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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Wellington Amâncio da Silva

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Entre as penas, samambaias

 

“[...] a maldade dos homens não teve outra origem senão nas suas 
calamidades.”.  
Giacomo Leopardi

“Você testemunha injustiça, mas segue adiante em silêncio. 
Que falta de sorte a sua, nesta noite estrelada, 
presenciar certas coisas e agora ser culpado de passividade.”.  
Neguinho Dantas

“Eu quando saio/Pelo mar afora/Faço de conta/Que já vou embora...”. 
Antônio Marcos, Gaivotas


“Filho da pólis [1], como é fruto das tuas ausências a comichão da procura. O tédio é uma dor aveludada. Por isso, não se foi ainda o que havia de brutal no homem primevo (nos sufoca, nos toma em demasia e nos leva às obscuridades) — essa violência que engole a palavra, que faz calar, há o pó na garganta, as alimárias e as iras nas entrelinhas da vida, quando o diálogo falha e os homens latem, por isso o Coliseum de cada dia como paliativo. Nesta mesa de bar, olho ao redor da multidão e quase não vejo vivalma, exceto dentro do meu copo americano. Um menino noturno estende a mão para mim e me pede uma moeda para um suposto pão, um suposto pão também noturno, porque também não conhece Chopin; resta ao filho da pólis as migalhas noturnas. Eu não nego uma moeda a ninguém. Os homens são filhos das circunstâncias, porque em algum momento de suas vidas alguma coisa externa os toma de surpresa fazendo-os comuns, trêmulos, seus semblantes como de palhaços falhos. E o dia lhes é indiferente e o filho da pólis boceja muito, porque não encontra convívio entre os filhos da esculhambação, e ninguém entende uma palavra dita, neste estado febril em que se encontram as coisas; seu corpo é invertido, não haverá redenção. E se Jesus disse “Filho do homem”, eu digo hoje “filho da pólis, porque a vez de falar agora é minha! E Priscila Richardson, amicíssima, pintadíssima, descolada, num sempre salto alto, questiona: “Que porra é o filho da pólis?”; eu digo que não sei ao certo que porra é o filho da pólis, que talvez deva ser, quem sabe, alguma coisa lá para as bandas da Grécia Antiga, que no fundo acho bonito dizer “filho da pólis”, porque eu leio filosofia nas horas vagas, porque eu tenho graduação em História, porque eu não odeio este corpo onde habito, porque eu gosto de falar difícil. Priscila Richardson pula à janela, salta e voa anu-preto ao firmamento, novas paragens e tal. O caso é muito sério, nosso Homo sapiens é nascido em berço de tumulto, como não sabe nada do Começo é um desencontrado — Homo sapiens sapiens humanitas, ou Homo sapiens sapiens bestialis. Eu disse que olhe para as próprias mãos e me diga a que pertence. Vejam adiante, no chão, o sobejo da civilização muito apreciada pelos roedores, e para aqueles que não suportam seus caprichos, hão de lascarem-se, ao final da reta! Ao meu redor, bandeiras variegadas, ferros em múltiplos formatos, fumo e fogo e cinzas, muitos dedos em ristes, muitos espadachins e espadados… é a vida que temos hoje. Aqui mesmo, neste bar, vejo o universal, uma repetição de gestos, de sensos de causas e efeitos, e os melhores homens dentre os outros, aqui dentro, são como seres héteros a desfilarem sisudos com o archote de Prometeu dentro do orifício monossilábico, dentro do rabo. Na beirada da calçada, à sombra profunda de uma frondosa árvore, comporta-se dócil o corpo inerte de um bebum. Tal imagem deveria ser posta no centro da bandeira nacional. Em sua boca dócil e aberta uma mosca é acolhida, por isso ainda há alguma bondade neste município de coronéis analfabetos; ele parece indiferente à visitante, assim como um porteiro de edifício, que apenas quer cumprir o seu dever. Será que o bebum sonha, ou há dentro dele apenas um branco vácuo? E se há este espaço zerado dentro dele, então, como poucos neste mundo, encontrou Jeová. Tão imóvel e tão desnudado de humanidade, não sei se é ainda um homem ou tornou-se uma pedra, ou um anjo mesopotâmico. Nunca vi no rosto dos que dormem um sono bom e profundo tamanho desprendimento e abandono de tudo. O seu rosto não é o de um morto, nem de um vivo, aliás. O seu rosto é puro como o de um santo. Em seu semblante eu vejo aquela absoluta ausência de expressão, típica das coisas que não têm rosto, como uma nuvem ou uma cachoeira. Imediatamente, ao observar o bebum inerte, um jovem que passa se contorce numa rajada de gargalhadas — a trágica música de Antônio Marcos roda na radiola, e me parece que tal gargalhada acentua uma espécie de dor que soa sob as notas graves do violão. Não percebi (porque o inconsciente rege nossos interesses) o fundo rascado da calça do bebum em que se via as nádegas, seu Manifesto. Apesar de tudo, escrevo. Eu escrevo como quem mostra assentado o rego do rabo. Por sorte, o melhor de perder tempo sempre arrasta junto um pouco de paixão. Escrevo para não me transformar em uma pedra e não perdoar meus clichês. Não tenho muitas ferramentas, não posso ter muitos livros. Às vezes eu os roubo. A moça da biblioteca da Universidade me olhou de cara feia quando passei por ela sentada e um aparelho emitiu um som estridente; eu não sabia que colado à orelha do livro que eu trazia dentro da calça jeans havia um dispositivo que acionava aquele aparelho sonoro; não houve consequências para aquele meu primeiro roubo, além de olhares desconfiados; aprendi a retirar as etiquetas com o dispositivo atrás da orelha dos livros, como fazia a nossa Josete Londa, e nunca mais fui incomodada pelo som estridente do aparelho à mesa da bibliotecária. Roubar, todavia, apenas para matar o tempo (dos poucos que abro para sondar as páginas, dentre os livros roubados, há muitos que não entendo uma vírgula, nem quero). Exceto a minha casa, há somente dois tipos de lugares onde estive todos esses meses: este bar e as pequenas bibliotecas, a deste município, a de Pariconha e a de Água Branca. E aqui, nesta mesa, minhas pequenas leituras, impregnadas da música de Antônio Marcos, se misturam aos vultos caóticos de bêbados que adentram à minha retina. Se leio um verso de Byron percebo que cada frase está impregnada deste suor etílico, deste cambalear sem norte, sem sorte, destas mãos ensebadas de fumo, destas faces de olhos confusos. Isto ocorre porque sempre o leitor coloca suas asneiras dentro do texto do autor. E arrisco-me demais para não escrever. E o escritor não é outra coisa senão um ostentador da própria sujidade interna, destas mãos ensebadas, destes olhos que olham sem querer curar o mundo; o escritor de ficção hoje no Brasil é um incendiário sem isqueiros, seu fogo é imaginário, porque se ele escrever críticas verdadeiras e não tendenciosas as pessoas vão dizer: “Ah, que escritor triste e problemático!” (e se ele escreve boas mentiras ele se acha Deus). Há um bálsamo na transparência sorridente de uma garrafa de vinho — do seu contrário, não haveria força que pudesse carregar-me, de um bar a outro, de uma estante de livros a outra, de um sonho a outro, de uma leitura muito superficial a outra. Eu mesma não sei se de fato devo estar… [2] Eu sei que todos os sentimentos arcaicos são perturbadores, porta de saída de si, um descontrole que explode na cara e no final, perde as estribeiras nas imersões alcoólicas; chora a musa que não se pode possuir, e eles pensam que suas próprias as lágrimas soam em fá sustenido, sibilando como cobra carente à vulva atônita e encrespada e até o âmago extático da alma da musa imaginária. É por isso que estes filhos da pólis se embebedam e morrem, mas não antes de chorarem tanto para as garrafas, até ao rés do chão do patético, até chorarem dez vezes mais os litros de pinga que bebem todos os dias; esses bêbados todos nunca deram no couro de verdade, sempre brocharam ou desconversaram em tolices após suas ejaculações precoces, por isso foram abandonados ou traídos, porque brochões verde-amarelos, os murmuradores durante o coito, se justificam acusando a parceira de frigidez, e transam ligeiramente e em viés, clamando em pensamento por Stalin, Adam Smith, Marx e Jeová. Este lugar fede a esperma frustrado. A estes filhos da pólis, assim como Onã [3], o capado, nunca será possível lembrar seus rostos — isso porque desaparecem, enquanto ainda pensamos neles. A vida é bela tal como o cio, um bocejo, um surto, tal e qual a descoberta por demais passageira de que Darwin estava certo! Quem não entende a vida se fode, se lasca, se arromba. Logo o afoito acha que sabe das coisas e bebe. E se há alguma beleza nessas vidas de boteco, esta se esconde fundo nos recantos de uma vida aos farrapos, quando o bebum, sempre dramaticamente machista, se lembra do seu amor impossível, da imaginária traição da amada, da falsa castidade desvelada em trágica lua de mel, no ciúme que o corroeu por dentro, da fixação a estas coisas todas tolas, e de somente poder enfrentar, enfim, o seu destino quando a pinga ofusca este destino. Por isso, numa metáfora, todo bêbado que se preze tem o cu à mostra. Não me embriago às quedas, ainda que eu mostre o rabo; qualquer coisa bela dentro de mim somente funciona quando escrevo, eu já disse, e a escrita é o ópio dos vaidosos, o pior dos vícios, porque aí a gente mostra toda a nossa intimidade a partir do buraco em que Jeová nos empalou. Veja aquele homem, ali, num recanto. Parece-me não ter ainda quarenta anos. Mas, já o rosto lavado de lágrimas, desde que começou a tocar Gaivotas, de Antônio Marcos. Todo mundo o conhece: é o filho do pastor, aquele, você sabe, que me visitou duas ou três vezes no passado. Nos primeiros acordes o bar se transforma — ali um moço tenso balançando a perna esquerda, uns abaixam a cabeça em reverência, talvez, e outros respiram fundo, mas, aquele filho de pastor, soluça sozinho, ali, num canto, e ele sabe que seu soluço é fingido, mas precisa deste soluço, porque é tudo o que ele tem; é por meio de tal soluço que se lhe ativa um fogo e toda uma arte de se emocionar; soluçando fingidamente lhe advém um transe e estando em transe consegue chorar de verdade, tendo como tema do seu choro a mulher que tanto ele mesmo traiu e maltratou e que depois foi por ela abandonado. Flagro um jovem apontar dizendo: “Olha o corno chorão…”. Na multidão que agora se choca, ombro contra ombro, há um apagamento de veredas com os próprios pés, porque ninguém mais ali sabendo para onde ir descobre nessas “ausências de lugar” um ombro imaginário e existencial para se recostar, enquanto anda cambaleante e pendido. São bárbaros os sentimentos. E tais são que nunca param de nos invadir. Pergunto àquele homem pelo motivo pelo qual chora? “É que a vida é tão grande, senhora, que até me sinto acuado, às vezes”. Descobrimos que fora dentista bem-sucedido, até cair no vício. Mesmo bêbado ele me confirmou: “Eu fui dentista. Altamente profissional! Já implantei molares de jegue em boca de lobisomem.”. Escrever. Na verdade, nunca entendi plenamente a palavra, quando igual aquilo mesmo que ela diz e que não pode se tornar o que ela diz (são os bárbaros!). “Eu fui dentista.” — ele disse —“Hoje, diante das circunstâncias, elegi este modo existencial”. Vinte anos de casado, dois filhos; o divórcio. Não quero me debruçar sobre a sua vida — eu pensei —, ou escutá-lo se rememorar da sua convivência familiar. Não haveria explicação a certas coisas. Elas acontecem, apenas (e por não poderem falar acerca do impossível muitos deles escolhem chorar, ouvindo Antônio Marcos). Ora, querer dizer mil coisas sobre um acontecimento pretérito é o mesmo que não ter o que dizer. Ofereço-lhe meu ombro para recostar. Ele relaxa por um momento e soluça, talvez para pensar com dificuldade acerca da ideia de pegar em minhas coxas, o que de fato acontece; eu lhe nego e ele insiste; um bêbado total não merece o toque da pele suave de uma coxa feminina, por isso deixo-o subir um pouco mais por minha coxa depilada e ele apalpa num susto os meus testículos. O susto! Sai às pressas cambaleando, os olhos redondos; eis mais um bêbado do interior, típico dos pequenos vilarejos sertanejos — ainda que esteja péssimo, discerne bem com o tato o que no fundo eu sou em parte. Acho que este velho dentista não acredita mais no feminino. Talvez, a condição de alcoólatra não lhe permita pensar que hoje uma mulher como eu pode ter testículos. Não tenho preconceitos contra bêbados, ou ojerizas. De qualquer forma, a gente roda e roda sem jamais poder entender e explicar o turbilhão de acontecimentos desta vida — por causa disso, talvez, ele escolhesse chorar ouvindo Gaivotas, de Antônio Marcos. “Eu fui dentista! Me respeite, seu viado!” — apontando o dedo para mim ele braveja do outro lado da mesa. A sua cara tem a dignidade confusa de um capitão num naufrágio.

