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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Foto: Juh Moraes

PROBLEMA DE LINGUAGEM

Regina M. A. Machado


Nada impede, responde a mãe, mas presta esclarecimento: o verde dos parques é para dar realce ao marrom. Marrom de quê? Marrom de onde? Do Tietê, de tudo. Cidade com pouco marrom não é cidade, é mata Atlântica; quer voltar aos tempos do descobrimento, poço de ignorância?

Zulmira Ribeiro Tavares, « Vinhetas com o Tio Paulista »

O telefone tocou na hora do almoço e ela atendeu na copa mesmo, foi por isso que todo o mundo entrou na conversa com a amiga francesa.

– Oi, Sandrine, que boa surpresa, você por aqui? … Quando é que vem me visitar?… Não vai ficar em São Paulo? Vai para onde?… Para o campo?!?

Os meninos começaram a rir e a caçoar.

– Pois é, você ouviu, né? O pessoal achou engraçado porque aqui ninguém diz isso. Existe a palavra, claro, mas não se usa nesse sentido. Usa o quê? Ééhhh….. acho que eu diria… para o interior?…

– Só se for para uma cidade do interior!

O papo continuou em francês e eles se desinteressaram. Quando ela desligou, um deles perguntou se a moça ia para alguma cidade.

– Não, ela não quer saber de cidade e na falta de coisa melhor, vai continuar dizendo campo mesmo.

– Campo fica com cara de tradução acadêmica.

– Como é que a gente pode dizer?

– Ela vai para alguma fazenda?

Também não era fazenda – ela tinha perguntado e a francesa disse que não estava interessada nem em plantação nem em criação de gado porque para ela isso era paisagem devastada. E o que ela mais queria era rio com mata preservada, muito passarinho, e para isso tinha que ter muita árvore, coisa que nunca tem bastante em fazenda.

– Isso também não, na fazenda do vovô tinha muito passarinho.

– É, sobretudo em gaiola…

– Menino, como você inventa! Você nem sequer conheceu a fazenda direito. Na beira do rio havia uma mata enorme, tinha até lobo-guará quando eu era pequena.

– Passarinho, então, era mato…

– Ô menino metido! Havia muito sanhaço nas mangueiras, e no pomar o tio Ademar caçava passarinho, lembra? Eu morria de pena quando via os coitadinhos, tão pequenininhos, sangrando no chão. E ninguém dizia nada, acho que era normal… nunca entendi muito bem.

– Pois eu achava bonito, ele tão elegante, com botas e roupa cáqui, de bigode e aquela espingarda reluzente…

– Caraca! As armas e os barões ornamentados com um peito varonil! Acho que prefiro os desejos bucólicos da amiga da titia… e então, qual é o programa dela?

– Bom, ela vai passear na floresta e vai se hospedar num hotel ecológico. O dono do hotel guia os hóspedes para ver, ouvir, fotografar os pássaros, descobrir plantas, essas coisas…

Além dos filhos, havia também os sobrinhos que estudavam perto e vinham almoçar na casa dela. Ela gostava de receber a família, sobretudo os mais jovens, de ouvir as histórias e dar risada com as conversas deles. A irmã também vinha às vezes, talvez para não esquecer dos almoços de domingo na casa da mãe, só que para os sobrinhos não adiantava marcar dia – eles passavam quando estavam pelo bairro ou então não vinham. Não dava mais para fazer como antes, a cidade era outra, muito maior.

– Daqui a pouco você vai dizer que ela vai passear no bosque enquanto seu lobo não vem…

– Pois é, eu também estava pensando nisso e não achei a palavra que queria. Floresta para mim lembra contos de Grimm, coisas traduzidas que a gente lia quando era criança. Ou então uma ideia-problema, como “floresta amazônica”, que fica tão longe que não é bem real.

– Para mim, bosque é que é uma palavra literária, desencarnada. Floresta é normal, aliás tem uma bem mais perto, a floresta da Tijuca…

– Mas essa é reconstituída. Depois que pelaram a montanha para plantar café, apareceu um inglês maluco que replantou tudo. Até o José de Alencar fala nisso…

– Então como é que fica? E se a gente disser que ela vai pro mato?

