com pedaços de realidade. Realidade chata, necessária, ampla, morna.
Cruzou a última rua sobre o chão zebrado e bem na frente comprou duas dúzias de uma flor amarela que esqueceu o nome logo após ter perguntado. Era preciso salvar o dia, os amores, a azia, os temores. Calado. Voltou e fez o mesmo caminho. Nada de café, fumos ou jornais. Cumprimento rápido pela vizinha de olho vazado. Triste a vida daqueles que a vivem pela metade.
Flores amarelas sobre a fronha amarelada. Sonhos amarelados. Paredes amareladas. Justificativas amareladas. O amarelo tomou a casa inteira por um instante depois de tanto cinza nos cabelos. Dias, dias, mais dias. Mais areia passando pela cintura da ampulheta em forma. Mais dias, dias, dias. Flores amarelas se tornaram cinza-tempo. Tudo ficou de uma cor só. Em vão. Fora do tempo. O homem só acertará o tempo quando se transportar para dentro da ampulheta e sentir a areia inundando seus pés imundos de realidade.
Tarde demais. A fronha apodreceu e dali em diante a esquina inteira da rua perdida. Tarde demais para outras cores, outros vícios, outros entrementes. Tropeçando. Fim da escada.
Muitas areias depois, ele ainda a viu do outro lado da cidade, de vestido azul e presilha no cabelo. Ela estava muito mudada. Rosto mudado. Boca mudada. Perdeu a olhos vistos a cintura de ampulheta. Tão diferente. Tão sem forma. Tão sem a forma do tempo, de corpo de miss. Sentiu-se fora de realidade chata.
Foi ao lugar de sempre tomar café, e aceitou o bate-papo óbvio. Estava tudo tão estranho. O cinza da vida já não incomodava. Era o começo de uma nova fé. De novos estalos mentais. Tarde demais. Ou não.
Quer voltar logo para a casa. Tirar o cheiro de mofo do ar. Se jogar em novos jogos, novas ampulhetas. Os pés ardem há tempos sobre essa areia fina, amarelada, acinzentada, mal vestida e mal falada.
***
Os rios trotam
Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade.
Os rios trotam com patas d’água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peças cinza. Um xale enorme amarelo que sempre estava a secar. Os rios trotam ruidosamente, e talvez nunca soubesse o tom de voz da velhota, com cara de solidão recente. Não tinha luz. Não tinha gás. Tinha chaminé com fumaça embocada da lenha que esquentou o bule de café. Ou de água quente para tantas e tantas infusões. A velha estava agora lavando batatas em uma bacia. Eram muitas batatas para uma pessoa só. O tempo agora estava cinzento, com ar agitado. Segurava a saia com as duas mãos. Maldita chegada do inverno. Hora de regressar.
As pedras dos rios são traiçoeiras. Nem sempre a água as doma. Pé sangrando e dolorido da passada mal dada. A casa ainda a três quilômetros de distância. Pensou na senhora e no chá de hortelã recém-fervido. Queria só observar, mas não tinha jeito. Atravessou mancando o ruído dos cavalos d’água. As janelas cresciam. As cortinas eram roxas, e não azuis. O xale amarelo imenso, com franjas embaraçadas, era uma toalha de mesa surrada. A bacia com as batatas não estava mais do lado de fora. Não sentia medo. Era lembrança de algo. Era cheiro familiar. Engasgou-se ao chamar pela senhora. Não podia confiar tão cegamente na bondade dos dias atuais. Mesmo estando tão longe, em mata limpa e rios caudalosos. Já havia entrado. Estava na cozinha, com o fogão de lenha. Nada de bule, café ou hortelã. Gotas de chuva ecoavam nas telhas ralas. Entrou no quarto da velhota. Na parede um terço pendurado. Nem sentia mais o corte no pé. Sentia moleza, vontade de ficar.
Ficou meia hora ouvindo o estalar da lenha queimando no fogão. De fato, a senhora de lenço xadrez não apareceu. Nem naquela hora. Nem nas seguintes. O calor do fogo é bom quando chega o inverno. A saia verde já não tremia. Naquela cadeira no canto da cozinha permaneceu até a noite chegar. O dia nublado traz lembranças de tantas casas, de tantos rios, de tantas cortinas pequenas.
Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de contos “Espelho Oxidado”, pela Editora Multifoco. Em 2015, lançará seu primeiro romance.
A menina adentra as veredas da adolescência, perfazendo as primeiras noções de olhar o mundo com necessário cuidado. Seu método de observação é, no mínimo, curioso. Deita-se sobre um beiral do terraço do prédio em que morava na maior cidade brasileira e faz com que o corpo, capitaneado pela visão de quem procura detalhes, incline-se a noventa graus. Com isso, intenta ver o oceano urbano explodindo seus signos lá embaixo, além de experimentar o horizonte recortado. Seu mundo idealizado era em preto e branco.
O tempo passa e a menina, hoje mulher, fez questão de levar adiante a sua particular maneira de apreender a luz. Seu nome, Luciana Bignardi. Sua nova morada, Portugal. De lá para cá, pouco mais de duas décadas se passaram e a chama continuou acesa. Com o desenvolvimento do olhar, especialmente marcado por nomes como os de Sebastião Salgado e Cartier Bresson, a escolha da moça pelo ofício de fotógrafa cada vez mais ganhava corpo e certeza.
É o olhar que perscruta a vida quem comanda as ações na trajetória de Luciana. Interessada em transpor as barreiras mais aparentes, ela vislumbra como desafio maior a perspectiva de captar a alma humana da forma menos invasiva possível. Nesse aspecto, o que fica em boa medida é o entrelaçar silencioso de mundos, estreitando distâncias entre observador e observado. Assim, uma pergunta sempre se faz presente: terá a fotógrafa a capacidade de praticar o taciturno pacto do registro sem alterar as esferas íntimas de seus personagens prediletos?
