Tomo coragem e me aproximo da primeira mulher, sentada no batente da escada que vai dar em uma academia de artes marciais. O sol de quase verão faz brilhar seu rosto escuro.
Não é comum abordar desconhecidos, ainda mais para perguntar o nome, mas era exatamente isso que eu queria da mulher. Cruzava com ela quase todo dia, indo e vindo, sentada em batentes ou dormindo debaixo de marquises. Fosse como fosse, parei decidida a entrar na sua órbita.
Feita a pergunta, ela me fitou com olhos avermelhados, cuspiu para o lado e depois de acompanhar o trajeto da saliva, respondeu com a cabeça voltada na direção do vento.
– Esqueci.
A resposta só aguçou minha curiosidade.
– Tenta lembrar, seu nome não é Luzia? Você tem cara de Luzia, sabia?
– Luzia sabia não é meu nome não.
– Então é só Luzia?
– Só Luzia também não me chamo não.
– Me diz como você se chama.
– Não me chamo Luzia sabia nem só Luzia.
– Tudo bem, esquece.
– Esqueci, repetiu dando outra cusparada, dessa vez quase me acertando o braço.
– Você parece uma princesa.
Além do olhar, recebi de volta alguns dentes no meio da boca, sem saber se era um sorriso ou simples movimento da face. Os trapos cruzados nos ombros, nos quadris e nas pernas davam a ela um porte de princesa.
Encontrava a mulher de manhã cedo, se espreguiçando em cima de tiras de papelão, tentando ajeitar os panos, limpando os olhos com saliva. Acompanhei por duas ou três quadras sua busca por comida ou alguns goles.
Quando era só isso que conseguia, se animava por instantes, erguia a cabeça e desfilava para ela mesma. Mais adiante se encostava em qualquer canto, as pernas abertas, o olhar desfocado, a cabeça mal se sustentando no tronco. Ou então colocava os braços em volta dos joelhos, cabeça entre as pernas e assim ficava, muda e tonta. Nada por dizer, nada por fazer.
No final do dia, ela ainda arrastava o manto roto pelas calçadas, os pés grossos de tanto chão. Mas não perdia o porte, por mais bêbada que estivesse, mais faminta e suja. Havia uma luz naquela vida. Acho que foi por isso que adotei Luzia.
II
A segunda mulher me atraiu pelos berros e gritos, a disposição de viver brigando com o mundo. Estava dentro do jardim japonês na manhã em que cruzei o viaduto. A saia levantada até à cintura, lavava-se à beira do pequeno lago. A figura seminua atraiu olhares, depois risos que passaram ao deboche. Sem interromper o que fazia, a segunda mulher disparou uma rajada de palavrões, mandando todo mundo para aquele lugar e outros semelhantes. O que ela exigia a seu modo era apenas respeito, afinal, embora ali fosse um local público, estava num momento de intimidade. Não podia usar a água do laguinho? Então que tal a casa de alguém da plateia? Quem oferece? Sua voz alterada ecoou pelo viaduto, feriu ouvidos e logo espantou os curiosos. Terminado o asseio, saiu do jardim como se do banheiro da própria casa e foi postar-se na calçada. O olhar desafiador era de quem estava pronta para mais um dia de luta, ai de quem tentasse zoar com ela.
Um dos alvos mais frequentes de sua indignação são os motoristas que saem dos estacionamentos e garagens sem buzinar. Quando se assusta ao ter de parar bruscamente, não poupa ninguém, xinga até ficar rouca, corre atrás, bate nos vidros, faz questão de chocar. Vi uma vez ela despejar sua raiva contra dois manequins de gesso de uma loja, uma gueixa e um samurai. Diante da vitrine, tocava os braços, o rosto, olhava os manequins impassíveis e fazia comparações em voz alta. O que eles tinham mais que ela? Ela era gente, enquanto eles, se desse um empurrãozinho, quebrariam e virariam pó ali mesmo.
Sentada num banco da praça, cercada de senhores e senhoras de olhos puxados, a segunda mulher costumava discutir com seus fantasmas. Mexia nas sacolas e dialogava com não sei quem invisível. Não queria “ele” por perto, preferia viver só, de louca bastava ela, dizia empurrando o invisível com mãos e pés. E ria alto, abraçava as próprias costas, dava tapinhas, levantava as pernas, se estirava no banco, se encolhia toda dengosa.
Um pastor que fazia ponto na entrada do metrô resolveu aproveitar a ocasião, ali estava uma que precisava ser salva. E conclamou os que o cercavam a tentar trazer a ovelha irada para o rebanho. O idílio imaginário durou até a chegada do grupo. Quando se aproximaram, a mulher retomou seu estado de ira e mostrou as garras. Urubus e galinhas depenadas foi o que ouviram de mais suave. A criatura estava na praça curtindo a dela, por que não a deixavam em paz? Pegou o que era seu e saiu praguejando em direção à Ladeira dos Estudantes. Por instantes ainda ouvi ecos ladeira abaixo da naturalmente alterada e de quem nunca quis saber o nome ou origem.
III
A terceira mulher também perambula por ali. Cabelos ralos, olhos de quem vagueia para dentro, sempre para dentro, lembra uma moça antiga, dessas recatadas. Vive rodeada de cachorros famélicos com quem divide a comida que consegue. Dizem que já foi professora, que perdeu a memória e não sabe mais o caminho de casa, se tem pai, mãe, filhos, irmãos.
A última vez em que a vi, parara de chover e fui à padaria, onde dei com ela na calçada ao lado da porta. Com o mesmo vestido bege cobrindo os joelhos, um quase nada naquele começo de manhã. A prole tinha aumentado, segurava agora uma galinha, um fogo de penas vermelhas e azuladas debaixo do braço. Os cabelos úmidos, distribuía pedaços de pão entre seus bichos e mastigava algum, com gestos polidos.
Mergulhei nos seus olhos sem que percebesse, e veio aquele sentimento. Não de pena pelo que ela tinha sido e como vivia, nem a considerava um ser miserável. O que me atraía era sua presença, ao mesmo tempo tudo e nada na paisagem.
(Ieda Estergilda de Abreu é cearense, vive em São Paulo, já morou em Brasília. Escritora, jornalista free lancer (e bacharel em direito), tem livros de poesias publicados: Mais um Livro de Poemas; Grãos – poemas de lembrar a infância; A Véspera do Grito – um infantil : O Jogo do ABC. Colaborou em jornais, onde também publicou crônicas, e escreve para algumas revistas. Tem inéditos contos, poesias e histórias para crianças e jovens)
Quando.. bateu a porta atrás de
si,. …..rolaram….pela …escada
algumas.... lantejoulas verdes na
mesma..direção,..…como… .se .quisessem. alcançá-la.…………
Lygia Fagundes Telles
Os dedos percorreram o tecido verde jogado sobre a cômoda, numa lenta observação. A larga camisa era feita desse tecido sintético, imitando a leveza de uma seda, porém mais resistente. Os tons de verde brilhantes sobre um fundo multicor, as várias cores, tão diferentes e iguais, fazendo uma trama confusa. Como marca definida, apenas o desenho de uma pata de lagarto no ombro. Aqui, o brilho do tecido ficava inteiramente ofuscante, como se a pata fosse bordada de lantejoulas verdes. Tatisa acariciou aquele desenho com seus dedos brancos, as unhas curtas e sem vaidade, dedos de uma velha. Ela procurava o tato familiar das lantejoulas. Esperava nos dedos a confirmação daquele brilho tão conhecido. Nada. Apenas o toque suave de seda falsa. Mesmo o brilho, ela sabia, era falso. Com certeza não chegaria aos pés do brilho de uma lantejoula. Aquelas faíscas que via sair do verde do tecido eram efeitos de sua vista embaçada. Uma catarata se formava em seu olho. É preciso esperar, disse o médico de cabelos louros, tem de amadurecer primeiro. Era preciso que a cortina descesse completamente para só então descerrá-la. Descer ao fundo do poço, ela chegou a dizer. O médico sorriu seu sorriso de jovem. Mas ele é tão jovem, disse Tatisa à sua filha. Mamãe! Ela agarrou seu braço numa reprimenda discreta. Ele é o melhor nessa área, ela completou entre os dentes. Tatisa queria dizer que conheceu muitos médicos em sua vida, todos iguais. Eles olham pra gente um instante, perguntam se tomamos algum remédio, perguntam se temos alergia a alguma coisa e mandam a gente pra casa. Amadurecer? Eu já estou madura demais, doutor, caindo do pé, ela quis dizer também, mas se calou. O pudor de falar de sua velhice com aquele jovem de pele tão fresca. Calou-se na obediência que os velhos aprendem, engoliu a frase durante a consulta inteira e mesmo depois, enquanto atravessava a cidade naquele dia extraordinariamente quente, o calor exorbitava como que para confirmar a chegada do verão. Chegou à casa exausta. Tantos médicos nos últimos dias, tantos exames, as suspeitas de um mal invisível. Desabou no sofá e as palavras transbordaram. Não viveria para ver a catarata amadurecer. Ia morrer quase cega. Ora, mamãe, a senhora ainda vai enterrar todos nós. Vai ver quando os exames chegarem, a saúde de ferro. A filha falava animada, sem permitir uma palavra em contrário. Tatisa calou-se mais uma vez. Os exames.
