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136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Carlos Vilarinho

 

Imagem: Roberto Pitella

 

O Gari

 

Tudo devia começar com um grito, como aquela pintura que parecia tintas derretidas que vi no museu enquanto varria do lado de fora, na calçada do elegante e nobre bairro da Vitória, em Salvador. Um grito de desespero que chegava a segurar a cabeça e expressava horror e medo.  Mas começava assim: um rapaz cujo único trabalho foi sentir prazer antes que eu nascesse, jamais soube quem eu era. Muito menos eu lhe pus os olhos. Talvez ele, caso houvesse interesse em me conhecer, acalentasse minha alma daquelas situações rasteiras de dissabores raciais, por exemplo. Não sei qual foi a pior situação, se a minha ou a de Amanda. Com minha irmã, além da cor da pele, minha mãe não tinha certeza, entre três rapazes, qual deles era o pai dela. Portanto, quando a médica disse “dispneia”, pensávamos se tratar de algo letal como câncer. Tudo de ruim acontecia com pobre e preto desvalido. Nessa época, eu contava com doze anos, Amanda com oito. Minha mãe nunca conheceu as Letras, talvez por isso o serviço do rapaz foi mais fácil para que culminasse na minha existência. Nasci quando minha mãe completava quinze anos. Nasci um negro de periferia. Aos poucos quase me tornava ressentido e rancoroso pelo que faziam comigo e com os outros negros, pobres diabos no mundo. Não foi difícil deduzir que se tratava de racismo aqueles tratamentos díspares, ainda que me faltassem leitura e Educação. Nunca esqueci uma professora que tive quando estudei na escola da prefeitura quando tinha nove anos. Gostava de ouvir e ler histórias de pessoas que provocavam diferenças na vida e se tornavam essenciais à sociedade. Ela nos mostrou uma coleção de fotos de pessoas importantes que venceram com coragem as adversidades. Entre as fotos havia de uma pequenina menina negra chamada Ruby Bridges. A professora disse que nos espelhássemos naqueles exemplos. Toda vez que me sentia ultrajado com troças de racistas pensava em Ruby, aquilo me fortalecia. Mas não era fácil, o racista corrompia a alma alheia sem se inibir. Parecia um vestígio característico do ser humano. Quase ficava com vergonha de minha pele, não havia ninguém que me acalentasse.

Havia passado trinta e três dias. Contava desde que aquele jornalista apareceu em minha casa dentro da televisão. Avisava da quarentena e anunciava a primeira morte. Trinta e três era um número cabalístico. Quer dizer, sempre ouvia dizer essas coisas, na verdade não sabia do que se tratava. Sabia que Jesus havia morrido com trinta e três anos, mais nada. Despois de quarenta anos de idade, vinte varrendo as ruas de Salvador, me sentia finalmente essencial à humanidade. Nos meus primeiros vinte anos de existência, sonhei um dia em ser médico. Quando vi uma delas salvar minha irmã da tuberculose. Era uma boa médica, cuidadosa, zelosa e carinhosa. Além disso, foi ela quem alertou o outro problema que Amanda carregava desde que nasceu.

‒ Parece que ela tem dispneia.

Uma vez, na idade adulta, ainda jovem, quando corria para jogar futebol. Já praticava meu ofício com destreza e afinco, varria as ruas de minha cidade com orgulho de ter nascido na Bahia, mesmo com todas as diferenças que eram acentuadas com discrição e silêncio. Tinha quase certeza que as pessoas na grande maioria disfarçavam o que sentiam verdadeiramente umas pelas outras. Não que eu fosse desconfiado, talvez nem eu nem ninguém tivesse razão para andar cismado, mas algo dentro de mim dizia que somente a própria pessoa conhece a ela própria. Participava de uma partida num campo de várzea, jogávamos todos sem que distinguíssemos o nível econômico das pessoas. Simplesmente formalizávamos a liberdade e empreendíamos a democracia que se traduziam na prática do esporte, pelo menos. Evidentemente não havia como distinguir naquele momento as diferenças acentuadas entre seus praticantes, cada equipe e cada jogador preocupavam-se em vencer. Além de tudo, exercitávamos a coletividade. Enquanto jogávamos, ouvi de um rapaz, acho na mesma idade que a minha, praticamente bradar a pulmões um desaforo gratuito e preconceituoso, sem nenhuma razão para humilhações, a não ser que um drible que lhe ofereci entre as pernas fosse considerado insulto. Fiz o que o momento da partida oferecia e que valia e valorizava o jogo, não foi menosprezo, sobretudo era uma brincadeira entre as pessoas. Mas ele criou sanha e como um rapaz mimado despejou cólera desnecessária. Soube depois que estudava outras Línguas e foi destaque num colégio tradicional de classe bem afortunada. Segundo esse cidadão estudado e bem nutrido e que fazia um juízo final somente dele, agregado a um desprezo gratuito e arrogante que o consumia depois que a bola saiu do seu controle, disse-me entre dezenas de injúrias, que o meu cérebro não captava mensagens e nunca seria capaz de reproduzir uma história. Não se sabe se tudo isso por ignorância, distúrbio psíquico ou mal banal. Acho que era ódio por ódio mesmo. Era o que bastava para me entristecer aquele arroto de poder. Pois agora, anos depois, ao contrariar toda uma gama de descontentes‒ inclusive o rapaz de notória altivez que envelhecia comigo e protagonizava um teatro de rancor, jamais me cumprimentou por uma tolice, atualmente tossia desesperado com falta de ar ‒ eles, soberbos, não tinham como alimentar ambição de ganhar mais do que possuía e era suficiente, pois o vírus não deixava. Pois agora, ao dar vazão ao meu pensamento e mesmo com os contrastes de desigualdade social expostos, fui designado pelo Universo a narrar com imaginação sagaz de um gari convicto o que ocorria na quarentena. Posso adiantar que se tratavam de histórias coletivas da humanidade e que ficaria no imaginário de quem sobrevivesse.

Não era dispneia. Na verdade era um problema maior, diagnosticado por outro médico dono da casa que minha mãe trabalhava como diarista.

‒ Catalepsia patológica.

Não tenho certeza se receitou algo, mas Amanda ficava como estátua de cera toda vez que algo sério e triste acontecia entre nós. E algo sério e triste não era raridade em nosso casebre.

Com dificuldade aprendi as Letras, tomava gosto pela leitura. Gostava de ouvir e pesquisar nomes que surgiam novos para mim. Desde que aprendi a ler, eu mesmo procurava minhas histórias preferidas. Aos poucos assinei meu nome em Letras cursivas, mas vacilantes e tremidas: José de Arimatéia de Jesus. Com o tempo melhorei o traço de minha letra, ficou legível na medida do possível e das minhas condições. Certamente melhor do que antes. Não sei porque Jesus foi parar em meu nome, mas sempre achei bom ter essa referência. Por outro lado, a professora me disse que José de Arimatéia foi um grande homem rico e poderoso e que muito conversava com Jesus. Mas não sei se minha mãe sabia disso. Tenho certeza que ela não fez nenhum estudo onomástico ‒ esse foi o nome que ouvi de uma pesquisadora do IBGE enquanto indagada pelos moradores do lugar que morava sobre a razão daquele censo, só havia pobre por ali, não sei por que ela usou esse termo se ninguém na comunidade ia saber do que se tratava, mas eu pesquisei ‒. Amanda, que tinha mais tempo e era muito curiosa, aprendeu a ler mais rápido do que eu, era quem inicialmente lia a bíblia para nossa genitora quando ela disse que havia se entregado ao Senhor e deixado o cachimbo das drogas. Mas não demorou muito e morreu. Deixou um vão oco onde nos espremíamos e dividíamos o espaço de acordo com as atividades domésticas. Mais tarde, eu e Amanda construímos, de fato, uma casa.

Assim, não tive dificuldade em perceber que meu sonho de menino, em me tornar médico, dificilmente se realizaria. Provavelmente não deixariam sem que eu apresentasse uma chancela, como se certas profissões eram guardadas para quem apresentasse aval, de quem ninguém sabia. Pois, a dificuldade era infinitamente maior do que para um branco bem nascido, que estudou, teve vantagens e oportunidades singulares que eu jamais teria, muito menos imaginasse que existisse. Um branco assim vestia jaleco, era esse o referendo para ser médico no Brasil. Às vezes me entristecia, e ao mesmo tempo me indignava com o rumo das coisas. Pior era quando caía em mim e entendia que aquilo era a regra do mundo e jamais mudaria.  Certo dia, em casa de manhã cedinho, antes de o dia clarear, ouvi uma reportagem no rádio. A mulher que falava era de uma dessas entidades que defendem os negros, ela dizia que o racismo estrutural era o pior de todos porque nos transformava em dados de estatísticas como animais. Aquilo não saiu de minha cabeça. Não sei as outras pessoas, conhecia pouca coisa e bem menos as outras pessoas. Havia mundos que não sabia que existiam, mas sentia necessidade em me tornar útil de alguma forma. A ideia que tinha quando comecei a varrer as ruas era que dificilmente seria notado, as pessoas só olhavam médicos, professores, jornalistas, enfim. Um gari negro que varria ruas era invisível e facilmente substituível. Tentei desesperadamente estudar e aprender, mas tudo era difícil. Não tinha livros, não havia ninguém que soubesse mais do que eu para calçar minha necessidade de aprendizagem. Começava a era de computador, eu não sabia ao menos como ligar aquela máquina. Por fim, o sentimento de impotência acentuava minha alma a cada dia pela manhã, enquanto eu varria e nem um bom dia recebia.

Uma vez, enquanto varria próximo ao Campus Universitário da Bahia, ouvi dois rapazes que conversavam. Pela aparência jovial e os trajes à vontade intuí que eram estudantes de algum curso na Universidade. Um deles inclusive me presentou com um livro sobre mitologia grega. Fiquei apaixonado por Afrodite. Tempos depois, disse ao rapaz o amor que nutria pela Deusa. Imaginava, sendo gari, como conversar com meus colegas sobre Afrodite, Zeus, Atena e Hermes. Enquanto lia sobre os deuses, pensava sobre as relações que podiam existir entre eles e entre tudo na vida. Até que ao chegar em Hermes, algo me chamava atenção. Uma vez, enquanto nos reuníamos para saber a rota que seguíamos a cada dia para varrição, deu-se um estalo em minha mente, ruminava as coisas que lia. Naquele dia entendi como tudo o que lia se processava, era o cérebro que buscava acarear informações. E então, comparei Hermes com Exu. E conversei brevemente com o rapaz sobre a minha comparação. Ele tirou os óculos para me enxergar melhor, ao que parece, riu e disse que estava surpreso, jamais achava que aquela leitura ia me interessar.

‒ Continue a ler, talvez haja alguma diferença em você que você propriamente ainda não sabe.

Esse que me deu regalo reclamava incomodado como a família o tratava. Segundo ele, a cobrança e a preocupação eram muito rigorosas. Parei de varrer um instante e pensei naquela frase. Como minha mãe teria me ajudado se por acaso cobrasse meus estudos. Mas não havia jeito, talvez o conhecimento fosse para poucos e nunca chegou até a mim. Ao mesmo tempo, pensava sobre esse parecer, se isso for procedente, se for real, a humanidade e a civilização seriam o maior e único exemplo de vileza e abjeção. E, é claro, não seria também um absurdo, pois só o referendo do racismo já atestava a imundície de certos humanos. Não valia a pena existir. No entanto, vou me valer de que apesar de todos os meus esforços para ser notado como gente, talvez as coisas sejam irreais e haja outros mundos paralelos ao nosso. E cada vez mais eu era invisível, ainda assim, me sentia bem limpando os arredores. Varria as ruas para não deixar o coronavírus se espalhar. Aquele ofício, simples, de fácil manuseio e que denotava asco nas pessoas era o que me tornava essencial à sociedade. A limpeza fazia parte do mundo civilizado, mas parecia ser tão trivial que as pessoas que como eu cuidavam da higiene recebiam de volta o nariz tampado e o fastio e repulsa de quem passa sobre o lixo varrido.

Agora as ruas estavam vazias, pareciam mais limpas. O vírus limpava o mundo, isso era curioso. Enquanto as pessoas ficavam em casa, para não se contaminar, não havia fardo de sujeira que o próprio ser humano reunia pelos cantos, ou até mesmo abertamente em qualquer parte da praça, próximos onde se sentavam para comer, conversar, ler, namorar ou para ficarem quietos. Fazia de tudo para não tocar na máscara que protegia do covid 19, mas desde criança tinha rinite e o incomodo era incessante, não havia jeito, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Trinta e três dias de quarentena. A ausência das pessoas nas ruas é o que me tornava tão importante. Era tão curioso pensar assim como que o vírus limpava o mundo. E gostava sempre de pensar nas coisas, pois ao pensar profundamente, diriam aqueles rapazes do Campus Universitário, chegava-se à conclusão de que aquela era a prova de que a humanidade não tinha educação. Qualquer tipo de educação. Estava evidente que as pessoas não cuidavam de nada que não pertencesse a elas próprias. Quando lia a bíblia para minha mãe junto com Amanda, se não me engano, havia um questionamento sobre se algo pertencia ao ser humano, a não ser o que se produzia com o pensamento. As ruas precisavam de pessoas como eu. Mas tudo isso que foi constatado por somente quem limpa o que está sujo. Era uma constatação sem importância que emergia de filosofia barata e sem sustentação social e política. Isso devia ser constatado pelo poder. Pelos poderosos. Mas ouvia dizer que o governante do Brasil não se importava com os vulneráveis. Diziam pelas ruas, ou quando trabalhadores se reuniam para discutir data-base, que houve governante melhor, mas que foi preso acusado de corrupção. Mas quem não subornava no Brasil? Era uma interrogação insinuante e que ecoava como coro de torcida organizada. Parecia que todos que apareciam de outros cantos do mundo e aportavam no Brasil carregavam essa interrogação no semblante. Não lhes tirava a razão, pois, a injustiça, o aliciamento, a deturpação, a desvirtuação, a adulteração et cétera e et cétera… Contaminavam como vírus por aqui, e nesses atributos as máscaras já estavam assentadas, irremovíveis e firmes em cada rosto que lidava, ostentava e recorria a essas divindades diariamente. Portanto, quem não subornava no Brasil? Havia algum tempo, antes desses trinta e três dias, esse cantinho aqui vivia cheio de copos descartáveis, guardanapos, talheres plásticos, preservativos sexuais usados, absorventes sujos de sangue. Às vezes, tudo junto fazia uma bolo de lama e bactérias. Eu era quem varria aquele canto, muitas vezes as pessoas passavam e cuspiam de lado. Eu continuava a varrer. E mesmo assim não éramos valorizados como essenciais. Invisíveis asquerosos do lixo.  Meu colega Joílson era um rastafári que dançava com sua vassoura enquanto varria. Ele imitava James Brown. Nunca pisou na escola, mas fazia de conta que era mestre em inglês. Então, ele cantava e dançava ao meu lado Sex Machine, depois varria satisfeito e, como se imitasse minhas idiossincrasias, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Em seguida dizia.