 

[1] Encontrei este texto num boteco. Escrito em papel de embrulho, letras miúdas, duas folhas escritas, frente e verso, dobradas em quatro partes. Assinou-se “Aline” à caneta vermelha, à esquerda e embaixo. Digitei seu texto e o modifiquei bastante, para deixá-lo mais confuso.

 

[2] Nesse trecho há uma mancha escura de “tira-gosto”, isto é, de gordura de toucinho, pelo cheiro rosado. Infelizmente não consegui transcrever toda a frase.

 

[3] “Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou”. Gênesis 38:8-10

 

Wellington Amâncio da Silva é sertanejo nascido e criado no interior das Alagoas, Delmiro Gouveia. É formado em Filosofia e mestre em Ecologia Humana. É membro do editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca, entre outras. Publicou livros de ficção e ensaios em lugares interessantes.

 

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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

 

A descoberta do infinito

 

Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade tão forte. Completavam-se nas diferenças. Ariel nunca abandonou Duda no tédio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em direção ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a direção contrária, o mundo terminava nos limites da superfície, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a região subterrânea desde o início dos tempos. Porém nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espaço, como aves, humanos e toupeiras.

Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria também. Ariel portava uma câmera fotográfica. Quando chegou à casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua expressão reticente:

– Tsc tsc tsc, isso não vai dar certo, disse Duda balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Claro que vai, Duda, e lembrarão de nós por isso, respondeu Ariel categoricamente.

Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel já sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.

– Não passaremos por essa vida à toa, afirmou Ariel.

– Mas não faço questão de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.

Caminharam uma hora pelas raízes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, até atingirem a zona principal das raízes do Ipê-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a água, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Será que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram dúvidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refeição e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa distância do tronco do Ipê-amarelo e depois subiram em direção ao fim do solo. Quando atingiram a superfície, conheceram de imediato o infinito. Que visão esplêndida! O tronco do Ipê-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta lá no alto, tão distante, seguida de um interminável azul do céu. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.

– Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.

A manifestação não demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de verão. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, não fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi até a raiz mais próxima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz não era como andar no subsolo. Precisava de mais equilíbrio para superar os obstáculos sem apoio, vencer a gravidade e não escorregar. Para Ariel não foi tão difícil, mas para Duda seria. Duda suava só de ver Ariel vencer cada etapa.

– Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!

A exclamação de Ariel tentava traduzir a sensação de enxergar o gramado que circundava o Ipê-amarelo, as árvores ao fundo e o desconhecido brilho da água reunida no lago próximo. Duda interrompeu seu êxtase:

– Pule logo!

Ariel atendeu à ordem. Retorceu todos os anéis de seu longilíneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplicável para qualquer minhoca, um pássaro mergulhou em sua direção. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu então algo empurrar sua cabeça contra a terra e não viu mais nada. Ariel pressentiu a tensão e olhou para trás. O pássaro se aproximava como uma flecha até que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o pássaro caíram sobre a grama. O pássaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um milésimo de segundo. Nada mais do que isso. Alguém puxou Ariel para dentro do solo e o pássaro encheu o papo de terra.

– Foi por um triz, disse ainda ofegante.

– Quem é você? Perguntou Ariel abrindo os olhos.

– Eu não tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasião alguém que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde então eu me apresento assim.

– Muito obrigado… mesmo!

Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:

– Você viu Duda? Estava ali adiante.

– Sim, enfiei na terra quando passei para salvar você, contou Lee sorrindo.

Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.

– Meu coração ainda está acelerado, disse Ariel.

– Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.

Ao sentir as batidas do coração de Ariel, a expressão de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer má notícia, disparou a falar:

– Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pilífera das raízes laterais desse Ipê-amarelo. Moramos lá, pouco depois da região metropolitana. A capital da população de minhocas do Ipê-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupação, na zona principal das raízes, até a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expansão urbana, interligadas pela raiz pivotante. Você poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.

– Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ninguém passa por aqui e eu gostei da companhia de vocês.

– Duda tem razão, Lee. Temos que ir. Nós devemos essa salvação a você e será um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. Não deixe de aparecer. Nossa comunidade é isolada e se alegra demais quando chega alguém de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.

Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando até não ver mais ninguém.

 

Geraldo Lavigne de Lemos sofre de poesia crônica, costuma alinhavar a alma nas memórias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reunião dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Leandro Damasceno Leal

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Meu filho

 

Angelo Badalamenti morreu. Foi outro dia, foi dia desses. Aqui em casa, ele vive no som que sai das caixas e abafa outro, vindo de uma britadeira tão longe, tão perto. Antes da britadeira, veio o batuque, o da torcida, exaltado a cada transmissão dos jogos do Brasil. Seleção eliminada amanhã faz uma semana, pandeiros e atabaques silenciados, chances de Hexa mais finadas que o compositor, resta ao pedreiro trabalhar hoje sem a ressaca do jogo de ontem, o que não houve, sem a cabeça inchada pela goleada que, muitos garantem, levaríamos da Argentina. Muitos brasileiros comemoram o fato, os fatos, de termos sido poupados da humilhação, de Messi poder enfim levantar a merecida Taça, de simplesmente o Brasil ter se fodido, bem-feito, o time do menino mimado sonegador não me representa.

O rapaz era desses. Metrô lotado, sexta passada, uma hora antes do jogo, camisas e adereços verde-amarelos por toda parte, ele ilhado. Por cima da máscara de novo obrigatória no transporte público, seus olhos se alternavam entre a talvez namorada e os outros passageiros, a uma o carinho, aos outros o desprezo. Cabelo comprido na altura do peito, camisa de flanela da cor do seu voto e camiseta do Ratos de Porão, para não restar dúvidas de que ambos eram vermelhos. As lentes dos meus óculos escuros o impediam de ver que eu o observava e protegiam meus olhos dos seus, mais perigosos do que os raios UVA e UVB.

Eu era só mais um alienado, desprovido de senso crítico, se não pior, quem sabe vindo da frente de algum quartel, saído de lá por poucas horas apenas, só o tempo de ir até algum bar assistir ao jogo e tomar umas brejas com outros golpistas também de folga. Ele era o filho que eu nunca tive, cabelo mais comprido do que o meu na idade dele, mais liso por ter puxado à mãe, a camisa de flanela igual, o voto igual.

Visto pelos olhos do meu filho, passei a também me desprezar, vendido, com a vida ganha, a vida fácil, fácil ignorar a desgraça que abate tantos, o sistema que a tantos crucifica, como diz o Gordo, não se abalar com os mortos, com os miseráveis, famélicos, vestir as cores-símbolo do fascismo tropical, da pátria amada apenas por quem, como eu, não é vítima dela. Isso, tiozão, vai lá ver o seu jogo, vai lá gastar 200 paus, isso por baixo, depois, na saída do bar, passar em frente e ignorar a mãe sentada na calçada, o filho no colo, vai lá, seu arrombado.

Mas eu não sou o que meu filho pensa de mim. Meu filho não existe. O que existe é o som de Angelo Badalamenti e o som da britadeira, cessado há pouco, hora do almoço do pedreiro.

 

Leandro Damasceno Leal é paulista de São Caetano do Sul, onde nasceu em 1977. Desde 1999, trabalha como redator publicitário. Estreou na literatura em 2014 com o romance “Quem Vai Ficar Com Morrissey?” (Edições Ideal). Em 2021, publicou “Olho Roxo” pela Realejo Livros. Em 2022, lançou “Fidel e a peste”, pela mesma Realejo.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodolfo Guimarães Neves

 

Foto: Yuri Bittar

 

O CONCÍLIO

 

Telepaticamente, um filho se dirigiu a um dos pais, ambos diante de um grande visor, pelo qual se observava o esplendoroso planeta Terra em sua contínua rotação. Há milênios os Ankers aboliram a fala.

— Pai, as chances são de 0,3366%.

A Estatística e a Probabilidade dessa civilização eram infinitamente mais avançadas que a dos humanos, aos quais mais pareceriam pura precognição.

— Em quanto tempo? — retrucou o pai.

— Menos de um século, na contagem de tempo deles. Eles estão no ano 2126 D.C.

Uma lágrima rolou do olho esquerdo do Pai, que continuou:

— Sabemos quem viemos resgatar.

O filho fez uma súplica:

— Nossa facção acredita neles, Pai. Dê-nos uma chance. Convoque o concílio.

O Pai olhou para seu filho. Ainda tinha muito que aprender. A compaixão, entretanto, era algo caro demais à sua civilização e devia ser respeitada. Entendia a imaturidade dele e de todos de sua facção.

No coração da gigantesca nave à órbita da Terra, cuja civilização humana sequer suspeitava de sua presença, apesar de todo o seu avanço tecnológico, com seus satélites e estações espaciais, um concílio que decidiria a sorte da Humanidade foi aberto em uma grande assembleia. Ao centro, os pais, à esquerda destes, os filhos da facção humanista e, à direita, os filhos da facção legalista, a grande maioria.

Na abertura dos trabalhos, os pais telepaticamente lembraram a todos os filhos:

— Vocês sabem de nosso propósito neste sistema solar. Não precisamos lembrar que o tempo é escasso e nossa energia, ao momento, também.

A viagem tinha sido muito longa.

Ao centro da assembleia, imagens mentais compartilhadas eram geradas pelo poder das mentes de todos.