O neto lhe tirou das mãos o tecido verde. Já era um rapagão o menino. Rodou pela sala com o pedaço de pano. Enrolou-o de qualquer jeito, como se fosse arremessar num cesto de roupas sujas e meteu no fundo da mala, enfiando a mão por entre as roupas que já estavam lá, o gesto vigoroso.
— Abadá, Vó. O nome disso é abadá. Há muito tempo que não existe mais mortalha nem fantasia. Nesse calor quem vai usar fantasia?
Ele respondia a uma pergunta lançada à neta. Cadê a fantasia de carnaval? A menina magra ficou ainda mais fina com a pergunta. Era anêmica de vontade, uma sílfide pálida. Estava ajoelhada perto de sua mala, dobrando pedacinhos de pano cor-de-rosa. Blusinhas. Arrumava a viagem como uma folha que se deixa levar pelo vento, sem querer ir, sem querer ficar, os pais já acostumados com aquela inapetência pela vida. A Avó não se conformava. Gostava de perguntar o que a neta queria, o que pensava das coisas. A resposta era quase sempre um dar de ombros. Quer dizer, de ombro, pois ela só levantava levemente o ombro direito e estendia os lábios uns poucos milímetros para frente, num muxoxo. Era nessa hora que os olhos caíam em diagonal para o ombro, como se vigiassem a execução do gesto.
A filha de Tatisa também estava às voltas com as malas. Arrumava a dela e a do marido. O genro tinha uma última reunião antes da viagem, a filha dizia a todo instante. Ele chegará a tempo, ela dizia com voz firme, afastando para longe a suspeita que nasceu junto com as novas reuniões. Tantas ultimamente. Foi com essa voz firme que ela anunciou a viagem. Vamos para a Bahia, mãe, quinze dias, praia descanso e, depois, o carnaval. O marido não teve argumentos para ser contra, tentou desculpas fracas, vagas, até ceder vencido. A neta sequer se manifestou. Só o neto ficou animado, queria ir atrás do Trio Elétrico, como naquela música: atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu …, cantarolou Tatisa, lembrando da invasão dos baianos na televisão, As roupas exuberantes, a música tão nova e vigorosa. O carnaval da Bahia devia ser assim. Foi o neto quem lhe esclareceu tudo. Os cantores eram outros. O bloco carnavalesco da moda chamava-se Camaleão — o lagarto da camisa, ou do abadá, o que quer que seja isso. Era um carnaval para jovens. Não tinha lugar para velhos. O convite da filha demorou para vir. Antes ela ouviu o neto falar da exaltação da festa, os números de trios, de blocos, de pessoas, mais de um milhão, talvez dois. Muita confusão. Não, os baianos que Tatisa conhecia não cantavam nas ruas, nem os velhos nem os novos baianos. Só os novíssimos. Todos os anos, surgiam outros mais novíssimos ainda. Apenas quando o quadro se desenhou totalmente é que veio o convite da filha. Tatisa sabia que não era uma viagem para velhos. Só iria atrapalhar. Que é isso, mamãe, a senhora nunca atrapalha, a filha lançou a gentileza. Tatisa aceitou o gesto e manteve seu papel na farsa. Continuou recusando. O genro também insistiu para que ela fosse e o gesto pareceu-lhe até sincero! Ela não soube como reagir. Ele chegava de uma reunião e de repente a companhia da sogra ganhou tanta importância!
— Deve ser nome africano, o neto continuava sua explicação sobre o tal abadá. Só não sei o que significa. É feita assim: larga. Se quiser, a gente pode cortar, diminuir.
Tatisa alisou sobre a cômoda o paninho de crochê, feito com minúsculos pontos, ponto baixíssimo. Empurrou mais para o fundo o envelope que estava embaixo do pano. Aproveitou para empurrar para o fundo as lembranças de um outro carnaval. Aquela roupa verde, tão brilhante, lhe lembrou um outro tempo. Quase podia repetir o gesto de molhar os dedos no pote de cola, enfiar nas lantejoulas e espalhá-las em sua roupa verde. A fantasia estava sendo improvisada em cima da hora. Tão mais difícil conseguir um pouco de brilho naqueles tempos. O baile seria temático. Um baile verde. Lu, a empregada, ajudava na montagem apressada. O carnaval rodeava a casa com suas músicas alegres e inocentes, tão perto. Por que, então, o baile? Pensou Tatisa. Logo lhe veio na memória o Pierrô verde. Precisava ir a seu encontro, o namorado. Ela já tinha a certeza. Era um namorico apenas, mas ela já tinha a certeza. Ela via a filha e sua força e lembrava daquele Pierrô. Tão firme no convite. Vamos ao baile verde, está decidido. Ela quis falar do pai doente, mas não teve coragem. Nem quando rodopiava no salão pôde dizer: o pai. No entanto, a frase da empregada se lhe cravara na cabeça: ele não passa dessa noite. As previsões da Lu. Ela já errara tanto! Era como um corvo voando em torno da doença do pai, sempre prevendo sua morte. Mas já errara tanto! Era um corvo equivocado. E o pai não morreria no dia do baile. Tão importante o baile, ele sabia. Não foi isso que a empregada tinha dito? Ele sabia que o baile era importante pra ela. Estava se fazendo de forte, dizia Lu em sua cabeça enquanto rodopiava nos braços de seu futuro marido. Eles iam se casar e ter essa filha decidida que cuidaria da mãe velha e viúva. A vida assim resumida. Tatisa não pensava que os anos todos de seu futuro poderiam ser resumidos assim num passado tão curto. Ela não sabia disso e, naquela hora, afastava os agouros da empregada. Hoje não papai. E ria para encobrir com a risada a imagem da porta do quarto fechado, onde o pai…
— Mamãe!
Tatisa é acordada mais uma vez de suas lembranças.
— Vamos ter de sair antes da hora.
Tatisa já ouviu pela metade. Demorou a entender o que a filha dizia. O genro estava atrasado. Iam todos direto para o aeroporto. Ele podia seguir direto. Tatisa quis aconselhar. Não seria melhor ligar pra ele, lembrar da viagem uma reunião não demora tanto assim? E essa ausência constante? Tatisa lembrava de seu próprio pai. Só adulta percebeu que, quando criança, havia umas ausências diferentes. Havia um silêncio negro no rosto da mãe. Longos períodos de silêncio. O pai oprimido por aquela voz que não era dita. A mãe engolia as palavras e junto com elas mastigava as entranhas do pai. Um doloroso silêncio para os dois. Tatisa também teve seus dias de silêncio com seu Pierrô verde. A ela parecia um ritual inevitável. Os homens aprendiam as pequenas ausências, os pequenos atrasos. Eram pequenos tremores na vida. Às mulheres cabia silenciar e esperar. O mundo se recompunha então. Tatisa tinha passado por isso. Não era possível desviar desse caminho. Nada podia ser alterado. As pequenas ausências, todas, podiam ser logicamente explicadas. Tudo se encaixava milimetricamente. Não podia ser diferente. Imaginar que algo acontecera era impossível. Por isso o silêncio. Uma palavra errada poderia desmontar aquele equilíbrio delicado. Tatisa aprendera aquele jogo. Toda a vida de uma mulher se paralisava à espera do marido. Ela se arrumava, punha um belo jantar na mesa e esperava. Sua vida ficava em suspenso até que a chave girasse na porta. Ele então entraria e acenderia a luz e tudo estaria claro.
A filha de Tatisa não parecia entender por completo essa lei. Algo do silêncio ela aprendera, mas não podia esperar. Ela seguia em frente. Carregava o que pudesse levar, os que fossem fortes para a jornada.
— Minha filha, não é melhor esperar?
— Mamãe, Mamãe. Ele sabe os horários. Saberá chegar lá.
— Não é melhor irem todos juntos?
A filha olhou séria. Não, não. Ela estava disposta a seguir com seu plano. Ir a Bahia, ao carnaval. O marido que fosse direto para o aeroporto. Se perdesse o voo, pegaria outro. Se não fosse, que comprasse roupas, pois quase nada ficara em casa. Ia ter de usar paletós todo dia. As reuniões, tantas. Aprendesse a administrar as reuniões, dizia a filha. Havia uma tensão naquela família, Tatisa sentia em sua carne. Admirava a filha por sua mão firme. Era ela quem controlava o filho cada vez mais rebelde, tão perigosamente próximo do gesto agressivo. E essa menina tão diáfana, o que fazer com ela. Tão ausente, tão anêmica, sem apetite para vontades, sem vida nas veias. A filha tinha mão firme com ambos. Com uma refreava o filho e seus impulsos, com a outra empurrava a filha adiante. Não se preocupava verdadeiramente com o que ia dentro de seus corações, apenas seguia em frente, fazendo sua família caminhar nos trilhos, como um trem, uma estação por vez, até vir o final do caminho de ferro, ou até o abismo da ponte interrompida, todo o comboio lançando-se no vazio. Era assim que ela pensava que devia conduzir sua família, todos juntos, a família inteira, ainda que cada parte fosse um amontoado de cacos de vidro. As almas se destroçavam diante daquela força aglutinadora que era a filha. Iam todos para a Bahia. O carnaval. O bloco verde. Tatisa ficaria. O último vagão, já velho demais, ia se desprendendo do comboio. Ela já fora assim, uma locomotiva seguindo em frente, os vagões desprendendo-se no caminho. O pai. A porta fechada no corredor escuro, as marchas de carnaval lá fora. Uma verdadeira locomotiva naquela noite verde. Umas poucas lantejoulas caídas no chão tentaram acompanhá-la. Mas para onde, Tatisa?
