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72ª Leva - 10/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Yara Camillo

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

DUAS VIAS

 

Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse.

– A velhice dando passagem à juventude?

– Não: a sabedoria dando vez à pretensão.

Riram. Era uma brincadeira antiga, da época em que se conheceram: ela, preparando a tese. Ele, o orientador que não chegou a sê-lo… A relação aconteceu e, de comum acordo, decidiram que ela procuraria outro professor. Nem por isso a pressão foi menor. Em muitos olhares, o imediatismo rotulava, sem sursis: veterano-estende-as-asas-sobre-a-novata. E poderia ter sido pior; tivesse a “vítima” alguns anos a menos e o crime estaria consumado, não se podia brincar com essas coisas.

A maré do politicamente correto extrapolou, afrontando os limites do bom senso – dizia ele. – Facilite… E até Lolita e Morte em Veneza acabarão queimados em praça pública.

– Não exagere – dizia ela.

Ele ria:

– E a lei contra os Adônis que enfeitiçam os velhinhos? Deveria existir uma, não?

Ela ria:

– E qual seria o nome desse crime… Gerofilia?

– Sim… Muito próprio. – E ele improvisava a premissa: – Não gerofile, para não ser pedofilado.

– Proponha esta na próxima reunião e estaremos condenados em duas vias, sem direito a habeas corpus.

– Falando em habeas

– Falando em corpus

A brincadeira se repetiu ao longo dos anos, mesmo depois de perder a graça; ela, mais que ele, chamava o riso como tábua de salvação, como refúgio das crises que também se repetiam, indefinidamente.

Passado o espanto geral, que de roldão consumira também certos encantos, as coisas começaram a se acomodar. Ninguém mais estranhava a parceria, nem a ironia que permeava o enredo natural daquele amor: ela, já não bastasse os muitos anos a menos, aparentava ser tão menina… Para entrar no cinema, só mostrando Identidade que provasse ao menos dezoito, dos vinte e três já completos. Ele, em contrapartida, já aos dezesseis se passava por “maior”, nos bailes e cinemas da cidade interiorana onde nascera. Cabelos precocemente grisalhos e o sagrado costume da cerveja completavam o quadro, adiantavam o tempo e, aos olhares alheios, alongavam mais ainda a distância entre os dois.

O tempo. O curso. Da universidade e das coisas. E a tese, que não saía nunca.

– Se você não pode ser meu orientador, então não quero mais ninguém – ela dizia. E se por algum tempo esse argumento surtiu efeito, foi também se desgastando, como tudo, como um todo.

– Não era isso – ela confessou, numa das raras noites de cerveja que conseguiram a sós, porque a universidade era um mundo que se estendia para além do campus, até o bar, até a casa, até os amigos e tantas horas compartilhadas. – A Dança seria o princípio e, a Geografia, o meio… Sabe? O meio pelo qual a Dança viria a acontecer, sem as amarras das concessões profissionais necessárias à sobrevivência. Mas tudo virou do avesso, a Geografia se espalha e não faço outra coisa a não ser projetos.

– Não há lugar para dois, com a Geografia. Ou é ela ou é ela, se é que você me entende, e eu às vezes acho que não.

– Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo e no espaço? Nunca, dirá você.

– Nunca, tu o disseste.

– “Salvo quando se amam”, disse o poeta. E se essa verdade não pode harmonizar a Dança e a Geografia, então quero nascer de novo.

– Você já nasceu tantas vezes, lembra… Ou não, não mais?

Ela fechou os olhos, fazia isso quando sentia dor ou acusava o golpe, claro, quantas vezes não dissera “acho que nasci de novo”, depois do amor?

Foi naquele amanhecer que os dois se descobriram de partida, ele para o campus, de corpo e alma, porque aquela era mesmo sua vida, sua escolha, desde antes dela e, com um pouco de sorte, também depois dela – embora no momento ele não soubesse, não tivesse a menor ideia de como faria para sobreviver àquela ausência. E ela enfim para a dança, habeas corpus, habeas anima. Ele, que não acreditava em deuses, acabou maldizendo os desígnios que deram a ela uma bolsa, no ano seguinte, para um estágio fora do país.

Encontraram-se uma vez, na Europa, mas aquela não valeu: ela estava embriagada demais com a liberdade e ele embriagado demais com a alegria de revê-la.

Agora, anos depois, um novo reencontro: ele gostou de achá-la, ainda, bela. Gostou de gostar de vê-la, embora a dor.