O advogado, representante de toda a facção humanista, tomou a frente:

—  Pais e irmãos, a epopeia humana na Terra corre o risco de chegar ao fim em pouco tempo. É algo precioso demais para ser ignorado.

Imagens em sequência de todos os fatos humanos mais notórios foram projetadas ao centro do grande anfiteatro. O líder da facção legalista deu um passo à frente e respondeu:

— Pois a culpa é toda dessa civilização. Eles causaram as mudanças climáticas, ofendendo nossa grande Mãe Natureza, impuseram a si próprios o risco nuclear iminente, perderam gradativamente seus valores e se tornaram vis e malignos. Como disseram nossos pais, aqui presentes, não nos esqueçamos de nosso propósito. Catalogaremos suas conquistas em nossa enciclopédia, assim como fizemos com outros seres.

Os pais assistiam ao debate com olhares serenos e muita atenção.

— Mas eles têm chances de sobreviver e reflorescer! — disse o advogado.

— Ínfimas, nada que possa justificar nosso colossal empreendimento, que tanto demanda tempo e energia.

As imagens ao centro converteram-se em cenas de destruição e guerra.

— Tenham compaixão, meus irmãos legalistas…

— Ora, meus irmãos humanistas, a nossa lei é justamente o Amor. Há diversas espécies mais empáticas que os humanos. Não há como salvar todas do mal que essa espécie que vocês defendem causou.

As imagens ao centro do anfiteatro alternavam-se em representações de cavalos, elefantes, cachorros, pinguins, baleias e outras mais.

O advogado humanista disse:

— Eles são mais inteligentes, têm engenharia, sabem coisas da matemática, colonizaram seu planeta vizinho…

— Não nos faça rir, meu irmão — disse o líder legalista — suas construções, para nós, que estamos a milhões de anos à frente, não se diferenciam muito de uma casa de um pássaro joão-de-barro. A questão aqui é moral, e vocês, humanistas, sabem disso!

Os pais intervieram em uníssono em sua telepatia:

— Lembramos que precisamos de todo o amor possível para vencermos as forças entrópicas do Grande Nada.

O líder legalista lançou um olhar compreensivo aos pais e, logo após, desafiador ao irmão, advogado daquela causa perdida. Este, com lágrimas nos olhos, implorou por compaixão:

— As artes, não nos esqueçamos de sua bela arte.

Cenas de arquiteturas, pinturas, filmes, peças de teatro, esculturas e todas as formas de artes humanas, em sua maior expressão, surgiram no centro da grande assembleia.

— Já está em nossa enciclopédia, irmão, não será esquecida. Além disso, todas as formas de arte humanas estão em declínio há décadas.

— As grandes personalidades dessa civilização e seus grandes mestres benfeitores, seus ensinamentos…

Imagens de Shakespeare, Buda, Gandhi, Jesus, Madre Tereza de Calcutá, Gilberto Gil, Martin Luther King, Mandela, Leonardo da Vinci, Michelangelo e muitos outros grandes nomes da Humanidade foram se desenhando alternadamente.

O líder legalista, com olhar de certa indignação, respondeu em tom grave:

— E o que fizeram com o seu maior mestre? Crucificaram-no!

O advogado humanista retrucou de imediato:

— Eles podem aprender, nós podemos ensiná-los!

Todos os pais, ao centro, voltaram seus olhares reprovadores ao advogado e disseram telepaticamente em tom elevado:

— Não podemos violar a Lei!

O líder legalista engrossou o coro:

— A Lei e nosso empreendimento! Viemos atrás da espécie mais amorosa para salvá-la do perigo iminente. Precisamos de todo o amor no Universo para completarmos nossa missão. Não há necessidade em lembrar que a questão não é inteligência e, sim, empatia.

— Pais, imploramos, eles podem evoluir…

O líder legalista interveio de imediato:

— Assim?

Logo, as imagens ao centro se converteram em perversões, guerras, assassinatos, crimes de todas as espécies, corrupções, vilanias etc.

Os pais, em bloco, abaixaram as cabeças e fecharam os olhos, recusando-se a verem coisas tão baixas, há milhões de anos esquecidas em sua própria civilização.

Em uma última cartada, o advogado converteu as imagens em demonstrações, de afeto, atos de honra, atos heroicos, cenas de nobreza de espírito, cenas de amor familiar, com os dizeres telepáticos:

— Para nós, humanistas, essas pessoas que mostramos agora têm um valor inestimável de amor que supera o conjunto de todas as demais espécies. Deem-lhes uma oportunidade! — disse em retumbante apelo sentido por todos em seus corações.

O líder legalista se voltou aos pais e finalizou seu discurso:

— Estamos aqui pela espécie e não por indivíduos. Lembramos: 0,3366%. Não merecem tamanho risco e consideração. Não podemos encher nossa nave de monstros. Não temos tempo e energia.

O advogado apenas se restou a falar:

— Pais, esperança e compaixão!

Os pais, encerrando o debate em ordem telepática, após breve meditação, obtiveram o consentimento de todos, que restaram em silêncio mental. E deram a ordem final:

— Mapeiem o DNA de todas as espécies amorosas e façam o resgate da espécie mais nobre deste planeta. Não temos muito tempo.

E assim foi feito. Um grande arrebatamento foi efetuado e a nave partiu para outro sistema solar.

Um representante dos pais foi receber, em um imenso salão, os membros da espécie escolhida. Sentiu em seus corações o amor familiar, a caridade, a compaixão, o senso de proteção mútua. Toda aquela boa energia que captou, retribuiu gentilmente.

Com seus passinhos desengonçados, um dos pinguins se desgarrou do grupo e caminhou para mais próximo daquele pai. Nunca tinha sentido tanto amor. Girou a cabecinha para o lado, num misto de curiosidade e alegria, e o olhou com gratidão. O pai retribuiu aquele olhar feliz, que era a própria felicidade da Mãe Natureza, e sorriu.

 

Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP. Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional. 

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Adriano Espíndola Santos

 

Foto: Yuri Bittar

 

Homens de bens

 

Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, Hélio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na praça Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de providência nacional. Era costume encontrá-la aos sábados, no bar do Jonas Boca de Baleia, só que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no próximo sábado; era imprescindível que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que já é – pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que não seria aceitável, de forma alguma, terem novamente o bandido de “nove dedos”. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. Hélio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: “Caros patriotas, um minutinho de sua atenção… Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das insígnias nacionalistas. Explico-me: o tempo está acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as gravações. O certo é que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu braço direito nesta capitalzinha de merda”. Sim, Hélio falava como mandatário do povo, como o verdadeiro dono da província. Os demais, ávidos por sangue, não escondiam o frenesi em começarem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposição dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma vítima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou doméstica – e a razão da escolha é porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal à avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. “Encoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, não quer falar, né?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!”. Bateram, bateram, até deixá-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais à frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucionário. Colocaram-no no carro de Hélio e aí fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Antônio Bezerra. Queriam mais, mas Hélio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lançaram, aos risos, os vídeos para os grupos de WhatsApp. À noite, quando Hélio voltou regozijado para casa, percebeu que havia notícias sobre atentados políticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao veículo de comunicação mais conhecido do país. Hélio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o Sérgio Cabeção, que estava no meio, telefonou para tranquilizá-lo: “Isso não vai dar em nada, patriota. Amanhã já esquecerão… E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos”. Qual não foi a surpresa de Hélio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: “O que foi isso, Hélio, me explique logo! Vi um vídeo na televisão em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televisão. Ainda ameaçaram o ministro careca. Vocês piraram ou o quê?!”. O mesmo ministro carequinha determinou a prisão dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, Hélio era levado à delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, é que não veriam mais a carreata do presidente na Capital. Hélio pensou que a esquerda estava por trás de sua prisão; mas não lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as câmeras acenou e gritou, isolado: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão!”.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Catharina Azevedo

 

Ilustração: Drika Prates

 

O pedido

 

Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.

Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.

— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.

— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.

A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.

Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.

Daiane se aproximou de outra moça.

— Tem algum velho aí hoje?

A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.

— Que foi?

— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.

— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.

Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:

— Mocinha, onde que eu falo com o dono?

Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.

— Preciso falar com o dono.

— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.

E a velha respondeu:

— Eu sei.

Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.

Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.

— A senhora está se sentindo bem?

— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.

O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.

Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:

— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.

— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.

E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.

Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.

Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.

— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.

— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.

Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.

A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:

— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.

— Como que a senhora chegou aqui?

— De condução.

— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.

— Pra fazer amor.

Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.

— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.

— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.

— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.

— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.

Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:

— Bora, circulando. Chega de corpo mole.

A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:

— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.

Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.

Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.

— E mulher? — perguntou, por fim.

Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.

Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.

— A senhora trouxe dinheiro?

Dita agarrou uma bolsinha minúscula.

— Trouxe, tudo aqui.

— Olha que é caro.

Virando-se para Cláudio, acrescentou:

— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.

Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:

— Deus te abençoe, filha.

Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marciel Cordeiro

 

Ilustração: Drika Prates

 

E essa solidão não vai me deixar em paz

 

Ninguém se importa que você esteja escrevendo seu próximo livro. Para eles o mais importante é eleger o novo presidente, ou ir ao show de um cantor sertanejo que cobra cachês exorbitantes. O importante é escrever aquele texto, aquela fala, aquelas linhas. Dizer que o personagem é um maldito esquizofrênico.

Abro a janela. Puxo a persiana e vejo a montanha que protege a cidade. Já não ouço aquela velha canção do Otis que diz, eu espero que você possa entender isso, meu amor. No fundo agora me sinto mais solitário que o Roberto Baggio depois de errar o pênalti. Mas a vida é uma maldita competição sem regras. Você fica perdido num labirinto sem saída.

Volto para aquele bar às margens da avenida. Tenho aquela velha mania de nunca me sentar de costas para a rua. Bebo porque assim a melancolia tem mais sentido. E a garota que amo, diz que fará de tudo para me esquecer. Mas no fundo sou um egoísta, alguém que decepciona no fim.

 

 

 

***

 

 

 

Perdido em São João de Meriti

 

Morei um curto tempo em um quarto de motel, em São João de Meriti.  O motel parecia um prédio velho abandonado. Havia uma luz de néon ofuscada e um estacionamento que funcionava como ponto de usuários de drogas. Ficava próximo aos trilhos da Supervia. Aquele motel atendia as pessoas do submundo. Barato e próximo de uma estação de trem.

Quando passava das dez da noite aquele prédio fervia. Eu saía do meu quarto e ficava dando voltas por ali. Creio, que pensavam que eu poderia ser um cana que trabalhava de segurança nas horas vagas, mas talvez não, eu nunca tive cara de cana. Tinha mais cara de traficante querendo tomar a boca de outro do que qualquer outra coisa.

Certa vez bateu um temporal. Esses temporais de verão que chegam sem avisar. Com direito a raios e trovões. E eu estava debaixo da marquise do motel olhando aquela tempestade. Sou fascinado por tempestade. E de repente veio chegando mendigos, usuários de drogas e travestis. Um aglomerado de pessoas. Ficamos todos ali. Os raios caíam e depois vinha o trovão. Era fantástico. Só que aí chegou a Kombi de abordagem da Assistência Social. Alguns correram, outros fecharam a cara. E eu fiquei na minha. Apareceu uma mulher de óculos com uma prancheta na mão e colhendo os nomes das pessoas. Até que chegou minha vez. Respondi todas as perguntas. Quando a Kombi partiu só havia eu ali debaixo daquela marquise.

Depois um raio atingiu uma torre de telefone. Havia um ponto em comum entre eu e aquelas pessoas. Procurávamos algo. Eu não sabia o que. Muito menos aquela Assistente Social de óculos e com uma prancheta na mão.

 

 

 

***

 

 

 

Sou puro fogo

 

Sou impetuoso. Tenho me controlado. Mas sou filho de Xangô. Tem dias que quero botar fogo no mundo. Então, eu respiro fundo e me controlo, falo comigo, “acalma-se, precisa se livrar desse senso de justiça”. Isso não é bom. A psicóloga diz que preciso descarregar. Desligar o cérebro. Que tenho muita energia acumulada e que isso vai me destruir. Isso me machuca um bocado. Sabe, o filho de Xangô só fica em paz quando a tempestade cai, quando os raios cobrem o céu, quando os trovões estremecem o chão. Temos muitas coisas dos negros africanos que vieram das matas tropicais. Um filho de Xangô não serve para a calmaria. Um pai de santo me disse que devo ter cuidado com os amores, esses amores fugazes e passageiros. Tive várias paixões e não consigo descarregar do que já passou. Parece que estamos amarrados ao outro. O amor parece me socar ferozmente. Fico na lona. Melancólico e deprimido. A melancolia tem gosto de suco gástrico que sai junto ao vômito em dias de ressacas. Tenho me cuidado. Buscado mais espiritualidade, sou muito cético.

E hoje pela manhã comprei uma briga com um velho que estava colocando dois galos para brigar. Tenho pavor aos maus tratos com animais. O velho falou que aquilo era hobby, que era a única coisa que tinha pra fazer. Eu não me importei com a solidão dele. Eu também preciso cuidar de minha solidão. Por fim voltei para casa e liguei o rádio. O locutor entrevistava uma advogada com especialização na área econômica. Falava que algo precisaria ser feito para salvar a economia. Eu fico triste todas as vezes que ouço esse papo furado.

Tenho que fazer um banho de descarrego. Cuidar do santo. Preciso deixar de pulverizar raiva pelos poros. Vou ao banheiro e me masturbo. Isso me deixa leve por alguns minutos.

 

 

 

***

 

 

 

Eu gosto de me sentir forte e importante. Acho que todos nós. Ninguém nasce fadado ao fracasso. No entanto, há um sistema que não conhecemos que tenta nos deixar para baixo. Quando criança você sonha, quer ser algo importante quando estiver adulto. Eu quis ser um monte de coisas, por fim me restaram duas opções. Vagabundo e escritor. Na verdade, acho que sou os dois. Um vagabundo é um intelectual pobre, fica ali garimpando o que todos acham que não presta e o escritor é um vagabundo oportunista. Passa tudo para o papel. Nesses momentos de crise há muita matéria-prima para um escritor. Somos como os banqueiros. Mas os banqueiros querem grana. Lucro. E só. Já um escritor escreve por egoísmo, para dar sentido à vida, ou nem sabe ao certo por que escreve.

Às vezes ficamos improdutivos. Não há nada para escrever. Sentamos frente ao computador e não conseguimos. Tento escrever sobre o amor, esse amor comercial do sistema capitalista, escrever de coisas fúteis que parecem importantes para muitas pessoas. Ou uma crítica pesada à política. Não. Isso não é legal. Uns falam que para escrever precisamos de técnica, outros falam em coisas espirituais. Comigo não funciona. É como sexo. Eu escrevo como se fosse uma boa transa. Uma foda. Eu gosto da palavra foda. É mais subversiva.

