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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Maurício de Almeida

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Atlântico-Noite

 

Jogado no sofá à espera de nada, combalido no marasmo de uma ansiedade entorpecida por mais uma dose de uísque, ouço ao longe uma rebentação e imagino as ondas primeiro num refluxo tímido e assustado para depois acertar numa violência desnecessária a noite que observo posta à janela. Ao suspiro desses marulhos, deixo-me quase em vigília na esperança de compreender esse sentimento oco que se agrava ao som de ondas e as ondas aos círculos no copo que seguro, uma agonia desnecessária minha vida feito gelo sumindo aos poucos como se não sumisse: o tempo que se mantém véspera, Sartre delirando com o suicídio de Quentin nos livros que pairam quietos pela sala. E nessa pasmaceira, sonho alto com a bunda de Simone de Beauvoir e o mínimo instante de prazer no qual me evadirei do acúmulo desmedido de pudores e arrependimentos que me naufragam numa apatia e me colocarei outra vez em movimento, a vida pulsando para além de tudo que agora conspira desistência nesse sofá-arquipélago sobre o qual me abandono apático.

Desacreditado no torpor de uma angústia que se espraia sem razão e me engole na ideia de que neste momento o mar é tão-somente um imenso vazio, noite refletida e inquieta gestando ameaças em profundezas, assalta-me sem pressa essas pernas que irrompem a sala forjando desinteresse, meus olhos subindo ao umbigo, os peitos pequenos e os braços abrindo asas sobre a cabeça para enrolar uma toalha no cabelo: Isabela nua indo à estante e decidindo numa linguagem ancestral qual livro escolher me deixando quase às mãos sua cintura, as curvas suaves de sua bunda

(Simone de Beauvoir ao acaso desta noite)

o corpo molhado que ela então e de repente esconde com a toalha antes na cabeça para inventar um mistério que me subjuga a uma necessidade de resolução

(Sartre e Quentin delirando)

e ao qual, apesar de me animar prometendo escapes e evasivas, impeço-me reações, reafirmando ansiedades & marasmos, o uísque me comovendo em preguiças. No entanto, observo-a capturar um livro e colocar uma cadeira à minha frente para folhear páginas e inventar sons que deveriam soar plenos de sossegos

ein jeder Engel

mas, ao contrário, explicitam carências em fonemas que não entendo

ein jeder Engel ist schrecklich

acentuando este não-lugar ao qual já pertenço, um tempo que insiste vésperas jogando-me de um lado ao outro ao acaso de ondas sem início ou fim. Todavia, me encanta ver a forma definida de cada músculo contraindo-se ein jeder e distendendo-se Engel ist sem acidentes schrecklich e sem acidentes ela coloca as pernas ao meu redor prendendo-me ao seu cerco, um estranho sorriso esses lábios que me convocam e aos quais não resisto um beijo, os dedos dela firmes aos puxões no meu cabelo e nesse êxtase ainda discreto não prevemos a queda do livro que nos toma num susto: ela salta e recua como se tímida ou assustada e me nega o segredo mínimo de suas pernas abertas, prenúncio de vida enfim realizando-se mas logo pondo-se distante, refluxo.

Acompanho-a caminhar até a mesa e servir-se de uma dose de uísque antes de pegar um cigarro. As mãos dela se movem muito lentamente como se desenhassem os sinuosos fios de nicotina que somem sem anúncios e, entregue outra vez a uma apatia sem tempo, não a percebo armando-se num golpe que afinal me acerta o corpo num rebentar ao tê-la inteira sobre o meu colo, eu surpreendido por ela me afogando num beijo e murmurando de olhos fechados

todo anjo é terrível

nossos braços desfazendo-se das roupas num movimento de nado, nossas pernas entrelaçadas numa agitação imprevisível de cardumes, um estado de graça Isabela me exigindo ação em violentas assertivas

(todo anjo é terrível)

certa de que o prazer da entrega não está na constância, mas na intensidade, e eu quero dizer que preciso de continuidade, ela me pesando indefinidamente o corpo para me sentir vivo, a sensação de que as ondas me endereçam de uma forma muito particular a qualquer praia. Contudo, indiferente aos meus suplícios que não conseguem articular palavras, ela me amarra os ombros num abraço para nos embalar em cadência e finalmente me vencer num estampido, um torpor correndo leve que me enfia um sorriso melancólico no rosto, porque a vida que se fez presente volta a fazer-se véspera

(Sartre aos prantos no ombro de Simone de Beauvoir)

Isabela enrolando-se novamente à toalha antes de sentar-se ao meu lado e voltar a folhear o livro em silêncio, negando-me fonemas e versos, pernas e sorrisos, e outra vez e sempre um marasmo desnorteado, a sala cheia de tormentos e marulhos e não me resta senão aguardar que nada se mova sobre a face do vazio que é o mar durante a noite no qual me esqueço à deriva na espera por nada.

 

 

Maurício de Almeida é autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Alberto Pucheu

 

Foto: Ozias Filho

EM OUTRAS PALAVRAS

havia se passado oito ou dez anos desde a data em que diziam ele ter nascido, ainda que isso não fizesse, então, qualquer sentido para ele, nem agora, quase quarenta anos depois. ele havia sentido diversas vezes o que só conseguia expressar pela palavra esquisito (e com nenhuma outra), mas, quando se lembra disso, lembra-se de ter dito a palavra à sua mãe na garagem do prédio em que moravam, entre carros, azulejos, um vão central, alumínios e lâmpadas fluorescentes. não era uma palavra mágica, sua mãe não entendia o que ele se esforçava em dizer. era uma palavra insuficiente, equivocada, que não funcionava, que ele sabia não dar minimamente conta do que estava sentindo, da mesma maneira que nenhuma outra serviria a tal fim, inclusive as que vieram mais tarde, e ainda vêm, carregadas de peso, como ausência, nada, vazio, angústia, morte… em algum lugar, ele intuía a verdade, e ainda hoje a confirma: nenhuma palavra pode expressar isso que, uma vez sentido, não deixou de retornar, imprevisível e incansavelmente, encontrando-o até não mais o largar, até se tornar seu cotidiano, até se tornar um mais cotidiano que o habitualmente chamado cotidiano, isso para o que nunca houve um antes nem um depois, sendo por fora do que se costuma chamar de tempo, isso para o que ele não tem nem nunca teve nem jamais terá nenhum acesso, nenhuma língua, nenhuma tradução, nenhuma gramática. diante da impossibilidade que lhe comparecia, acatou que a única saída para ser fiel à partilha do acontecimento era traí-lo, traí-lo amorosamente. a solução encontrada foi falar por sobre isso, em torno disso, com isso sendo uma espécie de buraco negro para todo o dito, que sofria sua atração irresistível. quem sabe um dia, ao menos, um quanto qualquer dessa força deixaria um vestígio, pequeno que fosse, no dito. ele permaneceu bem ali, no meio, entre uma experiência para a qual não havia palavras e palavras desprovidas de toda e qualquer experiência, entre não dizer nada e falar o que pudesse, como a memória paradoxal desse esquecimento das palavras que, sabendo de cor, lhe concernia mais que todo o resto. talvez, o melhor que ele conseguisse fazer fosse um murmúrio indecifrável de todas as frases soando juntas, homogeneamente monótonas, ao fundo de cada palavra que não quisesse se sobrepor às suas vizinhas. talvez seja isso que ele tenha passado a vida buscando, explico, não exatamente a palavra que dissesse enfim o impossível de ser dito, mas uma tranquilidade qualquer com o inacessível, um poder estar à vontade com a ignorância do que, nele, sem deixar de ser o mais estranho, sempre foi e é o mais íntimo.