– Você ficou bem famoso – ela brincou, recurso que sempre usava para driblar o embaraço. – Ouvi falar, por aí.

– E você?

– Como? Você não ouviu falar de mim?

Ele ficou sério, um segundo antes do riso. Ela riu, também, e tudo foi como antes, por um instante.

– Você está dançando?

– Às vezes.

– O que houve?

– O de sempre. Não sou articulada, não me relaciono com as pessoas “certas”, não me enquadro muito nas coisas. – E imitou o tom de voz que ele usava, quando queria ser categórico: – Se é que você me entende, e eu acho que não.

Ele riu, de novo, agora sem muita vontade. Ela continuou:

– Mas eu tinha que ver, não é? Eu precisava ir. E fui bem, por uns tempos… E “ir bem”, ainda que por uns tempos, deixa um gosto de “sempre”, quando se trata de Arte.

– Isso me lembra aquela sua velha máxima: “A Arte acima de tudo.”

– Não – ela responde. E ele vê nisso algo de novo. – Não existe acima, nem medida alguma, nesses casos. Só uma sensação de que as coisas têm um sentido.

– Isso você podia ter…

– Você podia. Não eu.

– Então, perdemos uma geógrafa brilhante… para uma bailarina…

– Apenas razoável?

– Eu não disse isso.

– Claro que disse. Mas não faz mal.

– Escute, ainda dá tempo.

– Tempo do que, meu amor?

– Esse “meu amor” me pegou de surpresa.

– O que prova que você continua o mesmo… Surpreendendo-se com o óbvio e olhando com cara de velho para o que é realmente novo. Agora me leve daqui para um lugar mais decente, onde se possa tomar um bom vinho.

– Você também não mudou. E isso, não sei por que, me faz bem.

– Não era o que você dizia.

– Não era o que você pedia.

Ele abre a porta do carro, ela sorri:

– A velhice dando vez à juventude?

– Não, o cansaço dando lugar a algo que não quero definir agora.

– E quem disse que é preciso definir?

– Temes definhar ao definir?

– Idiota! – Ela ri. – O fim vai chegar, para nós. Para todos nós. Mas não hoje.

– Você não vai acreditar, mas isso, para mim, já é alguma coisa.

“Acredito”, ela quis dizer, mas achou que não seria preciso.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 


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72ª Leva - 10/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Alice Fergo

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

ALEGORIA

 

Numa gaveta, as viagens. O véu do silêncio. A hipotética presença de uma ave no mundo das coisas pares. Pensa-me e não temas a resposta. Afianço que o primeiro beijo subiu da água.

Também os olhos são vitrais. E passam informação de milhares de anos. Um rio. A fraga enorme que sustenta o céu. O rigor das coisas caladas. Há símbolos para o nosso encontro numa concha de orvalho. Ainda sabíamos tudo sem nenhum esquecimento. E dançávamos.

O sol parte do mesmo ponto. Das rosas. E arde. É desse sangue que a manhã começa. Sem desculpas. Enormíssima coisa viva que explica o princípio comum da arte. Pareceu-me ouvir da morte. Tu não estavas.

 

(A  poeta portuguesa Alice Fergo é formada em História pela Universidade Clássica de Lisboa. É autora de “As Mãos na Pedra” (1995), “Versos de Água” (2000) e “Quando junto às horas se ilumina um rio” (Labirinto, Fafe, 2009))

 

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

CINCO ESTRELAS

Frederico Latrão

 

Com a disciplina de um artesão, levantou junto ao sol e preparou o café da maneira mais tradicional possível: água quente no bule, mas não fervida, e jogada diretamente nos grãos torrados e recém-moídos colocados em filtro de pano. Logo a cozinha e a casa se preencheram do mais intenso perfume. Com uma xícara fumegante em uma bandeja, voltou ao seu quarto pisando devagar, desviando dos calçados e das roupas jogadas no chão durante a madrugada. Ela, em meio aos lençóis revoltos e ainda com os pensamentos amarrotados, se senta na cama, olha para a cena e toma a xícara tímida, retirando os cabelos do rosto e segurando as lágrimas pela emoção de estar sendo tratada como nunca havia sido antes.

Ela odeia café.