‒ O show não pode parar.

Alguns poucos o cumprimentavam de dentro dos ônibus, pobres como nós. Os outros, dentro dos carrões, apressados, estressados, buzinavam para que saíssemos da frente. Esses pareciam que tinham raiva de gente pobre. Filisteus. Muitos desses não suportavam ser solidários, sentiam-se mal na fragilidade que o momento impunha a todos. Todos na televisão e os governantes do momento de cada lugar no Brasil diziam que não podíamos ficar juntos; segundo eles, o vírus atacava e acabava com as células que existiam em nós. Como se não bastassem os massacres da sociedade sobre nossas cabeças. Toda noite eu ficava na dúvida. Na Europa, as pessoas não saíam de casa, se protegiam para não se contaminar. Ouvi o repórter da noite dizer que o governo de lá tomou providências. O governante maior daqui, não. E cada vez mais, mais dúvidas se acentuavam nos meus pensamentos com relação a esse povo do governo. Mas, como um alento de todas as coisas da vida, enquanto varria novamente lá perto do Campus Universitário, ouvi dessa vez dois senhores que conversavam, um dizia ao outro.

‒ Sempre é bom ter dúvidas.

Enquanto varria, em um dos dias da semana de pandemia, próximo a um hospital, nas imediações do Porto da Barra, as pessoas choravam. Parei e observei penalizado aquela gente. Enquanto estava parado e observava, vi um homem na sacada de um dos quartos do hospital, no sexto andar do prédio, dependurou-se e gritou com os poucos pulmões que lhe restavam:

‒ A humanidade não deu certo.

Aquela frase me envolvia, sentia que havia sido capturado por aquela simples sentença como mágica lexical.

Em seguida, não se soube como, ateou fogo no quarto do hospital e pulou da sacada. Quebrou as duas pernas e algumas costelas. Morreu dias depois de insuficiência cardíaca. No entanto, os médicos ainda não sabiam se ele estava ou não contaminado com o Covid 19.

Sentia falta do movimento das ruas, mesmo menosprezado. Curioso, quando passei à condição de essencial à sociedade, promovido pelos órgãos do governo, para deixar limpo e dificultar a circulação do vírus letal ninguém circulava mais. Não havia ninguém para atestar a importância de um varredor de ruas. Isso só confirmava nossa invisibilidade. Todos os dias, quando era escalado na rota do Centro da cidade, na Avenida Sete, no Largo Dois de Julho ou nas imediações do Pelourinho e Barroquinha, sabia que em qualquer lugar daquele que varresse seria servido um lanche para mim e Joílson. Na Praça Castro Alves, por exemplo, havia Zezinho, povo como nós dois, sofredor da vida, vendia pipoca doce e salgada e cantava músicas românticas. De preferência, Julio Iglesias num portunhol inepto e confuso. Quando chegávamos era uma festa de pipocas e cantorias produzida por ele e Joílson. Os dois faziam troça da estátua de Castro Alves, diziam que o poeta estava com a mão estendida pedindo esmolas para publicar poemas. E, ainda em troça, perguntavam entre si como um poeta fazia para comer se poesia não dava dinheiro. Zezinho deixava que comêssemos pipoca à vontade. Não sabia imaginar como Zezinho se virava com aquela quarentena. Provavelmente passava o dia numa fila de agência lotérica, ou da Caixa Econômica, e tentava resgatar o que o governo oferecia. Era a humilhação em forma de auxílio emergencial. Ouvi dizer que as pessoas deviam baixar aplicativos de internet. Imaginava então quem nunca se encontrou em frente a um computador como fazia para finalmente acessar o dinheiro e em seguida gastá-lo com as necessidades primordiais. Enquanto varria a Praça Castro Alves, dia desses, ouvia reportagens no rádio portátil que sempre carregava no bolso do macacão de uniforme e um desses estudiosos acadêmicos importantes dizia que havia milhões de pessoas no Brasil que não sabiam o que era internet. O sofrimento era iminente e diário. Sempre quando parava para pensar, as dificuldades do dia a dia passeavam em minha mente e também o que fazer para vencê-las. Ah, antes que me esqueça, é bom fazer todos os registros; no mesmo dia que ouvi, lá em frente ao Campus Universitário, um dos senhores falar sobre a dúvida, também escutei a resposta do outro.

‒ É importante sempre pensar.

Achava que o vírus veio para eliminar quem não prestava. Tinha uma imaginação fértil e mágica quanto a isso, achava que a natureza observava de tempos remotos o comportamento das pessoas com as pessoas. Quem não era fraterno, a flecha da natureza, como a de Eros, só que ao contrário, sem paixão, sem amor, sem erotismo, contaminava sem dó, como uma punição. Mas não era nada disso, quer dizer, continuava a achar que a natureza estava metida nessa mixórdia, mas eliminava qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer condição. Tempos depois, durante a quarentena, quando varria a Praça Castro Alves vazia e me sentia essencial à vida, senti falta de Zezinho. E Joílson me contou que soube que o pipoqueiro havia sido contaminado, morreu e deixou dois filhos e mulher.

No Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho, sempre havia muito trabalho, a varrição era gigante. As flores vendidas nas barracas deixavam muitas pétalas espalhadas no chão. Como em qualquer lugar da cidade, ali estava ermo naquela quarentena. A algaravia que emergia no Largo todos os dias era contagiante. Normalmente o clima era de pessoas que contagiavam pessoas com alegria, bom humor e satisfação. Havia contágio de tristeza, mau humor e aborrecimento também. Pessoas especialmente para cuidar desses desconsolos, muitas vezes proposital. Mas não era o caso de alguns do Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho. Havia a senhora Lurdes, que vendia flores na barraca da esquina, ao lado do restaurante chinês. E Maria Inês que fazia jogos de loteria ilegal, do lado oposto ao restaurante de Kim Xing Ming. Kim assim que nos via, eu e Joílson, acenava desesperadamente. Fazia-nos entrar e ir ao fundo do restaurante, lá por dentro a bagaceira de tripas, pelos, órgãos era insuportável. Nunca conseguimos identificar que animais eram aqueles. Diziam que chineses comiam cachorros, mas não sei se aquilo eram restos caninos. Kim pedia quase sempre implorando para que limpássemos aquilo. Muitas vezes ele misturava as Línguas, falava mandarim, depois um português embolado, o fato era que quase nunca entendíamos. Kim fazia isso sempre no momento de acertar algum conosco e, então, aceitávamos o que ele dava sem entender muita coisa. Era um trabalho de Hércules, mas tirávamos tudo. Descobrimos depois que Kim só pedia para fazer aquela limpeza em seu restaurante quando a dupla de garis era eu e Joílson. Além do mais éramos funcionários da prefeitura e varríamos as ruas. Era um daqueles subornos que geralmente brasileiro dizia ser jeitinho. Era ilegal fazer limpezas particulares, não era nosso ofício. Mas a vida era tão difícil e tínhamos tão pouco que sucumbíamos e nos deixávamos ser aliciados também. Soube que um dia Kim Xing Ming pediu a outros dois que foram escalados para aquela rota em nossa ausência, não lembrava o motivo, achava que eu e Joílson folgávamos e os rapazes não se recusaram a fazer. Eram Joselito e Raimundo. Disseram que o que ele pedia era um serviço extra, o que não deixava de ser, e queriam administrar a negociata com lucros maiores. Eu e Joílson não fazíamos isso. Das duas, uma. Ou as duas de vez. Ou a corrupção no Brasil nascia nos níveis mais baixos e grotescos que se há, em progressão aritmética e infinita, ou ela chegava em via inversa, ou expressa, vinda de todos os níveis possíveis, aceitáveis, existentes e inexistentes até o mais baixo e grotesco. E como trânsito de avenida, ia e vinha ininterruptamente.

Mas quem não subornava no Brasil? Ecoava insinuante insistente e sempre em qualquer imaginário do mundo.

Joselito pegou covid 19, foi internado, depois de vinte e cinco dias teve alta curado. Raimundo também foi diagnosticado positivo, mas era assintomático. Foi orientado para ficar em casa durante quinze dias. Kim Xing Ming fechou o restaurante quando a quarentena engrenou. Ouvíamos histórias de que Xing Ming estava com febre alta e tossia muito. Não funcionou através de delivery, como a maioria dos restaurantes do Centro da cidade faziam. Aliás, as coisas não ficaram boas para Kim Xing Ming, os moradores do Dois de Julho e comerciantes acusavam-no de participar de uma teoria da conspiração. Segundo as pessoas em geral incentivadas pela fake news de um ministro do governo. Aliás, governo esse que parecia fazer de tudo para que todos se contaminassem. As pessoas começavam a acreditar que o chinês disseminava o vírus entre os mais pobres do centro da cidade numa comparação em menor nível e proporcional aos esdrúxulos comentários divulgados na mídia, feitas pelo então ministro do governo. Começava a circular que o mundo ia sucumbir em razão do vírus que havia sido criado e dispersado pelos chineses. Curioso era que, de fato, a população mais pobre se contaminava com maior facilidade. E morria rápido. Maria Inês, que vivia de conversa com Joílson e ensaiava romance com o parceiro gari, dormiu durante dias na porta de um hospital esperando notícias da mãe hipertensa e diabética que contraiu o Covid 19. Inês era uma das que acusavam Kim. Segundo ela, a mãe voltou sentindo-se mal depois que almoçou no restaurante do oriental. Infelizmente não sabia precisar se a mãe de Inês conseguiu escapar do corona. Não havia mais ninguém no Largo do Mocambinho e as notícias não chegavam.

Mas a senhora Lurdes era o que de melhor havia no Largo do Mocambinho. Antes de passar no chinês Xing Ming, antes de fazer a fé nos jogos ilegais da loteria de Inês, antes de discutir futebol com o fanático torcedor tricolor que parecia dono de uma loja de miudezas na esquina, enfim, parávamos na barraca de flores da senhora Lurdes. Não havia jeito, assim que dobrávamos aquele pedaço na Carlos Gomes era a primeira imagem que tínhamos; a senhora Lurdes sentada em sua barraca de flores, com dois netos em cada lado, geralmente cada um com a boca cheia de doces e ela observava quem entrava e quem saía no Largo Dois de Julho.  Havia sempre uma merenda que ela guardava e nos oferecia assim que aparecêssemos. De praxe; café com leite e pão, às vezes uma fatia de queijo. Ou bolo de chocolate. Ou tapioca com manteiga. Uma ou duas bananas, às vezes. Deixávamos tudo limpo e bem sequinho ao redor de todas as barracas de flores, no entanto dispensávamos atenção especial à da senhora Lurdes. Era uma senhora com muito bom humor e senso de parceria. Aliás, era uma sinergia fácil de achar e de conquistar entre a camada mais fraca socialmente na economia. Quando o pobre via-se em apuros, era com rapidez acolhido por outro, e por outro, e por outro. Nova progressão aritmética, dessa vez para o bem. Tinha a prova disso quando levantei minha casa e de Amanda junto com os vizinhos, se não tivéssemos contado com eles dificilmente cavaríamos fundo para a fundação e levantaríamos os blocos. Não que não tivéssemos forças, mas o trabalho era descomunal para um homem e uma mulher que não nutria muita saúde, não esqueçamos da catalepsia que tomava minha irmã desde criança. Senhora Lurdes fazia a festa do seu modo, não era como Zezinho, por exemplo, que vivia em cantorias com Joílson, em outro exemplo de colaboração mútua. Deus o tenha Zezinho. Mas a senhora deitava falação. A senhora Lurdes conhecia todos e sabia de tudo referente a cada um que ela comentava. Assim soubemos da marmelada e falcatrua dos outros dois garis juntos com Xing Ming. Soubemos que a mulher do homem que discutia futebol comigo saía às escondidas toda quarta-feira à tarde, como senhora Lurdes soube disso é um mistério, mas procedia a verdade. O homem descobriu onde enfiava-se a companheira ‒ acompanhada de outro ‒ e o sentimento de traição cobriu-lhe de violência. Naqueles tempos, muito se via na mídia reportagens de misoginia, muito mais do que de racismo estrutural. Os taxistas ficavam parados no ponto, um deles conversava sempre comigo em tom professoral, emitia sugestões filosóficas sobre a humanidade e comparava com uns filósofos que eu não sabia pronunciar os nomes, segundo ele, tudo procedia conforme o pensamento de Nietzsche. Fiquei na dúvida como pronunciar cinco consoantes de uma vez, ainda que uma fosse muda. Mesmo assim nada sabia sobre Nietzsche. Ele dizia saber tudo. O rapaz que conversava comigo sobre mitologia grega no Campus Universitário, que me presentou com o livro, um dia, antes da quarentena, me disse que a atitude de quem diz saber tudo é porque não sabe nada. O taxista, depois de algum tempo, quando ele deixou que eu emitisse um parecer qualquer, não lembro sobre o que, espantou-se quando confrontei aquela situação que conversávamos com deuses gregos da mitologia. E desde então, quando me via com a vassoura na mão me aproximar da barraca de flores da senhora Lurdes, o tal corria e falava algo com relação a qualquer coisa e esperava para ouvir o que eu tinha a dizer, em seguida perguntava se havia algum Deus grego que se comportasse daquela forma. Soube através da senhora Lurdes que ele havia morrido do covid 19 e contaminado toda a família. Foi também através de senhora Lurdes que Joílson soube do interesse de Inês por ele. Lamentavelmente soube há poucos dias, agora Inês passava dia e noite na porta do hospital e requeria notícias da mãe. A velha havia sido transferida duas vezes de leito e de hospital, finalmente encontraram um respirador numa UTI de periferia. Além de tomar conta da vida alheia, senhora Lurdes colecionou ao longo dos anos sabedoria popular. Ela pensava sobre as coisas assim como eu. E nos dávamos muito bem quando parávamos para conversar. Foi ela quem definiu com curiosidade, talvez até sabedoria, o que essa quarentena, o vírus e toda a humanidade significavam naquele momento terrível.