 

 ***

 

RASCUNHO EM QUARTO DE HOTEL

as marcas de uma vida que se exila em palavras, que, desde o tempo presente, para ofertá-lo ao outro, o abandona, transformando-a – uma vida – numa sintaxe, num murmúrio, num resquício de paisagens mais ou menos esperadas de afetos e pensamentos cruzados, são nervos expostos, são corações expostos, uns pedaços do cotidiano expostos, de tal maneira que haja ali (ou talvez por isso tudo seja mesmo melhor dizer logo aqui) a pulsão de uma vida diária, de uma alegria diária, de uma melancolia diária, a mensagem de um amigo denominado ou anônimo, tanto faz, dá no mesmo, a minha mensagem, a de um eu, denominado ou anônimo, tanto faz, dá no mesmo, para um amigo que me escreveu, uma trepada de um amor denominado ou anônimo, tanto faz, dá no mesmo, umas palavras eróticas ou políticas ou quaisquer que sejam que se mostram fora de sua proveniência, a radicalidade de um esporte que não se sabe a que nível foi de fato feito, se é que foi feito, tudo, enfim, está ali, ou talvez por isso mesmo seja logo melhor dizer que tudo enfim está aqui, ou talvez que o ali e o aqui não precisam se encontrar, que é melhor que não se encontrem, que é melhor que se mantenham irreconciliados, que mantenham sua fresta, seu fosso, sua distância, para que nenhum dos dois queira se tornar uma condição preponderante sobre a outra, para que seus resíduos sobrevivam disparatados, para que inclusive você que me acompanha, para que você que está aqui comigo agora, possa estar também, a um só tempo, como eu posso dizer que estou, aqui e ali, ou em um intervalo qualquer entre o aqui e o ali, mesmo que eu nem saiba muito bem onde seja este aqui e esse ali,

Alberto Pucheu nasceu em 1966. Em 2007, reuniu seus livros de poemas em “A fronteira desguarnecida” (poesia reunida 1993-2007), pela Azougue Editorial. Em 2013, publicou “mais cotidiano que o cotidiano”, pela mesma editora. Tem publicado livros de ensaios, realizou a exposição “Palavras”, na Oi Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual. Alguns de seus poemas participaram de videos de Danielle Fonseca e Gabriela Capper, todos no youtube.

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Sérgio Tavares

 

Foto: Ozias Filho

 

Nelson e as flores

 

Deixe-me ao menos as flores que te emprestaram o perfume, pois agora, espalhadas pelo caminho, são como um sorriso teu que não me deixa passar com a minha dor, de modo a impedir que vás assim, magoada, bateando a porta e derrubando em mim a culpa que não é par de um ato tão leviano, quando te disseste, abraçado ao violão, que iria partir sem saber se voltaria, que não me quiseste mal, pois era carnaval, e tu riste, um tanto distraída cantarolaste meu samba, mas verdade é que, entre as estrofes, exaltavas a aurora de uma mágoa que não souberas esconder dos dias foliões, e quando voltei (veja, é claro que eu voltaria!) a encontrei pelos cantos, com os olhos rasos d’água, para me inundar com amargura e injustiça, dizendo que a partir de hoje eu era espinho em teu amor, que nosso jardim, ontem viçoso, secou, e eu, ainda confuso e embriagado, tentei afrouxar teu desprezo, alegando que espinho não machuca a flor, mas isto só serviu para aumentar tua raiva, chamando-me de cínico, rei vadio, que sempre guardaste teus sorrisos para mim, teu zelo, e o que eu te reservaste?, a revelação, logo no primeiro carnaval, que foi um erro ter juntado minha alma à tua, que és sol que não pode viver perto da lua, aí conseguiste me inflamar, pois o carnaval amo antes de ti, então repliquei que poderia sorrir para quem quiseste, e mesmo dizer que não me queria, mas não precisava me humilhar, pois nos olhos da mulher, teus olhos, eu sei quando ela quer abandonar o lar, e tu se calaste e, do caminho até porta, ouvi somente teus passos, o vaso com as nossas flores se despedaçar pelo chão e meu último rompante, um tolo ultimato que pregava que se me disseste adeus, não pensaste mais em mim, que eu ficaria com Deus.

Sei que a fé não consegue confortar o vazio do amor, mas tenho fé que tu voltes, pois as flores, embora agredidas, ainda conservam o lastro do teu perfume como a certeza de que não foste por completo. Sinto, no meu peito, que, mais alguns minutos, a porta vai abrir uma fresta dos teus olhos e tu vais entrar, catando os cacos e as pétalas, e assumir que tudo não passou de um mal entendido, que o sol há de brilhar mais uma vez a clara luz que chegará aos nossos corações, queimando, do mal, a semente e tornando o nosso amor eterno, sempre, novamente.

Sentado na beira da cama que é nossa e não minha, não posso aceitar que tudo se acabe neste dia de cinzas, marcado por sentimentos e costumes opostos ao que é a nossa vida, e sim o espelho do que fui antes de te descobrir, quando o sol me era raro e a luz negra do destino cruel iluminava meu teatro sem cor, onde eu desempenhava o papel de palhaço, um louco de amor.

Nestes dias sempre só, eu vivia procurando alguém que sofria como eu também, mas não conseguia achar ninguém, até que, naquela roda de samba, fingindo-me alegre, tocava meu violão, quando te vi, entre as cabrochas e as passistas, sozinha em um canto, desenhando em uma folha de papel de pão. Passei toda a noite acumulando coragem para falar contigo e, quando finalmente me aproximei, tu me recebeste com censura, pensando que o convite era de dança, mas o convite era de silêncio, e descemos até a praia onde sentamos na areia e deixamos que nossas tristezas se conhecessem.

Durante horas, foram só as nossas respirações miúdas se perdendo na estrondosa respiração do mar, então tu me perguntaste se eu carregava tanta dor no peito, por que o samba? E eu respondi que sempre soube esconder a minha mágoa, sem que me vissem com os olhos rasos d’água, fingindo-me alegre pro meu pranto ninguém ver e achando feliz os contentes, aqueles que sabiam sofrer. Nem a mágoa pode calar meu violão, eu disse, e tu me beijaste e, a partir deste instante, graças a Deus, minha vida mudou, quem me viu quem me vê, a tristeza acabou, pois contigo aprendi a sorrir. Escondeste o pranto de quem sofreu tanto e organizaste uma festa em mim, que comemoramos enlaçados, quietos, para não descompassar o batuque que ainda hipnotizava o morro. Na manhã seguinte, trouxe-te o desjejum e um buquê verde de rosas, que pediste para pôr em um vaso, como um pedido para que ficasses para sempre com o meu amor. E tu sorriste, ajeitara-te com sonolência e, cobrindo a nudez com o lençol, disseste:

O amor é como a flor, Nelson. Ele nasce e morre quando não se espera.

Sem braga, aproximei-me de teu ouvido e confessei:

Pode haver outra mulher tão carinhosa, mas para mim é apenas tu.