***

DEMISSÃO

As coisas pessoais que guardava em seu antigo escritório estavam todas dispostas em apenas uma caixa. Não queria levar muita coisa dali. Nada de lembranças. Elas, para ele, são meras bagagens esquecidas por aqueles que passaram pela sua administração. Também nada de levar os troféus ganhos pelos bons serviços prestados. Eles ficarão dispostos nas prateleiras para que sirvam de recado para aquele que chegará em seu lugar, um aviso singelo de que terá muito trabalho pela frente. Assim, pegou sua pequena caixa e saiu. Ao abrir a porta, viu todos os antigos subalternos dispostos em um corredor, batendo palmas. Muitas palmas. Mal se escutava a sua voz dizendo obrigado. Muitos choravam de emoção. Já o ex-chefe, seguia agradecendo e sem nem ao menos mudar a expressão.

Ao sair de vez do inferno, todos os demônios se perguntavam quem ocuparia o lugar de Lúcifer. Os rumores dizem que o posto será de um demônio muito mais novo e com um currículo invejável, mas que fará o mesmo trabalho ganhando bem menos.

(Frederico Latrão é escritor, poeta, haicaísta e uma doce fraude, pois é o eu-lírico sem rosto do jornalista Gilberto Porcidonio no blog Versos Patéticos e no twitter @FredericoLatrao. A alcunha pomposa lhe veio em um sonho durante um retiro espiritual e após o uso exacerbado de substâncias com alto teor cafeínico)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

VÉRTEBRAS E CORAIS

Marcia Barbieri

 

“E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
(NIETZSCHE, F. Para Além do Bem e do Mal)

Os carros não passam nos becos. Vértebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas são escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do chão. Jonas perdido dentro da baleia. Vísceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal lá fora. Algumas poças devolvem um retrato cruel de mim. Doryan Gray. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados através do meu sorriso pálido. Dou uma olhada ao redor. A lua atrás continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calendário. Cheia, às vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, principio de todo infortúnio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.

Gosto de observá-la. Calado como um animal solícito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabeça para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o pimentão. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores púrpuras. As entranhas escorrem poéticas pelas suas mãos pequenas de mulher perdida. Todas elas cortesãs. Nunca amaria alguém tão frágil nas extremidades – era tão certo devorá-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As pálpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando refúgio para seus suicídios diários. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca não devorada.

Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites são brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do relógio. Um engano matemático. Somente.

Ela chama para o almoço. Já é tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Começo a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele nó que se forma quando queremos chorar e o choro não vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Começo a entender o que significa escutar o silêncio. Me calo. O talher bate no prato. Vão. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaideço. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solidão da espinha. Ela se despedaça e desce. Solto um pequeno sorriso, dez centímetros de talho. Eles voltam a movimentar as mandíbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas águas.

Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, Ela imagina que a brasa entre meus dedos é um pequeno pôr-do-sol. Quase apagado.

 

(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

REFLEXOS

Márcia Denser

 

(para Filadélfia Jones, onde quer que você esteja)

“Marco,

Hoje abri a janela para o domingo chuvoso e inerte. Entediada, liguei o computador onde uma jovem marquesa triste molhava a pena e começava uma carta:

‘M,

Chove esta manhã. Não obstante o tempo, será impossível mandar selar Juno. Quando desci ao pequeno salão, fui informada por Artémise que Mme. Berthe mandara Lorin à Meséglise, de onde só retornará à noite. Creio não ser possível nos avistarmos no local combinado. Prevejo um serão melancólico com o senhor cura e M. de Charlus a jogar gamão e Berthe, minha carcereira, vigiando os postigos. Como sofro ao saber-te tão próximo e inatingível. Desgraçadamente, partiremos amanhã para Ostende. Estaremos separados durante todo o verão sem o derradeiro consolo de uma despedida. Nuvens carregadas me afligem com maus presságios, todavia tu não mereces que te faças sofrer. Manda a razão dizer-te que estás livre, mas meu coração é teu prisioneiro. Basta por ora, meu amigo, Berthe se aproxima…”

Marco, suponho que você saiba que a carta da marquesa é essencialmente igual a minha, embora também desta vez eu me escondesse por detrás do estilo rococó de espartilho e anquinhas, através do qual todo sentimento humano soa frívolo e melodramático. Como se a autora os ignorasse quando, no fundo, tem medo. Meus múltiplos disfarces já não te divertem mais. Aos reflexos do que não sou, você responde com suas próprias imagens deformadas.

Lembro do que disse naquele dia de fevereiro – lembro-me bem porque o sol fervia e Cortázar havia morrido – obrigando-me a ouvi-lo, a te encarar frente a frente: Cortázar que vá para o inferno! Onde está você? Está aí, e me sinto só, entende? Sei que não estou sendo objetivo, mas veja: você está em cima, embaixo, atrás, na frente, mas não ao meu lado, ao meu lado nunca. E seus punhos esmurravam as paredes quando era minha cabeça que você queria quebrar para enfiar um pouco do teu desespero lá dentro. Lá, onde se pressupõe que viva a compreensão, lá, onde mantenho aprisionada uma andorinha ferida embora ela se debata e bata e me atordoe e enlouqueça.