A resposta parece ser positiva, embora saibamos que os olhares que lançamos ao universo de coisas que nos rodeia não são impunes. E não se trata aqui de levar em conta a possibilidade de alteramos o sentido daquilo que vemos a partir de nossas convicções, mas pelo modo como também nos sentimos parte viva do que é apresentado via lentes. Então, ao refletirmos sobre o trabalho de Luciana Bignardi, entendemos também que ela nos mostra um ponto essencial de convergência, no qual criador e criatura são cúmplices duma mesma e complexa existência.
Foto: Luciana Bignardi
Afora as especiais abordagens humanas, as fotografias de Luciana conferem um lugar de destaque para a, digamos assim, geometria dos espaços retratados. Isso fica mais claro quando notamos a maneira através da qual a artista evidencia o caráter urbano de suas observações. Nesse ínterim, flutuam linhas, retas, curvas, sombras e diversos contornos a promover uma verdadeira sugestão de espaços. Mas o que seria tal propósito? Quiçá o de apresentar aos nossos olhos que, para além do concreto embrutecido das cidades, outras dimensões espaciais se operam, podendo estas serem tanto físicas quanto abstratas. O resultado é todo um caminho feito de aspectos também simétricos e dotados de uma significativa sensação de profundidade de campo.
E eis que a natureza também é tida em boa conta no ofício de Luciana. Basta ver o modo como ela nos traz à baila folhas de árvores, que, conforme a própria artista confessa, também fazem parte de um processo de se perceber o que extrapola o meramente visível, entrevendo desenhos nos lapsos deixados por ramos e galhos.
A predileção pelos detalhes é, sem dúvida, um fio condutor da trajetória criativa de Luciana Bignardi. Basta lembrarmos da criança curiosa, mencionada no início do texto, e a deslocarmos para o momento atual. Os ímpetos fundamentais continuam os mesmos: tentar apreender nos interstícios da existência o idioma secreto que abriga simultaneamente pessoas, lugares, coisas e outros seres. Enquanto o olhar avulta o tempo, a sonoridade discreta da vida rege os instantes embalados pela indispensável descoberta do mundo.
Foto: Luciana Bignardi
* As fotografias de Luciana Bignardi integram a galeria e os textos da 94ª Leva
A lembrança sempre começa comigo correndo.
Estou no quintal do sítio dos meus avós, os pais do meu pai, em Petrópolis, correndo em círculo atrás de galinhas.
Zuzuque, uma pequinesa de pelagem amendoada, corre atrás de mim. Era um domingo e meus pais tinham subido a serra cedo para discutir com o meu avô sobre a intendência da loja de sapatos que haviam tomado às rédeas fazia alguns meses.
Os adultos estão no interior do casarão, exceto minha avó que tricoteia numa cadeira de balanço no alpendre, contudo de onde está não consegue me ver.
As galinhas cacarejam alto, em tropel, enquanto fogem de mim. Próximo a um abacateiro, na lateral do casarão, o bando se separa. Muitas se refugiam no galinheiro, que fica nos fundos do quintal, onde o terreno cuidado se transforma em mata fechada. Outras seguem em direção ao casebre que meu avô transformou em oficina. Eu persigo essas.
Zuzuque vem no meu encalço, com suas patas curtas e focinho achatado, tentando morder a bainha da minha calça. Quando passamos por um jacarandá florido, que sombreia e suja o telhado do casebre, percebo que ela parou de me seguir.
Olho para trás, o tempo das galinhas desaparecerem, e a vejo erguida, com as patas dianteiras apoiadas no caule da árvore. Ao me aproximar, ela começa a latir.
Só depois de um tempo que noto a gorda lagarta verde que escala o tronco.
Com todo o esforço que lhe é possível, flexiona o corpo mole e peludo numa maratona incessante em torno da árvore. Zuzuque tenta derrubá-la, mas a larva já está numa altura que não dá o salto. Me aproximo e a examino bem de perto.
Imagino o quanto já percorreu e o quanto ainda vai percorrer para alcançar um galho e completar seu primeiro ciclo de vida. Depois o casulo, o período de pupa e, finalmente, o renascimento metamorfoseada em borboleta. Tenho vontade de esmagá-la.
Exploro o perímetro da sombra da copa e acho uma pedra redonda, maior que a minha mão. Miro e bato com toda a força contra o tronco. A pedrada é violenta o bastante para cortar a lagarta ao meio e respingar o conteúdo viscoso no meu braço. Zuzuque ataca com as garras as partes que caem na grama, ainda animadas.
Neste instante, ouço minha mãe chamar o meu nome e corro para a frente do casarão.
É uma edificação extraordinária de estilo rústico, erguida pelos imigrantes alemães muito antes da construção das fábricas.
A fachada de madeira envelhecida se sustenta sobre pilares de caibro que demarcam toda a extensão do alpendre elevado, circundado por balaústres pintados de verde-musgo que emprestam cor aos patamares da escada e aos beirais que selam o telhado de cerâmica vermelha, de onde emerge a ponta da chaminé branca.
Em ambas as laterais, há janelões de moldura escura, e uma porta estreita nos fundos. Árvores de várias espécies loteiam a propriedade, escoltada por picos e silhuetas ralas de montanhas. Quando chego à frente do casarão, meus pais e meus avós estão próximos ao Chevette marrom, estacionado a poucos metros da sebe podada à meia altura.
Minha mãe ampara o impacto do meu corpo com um abraço providencial, já me envolvendo numa manta de malha, embora seja verão. Carregando uma cesta com sobras do almoço e do lanche (assado de porco, salada de batatas, strudel, gugelhupf), meu pai manda que eu me despeça dos meus avós. Entretanto, eles insistem que passemos a noite, temerosos pelas nuvens carregadas que avançam sobre os montes.