– Mato pra mim ficou como lugar de escravo fugido, vai bem com capitão do mato, esconderijo de bandido, não combina com a europeia em busca de natureza-pureza.

– Ninguém ainda falou em mata! Tem a mata Atlântica, as matas ciliares… e nisso se fala muito.

– Mas será que dá para dizer que alguém vai para a mata? Nunca ouvi isso.

– Achei! A gente podia dizer que ela vai para a roça!

– Combina menos ainda…

– Roça eu gosto, vai bem com caipira, biju, café com duas mãos, cambucu…

Sempre havia um ou outro dos mais velhos para ensinar alguma coisa aos seus adolescentes preguiçosos e ela bem que gostava. Se ousasse corrigir o que os filhos diziam, ou tentar trazer alguma informação nova, era revolta ou caçoada na certa. Vindo dos primos mais velhos, tudo passava macio, e, mesmo se houvesse discussão, era evidente que eles ouviam.

– Vocês sabiam que ele comprou um dicionário de caipirês?!

– Fui buscar socorro, figura! Meti a cara num mundo soterrado, nas nossas catacumbas, no nosso tesouro de piratas. Eu sou um universitário pasteurizado, só leio teoria traduzida e falo uma língua de merda, mas para ser um caniço pensante eu tenho que ter raiz. Paixão de raiz, sacomé?

– Tempo perdido, ô cientista! Essa menina não tem nem ideia do que você está querendo dizer. Ela agora quando fala parece que anda decifrando língua estrangeira, com essa mania de pronunciar tudo que está escrito. É besta mesmo!

Os outros aproveitaram para massacrar:

– Não é besta, pobrezinha. O problema é o tamanho da ignorância que é imenso, global…

– Ah-ha, ontem ouvi ela dizer que, de noite, ia estar assistindo todas as novelas…

– Quem não concorda com vocês é sempre uma besta, isso a gente já sabe. Mas com dicionário e tudo, ainda não vi o grande pesquisador dizer “nóis vai”…

– É, isso não dá. Mas para mim é uma outra maneira de falar, que não é a da minha tribo. Será que é errado? Não sei. Mas também não sei viver em floresta e moro em prédio. Verdade que tem gente que acha que essa é a única maneira civilizada de morar… E o pior é que cada vez mais gente mora assim. Assim como eu, aliás, mas nem por isso acho que é uma boa.

– É uma boa morte, isso sim… E se a gente não achou um jeito de falar do que a amiga da titia está procurando é porque floresta para nós é para ser derrubada, mata em beira de rio é desperdício, né? Pra quê, deixa só uma fitinha… não tem lugar na língua porque não tem lugar na terra.

– Caipira também é um nada, todo o mundo agora faz como a telespectadora ali, só acredita nessa linguagem desenraizada, sem nenhum caráter…

– A dela é uma espécie de melting pot raso, de feiticeira fashion victim…

– E eis que o inglês invade a linguagem da nossa kamikaze fundamentalista!…

Às vezes, esquentava. Havia os de esquerda, os da direita e os que planavam, depois vieram os apaixonados por ecologia e, por último, o sobrinho estudante de antropologia. Esse só falava em culturas ameaçadas, civilizações desaparecidas, e os outros só com a natureza; parecia um concurso para ver quem ia desaparecer primeiro, se eram as florestas e os bichos ou as danças e os sotaques… O único que gostava da tecnologia quanto-mais-melhor, era o filho do meio, bom de matemática, esperto e caladão, mas pegava na hora qualquer cochilo dos mais idealistas.

– E você aí, ô peregrino de bastão e pé no chão, esqueceu que descobriu tudo isso por causa da internet? E se quiser ir adiante nas pesquisas, vai ter que ler muita publicação em inglês…

– Cada um tem a internet que merece… e fala o inglês que pode.

– Tá bom, mas tá chato! Vamos voltar para o passeio da francesa, pelo menos estava engraçado.

– Por mim, ela pode ir cagar no mato.

– Pronto, engrossou. E eu daqui a pouco vou ter que ir. Tem café, tia?