Nos dias que se passaram, construímos um amor tão duradouro quanto as flores que nunca perderam o viço. Agora caídas, penso o quão ingrata foste por não considerar ao menos o que elas representam. Se bem que, avaliando a frieza das tuas primeiras palavras, assalta-me uma suspeita de que tu usaste o carnaval como pretexto para se livrar de um amor que, para ti, nunca de fato existiu. Pesando o rigor dos teus protestos sobre um ato tão banal, sinto aflorar em mim o medo de que isto seja verdade e, inesperadamente, percebo uma lágrima descer pelo o meu rosto, anunciando o brotar do meu desgosto. Pois sempre fui bom para ti e, por ti, sem que soubeste, quase passei fome, apenas para honrar teu nome: o nome que te dei. Temo que, o princípio de flores, tenha me feito tão cego de amor que não percebi que eu era demais entre seus amores, e acabei tropeçando nos erros de uma mulher sem alma, que, no meu peito, abria uma ferida a sangrar.

Se assim for, sei que só a fé é que me trará consolação para tanta humilhação que viverei a suportar. Olho para o relógio: são duas da manhã. Contrariado espero por ti. Aguardando amanhecer o dia e findar minha alegria, imagino qual será o teu paradeiro, que até agora não voltou. Já mesmo nem sei se voltarás ou se me abandonaste de vez? A minha esperança está morrendo, e a saudade, no meu peito crescendo, é o meu coração que me diz que sem ti eu não serei feliz. Nada me resta, além da tristeza. Mas espere um pouco: não fui eu que te quiseste mal, foste tu que quiseste a mim. Posso ser um rei vadio, um poeta sem lei, porém nunca vivi em vão, fiz tantos amigos, muitos irmãos. Sempre plantei o bem, e, por que não iria colher o que mereço? A felicidade pode tardar, mas tem meu endereço. E, quando chegar, trará o samba: o desfile das campeãs, o último suspiro de um repique, um cavaquinho ao longe.

Levanto-me para fechar a porta, dizer-te adeus e esperar o próximo bloco atravessar, mas logo percebo que tudo não passa de ilusão. Pois, quando passo perto das flores, elas me dizem assim: vai, Nelson, que amanhã enfeitaremos o seu fim.

 

Nota do Autor:

Nelson Cavaquinho era mestre da poesia de botequim. Sempre nas rodas dos boêmios, pernoitando numa mesa acessada por uma soma de parceiros musicais, trazia a lume histórias de indivíduos à sombra de desilusões amorosos, ébrios, sustentando sobre a vida uma tonelada de pessimismo e de melancolia. Dizem que são de sua autoria mais de 400 composições, muitas das quais negociadas por uma ninharia ou usadas como vales para hospedagens em pensões baratas. Nascido no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em outubro de 1911, era filho de um policial militar, rumo que tomou até ser sequestrado pela malandragem, pela comunidade da Mangueira, pelo samba. A princípio, tocava cavaquinho, depois abraçou o violão, que fazia soar com o uso de dois dedos. Também peculiar era a sua voz roufenha, que trazia naturalmente um senso lamuriento para suas letras desditosas. Gravou quatro discos próprios e foi regravado por artistas do quilate de Nara Leão, Elizeth Cardoso e Elis Regina. Morreu em fevereiro de 1986 como Nelson Antônio da Silva.

Esse conto-colagem é um tributo (certamente não o melhor, mas um honesto) montado com trechos das composições ‘A flor e o espinho’, ‘Juízo final’, ‘O bem e o mal’, ‘Mulher sem alma’, ‘Quando eu me chamar saudade’, ‘Luz negra’, ‘Pode sorrir’, ‘Rugas’, ‘Vou partir’, ’Duas horas da manhã’, ‘Palhaço’, ‘Amor que morreu’ e ‘Ninho desfeito’.

Viva Nelson Cavaquinho!

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Isabela Penov

 

Foto: Ozias Filho

 

As Impossíveis Aventuras de Meu Amor num Outro Lado do Mundo

 

Num outro lado do mundo, a moça de pele encardida de suor e fumaça tentava explicar. Você não percebe, Meu Amor, que eu não posso? Que nem sei como você saiu de mim? Porque não havia mesmo espaço para mais um naquelas calçadas, apesar de elas parecerem tão longas e largas. Mas Meu Amor soltou um grunhido estranho, seus olhos imensos se arregalaram e ele regurgitou sobre ela uma baba espessa e escura como o asfalto. Era o lixo que não lhe caíra bem no estômago. A moça – eu gostaria de poder dizer seu nome, mas nem ela mesmo se lembrava. Podemos batizá-la de Moça, assim maiúscula. Moça fechou-se para dentro de si por um momento, para criar ódio. Tirou Meu Amor de perto, suspendendo-o com as duas mãos no ar, como se pudesse contaminá-la com aquele chorume que lhe escorria dos olhos e dos labiozinhos abertos. Em torno deles encontrou uma grande poça de água suja – pela manhã muito havia chovido sobre ela e Meu Amor. Foi então que ela fechou bem os olhos e imergiu a cabeça de Meu Amor na água até que ele perdesse o ar. Umas bolhinhas saltaram na superfície, ele parou finalmente de sacudir os bracinhos e tornou-se uma massa amorfa escorrendo com a água. Pronto. Agora ela podia ir trabalhar outra vez, o que fazia sempre entre o sono e a fome.

Mas eis que num dos baldes em que ela encharcava seu pano úmido e sujo, num dos baldes daquele preparo de água turva com o que pudesse matar todos os germes e vidas que pudessem insistir em proliferar-se sobre o chão alheio, naquela água algo debateu-se. Meu Amor! Ela espalmou as mãos para cima, arregalou-se toda, coagulada. De súbito enfiou os braços ali e com pressa retirou-o, lábios roxos de frio, apertou Meu Amor contra o peito para que se aquecesse, e balançou de um lado para outro, de um lado para outro, de um lado para outro, desajeitadamente e tão rápido que Meu Amor teve vertigens. Acocorou-se agarrada a ele. Meu Amor, aqui eu não posso, assim você atrapalha meu ganha-pão. Além do mais, Meu Amor, aqui não há lixo suficiente para alimentar a nós dois, e entre você e eu, Meu Amor, Meu Amor eu preciso escolher a mim ou a ninguém. O pequenino reclamava de fome e o estômago dela também, um pouco mais habituado. Meu Amor estava minguado, ainda mais franzino do que antes, e seu aspecto asqueroso percebia-se mais assim, com os ossos saltados. No fim das contas, Meu Amor que saísse de mim só podia ser amor minguado, torto, aleijado e sujo. Ela via-se nele, aquele ser mudo e sem dentes, faminto e malquisto, espelho de uma vida toda de intervalos e faltas. Meu Amor, você podia ser invisível como eu, quando você vai aprender? invisível como eu a vida lhe faria menos mal, passaria distante, indiferente, reclamaria do seu cheiro fétido e seguiria adiante para acontecer nos braços de quem pode e de quem tem, Meu Amor. Meu Amor, você não conhece nada da vida, você não sabe o quanto ela pisa forte sobre uma cabeça fraca de sono e de fome, você não sabe o quanto ela foge de onde há dor, o quanto ela abandona e deixa à míngua quem não nasce pra viver, mas pra ser vivido, pra ser vivido pelos outros. Meu Amor estava faminto, e Moça percebeu ainda que no silêncio, e irritou-se muito. Apertou-o bem, esmagando sua barriga vazia, sentou em cima dele e, na falta de panos limpos, foi com ele que limpou a latrina, esfregando-o violentamente contra o chão até que se gastasse e sumisse de vez.