Nesses últimos dias tenho ficado inquieto. Ando impaciente pela casa. Falo sozinho e recito uns poemas em voz alta. Canto canções que invento. Eu nunca lembro uma canção por inteiro. Sou péssimo para cantar. Mas é isso. Hoje o dia está lindo. Sol, céu azul e algumas poucas nuvens brancas.

 

Marciel Cordeiro é baiano, reside no Espírito Santo. Graduado em Serviço Social. Publicou alguns contos e poemas em antologias.  É o autor dos livros “Caminho para Texas”, publicado pela editora Cousa, em 2019, e “Essa coisa louca chamada amor”, 2021, também pela editora Cousa.

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lorena Grisi

 

Ilustração: Drika Prates

 

Exercícios físicos

 

Faz atividade física? Faço, longe de mim ser sedentária. Não fumo, bebo pouco e carrego comigo este carma de gerações, estes genes, o peso dos dias, esta cabeça que não vem sobre os ombros, vem sobre o pescoço, porque os ombros, é o mundo o que eles suportam e por isso tenho hipercifose. Não sou preguiçosa, ando a pé por essas ruas levando tudo o que é desnecessário em minhas costas, só para ter certeza de que não vou utilizar, mas está tudo ali, são coisas minhas, é tudo o que tenho, pode-se dizer que configura um patrimônio. Juntei cada uma dessas peças como quem guarda pedaços de quebra-cabeças distintos na esperança criativa de montar paisagem própria, forçando encaixes e aceitando que buracos são também composição de destinos. Portando sempre meus objetos, sou meu meio de transporte, meu caminhão de mudança para cada apartamento semimobiliado alugado e, no percurso, perco bibelôs e memórias, o que deixa mais leves as caixas de papelão e é por essa razão, ademais, que eu sempre fui bem magra, embora nunca, nunca mesmo, tivesse sentido medo de que uma ventania me levasse consigo. Tudo ótimo enquanto estiver perdendo bibelôs, o que não dá é para perder as chaves, a cabeça ou o prumo. Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo. Pergunto se ele já experimentou um teto desabando sobre si e tendo de levantá-lo com as mãos, no sentido oposto à gravidade, e isso na hipótese boa, que é a de ter um teto; ele me diz academia, corrida, pilates, eu digo meu querido, você não faz a menor ideia do que é ser uma mulher.

 

 

***

 

 

Língua morta

 

Fizessem uma perícia a cada vez que morre uma língua, constatariam males que incluem assassínios, genocídios, catástrofes naturais e outros desastres que geram órfãos, herdeiros de um inventário volátil e invisível. Onde o cemitério das línguas não mais ditas ou escritas, usadas, um dia, para dividir a terra em que se plantou o primeiro grão, onde se fincou a primeira bandeira, onde se construiu a primeira cerca em madeira e então se disse é meu? Em que língua uma mulher foi originalmente ofendida e deu seu grito inaugural de horror? Os despojos conhecemos até hoje, os despojos da guerra são do vencedor e a língua mantida viva também, em sua glória. Como se diz meu na primeira língua morta? Como se diz eu? Como se diz não cante essa canção em voz alta, não narre esta fábula? Fato é que hoje e em qualquer raio de futuro, mesmo antes do café da manhã, conviveremos com restos mortais de línguas por todos os cantos da casa e do corpo, no pensamento, no olho do outro, nas plantas no vaso sobre a mesa, perpétuas (ou Gomphrena globosa). Há uma língua que não diz mais e não se entende, mas se sabe, exatamente como a conversão do dinossauro em galinha. A língua de carne, essa também pode morrer, mordida ou queimada, ardendo, dizendo três vezes palavra de maldição, cortada a faca para aprender que alguns vocábulos talvez devessem estar mortos também. Sepulta-se uma língua e ela jaz num túmulo em que se busca desvendar a pequena fotografia preta e branca, sem data ou epitáfio. Uma língua, hoje, é algo que existe primordialmente para dizer fique aqui, em dez minutos poderemos enxergar o satélite, e é a partir dessa fala que todo o mundo se recompõe e gira. Uma língua morta é um fantasma triste que corre de medo de crianças. É uma sobra nas sombras, a cápsula do tempo enterrada, acidente de trabalho de escavação.

 

 

***

 

 

Pretérito imperfeito

 

Acabou-se o que era doce e os nostálgicos garantem que ontem foi melhor que hoje, que os anos 80 não retornam mais, que nos anos 70 não havia Aids e eu concluo que a Guerra do Golfo foi muito pior do que a Guerra do Vietnã, porque a do Vietnã veio antes e tudo o que vem antes é melhor do que o que vem depois. Era doce. Poderiam ter conservado com sal ou com gelo, os nostálgicos, os saudosos, mas isso interferiria na doçura, que não voltaria mais e teríamos um passado salgado, ou aguado, nada condizente com nossa delicada história de afetos e ternura, mesmo que mais de um milhão de pessoas tenham morrido na Guerra do Vietnã. Era tudo muito doce, embora ensinem nas aulas de Ciências que são quatro as possibilidades de sabores – o doce, o salgado, o azedo e o amargo. Era tudo doce, mas acabou-se e agora usamos toda uma gama de açúcares ou de adoçantes artificiais que tornam a vida diária mais palatável e porque o doce, desses quatro, é o único sabor que tem conotação positiva e precisamos dele em nosso cotidiano cada dia mais insípido. Precisamos acreditar na doçura, mas os adoçantes artificiais são cancerígenos e o açúcar refinado dizem que é um perigo também. Os nostálgicos, os saudosos, vazios de um período em que o buraco na camada de ozônio era menor, e de quando não havia alimentos transgênicos, e de quando havia menos arranha-céus fazendo sombra nas areias das praias brasileiras, os nostálgicos se embrenhariam em pequenas fazendas produtoras de mel, caso as abelhas hoje não estivessem enlouquecendo com tanta mudança no ecossistema. Porque as abelhas também estão nostálgicas, saudosas e vazias, deu até no noticiário mês passado. Era doce, todos juram que era doce, mesmo que o Vesúvio tenha destruído Pompéia no primeiro século de nossa era, quando o Vietnã não era uma questão. Era doce, tinha até uma cereja em cima. Não salgaram os corpos de homens enforcados e de bruxas queimadas vivas, de modo que só a doçura se preservou na memória. De modo que neste atual século de nossa era teses estejam sendo escritas sobre afetos, músicas sobre a delicadeza sejam compostas e uma estética da suavidade esteja muito em voga nesse mês de outubro, hoje mesmo, quando não é mais doce como já foi, constatam os nostálgicos, os saudosos, os vazios e os perdidos. Era doce, foi doce. O pretérito imperfeito, dizem os gramáticos, exprime uma ação habitual no passado, enquanto o pretérito perfeito exprime uma ação que não era habitual. Acabou-se o que era doce, ser doce era habitual. Era uma vez. Desde o primeiro século de nossa era e mesmo antes. O anel que tu me deste era de vidro. Era doce, mas agora as abelhas enlouqueceram.