– Tem, é claro! Já se viu faltar café nesta casa?

– … nesta herança direta dos latifundiários barões do império!…

– Mais respeito, menina, os nossos bisavós nunca foram barões, eram fazendeiros, sim, e sempre cuidaram da terra.

– Ora, mamãe, com a mão do gato, né? Que eu saiba eles nunca moraram na fazenda, trocaram os escravos pelos colonos e fizeram casarão na Paulista.

– Vocês dois, fiquem sabendo que a nossa família nunca nem chegou perto dessa fortuna que estão imaginando. E morou na fazenda sim, não trabalhava no eito, mas estava lá o tempo todo. Quem veio para a cidade, para um bairro bem mais modesto e sem casarão nem mansão, foram meus pais. E vieram para os filhos poderem estudar, seus ingratos!

– Quem pediu? Eu sonho é com uma casa de madeira, com rede na varanda, lampião de querosene e um céu com todas as constelações se atropelando de brilho…

– Ô cara, isso é sonho de citadino! Se você nunca tivesse saído de lá, ia sonhar é com a divina agitação desta megalópole.

– Coitado, nunca acampou, nunca saiu do asfalto, nunca transou debaixo da tenda…

– Coitado é filho de rato que nasce pelado no meio do mato!, gritou o primeiro, mas foi cortado por uma e logo duas vozes cantando em coro.

– “Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”…

– Assim não dá, todo o mundo berrando e cantando ao mesmo tempo vira bagunça.

– Voltemos à amiga, que é assunto neutro.

– Foi pro mato. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? A água apagou…

– Cala a boca, papagaio de pirata!

– Não fale assim com seu primo! Quer sair da mesa?

– Mas ele não para de dizer besteira, ora!

– Besteira na sua boca é mato – cada coisa em seu lugar…

– Bom, tá na hora, vou puxar. Pena que vou sem saber para que raio de lugar vai a francesa. Depois você pergunta para ela?

– Não adianta, filho, ela vai me responder com um termo de lá das terras dela, que ela vai traduzir como puder. Vocês que gostam de andar no mato é que devem saber…  eu não ia nem no capinzal, para não sujar a roupa nem o sapatinho de verniz, então não dá para saber o nome de coisas que nunca fiz.

– Eu também vou indo. Mas não fique triste, minha tia, a gente gosta de você assim mesmo, bem sinhazinha de sala e de piano. E até a próxima tertúlia, bandalhos.

(Regina M. A. Machado mora no exterior há muitos anos e, para ela, o Brasil visto de longe começou a mostrar tantas e tão várias cores, sons, gentes e falares, que ela não teve outro jeito senão tentar entender para se entender)

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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Juh Moraes

CEMITÉRIO SÃO PAULO

Daniel Faria

Para o Marcelo Ariel

Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.

Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.

Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de dentes afiados, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.

Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.

 

(Daniel Faria é historiador e poeta. Autor do livro O Mito Modernista, publicado pela EdUFU em 2006. Publicou Matéria-Prima, pelo projeto Dulcinéia Catadora em 2007. Acaba de ser incluído na Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel e editado pela Caiçaras. Seu Livro de Orações está no prelo, pela série Caixa Preta, da Lumme. Participa da Revista Mallamargens)

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa II

Desenho: Felipe Stefani

A SOMBRA E EU

Homero Gomes

 

À “quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera.”
(Primavera nos Dentes, de Secos & Molhados)

 

 

— Eu vou fechar a porta, para de escrever. Disse ela.

— Peraí. Respondi sem olhar para seus olhos negros. Alguma coisa fora da sala chamava mais atenção.

— O que é?

— Tem alguém naquela janela, tá vendo? Apontei com o nariz, com medo de ser descoberto.

— Não, é a sombra de alguma coisa que largaram lá. Respondeu ela, sem dar muita atenção a minha preocupação.

— Não, é um rosto que tá olhando pra gente. Há quanto tempo tá lá?

— Para de ser neurótico. E foi tentando me empurrar pra escada.

— Não! Tem alguém ali. Insisti.

— Credo. Disse ela, se afastando de mim.