‒ Pode escrever, isso tudo vai desandar somente para três caminhos: solução, prazo de validade e lição de vida.

Senhora Lurdes me disse essas coisas quando tínhamos dez ou doze dias de quarentena. As ruas já estavam vazias e, por acaso, encontrei ela que separava as flores que não havia apodrecido das outras. Não estava vendendo nada, primeiro que não podia, segundo que não havia quem as comprasse. Flores alijadas. Curioso que ela me disse sobre aqueles três caminhos com um leve sorriso no rosto. Dias depois que percebi que aquele sorriso era de abdicação. Em primeira mão, achei que senhora Lurdes ainda não havia dado em si do prejuízo que ela teria. Ela e todos comerciantes ambulantes. Mas ela sabia de tudo, sim. Dias depois, com a quarentena em andamento e muito depois do nosso último encontro quando ela separava as flores boas das podres, encontrei a senhora novamente. Ela estava sentada em frente à barraca de flores e bebia café. Desculpou-se conosco por não haver merenda. Usava uma máscara florida que protegia o queixo e a papada. A boca e o nariz estavam desprotegidos em desânimo. E já não era a mesma senhora que conheci durante esses vinte anos que varria as ruas de Salvador. Abatida, havia emagrecido, carregava um semblante padecido, tinha olheiras marrons ao redor dos olhos, principalmente na parte inferior, e tossia com frequência. Disse que não teve febre, mas os dois netos tiveram. Foi ela quem nos deu a notícia da mãe de Inês. A velha tinha sido enterrada coletivamente numa vala do cemitério de Brotas. E finalmente falou com desânimo para mim e Joílson.

‒ Perdi todas as minhas flores, acho que estou doente. Aliás, onde moro a maioria das pessoas estão tossindo, mesmo assim não se entregam e saem às ruas para buscar o que comer, um vende café, outro cata latas, eu vendia flores, não tenho mais o que vender, Inês perdeu a mãe e os jogos ilegais não correm mais durante a quarentena… Isso veio acabar com a vida do pobre. Essa é a solução que eles querem, o prazo de validade está acabando e a lição de vida… Rum! É que ninguém quer aprender lição de vida nenhuma.

Desde que me falou, no início da quarentena, sobre esses três caminhos da humanidade, que pensava sobre isso. Inicialmente concordava com ela. Tínhamos que tirar algo do que acontecia. A humanidade devia voltar, ou começar, a confiar nela própria. Uns nos outros. Acontece que parecia que havia uma distância, um poço tão fundo quanto o oitavo anel do inferno, para duas coisas que deviam ser a mesma coisa. Ou no pior dos casos, coisas afins e próximas. Mas afinidades e proximidades não procediam. Muitas vezes esse abismo aparecia entre humanidade e ser humano.

‒ A humanidade não deu certo.

A frase do homem que pulou da sacada do hospital tomava efeito em meu pensamento.

Aquele trigésimo terceiro dia de quarentena caiu num domingo cinzento de maio. Mesmo que surgissem outros sóis, aquela tristeza cinza não abandonaria o dia. Um vento frio soprava na rua vazia. Mesmo o calor do girassol que havia na minha porta não denotava ternura naqueles tempos. Aquela flor foi presente da senhora Lurdes. Ela dizia que o meu jeito pensativo e sereno lhe passava tranquilidade. Joílson, como sabemos, era falante como ela, eu só ouvia e ria. Mesmo o serviço de varrer as ruas não me deixava estressado e impaciente. Se não me resignasse quando aprendi as Letras e escrevi meu nome, mesmo que trêmulo e inseguro, talvez não desse certo para a vida. Mas parecia que a minha existência teve uma finalidade. A comunidade que morava era de uma pobreza extensa, às vezes o esgoto alagava as ruas e a água podre entrava nas casas. Muitos políticos andavam por ali, prometiam valas e higiene sanitária, mas nunca foi feito nada para benefício das pessoas naquele lugar esquecido. Algumas vezes, quando tinha o prazer de estar presente quando os políticos apareciam, tinha a impressão ao olhar as emoções no rosto daqueles homens que não existia emoção. Tudo era ensaiado. Nada nem ninguém interessava ou provocava misericórdia ou compaixão naqueles homens. Só o voto de cabresto. Como a fome parecia ter um contrato de coexistência com a comunidade, sempre e somente em épocas de eleição eram servidos feijoadas, churrascos, galinhadas e cervejas a rodo para as pessoas que estavam famintas ali há tempos. Depois as obras de contenção de encostas, onde aqueles que comiam as feijoadas, os churrascos, as galinhadas e bebiam cervejas, também morriam soterrados, e os políticos que ofereciam aqueles banquetes lamentavam todas as mortes sem emoção. As creches não apareciam e as crianças ficavam nas ruas, os empregos e os projetos sociais jamais ninguém viu. Todos ali viviam como podiam, as casas em sua maioria eram de barro batido, ou, as melhores, de bloco cozido com uma laje que não se sabia se havia fundação para suportar o peso. Morava com Amanda e nós dois conseguimos construir uma casa que nos protegia. Durante a construção tivemos ajuda dos vizinhos, todos juntos, cavamos a fundação e suspendemos as paredes com bloco e batemos a laje. Conseguimos doações de piso, além do que achávamos no lixo e ainda estava em condições de ser usado. Só não rebocamos, faltava dinheiro, mas conversávamos sobre isso e combinávamos de quando o vírus se for, se se for, íamos terminá-la. Alguns ficavam dentro de casa durante a pandemia, a maioria ficava nas portas, ou na rua de barro. Achavam-se imunes, ou não acreditavam que havia o vírus letal. Quando acreditavam e tinham medo, não podiam ficar em casa porque se não, não comiam. Então saíam para trabalhar, muitas vezes sem nenhuma proteção. As casas eram minúsculas e geralmente havia no mínimo quatro pessoas em cada casa. Não sabia como os homens do poder podiam dormir com aquelas pessoas sem condições mínimas de, ao menos, sobreviver naturalmente onde se encontravam e procuravam para se proteger de um vírus fatal que assolava o mundo. Os homens do poder não se interessavam pelas pessoas, o líder maior no meu país aparecia nos telejornais para pedir que as pessoas não se afastassem umas das outras, que as coisas não parassem de funcionar e agradecia a Deus por tudo. Sem falar as casas construídas nos barrancos, era época de chuva e a cada tromba d’água o temor que tudo ruísse era gigante. Já dissemos sobre a não contenção de encostas A prefeitura instalou uma sirene que soava e avisava do perigo de desabamento para que as pessoas deixassem suas casas e não corressem risco de morte. Mas quase ninguém saía, preferiam morrer soterradas com elas. Também não tinham para onde ir, além do mais perdiam tudo que conseguiam com esforço. Ou no desabamento, ou, quando não desabava e soterrava tudo junto, pessoas, móveis, papéis et cétera… A água da chuva invadia as casas e acabava com o que tinha lá dentro. Eu era um dos poucos que trabalhava e tinha o dinheiro certo ao final do mês. Foi assim que comecei a pensar sobre a minha condição. E uma alegria individual que quase não existia na comunidade tomava conta de mim discretamente. Uma alegria que durava pouco quando olhava ao redor de minha gente. Passei a uma condição de essencial à sociedade e à vida e entendi que a minha presença estava comprometida no lugar que morava. Fui o primeiro a dividir os mantimentos que a prefeitura distribuía entre os garis. Na verdade, já recebíamos uma cesta básica sobre o salário; com a pandemia e quarentena aqueles mantimentos dobravam. Era o mínimo que se fazia por nós. E não faziam mais nada do que isso. Amanda trabalhava na casa do médico que nossa mãe trabalhou antes de morrer com uma doença adquirida na época que usava cachimbos com drogas. Minha irmã entendeu melhor o que houve com ela, mas só chorava e não conseguia me explicar direito. O médico, desde que nossa mãe se foi, não deixava que faltasse nada para ela e, consequentemente, para mim também. Não havia naquele homem aquele abismo existencial que separava as pessoas da humanidade. Então muita coisa sobrava. Sentíamos obrigação de dividir com vizinhos. A fome em comunidades como aquela que morávamos jamais deixou de ser parceira.

Naquele dia, o trigésimo terceiro, algumas coisas chamavam atenção da comunidade. Primeiro era a rebeldia dos jovens. Estava em casa com Amanda, conversávamos sobre nossos trabalhos. No meio da tarde, ouvíamos passos de gente reunida. Olhávamos discretamente pela janela, como diziam que pobre fazia, olhava pelas frestas e víamos um grupo de jovens que dançava sem parar. Dois deles conversavam embaixo da minha janela.

‒ Não aguentava mais, brigava comigo mesmo em casa… Sem falar que meu pai xingava todo mundo, xingava o presidente, xingava o patrão dele, aí começava a me xingar porque sou gay e acabava dando tapas em minha mãe… Dizia que a culpa era toda dela pelas misérias do mundo e por eu ser gay… Meu pai é um homem horrível.

‒ E ainda dizem para ter esperanças que dias melhores virão.

‒ Acho que o mundo vai acabar.

Em seguida, quase ao mesmo tempo da reunião dos jovens no meio da tarde, o que me fazia pensar era quando passavam hordas de evangélicos sem máscaras de proteção ao vírus covid. Gritavam pelo Senhor e suplicavam misericórdia. A maioria dos religiosos diziam que o Senhor os livraria do vírus. Só no lugar que morava soube do desaparecimento de dezenas deles tossindo e com falta de ar. Comparava com os jovens, alguns de máscaras, outros sem usá-las, que dançavam sem parar. Chegavam notícias que havia doze ou treze deles contaminados na comunidade. E a dúvida acentuava. Lembrava do senhor lá no Campus Universitário que dizia ser bom ter dúvidas, ao que o outro respondia que também era bom que pensássemos. E não conseguia responder a mim mesmo um questionamento que se seguiu enquanto olhava aquelas duas condutas.

‒ Qual das duas vertentes era incapaz de sentir prazer em viver?

No entanto, talvez fossem comportamentos que pedissem ajuda com gritos silenciosos de desespero como aquele expressionista começava a história. Cada um em seu extremo.

A fome era a porta de entrada de todos infortúnios de quem era pobre em qualquer país do mundo. No Brasil e na comunidade que morava não era diferente, aliás, o incômodo no estômago levava as pessoas a se comportarem de outras maneiras que não eram consideradas habitualmente costumeiras. Mas é claro, além da fenda social, a fome enlouquecia. O vírus tinha um crescimento exponencial, principalmente nas comunidades como a que morava com Amanda, eram sentimentos de limitação, impotência e medo. Somada a essas agruras, ou como consequência, aparecia serelepe, imponente e de certo modo fascinante, a violência. No fim da tarde do trigésimo terceiro dia, ecoavam no ar saraivada de tiros.

Havia desde cedo um movimento diferente na comunidade. Aquilo não era boa coisa. Alguns homens de semblantes não muito bons iam e vinham acompanhados de alguns outros que moravam por lá. Isso desde a madrugada do sábado. Depois uma quietude tomou conta do lugar. Um silêncio torturante ganhou os ares daquele domingo, no trigésimo terceiro dia de quarentena. Depois que os jovens desceram a rua e, em seguida, os religiosos evangélicos se acomodavam no templo que eles construíram e de lá suplicavam louvores. Um clima de testemunha silenciosa se apoderava na comunidade. Aquele suspense sinistro foi quebrado no começo da noite pela algaravia dos tiros. Houve uma correria e depois a rua ficou erma. Enquanto olhava pela fresta da janela e ouvia os cânticos religiosos, pensava na humanidade e seus crimes. Aquelas pessoas, muitas gritavam por Jesus em desespero, para mim uma atitude inexplicável e intolerante. Ainda que o corona vírus andasse à espreita, tínhamos que nos cuidar, manter distanciamento social e a quarentena dentro de casa. O resto realmente era com Deus. Mas tinha dúvidas se aquela gritaria faria Deus, ou o Senhor Jesus, ouvir e descer para acudir a todos nós. Talvez, antes de toda súplica misericordiosa, devêssemos assumir os pecados. Ou os erros propriamente ditos e afiançados. Para aqueles evangélicos, e todos os outros, não havia sido ninguém que rompia o silencio do lugar com tiros, mas o diabo.