— Não chegaram os exames? Pensei ter visto um envelope no meio da correspondência. Mamãe?
Tatisa gesticulou um sei lá com os ombros, um leve muxoxo nos lábios. A neta teve uma professora, isso era certo. Só não aprendera a ter o segredo por trás do gesto evasivo. Seu gesto era só isso, uma evasão, um esvaziamento. Tatisa sabia o segredo. Esse, o seu grande aprendizado na vida.
— Mamãe!? A clínica não ficou de mandar?
— Ficou sim. Não chegou?
— Eu pensei ter visto, mas acho que me enganei.
— Procure, querida, pode estar por aí.
Tatisa fez a sugestão como uma provocação. Conhecia bem a filha.
— Meu bem, não está em cima da cômoda?
Muita coisa estava em cima da cômoda, sempre tão atulhada de objetos. E agora, naquela arrumação de viagem? A filha vasculhou com pressa os objetos e nada achou.
— Deixe que eu procuro depois, filhinha, vá fazer sua viagem, descansar.
— Mamãe, é importante, a senhora sabe.
— Minha saúde está ótima!
Os netos apenas observavam aquele impasse entre mãe e filha. Havia uma luta se desenrolando diante de seus olhos. Eles não entediam verdadeiramente, apenas sentiam o embate, como um surdo percebe as vibrações do som em seu corpo. Eles sentiam e reagiam cada um a seu modo. A menina afinou-se ainda mais, foi ficando delgada. Mais um pouco e sumiria por entre as malas. O garoto apenas murmurava palavras inaudíveis. Ele represava uma torrente de violência que poderia explodir a qualquer momento. Era quem mais precisava da Bahia. O que aconteceria com esse menino solto numa cidade como aquela? Tatisa tinha medo de imaginar. O que quer que fosse, a filha certamente teria força para segurar tudo. Ela sempre teve. Agora mesmo era capaz de vencer uma avalanche de impossibilidades contra seus planos. E fazia tudo com um simples olhar. Apenas com ele ela era capaz de afastar todos os problemas. O marido ausente em suas reuniões voltaria a tempo? Quanto tempo poderia conter o filho explosivo? E aquela menina se adelgaçando através da adolescência, ela chegaria a ser adulta? Tudo parecia desmoronar em sua volta. Ela, no entanto, inventava forças novas a cada novo problema. Viajar. O carnaval. Ela ia se divertir e seguir em frente. Nunca foi tão chegada ao carnaval. Algumas festas em criança, as farras de adolescente, apenas o que era esperado de uma moça. E, agora, aquela viagem. Ela corria como uma corsa que sente cheiro de fogo na floresta. Corria para se salvar. Não do marido que escapava de seus braços, não dos filhos que escapavam de seu útero. Tatisa sabia do que ela fugia e o quanto de força ela usava para fazer isso. Ela sabia que a filha seria capaz de vencer tudo que lhe acontecesse, todas as tragédias. Mesmo uma catástrofe natural ela venceria com os filhos nos braços. Apenas uma força poderia destruí-la. Tatisa sabia. Em meio ao embate, falou mais alto a natureza. Tatisa tocou o braço da filha e disse:
— Eu estou bem, querida. Os exames ainda devem estar chegando. Amanhã, depois. A qualquer momento eles chegarão. Não adianta você se preocupar agora.
A filha pôs uma expressão preocupada no rosto.
— Mamãe, você vai me prometer que vai me ligar assim que os exames chegarem, viu. Aliás, assim que eu me instalar no hotel eu vou ligar pra senhora.
Prometeu. Adiantou-se nas despedidas. Pra que prolongar mais aquela agonia? Já não havia dúvidas demais no ar? O genro não dera notícias. Ele iria ao aeroporto? A filha aceitou aquela gentileza da mãe. Eles começaram os abraços, todo um ritual de separação. Recomendações de ambos os lados. O afeto demonstrado como que na obediência de um protocolo de Estado. Tatisa via a filha partir em sua fuga, quase livre. E então, quando tudo parecia resolvido, a neta deixa escorrer da boca uma voz fina, quase um fiapo.
— Vovó, hoje de manhã não chegou um envelope branco com uma faixa azul e cinza? Não é esse o envelope da Clínica?
A reação da filha foi imediata. Queria ver onde estava, queria ver se eram os exames. Ela já se dispunha a trazer as malas para dentro, quando Tatisa atalhou.
— Não, minha filha, aquele é o envelope da catarata. Eu estava olhando ele esta manhã. Você sabe que eu não me conformo. A ciência tão avançada e eu tendo de esperar isso amadurecer. Não me conformo de ficar cega, mesmo que seja só por um tempo. Uma coisa tão simples. Não entendo.
— Mamãe, antes do fim do ano a senhora vai estar ótima, enxergando tudo.
A filha ria tranqüila, inteiramente compreensiva. Podia ser generosa agora, já estava em pleno voo para a liberdade. Repetiram as despedidas, um resumo rápido.
A porta se fechou e Tatisa finalmente ficou só. Foi sentar-se no sofá. O envelope ardia embaixo do paninho de crochê. Não precisava abri-lo para saber o veredicto. Lá não estaria a data final, apenas a ameaça. Por que lê-lo, então? Lembrou de como ele chegou pela manhã, a empregada empilhando todas as cartas na cômoda. Lembrou de como rondou em volta do móvel a manhã inteira, como se já beirasse a vida pelo lado de fora. O pequeno retângulo branco com uma faixa azul e cinza. Bastaria abri-lo e todos os planos da filha estariam desfeitos. No meio do dia, decidiu que ele deveria desaparecer. Precisava escondê-lo. Aproveitou um momento de distração da família e foi à cômoda. As cartas estavam mexidas. O envelope, displicentemente enfiado embaixo do paninho. Ela compreendeu a mensagem. Ele estava fechado. A filha o empurrara para baixo, como se fosse uma poeira que se deve esconder embaixo de um tapete, como uma porta que não se deve abrir. Quer dar uma espiada, Tatisa? Ela ouviu a voz de Lu ecoando do passado. Aquela porta não foi aberta naquela noite de carnaval, o baile verde esperando. Tatisa jamais abriu aquela porta. Nunca mais. Hoje, apenas, toda uma vida depois, diante do envelope fatal, é que ela teve coragem de encarar o que lhe reservara o destino naquele dia. Sentada no sofá, fechou os olhos embaçados. Ela estava de novo no topo da escada de sua antiga casa. Apenas o barulho do relógio quebrava o silêncio. A porta estava fechada. Tatisa aproximou-se com cautela. Investigou os ruídos de dentro. Não pode distinguir nada. Girou suavemente a maçaneta antiga. Um retângulo negro foi se expandindo. Os olhos de Tatisa, agora, podiam ver tudo. O mundo estava incrivelmente claro. Lá dentro cintilavam pequenas estrelas. Algumas lantejoulas pareciam convidá-la a entrar. Ela se sentiu inexplicavelmente calma. E então, depois de tanto tempo, tantos anos fugindo, ela entrou.
(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus, na Bahia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)
Mergulho na sombra úmida. O rosto da vida que busca por onde começar. Sua distância ― uma tempestade que nos visita ―, seu olhar não se apresenta em forma d’água. Mergulho o rosto. A vida abre os dentes.
Os retratos tomam as cores de nossa memória. Reconhecem as feridas. Nos negam a origem. O silêncio é a porta da qual não temos a chave. A parede por cair. A olhar o tempo. Não encontro o seu rosto entre suas raízes. Sombras saltam comigo.
O relógio está quebrado, mesmo assim, o tempo joga suas cartas. Existe um fio quebrado no labirinto ― ele não se preocupa com as armadilhas ―, nos seus dentes um aviso.
A parede por cair nos estende as mãos. Ela não acredita na ressurreição. Na poesia os fantasmas se reconhecem, e a morte se pesa à parte. Avessa às festas, não se recorda da mãe ou do pai. Não consegue unir essas duas margens. Não se banha na mesma água. Corre no seu sangue uma música desconhecida. As mãos limpam a poeira dos ossos, desenham caminhos, e penetram a pele dos nomes.
Um menino de riso fácil junta gravetos para construir um esconderijo. Não me aproximo das paredes de olhos líquidos nem das igrejas. Deixo o corpo sepultado no seu colo. O silêncio guardado no espelho. Dentro do silêncio, espero o dia nascer, e sempre permanece escuro. Poucas palavras revelam meu nascimento.
Entre a parede e o espelho, observo suas unhas varrerem uma tempestade para detrás da porta. O menino pergunta: quem vazou seus olhos? Respondo: o voo dos cordeiros não termina em mim, e os fantasmas fazem fila atrás do seu sorriso. Afaste-me desta parede!
Como levantar essa parede sobre mim? Quero um pouco de veneno para novamente sonhar. Se precisa de uma igreja, engana-se: é lá que se despede a vida. No meu corpo carrego as preces antigas, as escamas dos pecadores.
A igreja entrevista os novos candidatos a santos. Um corte profundo nas veias ― observo a cena ―, não existe trapézio nos aquários. Os santos se imaginam peixes voadores. À minha volta mulheres cortam seus sexos com asas de arame farpado. Recolhem milagres.