Não sou a marquesa encerrada em seu castelo pela governanta, o mau tempo ou um cavalariço, nada impede que eu tire o carro da garagem, recapitule o itinerário, o traçado de ruas e avenidas que em quinze minutos me fariam estacionar em frente à tua casa, debaixo da árvore de flores amarelas cujo nome não sei, buzinar até que teu belo rosto jovem apareça no terraço, rever tua expressão de resignado desgosto, te pressentir descendo as escadas com brusca lentidão a contragosto dos teus próprios passos que lentamente atravessariam o jardim, detendo-se do lado de dentro do portão com os antebraços apoiados na grade numa tentativa de sorriso que os lábios não obedeceriam. Trocaríamos cumprimentos à distância, talvez eu dissesse que passava por acaso ou talvez não dissesse nada; educadamente perguntaríamos pela família, pelo trabalho, pela saúde, pelos amigos, acrescentando comentários a respeito das próximas eleições, da catástrofe do México, do último filme e até da meteorologia, sempre tão incerta, aí talvez você arriscasse um elogio falsamente bem-humorado sobre meu corte de cabelo que eu retribuiria com um sorriso complacente (aquele que você detesta) acendendo um cigarro enquanto buscavas teu maço no bolso, retesando o frágil arco do silêncio até que presumivelmente eu o rompesse com um soluço, um palavrão ou uma súplica, cedendo ao impulso de estilhaçar este muro de vidro a que chamamos realidade e boas maneiras e tanta cordialidade, para, mais uma vez, encontrar do outro lado a máscara sem rosto da tua infinita, obstinada negação.

Levanto a cabeça e, debaixo das lágrimas, vejo a chuva, o domingo, as duas da tarde: não, não sou a marquesa, não me é permitido padecer de irrealidade. Mas continuarei tentando.

Saio e ligo o carro. A cena martela meu cérebro: teu belo rosto, o desgosto resignado, um ramo de flores amarelas, tuas pernas lentamente, a tua boca, a tua boca insuportavelmente formando palavras que você não quer dizer e eu não quero ouvir, e mais uma vez o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, o muro de vidro que um dia atravessarei quando abandonar a marquesa, o sorriso complacente, minhas medalhas de religião, uma cicatriz que deformou minha alma, minha inteligência, minha cultura, meu saldo bancário, meu prestígio, sobretudo meu prestígio, mas que importa tudo isso se conseguir atravessar os espelhos e passar para o outro lado, para dentro do teu abraço, finalmente libertando a andorinha.

(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global, 1986, Ateliê, 2003, 2010, 2ª edição), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda CasabrancaeHell’s Angel – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que Hell’s Angel está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

I’m always crashing in the same car

[Diário Sentimental – Julho, 2010]

Maurício de Almeida

 

Sylvia Plath cutuca a orelha do meu pai satisfeita por saber que ele não é alemão, mas mineiro, e assim, ao redor da mesa, comemos uma macarronada pesada e bebemos um vinho barato e depois, singelamente tomados pela languidez de uma maré alcalina pós-prandial um tanto alcoólica, o cigarro caindo mal no estômago, o marasmo carregado deste apartamento suspenso no domingo, Drummond nos explica as ruas de uma cidade que provavelmente não existe (mas meu pai diz conhecer) rascunhando mapas e setas em formulários oficiais e diz

– devagar… as janelas se olham

e, de mãos dadas, Sylvia Plath e eu na sacada contemplamos sem interesse a noite despencando lenta no horizonte limitado desta cidade (que também não existe, apesar das janelas e dos formulários oficiais) e suspiro olhando longe