As notícias não tardavam e minutos depois soubemos a razão dos tiros e sua consequência. É bom que se diga algo sobre essas coisas: somente em comunidades pobres que os policiais decidiam valer a autoridade. Isso acontecia em todos os cantos do Brasil, quiçá do mundo. E sempre descambava para aquela discussão do racismo estrutural. Mas era racismo, sim. Não sei se estrutural. Provavelmente, não. Racismo, ponto final. O pior é que não havia respostas para tanta brutalidade e força exagerada num lugar em que as pessoas lutavam dia após dia para sobreviver. Nem sequer viver, mas sobreviver. Num lugar onde as pessoas não tinham oportunidade, talvez quando tivessem não sabiam como agarrar. Faltava-lhes estudo. Faltava-lhes conhecimento. Faltava-lhes incentivo para sair da escuridão. Nenhum político, daqueles que distribuíam comida e cerveja, em sua pré-eleição, gostava de ver sua gente discutir cultura com sabedoria. Queria que vivessem como gado. Queriam que a gente pobre se contaminasse com o covid 19 e morresse para diminuir o peso da Previdência. Quanto mais mortos, melhor. E ainda assim a gente resignava-se, como eu, por exemplo, que lia por conta própria. E emitia comentários, conselhos e sugestões a outros. Como aquele taxista que corria ao me ver abraçado a minha vassoura e aprender mais sobre mitologia grega. Cada pessoa em lugares como esse devia pensar o que fazer em cada passo que desse em sua caminhada. Em cada respiração. Eu e Amanda somos exemplos vivos desse aperto. Temos que provar todos os dias e horas que éramos pessoas capazes. Daí, minha satisfação em ser transformado em essencial para a sociedade por um vírus, na ironia da vida. Parecia que cada negro que nascia nas comunidades, tinha que pagar o preço do erro, primeiramente por ser negro, aquilo parecia realmente um erro, nascer negro. Em seguida, pelas faltas e crimes que nasciam naturalmente na alma de quem as provocava. Era negro, branco, mestiço. Rico ou pobre. Assim como preto e pobre emergia e vivia do crime, no pensamento de quem tinha poder e girava o dinheiro na própria gangorra financeira.  Rico e branco também espalhavam drogas, sonegavam imposto, lavavam dinheiro, surrupiavam dinheiro público, espancavam mulheres, desrespeitavam funcionários públicos de cargo inferior, criavam milícias et cétera… E parecia que nada disso era marginal às regras. Não aparecia, não havia força descomunal de polícia que contrariasse, que combatesse esses crimes, com a mesma veemência da periferia, nos lugares deles. Mas lá, no lugar dos fracos, lá onde não havia o que comer, lá onde não havia moradia decente com banho quente nas noites de chuva e frio, mas muito medo de tudo desabar barranco abaixo depois de soar a sirene da aflição, lá onde as máscaras de proteção ao corona vírus eram somente um pedaço de pano, às vezes engordurado, para cobrir a metade do rosto, lá matava-se quem não tinha nada a ver, que por um capricho do destino tinha um vizinho suspeito. E para contabilizar na estrutura, somente quem tinha a pele preta cometia atrocidades. Começava a entender a fala da mulher que defendia movimento negro e que se pronunciava na reportagem do rádio de manhã cedinho antes do dia clarear. Aquele era o horário para indignar-se da dor e da injustiça, quando acordava para ir à luta com o dia sem apresentar aurora definida.

Os policiais invadiram a comunidade em perseguição a traficantes de facção, segundo disseram. Falavam que eram recebidos a tiros pelos meliantes. Revidavam, e assim foi baleado com fatalidade o menino Carlos Augusto de quatorze anos. Carlos, negro, estudante do nono ano do Ensino Fundamental, sonhava em ser jogador de futebol. Estava dentro de casa sentado no sofá e assistia a um jogo antigo da seleção brasileira, a final da copa do mundo de 2002 contra a Alemanha. O Brasil ganhava de dois a zero e relembrava a euforia orgulhosa de ser brasileiro e pentacampeão naquele domingo cinzento do trigésimo terceiro dia de quarentena sobre o coronavírus. Carlos Augusto não foi vítima do covid 19.

‒ A humanidade não deu certo.

Emiti sem querer aquela frase que me capturou a alma.

 

Carlos Vilarinho, nascido em setembro de 1963. Conhecido como Pensador das Ruas como atestam seus textos e personagens que surgem e passeiam livremente pelo Centro de Salvador. Autor de: “Labirinto-Homem” (Romance, Editora Kalango, 2013); “Baculejo e outras histórias” (Contos, Editora Via Litterarum, 2017) e “Barroquinha” (Romance, Editora Via Litterarum, 2019).  

 

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136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Adriano B. Espíndola Santos

 

Imagem: Roberto Pitella

 

O tempo e minhas mãos

 

O tempo, que era meu aliado, virou vilão. A gravidade e o colágeno, também. O silicone, que tornava fausto o meu corpo, escorre sinuoso pelas nádegas e pernas, alojando-se, invariavelmente, nos tornozelos. Incham, e não me deixam andar; uma passada ao banheiro é um parto que nunca tive. O rosto é um enigma variável, meses sim, dias não, me apresenta novidades, com formas que despertam certos sustos ou surtos ao acordar.

As inseguranças lancinantes me agravam o peito, muito mais que a aparência. Marli falava, “a beleza… ah, a beleza é troço fugaz, menina, escapa feito um átimo de cocaína”. Escapou-me, lisa, sorrateira. Aliás, parece que me escapou. E aí? Sem bronca.

Aproveitei. Pode apostar que sim, aproveitei. E digo que foram dias de glória, regados a champanhe – né esses trens de mentira, que enchem a boca para dizer: “Champagne!”. Emergentes brazileiros são mesmo risíveis…

Sou estudada e tenho classe, mas, ao contrário do que possa pensar, nunca levei desaforo para casa – daí concluía a força da mulher que domou o mundo com as mãos. Só não fui precursora de Rogéria porque abdiquei do trono, por um sumo amor – que jamais poderia revelar, para não comprometer uma morte, quiçá, tranquila.

Fiz o que fiz, não me arrependo um segundo. Aguarei minhas vontades e desejos quando ninguém sabia o que era mulher trans. E aí? Sobrevivi, mon amour, digna, altiva. Apenas me atormenta o tempo, que corre ligeiro. Ah, não fosse esse maldito delay entre mim e ele…

Fui a prostituta mais querida, badalada nos recantos que percorri, Europa, sobretudo Paris; e ainda, pasme, recebo elogios velados ou rasgados de lá, do outro lado do Atlântico. Sinto-me viva, pelo menos. Aqui me olham com desprezo, como velha meretriz. Só aqui. Tudo bem. Olhar não arranca pedaço. Não mexendo comigo, ah, meu bem, aí viro bicho.

Estou tentando me aliar ao tempo. Damos voltas; uma hora vamos nos encontrar e correr juntos, lado a lado, até o fim dos dias, oxalá que sim.

 

 

 

***

 

 

 

Orientações para o embarque

 

No quadro de pendências, antes de viajar, como de costume, aponto uma série de medidas, as quais me incumbo de resolver, para que minha mente permaneça tranquila – em parte. Não sou tão metódica (ou excêntrica) como mãe, dona Germânia, que no mês anterior à viagem já tem uma “lista de afazeres”, com medidas “exóticas”, quais sejam, podóloga para arrancar os cantos de unhas; trocas dos mega hair e aplicações de unhas de porcelana; intervenção com a toxina botulínica ou, no popular, estiramento de rosto, para chegar “bem apessoada”, entre outras cositas más, que não vêm ao caso – vou evitar o embrulho na leitura.

Dessa vez, por disposição minha, vou de mala e cuia para Brasília. Definitivamente, Mauriti deixou de me comportar – para lhe situar, caro leitor, falo de uma pequena cidade do interior, do interior do Ceará.

Estou há meses conversando com o Inácio. Parece ser uma boa pessoa; sabe cozinhar, limpar a casa, essas coisas que todo homem deveria fazer. Na lida do sertão, no máximo, os homens aprumam uma porta quebrada, as telhas (se as tiver), um calço na mesa, pequenos ajustes, nada demais. É uma afronta à sacra masculinidade mandar um homem lavar a louça, arrumar a cama, por exemplo – onde já se viu! Meu pai saiu de casa por desgosto, segundo bodejou por aí. A extravagante senhora minha mãe começou a ganhar dinheiro vendendo pães caseiros. Montou uma minipadaria, com os trocados que ia juntando. Resolveu, por si, assumir as dívidas de casa – muitas –, e meu pai, como um sensato cidadão que é, mandou ela ir se lascar com o seu dinheiro: “Não sou homem para ser sustentado por mulher!”. Mãe acolheu a decisão. Não quis mais saber de homem nenhum; se fosse de prestar, dizia, teria de ser o pai. Para ela, o peso daquela masculinidade atrapalharia os seus planos. Feminista e não sabia.

De lá para cá, perdi gradativamente o contato com pai, “o ser humano mais humilhado da paróquia” – foi o que me contou por último, chorando. Eu até entendo, de certa forma, bruto como papel de enrolar prego, limitado e açoitado pela vida, não podia expandir muito. Há séculos o cenário se reproduzia igual, ali, homem manda e mulher obedece. Ainda bem que não resultou em morte. Nos arredores de Mauriti contaram-se, no último mês, três feminicídios – um dos motivos pelo qual vou me debandar daqui.

Parece que mulher é ameaça; é indignidade à existência do homem, “é pau para estropiar um cristão”, nas mesmíssimas palavras de pai, o velho Sebastião. “Mulher não é maldição” – tive vontade de dizer –, nunca aceitei isso. É uma fobia tresloucada, uma fragilidade sem tamanho, só pode, diante da imensidão que a mulher traz consigo.

 

 

O tempo da existência circunscrita à labuta familiar passou. Eu mesma me orgulho de dizer que já superei isso. Sou filha única, bem-criada por mãe, e pude estudar longe, em Fortaleza, de onde agarrei, com unhas e dentes, a oportunidade de me formar em Filosofia. Minhas primas, coitadas, foram excomungadas pelas mães à constrição marital, uma com quatorze e outra com quinze. Pegaram dois buchos, em seguida. “Pronto, estão desgraçadas; o ‘destino maligno’ as impôs cuidar dos filhos e da casa”, pensei. Dito e feito. Os canalhas dos seus maridos, já muito folgados na condição, volta e meia os encontrava numa vaquejada, numa festinha; e as mulheres ralando para amparar as crias.

 

 

Quando desembarquei em Brasília, Inácio veio me encontrar logo no aeroporto. Espiritualizada, senti-me abraçada; um sentimento pleno de outras vidas. Deleitamo-nos em conversas, que não paravam de gerar outras, e outras, num loop infinito.

Sei bem que naquele dia, 21/01/2011, cabalístico, vibrava entre a excitação, a novidade e o encantamento. Inácio, que não era bobo nem nada, quis me levar direto para o seu ap. Caí como uma patinha. Fomos. O local parecia mais um abatedouro, com roupas espalhadas por todos os lugares; até calcinha vi. Perguntei se havia mulher morando com ele. Num acesso de loucura, agarrou-me pelo braço e esbravejou: “Você chegou agora, mocinha, já quer ditar as regras?!”. Assustei-me, comecei a chorar de medo. Não tinha o que fazer. Portas fechadas, sensação claustrofóbica. Deu-me um pânico e comecei a gritar: “Abre essa porta! Abre essa porta!”. Ele, parecendo que havia caído em si, voltou do transe, soltou o meu braço e desabou na cama aos prantos: “Me desculpa, vai?! Fui demitido essa semana. Estou um trapo… Fica comigo?!”. A demonstração de total descontrole emocional do sujeito desconectou qualquer expectativa de relação e, sem olhar para trás, de cabeça baixa, despedi-me e saí, para nunca mais.

Passados sete meses, entre abusos e desaforos, consegui entrar pela porta estreita da UNB. Antes, muito antes, nem sabia que esse mundo chocante existia. Penso, absorta, como a vida deu uma guinada para o norte. Só dependeu de mim – obviamente, com o suporte inestimável de mãe – estar no Mestrado em Filosofia e Sociedade. Vou concluir o curso com a dissertação acerca do patriarcado e dos modos seculares de controle social, e pisar na cabeça do machismo. Agora sou eu quem vai estropiá-lo. Boa linhagem essa de mãe, benza Deus.

 

Adriano B. Espíndola Santos nasceu em Fortaleza, Ceará. Autor dos livros “Flor no caos” (Desconcertos Editora, 2018) e “Contículos de dores refratárias” (Editora Penalux, 2020). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem prosas publicadas nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Viviane de Santana Paulo

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Chamam-no de coronavírus

E eis que o mundo parou em março de 2020! E precisamos manter distância uns dos outros e permanecer isolados dentro de nossas casas como em prisões domiciliares. As ruas estão sem os automóveis, as calçadas sem os transeuntes, o comércio sem os compradores, os escritórios sem os executivos, os restaurantes sem os fregueses, as escolas sem os alunos. A imobilidade e o silêncio despencaram em pingos grossos e rápidos sobre as cidades e o vento morno sopra tranquilo.

Estou sentada a uma minúscula mesa, na pequena sacada do quarto de uma pensão simples, em uma capital qualquer dos cento e noventa e três países deste planeta. De pijama, tomo um café e escrevo no computador. Os voos foram cancelados, não sei quando conseguirei marcar um de volta para o Brasil. Vim a trabalho. Alguns países evacuaram seus cidadãos. Mas existem pessoas, como eu, que tiveram azar e permaneceram encalhadas em alguma cidade, sem a possibilidade de regresso. Ou porque as cidades estão fechadas, isoladas, e elas não conseguem chegar até o aeroporto. Ou porque os voos foram cancelados. Ficar presa em um quarto de pensão, em frente a uma larga avenida, com o verde fresco das árvores farfalhando, não é desesperador. Mas a morte que ronda à minha volta. A sorrateira e silenciosa morte que arranca de nós nossos entes amados.

Nenhum veículo transita na avenida. Ambulâncias são vistas solitárias nas ruas. Choveu anteriormente. Neste instante o sol brilha morno às dez e quinze da manhã, a luz atinge os vínculos e as superfícies, e as sombras são mais escuras quando a claridade é mais intensa. O céu está limpo sobre a cidade sórdida, a cidade que não trabalha. Da sacada, se eu olhar para leste a rua é chata, sem comércio. Para oeste, as lojas e os escritórios estão fechados. Alguns metros adiante o Mercado ergue sua cúpula sobre as barracas vazias que possuiriam mercadorias à venda, as carnes, os legumes, os peixes, as especiarias nacionais e internacionais. Caminhando para o ocidente encontrariam-se muitas pessoas nos restaurantes, bares e teatro.

O mundo parou e, você sabe, Noa, não foi porque a Humanidade finalmente reconheceu aquilo que fazia de mais errado e imobilizou-se para recomeçar, corrigindo as desnecessárias injustiças e construindo união! Inclusive, especialistas alegam que devemos aproveitar esta interrupção involuntária e abrupta e tentar realmente diminuir as injustiças, buscar a cumplicidade e a irmandade. Alegam que o capitalismo infrene adoece as sociedades, cada vez mais. Prejudica a Natureza. Que deveríamos criar uma nova forma de crescimento e redistribuição de riquezas e de garantias de recursos básicos para todos. Que necessitamos desenvolver uma economia renovável e humana, para não disseminar injustiças sociais.