— Deixa eu me esconder. Estou ficando com medo. Minha nuca arrepiava como se um espírito estivesse atrás de mim.

— Eu é que tô com medo de você, tá loco. Coisa estranha… Você tem cada uma.

— Sobe essa escada e some. Disse eu, indignado. — Você tá me atrapalhando.

— Não! Você precisa descansar.

— Eu vou escrever mais um pouco. Afirmei categórico e calmamente.

— Para com isso, essa caneta já tá fervendo.

— É a intenção, me deixa.

— Vá dormir. Ela pedia já colocando os pés nos primeiros degraus.

— Não, eu preciso fechar essa página pelo menos.

— Vá rápido! Ela parecia uma mãe, às vezes.

— Ele ainda tá lá. Disse, voltando ao assunto que me preocupava.

— Não é ninguém, deixa disso.

— É alguém, sim.

— É nada!

— Mas tá rendendo uma história, né? Eu disse, com um sorrisinho no canto dos lábios.

— Desgraçado. Xingou, balançando a cabeça em sinal de desistência.

— Senhor das ilusões. Corrigi.

— Ilusão é a sua existência, seu alter-ego chinfrim. Essa porra não vai dar em nada! Explodiu, enquanto eu redobrava minha atenção no vulto.

— Vai, sim. Insisti, com um fio de esperança.

— Vai dar em doença crônica.

— Não encha!

— Vamos, seu nariz tá sangrando.

— Então, adeus. E fui definhando até a última despedida.

 

 

(Homero Gomes é escritor. Vive e trabalha em Curitiba. É editor do blogue Jamé Vu e colunista dos portais Página Cultural e Mundo Mundano. Contribuiu com dezenas de publicações nacionais, tais como Cult, Rascunho, Ficções, Germina Literatura, Cronópios e Rapa Dura. ‘A sombra e eu’, até hoje inédito, faz parte do livro de contos Sísifo Desatento (inédito), finalista do prêmio Sesc de Literatura, edição 2007)

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa III

Desenho: Felipe Stefani

 

 

DO QUE ESQUEÇO

Priscila Miraz

 

Sempre dos gestos mais pessoais. Dos trejeitos mais repetidos. Esqueço dos meus modos nas situações. Das mãos na cintura quando converso em pé, e de como ergo o rosto pra soltar a fumaça do cigarro. Quando me descrevem, dizem do que mal percebo e do que é o menos passivo em mim. No descuido que o esquecimento permite, a restrita liberdade escapa. E os defeitos e falhas tão mal escondidos, os palavrões, a falta de tato, a evidência do cansaço, o excesso de cuidado, os pequenos melindres, a falta de paciência. Tudo bem figurado na descrição. Encarnado. Quando me chamam a atenção, perco o ritmo, tropeço e fico manca. Demoro a acertar o passo outra vez. A espontaneidade é coisa frágil.

 

 

***

 

 

IMAGEM

 

A casa. A porta lateral está aberta. O ar é denso do silêncio povoado. O calor e os rumores do meio do ermo. É cortante o ranger dos bambus gigantes. Eles ladeiam a casa. Dentro é escuro, úmido, frio. Cheira a madeira molhada. Sempre. A cozinha é quase toda a casa. A mesa grande. As cadeiras descompostas pelo espaço. Utensílios. Livros abertos e fechados. Os pratos sujos. Panos. Óculos. Frutas. As flores apanhadas. Partes do silêncio. E também o arrastar da escova nos cabelos. Ele está em pé, atrás dela que está sentada muito ereta num banco, e lhe penteia os cabelos. Grave. Ela se move involuntária. O puxar que a escova lhe inflige ao pescoço. Não dizem nada. Bem à frente dela, uma janela pequena aberta de par em par. A mata no horizonte se revira com a ventania. Acompanha o cinza escuro da tempestade que chega. Ela quase não respira. É calmo o olhar que vê a aproximação da tempestade. É ainda curioso e encantado. O mesmo olhar que vê a cena vivida.

(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III- Meio Ambiente)


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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Destaques Outras Levas

Dedos de Prosa I

BRUTALMENTE BRUNA

Marcus Vinícius Rodrigues

Desenho: Felipe Stefani

Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar.
Bruna Lombardi

Flash!