À noite, ela ouvia mais o barulho do sereno que o rugir distante dos carros. Encolhida com as mãos no ventre, tentou chorar. Um cão gemia baixinho. Ela olhou em volta e viu o mundo todo naquela rua. Sentiu seu cheiro que não era de gente, nem de bicho, era de coisa vencida. Não pôde ver os outros que, como ela, também tentavam fazer luzir os olhos nos faróis dos automóveis. Suspirou, enterrando poeira nos pulmões, fez um gesto sutil riscando a substância densa do ar da cidade.

Foi quando ouviu um respirozinho, subitamente, em curtos intervalos, o respiro de um ar que faltava. Ao seu lado contorcia-se Meu Amor. Ainda. Pequeníssimo, mas estava ali e era ele mesmo. A Moça, sem poder pensar se ele tinha fome ou frio, botou-o numa pequena caixa sem poder observá-lo por muito tempo. Meu Amor até doía nos olhos, tão feio e mirrado estava. Deitou-se quieta sob o céu sem estrelas, entre aquele serzinho rude e um cão estranho alojado ali naquela pouca vida, cada vez mais pouca. Mil pessoas dormiam profundamente em suas casas. Esticando o dedo mínimo, experimentou oferecê-lo por um instante a Meu Amor. Num silêncio de tudo, ele agarrou-se em seu dedo com desespero a ponto de quase quebrá-lo, torceu-o, mordeu com força, e depois se acalmou segurando-o, e aquele dedo lhe parecia imenso em seu mundo de tão pequena estatura e tanta necessidade. Suspirou num milésimo de segundo. A Moça deixou-se estar, fechou os olhos, e acordou dia seguinte sem cão nem Meu Amor, acordou e nem moça era mais, acordou reclamando de fome num estranho ventre outro, num lado outro e qualquer do mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Vigília

 

Para Caio

 

Não posso fechar os olhos. Estás diante de mim e dormes, sem inocência. Dormes assim, em estado de segunda pessoa do singular: inspiração deslocada e atemporal. Diante de mim, como se estivesses desde o início dos tempos e indefinidamente fosses continuar, sem sobressalto, sem culpa – sem envelhecer. Repousas diante de mim cristalizando um estado tão cotidiano, a graça silenciosa e simples de deixar ser. Teu sono me diz: este momento. E eu levanto minha mão insone e cansada e passo lenta e repetidamente sobre a tua cabeça, enquanto não me notas.

(Toca-se de leve alguém que dorme e de algum modo se sabe, um pouco sem perceber, que a pessoa vai receber aquela carícia mais profundamente, e tão profundamente que seria impossível se estivesse desperta. Como se durante o sono as mãos pudessem penetrar a epiderme e tocar a substância intocável que circula, imperceptível, viva, sob a pele: ânima.

Gesto sem méritos: o outro jamais se lembrará. Na ilha distante e perdida do sono, apenas tremulará seu efeito efêmero, leves reverberações. Carinho anônimo e sem memória, apenas a pulsante cintilância que acenará a mil anos-luz de distância no tempo e no espaço – como as estrelas, que brilham sem estar ali. Não estão ali. Insuspeitadamente caminha-se enquanto constelações criam seus mudos espetáculos. Distantes – ausentes. E, no entanto, como existem! Brilham.)

Dormes. Acaricio tua cabeça cansada, nesta manhã pálida. Bordo assim constelações no fino véu que cobre teu sono – quem sabe ilumine tuas futuras andanças sem que me saibas. Assim, uma estrela: entrego meu gesto-luz sem nome nem memória: encanta-te comigo. Encanta-te comigo, mas cuidado: não me percebas. Carrega-me – guarda-me – num quarto escondido de onde nem mesmo tu possuis a chave. Deixa-me pulsar ali eternamente, enfeitar teu crepúsculo íntimo sem que desconfies. Deixa-me ser-te leve nesta carícia, esta entre tantas, lume aceso que nem sequer existe mais. Deixa-me te habitar assim, sem ocupar teus espaços. Deixa-me penetrar teu pantanoso e escuro deserto como luz – imaterial – para, sem querer, desvendar preciosidades que nadam no teu lodo amargo. Pequenas pérolas perdidas nessa espessa substância toda feita de lágrimas, acumulada através dos dias. Quero ser essa pequena  lanterna que te permita vê-las – se quiseres. Deixa-me.

Fica comigo assim, luz. Carícia. Não tenta reter-me entre as mãos, nem espera que eu seja feita para a contemplação. Não me contemples: permite que eu ilumine, para que contemples tudo. Toma. Aceita este meu manso efeito – morno – minha condição essencial e, por isso, inocente.

Deixa que eu te seja sem ser. Seja-me, então. Toma esta carícia rápida – agora é só tua esta carícia. Não é minha, é tua. Quando finalmente despertares, pisca os olhos lentamente e me vê aqui, primeira pessoa do singular, eu, dormindo diante de ti: este momento. Serás o mesmo e serás outro, porque acariciado no fundo de si mesmo. Aí me olha despido de tudo e tenta ver-me nua, também. Quem sabe neste momento uma vaga impressão emergirá por um segundo, num relâmpago pulsará minha tal carícia, insuspeitada, imemorial e simples, curto espasmo que te fará compreender o que eu nunca soube dizer, o que não se pode dizer nunca. Dá-me então tua mão amada e ampara meu sono, que preciso. Aceita-me. Esquece-me.

 

Isabela Penov vive em São Paulo, é professora de artes, atriz e escritora. Mantém o blog Semeaduras.

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Larissa Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

BIOTÉRIOS DOMINGOS

 

O poeta é um cientista com preguiça.
(Michel Consolação)

O lar-laboratório, casulo e consolo. Morada biotéria.

O [tubo de] ensaio de um amor líquido-gasoso. De solidez, apenas nossa efêmera química. Sentimentos sublimados, condensados, vaporizados. Jamais pistilo e pipeta, cadinho e pompete. Instrumentos descabidos, codinomes impronunciáveis.

Eu, a ruiva-alva, de polipropileno coração, cobaia de uma experiência virtualmente planejada.

Ele, uma espécie de professor Pardal. O cientista maluco, de peito-autoclave.

Ironicamente a televisão aberta e suspensa da antessala anunciava uma matéria qualquer de um Domingo Espetacular. E de fato foram noites agradáveis do mais enfadonho dos dias da semana. Lembro de uma em particular, onde a chuva batia na janela e o vento dedilhava a persiana. Barulhinho bom.

– Preciso de uma bebida para relaxar. – Disse eu, ainda confusa.

– Se eu soubesse tinha trazido. Só tenho água para te oferecer.

Sua voz é marcante como brasa em pele. Tem um quê de rouquidão que se assemelha a um constante resmungo. Gosto de suas gírias desencontradas, que colocam na mesma frase, lado a lado, várias gerações. Os olhos são de um magnetismo que ocultam até mesmo sua cor. O bater de asas dos cílios longos e negros emana a liberdade de um pássaro selvagem. O cabelo e a barba escura contrastam com a lucidez de seus gestos. Corpo quente [e rijo como sua mente], personalidade polar. Mãos pequenas, ego inflado como um colchão de ar.