Mas sabemos, não foi por causa da conscientização dos povos que o mundo parou! As nações conheciam os seus erros e continuaram desenvolvendo ávidas produtos de consumo descartáveis e inúteis, e incentivavam o irrefreável crescimento econômico à custa de determinada camada da sociedade e de certos países.

E, além disso, querido, a vida moderna com os amplos meios de comunicação, também incentivava as amizades como a nossa: somente pelo whatsapp e facebook. Sem tempo para o encontro pessoal e para a conversa profunda sobre a vida, as conquistas, as decepções, os planos e os desejos. Você é um dos meus inúmeros amigos superficiais que orbitam na minha vida como satélites que enviam constantes mensagens supérfluas: vídeos, dizeres, piadas, fake news.

Nós nos conhecemos em uma festa. Lembra? Conversamos, dançamos juntos, comemos. Combinamos sair para jantar e fomos ao cinema e saímos de novo para jantar e, naquela noite, acabamos na minha cama. Lembra? Eu poderia ter te amado quando minha boca sugou a carne de teus lábios, minhas pernas cruzaram o teu quadril, quando nossos corpos se encaixaram. Você a chave eu a fechadura. Lembra? Fomos a troca de carinhos e segredos, instinto e espírito. Naquele momento, permiti que você entrasse na minha vida como se você pudesse ser a outra metade de mim, me refazendo, me protegendo. Querido, eu quase te amei, mas você não viu nenhuma vantagem no doar-se.

Desde então, nos comunicamos pelo whatsapp. E você já deve ter se dado conta que nos encontramos apenas raras vezes, casualmente, em algum evento ou em bares frequentados por amigos em comum. Trocamos sorrisos e frases sucintas sobre temas irrelevantes. Claro, somos adultos! Estou com trinta e quatro anos e continuo trabalhando para uma indústria farmacêutica, como representante de medicamentos para hospitais, e viajo muito – quer dizer, viajava. E você, com trinta e oito, deve ainda estar trabalhando na área de informática. E sem poder viajar. Era comum as pessoas viajarem a trabalho dentro e fora do país, viajavam por tudo quanto é canto o tempo todo! Não é?!

Antes de o mundo parar, ninguém possuía tempo, não é verdade? Havia uma força maior que nos obrigava a usar o nosso tempo livre para fazer compras, ir a bares e restaurantes cheios de gente e postar as fotos no facebook, Instagram, twitter.

Agora o mundo parou e somos obrigados a refugiarmos no interior de nossas casas. Como se aceitássemos o convite da Pampinéia, em Decamerão. Estamos confrontados com esta realidade que nos proporciona tempo e silêncio, mas não somos capazes de desenvolver uma narração honesta e substancial para os nossos dias e para o nosso futuro. Creio que precisamos de um novo vocabulário que inclua todas as boas características humanas.

Agora a ordem é isolar-se, como se tivesse existido a proximidade entre nós. Como se tivesse existido o diálogo. Como se cada um não lutasse por si. Como se, de novo, o nacionalismo e o egoísmo e a ganância não estivessem se expandindo rápido.

Está proibido o amontoado nas praças, nos shoppings, nos restaurantes, nos cinemas, nas festas, nos concertos e shows, nos estádios de futebol…

Vivíamos amontoados, mas não vivíamos realmente uns com os outros. Vivíamos sufocados nos congestionamentos, nas filas, submetidos aos ruídos, ocupados com inúmeras futilidades.

Antes de o mundo cessar era difícil respeitarmos a Natureza, conhecermos nossos verdadeiros amigos, nos dedicarmos aos nossos parentes.  A lei era trabalhar e consumir. Vivíamos incorporados na massa, conduzidos pela massa, auto-protegidos e aliviados na massa. Cegamente obedientes e multiplicáveis na massa.

Porém, você me dirá: “Márcia, somos seres sociais e necessitamos dos outros, da multidão, do ruído, da confusão”. E eu te respondo: Mas de que maneira? De que maneira eu preciso de você? Penso que poderíamos realmente dialogar e nos conhecermos a ponto de nos importarmos um com o outro.

Agora estamos solitários, cada um consigo mesmo, e não existe nada mais solitário do que estarmos sem o outro de nós, sem o outro semelhante, sem o confronto com o diferente.

Os animais aproveitam a falta de humanos espalhados e invadem as cidades. Leio nos jornais, na internet, sobre casos de raposas passeando nas praças, no final da tarde. Cabras, que se limitavam nas montanhas, excursionam pelas calçadas e ruas desabitadas e experimentam a culinária das plantas nos jardins das casas. Golfinhos curiosos fazem turismo nos canais de Veneza. Gansos e flamingos banham-se nos lagos urbanos. Leio sobre o ar purificado do planeta. A alta emissão de gás carbônico sufocava a Terra. A camada de ozônio igualava-se a um casaco velho, rasgado e cheio de buracos. Já não servia para nos proteger dos raios ultravioletas.

Recebi vários vídeos mostrando os vizinhos cantando nas sacadas dos prédios. Você também deve ter recebido! Alguns são cantos improvisados, outros verdadeiros concertos acompanhados de instrumentos.

Vocé me dirá: “Márcia, isso é um gesto de solidariedade indispensável neste tempo. Revela que somos unidos também em momentos difíceis e procuramos consolar uns aos outros!”. Eu te pergunto, por que não podemos ser sempre assim solidários? Há muitos vizinhos que nem sequer se cumprimentam! Não é verdade que todos nós possuímos nossas dificuldades e precisamos, em algum momento, de gestos de solidariedade e consolo e não recebemos? Em vez disso somos demitidos, humilhados, recebemos salários insuficientes, estacionamos na vaga de idosos ou pegamos a vaga de alguém, furamos a fila, cobramos mais caro…

Não me entenda mal, Noa, apenas desejo que os gestos sejam sinceros e frequentes, mesmo depois de não existir mais razão para o mundo parar!

Faz dez dias que o mundo parou e a primeira medida tomada pelos países ricos foi adotar a pronta retórica bélica e fechar as fronteiras: estamos em guerra contra um inimigo invisível, disseram os políticos.

O trabalho em conjunto é difícil. Unir-se diante de uma ameaça comum e apátrida, diante de um inimigo microscópico que não faz distinção de nacionalidade, fronteira, cor ou classe, parece ser difícil. Surge a desconfiança do outro, o outro passa a ser o disseminador de um vírus mortal. Eu te pergunto, não é estranho que, quando se trata de acordos econômicos, o mundo se torna internacional. Por outro lado, quando se trata de acordos humanitários, as fronteiras se fecham e logo adotamos o vocabulário bélico?

As máscaras caíram e as máscaras que nos protegem estão escassas. Tão escassas que logo se tornaram uma razão para a pirataria e a corrida vertiginosa pela aquisição do precioso artigo. Um país acusa o outro de pagar mais pelas máscaras e respiradores cujo contrato de compra já tinha sido fechado. Outros roubam no trajeto de transporte. A Guerra das Máscaras provocou tensões até mesmo entre países aliados tradicionais. Quem oferece uma soma maior, ganha!

Entramos na era das máscaras. Agora somos obrigados a usar máscaras nos supermercados, consultórios médicos, dentistas… mas estas máscaras são diferentes daquelas que jamais deixamos de usar. Nunca deixamos de ser um animal racional cheio de máscaras apropriadas para distintas situações. Até mesmo máscara para proteger ou ludibriar a nós mesmos possuímos. Somos seres de máscaras diversas na nossa fisionomia, no nosso espírito. A maioria serve como revestimento da nossa fragilidade, uma espécie de pele grossa que nos protege dos outros e os outros de nós. As nossas máscaras, que alternadamente usamos, são diferentes destas. Elas não são visíveis, embora algumas pessoas as enxerguem, em alguns casos. As nossas imanentes máscaras invisíveis conduzem-nos a crer que não as usamos.

Penso que não precisamos de máscaras, que a nossa inteligência pode ir além, que podemos nos desfazer dos instintos primitivos e evoluir em conjunto.

O inimigo possui a chave e entra sem dificuldade para furtar informação e refazer-se, reproduzir-se e destruir a célula. E o corpo torna-se um universo em desequilíbrio. O inimigo nos lembra que somos nada mais do que corpo e alma, limitados e perecíveis. E não somos peça substituível dentro de um sistema de produção, embora há quem tente nos fazer ser. Somos seres humanos em tudo o que fazemos e podemos — diz Confúcio — não se deve tratar o ser humano como se fosse ferramentas.

As indústrias farmacêuticas ainda não criaram um remédio contra esse mal. Ela própria é hipócrita e cínica em algumas circunstâncias. Sei bem do que falo, trabalho para uma! Transformamos as doenças em algo lucrativo. Na lei do mercado capitalista tudo pode ser convertido em compra-venda-lucro. Sem as indústrias farmacêuticas, no entanto, não teríamos os medicamentos. Ela e os investimentos em pesquisas científicas são fundamentais. Somente a ganância e a desvalorização da vida humana acima do alto lucro são imorais e antiéticos. Se os medicamentos são feitos para salvar vidas, pessoas não deveriam morrer por não possuir meios financeiros para a aquisição de medicamentos.

Como a Humanidade aprende com as catástrofes? Eu diria que depende das sociedades. Algumas procuram mudanças propícias. As sociedades instáveis sucumbem à má organização, à arraigada corrupção e à falta de recursos. A Humanidade não é homogênea, ela é composta de diversas sociedades heterogêneas em concorrência umas com as outras. Até que ponto esta concorrência é primordial? Você já pensou nisso? É realmente imprescindível o crescimento econômico irresponsável? Ou haveria um outro tipo de crescimento, um crescimento horizontal, regularizado? Um crescimento baseado no respeito, na solidariedade, na proteção, não seria a chave para o futuro promissor?

Sei que não é possível responder estas questões aqui, Noa, sem tocar no nome de Adam Smith, na falsa verdade de que o mercado é livre e deve ser livre e regulariza-se por si só. Sem mencionar a economia peculiar dos povos denominados primitivos. Sem mencionar a destruição destas economias em nome do “mercado livre”, que de livre só possui a obediência na vontade e no poder dos mais ricos. Sem mencionar a colonização e a escravidão e o imperialismo. Sem mencionar Karl Marx e as ditaduras de esquerda e de direita. Sem mencionar Keyne, Hayek, Ricardo e Friedmann, Polanye e Piketty.

Não tem espaço aqui para toda a evolução e as falhas do capitalismo, a sacada é pequena.

Ouvi na rádio, agora há pouco, que as pombas estão passando fome nas praças e nas ruas desertas. Não há mais restos de alimentos caídos no chão. A voz fazia um apelo para não deixarmos as aves definharem assim cruelmente. Coloquei alguns pedacinhos de pão no chão da sacada.

E as pessoas que estão morrendo de fome nas favelas, definhando de fome nos países pobres? Passando fome porque o mundo parou em razão de um vírus que circula propagando nossa mais expansiva fragilidade. Chamam-no de coronavirus, e é originário provavelmente de um mercado de animais selvagens, em Wuhan, na China. Existem animais que não devem ser devorados pelos seres humanos. As pessoas estão confinadas em suas casas para se protegerem, para combater a disseminação do vírus. Mas há aqueles que não possuem casa, que precisam sair de suas pobres moradias para trabalhar, senão morrem de fome.

Há os mais frágeis que os frágeis nesta Humanidade frágil!

Sentada à mesa na sacada, não canto. Passarinhos cantam. Estou aqui só, neste minúsculo espaço, captando o mundo através da internet. Penso na minha família, nos meus amigos, nos meus amores, e escrevo para você que muitas vezes não me responde, muitas vezes não lê o que escrevo, para te dizer que: precisamos tomar conta também de quem toma conta de nós. Talvez um dia você entenda isso!

Longe do meu país, distante de minha família, possuo a internet como um transporte no tempo e espaço. Com a internet alcanço as pessoas próximas de mim, aquelas que me fazem falta. Com a internet leio sobre os acontecimentos no mundo e as estratégias para a desinformação, me informo e combato as desinformações que determinados grupos procuram tenazmente inserir em nossa mente para dominar nossas células e a partir daí propagar-se doentiamente.

Chamam-no de coronavirus, porém, tantos outros vírus convivem conosco e nos matam, sem que indetifiquemos a verdadeira causa. O vírus do preconceito, do racismo, da ganância, da avareza, do ódio, da desonestidade, da inveja. Matam sem que notemos. Humanos morrem como formigas sob a pesada sola da sandália deste gigante obeso e horrendo. Esses gorgones – meio humano, meio monstro – sempre dispostos a liquidar os mais frágeis sem a mais ínfima compaixão.

Meu colega de trabalho está na UTI, ele tem 39 anos e é pai de três filhos. O mais novo tem dois anos. Torço por ele! Estou preocupada com a minha família e amigos e triste com todas estas mortes.

Ah, tá bom! Você dirá que é natural pessoas morrerem de doenças. “É bom, Márcia, porque o planeta está superpulacionado”. Não é? Não podemos tirar a vida do outro, mas a doença pode fazer isso por nós, para que haja equilíbrio no planeta. Você acredita nisso realmente?

Trabalho para uma indústria farmacêutica, vendo medicamentos que salvam vidas, que liquidam doenças. Medicamentos criados pela inteligência humana. Você certamente considera natural que a inteligência humana crie medicamentos potentes! É natural que lutemos pela sobrevivência e que busquemos formas dignas de vivência e convivência. Por que então crer que seria natural permitirmos pessoas morrerem para um suposto equilíbrio da Natureza? Desta mesma Natureza que destruímos?

Alguém bate à minha porta. Deve ser o pessoal de limpeza. Deixo a sacada e sigo a abrir a porta. O jovem de pele escura e olhos negros brilhantes deseja limpar o quarto. Conversamos mantendo distância de no mínimo um metro e meio. Vejo sua boca se mover por trás da máscara azulada e suas mãos enluvadas segura um pano. Bom dia, senhora! A senhora quer que eu limpe o quarto?

Sim, por favor! Permito que entre e me refugio de novo na sacada.