A infância: pássaro embalsamado. O choro de mãe se faz terço invertido. Estamos perdidos, retiraram as estrelas de nossas pupilas. Os meninos não caminham na chuva.
***
A CABEÇA DA SERPENTE
Saí de casa mais cedo. A lua começa a cantar e cai dentro de um copo. Vermelho. A cor me faz ficar parado. A rua não tem nome. Orientaram-me não ficar parado, mas o corpo não responde ― tem o ritmo de uma fotografia ― Devagar. Dizem: o passado é um colecionador de luzes. Ninguém me espera.
Vermelho. Sinto a noite afundar no silêncio do semáforo. Olho pelo vidro. Uma sombra vem em minha direção, tento decifrá-la O passado é Outro a caminhar ao meu lado, se instala nas paredes do meu corpo. A parede não tem janelas. Uma tempestade com flores entre os dentes. Não sei das pétalas nem da boca que as carrega. Deve ser minha infância, ou apenas o medo: o ninho de punhos fechados.
Espere.
Ainda vermelho. Deve ser algum defeito mecânico. ― Estou aqui. Devagar. Olhe para mim. Não durma. ― Não consigo decifrar sombras.
Um menino bate na janela. Quer me mostrar ou vender algo. Faz pequenos movimentos com as mãos. Sorri.
― Construí um deus, quer ver? Fiz em sete dias.
Está tudo vermelho. Agora já aparece um verde, um amarelo. Preciso de descanso.
― Quer um pedaço da minha sombra? É para manter a pele dele aquecida. Isso, um pouco de vermelho, um pouco de barro.
― Não tem mais?
― Esqueci de terminar os olhos.
Ninguém me espera.
(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). O livro de contos “Olhos de Barro” (Editora Patuá, 2012) é sua mais recente obra. Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)
Tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas. Permite ao homem ter noção do presente, passado e futuro. É irreversível.
Dar um tempo é a nova droga do momento. Vou dar um tempo. Estou dando um tempo.
Indicação deste produto para pacientes que durante uma relação amorosa passaram a sofrer de: choro súbito, olhar perdido, dor no peito, estresse com o vizinho que não tem culpa de nada, ódio da prima que mora a mil quilômetros de distância e nem lembra de sua existência, vontade de comer dúzias de bombons depois de um churrasco, secura na boca, aumento do consumo de bebidas de teor alcoólico, overdose de cigarro, cantar Yesterday em pagode, ímpetos de matar o açougueiro que substituiu a alcatra por chã de dentro, mandar pra puta que pariu o porteiro que não lavou seu carro, desejar a maldição de Montezuma para todos os vendedores de telemarketing, gritar pro filho que o som está alto, rever novela no Vale a Pena Ver de Novo, sentir raiva dos bonzinhos e uma vontade imensa de ser mau, muito mau. E bota maldade nisso.
Informações
No século XX, resolveram que dar um tempo nas relações afetivas é eficaz. Desde a antiguidade o tempo é considerado o melhor remédio para tudo. Há relatos de que com o tempo a verdade aparece. Foi comprovada essa tese em alguns detentos que passaram a juventude inteira presos injustamente, mas na velhice tiveram a inocência declarada. Morreram livres e hoje usufruem lápides com escritos lindíssimos!
Efeitos colaterais mais comuns (que não melhoram com o tempo)
Saudades, ódio, esquecimento e morte.
Advertências
A saudade costuma causar depressão. Se você sentir vontade de ver fotos e cartas antigas, fechar os olhos e reviver momentos passados, cantar Matriz e Filial no banho, suspenda imediatamente o tempo e tome Prozac, concomitantemente.
O ódio pode levar a desejos estranhos, como querer a ditadura de volta, sonhar que a cunhada caiu na rua, comer o fígado do ex.
O efeito esquecimento é extremamente perigoso, costuma causar o adeus com cinco letras que não choram.
Se estes sintomas ocorrerem, consulte imediatamente seu coração. Caso você morra antes, dane-se. Acreditou que o tempo cura, porque quis. Este medicamento é contra-indicado na faixa etária superior aos sessenta. Pode não dar tempo de retomar à antiga posição.
Dados complementares
Vovó e vovô fizeram bodas de ouro antes dessa solução afetiva que muitos afirmam revigorar a saúde da relação! Só não fizeram de diamante, pois apesar da penicilina ter sido descoberta antes desse recurso, vovô pegou pneumonia por conta de um vento e faleceu.
Não houve tempo para o efeito do medicamento.
Dar um tempo é a grande saída para se chifrar parceiros sem o perigo de ser malvisto por terceiros. Quem pede um tempo, quer se livrar da relação. Eficaz apenas para amor de ocasião, daquele que começa num verão e não chega a outono nenhum.
***
Art. 214*
Tinha apenas uma hora para chegar ao aeroporto. Seu corpo parecia uma bomba-relógio. No táxi, começou a rever o que estava levando e o que havia deixado. Tinha certeza de que havia colocado todos os seus vestidos de alça, não abria mão deles nunca; todos os remédios, não se acostumava com similares, muito menos genéricos, tinha grilo deles, já estava acostumada com a cara da embalagem tradicional, em remédios a gente tem que confiar, só fazem efeito se forem antigos amigos; documentos (trouxe todos ou lá é sem lenço e sem eles?); a sandália preta; aquele ratinho de pelúcia; o travesseiro rasgado; o CD dos Beatles; as fotos companheiras da night.
Não queria revirar o armário da memória, as gavetas das lembranças, a estante das reminiscências e mandou o taxista acelerar ao máximo. Não queria mais tempo para se revirar, não pretendia ficar novamente enfurecida com a constatação de que o atual coração é genérico, daqueles em que ela não confia. O antigo, aquele que adorava os vestidos de alcinhas, a sandália preta, o ratinho de pelúcia, o travesseiro rasgado, os Beatles, que botava o seu sorriso nas fotos, foi roubado por um traficante de heart.
Foi presa por atentado violento ao pudor, quando saltou do táxi, literalmente nua, sorrindo pra dedéu. O motorista afirma que ela se estressou no engarrafamento e saiu jogando tudo pela janela.
*Atentado violento ao pudor (Código Penal Brasileiro)
(Natural do Rio de Janeiro, Rosa Pena é escritora, professora especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas, administradora de empresas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação, na secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro com projetos ligados a cinema, teatro, música, literatura. Compulsiva em ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Possui inúmeros e-books, compartilhou com outros escritores de oito antologias, tem participações em livros da Tribo e três livros de crônicas e contos editados: PreTextos (2004), UI! (2007) e Tarja Branca (2010))
O corredor da sala ficaria com o azul rosado, o quadro das embarcações. Para o quarto distante e agora mais feliz levaria as tulipas aquáticas que antes eram da sala. Na onda embranquecida pela violência do mar já se haviam dizimado os motivos do choro. O coro de lamentos sumira no lume da primeira embarcação – máscaras e caracóis vestidos na véspera. O vazio prenhe de elipses entre decisão e ardor, ascendia num horizonte lívido de silêncios sem voz. Quisera correr e agarrar-se aos remos com os braços fortes de outrora. Quisera haver ainda sais para remar a vontade de parar.
***
Som
Esquecera há quanto ocultara na falta de tempo as leveduras do pó e seus milhões de ouvidos. Abriu o compartimento de onde viriam as notas. Um clique. Debussy. Massenet. Guardava o som na memória que esquecia títulos, composições. Só a melodia a vagar o sentido que não oblitera. A leitura disforme e veloz como as mudanças tecnológicas. A fome por som continuaria somente até a segunda ideia navegar a distância da aproximação, portas presentes. Meditação para Thais e Clair de Lune. Viu partituras. Ouviu piano, violino. E segregou-se no retrato de um homem que possivelmente teria amado.
***
Debrum
Revestia-se humílima no breu da razão onde esmigalhara vertigens irresolutas, esmiuçada no equilíbrio de uma desordem no fio dos lábios exultando um ontem mínimo e indispensável à perfeição do hoje, hígido, servil. Estremeceu a voz numa hiperbólica vigia “ah se não fosse se não viesse se parasse o que possui dores”. Via no branco espalmado apenas a liberdade feita de algemas. “E esse céu que se vai tecendo num fulcro de impossível”. A fadiga solúvel, uma fragrância irrecusável de alecrim e calêndulas – um gesto súdito a reveste derramando-lhe um cetim consútil – sua noite de pêssegos.
***
Eco lógico
O peso do elo pode não ser um pesadelo. Na urgência que tem para que o tempo demore já não demora nem retorna à raiz a árvore que cai – apenas o corte finge que o cinge quase esquecido do seu gosto de nozes. Como uma película de lagos entre os braços tinha para si a modorra que movia. Sequer existia. Rodava nas horas que imaginava. Ramagens. O cansaço não adormecia nem o dormir acordava. Uma angústia exausta não aceita ordens; quer exaurir e o faz tombando de forma macia, sem a tristeza de não dar arborescência ao próprio reflexo.
***
Açucena
Uma forma de driblar a solidão e derreter as coisas que fermentam, erroneamente refreadas – deixar um pensamento para depois é correr o risco de perdê-lo – já não ousa correr riscos nem deixar de correr porque o tempo tem pressa. Aprende a falar sozinha para não desaprender a falar, perde o apetite na proporção que lhe cresce o pássaro do peito entre roupas sujas e ninhos limpos. Quer olhar coisas onde coisas não há para estreitar… caça às escuras, entre simbioses e moedores de letras, algo que aproxime a distância entre os abraços. Do voo suprimido de asas vê o vácuo, bebe o céu. Seu sim.