– eu direi as palavras mais terríveis esta noite

Drummond sorri, mas Sylvia Plath me ignora até que a noite finalmente pesada sobre nós e apenas eu e ela neste apartamento à deriva, a segunda-feira assolando em alarmes, mas, por enquanto, o domingo quente nos envolve em suor, a dimensão amorfa das nossas bocas engolindo-se envenenadas por conhaque e as mãos dela firmes segurando meus braços, espalmando meu peito para escapar num salto e negar o segredo de sua pele quente, o sutiã ainda fechado sobre os peitos, o mínimo de suas pernas abertas, pois ela sentada nesta cama cobrindo-se com o lençol como se de repente tomada por uma raiva que comove as noites mais interessantes de ócio e insônia, e percebo que de pouco resolveriam palavras terríveis, por isso sento-me também, pego o copo de conhaque perdido ao pé da cama e ofereço a ela um gole, pois talvez um tanto mais de álcool aplaque a auto-piedade subindo forte, mas ela teme (ou deseja demasiadamente, não sei) o que há de mais absurdo na embriaguez, palavras confusas, ideias impertinentes e impulsos incontroláveis, e, sem pressa, aponto meu dedo em riste e procuro o tom certo para dizer que o calor deste domingo está me atazanando a libido, mas fico quieto ao vê-la agora em pé expondo seu corpo branco e não muito esguio, ela caminhando devagar em direção a janela, olhando como se não visse o horizonte impossível desta cidade, penumbra de copas das árvores, luzes acessas, letras pairando em neon, ela caminhando para alcançar o rádio, ligá-lo

Those kilometres and the red lights

e pegar a bolsa sobre a escrivaninha com certa displicência e alguma intenção, desarmar a tampa de um tubo pequeno e distribuir um forro espesso sobre uma tira de seda para bolar um inventando origamis com a língua e sumir na fumaça

I was always looking left and right oh, but I’m always

ela ao meu lado e nós deitados e muitíssimo quietos, o som ecoando monocórdio

I’m always crashing in the same car

um arrepio me subindo as costas, a garganta seca e os ouvidos cismados em sons descontínuos

always always always

ela me alcançando o rosto, nossos lábios muito secos investigando-se sem cuidado, um tumulto de línguas, Sylvia Plath me mordendo o pescoço e estes olhos imensos e esvaziados me encarando como se não me vissem, mas eu em estado de graça por esquecer rumores e insônias e conseguir me fingir longe deste quarto à deriva de segundas-feiras

I was going round and round the hotel garage

Sylvia Plath me pesando sobre o corpo para estatelar meus olhos num gozo e dormir um sono tranquilo de criança, então me aconchego a ela, fecho os olhos e a envolvo num abraço para embalar o sono e continuar gestando este momento no meu absurdo ventre de algodão e molas, a paz desta noite plena de fugas, entretanto, ela se contrai e se debate, a janela sopra uma brisa leve que sacode copas das árvores, apaga luzes e avacalha letras pairando em neon fazendo-a acordar, cabelos desgrenhados, olhos amarrotados

– ainda é noite

eu digo e ela apenas sorri

– durma

e ela se espreguiça e se ajeita e redescubro o corpo dela que volta ao sono, meus dedos coçam as palmas suadas para evitarem tocar o pouco das pernas dela que foge ao lençol, alguns pêlos muitíssimo escuros serpenteando a virilha aos quais não resisto e dedilho em compassos lentos os suspiros dela, nossos braços se enfrentam, minhas pernas entrelaçam sem jeito às dela e ensaiamos passos tortos nesta noite que se faz confusa também por ela violentamente em pé, um abandono, um adeus, ela se levanta

– Sylvia?

conturbando as coisas deste quarto que se sobrepõem me compondo isto que entendo por vida e sei não existir saída, pois estamos aos círculos ao redor da mesa, a mesma macarronada pesada e o mesmo vinho barato, o cigarro me acertando murros no estômago para me nocautear neste colchão soterrado por uma pilha de sonhos catastróficos confundindo rostos e medos e, ainda que vasculhe (e vasculho) o que há de mais íntimo neste breu em busca de alívio ou descanso ou qualquer coisa, outra vez me atento à confusão de sons que se explica em pessoas suspirando tédio, questionando a aurora ainda distante e ela pisando leve pela casa

– Sylvia?

não me dando ouvidos

– Sylvia?

não importa o quanto eu diga, o quão alto grite, e eu grito, é claro que eu grito, pois ela abrindo a porta da sala

– Sylvia

para sair correndo por entre copas de árvores e setas neon que Drummond desenhou em papéis timbrados sem se importar com essa ânsia que me corrói em grandes mordidas por me saber dando o mesmo muro na ponta da mesma faca, não posso aceitá-la correndo longe sendo que uma espécie de conforto os dedos dela entre meus cabelos, o corpo quente que eu envolvia num sono, mas agora, às 3h da manhã desta madrugada ordinária, Rilke e Rosa jogam escravos de Jó e, derrotado nesta cama, tenho certeza absoluta de que Sylvia Plath enfiou a cabeça num fogão porque se cansou disto que me cansa.