Ele faz parte daqueles que não podem se dar ao luxo de ficar em casa. Ele é obrigado a se expor ao risco. Sua vida vale menos neste mundo antropofágico.

Há muita incivilização neste civilizado mundo aporofóbico!

Depois que a limpeza do quarto terminou, tomei banho, me vesti e almocei na sacada.

 

As horas se esvaíram, a claridade do dia está minguando, e me sinto asfixiada. Não é de hoje que esta Humanidade me asfixia! Pretendo me mascarar e fugir para o ar livre, passear no quarteirão sorrateiramente. Mas não encontro a chave, a bendita chave!

 

Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodrigo Melo

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

OS REINOS DA CHUVA

Era uma noite quente naquele apartamento do outro lado da cidade e eu estava deitado sobre o sofá que ela havia comprado uma semana antes – o sofá macio, de vinil preto, dividido em doze vezes no cartão. Pensava no conto que teria que escrever para uma revista. O prazo estava perto de acabar e eu ainda não tinha conseguido um único parágrafo. As coisas muitas vezes parecem mais complicadas quando se tem um prazo. Na tevê passava um faroeste. Dois sujeitos, um de frente para o outro, no meio de uma rua empoeirada, com as mãos sobre os seus coldres, à espera de um sinal. Talvez se eu fumasse o baseado que tinha no bolso as ideias começassem a vir e a história ganhasse forma e eu conseguisse finalizá-la a tempo. O problema era que ela não gostava do cheiro. Por conta disso, eu teria que ir até a praça lá embaixo, escolher um dos bancos que ficavam meio escondidos pela sombra das árvores e fazer tudo muito rápido, na esperança de que não aparecesse qualquer carro de polícia.

Um dos sujeitos na tevê era louro, alto e tinha uma estrela no peito. O outro era só um mexicano com o seu chapéu redondo e as suas roupas sujas e o seu sorriso era o sorriso de quem não tinha muito a perder. Talvez estivesse bêbado. De repente, ele puxou a arma e a apontou para o cara com a estrela no peito. Antes que conseguisse atirar, recebeu dois tirambaços e caiu estatelado no chão. E então, vinda do saloom e das casas ao redor, uma multidão começou a se formar em volta do seu corpo.

– O que é isso, Fófis? – ela perguntou, segurando uma vasilha com pipocas na mão.

– A vida – respondi.

– Não seria a morte?

– As duas. Às vezes as duas se misturam e viram uma coisa só.

Ela jogou um punhado de pipocas para dentro da boca e ficou a me olhar.

– O que ele fez para ser morto?

– Era mexicano.

– Só?

– Só… O nome desse loiro com a arma na mão é Randolph Scott. Tenho um amigo que é fã dele.

– Bonitão.

– Dizem que era gay. Mantinha um caso com outro famoso. Não lembro o nome.

– Não deve ser verdade, Fófis. Olha só pra ele, olha para o jeito dos ombros, dos braços. Posso colocar a mão no fogo por um homem assim.

– Escuta, não quero ser chato nem nada, mas não gostei desse apelido que me deu. Prefiro que me chame pelo nome, se não se importar.

– Tudo bem, eu não me importo. Tem certeza de que quer assistir isso?

– Não. Vou descer para fumar.

– Vai lá na praça?

– Sim.

Vê se não demora. Fico preocupada.

Era geóloga, mexia com pedras, matéria morta, tinha um gato que às vezes desaparecia e, tempos antes, numa noite feito aquela, foi até o quarto e voltou com uma caixa enorme, de onde tirou duas facas, uma taça de metal e uma porção de cartas com desenhos estranhos. Jogou tudo sobre a mesa, acendeu dois incensos e disse que a minha alma era velha e teimosa e que eu precisava evoluir. Disse ainda que a minha vibração tinha uma tonalidade verde escuro ou azul, o que poderia significar uma infinidade de coisas. Eu gostava dela, mas achava aquilo chato e com o passar do tempo tudo começou a soar exagerado, como se fosse uma espécie de resgate entre nós dois. Nos encontrávamos apenas para trepar, comer e assistir tevê, sendo que cada vez mais comíamos e assistíamos tevê.

Em vez de descer, fui até a cozinha e abri a geladeira. Havia uma lata de Malzebier escondida na parte dos tomates. Me sentei num banquinho ao lado do fogão e acendi um cigarro. Dei grandes goles e longos tragos. Por um instante, fechei os olhos e tentei me imaginar longe dali, talvez nadando em uma piscina aquecida, comendo profiterolis numa sacada de frente para o mar, andando de bicicleta em alguma paragem sagrada e especial. Por algum motivo, não consegui. Abri novamente os olhos e enxerguei, através do basculante na cozinha, o reflexo das luzes lá fora – as luzes de ilhéus, a cidade em que nasci e continuava a viver. Pensei que àquela hora, em alguma outro lugar, alguém talvez compreendesse tudo o que lhe acontecia e até se sentisse feliz. Alguém que não ficasse o tempo inteiro se perguntando o que cada coisa poderia significar.

Ela havia mudado de canal quando voltei. Os cabelos negros caíam sobre o sofá e suas pernas morenas se esticavam até a mesinha de centro.

– Tô indo.

– Pensei que já estivesse voltando.

– Tô indo pra casa.

Ela se virou e ficou a me olhar.

– Está chateado?

– Não. Tenho que entregar um texto até amanhã.

– Escreve ele aqui.

– Deixei o rascunho em casa. Melhor eu ir.

Caminhei até a porta e ela me seguiu. Nos beijamos. Sua boca tinha gosto de manteiga e sal. Havia qualquer coisa diferente no seu olhar. Como se soubesse que aquela seria a última vez.

Saí do prédio, caminhei até o fusca, dei a partida nele e coloquei uma música para tocar. Era Kingdons Of Rain, de Mark Lanegan. Ao meu redor, a cidade adormecia, uma e outra janela acesa, e por um momento me pus a imaginar as histórias que aquelas janelas guardavam e tornei a acreditar em belos e intermináveis amores e pensei em como tudo pode ser bonito e intocável quando a gente realmente precisa ou quer. Repentinamente, lembrei do nome do outro ator, mas já não importava mais. Tanto ele, quanto as cartas de tarô e o sofá de vinil haviam ficado para trás. Naquele instante, eu era apenas aquele sujeito a cruzar a cidade dentro do seu fusca bege, acendendo um baseado, calculando que talvez uma hora todas as coisas fizessem sentido e que bastava não desistir. Bastava peitar a fera e continuar, neblina adentro, até a vista clarear. E foi assim que segui: escutando a voz triste e rasgada de Mark Lanegan e sentindo que a cada tragada e a cada metro que o fusca vencia, eu me transformava em um homem mais livre, mais perto da verdade, e, por isso, um homem também melhor. E pensar aquilo me fez um enorme bem. E eu então comecei a sorrir.

Rodrigo Melo vive em Ilhéus, no sul da Bahia, e é autor de Riviera, romance prestes a ser lançado pela Editora Mondrongo. 

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Alê Motta

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Bagagens

 

Fiz doze cirurgias ao longo da vida. Ando com auxílio de uma bengala. Uso bombinha de asma, tomo onze comprimidos por dia e gotinhas de própolis, porque me acostumei com elas, quando tive uma gripe no verão.

Depois das seis da tarde coloco um casaquinho, mesmo que não esteja frio. Tenho sempre um guarda-chuva na bolsa. Sou aquela velhinha que a família inteira acha que vai morrer todo ano. Uma chatice completa. Cansei.

 

De uns tempos para cá resolvi ousar. Só coloco goiabada, sorvete e biscoito de chocolate no meu carrinho de compras. Fiz uma tatuagem no braço direito. Uma flor pequenina. Meus filhos quase surtaram.

Troquei de manicure e agora pinto minhas unhas com cores divertidas, tons azuis, verdes e alaranjados. Não quero que olhem para minha bengala, quero que olhem para o meu visual. Todo sábado de noite durmo com bobes, para no culto do domingo de manhã meu cabelo amanhecer estiloso.

Faço depilação, limpeza de pele e massoterapia.

Tenho mimado meus netinhos além da conta e constantemente ignoro meus filhos, quando me mandam fazer exames ou voltar a algum dos meus muitos médicos.

 

Sim, estou cheia de manias e esquisitices novas. Hoje mesmo estou na praia. Fazendo topless. Uma novidade na minha vida. Nunca tinha feito. Tenho oitenta e cinco anos, era hora de testar. Meus peitos estão muito caídos e estou causando um certo mau estar na rapaziada. Mas eu vou ficar por aqui, curtindo esse sol gostoso nos meus peitos por muitas horas. Trouxe até uma bolsa com lanche. Tem goiabada e biscoito de chocolate.

O sorvete compro depois, com o moreno lindo que passa vendendo toda hora.

 

 

 

***

 

 

 

Esquecimentos

 

Esqueci o que fui fazer no quintal. Tenho esses momentos de esquecimento, todos os dias.

Vou para a cozinha e não faço ideia do que ia fazer com a peneira grande e a colher de pau que tenho nas mãos. Saio para a rua e constato que não sei o meu destino.

 

Esqueci de tomar banho algumas vezes, no mês passado. Ou talvez não tenha esquecido. Não posso afirmar.

Tem alguma coisa acontecendo comigo. Desconfio que seja deficiência de vitaminas. O problema é não lembrar o quanto já tomei, quando tomei, para que finalidade tomei. Fico tensa desde o momento em que acordo, até a hora em que me deito para dormir. Todos os dias são assombros, espantos.

 

Ontem fui parar no meio da rua. Uma caminhonete prata buzinou e eu saltitei para a calçada. Tive que abraçar um poste, porque fiquei tonta.

Hoje acordei e o dia está lindo, um céu azul maravilhoso, trinta graus. É meu aniversário de sessenta e cinco anos. Fiz tapioca para o café da manhã.

 

Um, dois, três… Dezessete pessoas aqui na minha casa.

Toda família está na minha sala e na minha cozinha.

O relógio da parede marca 19:25h.

Trouxeram bolo, risadas e salgadinhos.

Não lembro nada do que aconteceu desde o café da manhã. Olho para a bancada e não há indícios da frigideira e da tapioca. Todos conversam, tem música tocando. Meu ombro esquerdo está dolorido de tanto tapinha de Eeee, parabéns!, estou comendo uma coxinha deliciosa, rodeada de netos lindos.

 

Devo ter uma doença terminal. Nunca fizeram uma festa assim para mim – com toda a família. Se fizeram, não lembro.

 

 

 

***

 

 

 

Herança

 

Meu avô é um velho inconveniente que faz todas as perguntas que não devia fazer nos eventos familiares.

Além de fazer perguntas medonhas, ele me encara e comenta que eu engordei, afirma que minha amiga é sapatão, que eu nunca vou arrumar emprego com o curso que faço na universidade, mas tudo bem, porque sou um fracassado igual ao meu pai e fala isso dando aquela risadinha sarcástica de quem está determinado a se meter.

Meu avô consegue azedar qualquer reunião familiar. Ele começa discussão, ofende. Zomba, magoa. A todos.

 

Ele tem olhinhos azuis, cabelo todo branquinho, é gorducho e caminha pulando. Quem olha de longe vê um velho fofo. Quem convive de perto está louco pra ir ao seu funeral.

Ele maltrata a vovó. Chama de lesada, define as roupas que ela deve usar e onde pode ir. Se e quando pode ir. E com quem. Joga o prato no chão se a comida não está do jeito que ele quer. Ela não reage.

Ele espancava os filhos quando pequenos – meu pai e meus tios. E agora que os filhos estão adultos, sempre se dirige a eles com sarcasmos ou palavrões.

Ele nunca nos abraçou. Me chama de Breno e meu nome é Bruno. A Carla ele apelidou de Saco de Banha!, ela é a minha prima complicada com o controle do peso. Já tentou se matar, é depressiva. Minha tia fica arrasada. Meus primos gêmeos ele chama de “os dois” e outro primo, o Gil, de “o menino”. A minha prima Cássia, eita!, essa ele ignora. Tem tatuagens e piercings, para ele não existe. Ela diz – Olá, avô! Ele vira a cara.

 

Estamos na delegacia. Meus pais, tios, tias, primos, primas e vovó. Depois desse ridículo e desprezível almoço de natal. Vovó é a única que chora e repete Tadinho, tadinho.

Meu avô nunca mais escarnecerá de ninguém. Foi esfaqueado, enquanto dormia, após o almoço, com a faca nova de cortar o peru. Durante o almoço ele ofendeu, zombou e xingou a todos.

Impressionante sua capacidade de humilhar, menosprezar e detonar. Meu avô era brilhante na maldade.

 

Somos muitos e somos todos suspeitos, mas o delegado já ganhou uma graninha e semana que vem todos ficarão sabendo da tentativa frustrada de assalto. E co mentarão, impressionados, da valentia do meu avô, que sozinho no quarto, reagiu. O resultado final foi que, infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos na luta feroz, corpo a corpo com o marginal.

A vida seguirá. E a maldade da minha família, que era só do velho, agora está em todos nós.

 

 

 

***

 

 

 

Visitas

 

Quando ele chegou – depois de cinco anos sem dar notícias – ficou puxando as flores do arranjo cafona da mesinha de centro da sala e fazendo comentários imbecis do último jogo do Flamengo. Eu sabia que era enrolação.

 

Tenho setenta e oito anos, mas a força de um garoto. Meu soco é brutal. Faço longas caminhadas e cavalgo todos os dias, com muita facilidade.

Quando eu ouvi o

Tio, esse sítio é um fim de mundo. A oferta é ótima, eu tô sem grana. Quero adiantar o que vai acontecer mesmo, quando o senhor morrer!,

Não aguentei.

 

Retirei e recoloquei no lugar todos os quadros, os cinzeiros, a folhinha da farmácia, as duas almofadas que estão puídas e perdendo o enchimento. Passei o pano úmido em tudo, várias vezes.

Toda a madeira da sala está precisando ser envernizada. Amanhã vou à cidade comprar verniz fosco e aromatizador. Hoje não dá tempo. Preciso enterrar, bem escondido, o corpo desse sobrinho insolente.