Qual a pose que ficou?  Eu de olhos lânguidos pra ele? Eu de taça de champagne na mão? Podia ser whisky? Essa dor de cabeça é whisky, tenho certeza. Mas quando foi que eu desci do champagne protocolar para o porre? Quem mandou beber em público, sua alcoólatra, no meio de um monte de jornalistas? E olha que eles foram convidados. Nós não somos nada sem a imprensa, querida. Até vocês decidirem nos destruir, eu devia ter completado. Amanhã vai sair a pior foto no jornal. Nada da minha arte, só a fofoca. Você está namorando alguém? Eu ainda estou casada, querida. Ele está filmando no Xingu, um filme ma-ra-vi-lho-so, co-produção com a França, querida.

Flash!

Eu não vou te contar, querida, que acordei com seu flash nos meus olhos, quase cega, querida. Você não vai saber que eu não dormi em casa. Tá! Eu ainda não sei bem onde estou e nem quem é esse cara deitado na cama. Você ia gostar de me ver agora, de quatro, debaixo da cama, à caça de uma calcinha. Eu estava com uma, tenho certeza. A manchete podia ser assim: uma noite vadia com Bruna Bianchi. Muito literário pra você, não é? Você ia preferir algo mais direto nas bancas de revista: flagra! Bruna Bianchi pula a cerca. A foto de meu traseiro nu, mal coberto por esta camisa de homem. Não, querida. Esse gostinho eu não lhe dou. Pode falar mal de meus quadros, pode dizer que sou péssima atriz. Você não é crítica de arte mesmo. E novelas? Aquilo não é arte, é corrida de obstáculos. Como você explica sua arte? Você perguntou. Como você explica sua ignorância, meu bem? Eu não virei artista plástica do nada, benzinho. Você não sabe que eu fazia Belas Artes, quando aquele fotógrafo me descobriu?  O dinheiro era tão bom, entrei no mundo da moda. As novelas? Uma coisa leva à outra. Não! Isso não é meu eu interior. Minha arte pretende outra coisa. Nem pense que você vai fotografar minha alma. Contente-se com meu corpo. E não, eu não estou fazendo isso para aparecer. Se eu quisesse aparecer, seria melhor ter um câncer. Tão na moda, hoje em dia. O sucesso seria garantido. Atriz vence luta contra a doença. Eu, belíssima e orgulhosa com minha cabeça raspada, uma Nefertite vitoriosa. Tenho certeza que você ia escrever algo assim: o sofrimento deixou Bruna Bianchi mais próxima de sua personagem. Ela consegue viver a dor da heroína. Que dor? Pura técnica. Cristal chinês. As lágrimas falsas.

Flash!