***
O Alienista
A perspicácia o faz ainda re-ver algumas provas. É agradável o deslindar dos pensamentos à sua frente. Fragilmente forte não reagiu quando bateu a chave com força e fez cair a porta. Talvez se assemelhasse àquela fechadura muda que lhe abriu o chão para vê-lo enrijecer o esquecimento de todas as coisas que por insegurança o fizeram útil. Um exclusivista ligou para ser ouvido. Quando quis fazer-se ouvir “só um minuto” não teve garras – seus ouvidos eram os erros da casa – os labirintos de Borges.
***
O menor de todos
Eu visto outra pele sem ser a minha alma uma pele que visto. Não me escondo senão por uma timidez ou um desejo de ser o nome obtuso estreitando livremente a ameaça de mostrar-me. Como se nunca sucumbisse a luz errante da sombra. A confiança erra ao não ter compaixão. Vale a pena sonhar, me antever quase totalmente arrependida nessa terra estranha que se tornou a minha figura. Minhas fotografias são essas palavras, e algumas palavras são sapos. Não há sentidos feios, apenas almas. Não há palavras feias, apenas sentidos. Papel de bala.
***
Mata
Num oceano de folhares o néctar vive com o trivial cerne da comoção. Quem nunca teve uma grande ferida para saciar? Toma a sua cicatriz aberta e desperta do que não é, em absoluto, um pesadelo, um caule impoluto. Uma foice cruza o último solstício tropeçando sem saber se ainda serve aos admiradores da resistência. “Melhor se não vivas” diria a teimosia peregrina ao luto das ramarias. Talvez um imbecil soubesse de matemática quanto sabe a sorte do semeador. “Não julgariam se me vivessem; sou uma eterna grade, herdeira sentenciada pela casca que me veste como quem despe”.
(Tere Tavaresé escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com)
Depois de três meses desempregado, o que me apareceu foi uma vaga na livraria da Praça 1817. Eu nunca gostei muito dessa coisa de livro, leitura… mas, diante de uma carteira vazia, era minha única opção. Foi lá que descobri que era… Atchim, atchim, atchim… alérgico à poeira. Mas, não precisa se preocupar comigo não, já descobri um remédio que é tiro e queda. O nome dele? Cetirizine. Você conhece? É ótimo, um santo remédio. Aqui, meu trabalho é tirar a poeira dos livros, levá-los do estoque para a loja e organizá-los nas prateleiras. Depois, é só esperar que cheguem os clientes.
– Moço, o senhor tem o livro do Valter Hugo… Caramba, esqueci o nome do homem! Você poderia consultar no sistema se existe algum autor com esse nome?
É sempre assim, quando consigo engatar uma conversa legal com alguém aparece uma criatura dessas, que não sabe o nome do livro, muito menos o do autor. Dá vontade de matar uma pessoa dessas. Sei não, viu! Só um minutinho que eu já volto para continuarmos conversando.
– Pois não, senhor. Só um instante.
Ora, pois não, pois não… Eu só falo isso porque fui ensinado, mas a vontade que dá é mandar um cliente desses para aquele lugar. Ora, onde já se viu chegar a uma livraria sem saber absolutamente nada do livro que procura! Só se eu fosse um adivinho, daqueles com bola de cristal e tudo, pra acertar o livro que a pessoa mais perdida que ele procura.
– Não, infelizmente não temos nenhum autor cadastrado com esse nome.
– Mas, você não sabe dizer se chegará algum livro desse Valter Hugo?
– Infelizmente não, pois os pedidos deste mês ainda não foram feitos.
Quando não trabalhamos em uma livraria achamos que as pessoas que vão até lá são pessoas objetivas, que chegam sabendo o que querem. No entanto, olha aí esse carinha pra comprovar que as coisas não são bem assim.
Mas, continuando nossa conversa, aqui é sempre muito calmo. Ficamos sempre a esperar que o cliente nos aborde fazendo algum questionamento sobre o livro, o autor, o preço, essas coisas. Eu evito chegar junto ao cliente assim que ele entra na loja. Não quero parecer com aqueles vendedores de sapato chatos que, mal entramos na loja, já nos mostram sapatos ou sandálias que jamais compraríamos, mas, que para eles: “olhe só que coisa mais linda!”. Não, isso não! Prefiro aquele atendimento de loja chique lá do shopping da granfinada, que o vendedor apenas observa quem entra e, ao perceber alguma dúvida ou ao ser chamado, aparece perto do cliente para atendê-lo. Tem gente que acha que vendedor assim é vendedor esnobe, que atende com simpatia dependendo da cara de riqueza do cliente. Eu não penso assim, não. Acho até melhor esse tipo de atendimento, sem pressão.
– Moço, o senhor sabe dizer se tem o livro “O fio das missangas”, de Mia Couto?
– Deixe-me ver, só um minuto. Sim, temos sim. Irá levá-lo?
– Ah, que bom! Já procurei demais por este livro. Onde é o caixa?
– É só ir em frente. Muito obrigado!
A rotina aqui é essa, meu amigo. E, numa loja como esta, num país como o nosso, onde poucos lêem, a começar por mim mesmo, não vemos muitas pessoas por aqui. Agora, dá um pulinho na loja de sapatos da esquina pra você ver a diferença. Está apinhada de gente essa hora. Bom pra mim, só assim não tenho que ficar o tempo todo atrás de um e de outro pra atender. Sei que, nessa brincadeira, eu já estou trabalhando aqui na loja da dona Amália há umas oito semanas.
Logo nos primeiros quinze dias de trabalho – que, diga-se de passagem, foram semanas muito nubladas e chuvosas – apareceu aqui na loja um cliente muito diferente. Ele é magro, tem uma barba branca e longa. Parece um árabe. Mas, quero logo deixar claro que não tenho nada contra esse povo. É que não é muito comum por aqui pessoas com a feição como a daquele cliente. Mas, além de tudo isso, ele tem outra peculiaridade muito engraçada, apesar de trágica. Ele carrega o peso morto de uma das pernas com uma muleta. Por que é engraçado? Claro que não é a circunstância em si da perna morta, mas o fato de que ela parecia querer entrar na outra perna, assemelhando-se a uma vírgula. Sim, com o detalhe de que ela estava coberta com gesso, como para esconder sua própria deformidade.
Quando ele chega à loja, taciturno e com o semblante fechado, anda entre as estantes de livros, não sem alguma dificuldade – outra vez ele bateu a muleta num monte de livros que eu havia organizado um minuto antes na forma de espiral e derrubou todos eles – escolhe um livro e lê cada linha dele em voz alta, como que para uma platéia invisível, que observa atentamente cada sílaba, ponto e vírgula pronunciados. Como ele fica muito tempo no mesmo lugar, lendo o livro sempre em voz alta, nunca sei exatamente o quanto do livro ele consegue ler. Se não o lê todo, chega bem pertinho. Isso eu tenho certeza. Eu nunca o vi acompanhado por quem quer que seja, pai, mãe, irmão, esposa ou filho. É sempre sozinho que chega aqui na loja. O mais interessante é que antes dele aparecer por aqui eu nunca o tinha visto por essas bandas da Praça 1817. É claro que passa muita gente nessa rua, mas, quando você vem trabalhar todos os dias, você começa a ver que são quase sempre as mesmas pessoas que circulam por aqui.
Semana após semana ele vem à livraria e repete seu ritual, sempre às três horas da tarde, nem antes nem depois desse horário. No início, eu fiquei muito curioso para saber quem era aquela figura tão inusitada. Enquanto ele permanecia na loja, a cada minuto eu desejava que ele me chamasse para fazer uma pergunta que fosse, só para eu tentar ao menos descobrir o nome dele e de onde ele era. Mas, confesso que até hoje não consegui descobrir nada disso.
– Alberto, deixa de conversa com esse aí e vai atender o cliente ali!
Alberto, Alberto… Eu já disse para dona Amália que podia me chamar de Beto mesmo; todo mundo me chama assim desde a minha infância, tanto que às vezes até esqueço que me chamo Alberto. Eu já nem sei mais o que fazer para dona Amália me chamar de Beto, mas não vou mais ligar pra isso não, afinal, meu nome não é mesmo Alberto? Então!?
– Pois não, senhor! Posso ajudá-lo?
Como eu vinha nessa divagação sem futuro sobre meu nome, se era Alberto, Beto, essa coisa toda, nem me dei conta de quem era o cliente que dona Amália mandara atender. Pois não era o carinha da perna morta de quem eu estava falando! Meu susto foi tão grande que quase gaguejei ao perguntar o nome dele. Acho até que ele pensou que eu era gago de verdade. Mas a surpresa foi ainda maior quando ele respondeu que o nome dele era Alberto. Ele era meu xará! Você acredita nisso? Fiquei tão desnorteado que minha reação foi sair dali o mais rápido possível; o que fiz assim que ele respondeu à minha pergunta:
– Não, obrigado.
Saí dali direto para a sala da dona Amália, para contar-lhe o pouco que eu sabia da rotina do homem aqui na loja.
– Dona Amália, aquele cliente que a senhora pediu que eu atendesse vem aqui na loja toda semana, religiosamente. Ele lê alguns livros em voz alta e depois vai embora. Nunca apareceu aqui acompanhado.