 

 (Maurício de Almeida é autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007)

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Viviane Rodrigues

CURTÍSSIMOS CONTOS

Gladson Dalmonech

 

(20)

Haveria poesia sem palavras? – Pensou ele, chegando à praia, de madrugada, sol quase nascendo. Depois, despojou-se da mochila com os livros, da garrafa de vinho pela metade e das roupas. Em silêncio, mergulhou naquele instante em que a onda se ajeita pra escrever poemas obscenos na areia.

(68)

Os ponteiros do relógio avançavam como cães ferozes no tempo. Ele a esperava, mas ela não veio. Nem nunca mais viria. Uma hora e meia e sete cigarros depois, só o que restara dela era aquele isqueiro vagabundo, com os dizeres “eu te amo”.

(102)

O cara o esfaqueou e correu. O outro caiu na calçada, em frente ao bar. Saí da mesa, última cerveja, fui ajudá-lo. “Você tem um cigarro?” – ele perguntou. Acendi e passei pra ele. “Nem precisa chamar a ambulância. Entendo de facas”. – e deu uma tragada funda. “Apenas fique aqui comigo. Morrer sozinho é foda”. Sentei-me ao seu lado e ficamos ali, mastigando o silêncio da espera. Lá longe, o destino assoviava uma canção no vento da madrugada.

(120)

Ele acolheu o sorriso dela numa foto. Lá se iam trinta e cinco anos daquele clique. E a guardou, em preto e branco, no meio das páginas de um livro surrado. Hoje, arrumando sua velha estante, ela voltou à tona – mesmo doce sorriso – quando a foto, num escape da cela das páginas, mergulhou no piso do escritório. A saudade lhe acenou do retrato. Iria visitá-la. O manicômio não era muito longe.

(216)

Voltou da missa, foi pro quarto, tirou a roupa, fechou os olhos, desceu os dedos. O padre novo da paróquia não era coisa de Deus.

(Convivo com Gladson Dalmonech há 47 anos. Ele, que é professor universitário de comunicação e mestre em Estudos Literários, vive às esfregas com as palavras. Sujeito estranho, ganhou o II Concurso de Contos da Playboy, em 1998, e desde garoto tem essa mania de rabiscar suas loucuras onde der. Agora mesmo escreve seus Curtíssimos Contos no Facebook. Não é fácil conviver com ele. Eu já estou preso dentro dele há tanto tempo que até me esqueço que ele tem dupla personalidade)

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Desenho: Rui Cavaleiro

 

DURMAM, SEUS TROMBADINHAS!

Roberta Simoni

 

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

(Roberta Simoni é jornalista e fotógrafa e foi só quando descobriu que podia unir as duas linguagens numa mesma forma de expressão (e impressão) que começou a se realizar como escritora, carreira que assumiu recentemente, quando finalmente percebeu que não tinha mais pra onde correr)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Desenho: Rui Cavaleiro

AY, ESTE AZUL

Teofilo Tostes Daniel

 Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

Um caos de formas, cores, luzes e gentes. Vozes chamam incessantemente para um embarque imediato. E ela, ali sentada, simplesmente aguarda. Aguarda e observa, espectadora que é. Ouve conversas, torrentes de palavras, que se desgarram de seus contextos para habitarem novos sentidos dados pela escuta flutuante daquela mulher, em contemplativa postura diante do ruidoso turbilhão.

Anita era aquele tipo de pessoa que se destaca pelo silêncio. Não exatamente pelo silêncio, mas por um consciente mutismo, opção sua desde que descobrira a vaniloquacidade de quaisquer palavras. Conhecia bem a inutilidade do verbo diante de argumentos de força. Por essa razão, era lacônica e precisa, como um haikai.

Ali, imersa em seu silêncio, a beber o mundo com os olhos, estava, quando um homem lhe chamou a atenção. A familiaridade daquele rosto, perdido no tempo, seria certamente reconhecida em meio a qualquer multidão. Aqueles olhos… Num impulso, levantou-se e foi até ele.

– Com licença. Provavelmente você não me reconheça. Aliás, eu nem sei se você é você. Quero dizer, se você é quem eu estou pensando que é. Qual o seu nome?

Disse tudo como uma tempestade, com a antiga eloquência perdida. Abdicada. As palavras quase montavam umas sobre as outras, para sair mais céleres. Eram como animais acuados que, num repentino rompante, encontram um ponto de fuga.