Meu pai recusa o convite, alegando que tem de abrir a loja mais cedo que o habitual, que ainda tem de terminar o balanço da semana, e entramos no carro.
Pelo vidro do porta-malas, eu vejo minguar a imagem de dois velhos preocupados.
Alguns quilômetros depois, no meio da descida da serra, fomos pegos pela tempestade.
De uma hora para a outra, as nuvens inquietantes, que ameaçam o fim de tarde com rugidos ao largo, transformaram tudo ao redor num sorvedouro.
Rajadas furiosas de vento acertavam o carro por todos os lados, munidas com chuva grossa, folhas e galhas que explodiam contra a lataria.
Em velocidade baixíssima, meu pai fixava as mãos no volante tentando controlar a direção, com os faróis altos acionados contra o véu cinzento. Minha mãe, católica, de cabeça baixa pedia proteção para uma medalha de Santa Rita de Cássia.
Circulava uma eletricidade ruim dentro da cabine.
Um medo irradiado pelo mutismo e as respirações nervosas, uma espécie de asfixia.
Com o rosto colado no vidro embaçado, eu não conseguia enxergar nada adiante.
Não era possível distinguir os limites da estreita estrada sem acostamento, as raias das curvas sinuosas. Os únicos indicadores de que não estávamos avançando rumo ao precipício eram os relâmpagos regulares que se refletiam na pista alagada.
De repente um galho grosso acertou em cheio o capô e correu sobre o teto, no curso quebrando um dos braços do limpador de para-brisa.
Tomado de assalto, meu pai freou bruscamente, afrouxando o controle do volante que guinou para a direita. Sem resistência, o carro começou a adernar.
Meu pai lutava para estabilizar as rodas de volta ao eixo, mas era preciso uma força sobre-humana, que naturalmente ele não tinha, de modo algum.
O carro girava, a direção já não detinha comando.
Então, com o peito apoiado no volante e o rosto pressionado de sangue, meu pai começou a gritar para que abríssemos os vidros das janelas.
Todos, rapidamente.
Aterrorizado, agarrei a manivela ao meu lado e comecei a rodá-la com toda energia contida num menino. Não tive chance de reduzir a metade da altura.
O jorro que invadiu a pequena fresta atingiu o centro do meu rosto, me derrubando do banco de trás com agressividade. Com os vidros abertos, o exterior inundado teve permissão de nos atacar com sua voragem, sua extravagância.
Em segundos, a cabine estava encharcada, nós estávamos encharcados.
Destroços do temporal espiralavam por toda a parte parecendo pássaros selvagens presos num espaço apertado, lutando por liberdade.
Minha mãe berrava, horrorizada.
Meu pai berrava, pedindo calma, numa inútil tentativa de combater a impotência.
Eu berrava, deitado de costas no banco de trás. O pavor me fez mijar nas calças.
O irônico é que justamente o vidro que eu não consegui descer acabou funcionando feito um leme, e a pressão do vento detido foi empurrando o carro de volta ao meio da pista.
Com o controle retomado, meu pai arriscou e aumentou a velocidade.
Deslizamos serra abaixo, patinando sem segurança a cada curva, na iminência de batermos num possível deslizamento na estrada. O vale abaixo, inundado pela desclaridade da noite precoce, soprava agouros de garganta aberta.
Foi então que se entremostrou, por trás da parede de água, a silhueta luminosa do posto da polícia rodoviária. Meu pai suspirou, minha mãe agradeceu à santa.
A poucos metros, porém, o carro bateu num bolsão d’água, perdeu o controle e rodopiou.
Um ônibus que vinha atrás não conseguiu desviar a tempo e atingiu o lado do carona.
Com o impacto, eu fui arremessado contra o teto, abrindo um corte fundo na testa. Meu pai teve uma luxação e algumas escoriações. Nada grave.
Minha mãe, por outro lado, ficou presa às ferragens.
A nosso favor, havia uma unidade móvel dos bombeiros estacionada na saída da praça de vistoria e o atendimento foi praticamente imediato.
Outros veículos de pronta-emergência chegaram minutos depois.
Me lembro de estar passando por uma sutura na carroceria aberta da ambulância e divisar, contra a chuva manchada pelas luzes bicolores das sirenes de socorro, minha mãe sob um forte facho amarelado, sendo retirada do carro e transferida para uma maca logo coberta por uma proteção plástica, cingida por um grupo de paramédicos.
Além dos cortes e das concussões, o acidente causou fraturas em ambas as pernas, no braço esquerdo e na mão direita, além de deslocamento da bacia.
Minha mãe passou por cirurgias emergenciais de algumas horas.
Com a reprodução da notícia do acidente, parentes e funcionários da loja correram para o hospital e se prontificaram a doar sangue. A estadia na UTI durou uma semana, depois foram mais seis meses entre total imobilidade e início das atividades fisioterápicas.
Aos domingos, eu e meu pai íamos visitá-la.
E, apesar da saudade, do vazio que se renovava pela casa a cada conclusão de dia, o que mais me feria era vê-la daquele jeito, presa às maquinas, confinada naquele quarto esterilizado de móveis diminutos e um televisor de baixa polegada em preto-e-branco, sabotando sua dor, sua angústia, seu medo, para tentar mostrar interesse pela minha rotina medíocre.
Ela sempre pedia para eu levar as minhas lições escolares, livros de leitura e um saco de balas boneco, que devorávamos à surdina. Nos minutos finais da visita, pedia ao meu pai para ficar sozinha comigo. Aí perguntava sobre a minha semana, se a dinda, que tinha ido morar conosco a fim de auxiliar meu pai a administrar a loja e a vida de um filho pela primeira vez após oito anos, estava agindo correto comigo.