 

 

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros!, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de “Interrompidos” (Editora Reformatório, 2017) e “Velhos”  (Editora Reformatório, 2020). 

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Priscilla Menezes

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A mulher em casa está em uma floresta. Entre seus dedos, invisível, existe uma lança e há terra constante em seus pés. A mulher em casa está vulnerável. A mulher em casa está em estado de sítio, onde todas as quinas lhe ameaçam e ela constrói barricadas. A mulher em casa está em uma zona de guerra e os intocáveis não serão poupados. A mulher em casa tem pensamentos perigosos. A mulher em casa atravessa um deserto onde recolhe vestígios ilegíveis de uma antiga civilização que ela mesmo fundou. A mulher em casa está em uma fronteira e é, a um só tempo, agente de controle e refugiada. A mulher em casa está no fundo do mar e inventou modos próprios de praticar apneia. A mulher em casa tem guelras e está sozinha. A mulher em casa não está esperando ninguém. A mulher em casa deseja estar em outro lugar. A mulher em casa está subindo pelas paredes e começa uma volta ao mundo sem planejar o seu retorno. A mulher em casa está se olhando generosamente pela primeira vez. A mulher em casa é monstruosa. A mulher em casa é uma horda de crianças e bichos que ameaçam as estruturas da casa. A mulher em casa é a última força a evitar a separação entre duas placas tectônicas. A mulher em casa sustenta a casa e não recebe nada a mais por isso. A mulher em casa faz amor com as sombras e gesta os seus filhos na escuridão. A mulher em casa é um eixo em torno do qual o mundo rotaciona na direção oposta ao que lá fora chamam de avanço. A mulher em casa troca a resistência do chuveiro e faz a comida. A mulher em casa quer colocar fogo na casa. A mulher em casa sente culpa. A mulher em casa é um vulcão adormecido. A mulher em casa está menstruada. A mulher em casa tem amantes como quem tem uma horta. A mulher em casa finalmente tem um teto todo seu. A mulher em casa toma conta de uma horta como quem cuida de amores. A mulher em casa quer escrever, mas acha que precisa lavar os azulejos primeiros. A mulher em casa está na rua. A mulher em casa não é facilmente encontrável. A mulher em casa coloca para fora a sua animalidade latente. A mulher em casa saiu.

 

 

 

***

 

 

 

Tales achou que era tudo água. Anaximandro inventou um nome próprio para a matéria infinita das coisas. Anaxímenes sabia que o fundamento da vida é o ar, a poeira e o espaço. Heráclito dizia que o princípio de todas as coisas está contido no fogo que a tudo destrói e refaz. Eu acho que essa cola imanente, que relaciona todas as coisas, é menos uma matéria e mais um conjunto de influências mutuamente realizadas. Seria preciso olhar o espaço entre as coisas como se olha uma ruína, um manuscrito antigo, o corpo de um animal raro. Apostar que entre nós e qualquer coisa pode haver uma relação como a que há entre a terra e o céu. Mapear analogias como mapeamos a influência dos planetas sobre os nossos modos de ser. E se percebêssemos por fim que tudo é signo?  Por exemplo: verificar como a longevidade dos meses é análoga às bases das falanges dos dedos. Cume janeiro, declive fevereiro, assim por diante até  a repetição dos ápices entre julho e agosto, que obriga a dar uma volta, passar por fora e recomeçar. Foi nesse intervalo que eu nasci. Talvez a minha existência seja regida por esse salto, por esse deslocamento pelo lado de fora. Para levar isso às últimas consequências seria preciso esquecer um pouco o que é uma mão e esquecer um pouco o que é uma vida. Para discernir como tudo incide sobre tudo talvez fosse preciso desaprender o que é matéria e desaprender o que é mundo. Nesse afrouxamento de convicções uma nova ciência poderia se estabelecer. Esquecer um pouco o que se é para conhecer a si em tudo que há, a mim isso soa como um plano.

 

 

 

***

 

 

 

Será que quando Francis Alÿs chegou bem perto do furacão os seus alvéolos começaram a rotacionar em torno de algum centro propulsor insurgido ali, na radicalidade dessa aproximação? Fico pensando se é possível chegar tão perto de um tornado sem se tornar algo como um tornado. Certamente sou um pouco você desde que cheguei mais perto. Eu me pergunto se naquela vez em que estive em um desastre eu extraí dele alguma qualidade desastrosa. Se na passagem por terras distantes eu esgarcei as possibilidades de me distanciar de mim. Se ao caminhar nas beiradas do abismo de Moher eu me tornei um pouco mais abismal. Se quando tive entre as mãos o corpo de um pássaro machucado eu também eu me abandonei em alguma força maior. Roger Callois investigou o fenômeno da metamorfose e chegou a uma misteriosa conclusão: que o mimetismo não seria uma prática de sobrevivência, como se pensa, mas uma espécie de loucura que desestabiliza as distinções entre meio e ser. O destino mimético seria menos um esconderijo e mais uma tentação. Vamos na direção das coisas que não somos porque não resistimos a elas e nos transformamos nelas porque não resistimos à transformação. Quando olho Francis Alÿs perseguindo tornados, quando penso nos caminhos até o abismo de Moher, quando me penso diante de você entendo que não resistir, às vezes, é um longo trabalho. Não resistir pode ser uma laboriosa forma de salvação.

 

 

Priscilla Menezes é artista, poeta e professora. Em 2017, lançou o livro “Erro tácito” pela Editora Patuá. Participou da coletânea “Tertúlia” lançada em 2018 pela editora Ágrafa. Em 2019, lançou o livro “Eu vou invadir os latifúndios que cercaram a minha carne”, pela editora Nadifúndio, e integrou a publicação coletiva São nossas as notícias que daremos produzida pelo Movimento Respeita!. Seu trabalho pode ser acompanhado através de seu instagram @lotahille.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Caio Russo

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Lógica da imobilidade

 
Para Priscila Faccini, viragem do meu ponto sem volta

 

[…]

 

é muito diferente de cadeiras, não, o sofá é a expressão, a encarnação mesma da solidão, no sofá, deitada sob sua superfície sendo eu mesma o sofá, o que eu posso ser, o que eu posso fazer, eu me concentro, eu me concentro no ponto fixo da parede e deixo que a ausência tome conta de mim como se eu fosse eu mesma um tipo muito particular de necrotério de mim mesma, uma cidade subterrânea de tudo aquilo que não fui e não chegarei a ser. E ali, bem ali no sofá, nesse lugar, nessa terra, nesse plano, nessa superfície de que é feita para o pensar e do pensar, o que eu podia fazer, o que eu podia verdadeiramente fazer? Eu podia me perder, me perder um instante, me desmanchar um tantinho que fosse, eu podia seguir ali deitada e continuar deitada, fazer parte da atmosfera, me condensar no pequeno vento que vinha da fresta de uma janela aberta num dos lugares da casa, essa casa, essa mesma casa, a casa de todos os dias, a casa que antes não tinha asfalto mas agora tem, uma casa asfaltada há muito tempo

 

[…]

 

mas deitada no sofá, olhando esse ponto fixo, talvez uma mosca, talvez um qualquer coisa, talvez eu mesma, olhando esse ponto, me permanecendo nele, dançando ao redor dele, gritando em rituais da qual sou a única inventora na separação dele como parte dele mesmo, o que vem, o que vem de um lugar que eu não sei mas que existe em mim, vem um tipo de instinto, um tipo de cheiro, um tipo de radar performático que me faz perceber e notar o que eu sou sem ter de fato sido mas ainda por restar, mas quando estou sendo isso me dói, isso me dói sobremaneira nas articulações

 

[…]

 

isso me dói também no próprio estase de me encontrar completamente extática sobre o sofá, o sofá me dói um pouco, posso dizer que o sofá também me dói um pouco, posso dizer assim e só, no entanto, há um problema, há um problema maior que me demanda no sofá, pois o sofá é o lugar em que eu posso não estar, em que eu posso escapar, num pequeno buraco da parede, para o lado de lá do real, plainando num vaporoso continente de espera em vias de balbuciar um algo ainda

 

[…]

 

mas confesso, a simplicidade da cadeira me faz navegar no naufrágio de não saber me manter sentada, só deitada, amarrada ao mastro o canto da sereia me fascina de morbidez adolescente, por isso serei sempre a criança perdida no mercado sem mão que lhe conduza os sentidos, uma tautológica menina numa extensa sessão de enlatados, circulando entre gôndolas num repetitivo pendular desde o medo sufocante, perdi muito, perdi o que não deveria ter perdido, o que não poderia, perdi o fundamento do perder, mas algo se passa sem que eu saiba, um anonimato de rosto escondido, um deixar-se descer até ao fundo sem roteiro de mapa no retorno, como um mergulhador das superfícies estriadas, um rasgo no tecido do lembrar, uma farpa de memória a sustentar meu imenso edifício de lamentos, tenho vocação para carpideira, conheço a marcenaria da lágrima desde o abaulado da gota, esculpo as paredes do choro no burilar que me faz faiscar, como um enxame de vaga-lumes noturnos, o cobre da minha desesperança

 

[…]

 

mas há um algo, há aquilo que se passa e que chamo de dor porque a criatividade de nominalista sempre me fez tamanha falta, denomino dor o momento exato em que ela se interrompe, o clima de alívio é sintetizado nesse hesitar cinzento de que logo volte, de que logo as ruínas se ergam nos confins de um pouco de lama presa na sola, de que minha banalidade não atravesse o odor de café no insólito da manhã vindoura, aí eu me preocupo, me inicio na escuta do que em mim há de estanque, o que há de destituído em ídolos a não ser no vazio do templo, sou a barragem de mim mesma, o empecilho sem caminho sedimentado, a imobilidade na pedagogia das pedras

 

Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética Contemporânea, Teoria Literária e História da Arte. 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Tiago Chaves

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

NO ASFALTO

 

Esse sol na minha cara que queima, que se eu pudesse saía daqui e ia pra sombra esperar. Ai, que eu me mexo e dói, e então é melhor ficar parado, esperando. E olhando assim pro céu vejo agora esses prédios que sobem pela avenida. Que na verdade os prédios estão subindo agora em todos os lugares e todos os espaços, mas é que eu nunca tinha reparado assim, olhando pra cima. Estou sempre olhando pra baixo. E agora aqui parado eu vejo esse tanto de janela que sobe, sobe, e que em cada janela dessas deve ter uma família morando. Será que é uma família feliz?

Ai, que de vez em quando vem uma pontada de dor! Mesmo eu tentando ficar parado, mesmo eu estando calado. Uma dor me futucando. Quando eu respiro fundo acaba incomodando. Vou respirando devagar.

As pessoas ao meu redor vão falando que é pra eu ficar calmo, que vai dá tudo certo. Todos falando, cochichando, com cara de pena pra mim, com celular me filmando. Quantos celulares apontados pra mim. Ai, que dor! Será que vou passar na televisão? Uma moça segura a minha mão, diz que a ambulância já vem.

Eu juro que olhando assim, bem rápido, esse monte de gente perto de mim, bem que parece uma festa, todo mundo conversando, rindo, contando piada, comendo e bebendo, e todos eles me olhando e querendo falar comigo ao mesmo tempo. Eu nunca tive uma festa assim com tanta gente. Se eu fechar os olhos consigo escutar a música.

Tá que dói. Fica difícil de respirar a cada tempinho que passa. Me dá vontade dormir um pouquinho. Estou ficando cansado, mas não pelo tiro que tomei, não pela hora que estou aqui deitado esperando socorro. Estou cansado de muito tempo, desde que tenho que ajudar mainha a comprar comida pra casa, desde que tenho de acordar de madrugada pra trabalhar, desde que tenho que pegar serviço no fim de semana, desde que tomo esculacho de minha mãe, desde que tomo esculacho dos namorados de minha mãe, desde que tomo esculacho do meu chefe, desde que tomo esculacho do cliente playboy, desde que tomo esculacho da polícia. Estou esperando socorro de muito tempo, bem de antes de eu tomar esse tiro, e só agora uma moça segura minha mão e diz que vou ter ajuda. É preciso sangrar pra chamar a atenção de alguém.

Respiro cada vez menos. Respiro cada vez mais forte. Ai, que dor!

Daqui deitado eu vejo os pés das pessoas. Pés tão diferentes uns dos outros. Pé de povo. De tantas maneiras calçados, mas vejo também uns pés descalços, uns pés machucados. Dá pra ver que alguns são de meninos, daqueles pés pequenos que correm com força, pisando direto no chão.  Uns pés agitados.

Daqui deitado eu vejo o chão, as pedras e as sujeiras. Já não consigo olhar pra cima, de tão cansado, de tanta dor. Aqui também tem muita história. Olha pra isso! Tem a calçada, a rua, os carros passando, as lojas abertas. Tenho vontade de mostrar isso tudo que estou vendo agora, só agora em minha vida. As lojas vendem roupas, vendem coisas de casa, vendem livros. Vejo também sangue no chão, que já é muito. Um vermelho manchando o asfalto, uma lama. Uma onda que invade, avança e as pessoas vão se afastando. Ninguém quer se sujar. Eu sou uma ilha. Pedaço de terra cercada por mar.

Ai, já não sinto tanta dor. Apenas uma vontade de dormir.

A moça ainda segura minha mão, ainda diz que a ambulância vai chegar. Tem outras pessoas também e elas falam coisas. Já não consigo entender o que elas dizem. Só vou me lembrando do momento que eu estava parado, olhando na loja uma cuscuzeira pra comprar. Gosto de comer cuscuz de manhã. Estava saindo da loja e ouvi um estouro de bala, as pessoas correndo desesperadas. Senti um ardido forte nas costas e vi homens correndo com armas nas mãos. Foi uma bala perdida que me encontrou. Sou um corpo caído e vi um dos homens com arma na mão ficar parado me olhando, parecendo que vem falar comigo, com cara de preocupado. Mas o homem foge, correndo pela avenida.

Olho bem pra moça, que ainda segura minha mão. Não consigo mais entender o que ela diz. Queria dizer pra ela que ela é bem bonita. A gente podia se casar e ela ia fazer cuscuz pra mim todos os dias de manhã. Não sai mais voz.