 

 

***

 

 

Carta

 

Se eu te dissesse – Me escreve, assim, a seco, intransitivo, o que você me enviaria? Uma carta de amor, de despedida, um cartão-postal, um e-mail, um bilhete, meu horóscopo, a foto de um recado no espelho, tua biografia? É certo que não diria diretamente que me ama, nem que acordou no meio da madrugada para não mais dormir porque não sabia onde eu estava e se eu voltaria. Me contaria do gato que trouxe para casa, da rua que mudou de sentido e agora deixa os motoristas confusos em frente ao prédio. Me diria que, mais útil que escrever uma carta, coisa que nem se usa mais, é escrever uma tese, um tratado, uma lei, algo que se imponha sobre os homens, palavras contra as quais qualquer insurgência é imputável com isolamento e castigos físicos. Teve aquela vez, na viagem ao Norte, quando eu perdi o catálogo dos lugares turísticos. Me escreve um catálogo. Me escreve um catálogo que fale se os lugares produzem arrepios, se têm cheiro, se o Sol vai queimar minha cabeça, se o caminho pode ser feito a pé, se, para chegar lá, basta fechar os olhos no chuveiro. Me escreve, mas escreve à mão, com essa letra que eu não entendo, mapa para a rua que mudou de sentido e que eu perdi, no meio da viagem.

 

 

***

 

 

A casa

 

A casa, caixa de móveis desembalados e descobertos de lençóis, habitada, durante o dia, por este sofá velho, vazio e emprestado, em que alguém já se sentou para não cair no chão de desespero e dormiu, perdendo a hora. Há grades nas janelas, mas o Sol tem sua incontornável liberdade de atravessá-las e de queimar os rostos nos quais hoje se veem manchas e linhas de quem observou a paisagem atônito. Eram duas as cachorras no pátio, latindo para os outros cães que passavam por trás do muro, e o barulho dizia dessa ordem perdida em que os seres se reconhecem, se cumprimentam e estão atentos aos cheiros. Nesta casa, três famílias, em seu tempo, celebraram aniversários, receberam notícias de mortes e penduraram quadros em diferentes paredes que já foram brancas ou amarelas. Da casa de baixo, sente-se cheiro de carne sendo assada e há uma conversa, entre mãe e filha, sobre objetos perdidos nas escadas. Debaixo dela, a casa térrea, vazia e de porta fechada, hospedagem provisória de ácaros e de pequenas aranhas tranquilas, na privacidade dos cantos e das frestas. A casa, arquivo de espantos em quarto e cozinha, tem uma moradora, à noite, na hora em que se imagina que todos dormem, mas há uma verdade e é esta: há o pesadelo, o suor frio e os banhos. É tarde para se preocupar com visitas, é cedo para consultar a meteorologia. E o universo é dentro da casa e, não, fora, e isso inclui os raios, as tempestades e os objetos não identificados, dos quais fazem parte utensílios domésticos que determinam a completude de um lar: mesmo sem uso, tem-se o que é preciso, além de um fogão, de uma cafeteira e de um acendedor automático. Vê-se, na sala, uma mesa com papéis e livros que indicam as tarefas de quem reside na casa. A mesa é bússola, é rosa dos ventos, por isso está centralizada. Em cima dela, um castiçal com uma vela apagada. Dali, contam-se dez passos para a cama, dez para o aparelho de som, dez para a gaveta de facas. A casa, neste terreno argiloso e infértil. Amanhece. Na rua em frente, os cães encoleirados passeiam na hora esperada.

 

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou, em 2021, o livro de poemas “Exercícios físicos” (Editora Paralelo13S). Tem textos publicados nas coletâneas “Hilstianas vol. 1” (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst, 2019), “Antologia Ruínas” (Editora Patuá, 2020), “Terra, fogo, água, ar: coletânea lírica” (Edufba, 2020), “Mulherio das Letras Portugal” (Editora In-Finita, 2020), “Parem as máquinas!” (Selo Off Flip, 2020), “Cartografias vol. 1: contos de autoras brasileiras” (Editora Primata, 2022), no Jornal Relevo (set. 2021), na oitava edição da revista Felisberta, na revista Aboio, na revista Mulheres do Fim do Mundo (abr. 2021), na segunda edição da Revista Torquato (abr.-jun. 2020) e na Revista Contempo (maio 2020).

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriana Vieira Lomar

 

 

 

Os gerânios me entendem

 

Sei que o nome dela por aqui é um tabu, mas assisti à cena, e isso anda me incomodando. Vou omitir seu nome. Ela não virá contra mim, caso algum dia leia esta nota. Se bem que… Não correrei esse risco, guardarei estas linhas no fundo de minha gaveta, como uma joia de família. Gaveta a ser aberta por seus herdeiros – e tal coisa ocorrerá, quando tanto eu quanto ela já estivermos em outra dimensão.

Estou na janela aguando os gerânios. A tarde desmaia de preguiças, enquanto a Lua emerge. Uma inquietude em mim, um mau prenúncio. A rua quieta ao extremo traz o cheiro das trevas, do susto e do imprevisto. Quem dera eu estivesse errada…

Ela está voltando da escola, quando os quatro bem mais velhos a abordam. Medrosa, sento-me no chão frio da sala e, entre as grades, assisto. O som do asfalto, a rua deserta assovia quando as folhas tocam o chão fedido.

Os quatro ecoam juntos o boa-tarde mais sentido que já escutei. Suas vozes não chegam até o segundo andar, onde permaneço escondida. De súbito, ela abre a camisa. Antes, olha para todos os lados. Agacho-me ainda mais. Deito-me no chão, agora mais frio. Entre meus olhos e a cena, há um fiapo de grade – uma grade porosa.

Vejo um par de seios frescos, com bicos rosáceos e espertos. Um beija o esquerdo, outro o direito. Os outros dois permanecem quietos, de braços cruzados, olhando a rua como quem vigia. Passados alguns minutos, talvez dois, eles trocam de lugar.

Os dois tiram a saia de pregas. Ela no meio, entre os dois esmaece. Sua bochecha rosada deita no braço cabeludo de um deles. A essa altura, não sei o que fazer. Prefiro observar os fragmentos dos gerânios que ainda me parecem hidratados.

As doze baladas do sino vibram na pequena cidadela. Canso-me de permanecer deitada e me sento. Os cinco ainda estão na rua ainda deserta. Ouço seus gemidos daqui. Nem os sinos impõem receio. E se eu tiver coragem e simplesmente aparecer ali?

Mas isso não dará certo. Trabalho para o pai dela, o prefeito. O cara é viúvo, um pobre coitado. E aqueles quatro, vi todos nascerem, conheço suas mães. Todas estudaram comigo. Também, pudera, haveriam de estudar em outro lugar? Por aqui só há uma escola, a mesma onde ela estuda, que mantém o mesmo uniforme, apesar de três décadas terem passado, assim, feito mágica.

Vou permanecer aqui boquiaberta, rezar um pouco, pedir para os cinco se mancarem. Meu Jesus Cristo, tende piedade de… Não deu outra, uma pancada de chuva daquelas devastadoras, com direito a raio, trovoada. No ritmo em que meu coração bate, de puro desassossego.

Os quatro correm em direção a suas casas desertas. As mães estão na igreja. Ela, feito uma estátua, permanece ali, com a blusa desabotoada. Tenho que ir a seu encontro, preciso abotoar cada botão. Exercer a maternidade que não quis para mim.

E, com muita dor, feito faca me cortando, eu a vejo saindo do ponto em que estava. Partindo com sua saia de pregas abaixo do joelho. Caminhando como se estivesse embriagada. As meias brancas e bordadas borradas de terra e a sapatilha de boneca gasta.

O emblema da escola São José do Amparo sobrevive. A essa altura, estou na esquina. E, de olhos fechados, lembro o dia em que a gerei. Meu sumiço e o dia em que presenteei o prefeito. O grande vazio. Minha vida sem graça.

Na direção contrária, corro e volto a aguar os gerânios. Ela não me vê. Meus gerânios não falam. E, dessa sacada, posso chorar. Eles me escutam.