Não caberia [ou não saberia] classificar o que se sucedeu nas duas horas seguintes. Era um misto de paz e urgência, desejo e pânico, riso e lástima. Uma intimidade, ainda que artificial, pré-fabricada em minutos. Não lembro de ter me sentido tão à vontade com alguém tão distante. Mesmo opostos [ele médico, eu monstro; ele criador, eu criatura], uma empatia de angústias e pesares.

Não saberia [ou não caberia] explicar o que se sucedeu nas duas semanas seguintes. Tudo foi tomado pelo silêncio. Uma cidade vazia como nossos copos, nossos corpos.

Não mais bom dia.

– O que você vai fazer hoje?

– Nada. E você?

– Nada também.

– Vamos fazer nada juntos?

São diálogos bloqueados, desfeitos, deletados. Afetos liquefeitos. Experimentos previamente testados e engavetados. Arquivados nos labirintos da memória que insistimos em perder.

Às vezes pareço um rato correndo em círculos numa esteira invisível. Um animal de teste engaiolado. Manipulado e reprovado. Não mais monitorado. Pronto para ser substituído. Morto numa câmera de dióxido de carbono ou ingerindo uma carga enorme de anestésicos. Aliás, é assim que me sinto: entorpecida. Um ser apático, desprovido de razões e pretextos. Sequelada e incapaz de novas experiências. Incinerada junto ao lixo hospitalar.

Amores voláteis não resistem às segundas-feiras. Não merecem segunda chance.

No criatório das palavras, Larissa Mendes é mais uma cobaia da inspiração.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Jorge Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

balada da vida ordinária

 

na vida ordinária você varre a sujeira pra debaixo do tapete, faz clareamento dentário e fica limpo e asséptico como os cadáveres da hora sublime. na vida ordinária você usa óculos escuros renascentista, um coração de grife e lê livros que fazem você ser um filhodaputa cada dia melhor. na vida ordinária você sente piedade e compaixão, entra em transe quando vai às compras e é dotado de poderes mágicos tecnológicos. na vida ordinária você compra/vende/aluga/negocia corpos, mentes, cargos públicos, ignomínias. na vida ordinária você se exercita na arte da dissimulação, cita os clássicos e vai virando alma penada. na vida ordinária os amigos que você nunca teve, as mulheres que nunca o amaram, estão todos mortos bebendo chopes na orla da praia. na vida ordinária você consome frutas químicas, amores desidratados, imagens de santos e mártires. na vida ordinária você não sente medo nem torpor, só psicose e rancores frígidos. na vida ordinária tudo tem preço, peso e sabor e é tão artificial com corantes que dá vontade de morder. na vida ordinária você higieniza o desejo, acumula gorduras, segue o comando da voz. na vida ordinária existem dívidas, apólices, banco de dados e catálogos que explicam. na vida ordinária você trapaceia, ilude, ludibria e finge como todos fingem. na vida ordinária você é célula, parafuso, número, uma coisa entre coisas. na vida ordinária todos os sonhos estão em liquidação e você ainda pode pagar no cartão daqui a 30 dias. na vida ordinária você gasta o seu salário em culpas e acessórios, constitui família, constrói muros, patrimônios e agoniza místico e feliz todas as horas do fim.

 

***

 

ânima

 

crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. faça adormecer os móveis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um cálculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pescoço, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me faça respirar.

 

***

 

manual da trapaça

o truque é ter medo até derreter os ossos. o truque é virar estátua de sal e correr com os cães. o truque é ser de gelo e não evaporar. depois é o lodo corrosivo, o torpor na curva escura, a lógica dos falsários. depois é a solidão comendo pelas bordas, os narcisos do paraíso digital escrevendo líricas sintéticas. depois são só os ratos pedindo perdão. o segredo então é ser ulisses na caverna com os ciclopes e não ser ninguém. o segredo é entrar no invisível com sangue escorrendo pelo nariz. o segredo é viver no agora descartável, indolor, sóbrio como os mortos. o segredo é investir na prótese dentária, no artifício lúdico, no verniz da auto-promoção. depois é o vôo raso sobre os escombros, teatro infanto-juvenil, kardecismo e psicose. depois são os alcoviteiros do bairro, o churrasco, a porção de fritas, o chopps. depois é o tráfico, a corrida de obstáculos e o grande espetáculo diário dos horrores.

 

***

 

hell paraíso

agora assinamos leis que matam crianças, tatuamos o nome do medo e da cobiça em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estimação. cientistas políticos, agências publicitárias e poetas irascíveis negociam o céu azul enquanto queimamos índios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de nós sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes aos focas e as hienas. agora os falsários e os corruptos se multiplicam nos corredores das repartições públicas, vampiros almoçam em fast-foods como príncipes das trevas que são. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores minúsculos e o hálito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora é o futuro em ruínas, a ilha dos tubarões, o paraíso dos assassinos.

 

***

 

esfinge

o que você fez? mexeu nos meus papéis? vasculhou meu lixo? fez despacho pra iansã? o que você fez? coou meu café na calcinha, colocou veneno de escorpião na minha bebida, deu um nó nas minhas meias, quebrou meu espelho, escreveu meu nome na pedra de gelo, o que você fez? espetou um alfinete no meu peito? sussurrou em meu ouvido enquanto eu dormia? o que você fez? deu prus meus amigos? emborcou meus sapatos? queimou minhas cartas, meus planos de vôo? roeu minhas unhas, meus ossos, todos meus sonhos? o que você fez? deixou meu nome na encruzilhada? chamou a polícia? jogou minhas cinzas prus ratos? envenenou minha comida? o que você fez? colocou minhas coisas numa mala e jogou no mar? riscou um x vermelho na minha cara no porta-retrato? o que você fez? mastigou minha sombra com os seus caninos? mergulhou meus cabelos no inferno? tocou com a ponta dos dedos em minha testa e enlouqueci? o que você fez?

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 Mariel Reis

 

Ilustração: Vera Lluch

 

O Peixe


Ele tinha transtornos. Os transtornos impediam que se relacionasse com mulheres. As mulheres evitavam-no a todo custo.

O custo era alto. Alto porque contratávamos prostitutas. As prostitutas tinham que ser louras. Louras e peitudas. Louras, peitudas e altas. Altas, altas, depois de tanta bebida. Bêbadas, elas começavam a olhar para o meu amigo. Ele tinha transtornos. As prostitutas eram fadas.

Ele não notava o desprezo, o nojo, o desconforto. As prostitutas depois de rodadas de bebida esqueciam por um tempo o desprezo, o nojo e o desconforto. Permitiam-lhe tocar nos seus seios.

Ele tocava, agarrava e mordia as prostitutas. Prostitutas lindas, louras, altas. O atlas do mundo dele. Torto, na cadeira de rodas.

O dinheiro comprava toda aquela felicidade. As prostitutas passeavam em sua cadeira de rodas elétrica, dançavam com ele, colavam os ouvidos à sua boca para escutarem a sua voz fraca.

Tudo custava dinheiro, muito dinheiro.

Eu bebia uísque nacional. Uísque falsificado. Ele, lá, na pista de dança, com as prostitutas altas, louras e peitudas. O meu dinheiro escasseava. Toda vez ele me pedia as prostitutas louras, altas e peitudas. Agora queria prostitutas louras, altas, peitudas e de olhos azuis.

Chamei as mesmas da festa anterior. Comprei lentes de contato para todas. Todas tinham agora olhos azuis.