Minha mãe sempre chorava na despedida.
E quando pressionava o meu rosto contra o dela, tatuado de cicatrizes frescas e hematomas, eu sentia o cheiro ferroso do sangue coberto pelo iodo dos curativos.
No domingo em que só se falava sobre o festival de música, meu pai nos surpreendeu e anunciou, ainda na entrada do quarto, que ela iria para casa conosco.
Houve um leve alvoroço, prontamente censurado pela enfermeira de plantão.
Com platina nas duas pernas e o braço imobilizado em gesso, minha mãe saiu empurrada sobre uma cadeira de rodas, que meu pai teve dificuldade de acomodar no porta-malas do carro novo, um Monza Hatch azul-marinho.
Seguimos direto para casa. O percurso foi marcado por um silêncio longo, a tensão por estarmos revivendo a cena pela primeira vez após o acidente.
Fomos recepcionados pelos meus avós, alguns tios e amigos que haviam preparado uma festa de boas-vindas, menos a dinda que tinha ido assistir ao show da Nina Hagen.
Ao chegar, minha mãe pediu que a levasse para uma volta pela casa. Em seguida, fez um breve discurso emocionado, desculpou-se pela indisposição e se recolheu num dos quartos de hóspedes que meu pai adaptou, no primeiro andar, para o seu tratamento.
Durante três meses, minha mãe continuou a se locomover unicamente sobre a cadeira de rodas. A enfermeira vinha todos os dias para lhe dar banho, trocar as camisolas, as roupas de cama, aplicar injeções, fazer os curativos e auxiliar com a fisioterapia.
Nesses instantes, não me era permitido entrar no quarto. Em todo o restante do dia, exceto o período em que estava na escola, passava sentado ou encolhido sobre a beirada do colchão, flanando com ela por lembranças evocadas pelas altas doses de analgésicos, enquanto me afagava a cabeça com a mão sadia.
A recuperação foi lenta e dolorosa. No inverno, as sequelas do acidente ficavam piores e, do meu quarto, no andar de cima, a ouvia gemer durante toda a madrugada.
Meu pai dormia num sofá sem conforto, próximo ao leito. Apesar disso, não abria mão de fazermos o desjejum juntos, ignorando o explícito incômodo da minha mãe por estar suja, fedida, privada da capacidade de pentear os cabelos, corar o rosto, pintar os lábios e as unhas, como gostava, de cores vibrantes.
Mas não era por mal.
E ela sabia que não era por mal. Portanto nunca protestou.
E quando voltou a caminhar com o auxílio de muletas, era ela que não abria mão de tomarmos o café da manhã na cozinha ao invés de, inadequados, ao redor da cama.
Minha mãe queria estar bem, recuperar-se e, em momento algum, mesmo com o corpo governado pelas máquinas hospitalares, hesitou ou esboçou desistência.
Com o máximo de independência que se pode adquirir com um par de muletas, obrigou meu pai a confiá-la toda a contabilidade e as resoluções administrativas da loja. Passava horas no escritório, cuidando dos balanços semanais, dos contatos com os bancos, da comissão dos funcionários e dos telefonemas para os fornecedores.
Sentir-se responsável, útil, retomando de alguma forma as rédeas do negócio, foi recompondo o que estava fraturado e hibernado dentro dela.
Logo pediu para voltar a dormir no quarto de casal, onde meu pai a levava, escada acima sobre os braços todo o fim do dia, e a descia, da mesma forma, todas as manhãs.
Eles tinham uma brincadeira que era só deles.
A visita da enfermeira passou a ser menos regular.
Me recordo de uma manhã, quando me preparava para ir à escola, surpreender-me ao encontrá-la à boca do fogão, fazendo panquecas doces. Sob os primeiros raios de sol que se infiltrava pela fresta das cortinas de plástico, de repente, a redescobri linda.
Então, inesperadamente, voltou a ficar doente.
Um mal-estar acompanhado de febre que foi se agravando severamente dia após dia, ao ponto de voltar para o primeiro andar, depender da assistência integral da enfermeira e de o meu pai chamar de volta a dinda para a casa.
Era como se mantivessem uma criatura naquele quarto que a aterrorizava constantemente.
Gritos ecoavam dali, também do banheiro, gritos ecoavam de toda a casa.
Na manhã do meu aniversário de nove anos, depois de ser amparada até uma cadeira arrumada em frente à mesa da cozinha decorada com um bolo comprado em padaria, minha mãe teve um ataque e foi levada às pressas para um hospital de emergência e não voltou para casa durante algumas semanas.
No mesmo dia, eu fui mandado para a casa dos meus avós em Petrópolis, onde fiquei três meses sem qualquer notícia concreta do estado de saúde dela.
Quando retornei, minha mãe estava em casa, porém eu não podia vê-la ou saber sobre ela. Por mais que implorasse, era definitivamente proibido entrar no quarto.
Um ano e meio após o acidente, meu pai me acordou, com olhos infiltrados de tristeza, e contou que minha mãe havia morrido no andar de baixo, no quarto adaptado para a cura.
E embora ele não tivesse dito naquele momento ou censurado minha suspeita de que tinha sido em decorrência dos cortes, dos ossos quebrados, da criatura dor, a morte da minha mãe foi causada por algo muito pior, que somente me seria contado anos depois.
Faço o caminho para casa a pé. Cinco quadras até a rua residencial, de paralelepípedos, onde desponta o sobrado de dois andares em que nasci, fui criado e vi minha mãe morrer.
Contra o céu de chumbo sem estrelas, a antiga construção se assemelha a uma figura recortada em cartolina e rasurada com carvão.
A escuridão mina da estrutura, inundando a curta distância do portão à varanda, exceto pelo contorno luminoso de uma janela baixa interposta pela porta principal.