– Será que ele não está observando o movimento da loja para nos assaltar, Alberto? Sei lá, hoje em dia está tudo tão perigoso. Morro de medo de assalto.
– Onde é que um homem desses, com todo respeito, tem condições de assaltar alguém, dona Amália?
Dona Amália é daquelas empresárias que vivem soltando fogo pelas ventas, manda aqui e acolá, dá grito em gente e tudo mais. No entanto, é só falar em assalto que ela fica mansinha, mansinha. Ela é muito nervosa com essa coisa de assalto, faz de um tudo para ter segurança aqui na loja. Já instalou câmeras de vigilância dentro e fora da loja e, além disso, contratou um segurança que passa vez ou outra aqui em frente para conferir se está tudo em ordem.
– Alberto, desde quando esse homem vem aqui na livraria, que eu nunca o vi por aqui?
– Já faz algumas semanas, dona Amália. A senhora nunca o viu porque ele só vem aqui às três horas da tarde e a senhora raramente está aqui nesse horário. Mas, não se preocupe não, dona Amália, ele parece ser totalmente inofensivo. A senhora não vê que ele mal consegue andar direito carregando aquela perna?
Ela não respondeu. Ficou na sala com uma cara de espanto, meditando sobre nossa conversa. E eu voltei para o salão de vendas, também refletindo, mas, não sobre a mesma coisa, e, sim, no meu encontro estabanado com o meu xará. Depois desse incidente, nunca mais falei com ele, pois ele nunca deu brecha para maiores diálogos. E assim os dias foram passando, as horas se somando e ele sempre a nos visitar, com dona Amália já sem ter medo do pobre. Eu tinha pena dele, solitário a entrar e sair de estórias, como se quisesse ser uma delas; com aquela perna morta, em crise por ser membro, querendo ser vírgula e eternizar-se, emaranhando-se nas linhas e parágrafos daquelas fantasias,
(Leitora assídua, desde a adolescência, Lizziane Negromonte Azevedo, monteirense de criação e coração, é advogada, cofundadora e coeditora da Boca Escancarada: Revista de Literatura e Arte. Possui diversos contos publicados pela Câmara Brasileira do Jovem Escritor, pelo Correio das Artes – Suplemento Literário do Jornal A União, do Estado da Paraíba – e pela Revista Boca Escancarada)
23:00 horas. O relógio deu uma volta completa sem que eu pudesse detê-lo, de forma que inapelavelmente é noite outra vez, ou seja, um insulto, golpe desferido à traição pelos ponteiros do relógio, bicos vorazes a perfurar-me miudamente e de vários pontos da cidade, notadamente os luminosos.
No entanto, restam-me ainda alguns ínfimos prazeres, como contemplar teus lábios quando pronuncias meu nome, traçando no ar a curva palavra de sempre. Tu, sem o saber, me devolves ao rol dos vivos, suave e abstrata Adriana, ainda a sobrescritar envelopes endereçados ao ilustríssimo senhor Raul Kreisker, num papel cujo timbre evoca remotamente uma ave (águia? escaravelho? a impressão é péssima) contudo quanto te sou grato pela delicada omissão do meu segundo nome, o ominoso Nepomuceno, omissão que não exclui a piedade, bem sei, como uma lembrança que se apaga cada dia mais um pouco, prenunciando o genuíno esquecimento, and yet, and yet…
Todavia não te parece absurdo estar escrevendo a apenas algumas horas do nosso encontro quando o mais sensato seria recorrer ao telefone, bastando esticar o braço, usar o, digamos, bom senso, perguntar como está, se queres ir ao cinema, puxa faz um frio do capeta, tenho saudades mas não, obstino-me a não ceder ao código imposto por este objeto que muda a forma mas não permite variações do alô fatal mesmo porque o que preciso te dizer não começa assim, é um pouco como o teu corpo desnudando-se sob minhas mãos e o fato de você tê-las guiado me lembrar extraordinariamente essas excursões onde está tudo previsto, das visitas aos monumentos às gorjetas, sem contar que também tinha algo de peregrinação a santuários feita por beatas em idade provecta (imagina o teu Raul num xale trescalando a naftalina, vela entre os dedos, o transe apoplético). Como se incontáveis peregrinos não me tivessem precedido, e uma nova multidão já não pressionasse às minhas costas para cair fora do sancta santorum do teu corpo obcenamente branco e lascivo e ainda querendo acreditar ser o primeiro, único e último tolo a te possuir – eu e meus pudores provincianos, eu, o deflorado a depositar minha flor murcha sobre teu altar, esquecido que já corre o ano de 1995 DC. e do que mais particularmente me interessa, isto é, o travo amargo na boca, a contração na alma e – já que estamos no assunto – a tua indiferença é alguma espécie de distinção? É com isto que contemplas mesmo o mais ocasional dos teus amantes?
Porque sequer isto, Adriana, não te serviste de mim, nem permitiste que eu o fizesse negando-me a loba faminta que ronda tuas insônias, tantas vezes falamos nela como dessa culpa acorrentada que ata tantas mãos, que silencia nossa boca, esta culpa que anda por aí e que parece ter existência própria junto à trôpega humanidade da qual, se não fazes objeção, ainda faço parte.
Não negue, Adriana, havia uma sentença sobre minha cabeça – pelo arco triunfante do teu orgasmo eu não passaria a despeito da alucinadas ternas furiosas arremetidas do meu membro exausto: mais fundo te penetrava, mais fugias, me devolvendo a mim, a quem retornava ainda mais só e nu e perdido. Era como se percorresse interminavelmente um túnel ao fim do qual me esperasse uma escada que bruscamente morresse no nada, um vácuo sem chão, sem teto, sem limites previsíveis e sempre o mesmo tema a se repetir insuportavelmente nada, nada, nada.
Assim seja, Adriana, assim foi e nada (sim, nada) poderá mudar este vertiginoso martírio (perdoa esta linguagem, este devassar daquilo que, de outra forma, seria uma amálgama de sons indistintos, disto que intraduzivelmente no engolfa neste cotidiano feito de contas de luz e extratos bancários, esta hidra a que chamamos realidade, não?).
Ah, minha suave e abstrata Adriana, não premeditei este encontro, acreditarias? Que aquela noite eu quisesse unicamente a ti? Apenas não sabia ser tão tarde, tão inútil.
Sim, te dou o direito de falares em auto-piedade e o mais: tens a ti mesma e ao teu querido Francisco, lá no Midwest – aquele envelope azul no tua cabeceira, a letra era dele, não?
Depois fiquei imaginando o que poderia conter esta carta à qual sequer aludiste porque, veja Adriana, não pensas que escapou-me por detrás desta dupla negação (porque antes foi teu corpo, eu ainda sei contar) do teu velado riso perverso de quem agita o osso diante do olhar molhado dum cão.
Minha dríade, se ao menos me tivesses negado três vezes eu te perdoaria, atento que sou aos passos do Cordeiro, todavia foram duas e, de resto, o que poderia esperar de ti, tão geminiana e dupla e ainda por cima com Mercúrio perfidamente empoleirado sobre o grau 19 de Gêmeos, a cavalo do teu ascendente, maldito doppelgänger, são quatro, são oito, são infinitas em tua casa de espelhos e, a propósito: qual delas é a imortal? E qual a que mente? Dos teus infinitos de perversidade… Ah, sim, as mulheres são criaturas esplêndidas, como gatos ou papoulas, guardiãs do que não sabem, feiticeiras do Grande Silêncio Estuporado, pisando distraidamente sobre envelopes azuis do Midwest, afrouxando sagrados laços impronunciáveis.
Lembra-te (e isto é uma ameaça), ainda sou o Inquisidor da Treva, o Destruidor Florido, então como negar-me a co-autoria de um ato consumado a dois? Acaso ficaste boba? Ou acaso fiquei eu? Hein? Optando pela segunda hipótese, inclino-me a confessar que me recuso categoricamente a prosseguir no papel que a vida inteira me propus (não ria, por favor) porque afinal de contas, minha cara, falando francamente, diga-me se viver por procuração não é um péssimo negócio? Deixar que as coisas aconteçam sem jamais dar as caras (e as costas) ao destino? E, por favor, esqueçamos a demiurgia, um homem se esconde porque tem medo e é tudo.
De modo que, desde o começo estavas certa, Adriana, não havia mesmo ninguém ao teu lado. O que julguei ser um triângulo (você, Francisco e este seu criado) desabrochou num terrível pentagrama: cinco são as pétalas da rosa, os dedos das mãos, as pontas da estrela do demônio, o número sagrado de Hermes três vezes Trimegisto, quintís e biquintís proliferam nas cartas estelares de Mozart e Van Gogh (Francisco, a esta altura, estará rindo, olá, Francisco, meu velho! Tão cioso quanto imodesto do próprio talento, diga-lhe isto assim que puder, por favor. Estás autorizada a fazê-lo. Eu deixo…).
Ah, Adriana, finalmente! Como aquele sujeito que não conseguiu fazer ponto algum na loteria esportiva, posso proclamar: esta máscara tornou-se meu verdadeiro rosto! Talvez seja por isso que te desejo ainda mais, já te disse, não? Não, não disse.