Não sinto mais dor. Estou com um pouco de medo. Estou cansado. Aperto a mão da moça.

Vou tentar falar com ela que não consigo mais deixar os olhos abertos. Vou descansar um pouco. Queria pedir a ela pra avisar a mainha que vai ficar tudo bem. Que a ambulância vai chegar e eu vou pro hospital.

Acho que não consigo esperar mais, desculpa.

 

 

Tiago Chaves é formado pela Universidade Católica do Salvador em Letras Vernáculas e Literatura da Língua Portuguesa. Ministrou aulas de gramática e literatura em escolas públicas e particulares. Ingressou no Grupo Teatral Oco Teatro Laboratório em 2007 e fez curso extensão de Análise de Espetáculos Teatrais pela UFBA. Apresentou e ministrou oficinas de teatro em alguns países e, também, em diversos estados do Brasil. Trabalhou como assistente de produção no Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia de 2008 a 2011. 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Berg Morazzi

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Três

 

Era aniversário de um ano de casamento. Meu segundo casamento. Decidimos fazer um pequeno jantar para comemorar, convidamos alguns amigos. Eu não conhecia todos os amigos de Marina, acho que ela já conhecia todos os meus, pois não eram muitos.

Fui ao supermercado em busca de um bom vinho, pensei em levar um argentino, mas isso me remetia à minha antiga esposa. Acabei levando um italiano. Comprei mais umas azeitonas e amendoins, a maior parte dos convidados tornou-se adeptos do veganismo. Os que não fossem veganos teriam que comer nossas comidas. A regra da casa era “sem crueldade animal”.

Na fila que eu peguei havia uma velha na frente. Sempre as velhas. Ela tinha o carrinho mais cheio que a conta bancária de Bill Gates. Logo atrás de mim uma mulher linda, cabelos pretos, ondulados, pouco menos de um metro e setenta. Levava apenas uma garrafa de vinho, um vinho chileno que eu adorava.

– Ótima escolha. – apontei para a garrafa.

Ela estava meio distraída. Quando processou o que eu disse, respondeu:

– Ah, sim! Adoro esse vinho. Na verdade, adoro os vinhos chilenos, têm bons preços e o sabor raramente deixa a desejar.

– Concordo.

Ela tinha algo além da beleza óbvia, seduzia com seu jeito de andar ou falar. Tinha um tipo de magnetismo que não me deixava desviar o olhar.

A velha passou as compras e deixei a mulher passar na minha frente, fui gentil, acho que todo mundo deveria ser. Nem sempre fui legal assim, mas a vida ensina que devemos ser menos cuzões e fazer algo de bom, ainda que pareça pequeno.

Num piscar de olhos a atendente passou o vinho dela, que por sua vez pagou na mesma rapidez, com dinheiro trocado, também dispensando o uso de sacola plástica. Despediu-se de mim, agradecendo a gentileza. Desceu para o estacionamento.

Paguei minhas compras, também desci para o estacionamento. Coloquei as compras no banco do carona, pois não levaria ninguém. Quando arranquei com o carro, fui fechado por um SUV prata. Abaixei a janela, pronto para ser rude e começar a gritar feito um imbecil, mas lembrei do que vinha me dizendo mentalmente: “vamos tentar ser menos bosta”.

Umas madeixas pretas e onduladas saíram da janela do motorista do carro à frente:

– Desculpe!

Não tive outra reação, a não ser gritar:

– Tudo bem!

Coloquei o carro na garagem. Antes de subir, fumei um cigarro. Marina não gostava do cheiro de cigarro, dizia que lembrava seu pai, e ela o odiava. Eu até a entendia e fazia o possível, menos parar de fumar.

Terminei, coloquei uma bala de hortelã da boca, subi. Quando cheguei no penúltimo degrau, lembrei que as coisas ficaram no carro. Voltei para buscá-las.

Alguns convidados já estavam lá. Meu melhor amigo, André, com sua nova noiva. Acho que era a terceira ou quarta. Eu o entendia, relacionamentos são difíceis. Tinha chegado também um amigo escroto de Marina. Era do TI do trabalho dela, cantava nos bares da cidade nos fins de semana, achava que seria o próximo Tim Maia. Eu odiava aquele cara, ele quase acabou com meu casamento uma vez.

Cumprimentei meu amigo e sua noiva com um caloroso abraço, ele sempre teve bom gosto para as garotas, eram lindas e gentis. Não fui tão cortês com o outro, apenas acenei com a cabeça, de longe.

Levei as compras até a cozinha, Marina me seguiu.

– Você pode tentar ser menos babaca? – ela veio se aproximando de mim com raiva.

– Não com ele.

Para quebrar o gelo, dei-lhe uma flor, que estava meio amassada por estar na sacola, abracei e beijei-a.

– Você é um babaca, mas é o meu babaca.

– Estou sendo menos babaca ultimamente, mas não menos seu.

Preparei alguns petiscos, enquanto isso os outros convidados chegavam. Minha surpresa foi tanta que quase deixei cair a bandeja no chão. A mulher do supermercado sentada dentro de minha casa.

Ela se levantou ao me ver, sem esconder a surpresa.

– Vocês se conhecem?

– Não. – minha resposta.

– Sim. – resposta dela, que logo emendou. – Ele me deixou passar na frente da fila do supermercado.

– Sinal que as sessões de terapia estão funcionando. – Marina ironizou.

Cheguei perto do ouvido dela:

– Não precisa falar dos meus problemas para os outros.

Sem censura, ela escandalizou:

– Daniela não se encaixa na categoria de “os outros”. É minha melhor amiga, dividimos apartamento na época da faculdade. Ela só não veio ao nosso casamento porque estava morando em Chicago. Chegou há uma semana.

Senti tanta vergonha que deu vontade de enfiar a cabeça no chão, como um avestruz. A moça esticou a garrafa de vinho para mim.

– Muito prazer, Daniela Portillo.

Peguei a garrafa, sorrindo timidamente.

– Hugo Saavedra.

Jantamos, bebemos, conversamos, rimos, todos nós. Até ignorei o olhar estranho do babaca do TI e aquela sudorese nojenta nas axilas. Daniela era discreta, mas quando queria, tomava a atenção de todos. Tinha boas ideias, boas histórias. Bom decote também, que eu lutava para não ficar encarando.

Pouco a pouco os convidados iam saindo. Em questão de menos de uma hora, não havia mais nenhum. Eu e minha esposa levávamos as coisas para a cozinha.

– O que você achou, meu amor? – perguntei à Marina.

– Adorei, foi tudo incrível. A noiva do André é linda e muito simpática…

– É mesmo, ele tem bom gosto.

– Já a Karen, meu Deus! Quem é aquele peixe morto que ela foi arrumar? Ele deveria deixar a barba crescer, assim não ia parecer ter acabado de sair do ensino fundamental.

– Verdade.

– Ela engordou também, nem devem estar transando.

Ri alto.

– Duvido! Ela é ninfomaníaca.

– Como você sabe disso?

– André…

– Eles já?

– Várias vezes. Uma vez teve até participação da garota que dividia apartamento com ela.

Marina colocou a mão no rosto, tocando a orelha esquerda com as pontas dos dedos, como sempre fazia quando estava surpresa.

– Ela nunca me disse isso.

– Você tem o jeito muito fechado, sua cabeça é muito fechada.

Vi seu rosto enrubescer, eu conhecia bem aquela mulher, sabia que ela não estava brava, mas tímida. O problema é que quando ficava tímida, aumentava o tom de voz, num tom quase que de briga.

– De onde você tirou que eu tenho a cabeça fechada?

– Você faria um ménage?

– Nunca pensei sobre isso.

Ela me conhecia o suficiente para saber que se passava sacanagem na minha cabeça, quando eu abaixava a cabeça e dava um sorriso de lado.

– Você já, não é mesmo?

– Ah… sabe… eu acho que seria uma coisa legal de experimentar.

– Não sei.

Sua voz titubeou, havia uma brecha. Eu tinha que tentar.

– Já que você confia tanto na Daniela… Seria legal. Queria dizer, ela parece ser legal.

– Acho que ela não é do tipo que faria isso.

É sim! – gritei em pensamento.

– Só tem um jeito de saber.

– Qual é?

– Fazendo o convite a ela.

Era minha última jogada, não sabia o que vinha depois, podia ser o xeque mate. Ela me olhou nos olhos, ficou alguns segundos assim, então respondeu:

– Tudo bem, vou falar. Agora vamos acabar de arrumar essas coisas aqui, a noite ainda não acabou para nós.

Transamos a noite toda, foi incrível. Alguns meses depois estávamos divorciados. Nunca mais vi ela ou Daniela. Não tivemos um ménage a trois. Talvez no meu terceiro casamento.

 

Berg Morazzi, nascido em 17 de maio de 1992, em uma pequena cidade de Minas Gerais. É escritor, roteirista, audiodescritor e ativista vegano. Autor dos livros “Sobre a lucidez e outras farsas”, “Obsolescência Cotidiana”, “Isso nunca foi sobre o amor”, “Enquanto a cidade dorme”, “As flores morrem o ano todo” e “A um passo do precipício”. Traz em sua prosa uma mistura exótica de Paulo Coelho, Gabriel Garcia Marques e Charles Bukowski. Mostrando o doce e o amargo da vida cotidiana, criando personagens profundos e histórias reflexivas.

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Giovana Damaceno

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Cama e mesa

 

A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma existência. Firmino Neves morrera há nove meses; Dalmira agora já não frequentava o casarão do dono “daquelas terra tudo”, inclusive do pequeno povoado de Encruzilhada do Cipó. Mudara-se em definitivo para sua casa.

Chegou menina-moça na fazenda para trabalhar e, ainda que sem corpo de mulher pronta, deixava rastros de suspiros por onde transitava. Diziam que era feita de café com leite e açúcar queimadinho, devido ao tom da pele, e provocava lambidas de beiços na homarada, sem dar confiança para ninguém. Porém, o patrão Firmino Neves foi o único a provar o sabor de café com leite tão cobiçado em Encruzilhada do Cipó. Não apenas a tez morena, mas o balançar dos quadris e a voz de criança faceira que cantarolava pelos corredores nas tarefas diárias faziam o poderoso fazendeiro tremer de vontades. Firmino Neves se considerava dono dos empregados e logo determinou para si que Dalmira era sua pertença, sem se importar em quando lhe colocaria as mãos; seria apenas questão de tempo. Aguardou a potra arisca se acalmar sem pressa, para aprimorar a doma na cama; logo ficaria doce e fácil.

Assim, Dalmira se tornou mais uma entre as mancebas de Firmino Neves. Ganhou uma casa sua e passou a receber cinquenta dinheiros por dia para servir a seu senhor em meio aos lençóis e nos afazeres domésticos. Fora comprada e “bem-paga”, do mesmo modo que as outras, mantidas em cada sede. Dalmira cuidava pessoalmente da comida, das roupas, das botas, do quarto, dos banhos. Era presenteada com vestidos, brincos, pulseiras, colares, fitas de cabelo, teve a casa mobiliada e até um aparelho de som, no qual colocava suas músicas preferidas para tocar e rodopiava pela sala, quando Firmino Neves não estava ou não a chamava. Não levantava os olhos, respondia às ordens com ações, quase não falava. Como a ninfa Eco, condenada à maldição de apenas repetir a voz de Narciso, objeto de sua cupidez, alienava-se e enfurnava seus próprios desejos. Estava sempre pronta, arrumada e perfumada, pois Firmino Neves cismava de querer seus préstimos a qualquer hora.

Não teve criança; fora obrigada a entregar menino nascido ou a botar fora a cria, logo que lhe atrasavam as regras. Nunca saiu da fazenda, não conheceu parente. Nasceu criada, encarou a lida em troca de morar e comer, tornou-se amante de Firmino Neves e nada soube de si.

— Conheço ninguém, não, senhora, a não ser os daqui. Fico sozinha neste fim de mundo até morrer.

Sem pressa e em detalhes, Dalmira discorria acerca de seus dias ao lado de Firmino Neves a uma jornalista lívida. A matéria, pensada minuciosamente, contaria as experiências de mulheres do interior do país, que atravessaram a vida sob o jugo de seus coronéis, servindo-lhes a própria carne. A exemplo das amasiadas de Firmino Neves, muitas poderiam existir pelos cantões do país, e a revista seguia atrás dessas histórias.

A personagem escolhida para a primeira reportagem da série “Cama e Mesa” envelhecia rápido e prematuramente, contudo se conservava jovem no gosto de se mostrar enfeitada, de sombra nos olhos, vestido florido de saia rodada. A repórter acreditava que a trajetória de Dalmira seria perfeita para sua pauta – saturada de dor e tormento, coagida pela dominação, pelo poder, pelo dinheiro, pelo descaso de uma sociedade conivente com a submissão e subserviência femininas. Alheou-se à entrevista, imaginando Dalmira infeliz, dias e noites em claro, o anseio por ir embora, sumir dali, abandonar Firmino Neves para ser livre, ao lado de alguém que a honrasse e construísse com ela uma família em uma relação de amor.

— Saudade? – a repórter se deu conta de que escapulira em devaneios – o que disse?

— Que sinto saudades de Firmino Neves, sinto falta do meu homem.

— E o seu sofrimento nesse tempo todo? – perguntou a repórter, confusa.

— Que sofrimento? A vida não me deu nada, não, dona; Firmino Neves foi quem me deu tudo. Amei quieta, servi com gosto, recebi em troca mais do que esperei. Felicidade era ter Firmino Neves. Agora que foi embora, resta esperar minha vez e ir no encalço dele.

 

 

 

***

 

 

 

Pé de não sei quê

 

E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.

Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.

Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.

O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por simples favor. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.

Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes – eu, ele e eles – por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.

Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.

Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.

Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.

Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.

 

 

 

***

 

 

 

Desenlace de Família

 

Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.

Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes de lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.

E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”.

Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.

Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.

Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.

 

Giovana Damaceno é jornalista e escritora. Autora dos livros: “Mania de escrever” (2010), “Depois da chuva, o recomeço” (2012) e “Do lado esquerdo do peito” (2013). Membro da Academia Volta-redondense de Letras e integrante do Coletivo Feminista Literário Mulherio das Letras.