É um modelo de assombramento. Algo, à primeira impressão, abandonado, oco, destituído de habitação, caso eu não morasse ali.
Quando minha mãe morreu, tudo que vicejava em sua órbita foi também morrendo aos poucos: os animais, o jardim, os móveis, a casa.
Hoje apenas fantasmas transitam pelos cômodos frios e vazios, presos a um impulso que faz com que reprisem as mesmas intenções.
Eu sou um fantasma e estou preso à memória.
Sinto falta das tardes de sábado. Quando a loja de sapatos funcionava em meio expediente e minha mãe se preservava de acompanhar o meu pai.
O que trago na memória de mais elementar nesses sábados são os acordes. Os primeiros compassos infiltrando-se no sono, puxando-me daquela camada aconchegante com melodias aceleradas que surdiam do andar de baixo da casa.
Eu era um menino de sete, oito anos, e ainda de pijamas, agarrado a um pequeno cobertor com a cabeça do Topo Gigio, descia, sonolento, os degraus da escada, sendo envolvido pelo ritmo alegre que vinha do toca-discos na antessala.
O concerto sempre começava com Beatles, Elvis, depois vinha The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, a ordem em que tinham sido anteriormente guardados os elepês.
Por um tempo, eu ficava estacionado entre o patamar e pórtico apenas sentindo a música energizar meu corpo adormecido, depois cruzava a sala até a cozinha onde sabia que estava minha mãe e seu sorriso radioso.
Minha mãe sempre usava vestido nos sábados, tinha os lábios pintados de vermelho e os cabelos encaracolados arranjados com um lenço, caprichosamente.
Logo que me via, abria os braços e gritava bom-dia como quem saudava a manhã e sua claridade cintilante que invadia as janelas e as portas abertas, revelando as verdadeiras cores dos objetos de decoração, os metais e os espelhos.
A casa tinha som, cor e cheiro.
Pois com a mesa do desjejum ainda posta, minha mãe picava o alho, os tomates e a cebola, crestando o fio de azeite para preparar o molho vermelho que cobriria o espaguete, recendo o ambiente com um aroma único que, se eu fechar os olhos agora, posso sentir rastejando pelo meu rosto.
O barulho do atrito dos pneus do carro subindo o acesso à garagem anunciava a chegada do meu pai, que sempre escondia no bolso um pirulito Zorro para mim.
Era o tempo dele se lavar, e logo estávamos sentados à mesa, comendo sem boas maneiras, contanto que eu não falasse com a boca cheia ou usasse as mãos para pegar a comida.
Meu pai se encarregava de lavar a louça e encher as canecas com vinho, enquanto minha mãe reabastecia o toca-discos e eu subia até o meu quarto para pegar o passatempo com o qual iríamos compartilhar a tarde.
Sentados no chão da sala, em torno da mesa de centro, nos divertíamos com Banco Imobiliário, Jogo da Vida ou Ludo. Meu pai sempre tentava trapacear nos dados, mas minha mãe nos defendia, prontamente empurrando-o com o pé descalço e depois sorrindo com ele desmoronado sobre o tapete, como que atingido fatalmente.
Era comum, quando isso acontecia, pularmos sobre meu pai e nos engalfinhávamos, disputando risadas e cócegas, até ele reagir.
Com presunção de campeã, minha mãe se levantava sacudindo os braços e soprando os indicadores conforme canos de revólveres, em seguida saía para escolher outro elepê, abastecer as canecas e me trazer uma tigela de creme gelado feito em casa.
Acho que, na verdade, ninguém nunca ganhou naqueles jogos.
Já noite, minutos depois de ser acomodado na cama, eu me esgueirava dos lençóis e seguia, na ponta dos pés, até o patamar da escada onde, escondido atrás dos balaústres, ficava ouvindo a fricção dos pés descalços no assoalho da antessala, no andar de baixo.
À meia-luz de um abajur de curta irradiação, meus pais dançavam embalados pela suave melodia de uma orquestra de jazz, dois corpos exaustos e espremidos.
De onde eu me escondia não conseguia vê-los, apenas a projeção de suas sombras alongadas, rodopiando pelo teto do cômodo adjacente feito insetos fascinados pela refulgência.
Agora todos que completavam aquele quadro estão mortos de uma forma ou de outra.
Não há cores ou melodias nos sábados, ou em qualquer outro dia, somente o cheiro rançoso do ar confinado, do desleixo para com a poeira que se condensa numa textura aveludada sobre os móveis e os objetos sem uso, de outros tempos.
A casa foi tomada por sombras.
Planos obscuros que revestem as paredes, as pinturas e os retratos enquadrados, espraiando-se das molduras tal um tipo de vírus incurável.
Um organismo capaz de se multiplicar ante o abandono e a melancolia, deteriorando gradualmente cada espaço com uma substância cinzenta, compacta.
Alguns cômodos, no primeiro andar, já estão intransponíveis, a ponto de a porta sequer abrir. O primeiro andar está perdido, afinal.
No segundo, meu quarto ainda resiste, salvo pelas vibrações que conservei dos objetos e a ternura que eles conservam de mim. Ali estão referências de um tempo em que a casa respirava, vivia. Não mais. A casa morreu conosco dentro ou não existe mais dentro de nós.
Uso a minha chave na porta principal e entro como, se ao cruzar a soleira, não me desse conta e tivesse novamente saído, rumo à noite.
É noite dentro da casa.
Caminho me valendo das silhuetas dos móveis e da configuração familiar. Atravesso o living e avanço pelo corredor estreito, tateando as paredes manchadas por contornos vazios de molduras, até estacionar à beira da escada.
Dali enxergo o facho artificial que foge da antessala, fatiando a escuridão.
Sigo e, à medida que avanço, o silêncio vai sendo quebrado por um rumor infrequente, mecânico, de alguma forma associado à intensidade da luz.