Os quadros? Eu só pinto o que vejo. Por isso os cães de bocas ávidas, de olhos arregalados, brilhantes como o sol; os homens abobalhados, os mesmos olhos acesos. E os quadros só com olhos, dezenas de olhos, objetivas de câmeras, binóculos, isso não lhe lembra nada? Você ainda não se identificou, meu amor? Não entendeu nada, hein? Bote lá na sua manchete: Atriz impressiona em sua primeira exposição. Não foi isso que a TV mandou dizer? Enquanto eu estiver no ar, tenho imunidade diplomática. A TV não vai deixar nada me acontecer. Todos nós sabemos quanto vale o meu rosto. E a novela está nos seus momentos decisivos, audiência absoluta. Eu tão comportada. Já faz um tempo que não dou escândalo. Estou limpa, querida. Sem calcinha, na casa de um estranho, é verdade, mas você não tem provas. Vai sair uma foto dele me abraçando? O nome, a profissão. Modelo? Olhando daqui, pode ser. Tem estampa. Minha avó diria que ele tem apresentação, moço bonito. E tem tamanho, Vó. É magro. Deve ser mesmo modelo. Amanhã vai estar famoso. Eu sei, Vó, eu deveria me preservar mais. Vou tentar da próxima vez. Agora só me preocupa a calcinha que não acho. Isso eu aprendi, Vovó. Uma mulher não deve deixar vestígios. São nossas intimidades, minha neta. Mas como, Vozinha? Eu sou uma fábrica de pistas. Meu cabelo cai por onde passo. E essa tintura é única. Outro dia achei um fio na calcinha. Imagina quantos homens que apenas me cumprimentaram foram flagrados com cabelos meus na cueca. Esses fios são assim. Entram em tudo. Também sempre se solta um vidrilho do vestido. O batom, então? E os cheiros. Não dá pra recolher tudo isso. Pelo menos a calcinha! Eu sei,Vovó, eu sei. E se ele pegou de souvenir? Afinal, é uma calcinha de Bruna Bianchi. Um troféu! Ele tem de mostrar pros amigos. Não, não parece que seja isso. Eu devo ter perdido. A cueca dele está aqui, o nome da grife no cós. Ei, dela eu lembro saindo da calça, toda branquinha, embaixo da camisa transparente, a barriga absurdamente malhada, a virilha quase à mostra. Imprensa amada, Vovó querida, Bruna Bianchi é uma vadia. Está explicada a perdição em que me meti. Aquela saliência que começa na cintura e vai até lá embaixo, os pêlos começando discretamente, foi por ali, foi por ali … Veio tudo como um flash. Eu gostaria de me justificar, sabe? Foi uma tentação audiovisual, como nos melhores métodos de aprender línguas. Tinha aquele corpo atrás da transparência e uma voz dizendo algo como puxa, é como se você colocasse um espelho na frente das pessoas que lhe rodeiam, os fãs, os jornalistas. Este é o mundo que você vê. Viu, Ricardo, eu lhe traí com alguém que entende minha arte, ao contrário de você. Tá, isso que ele disse tava no release que mandei pra imprensa, mas eu estava bêbada. E você? Você não pareceu capaz de tirar uma folga deste filme idiota para ser o par de sua esposa. Já está há três meses neste fim de mundo. Ciúmes das índias, eu?. Elas não me preocupam com seus peitos caídos, suas barrigas inchadas. Acho que nem se interessam por um branquelo como você. O que me preocupa são essas atrizinhas de quinta, fazendo papel de índias, os seios duros de silicone, lhe chamando para um mergulho no rio. Não me volte com doenças, Ricardo. Se voltar, que seja malária. Vou me deliciar com as febres de fim de tarde. Ah! Meu amor, o que você me faz fazer? Lembra quando nos conhecemos, eu já estava muito bêbada. Você disse alguma coisa que não entendi, mas terminou me chamando de docinho. Eu não sabia o que responder, nem sabia a pergunta, mas aquele docinho sussurrado no ouvido .. eu não sabia o que fazer e abri a blusa. Você deve ter me achado uma louca. Depois eu ia dizer: foi sem pensar. Ia dizer que foi você quem me tirou a razão. Não foi nada disso. Eu apenas não sabia o que fazer. E uma mulher, assim perdida, assim sozinha numa noite mais triste que as outras, essa mulher, só porque não entendeu uma pergunta, é capaz de abrir a blusa, mostrar-se desafiadora. Foi só isso, Ricardo. Toda minha vida em suas mãos só porque você disse docinho no final de uma pergunta. Não sei se você queria ir ao banheiro ou se queria me pedir um beijo. Eu apenas abri a blusa e você ficou maravilhado com minha ousadia. Um botão pode decidir nossas vidas.