– Ro…

Sim, era ele. Anita jamais esqueceria aqueles olhos do mais belo azul turquesa que já tinha visto na vida. A medida de sua mudez se ligava estreitamente àqueles olhos, que ela havia conhecido quando tinha entre oito ou nove anos, na escola. Estavam às vésperas da festa junina e ela iria dançar com Rogério, o dono daquele azul.

A turma se via mergulhada nos ensaios da coreografia da quadrilha, com seus pulos, gritos e túneis, em que todos os pares seguiam os noivos. Anita chegou a ser cogitada para o papel da noiva, mas abdicou. O noivo já estava escolhido de antemão, e ela não queria dançar com aqueloutro menino antipático e metido, dono de estúpidos olhos, verdes e demais convencidos de si.

Anita era só ânsia. Queria logo vestir-se de caipira e dançar, mergulhada naquela imensidão que sequer intuía, num azul que só parecia existir na intersecção entre céu e mar. E naqueles olhos… A roupa já estava escolhida. A maquiagem, de bochechas vermelhas, sardas e dente preto-faltante, era testada quase todo dia. Arriscava acabar com o estojo inteiro de maquiagem da mãe antes de chegar o dia da festa. E como demorava para chegar esse dia!

Por mais que uma iminência demore, no entanto, ela sempre chega. Porque os únicos tempos simbólicos são o futuro e o passado. O presente não se enxerga, nem se apercebe. Ninguém coloniza o hoje. O presente simplesmente é – ligação entre a memória e o sonho. E, gozosa ou desgraçadamente, é nele que se vive. Assim, a festa, que existia como futuro, de repente chegou defronte do portal do agora, pronta para habitar o passado. E foi no agora, no instante, no presente que tudo aconteceu. Mas Anita só se apercebeu de tudo quando a festa já era passado. Pretérito imperfeito: já era.

Pouco antes da apresentação da dança, quando estavam se alinhando os pares, a diretora da escola cismou que aquilo não estava direito. Como puderam deixar uma menina tão alta ensaiar esse tempo todo com um menino tão diminuto? Teriam que rearranjar os pares. A professora chegou a esboçar alguma defesa da desordem já estabelecida, mas não teve jeito. A diretora colocou Anita para dançar com um menino comprido e desengonçado, de olhos foscos, baços. Já Rogério deveria dançar com uma menininha ruiva e sardenta, de olhos muito grandes e negros, semelhantes a uma noite sem lua.

Indignada, Anita bradou contra aquela arbitrariedade. Apesar de sua pouca idade, sabia argumentar bem. Não se intimidava diante de autoridades que não se mostravam legítimas. Questionou de todas as formas possíveis a diretora. Indagou o porquê do império métrico criado para a apresentação, quando tudo sairia melhor se cada pessoa dançasse com quem tem afinidade. Além disso, mudanças naquele instante, quase na hora da apresentação, poderiam confundir a todos. Mas a diretora era irredutível. Não era estético combinar pares tão desproporcionais, como eles.

Enquanto discutia com a diretora, Anita procurava os olhos de Rogério. O menino diminuto permanecia com o rosto inclinado para o chão, mas a olhava, vez em quando. Seu olhar, quase súplice, parecia pedir que ela desistisse daqueles questionamentos todos, pois aquilo não daria em nada. Como quem falasse “deixa, deixa para lá…” – e ela não deixava.

Somente quando a diretora afirmou, quase aos berros, que era ela quem mandava ali e seria do jeito que ela determinasse, é que Anita percebeu que todas as suas palavras foram inúteis. Contra argumentos de força, de poder, as palavras valem nada. Intuiu isso e calou. Calou as palavras, a voz e o choro. Dançou com o menino alto, desengonçado e de olhos baços. Em silêncio. Só não calou as lágrimas, que insistiam em lavar seu rosto. A maquiagem ia ficando cada vez mais borrada pelos caminhos abertos por esse choro silencioso, brotado quase à revelia da dona do pranto. Ao fim da dança, em silêncio, se retirou. Não havia mais festa. Nunca houve. Não para ela, que tanto a havia esperado.

No banheiro, lavou o rosto. Retirou toda aquela maquiagem sem sentido. Tinha vontade de trocar aquela roupa, aquele vestido florido, comprado especialmente para a festa que não houve. Com os olhos vermelhos e inchados, obstinadamente lacrimais, chegou séria perto da mãe. Disse que não queria mais estudar naquele colégio. A mãe quis saber por quê. Ao se ver defrontada com a necessidade de explicar o que houve, Anita chorou alto. Agarrou-se à mãe e pediu, por favor, que a trocasse de escola. E nunca mais pisou ali.