É ele, eu sei.
Encosto no umbral e o vejo pelas costas, estirado no sofá alheio ao televisor que reproduz sua programação impessoal. Tem a cabeça inclinada, coroada pela calvície, dorme. Desde a morte da minha mãe, meu pai se exilou nesse estado dormente, frouxo.
Não teve mais ânimo, emudeceu, passou a apostar nas coisas simples. Ocorre que as coisas simples são as mais terríveis, pois são elas que devoram o tempo. Meu pai é o que restou. Se esqueceu de si e, por conseguinte, se esqueceu de mim, da casa, da loja. Falimos todos.
É irônico como os homens tendem a construir casarões, fábricas, fortalezas, e todos acabam apertados numa mesma caixa de madeira lacrada.
O caixão da minha mãe ficou tampado durante o velório, e algumas pessoas tiveram receio de se aproximar dele. Eu não pude vê-la, dar um beijo de despedida.
A última vez em que vi minha mãe, ela estava com o corpo sugado, coberto por manchas púrpuras e quase sem cabelos, retorcendo-se de dor no chão da cozinha, no dia em que eu completava nove anos.
Meu pai dorme em frente à luz fria do televisor. Sinto a frialdade da sua sombra que passa ao meu lado e se projeta na parede nua atrás de mim.
Fico ali por um tempo, depois me afasto.
No movimento, me recordo do sítio, da sensação inefável da correria. Penso em correr.
Todavia, na escuridão, é inevitável nos movermos lentamente.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Conheci todo tipo de homem no mundo: homem certo, homem torto, homem que come o próprio pé; homens de cabeça quadrada, de olhos líquidos, homens sem coração.
De todos esses aí, o que representa mais perigo é o homem virtuoso: não é difícil vê-lo sacar o dedo indicador como se fosse um revólver e apontá-lo diretamente para o seu nariz, condenando o seu comportamento ou os seus prazeres como se ele, e somente ele, tivesse sido escolhido por Deus em pessoa para purificar de todos os pecados essa abjeta espécie humana — da qual fazemos parte mesmo a contragosto.
Conheço ainda os homens doentes e os tristes, embora ache que são ambos a mesma coisa, um servindo apenas de extensão do outro. De toda a espécie, no entanto, gosto mesmo é dos homens que constroem vento, dos que respiram pássaros e ainda daqueles, mais raros, que desenham unicórnios nas nuvens com pincéis de luz. São os poetas, costumam dizer, e acho que esse nome é mesmo bem adequado.
Homem na garrafa, porém, desse tipo eu nunca tinha visto. Já vi muitos casos de garrafa no homem, que é quando o sujeito bebe quase que com a mesma urgência com que respira. São muitos, e é fácil encontrá-los principalmente nas sextas-feiras à noite, quando o fim do trabalho assinala o tão esperado começo da vida. Mas homem na garrafa… Bem, a primeira vez que eu vi um assim foi em plena avenida, durante o dia. Estava lá sorridente e tranquilo, os olhos bem abertos, a pele toda amarrotada. E um tufo de cabelo avermelhado escapando pela abertura do gargalo. Como sou um sujeito civilizado, vi mas fiz que não, passei como se fosse algo normal, desviei os olhos para os carneiros encaixotados, que hoje são tantos e tão comuns por causa da explosão da natalidade.
Em casa, contei o negócio todo à minha mulher. Ela me olhou bem nos olhos, fez a sua famosa cara de filosofia e disse:
— Grande coisa…
As semanas seguintes, confesso, foram da mais pura agonia. Passei a ver homens em garrafas por todo canto — e eles não eram fruto da minha imaginação: eram todos de carne e osso, pele e vidro, solidez e transparência. Os meus amigos passaram a fazer piada das minhas preocupações:
— Meu, só falta você dizer agora que viu um bode fumando cachimbo!
— Vi dois — falei. — Mas isso não vem ao caso. O que me intriga são os homens em garrafas.
Isso me deu a medida da mentalidade social a que estamos submetidos: as pessoas acreditam em tudo, górgonas passeiam nas ruas sem serem incomodadas, ninfas trepam sob os carros estacionados, Shakespeare e Dostoievski tomam Coca-Cola enquanto discutem o futuro da Internet. Tudo isso é tolerado e tido como comum, e eu acho bom que seja assim. Mas quando o assunto é homem na garrafa, tudo muda.
Com a cabeça cheia de pensamentos, um sabor de tragédia em minha boca, resolvi finalmente tomar uma atitude. Abandonei o escritório, ignorei o elevador e desci pela escada mesmo. Ganhei a rua feito um alucinado, atropelei três ou quatro ornitorrincos e fui até a esquina. Ele estava lá, o primeiro, ainda sorridente e tranquilo, o maldito tufo de cabelo vermelho balançando ao vento. Falei então com autoridade, a voz grave e sombria:
— Como é que você entrou aí?
O homem descolou os olhos do vidro, abriu ainda mais o sorriso e respondeu:
— Não entrei aqui. Foi esta garrafa que me envolveu.
Sou o tipo de homem que precisa saber as coisas. De nada adianta um milagre se eu não puder explicá-lo. Por essas e outras é que fui pra casa feliz, aliviado enfim, os pés chutando tartarugas como quem assobia uma canção.
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A CAIXA
A caixa é pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me sustentado há mais de 20 anos.
Eu faço assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em vermelho, uma frase bem simples: “O que será que tem dentro da caixa?”.
É o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu falo: “Não é fantástico? Nunca vi coisa tão genial dentro de uma caixinha!”.
Com medo de serem consideradas insensíveis a tão refinada manifestação artística, as pessoas todas concordam. Algumas até acrescentam: “É mesmo! O conteúdo da caixa é impressionante!”.
Impressionante são as pessoas, eu diria. Mas isso não vem ao caso agora.