Doravante tu e Francisco são para mim a mesma pessoa (por obséquio, não me interrompa) – não a contraparte masculina e feminina, não é tão simples, diria antes que ambos são simétricos: opostos, mas perfeitamente iguais, correspondendo-se num salutar intercâmbio de livros, flores do campo, rótulos de vinho, passagens de trem, postais e originais extraviados, do que estou rigorosamente excluído, salvo na condição de personagem ou fantasma ou ambos.
Não. Ele não me mandou dizer uma só palavra para que minha alma seja salva.
Treva, silêncio e o vento a agitar os arbustos em torno do parque que avisto da janela deste hotel, aliás muito recomendável para suicidas.
Lembra daquele almoço em casa de Miranda quando, na volta, nos assombrou uma sinistra construção à beira da rodovia com a tabuleta “Hotel”? Júlia foi a primeira a falar: “Lugar ideal para suicídios. Principalmente por causa da placa. Está claro que isto é um hotel. Tão absurdamente hotel que o dono nem precisava comunicar-nos por escrito, o mesmo que botar placas explicativas em tudo, como mesa, cadeira, poste, Raul”. Rimos. Tu, Belisa, Francisco e até a arquiduquesa-ao-volante que no seu afã de arquiduquesa voltou-se toda para o banco detrás, permitindo, ato contínuo, que o automóvel coincidisse com uma valeta pouco menor que a fossa de Mindanau. “Par delicatésse ainda vai matar a todos nós”, gemeu Belisa que abomina qualquer entidade ao volante. Lembrei: “Nos romances ingleses do século XVIII todas as estalagens se chamam Star and Garter”, e Belisa, “e todas as matronas lembram um pudim de franjas”, e Júlia, “já Ulisses é infinitamente chato”, e provocando Francisco: “Também detesto Virgínia Woolf. Consegue ser ainda mais chata. Quando as mulheres entram numa parada, ganham longe…”, donde se seguiram quarenta e cinco minutos dum implacável e minucioso elogio do Passeio ao Farol ( só agora percebo que neste nome um presságio) até porque Francisco sempre morde a isca, tendo a bondade de nos excluir da conversa, dirigindo-se ostensivamente à Belisa e à arquiduquesa que concordavam entre divertidas e irônicas, já esquecidas do “Hotel”, embora Júlia e seu olhar cúmplice me fizesse saber que não, que nada seria esquecido.
Uma última inconfidência, minha pomba: quem é Maximilian? O nome cem vezes garatujado naquele teu caderno ginasiano? Teu novo amante? Não te preocupes, nada direi a Francisco, e mesmo que o faça, tenho impressão que nem ouvirá, últimamente suas cartas mais parecem esses diálogos de surdos.
Na última falava duma luz azulada, ou melhor, absolutamente não falava de luz alguma, contava uma história de fantasmas ou algo assim, todavia quando terminei a leitura, a atmosfera estava embebida de saudades e tristeza e desolação e todas essas palavras cujo frio espectro envolvem o sofrimento de alguém mergulhado no azul longínquo das pradarias do Midwest.
Então era quase natural que eu me sentisse como Jay Gatsby, como alguém a cumprir uma invisível lei não escrita, precisamente como Gatsby ao divisar, pela primeira vez, na luz ao extremo do ancoradouro, o farol do destino.
Ele (assim como eu) viera de muitíssimo longe e seu sonho, naquele momento, deve ter-lhe parecido tão próximo. Ambos, ainda que em extremos opostos (talvez minha luz fosse azul e não verde como a de Gatsby) acreditamos na luz distante, num esplêndido futuro que, sem saber, ano após ano, nos afastava um do outro (a mim e a Francisco) obrigando-me incessantemente a retornar, voltar ao passado, refazer o sonho gota a gota, tentar possuir uma mulher ou outro homem quando é por ele, apenas por ele, unicamente por Francisco que meu corpo arde em febre.
Exatamente como Gatsby: eu e meu segredo, eu e meu destino, minha irremediável servidão.
………………………………………………………………..Eternamente seu, Raul K.
(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)
CONTRATEMPOS LIBERDADE || O BEM-TE-VI ABSTRATO-GEOMÉTRICO || A HISTÓRIA SE REPETE
Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. [André Gide]
Tela: JB Lazzarini
JANEIRO || FEVEREIRO: “Começou o ano martelando água em Inhotim. Salvou a paisagem tropical da morte, e renasceu contemporâneo. Num dado momento, a andorinha pinta o céu de vento. Passa o gato movido a álcool, e outra nuvem anuncia a substância do verbo. Tirou as roupas das expressões e assoviou bem-te-vi.”
MARÇO || ABRIL: “O bem-te-vi quer ter filhos. Ampliou a solidão com lápis cinza na máscara de Carnaval. Sua mãe diz que não é coqueluche. Vacinou contra catapora. Mesmo assim, rastejou entre moscas, segurando os ovos entre palhas escuras.”
MAIO || JUNHO: “Os ovos chocaram verdes com tons amarelados. Duras penas aguentam a picada da cobra coral, que engole o perfume da trepadeira. Vermelho com amarelo perto, fique esperto; vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado. Não é uma jararaca. Sobrou só um bem-te-vi abstrato-geométrico no silêncio que estica a noite.”
JULHO || AGOSTO: “Tentou criar o bem-te-vi na gaiola com pedaços de palavras açucaradas. Veio o gato entortar a gaiola. Comprou pastilhas Valda. E tomou remédio alopático para começar o mês, numa escrita automática, contando os riscos de dar nomes existenciais às flores.”
SETEMBRO || OUTUBRO: “Desmanchou o quintal, fez florir três jardins, e soltou o bem-te-vi. Perdeu aquilo que encontrou, quando o gato retornou. Os ratos detestaram a ideia. Almoçou frango xadrez, sentindo gosto de liberdade, inventando nova gaiola.”
NOVEMBRO || DEZEMBRO: “Queria ser lido nos bicos dos passarinhos. Contrariado, armou a arapuca. Foi repetir o canto do bem-te-vi, a história. Criou a ilusão de que a metamorfose poderia ser contrariada. Tempo passado, abusando gerúndio: o cisco incomoda muito o olho esquerdo, pois a liberdade sempre machuca num abandono sem fim.”
A HISTÓRIA SE REPETE || O BEM-TE-VI ABSTRATO-GEOMÉTRICO || CONTRATEMPOS LIBERDADE
Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. [André Gide]
NOVEMBRO || DEZEMBRO: “Queria ser lido nos bicos dos passarinhos. Contrariado, armou a arapuca. Foi repetir o canto do bem-te-vi, a história. Criou a ilusão de que a metamorfose poderia ser contrariada. Tempo passado, abusando gerúndio: o cisco incomoda muito o olho esquerdo, pois a liberdade sempre machuca num abandono sem fim.”
JANEIRO || FEVEREIRO: “Começou o ano martelando água em Inhotim. Salvou a paisagem tropical da morte, e renasceu contemporâneo. Num dado momento, a andorinha pinta o céu de vento. Passa o gato movido a álcool, e outra nuvem anuncia a substância do verbo. Tirou as roupas das expressões e assoviou bem-te-vi.”
MARÇO || ABRIL: “O bem-te-vi quer ter filhos. Ampliou a solidão com lápis cinza na máscara de Carnaval. Sua mãe diz que não é coqueluche. Vacinou contra catapora. Mesmo assim, rastejou entre moscas, segurando os ovos entre palhas escuras.”
MAIO || JUNHO: “Os ovos chocaram verdes com tons amarelados. Duras penas aguentam a picada da cobra coral, que engole o perfume da trepadeira. Vermelho com amarelo perto, fique esperto; vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado. Não é uma jararaca. Sobrou só um bem-te-vi abstrato-geométrico no silêncio que estica a noite.”
JULHO || AGOSTO: “Tentou criar o bem-te-vi na gaiola com pedaços de palavras açucaradas. Veio o gato entortar a gaiola. Comprou pastilhas Valda. E tomou remédio alopático para começar o mês, numa escrita automática, contando os riscos de dar nomes existenciais às flores.”
SETEMBRO || OUTUBRO: “Desmanchou o quintal, fez florir três jardins, e soltou o bem-te-vi. Perdeu aquilo que encontrou, quando o gato retornou. Os ratos detestaram a ideia. Almoçou frango xadrez, sentindo gosto de liberdade, inventando nova gaiola.”
(José Aloise Bahiaé jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta, colecionador e crítico de artes plásticas e literatura. Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004). Participa, dentre outras, das antologias O achamento de Portugal (Lisboa: Fundação Camões/Belo Horizonte: Anomelivros, 2005) e H2HORAS (São Paulo: Cronópios/Dulcinéia Catadora, 2010). E-mail: josealoise@gmail.com )
deixa eu entrar nesse mundo estranho de flores letárgicas e comprimidos que causam rupturas. tenho um par de botas e uns truques sujos na manga caso você precise gritar entre os girassóis. antes me diz quem te assustou o olhar, te viciou no corrosivo, deu o clique. deixa eu fazer parte desse enredo enérgico: também sinto medo e bebo até o chão virar gelatina. adoro tua tristeza na areia da praia, as canções das máquinas binárias, a maneira febril do teu cabelo no rosto. seja generosa comigo e deixa eu participar da tua festa no gelo, dos teus joguinhos extremos no quarto escuro, do silêncio repentino dos homens e das coisas um pouco antes do mundo explodir. ao redor só vejo vultos fossilizados e fui atraído pelo frio. há algo confuso, um descontrole e mágica assassina quando tu passas incendiando os prédios centrais. bebe um conhaque comigo, fique parada com cara de fada louca bem na minha frente. vamos nos divertir agora que é setembro, antes que o sangue esfrie e a gente vire esse jardim grotesco, esse horror que todo mundo é.