O médico dele deu-lhe mais três meses. Ele repetia O PAI , O FILHO E O ESPIRITO SANTO. Repetia. Repetia. Três meses. Ele se apaixonou pela prostituta alta, peituda, loura e de olhos azuis. Queria casar com ela. Casou bêbada. Era um casamento de mentirinha. Dormiu com ele a primeira noite. Cobrou alto. O meu dinheiro acabando. Fiz um pacote de uma semana.

Ele não queria mais as festas com tantas louras, peitudas, altas e de olhos azuis. Só queria ela. Eu bebia litros de uísque, trabalhava pelo computador, saía pouco de casa. Descansava na piscina. Ele ria. Os cabelos afagados por aquele sonho comprado caro.

Começou a me pedir coisas impossíveis. Viagens a lugares distantes, sagrados ou não. Ele me pediu para morrer em um submarino. Havia aquele parado no velho cais do centro que servia para a visita de estudantes. Ele não sabia quando morreria. Morrer fora de um submarino estava fora de cogitação.

A prostituta–esposa me pedia mais dinheiro, mais bebida. Eu me enojava de tudo aquilo: Por que ele não poderia levar uma vida normal? Por quê? Os médicos não se mostravam satisfeitos. Suspendi os remédios. Quer dizer, ele suspendeu.

Morávamos no velho submarino do cais da cidade. Todo vivente que o visitasse nos encontraria por lá.

As garrafas de uísque vazias boiavam ao redor do casco do submarino, repletas de cartas.

Um dia, acordei tarde, de ressaca. Ele estava vendo o nascer do sol. Levantou-se com esforço da cadeira, a prostituta-esposa molhava os pés delicadamente n’água. Escorregou até o mar. Nadou de costas uns duzentos metros.

Afundou.

Reapareceu, mais à frente.

Ele queria ser um peixe. Despedi a prostituta. Consultei o saldo de minha conta bancária. Deveria comprar um barco. Vendi o que me restava. E me tornei um pescador.

Mariel Reis é escritor, publicará em 2014 o livro de narrativas  “Bordel de Bolso” pela Editora Oitava Rima. Escreveu os livros: “Linha de Recuo” (contos), “John Fante Trabalha no Esquimó” (contos), “Vida Cachorra” (contos), “Cosmorama” (poesia), “Cidade Tomada” (crônicas políticas), “A Arte de Afinar o Silêncio” (contos) e “A Fábrica” (narrativas – inédito).

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Foto: Bruno Kepper

 

A NORA

Yara Camillo

 

– Chegaram, Juliana!

A Mãe corre até a janela: o filho vem com a nova mulher, que nem de longe condiz com sua expectativa.

Pequena, magra, cabelos rebeldes, olhos muito vivos – deve ser por conta deles o sorriso que brilha.

Desconcertante: é a palavra que ocorre, à Mãe, para explicar a decepção. Tanta moça em São Paulo e ele foi se engraçar com essa, pensa, tomando fôlego para ir à sala.

Chega a tempo de ver o Pai abraçando o filho e recebendo a nora:

– Seja bem-vinda. E que sorriso bonito! Foi assim que você pescou esse caboclo?

Pronto, lá vai o Pai, com a corda toda. E ela, a Mãe, como fica? Não tem vocação para rapapés, o máximo que consegue é ser educada.

– Gostei dessa menina, Juliana, porque quando entrou, em vez de reparar nos móveis, olhou para as pessoas.

Que pessoas? – a Mãe suspira. Faz tempo que só restam ela e ele, na casa.

– Muito prazer – ela diz, num esforço.

– Oi – diz a Moça.

Oi? Isso é jeito de se cumprimentar? Pensa a Mãe, abraçando o filho.

– Venha tomar um café, menina – o Pai convida, esbanjando o encanto que só ele tem, quando lhe dá na veneta. – Aqui o café a gente mói na hora, quer ver?

Por insegurança, ou porque gostou mesmo do Pai, a Moça se desmancha em sorrisos e, justiça seja feita, ela sorri com os olhos também. A mãe concede o veredicto: Simpática. Não digo encantadora, mas simpática.

O café saiu amargo, pensa a Mãe. A Moça parece ignorá-la, condescender a cada pergunta que ela faz, enquanto, com o Pai, nossa, até parece que os dois se conhecem há anos.

Quero só ver essa menina, lá no sítio.

Pois o Pai já começou a falar do sítio, que ele conserva à moda antiga, na base do lampião e fogão de lenha, horta, cafezal, passarinhos como já quase não há por essas bandas, morcego, cobra, tatu…

A surpresa da Moça é tudo que o Pai precisa para se espalhar, pensa a Mãe. Quando ele se cansar, talvez ela possa oferecer os presentes que separou para a Moça, para o filho: roupas de cama, mesa e banho; é o mínimo que se pode dar a quem se casou assim, sem avisar a família.

A Moça surpreende, fica muito à vontade no sítio, prova as frutas, acompanha o Pai num passeio pela horta, pelo cafezal, pergunta de tudo e vai repetindo o nome das plantas, dos passarinhos… À tardinha, se deslumbra com o pôr-do-sol, já ganhou uma cor, parece mais assentada, agora.

A Mãe acende o lampião, mostra o álbum com fotos das antigas terras da família. A Moça admira as paisagens, os detalhes:

– Qual dessas fazendas era do seu avô?

– Todas – responde a Mãe, feliz pela primeira vez, no dia que se finda.

– Meus avós eram colonos numa fazenda assim.

A simplicidade das palavras, sem revolta nem pejo, confirma a impressão da Mãe: a nora é, decididamente, desconcertante.

– Moça esquisita, não? – ela comenta com o Pai, antes de dormir. – Magrinha, espevitada, vai ver nem tem boa saúde.

– O que lhe falta em corpo, sobra em alma – diz o Pai.

– Sabe o que eu acho?

– Sei, Juliana, sei.

A Mãe fecha os olhos. Não era isso que queria, para o filho. Mas nessa noite sonha com a filha que nunca teve: as duas de mãos dadas, fugindo da chuva para o rancho à margem do Tietê. No tempo do sonho resumem-se os dias e os anos, Natal, São João, uma festa noite adentro, um café ao amanhecer. Nos cabelos rebeldes da filha, o primeiro fio de prata: Olha só, mãe! As duas riem, se olham. Mas aquele rosto não é o da filha, é o da nora.

– Será? – pensa a Mãe, ao acordar.

Já na cozinha, passando o café, vê a nora junto à porta:

– Quer ajuda, Dona Juliana?

– Quero, filha.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Foto: Bruno Kepper

 

Trancelim

Pedro Costa Reis  

     

Canções. As canções de pequeno. O trancelim dourado no qual me pendurava pelos dedos, deslizando e rodando suavemente pelo pulso da mãe. Real ou não. Às vezes era só trancelim. Quando não, era melhor, com as canções, que passeavam detalhadamente por cada assobio meu quando maior, entre os trabalhos na horta e no curral atrás da casa, com Noite, Lobisomem e os outros bichos, padres de minhas confissões. Se falava dentro da casa, era chibata, por isso penso, mais que falo. E ouço. E guardo essa lembrança dentre as meias e panos do meu quarto. O bater das agulhas da minha mãe à janela. Desta vez eu saio, pra não ouvir mais.