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CARNEIROS
Sempre gostei de carneiros. Minha infância foi repleta deles: carneiros brancos, pretos, verdes; carneiros altos, sorridentes, inquietos, carneiros quadrados. À mesa também estiveram muitos carneiros, que mamãe preparava com um exagero de vinho e pimenta e hortelã.
Hoje, no entanto, não vejo mais carneiros por aí. Uma tristeza. As pessoas, aliás, nem sabem o que é isso. Algumas consideram já ter visto algo parecido na TV; outras, em fotos amareladas. As crianças que eu conheço acham que os carneiros são apenas seres imaginários criados pela internet.
Foi por causa disso que resolvi fotografar carneiros. Trazê-los de volta à luz, resgatá-los do esquecimento. Provar ao mundo que eles ainda existem.
Tenho 7 câmeras que registram tudo o que passa na rua, 24 horas por dia, todos os dias. Meu esforço, no entanto, tem resultado inútil: acumulo já há meses fotos e mais fotos de caminhões, dinossauros, tigres de bengala e fusquinhas, hidras, minotauros, senhores de chapéu coco, medusas, anjos e demônios, a putaquiuspariu. Carneiros, nenhum.
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O CHOU NÃO PODE PARAR
Ele derrama lágrimas pela boca quando faz sol. Sorri estrelas às vezes, sempre dependendo da instabilidade natural do seu humor. Mesmo o seu silêncio é ruidoso: é um espetáculo, sabe-se assim, e assim se considera e se exibe. O chou não pode parar.
Mas o mundo anda repleto de tédio. As mulheres-barbadas, homens-elefante e crocodilos trapezistas não lhe dão a menor atenção. Perderam completamente o respeito; perderam a capacidade de sonhar.
Os mágicos extraem palavras mortas de suas cartolas roídas pela tristeza. Os coelhos brancos de fome e raiva conspiram contra a precariedade maquiada da lona velha e podre. Um dia a casa cai, torcem eles, certos de que estarão à distância e a salvo.
Ele não está, não se sente a salvo. Cada dia, matar um leão, dois, que lhe brotam dos bolsos como capim. Dos bolsos também retira pedrinhas azuis e lembranças pálidas. De um tempo em que fora outro, outra coisa. Alguém.
Agora é a tarde vazia que cresce nas pedras da rua, indiferença. O pulsar morno do coração que soletra ausências. Estímulo mesmo só o do conhaque, que pinga nos olhos para ver o dia em chamas.
O público, distinto público, ergue apenas as paredes da dúvida, da descrença: esse aí não é, desconfio do chou. Onde é que já se viu, espetáculo é o próximo milhão a ganhar, a grandiosidade do efêmero cintilante dia após dia após. A droga a qual nós o público estamos submetidos desde sempre, como cordeiros sob o machado de Deus.
Sabendo-se assim ele segue, cheio de nadas e de incertezas. Sob o sol é o homem-espetáculo, que teima em desafiar uma platéia de cegos. Um mundo trêmulo e arrogante, que por trás da máscara exibe apenas um circo perplexo de si mesmo.
Claudio Parreira é escritor e jornalista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Teve contos incluídos em diversas coletâneas e foi o ganhador do 1º Concurso de Contos da Revista piauí, em março de 2007 e, no ano seguinte, integrante do folhetim despropositado A Velha Debaixo da Cama, da mesma revista. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel.
Vinte e cinco anos compactados numa mesa. Nos cabides, ternos amassados. Dor pré-cordial. O suor, em frente ao espelho, tudo embaça. [Até o ambiente]. Nubla a visão: humano olhando elefante. [Ou elefante olhando o humano]. Temperatura alta. Pouco espaço existencial. Cloreto de sódio e potássio pingam no chão. O chinelo tem pouca aderência. Vertigem é o nome da coisa. São mil e seiscentos quilômetros de volta, até a casa paterna. São vinte e cinco anos de fresta. [Ou falta, até as Bodas]. Suor abunda [& sobra]. Rubor na face. [Encharcada a testa]. Coração em disparada. Antecipação da noite.
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Garça
Não deixe a imaginação tolher-te, porque é tão triste [ela] e petulante. Olhe a garça de antes. Não há engano. Nada se lhe iguala: sonho desabado em pedra grande, distância medida em mar de areia. Nada. Da fera, sequer vestígio insinuado no quadrante, aroma de flor ou fruto trazidos pelo Vento Norte. Não há litígio. Não deixe que a imaginação elabore o mal, chore saudades em cacos de espelho, memória, pano puído. Lágrima residual. Não há resíduo. Desvista a vossa filha [de tão agudas sílabas] de dentro dos tímpanos. Não deixe a imaginação tolher-te: o sol é límpido demais. Desses de rasgar os olhos. Dói, mas seca o limo. Não acolha a escolha que te tolhe: esse chão úmido por sob os pingos que não cessam.
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Aos Cães do Futuro
Não, Dylan. Eu não me arrastarei feito cão, atrás de palavras surradas. Nasci erectus, com vocação pra ser vertical, sem prurido ou comichão pelas coisas rasas. Sem render meu fígado a qualquer vício ou má água. Não me arrastarei feito cão atrás dessa pilha de ossos; fadado a ser vertical, nada menos. Sem medo do longe ou do agora, tantas e tais líquidas dimensões: insuspeitas ou supostas. Não me curvarei, Dylan, para a tua Elegia Inacabada, precioso e caro engano [como a última transmissão de rádio, antes da queda do aeroplano]. Mantenho o meu focinho suspenso e teso em prumo autônomo, bem preso ao próprio faro. E te lego [é herança, não brinquedo] a caixa-preta deste coração e cérebro [e que isso não te doa às têmporas, pelo esforço de desmontar e remontar sozinho tamanho e gigante quebra-cabeças], com um único pedido: que se lhe exponha [aos outros cães] só na próxima década.