***
diga adeus antes de ir embora
não me ame com sangue debaixo da unhas, com ódio nos dentes, com venenos finos nos olhos, na ponta da língua. não atire nosso prato de yakisoba caseiro no chão da cozinha, não cuspa as canções do kurt cobain na minha cara, não grite na fila do banco que me quer morto em pedacinhos. não seja hostil com os garçons da madrugada, não rasgue nosso retrato do dia perfeito, não desligue o telefone e nem bata a porta dizendo palavras cruéis. não vire santa prus cadáveres dos subterrâneos. não me deixe fritando na festa dos canibais. perdão se não sou e nunca fui o príncipe-fodão que você sonhou olhando a tempestade cair no seu jardim dos horrores. perdão se bebo muito e não distribuo sorrisos nem frases de efeito relaxante pra rapaziada da intelligentsia. sinto tudo, sinto medo, sinto muito e vivo dentro do meu bloco de gelo com meus demônios fazendo festinha no peito. então não me beije com rancor, não me derrube da cama, não morda meu pau, não me foda por vingança, não me arranque o coração, não me faça sangrar e não precisa empurrar porque já estou saindo.
***
brasa
essa garota que anda por aí incendiando avenidas, destruindo linguagens, derretendo estruturas, me pegou de jeito, pegou gostoso. também só queríamos beijo na nuca, amasso em toda curva escura, coisas do corpo e outros hipnóticos. por exemplo, se me perguntarem o nome dela eu digo saliva, língua, navegação. tem esse sabor de sal e pétala nos seios de mamilos bizantinos, esse cheiro de nicotina e oceano atlântico nos cabelos desestruturados, canções de aretha franklin e afundo. vejo nuvens carregadas de eletricidade e desejo, clarões púrpuras no escuro céu e o corpo segue formigando na onda que é quente quente quente. ela dança no fogo, encantada. com os braços abertos, inventa os passos com o cabelo no rosto, voa. estamos no impossível. no nosso circuito fechado: ninguém nos toca. ninguém nos vê e nos divertimos pelos extremos. claro, no mundo tem ioga, homeopatia, hipócritas e suicidas. mas caímos na abundância, no mergulho na brasa rubra. combustão é o nome da coisa. então amanhã a gente discute o medo e o porvir. fala de dinheiro. arma um esquema perfeito. hoje, porém, só o caos selvagem, a boca no pau, língua e lábios em colisão. hoje, agora, só o corpo, o fogo, o que for bom.
(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)
O primeiro encontro às escuras (que na verdade foi muito às claras!) está bem descrito nas páginas iniciais do livro inaugural. Adão, até então sozinho e incompleto, pede a Deus uma companheira para preencher seu próprio vazio no Paraíso. Deus, que também vivia eternamente isolado, embora fontes apócrifas discordem desse fato ao referenciar Lilith como a ex-mulher renegada do Divino, resolveu atender ao pedido primordial. Nunca saberemos se Eva passou por algum crivo, se foi avaliada e aprovada por alguma família, e se os amigos e parentes foram com a cara e as vergonhas dela. O que sabemos é que Adão conheceu Eva e teve que se encantar com ela no primeiro dos primeiros encontros que a humanidade, a literatura, e deidade conceberam. E como essa história rendeu frutos pecaminosos, herdeiros e muita ficção, podemos dizer que esse blind date foi um sucesso! Essa peripécia artística teatral moldou principalmente a sociedade judaica que, desde então, vem (des)unindo incontáveis almas cabalisticamente incompletas. E eu, membro fálico do pacto firmado entre Abraão e o Divino Matchmaker, não poderia ser diferente. Participei de muitos desses encontros às escuras.
Podemos perceber todos os dias como a sociedade evoluiu. Antes éramos macacos desnudos poligâmicos, segundo a ficção evolucionista não adotada aqui, e hoje, após um grande mal estar na cultura, nos tornamos seres relativamente capazes, parcialmente monogâmicos, livre de odores e fezes, buscando perpetuar e assegurar a longevidade do nosso gene através do folclórico casamento. Tudo mudou, exceto a forma judaica de lutar contra a assimilação: os encontros às escuras continuam a todo vapor, porém com o auxílio contemporâneo da tecnologia.
A network judaica é muito forte. Informações circulam constantemente entre mães histéricas, rabinos barbudos e velhotas desmemoriadas. Recentemente essa Rede detectou a minha solteirice. Após ter namorado anos com não judias, descobriram que estava disponível um macho alfa judeu. Recebi algumas indicações, recomendações, sugestões, declarações e intimações de diversas judias prontas para reprodução. Entrei em contato com várias, conheci muitas, relacionei-me por frações mínimas e copulatórias de tempo com algumas, mas que não foram um grande sucesso como o tal do encontro primordial bíblico. Estava quase desistindo de praticar essa antiga modalidade e com isso jogar por terra (como fazia Onam) a minha possibilidade de um casamento judeu, quando me indicaram uma carioca via Facebook.
Fiquei admirado com seu perfil. Magistrada com lindos olhos verdes, pele clara, corpo malhado e muitas histórias em comum. Assim como eu, ela tinha morado em Israel, participado de um movimento juvenil, tomado gosto pelas viagens desbravadoras e também tinha o sonho secreto de ter muitos descendentes judeuzinhos. Trocamos algumas mensagens virtuais, mas ela nunca esboçou grande empolgação em me conhecer. Explico: uma magistrada no Brasil, apesar de ser tão qualificada quanto muitos outros profissionais, recebe um salário que desmerece qualquer outra ocupação (exceto a dos políticos, corruptos e repugnantes) além de possuir poder e hierarquia social superiores. Eu, apesar de 100% judeu, resolvi me dedicar à arte, à literatura à contemplação da Beleza (resumindo: um grande vagabundo ao olhar utilitarista), coisa que atrai uma parcela muita pequena das mulheres. Porém, conhecendo todas as histórias e poemas de amor, não poderia deixar de tentar conquistá-la sem antes lutar titanicamente. Propus um encontro às claras que foi aceito sem muita exaltação.
Viajei. Viajei em todos os sentidos. Tive que tomar o avião em direção à sua cidade e imaginei idealmente o encontro. Os corpos e as almas, assim como os falaciosos emails, se encontrariam? Preencheríamos o nosso Éden com muitos descendentes melequentos judeus? Ela seria minha uma grande merchante de filhos e de arte? Marcamos o nosso rendez-vous em um barzinho boêmio do Rio de Janeiro. Repleto de pessoas, ninguém saberia que naquela mesa ocorreria mais um dos históricos e antigos encontros arranjados. Em busca da inspiração para minha poesia, cheguei ao local combinado. Ela, radiante com seu vestido verde, dava-me esperanças e prometia-me devaneios. Diante da possibilidade de deixar essa minha vida errante, errando e desperdiçando minhas muitas sementinhas, resolvi empenhar-me na tarefa masculina da conquista. Dispus todo meu arsenal poético, cultural e lúdico. Contei e cantei histórias, músicas, casos e acasos. Inventei e me convenci de encontros às escuras que deram certo e que prosperam por gerações e gerações até chegar naquela fatídica mesa de bar.
A magistrada mirava-me sem me admirar. Quando tinha uma oportunidade de voltar à vida real, contava-me sentenças e julgamentos realizados. Atrelava-se à praticidade e a utilidade de sua profissão. Atestava o valor e o lastro do dinheiro que poetas e sonhadores não possuíam. Tornava-se lentamente desinteressante, exceto pelos seus lindos olhos verdes e por sua desejosa bundinha. Os poetas, assim como os cegos, sabem ver na escuridão e imaginar as redondicesdrummondianas de sua divertida e saborosa nádega. Assim, sendo mais homem que poeta, mesmo sendo ela desinteressante e desinteressada, encantei-me com a possibilidade de possuir seu corpo adâmico.
Continuei tentando. A magistrada, após muito escutar, e com todo seu poder institucionalizado como renomada juíza e como mulher que escolhe se o primeiro encontro terminará na troca de líquidos, exclamou com muito desânimo: “Que legal. Você sabe um tanto de coisa inútil!”. Refleti bastante. Que declaração! Ela conseguiu resumir em algumas poucas palavras toda a questão artística, além de me eliminar de qualquer disputa pelo seu corpo e pelo seu coração. Resignei-me. Resignei-me em nome de todos os poetas, escritores, literatos e sonhadores. Recordei-me de Oscar Wilde: “all art is quite useless” e retomei a inutilidade das minhas palavras e ações.
Mais um dos muitos Jewish blind dates se realizou. Mais um dos muitos desencontros da vida. Mais uma história apócrifa dos casais que não se uniram. Se o primeiro encontro às escuras da humanidade, apadrinhado pelo Divino Matchmaker, foi um sucesso, o último, tendo eu como figurante e apadrinhado pela mulher do rabino, não teve êxito algum. Acho que vou recorrer à praticidade jurídica exigindo meus direitos como sonhador, poeta e judeu.
(Jacques Fux é Pesquisador Visitante na Universidade de Harvard. Doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Universidade de Lille 3. Autor dos livros Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Tradição Planalto, 2011) e Antiterapias (Scriptum, 2012)