“estes xales e colchas eternos que faço. Motivo que seja, pra esquecer-me das horas. Somos somente três nesse fim de mundo pra onde Aurênio me arrastou, puxou e fincou com mais força do que as folhas que ele planta e arranca todo dia atrás de casa, com aquele menino burro. Arranca e liberta. Menino, não serve nem pra modelo das meias que faço pro pai dele, mas mesmo assim divide e gasta pra eu ter que fazer mais, todo dia. Perdi as contas. Tanto faz, sou mais ele que eu mesma.”

Luarina entoa discretamente uma das canções antigas enquanto tricota. Tensiona as bochechas com força pra não chorar, pois era sexta, e Noite já estava pronto pra levar Aurênio. O canto sai rouco e forçado.

Meu pai sai sem falar com ninguém. Entra em meu quarto, talvez para procurar meias. Relógio invisível de ponteiros iguais com os quais meço o tempo lento. Mãe tece a vida eterna entre sonos ocos da madrugada de sexta, entre a revolta e a resignação, espadas de horas, constantemente a estalar. Meu pai deu a volta na casa, ainda dentro da névoa. Só lembro-me da cidade, longe, de dia, quando novo, depois nunca mais ela precisou de mim. Antes era uma infinidade de pernas, lixo, vozes, gritos, pombos e muitos brinquedos. Pendurava-me nas tábuas e via difícil os bonecos que olhavam assustados ao redor, os cavalos olhando assustados para frente. Brisa quente. Olhava para a mãe de olhar sério e queixo forte, como o do pai. Será que sempre foi assim? Nem dava trela para a curiosidade, e não era doido de falar coisa que fosse. Voltava aos pés levando os sacos verdes fedidos, pesados.

Otávio persegue atento a intervalos de janelas os cascos de Noite névoa afora.

Por um momento esqueço dos sons dos ponteiros da mãe atrás de mim. Esqueço da sua presença, por pouco, sei bem. Mas sem acalanto hoje, deixa ela sozinha dormir em paz o sono vazio de canções. Dá saudade. Dava. Pensa bem, Tavito, olha a chibata ali atrás, é doido é? Medo de tudo, pavor de nada. Antes eu ia mais, de dia, até com meu pai. Agora meus amigos sumiram. Antes era correria. Agora também, mas sem sorriso ou gritaria.

Afasta-se da janela, ouve o distanciamento de Aurênio, cujo som dos cascos possantes de Noite emudece a canção que Luarina discretamente entoa.

O estalar novamente. Ela mal me olha de frente, muito menos na sexta. Se esquece no meio desses panos, as bochechas tesas. Sempre novas linhas no sábado, costurando as semanas em meses e anos. Mas essa sexta eu saio. Sete anos costurado nesse meio de nada. O silêncio é dono deles por aqui, mas hoje não. Vou-me em Lobisomem.

Sai da casa por detrás, pega a sela, a chibata e a rédea tateando pelas paredes e usando do costume apronta Lobisomem velho pra seguir. Luarina cochicha a melodia enquanto ouve Otávio por detrás da casa.

“Devia ter levado algo pra agradar as raparigas filhas da puta de sexta-feira, e agora o menino grande quer putariar também. Só pode, de fora tem tudo do pai, o demente. Meia é não era que foi procurar no quarto do menino. Só quero que volte. Essa música sempre, sempre”

Tricota com mais força, estalando forte as agulhas, uma na outra.

Agora não quero saber o porquê de ela nunca sair com meu pai toda sexta. Que fique. Aqui, as pegadas, mas longe, como vou ver? Luz. Sim, pela luz. Não ouvi sequer o som das cobras debaixo dos cascos do velho Lobisomem, perdi a noção e cheguei aos portais da cidade. Um vazio, e suspeitei que fosse o inferno, só dos gritos ao longe que vinham me receber. Das almas loucas ao longe passando bruxuleavam silhuetas na névoa corrente. Um vazio, e os balcões não estavam lá, na rua que senti nos pés ser a dos dias, antigos. Puxei com força Lobisomem e avancei. Segui a música alta, animada, e vi umas pessoas passando cheirando forte. Uma lâmpada fortíssima cobria de verde os passantes e a entrada do bar era ensurdecedora. Mar de gente se debatendo por dentro. Conhecia aqueles rostos velhos e desconhecia os novos. Havia um balcão úmido à frente, onde as pessoas se penduravam esticando as mãos e gritando um não-sei-o-que-de-mel-limão-tangerina-canela-pimenta-troco, e virei de lado numa entrada sem porta com uns dizeres obscenos em volta. Fui empurrado para dentro, olhei para trás e não vi alma que pudesse culpar. Me viro e de um susto pensei ter visto minha mãe sentada com uma puta no colo. Trancelim em pulso falso. Era meu pai que a sentava no colo, dourada com as memórias de criança. Acordei sem lembranças, caído na esquina do bar, entre gritos e o crocitar das sirenes. “Foge, foge, pirralho!”, um mendigo gritava. Corri tropeçando em poças, com o trancelim vermelho no bolso.

De uma das janelas, enquanto não entrava, ela se levantava de um susto, observou-a cruzar a sala até olhar para trás antes de entrar no quarto. Olhou para trás e foi deitar-se. Estava, ouviu? Mas ele não está dançando. Estava. Vai pro quarto, velha, que ele não volta mais. Cadeira de frente à janela e o xale meio acabado com as agulhas no chão. Foi pro quarto, limpou com os dedos o trancelim. Ela se virou, apertando o xale contra o corpo, a outra apoiada no rosto do menino dentro do quarto, que cheirava a velhice, a brisa gelava o suor debaixo dos lençóis. Não dormiu. De um susto levantou, sob a luz: viu o pai no rosto velho da mãe. Tirou a mão da corrente gasta em pulso seco. Virou a cabeça e o riso demente, desaparecendo à medida que calava o riso, desaparecendo de cabeça até embaixo como se subisse a cabeça primeiro e calava para algo que o suprimia como um desenho de giz sendo apagado da lousa.

(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Foto: Bruno Kepper

 

 O  sonho

Anderson Fonseca

 

Quem serás, esta noite, do outro lado
Da parede do sonho indecifrado?
Jorge Luis Borges

 

Tinha por costume, um ilustre cientista, Dr. Andrea Svevo, visitar-me às tardes de domingo para conversar assuntos que a nós dois suscitavam interesse.  Habitualmente às 14h quando chegava, sentava-se – na poltrona que fica à direita da estante de livros – coçava o bigode, acendia o cigarro, e depois de lançar o fumo no ar, dava inicio ao diálogo que se alongava até o fim da tarde. O hábito de sua visita – exata e assídua – tornou-se para mim um rito… Até o dia em que se atrasou. No começo da noite ele apareceu como uma ave de mau agouro, assim, repentinamente; entrou arrebatado, tirando os sapatos às pressas, procurando com o olhar o assento. Estava agitado; a fala trêmula e com espasmos. Entre balbucios repetia que tinha algo a me contar. Sugeri – indicando a poltrona – que se sentasse, Svevo se sentou, acomodou os ombros largos, ajeitou o bigode, acendeu o cigarro para não faltar com o costume e começou a dizer:

– Dr. João Zveiter, o senhor, como sabe, não sou um homem que se impressione por qualquer ideia, ainda que minhas cogitações em torno do misticismo lhe pareçam surrealistas, imagino que não pense a respeito de mim como um insano. Acredito de boa fé, que apenas respeita minhas opiniões. Estou certo?

– Sim – concordei.

– O senhor deve se lembrar de quando comparei o espelho ao sonho e disse-lhe da possibilidade mágica do sonho se comportar como espelho. Certa vez, você mesmo disse, repetindo as palavras de um poeta, que o espelho e o sonho são um mesmo e único ser nos olhos do homem. Baseado no que me disse, retruquei lhe dizendo o quanto acredito que o sonho possa nos revelar o futuro e você concordara comigo. Mas lembro-me de você ter dito, citando Jung, que também é possível que o sonho nos revele o futuro daquele mesmo sonho, ou nos mostre outro sonho que ainda há de aparecer. Em suas palavras, era possível um sonho antever outro sonho dentro de si mesmo.  – Svevo dizia fitando-me os olhos com a convicção de um luterano. – Pois bem, meu amigo, hoje tive a sensação de tais ideias. Hoje sei o que a certa hora da noite hei de ver, quando meus olhos estiverem cerrados. O que vou lhe contar, deve ser dito de uma forma que não possa esquecer, direi a você o que ainda não me aconteceu, e sei como será sem antes ter sonhado. Certamente, Dr. Zveiter, você irá me perguntar como posso saber o que não me aconteceu, se nem sequer mergulhei no vasto sonho para que este me revele o futuro. Sinceramente, não sei como explicar, somente lhe garanto, com fé, que sei o que há de me acontecer no sonho.

– E como o senhor pode me garantir de ter antevisto o sonho sem antes sequer ter sonhado? Quer que eu aceite que sabe apenas porque você tem certeza do que diz, pela fé? Está por acaso debochando de mim?

– Não! – exclamou Svevo como uma criança questionada pelo pai tentando convencê-lo de que não mente. – Eu sei, é isto.

– Ora, hei de aceitar o que me diz, como hei de ouvir o que há de me contar, mas não porque existe lógica no que afirma, pois na verdade, sabemos ambos que não há nenhuma razão no que está dizendo. Poderia interná-lo num hospício, para que recupere, lá, sua sanidade. Mas acredito que ainda que eu fizesse isso, você continuaria a defender sua ideia. Não tenho outra escolha senão ouvi-lo. Diga-me então com suas palavras previamente escolhidas o que tem a contar. Diga-me o que viu.

– Não o que vi Dr. João Zveiter, mas o que hei de ver.

– Fale logo.

– Esta noite sonharei um sonho inevitável. Sonharei que diante de mim, nesta sala, estará outro eu. Ele estará sentado onde estou. Saberei que ele é eu porque o sonho me dirá e não porque reconhecerei seu rosto (no sonho o rosto é uma sombra). Ele estará diante de mim em silêncio aguardando que eu fale, e eu mostrarei a ele minha angústia e meu desejo. Direi a ele que a alma que carrego comigo é maléfica e que dela quero me livrar. Ele então compadecido estenderá sua mão. Quando a toco sinto parte de minha alma ir para com ele e mal ela se vai já me sinto diferente. Ali, naquele instante, percebo que a outra parte agora a ele pertence. Ali, entendo que ele é o limbo e que ela ficará com ele para sempre. Ao despertar já não sou eu quem desperta, mas outro, porque embora saiba que ainda sou, sou um eu com menos de mim. Não posso lamentar. Aceito que é real; eu estarei com o outro eu, e ele levará uma parte de mim consigo, ele é meu limbo, e o que é eu, ao estar com ele, não mais retornará.

– O senhor usa de uma linguagem poética para descrever o indescritível. Acredita que o uso desta linguagem convencerá a mim de que o que diz é verdade? Não obstante creia que a poesia seja a língua do infinito, não a considero suficiente para tornar lógico o que é irracional; é possível tornar aceitável o fantástico aos olhos de um sábio, não significa, entretanto, que valha como verdade. E o que o convence de que a visão do futuro sonho seja real a ponto de perturbá-lo?

– Zveiter, já conversamos a respeito do sonho ser um espelho, se tal conceito for verdadeiro, nada impede que a alma se fixe no sonho como a imagem no espelho, e, se este espelho for o inconsciente, é claro que a alma se fixará nele sem retornar.

– Ainda assim, não disse o que o perturba.

As horas se passavam sem nos aperceber e Svevo a cada minuto dizia com maior convicção o seu sonho e a cada minuto que a convicção evoluía para o indubitável, sua feição transformava-se; a metamorfose de seu rosto me amedrontava, eu temia por algo pior. Pois embora o sonho fosse apenas devaneio de um filósofo, este mesmo sonho teve o poder de mudar a mente de um homem. Não mais se olhava para Svevo e se podia afirmar ser ele. Diante de mim, outro surgia, mas quem?  Eu não sabia, não sabia, até que ele disse:

– Tenho razões para crer que após o sonho cometerei atos terríveis que me levarão a um fim igualmente terrível. A ausência de minha alma, certamente me tornará em alguém incapaz de distinguir o bem do mal. Eu me vi matando Madelaine e você, Zveiter. Eu matarei para santificar o mundo de um mal invisível, e ainda que esta razão seja insana, e também indesculpável, é a única razão que me há de vir sem que eu a questione. Creio imensamente que ao fazer, o farei sem arrependimento. Apesar de agora considerar um ato terrível o que farei, após o sonho me parecerá natural. Eu serei este outro que desperta. Portanto, esqueça o que você vê neste momento, apenas pense em quem hei de ser. Pense em mim, agora, como aquele que surge depois do despertar.  Estou tomado por esta certeza, e isto, me conturba profundamente.

Andrea Svevo estava transformado. Eu o olhava, mas sabia que já não era ele quem estava diante de mim, como se o sonho desde o seu futuro já influenciasse o presente, como se aquele outro eu, já existisse, ali, diante de mim. A hipótese de que o sonho, que ainda nem se realizara, já o tinha tornado em outro, me seduziu a ponto de crer estar certo de que Svevo não era mais o amigo que conheci. Mas seria ele realmente capaz de assassinar sua esposa e amigo? Seria possível que ele abandonasse parte de sua alma num ser extracorpóreo, cuja existência era improvável, e, sobretudo, existindo no interior dele mesmo tornando-o inverificável cientificamente, e ainda sim, real somente para ele? Fantasia ou realidade me perguntava por que Svevo acreditava tanto neste sonho. Convenci-me de que Svevo não mais existia. Apiedei-me dele e a piedade levou-me a fazer o que era necessário.

Antes de Svevo dizer “A…”, com a agilidade de um jovem, saltei da cadeira encravando em sua garganta a caneta que estava em minha mão. Enquanto a caneta deslizava pela carne indo cada vez mais fundo cortando a veia jugular, rasgando o tecido fibroso, a fenda aumentava seu raio de abertura deixando o cálido sangue escorrer grosso com gotejos pesados sobre o chão; a sensação de que era eu que ali morria, crescia em mim alucinadamente, inquietando-me por dentro, e embora lutasse para afastá-la, sabia ser impossível. Tal como a caneta penetrava a garganta de Svevo, a ideia imergia em meu espírito, até – no mesmo instante em que a caneta afundou-se de vez na garganta – afundar-se de vez em mim. Não havia dúvida, Svevo era meu outro eu e eu o havia assassinado. A cada gota de sangue que escorria crescia a certeza de que tudo era um sonho, e agora, ao despertar, quem levantaria era outro, enquanto eu passaria a eternidade no limbo. Como disse Svevo, aquele sonho… Era inevitável.

 

(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)