Em forma de pergunta.
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Black Dahlia
Vou falar de meu pai, de forma elegíaca, lírica e sinistra. Milimétrica. Aos nove anos, ele era um prodígio na música e ao piano. Tinha um QI alguns pontos acima do QI de Einstein. Não brinco: relato. Meu pai era assim. Mas a genialidade paga um preço. Tendo chegado à Universidade, aos quatorze, meu pai não estava preparado pra ser o menor e o mais fraco. Procurou refúgio nos becos e no álcool. Meu pai passou a gostar de sexo violento, para aliviar seu peso e seu fracasso. Fotógrafo e escritor ignorado, mais tarde foi ser médico. Clínico. Cuidou das doenças venéreas dos ricos. Ouviu seus segredos. Soube dos mais rudes instintos. Perversos. Aumentou seu próprio repertório. Participou de orgias com escritores, atores, atrizes, pintores, meretrizes, dos quais se fez amigo. Elizabeth Short era uma dessas atrizes e putas-de-luxo. Havia muitas, como ainda há. Meu pai conheceu Henry Miller, Man Ray: um pintor-fotógrafo maluco, que lhe mostrou não haver distância entre a vida e o sonho. A pouca ética que meu pai podia ter, perdeu. Jogou-a no lixo, apoiado em tolo silogismo. Meu pai era mau. Minha irmã Tamar já o acusara de abuso, aos quatorze, mas meu pai tinha a quem pagar. Meu pai se safava. Quando encontraram Elizabeth Short, ao meio dissecada, eu sabia das sete mil horas de experiência de meu pai em cirurgia. Vi a semelhança com os quadros de Man Ray, suas fotografias: mulheres desmembradas, e o Minotauro imposto sobreposto insinuado amalgamado ao corpo de mulher, com os braços rendidos, em chifres transfigurados. Meu pai fez sua obra de arte, exibindo o corpo daquela que comeu um dia. Na mesma fria postura. Imorredoura. E eu só o descobri há alguns anos, depois de morto.
Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas –Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos.
mergulhei em tua mente como havias solicitado em prece antiga. não sonhava com asas, e brânquias esfareladas eram tudo que restavam de heranças do leito dos oceanos amnióticos. assim, cruzei-te no intercâmbio fluídico com a confiança que os líquidos entornam nos primeiros tecidos epiteliais. mórulas, gástrulas e diferenciações histológicas compreendiam-me e me doavam poderes espectrais. o fiz, digo-te, o contornei como um lago plácido em noites de pós-tempestade vulcânica – sorrateiramente. farelos, cascas intactas de fuligem contorcionista abriam caminhos cada vez mais gêmeos de um antigo mar vermelho aberto em brasa por façanhas bravias de cavaleiros enigmáticos.
como te caminhei. como te caminhei. léguas e submersões. eu aprendi a linguagem de anêmonas solitárias e suas tentaculares projeções efervescentes no pranto mais escuro do útero marinho.
tu não me sabias.
sempre dardejando fiapos de nuvens altas e leves. que tua missão terrena é sondar pluma e levitação aérea no carrossel das vagas brilhantes que tombam pelas falésias. no galope de unicórnios submarinos seguia um rastro que sabia teu intuito. onde gotejam pequeninas facetas de corais em formação. pulsantes, cordatas, fissuras pelas quais o céu tomba e se oculta e se revela crepúsculo depois aurora depois eclipse até que o raio cristalize uma passagem violeta entre galáxias acobreadas. tão ave, tão alva, tão ave, tão alva.
não me soube assim tão em fuga de águas. não percebi que uma chuva tão pura poderia ser azul devoluto no seio das terras. não me soube alada criatura.
meus tentáculos rizomas fibras e fertilidades não poderiam esvoaçar além do inferno aquático assombrado por seres tão desconhecidos. que me foram surpresas alcoviteiras sedentas de submundos. segui-as como se segue em vida a curva da tumba que é certeza de sonhos nunca interrompidos. pela suprema corte dos rios subterrâneos.
e pelo desejo de um mundo além de mundos, desviei de tua rota soberana, que me era redenção.
encontrei um mestre abnegado de paraísos flutuantes. grave como um desfiladeiro desenhado no centro de um campo claro de arrozais. olhos de chacal. veias de betume e carvão. assustador o fascínio desta gravidade que me sugava como se a sede fosse um cordão nos unindo pelo umbigo. nutrição estonteante. parasitas de nós, inventamos vórtices de sumidouros.
então me soubeste.
no tombo de um olhar ofegante em grimórios de revelação.
hermético. soube-me com teu conhecimento. mas não pude voltar. e não poderei jamais. vejo um afastamento cada vez mais profético entre tu, meu coração e tu, meu espírito. onde a epístola retumba nos corredores de sangue e febre, formulo um medo qualquer de face horrenda e harpia de astrais vênulas, arremesso o corpo etéreo e me deixo saciar nas águas redemoinhos que nada voam.
assim será, pela jornada zodiacal. escorpionídeos prateados caminham em salinas provocando ventos boreais. e a água move moinhos cada vez mais próximos das quedas milagrosas que mistificam desertos inóspitos.
tu continuas cintilando, coração mercurial. eu, astro e invisibilidade, mergulho bíblico no manto das imortalidades bizarras. tenho oceanos tridentes vestais. outras mentes portais.
Andréia Carvalho, autora dos livros A cortesã do infinito transparente (2011), Camafeu Escarlate (2012) e Grimório de Gavita (2014, no prelo), ambos publicados pela Lumme Editor. Participa do corpo editorial das revistas Zunái e Mallarmargens. Chartis é texto do livro “Grimório de Gavita”, que será publicado em 2014 pela Lumme Editor.