E agora, aqui estou eu neste chão de um apartamento estranho. Veja, vozinha, amigos jornalistas, registrem este momento. Podem fotografar. Eu não estou lá na melhor forma. Este camisão não me valoriza, estou com a maquiagem borrada, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de meu próximo projeto de teatro, um recital: Brutalmente Bruna. Eu completamente sem glamour, assim como estou agora. Sempre funciona. Se a ex-modelo se enfeia para o papel, já sobe de patamar, vira atriz. É o pedágio. Vou virar atriz, querida, e você vai ter de deixar suas ironias de lado nessa sua colunazinha de fofocas. Agora só vou aceitar críticas da Bárbara Heliodora, fofa. E eu também vou fazer o cenário e a luz. Veja essa fresta de sol sobre meus seios. Se eu me inclino pra frente, a luz ilumina meu rosto. Já dá uma chamadinha na TV, não é Ricardo. Sei, Vó. Pernas fechadas. Tenho de lembrar sempre de fechar as pernas na televisão. Mas eu vou usar calças. Uma mulher sempre está de pernas fechadas, minha neta, esteja usando o que for. Mesmo sem calcinhas, bêbada, usando só uma camisa de homem? Eu devia levantar e ir ao banheiro recompor este rosto. O que fazer sem maquiagem  na bolsa? Só um batom. Água e sabão. E se o batom é rosa, pode ser o blush  e a sombra. Uma mulher nunca deve estar inteiramente de cara limpa, principalmente nos momentos mais dramáticos. Esse prédio deve ter porteiro que certamente me conhece. Os porteiros conhecem todo mundo que é famoso. As revistas  têm sempre de passar por eles. E quando você está na novela … Tenho de descer com toda a pose, roubar estes óculos do rapaz, esse dinheiro para o táxi. Melhor deixar um bilhete dizendo que peguei emprestado e vou devolver. Não. Nada de vestígios, não é Vó? Ele que pense o que quiser. Depois mando um pacote anônimo devolvendo tudo. Desfaz-se a impressão e ele vai ter certeza de que não é pra me procurar. Vou levar este casaco pra disfarçar o brilho do vestido. Estou uma gatuna. Se eu fosse uma princesa europeia, ia ter um batalhão de assessores pra esconder meus deslizes. Um telefonema e o serviço secreto invadiria o apartamento, depois de minha discreta saída, e sumiria com todos os vestígios. Se o rapaz não colaborasse, jamais trabalharia neste país. Um caso de segurança nacional. Mas eu só tenho minha Vozinha pra zelar por mim e um marido ausente. Ricardo não está nem aí. Ele ia adorar me pegar no pulo. É muito difícil para uma mulher não ser uma princesa. A calcinha? Vejamos uma resposta. Voz natural, enfado: Nossa, ela marcava muito através do vestido. Tirei e joguei no banheiro da galeria. Lembra que Carmem Miranda fez isso uma vez? Eu não podia imaginar que existissem pessoas tão doentes como esse rapaz. Roubar a calcinha de uma atriz como eu. Certamente um fã, mas um fã muito doente. E eles leiloam de tudo nessa internet. Como as pessoas são solitárias hoje em dia. Esse rapaz certamente só quer chamar atenção. Dada minha última entrevista, passo os olhos no apartamento. Simpático até. Desço pela escada os dezoito andares. Elevadores são perigosíssimos. Muita intimidade. É quase promíscuo. Lá pelo nono ouço uma ópera. Alguém ouve ópera de manhã cedo. Ainda bem que não moro aqui. Ópera? Eu quero a Gal aos berros, você me entende. A Gal rasgando a garganta. Saio sem olhar o porteiro na cara e caminho para uma rua transversal. Bairro agradável, nem estou longe do meu. Desvio do jornaleiro que abre sua banca, a rua deserta. Meus saltos são o único barulho nas pedras portuguesas. Não é tão fácil como estar numa passarela, mas coloco um pé em frente ao outro, ombros para trás, mãos nos bolsos do paletó, fixo o olhar num fotógrafo imaginário no horizonte e vou.

Flash!

(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)

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66ª Leva - 04/2012 Dedos de Prosa

Dedos de prosa II

COSTUME

Gerusa Leal

 

Foto: Kenia Vartan

 

Escorada na porta, olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.

Em que momento havia começado a me acostumar?

O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.

Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.

Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.

Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.

O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.

Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?

Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:

– Já devem ser dez horas.

Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.

Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.

O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.

Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.

O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.

Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.

Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.

Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.

Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.

(Gerusa Leal é escritora entre o conto e o poema. Psicóloga de formação, leitora crônica. Pernambucana, recifense, reside em Olinda. Tem escritos publicados em várias coletâneas e antologias impressas e virtuais. Alguns contos e poemas premiados isoladamente e seu primeiro livro-solo, “Versilêncios”, é Prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras)