Alguns dizem que ele a matou e a jogou, com carro e tudo, num dos brejos lá da serra, um daqueles que ninguém sabe direito como chegar. E, acredite, tem uma porção de brejos assim por lá. Mas a maioria acha que tudo realmente aconteceu: que eles foram levados para algum tipo de experiência e que, por algum motivo indecifrável, só ele voltou. Eu mesmo não sei dizer o que é verdade. Cada um tem a sua opinião e a depender do jeito que falam, acabo acreditando em quase tudo.
A história que todos conhecem é que eles tinham saído para jantar. Era uma quinta-feira como outra qualquer, sem nenhuma data comemorativa ou algo assim. Alguém lembrou depois que eles quase nunca saíam juntos, mas há muitas coincidências na vida e essa pode ter sido apenas mais uma. De qualquer modo, foram até uma pizzaria, aquela que fica na esquina do cinema, e se sentaram em uma das mesas da varanda. Ele deixou Norma escolher o tamanho, família, e os sabores, e ela pediu metade de calabresa e a outra metade de manjericão roxo. Comeram sem conversar, como muitos outros casais, cada um sentado em um lado da mesa. Ela bebeu refrigerante e ele, uma lata de cerveja. A garçonete disse que Norma perguntou se era possível embrulhar os dois pedaços que haviam sobrado e que ele, ao descer o batente da pizzaria, disse:
– Cuidado, querida, para não tropeçar.
Entraram no carro e partiram. E, depois disso, tudo o que a gente sabe foi o que ele contou.
Ele disse que seguiram pela estrada que leva aos brejos. Era o caminho mais longo, mas ela gostava de ir por ali. Escutavam música francesa: Allan Barriere e Charles Aznavour. Conversavam sobre o desabamento de um prédio que tinham visto na tv. Tudo ia bem, quando, depois de passar pelas velhas fábricas, ao entrar à direita para pegar a grande reta que os levaria para casa, o carro de um segundo para o outro parou – não havia desligado, assim como não parecia haver qualquer problema mecânico. Apenas deixou de ir para a frente, de seguir a linha que vinha seguindo. E o mais estranho daquilo era que, mesmo acelerando e quase afundando o pé no assoalho do carro, continuavam sem sair do lugar. Era como se um enorme ímã os segurasse. E então, abruptamente, o carro ficou suspenso no ar e começou a se afastar do chão. Ele disse que não demorou a deduzir que estavam sendo abduzidos por alguma nave espacial, pois era a única coisa que poderia estar acontecendo. E ela, a nave, era enorme e muito clara, tão clara a ponto de quase cegá-lo, por isso teve que fechar os seus olhos. E apagou. Quando despertou, horas ou dias depois, se deparou com aquelas duas criaturas curvadas sobre si. Eram bem diferentes das que vira em qualquer filme sobre aliens, pois tinham o corpo gelatinoso e andavam sem esforço algum, como se flutuassem a dois palmos do chão. Curiosamente, ao invés de lhe causarem medo ou asco, lhe davam uma surpreendente sensação de paz e segurança. Elas o colocaram numa espécie de redoma de vidro, que chacoalhou por algum tempo e depois parou. Nesse tempo, ele acabou apagando mais uma vez.
Na manhã seguinte, encontrava-se completamente nu, deitado sobre o asfalto, quando um cachorro veio e lhe lambeu o rosto. Não havia nenhum sinal do carro, muito menos de Norma. E ele, sem ter mais o que fazer, simplesmente se levantou e correu para casa, de onde ligou imediatamente para a polícia.
Tem cinco anos que isso aconteceu. O caso continua em aberto, pois nunca acharam o corpo, mas a bem verdade é que quase todo mundo acreditou na história que ele contou. Às vezes, até eu. Nos finais de semana, quando o tempo está bom, alguns turistas aparecem e vão até a estrada que leva aos brejos, hoje tão movimentada quanto qualquer rua comercial. Procuram por uma queimadura no asfalto ou qualquer coisa que os convença de que tudo de fato aconteceu, e por vezes até encontram algo, e, alvoroçados, começam a falar alto e a sorrir, como se dependesse daquilo atestar que tudo tinha sido mesmo verdade. Em seguida, rumam em caravana até a frente da casa em que o casal morava, onde hoje há uma lojinha na garagem. Em alguns dias, ele aparece, acompanhado da nova esposa, uma loira, quinze anos mais jovem, e tira fotos, conta para todos como foi a louca e maravilhosa experiência que teve a sorte de vivenciar. E aquelas pessoas então o abraçam, lhe pedem autógrafos, e, ao seu modo, o reverenciam, porque, apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver.
Parece que na semana que vem, lá na praça em frente à pizzaria, vão inaugurar uma estátua dele montado em um disco voador.
Rodrigo Melo é prosador e vive em Ilhéus, Sul da Bahia. Publicará, no início de 2020, o romance Riviera.
Parado em cima da ponte Rio-Niterói. A voragem. Um ponto indefinido lá no alto, na ponta de uma reta de metal, betão, piche. Carlos Henrique vacila. A dor dilacera o pensamento. A dor arranca-lhe o coração e o estômago. A dor é uma pesada pedra no peito. A imagem de seu filho perfurado, ensanguentado e morto. Fixada na memória como ferro quente. Queima, arde. A ponte, a água dura e profunda. Ele vacila. O vento passa pela face molhada. Não chove. O sol embaçado de poluição e mormaço. O calor derrete. Os olhos chovem. A injustiça abissal. O indestrutível Golias. O sofrimento maior. O peso do mar imóvel. E de novo a imagem do filho perfurado.
Furo, disparo. Tudo o perfura, atravessa o corpo, estraçalha a alma. Dói a realidade dentro dele. Na sua mente perfurada de chumbo. Tiros que o acertam e destroem a vontade de viver.
Esquecer é um bálsamo. Mas a memória dispara a imagem centenas de vezes. E tudo à volta o acerta, fura-lhe os olhos, a boca, o ouvido. Fura o pescoço. O sangue escorre e flui pelos olhos, pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, pelos furos nas veias…
Cento e onze.
No meio de um dia qualquer de novembro, o raio de sol refletia na janela. Nina lia o jornal, sentada no sofá da sala, no apartamento no Rio de Janeiro. Não gostava de ler jornais, raramente abria as páginas de um. Mas comprava de vez em quando no jornaleiro. Ele vendia exemplares do seu livro.
Ao ler os jornais parecia que tudo se tornava um problema. Desde que o povo acordou para a democracia era uma manifestação atrás da outra. Era cansativo! Ela se perguntava quando isso teria um fim e ela podia viver em paz sem as vicissitudes políticas e econômicas, sem ter que responder sobre sua opinião política nos eventos de literatura. Para ela, literatura não tinha nada a ver com política.
Lendo o jornal, os assassinatos a incomodavam. O artigo dizia que mais de sessenta mil pessoas morrem assassinadas em solo brasileiro, por ano. Quarenta e cinco mil, em acidentes automobilísticos. E mais adiante: Cento e onze tiros de pistola e fuzil contra o carro no qual estavam os jovens. Neste ano, são mais de onze mil, quinhentos e sessenta disparos pelos policiais do Batalhão de Irajá. Os policiais de São Gonçalo deram quinze mil setecentos e sete tiros. Somando com os do Batalhão de Niterói e do Bope chegam a quarenta e dois mil e quatrocentos e oitenta e sete mil disparos em um ano, e ainda faltava o mês de dezembro. A foto dos jovens Roberto de Souza Penha, dezesseis anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, dezesseis anos, Cleiton Correa de Souza, dezoito anos, Wilton Esteves Domingos Junior, de vinte anos, e Wesley Castro Rodrigues, vinte e cinco anos, horas antes do fuzilamento, mostrava a cara alegre e inocente de jovens afro-brasileiros.
Os ruídos dos disparos ecoavam. Muitas balas perfuraram o tronco, muitas balas entraram por cima, por trás e pelo lado direito do carro. O policial que mais atirou deu onze disparos com uma pistola Taurus e dezoito com um fuzil imbel M-964 FAL.“É um vazio no coração um pai sepultar um filho assim. Você nunca supera essa dor”.
Ela passou na casa de seu editor, no condomínio CXI, na Av. Costa Barros. Um homossexual com cara de Oscar Wilde e gestos de Woody Allen. Ele, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, propôs: — Escreva sobre isso, então! Se está te incomodando tanto! Há meses que ele parou de fumar e engordou. Mas começou a fazer uma dieta rigorosa com o auxílio de uma jovem nutricionista. E fez um tratamento de branqueamento dos dentes. Sorria um sorriso imaculado. A editora é pequena e o número de leitores restrito, mas ele consegue financiamento de algumas empresas conhecidas do marido dela.
Nina sem inspiração. Não era ruim porque tudo o que ela escrevia seria publicado. O marido possuía amigos influentes que possuíam amigos influentes, e o irmão dela era jornalista. Seu círculo de leitores eram a maioria mulheres e ela vendia bastantes exemplares nas reuniões das instituições de caridades, promovidas pelas empresas dos conhecidos de seu marido. As boas resenhas nos jornais eram por conta dos amigos de seu irmão.
Cento e onze. Wesley Castro deixou um filho de dois anos. Wilton ia se formar como técnico em administração. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Roberto era Jovem Aprendiz no Atacadão de Guadalupe. “Primeiro emprego. Estava rindo à toa, estava bem com a vida. O primeiro salário que recebeu foi brincar no Parque Madureira com os colegas dele”.
Antes de voltar para casa, Nina passou no supermercado e fez a compra da semana. E cinco ramos de copos-de-leite brancos. Quando seu marido chegasse a janta estaria pronta. Ele reclamava que ela perdia tempo escrevendo ou lendo, mas quando alguém nasceu para escrever, ele somente poderá ser impedido se de alguma forma for morto. Como ela não se deixava matar, ela escrevia ainda mais. Seus três filhos quase a assassinaram, mas a empregada salvou-lhe a vida. Sem a Val ela jamais seria o que é agora, uma escritora mediana, casada com o superintendente de uma grande empresa, com três filhos homens adolescentes e o sobrinho que veio morar com eles depois da morte dos pais, em um acidente de automóvel.
O PM botou o fuzil na cara de Márcia Ferreira, mãe de Wilton. “Ninguém se aproxima do carro”, berrou. A mãe viu o seu filho e o amigo Carlos ainda vivos, gemendo. A mãe foi ameaçada por policiais, ela viu quando um deles colocou uma arma no chão, ao lado do carro, e tirou a chave do contato, jogou-a no porta-malas do veículo. “Minha cunhada queria ver o filho dentro daquele carro, mas o PM botou o fuzil na cara dela e disse que ia atirar em quem se aproximasse do carro. Quando chegamos deu para ver que o Wilton e o Carlos agonizavam e ainda estavam vivos. Pedimos para socorrer, mas eles não deixaram”.
Cento e onze pássaros alçaram voo. O bando estava pousado na árvore e no muro do grande jardim. Cinco ninhos nos galhos das árvores. A tarde caía. Nina sentou-se à mesa e não conseguia começar. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa. Roberto tinha recebido seu primeiro salário como auxiliar de supermercado e os cinco amigos foram comemorar. Moravam no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, onde os jovens negros morrem ou nas mãos dos bandidos ou da polícia, um bairro distante de onde Nina mora. Era como se fosse em outro país, em outro continente. Precisar conviver com a incerteza se o filho será vitima ou algoz. Era como uma guerra civil, um genocídio camuflado de perseguição e execução de criminosos. Horas antes a polícia tinha recebido um aviso sobre um roubo na redondeza e os suspeitos estavam dentro de um carro e uma moto. Na Curva Vinte e Um apareceu um carro e uma moto e isso foi o suficiente para a polícia atirar. Despreparo. Salário baixo. Risco de vida. Psicopatas. Psicologia. Despreparo.
Um dos países onde mais se mata.
Nina tinha medo de ir àquela região da cidade, mas buscava escrever uma história autêntica e para isso queria conhecer as famílias, as mães, pelo menos uma, precisava conversar com ela, saber sobre a vida dos rapazes. Soube, por meio de outro artigo de jornal, que o pai de Roberto foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e não consegue esquecer a imagem do carro perfurado com o filho dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. Soube que o alarme de Roberto toca regularmente às 6h30. O pai não sabe mexer no computador do filho para desativá-lo, e ouve o alarme tocar de segunda a sexta. O filho, de dezessete anos, nunca mais acordou para ir à escola.
O alarme tocou, seis e meia da manhã. Nina levantou-se e foi ao quarto acordar os meninos. Cinco luzes acesas. Eles tinham que ir à escola. O mais velho era o que mais lhe dava trabalho e era o último a se levantar. O sobrinho era o primeiro a se levantar. Eles não tomavam o café da manhã, se arrumavam e logo saíam.
— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele muito sensível!
Dois iam a pé, caminhavam pelas ruas do bairro até chegar à escola, atrás de uma praça arborizada. O sobrinho e o de dezesseis anos pegavam o ônibus especial da escola particular que passava na rua de cima.
Cento e onze. Gritos. Eram amigos de infância. Cinco amigos. No selfie, um deles sorri metálico com o aparelho corrigindo a felicidade. Cinco vidas. Josita, mãe de Roberto, morre três anos mais tarde, sem forças, anêmica, aos quarenta e quatro anos. Wilkerson, quinze anos, irmão de Wilton, que estava em uma moto com um amigo e conseguiu fugir dos disparos, morre de aneurisma cerebral, um ano depois.
Nina falou com a Val, que morava no bairro vizinho, sobre a possibilidade de vir a conversar com alguém da família.
— Você enlouqueceu? Foi a pronta resposta de Val. Eu não conheço ninguém daquele bairro. Não piso os pés lá.
— Mas você não poderia ver se alguém conhece uma daquelas mães?
— De jeito nenhum! E como você vai até lá? Nem táxi circula naquela região.
— Mas as pessoas vivem lá. Há muitos que vivem lá e não são todos criminosos. São a maioria gente como nós. Não são? Como eu e você que batalhamos na vida!
Uma série de argumentações passou pela mente de Val. Ela não era como a patroa. E respondeu apenas, “eu não posso lhe ajudar. Pergunte ao seu irmão, ele é jornalista!”.
De repente, a chuva.
— Val, tira a roupa do varal. Está começando a chover! Val correu para o quintal. Mas, não demorou muito, a chuva parou. Cento e onze gotas de chuva na poça no quintal.
“Não atira! Somos moradores!” O braço para fora do carro em sinal de aviso. “Não atira! Somos moradores!”
O maxilar solto por causa da potência das balas, pendurado
Cento e onze.
O advogado pediu ao Tribunal de Justiça que obrigasse o Estado a custear atendimento psicológico para mãe e filha. Em primeira instância, o pedido foi negado — a juíza considerou que a solicitação só poderia ser atendida após a condenação dos PMs.
Cento e onze.
Nina pensou que a Val sempre a teve nas mãos. Ela era de confiança, rápida no serviço, prática, gostava de crianças e Nina não sabia de onde ela tirava tanta sabedoria sobre o relacionamento entre as pessoas. Há vinte anos que ela trabalhava na família. Com a convivência se afeiçoaram uma a outra. Val era determinada, Nina podia se dar ao luxo de se perder na realidade, o luxo do devaneio.
Adriana, mãe de Carlos Eduardo parou de falar. As palavras estraçalhadas dentro dela, a mudez sufocando. E o grito, a agressividade, os antidepressivos. As tentativas de suicídio. O mar. As ondas para engolir a dor. A dor acorrentando os pés. O caminhar no pântano. Na mão uma carta do filho, presente do Dia das Mães: “Escrevo essa carta para te dizer que tenho a melhor mãe do mundo, não porque seja a minha, e sim porque, se buscasse no mundo inteiro, não vou encontrar outra igual, nem parecida”. Monica Aparecida Santana Corrêa, mãe de Cleiton, vive à base de antidepressivos e medo de sair de casa.
O marido chegou do trabalho. Nina preparou a janta que Val cozinhou. No prato, cento e onze grãos. O filho mais velho fez dezoito anos, no mês anterior, e ganhou um Audi A3 sedã branco de presente. Desde então ele não respeitava mais o horário da janta. Nina o orientou a não sair do bairro, não dirigir o carro por aí, longe. Aquele bairro era seguro, os dois bairros vizinhos também, mas ao se afastar para a zona norte, poderia acontecer roubo ou rapto. Nina se preocupava. Quatro jovens em casa, quatro filhos lhe davam trabalho. Nervoso. Paciência. Paciência. Nervoso. O de dezesseis anos costumava deitar a cabeça em seu colo, no sofá da sala, vendo televisão. Ele tinha crescido. Desta vez, Nina deitou a cabeça no peito dele. Cento e onze batidas do coração. — Lembro de quando você nasceu, um bebê gorduchinho! Meu fofo!
Cento e onze. Márcia Ferreira de Oliveira, mãe de Wilton: “Que segurança é essa nossa que a gente é patrão deles porque o pagamento é a gente que paga com o nosso suor e a gente paga para eles poderem matar os nossos filhos da forma que o meu filho e os amigos deles de infância foram mortos? Não tinha bandido dentro daquele carro não. Tinha um bando de adolescente querendo se divertir, querendo fazer de um sábado um dia diferente, um dia de alegria, e hoje eu estou aqui, na porta do IML tirando o corpo do meu filho dali. Que UPP é essa? Ele acabou com cinco famílias. O meu filho tinha 18 anos, mas era uma criança. Ele deitou no meu colo e falou ‘mãe me faz um cafuné?’, como se fosse um bebê. E amanhã eu tenho que enterrar o meu filho”.
A mãe saía para trabalhar, Wilton fazia o jantar e cuidava da irmã pequena, de 6 anos. De vez em quando, ela o chamava de “pai”.
Um ano depois, Nina sentou-se à mesa e não conseguia escrever. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa.
No apartamento de seu editor, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, ele propôs: — Escreva então sobre os refugiados! Faça uma viagem pela Europa e escreva sobre os refugiados. Este é um tema que está em voga atualmente, e é um tema internacional. Seus avós eram húngaros, seu marido é descendente de italianos. Conte a história de sua família! Seus avós fugiram, na época da guerra, eram judeus, não eram? Escreva sobre isso! Para ser sincero, eu sabia que você não conseguiria escrever sobre estas mortes. Elas acontecem demais! Fazem parte do cotidiano brasileiro. Nós, brasileiros, lemos isso nos jornais o tempo todo! Esses jovens não são os primeiros e não serão os últimos e a maioria da população não se importa. Este é um tema muito vinculado à vida na favela e as favelas não são o Brasil. Favela é favela! Isso não é um tema internacional e você não conseguiria vender os livros nas instituições importantes. Eles não gostam destes temas polêmicos! E poderíamos ter problemas com a polícia e com o financiamento para a publicação. Eu somente sugeri para você pensar e se ocupar um pouco. Você mesmo veria que não é pra você, e foi o que aconteceu. Escreva sobre os refugiados na Europa, sobre a ditadura e a imigração brasileira! A matança nas favelas é horrível, mas a maioria não consegue se identificar com isso e não quer saber de violência, droga, crime, policiais despreparados, corruptos, sanguinários ou bandidos cruéis ou jovens inocentes. Já chega os filmes norte-americanos! É um tema muito pesado! É um tema masculino! Você não é Paulo Lins ou Drauzio Varella! Escreva sobre a ditadura! O tio-avô de seu marido não esteve preso? Você me falou disso certa vez. Uma namorada dele sumiu. Ela era professora na universidade e foi depor, depois disso nunca mais foi encontrada. Vamos pensar em um livro que possa lhe trazer prêmios internacionais!
Uma centena, uma dezena, uma unidade. Um número harshad mais um. Jorge Roberto Lima e Penha, pai de Roberto, trabalhava de montador da Odebrecht e faz faculdade de Direito. “Ele era quase um bebê, e não vai poder nem me ver de beca. Não é por mim, em si, porque tudo que sempre fiz foi pelos meus filhos.”
Cento e onze.
“Quando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma mãe pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que não sou a única no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. Já me falaram até que não tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indenização do estado. O governo não nos deu dinheiro algum, e a verdade é que não quero um centavo. Só quero sair daqui. Preciso salvar meus outros filhos.”
“Às vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o único filho. Só tinha o Wesley!”
Nina partiu para a Europa, passou três semanas. Os rapazes foram junto. Visitaram diversos pontos turísticos e Nina recebeu autorização para visitar um campo de refugiados, na Grécia, mas não quis expor os rapazes àquela realidade deprimente de pessoas presas. Guerra, miséria, pobreza, promessa, ilusão. Ainda mais que o sobrinho terminou o tratamento psicológico há pouco tempo. Dois anos fazendo terapia por causa da morte dos pais. Nina dedicava-lhe, às vezes, especial atenção e pedia para os outros garotos terem paciência com ele, ajudá-lo. Eram bons rapazes, carinhosos, bons filhos. Levou-os para curtir a praia turquesa e mansa. Crepúsculo rosado. Cento e onze estratos transparentes no imenso azul do céu.
— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele sensível!
Ela escreveu um romance sobre uma fotógrafa apaixonada por um refugiado sírio, engenheiro, que consegue falsificar os documentos e acompanhá-la para o Brasil. Menção à ditadura grega e brasileira. Ganhou um prêmio internacional.
Cento e onze disparos atravessaram a lataria branca do automóvel, entraram no corpo macio e quente dos jovens, perfuraram os ossos, transpassaram o tórax, o quadril, o abdômen, o pescoço, estraçalharam o queixo, a cabeça… o sangue gelatinoso e escuro espalhou-se no assento, no chão. Cento e onze balas de ferro, duras e mortais, geladas e inanimadas. No céu o final da tarde. À noite as estrelas caladas. Sem brilho. Assustadas.
“Quem deveria nos proteger está nos matando”.
Cento e onze.
“Cada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. Não consigo parar de pensar nisso. Nenhuma mãe suporta ver um arranhão em seu filho, imagine vê-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque não era mais um corpo que pudesse ser vestido.”
O filho mais velho de Nina, agora com vinte anos, conseguiu o seu primeiro emprego como assistente de auditoria, através da recomendação do pai. O seu curriculum foi o menos atrativo, ele não tinha experiência e estudou em uma faculdade particular. O mais velho nunca foi de estudar, faltou muito nas aulas e pagou amigos estudiosos para escrever os seus trabalhos. Mas no final, tudo deu certo e ele conseguiu o diploma de administrador de empresas. Um mês depois ele recebeu o seu primeiro salário. Estava feliz. Encontrou os irmãos, na quadra de tênis do prédio, e um amigo dele. — Vamos pro restaurante, no shopping?
Naquele início de noite, vento fresco e cheiro adocicado no ar. Alegres, os cinco jovens saíram com o Audi A3 sedã branco e foram comemorar.
Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.
eu passo tanto tempo debaixo do chuveiro que eu já bolei um filme inteiro sobre uma mulher que passa muito tempo embaixo do chuveiro. as crianças vêm e se despedem para a escola, a empregada pergunta o menu do almoço, o marido vem atormentar com as contas, mas o tempo todo ela está ali debaixo do chuveiro, com uma cara de quem já desistiu. o chuveiro é o confessionário dos céticos. eu passo tanto tempo debaixo do chuveiro que eu acordei às 7h30 e de alguma maneira já são 9h55. o chuveiro é um abraço
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o bicho
quando o bicho pega, eu lanço mão das minhas estratégias. eu pinto a unha, pinto o cabelo. às vezes tiro até a cutícula. ouço umas músicas fundamentais, que eu elejo de tempos em tempos. tomo um banho muito quente. faço bolo. faço bolo mais de uma vez. quando o bicho pega eu tento não olhar pra ele. eu varro a casa tantos dias não varrida e reprogramo o ciclo da máquina outra vez. se o bicho pegou muito mesmo, eu lavo o chão da cozinha de fora a fora esfregando cif desengordurante nas paredes. minhas vitórias têm cheiro de cif desengordurante. porque quando o bicho pega eu sei que ou é viver ou é desistir, dormir pra sempre. mães não podem dormir pra sempre, nem filhos. a busca nunca foi, nunca será o caminho da dor. será o do riso, o da carícia, o dos corações que se conectam, se conhecem, se falam. o dos filhos protegidos. e a gente enfrenta um zilhão de coisas todo dia por um pouquinho de amor. o peito não pode doer. nada do que dói é normal. a dor, na poesia e na ciência médica, é pra sinalizar doença. quando o bicho pega, tudo dói. dói minhas costas, dói o pescoço, o ciático, eu nem tenho idade pra saber o que um ciático em crise representa. quando o bicho pega, e eu tenho que decidir viver, e não me deixar ficar doente, ele me pega frágil, na cama, sem fome, não me deixa comer. não me deixa levantar, não me deixa dormir. mas me pega mãe, mulher e resistente. eu lanço mão das minhas estratégias. é hora de vencê-lo, porque quem escolhe viver não entra no caminho da dor. o que dói é doença. quem escolhe viver tem estratégias permanentes pra se fazer funcionar. mesmo as mais bestas. eu tiro os pelos da cara, eu pinto o cabelo. estou em milhares de praças, eu estou toda de preto e vermelho. eu passo batom. eu visto roupa bonita. quando o bicho pega eu sei que é hora de ficar limpa, tomar banho e almoçar e tirar roupa do varal, lavar banheiro. é hora de pensar em ganhar dinheiro e viver de cabeça erguida, pagando limpo. esse bicho me pega e me bota doente, tristinha, magrela. mas eu saio heroína, querendo casa limpa, vida decente, comprar da vitrine sem perguntar preço. se a gente souber dominar e viver com o bicho da gente, a gente vive. a gente sai da merda. eu garanto. eu conheço o meu bicho. ouço o que ele me diz. ele tem razão, a maioria das vezes
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doida varrida
não sei muito bem com qual intuito, mas minha mãe me contava histórias escabrosas da roça, às vezes até mostrando o local do fato trágico – e, muitas vezes, sobrenatural – ocorrido. tinha a história do menino do rio, torturado e escravizado, e da volta morena. tinha a história da noiva na igrejinha e a da criança que morreu afogada no poço porque a mãe não deu mortadela. todas envolvendo morte jovem e trágica, mas a única que me assustava mesmo era a da simpatia da bananeira. nem tinha morte, mas tinha loucura. perder para a morte é menos cruel que perder para a loucura
minha mãe jurava de pés juntos que há muito tempo uma moça muito ingênua e pobre foi convencida por outras moças, um pouco mais cruéis e abastadas, a fazer uma simpatia para arranjar marido. o ritual envolvia cravar uma faca no coração de uma bananeira à meia-noite
e lá foi a menina, esperançosa, na hora determinada, apunhalar a verde amiga que nada fazia da vida além de parir bananas – ao que as outras aparecem gritando, gargalhando sinistramente na mata escura, jogando ovos nela, fazendo sons animalescos, vestindo máscaras terríveis na cara. dizem que a moça, coitada, nem bem aos quinze anos, ficou doida, doida varrida, traumatizada
a moral da história, pelo que eu entendia da minha mãe, é que no fim das contas, se a gente não abre olho, a gente fica doida varrida por causa de homem
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amor pra mim
amor pra mim é parar em qualquer barraquinha de comida e agradar a barriga com qualquer dinheiro. amor pra mim é oferecer o casaco quando o meu eu esqueci. amor pra mim é comprar presente besta só porque saiu o fgts inativo. amor pra mim é suportar parente embriagado e farofeiro. amor pra mim é lembrar que se levar coca diet pode dar morte. amor pra mim é caminhar do mesmo lado na rua e ouvir a minha voz entre outras milhares de outras vozes. amor pra mim é fazer cofrinho junto com moeda de um real. amor pra mim é buscar sempre o mesmo alvo com o mesmo olho. e mais que com o mesmo olho, o mesmo olhar. amor pra mim é não deixar de ser o que era antes, mas deixar de ser também, pra ser melhor. amor pra mim é levantar antes e passar o café, buscar pão. amor pra mim é nem brincar com a ideia, deus me livre, de ver amor chorar. amor pra mim é nem brincar com a ideia da falta, da fome, de não ter em quê acreditar. amor pra mim é passear o cachorro. amor pra mim é lembrar que prefiro queijo prato. amor pra mim é jogar o lixo lá fora. amor pra mim é uma eterna adaptação de dois lados, perfeitamente opostos mas equilibrados. amor pra mim é um mundo onde uma pessoa vai ligar e a outra vai atender. e se uma não ligar, a outra liga. e tudo bem. amor pra mim é uma conversa que não termina mesmo se ninguém ligar. amor pra mim é um lugar de respostas, não de perguntar. amor pra mim é não precisar passar pela terrível espera do desconhecido. amor pra mim é comprar chocolate. é saber ganhar também. amor pra mim é uma barriga quentinha
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pose antipática
eu tive um casal de tios que brigava à beça. ela queria passear com as crianças e comer coisas gostosas, mas ele queria só dormir. não gostava de nada na vida. ela queria exibir as roupas novas e os batons da avon, mas ele nem bem olhava pra ela. não gostava de nada da vida
não gostava do flerte nem das coisas das crianças, não gostava do trabalho que o casamento dá. o tempo todo enfiado no sofá da sala com um ar de quem nem estava ali. vai ver nem estava. era um holograma tradicional brasileiro. várias vezes me assustei de entrar na casa deles e ver ele lá, o espectro de um pai, de um marido, de um homem cansado que não quer nada da vida além de uns tantos maços de derby
separaram, claro, muito bem separadinhos, a separação é o destino inevitável dos homens que não gostam de nada da vida. mas ainda hoje eu lembro que, depois das discussões, eu o flagrei várias vezes deitado no chão, na frente da porta do banheiro, se esgueirando naquele um centímetro e meio de abertura pra ver minha tia pelada tomando banho
ele podia ter a mulher inteira, qualquer hora, se a ouvisse, mas achava melhor perder a mulher que a pose antipática
***
algoritmo
se trombam na rua, do nada
– oi fulane!
– oi cicrane!
– como tão as crianças?
– eu te liguei a semana inteira e só deu caixa postal
– fiquei sem carregador. e bertrane, tudo bem?
– liguei domingo de manhã, domingo de tarde, segunda e ontem
– sei… celular desligado. seu cabelo tá bonito, cortou?
– impossível falar com você, se precisar numa emergência não consegue
– eu não sou muito assim de celular não… e o emprego novo lá, tá curtindo?
– botei crédito só pra ligar pra você
– bom te ver… eu vou andando pra casa, vamo marcar alguma coisa?
– só ontem eu liguei três vezes
***
pote de memórias
doce de leite pastoso. um vício escroto, um vício triste. meto a colher uma, duas, três vezes no pote, absorta. chupo lentamente a colher, fazendo bicos e tudo o mais, de modo que o doce forma um pequeno bolo em cima, um bolo redondo, lambido pelo céu da boca. tem graça assim, comer devagar, sentindo bem o sabor. criança, era obrigada a comer depressa. eram muitas bocas sôfregas em casa
meu vício em doce de leite pastoso me levou a crimes. a assaltar muitas vezes a geladeira da rose, com a colher em punho. e enfiar o produto roubado todo de uma só vez na boca. pobre rose, que morreu dando à luz ao terceiro filho. minha tia levava as sobremesas todas da filó pra gente, um bando de criança esfomeada, eu lembro. comia rápido, pra ninguém tirar o que era meu. eu tenho pressa do gosto. enfio a colher no pote, terceira, quarta vez. doce de leite pastoso é um pote de memórias
ana blue, 32 anos, brasileira, tico-tico no fubá, nascida e domiciliada em nova friburgo, rio de janeiro, brasil, registrada no cpf sob um número de onze dígitos que nem todo mundo, jornalista, cronista e poeta há trocentos anos, mãe de três garotos maravilhosos, declara, para os devidos fins, que qualquer semelhança com a sua vida nesses textos não é mera coincidência, porque sofridos e esperançosos somos todos nós
Um minuto, anuncia o secretário de Imprensa. O operador de câmera confere o visor e calibra o foco. A meia altura do tripé, o plano americano enquadra o tampo amadeirado do que parece ser uma mesa de uso doméstico. No canto inferior esquerdo do vídeo, tem um exemplar da Constituição de 88. No canto inferior direito, um volume da Bíblia Sagrada. Em escala de profundidade, vê-se o recosto chumbo de uma cadeira office e, mais atrás, a bandeira do Brasil presa, com fita crepe, na parede nua.
O presidente, então, entra em cena. A princípio, apenas o recorte do corpo que dá das coxas até meio do abdome. Trinta segundos, acusa a voz do secretário. O presidente acomoda-se. Usa uma camisa social azul turquesa, sem gravata, sobreposta por um blazer azul marinho. O assistente de som lhe prende o microfone na lapela: Alô, alô, testando… Ato contínuo, a maquiadora polvilha base na cara papuda e acerta, com um pente fino, o pega rapaz do penteado montado a gel.
Ok, todo mundo fora de cena! Silêncio agora, pessoal! No centro do vídeo, o presidente assume uma postura ereta e encara fixamente a câmera. O secretário de Imprensa corre para detrás do tripé e informa: Cinco segundos, iniciando uma contagem regressiva com os dedos, que é sucedida por uma voz feminina em OFF, escutada num pequeno monitor ao lado. “Forma-se, neste momento, a rede nacional de rádio e televisão, para o pronunciamento do presidente da República”.
É a deixa. O secretário de Imprensa sinaliza, mas, ao contrário do ensaiado, o presidente não começa a falar. Ainda com a coluna reta, as mãos pousadas sobre a mesa, faz um movimento sutil, porém firme, com a musculatura do pescoço, como se tentasse se livrar de algo preso na garganta.
O tempo passa, está ao vivo para todo território nacional, e o silêncio começa a provocar tensão. O presidente meneia a cabeça, empina o queixo, demonstra agora sinais de incômodo. Ninguém entende o que está acontecendo. Ele está engasgado?…, sussurra o operador de câmera para o assistente de som, que dá de ombros.
O presidente está mais alterado. Pressiona o pomo-de-adão, repete um esgar, perde a compostura. Debruça-se sobre a mesa e, num movimento forçoso semelhante ao da expectoração, contrai os lábios e, de sua boca, sai uma roliça tripa marrom malcheirosa.
Todos, no ambiente, se espantam. Ressoa um abafado de exclamação. O presidente, com os olhos arregalados, encara aquele montinho pastoso à sua frente, olha de volta para a câmera e retrai os músculos da face como se não soubesse o que fazer. Tenta falar outra vez, e um novo arremesso de bolo fecal bate contra o tampo amadeirado da mesa.
Minutos depois, o vídeo tinha viralizado em todo o mundo. Com igualável rapidez, apoiadores se manifestaram nas redes sociais, em blogs e em vídeos no Youtube, alertando de que se tratava de deepfake, uma montagem grosseira, feita por opositores, com o propósito de atacar a imagem do presidente.
Mas não era o caso. Toda a vez que o presidente tentava se expressar, um rolo de fezes era regurgitado inevitavelmente. Falava sobre o meio ambiente, defecava pela boca. Falava sobre a ditadura, defecava pela boca. Falava sobre a diversidade de gênero, defecava pela boca. Falava sobre cultura, defecava com mais ímpeto pela boca.
Em protocolo de emergência, o presidente foi levado para um centro médico, no entanto, depois de uma bateria de exames, proctologistas e otorrinolaringologistas não puderam determinar qual era a causa do fenômeno. Políticos da base, apavorados, davam como certa a renúncia. O estafe partidário se preocupava em blindar a Comunicação do Planalto do assédio da mídia nacional e internacional, ao mesmo tempo que articulava a posse do vice.
O problema era o fogo amigo de alguns aliados políticos que vazavam notícias, alimentando uma série de especulações que pressionavam o porta-voz do Governo a se pronunciar, muito por conta também de uma ansiedade perigosa que começava a ganhar forma nas ruas.
Dois dias depois, o vídeo tinha alcançado a marca histórica de dois bilhões de visualizações, e parlamentares da oposição começavam a colher votos para dar início a um processo de impeachment. Com o presidente ainda internado, ninguém sabia o que fazer e tudo parecia realmente perdido.
Até que, das profundezas de um porão situado num grotão morno dos Estados Unidos, um guru de extrema-direita faz uma live que muda todo o quadro. Defende que, na história do mundo, nunca existiu um líder com a capacidade de executar um ato que transcendia a fisiologia normal do ser humano. Que era um homem único, um mito. Que, por estar um degrau acima na evolução da espécie, todos deveriam idolatrá-lo e segui-lo. Que em função da impossibilidade dos outros mortais repetirem seu ato, os seguidores deveriam ingerir fezes, de modo a condicionar o corpo a expulsá-la pela boca. Que ele próprio, desde aquela manhã, tinha iniciado uma dieta no qual ingeriria três porções de fezes frescas por dia, de maneira a se tornar, oxalá!, tão evoluído quanto o presidente. Que mostrariam para o mundo que a fome, no Brasil, era uma mentira.
No dia seguinte, milhares de eleitores tomaram as ruas, simultaneamente em vários estados, para celebrar o presidente que defecava pela boca. Vestidos com camisas oficiais da Seleção Brasileira de Futebol, tênis e bermudões, cantavam o novo Governo, a nova Pátria, o direito de ingerir fezes. Alguns, inclusive, seguravam tupperwares com porções de bolos fecais e iam se alimentando durante a manifestação. Pais davam colheradas a seus filhos para, oxalá!, um dia alcançarem o estágio de evolução do presidente.
Com a crise controlada e o vídeo reduzindo, gradativamente, o número de visualizações, o estafe começa a botar a agenda presidencial de volta aos trilhos. Inapto a falar sem expelir um rolo fecal, o presidente tenta se comunicar por meio de libras, porém é incapaz de articular qualquer movimento com os dedos que não seja o indicador e o polegar esticados, simulando uma arminha. Passa, então, a ser acompanhado por assessores que seguram pequenas lousas e uma caneta piloto não da marca Bic. Ali escreve ordens para um grupo formado pelo vice-presidente, o chefe da Casa Civil, o ministro da Economia e um astronauta, que passam a ser a voz ativa no comando do Brasil.
Recolhido em casa, o presidente começa a usar, cada vez mais, o Twitter para se expressar. Ao fim de todo post, cola a hashtag Pátria Amada Brasil e o emoji cocozinho. Também é, através de tweets, que demite dois ministros e o chefe da Receita Federal, ao descobrir que não seguiam a ingestão regular de fezes frescas. Em 5 de setembro, Dia da Amazônia, compartilha um vídeo em que um ruralista, no centro de uma grande área desflorestada, pasto de cabeças de gado, saboreia um bolo fecal a garfadas cheias, afirmando que, a exemplo do esterco que aduba o solo, as fezes aduba (sic) o cérebro. O presidente cola, no rodapé do post, a hashtag Respeito.
Daí se avizinha a data da Assembleia-geral da ONU, na qual é praxe o chefe-maior do Estado brasileiro fazer o discurso de abertura. Com a reprovação da equipe médica circulando pelos bastidores do Planalto, o vice-presidente, durante uma coletiva, deixa escapar que o presidente não irá participar do evento. A declaração, porém, causa revolta no presidente, que ordena que o vice se dirija urgentemente à sua casa, onde ficam cara a cara e, aos berros, dispara jatos de matéria fecal por todo o rosto e terno de seu imediato. Completamente enfurecido e descontrolado, o presidente passa o resto do dia defecando em todo o assoalho da casa.
Não passa por sua cabeça (sic) faltar ao discurso de abertura. O estafe e o grupo, então, reúnem-se, de modo a bolar uma estratégia para o presidente fazer o discurso sem precisar falar. Sugerem um powerpoint; o presidente recusa. Sugerem uma dublagem sincronizada a movimentos labiais; o presidente recusa. Sugerem que fique em posição de sentido e a primeira-dama discurse por ele; o presidente recusa. O presidente quer falar. Em sua cabeça (sic), conclui que tem uma missão a cumprir. Um dia antes da viagem, publica, em sua conta no Twitter, que vai a ONU defender a soberania nacional, hashtag cocozinho. O post tem 200 mil curtidas e 40 mil compartilhamentos.
Nova Iorque, setembro. Diante de um auditório com centenas de ocupantes, entre chefes de estado, de delegações, autoridades diversas, repórteres e convidados, o presidente caminha até a oratória, levando consigo duas folhas de papel A4 escritas à mão, e se posta a centímetros do microfone. Flashes de câmeras estouram em seu rosto. O presidente arruma as folhas sobre uma pequena bancada, confere outra vez o início do discurso, limpa a garganta e, ao projetar a voz, arremessa um bolo de fezes ao pé da tribuna.