 

 

***

 

 

O louva-a-deus

 

Uma folha voadora chega aqui e faz cócegas em meu nariz. Veio só com esse propósito. Logo depois da missão, ela cai esparramada no chão batido de cimento frio. Por quantas ela passou para chegar aqui? Passou por um corpo ainda morno e vigiado por um bando de urubus que trafegam no espaço aéreo azulado. Eles só observam o momento certo de limpar as vísceras do corpo estendido e mortificado.

Ainda estou sem palavras. Nem sei como começar. Minhas pernas tremem, mas tremiam bem mais antes de ela passar por aqui.

Ela deixa um cheiro bom de alecrim, que me remete ao dia de ontem. Nós estávamos bem, comíamos na grande mesa rememorando nossas histórias antigas, mas ainda não comentadas, apesar do tempo tão longo de vida em comum. Tomamos vinho branco, da cor da neve, que vimos pela primeira vez. Degustamos um peixe rosado e carnudo chamado salmão, que bem lembra os sermões escutados durante as aulas de catequese. Debandamos. Nessa época, eu ainda não o conhecia. Em lugares diferentes, permitimo-nos não acreditar mais em dogmas. Criamos os nossos.

O inhame assado com raspas de limão traz a lembrança da terra por adubar e a florada como um unguento nos dias de sofrimento. A sobremesa – cajus derretidos em manteiga de amêndoas – remonta aos gritos de chamar para o almoço o menino peralta, que inventava de subir no ponto mais alto do cajueiro e encher o tacho da mãe com o fruto.

Depois da comilança, resolvemos dormir. O cheiro ainda era bom, apesar da idade avançada, da lembrança de que um dia o torpor da juventude habitava todo o domingo de beijos e toques na pele desnuda. Diminuídos em tamanho, com a tez enrugada e vincada, nós dois gostávamos de dormir feito caramujos.

Não sei quando aconteceu. Há um grande vácuo. Estava adormecendo, quando ele me pediu o travesseiro. Logo depois, mais um pedido inaudito. Disse que não, não poderia jamais cumprir sua ordem. Depois, ele veio com aquela conversa de que eu era mais nova e deveria lhe obedecer. Virei meu corpo para trás. Com raiva, adormeci. Nunca, em seis décadas, dormi sem beijá-lo. Meu braço ficou no vazio.

Meus braços estão vagos e desocupados. Os urubus agora o rondam de fato. Minhas pernas estão fracas. Meu silêncio ainda está ocupado pela raiva.

O boom da bala que me fez acordar. Algumas horas atrás. Sem vizinhos, nesse bosque, ele me deixa assim, solitária.

 

 

***

 

 

O desconhecido

 

Estou no túnel. Agonia. Na urgência em chegar à casa de saúde. Estou a cem por hora. Talvez seja multada. Minhas extremidades suam, o vômito ameaça chegar, o coração acelera e me vem o medo da morte. O túnel é longo, extenso como o corredor da sala grande. Da sala grande. Da sala grande da fazenda. Lá, eu estou atravessando a escuridão. O maço é vermelho, os cigarros são recomendados para tirar a ansiedade. Eu os pego com minhas mãos miúdas. Devolvo a meu cowboy e ganho o posto de menina corajosa.

Meu cowboy me espera no quarto de hospital, mas não sei se consigo atravessar o túnel para me despedir. Não posso parar o carro. Os faróis ferem meus olhos. Minha retina ameaça fechar. A velha imagem do corredor longo me vem à tona. Os sofás na penumbra presenciam meus passinhos curtos e medrosos até o birô. As corujas me assistem. Consigo pegar o maço inteiro, mesmo sentindo um frio na barriga. Retorno com o maço e o entrego. A mesa está lotada. Ouço aplausos. Conseguirei chegar até o hospital? As pernas tremem, meu coração pula em disparada, partes de mim adormecem feito câimbra.

Quero abraçar meu velho cowboy. Em mim, berra a urgência em encontrá-lo antes que ele parta para sempre. Mesmo sentindo a morte chegar, o túnel ainda escuro, preciso vencer a escuridão. Morrer é uma certeza de todos. Volto a me ver naquele velho corredor da cozinha para a sala grande, vejo-me pequenina tomando banho no breu. Escuto minha voz de criança dizer que tinha medo, ouço sua voz de tenor dizer que, depois do coração aos saltos, a brisa leve e cheirosa virá. Como uma montanha-russa – horrível a primeira vez, depois vira adrenalina. “Será que consigo, meu cowboy?” “Treine primeiro. Pega meu maço lá no escritório. Terás que atravessar a longa sala, sem sinal algum de claridade. Nem candeeiro vale.” “Não consigo.” “Tenta, minha amada, tenta.”

Seu timbre me guia até a casa de saúde. Aturdida, caminho até a recepção. Estou ali para me despedir do cowboy. Respiro fundo e me apresento.

“Quarto 201, senhora.”

Entro no quarto, espero encontrar um homem velho partindo. Lá, encontro o cowboy me pedindo para assistir ao campeonato mundial. Pelé está em plena forma. Ele não lembra que eu ainda tinha dois anos quando Pelé jogou pela última vez. “Sou eu, meu cowboy, não está me reconhecendo?” “Como não iria reconhecer-te? Estou sim. Preciso te contar um enorme segredo, não contes a ninguém. Eu sei que tu és igual a mim, e não contarás.” Aproximo meu ouvido e ouço o cochicho mais ardido e sofrido de se ouvir. Com lágrimas em meus olhos vividos, só digo sim com a cabeça. Jamais conseguiria deixar de perdoá-lo. E ali, naquele quarto frio e sem graça de hospital, ele partiu, imaginando Pelé.

Seu semblante era de paz. Aliviado, morreu sem culpa. Depois do enterro, voltei a atravessar túneis. Sinais verdes e sinais vermelhos. Por um tempo, continuei sentindo falta de ar, achei que iria morrer. Meus pés suavam, minhas mãos tremiam. Mantive-me na esfera do medo, medo de não conseguir voltar para casa com vida. Mas aquela voz de tenor me acompanhou e continua me acompanhando. E, assim, os tijolos criados pelo medo continuam desabando. Com a luz acesa, tomo banho e deixo a água lamber meu corpo fatigado. Na mistura de lágrimas com água, permanece o segredo dito: “Você tem uma irmã e precisa dividir a casa, a terra ou o que mais deixei.”

 

Adriana Vieira Lomar é Integrante dos Quinze e  do “Caneta, Lente & Pincel. Pós graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO, autora de “Carpintaria de sonhos” e do romance “Aldeia dos mortos”, esse pela editora Patuá.

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Melo

 

Foto: Gilucci Augusto

 

A NOITE QUE ENGOLE TUDO

 

Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.

Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.

– Quem é? – ele pergunta.

– Te dou uma chance pra descobrir.

Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.

– Ainda não tenho a grana.

– Não tem nada?

– Alguma coisa. Não é muito.

– Eu quero.

Ele me encara. Está desconfiado.

– Espere aqui.

Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.

Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto.  Sento-me em uma cadeira e espero.

Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.

– Pra quê o 38? – pergunto.

Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.

– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.

– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.

– Que encomenda?

– Você sabe.

– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.

Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.

– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!

– Tem certeza?

– Claro!

– Não está mentindo?

– Eu não minto pra você.

Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.

– Fica de pé – digo pra ela.

– Não me mate, por favor!

Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.

– Sabe onde está?

– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.

Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.

A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.

– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!

– Quem é a menina?

Ela me encara, sem entender.

– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.

Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.

– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.

– Encontraram?

– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.

Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.

– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.

Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.

– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.

Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.

 

Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.