– …berto.

– Como?

– Roberto – repetiu, um pouco mais articulado.

Não era ele. Mas como podia ter aqueles olhos? Nunca havia visto olhos iguais, até aquele dia. Anita não sabia muito o que fazer com aquilo. Nem saberia o que fazer, caso realmente encontrasse com Rogério. Pensou que o verdadeiro dono daquele azul fosse ainda um menino, talvez. Um menino que ficou preso ao passado. Talvez fosse nela, para sempre, aquele menino que ela nunca mais vira.

– Então você não é você. Digo, não é quem eu pensava que fosse.

Anita notou o semblante daquele Roberto. Parecia abatido. E ela parecia perder a eloquência, novamente. Mas ainda tentou se agarrar a um resto de palavras que lhe vinha.

– Desculpe, Roberto. Devo estar te aborrecendo com isso. Você está indo viajar e aparece uma louca…

– Imagine, é que estou um pouco atordoado. Na verdade, estou chegando de viagem. É a primeira vez que viajo de avião. Segunda, a primeira foi a ida. E ainda trago na bagagem as cinzas do meu irmão, que eu mal cheguei a conhecer.

Acenou um adeus, mas não conseguiu dizê-lo. Não conseguiu, também, encontrar palavras para falar ao desconhecido, diante de tudo quanto ele havia dito. Mas quem consegue encontrar palavras diante da vida, do incomunicável, do desconhecido, da ausência, da morte?

O que dizer para a própria finitude?

 

 (Teofilo Tostes Daniel é um carioca, nascido em 1979, que vive em São Paulo. Formado em Produção Editorial pela UFRJ, trabalha com comunicação pública. Lançou seu primeiro livro, “Poemas para serem encenados”, em 2008. Participa da coletânea “História Íntima da Leitura” (no prelo). Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo)

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Destaques Janelas Poéticas

Dedos de Prosa I

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

ANTES NÃO HAVIA ESTE FRIO

José Geraldo Neres

 

Finalmente, encontrei minha sombra. Um pouco de água. A casa está diferente. As luzes não sabem o motivo de estarem acordadas. Sinto o frio das casas vizinhas. São casas ou barcos à espera do próximo dilúvio? Nem calor nem frio. Esse líquido faz os pés doerem. A sombra faz um barulho. Água. Sou capaz de sentir sua respiração ― o Outro a atravessar a parede.

 

 

― Estou à sua espera.

― Cuidado, sou o voo subterrâneo. Procure não demonstrar medo. Os olhos são o corpo do Outro. Sinta o milagre. Somos pó.

― Estou à sua espera.

― Quatro dias, tudo se encaixa, sinta a diferença nas suas chagas.

― A água.

― Pendure-se em minhas asas! As águas não sabem o motivo de existir vítimas ou milagres.

― Vamos, temos que encontrar os Outros. Essa parede nunca esteve aqui.

 

 

***

 

 

ESPELHOS EM SILÊNCIO


Na rua de ontem não há amparo nem homens. O destino tem janelas abertas, mas estava distraído e não percebi a sua face. Ele se deteve por um instante, o tempo necessário para abandonar tudo, até o próprio nome. O passado não precisa de nomes. É um quase-deus a arrastar todas as idades. Não consigo tocá-lo. Um passo, outro passo. A infância, as lágrimas e as paredes têm olhos infinitos. A janela está diferente. Vozes. Uma estrela entra no quarto, destrói o espelho. Seu ar noturno descobre o mistério: era eu pequeno a odiar a noite e seu eterno desfile de cordeiros a conduzir-me pela casa. O silêncio abre seu peito. Não há espelhos quando as crianças se perdem.

 

 

***


 

OS QUE ACENAM DE OUTRA MARGEM

 

Quantas orações saem de seus lábios? Onde são forjadas as sombras? De qual abismo se retiram os espinhos que colocam no seu corpo? Ele acorda. O corpo reclama um pouco de verdade. Paciência. Esta é sempre a resposta. Lutamos em várias tormentas, e não consigo lembrar uma única vitória. Respeite os limites Esta é a sua penitência? Não posso assumir a condenação dos homens. Estou ocupado, já disse, não há tempo para jogos. Tenho marcas pelo corpo, e isso não afeta a maneira de encontrar outros corpos. Não consigo controlar tudo. Existem limites? Preciso respeitar os sinais do meu corpo. Abra a porta. Devagar.

 

* “Olhos de Barro” pode ser adquirido através do site da Editora Patuá

 

(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e  Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)