Na primeira fileira, lideres de nações europeias reagem com assombro, em seguida, com repulsa. Alguns deles, nauseados, levantam-se e abandonam o recinto. Outros, ao fundo, permanecem em seus lugares, até serem alcançados pelo futum. Mesmo para o padrão do presidente estadunidense é demais, e ele também deixa o salão.
O presidente, no entanto, não se abala e segue defecando pela boca o conteúdo redigido nas folhas de papel. Ao fim, o ar concentrado está tão poluído, que mesmo os operadores de câmera e a equipe de organização se evadiram, ficando apenas a pequena comitiva brasileira que, habituada à intensidade do cheiro, coroa a queda do último rolo fecal com uma salva de palmas e assobios. O presidente é abraçado e cumprimentado pelo sucesso, depois todos vão comer hambúrguer num fast food da esquina.
De volta ao Brasil, o presidente é recebido por uma multidão que se autointitula os toletinhos. Carregam faixas e cartazes, cantam o hino nacional e entoam frases de efeito, ingerem fezes frescas e dão tiros para o alto; no topo de um carro de som, uma dupla faz uma performance-homenagem de brown shower.
Analistas de direita tecem comentários elogiosos sobre a participação do presidente na Assembleia-geral da ONU. Exaltam como foi sensato, incisivo, mantendo a compostura diante da debandada dos chefes de nação, mesmo quando seu modelo moral, o presidente dos Estados Unidos, deixou o recinto, cobrindo o nariz.
Na imprensa internacional, porém, o discurso do presidente repercute entre a revolta e o escárnio. Um articulista do Le Monde define a participação como um acinte, pois (trad. do francês), “sabedor de que defecava pela boca no Brasil, fez questão de que o mundo tivesse ciência de seu hábito grotesco”. O editorial do Deutsche Welle defende que (trad. do alemão) “a próxima Assembleia-geral fosse realizada nos sanitários do prédio”. A capa do The Sun traz a manchete “Brazil is a sh***” (melhor não traduzir).
É o combustível para se iniciar uma guerra virtual, com memes, fake news, comentários, stories, textões e tweets. Mas, com o tempo, os efeitos ganham ressonância na política macroeconômica e acordos bilaterais e multilaterais começam a ser desfeitos. Todos os países europeus param de importar produtos e matérias-primas do Brasil. Multinacionais fecham fábricas em várias cidades, causando demissões em massa. Mesmo os Estados Unidos, um aliado platônico, cortam relações com o governo brasileiro, decretando o isolamento internacional. E assim, apesar da arrogância do presidente em garantir que o país é autossustentável, a economia caminha para a falência.
Dois anos depois, o desemprego atinge 44 milhões de brasileiros, e 88,8% das famílias estão endividadas. A violência social explode contra a inexistente política de segurança e, nos estados mais pobres, a fome mata uma criança a cada cinco minutos. Com a redução do território verde da Amazônia a 12%, epidemias tomam as cidades que, sem estoque de vacinas, empilham cadáveres em covas coletivas. Todos os planos econômicos e reformas se revelam pautas de festim. E até mesmo a Igreja, mentora e patrocinadora do Governo, fecha todas as suas sedes e seu canal de televisão, e se muda para Moçambique, alegando que Deus não é mais brasileiro.
Ainda assim, o presidente lança sua campanha de reeleição. E milhares de toletinhos o acompanham em caravanas messiânicas por todos os cantos do Brasil, reverenciando o mito, o ser incomparável que defeca pela boca, pois, apesar do caos social, dos continuados escândalos de corrupção, da livre prática de nepotismo, da volta da censura, do consolo da informalidade para ter o mínimo para sobreviver, todos podem contar com a ingestão diária de três porções de fezes frescas.
O presidente sequer se vale mais de lousas para se comunicar, arremessando, em ritmo de campanha, matéria fecal a torto e a direito, sem moderação. No corpo a corpo, eleitores disputam o espaço mais próximo do presidente, de modo a capturar um desses rolos ainda no ar e ingeri-lo imediatamente, presumindo que a fonte original possui componentes puros, capazes de agir com mais eficácia na modelagem do intelecto (sic).
O presidente não se incomoda com o empurra-empurra, os apertos e os abraços, guiando a multidão numa cauda verde-amarela de inquietos movimentos, que somente se interrompem quando o líder detém os passos para defecar, sobre os microfones e gravadores da imprensa, as mesmas malcheirosas evacuações. Até que, num desses contatos diretos com eleitores de Minas Gerais, uma repórter de uma rádio local atravessa o gravador por entre a barreira de pessoas e pergunta ao presidente o que ele teria a dizer para os brasileiros que não apoiam seu governo, que se recusam a ingerir três porções diárias de fezes. O presidente dá um sorriso debochado e se prepare para expelir um rolo robusto sobre o rosto da repórter, quando abre a boca e sai a sua voz.
O presidente se espanta em ouvir a si próprio, depois de anos. Todos congelam, e um silêncio expansivo vai ganhando forma na multidão à medida que cada pessoa transmite para a mais próxima que o presidente voltou a falar. Há uma perplexidade coletiva, um abalo mental, em seguida a ponta de uma rachadura. Com os dedos melados e os lábios sujos, as pessoas começam a se autoquestionar sobre a ingestão de fezes, construir uma reação de nojo. O presidente observa a mudança das expressões a sua volta. Processa novamente a pergunta, pensa no que falar, pensa na mais absurda e abjeta declaração para expelir um bem roliço e fedorento bolo fecal, mas se distrai, não consegue, e, atormentado, sem encontrar saída senão a mediocridade da própria voz, insinua uma resposta, quando, do nada, surge alguém e lhe acerta uma facada na barriga.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.
Creio que eu tinha vinte e dois, vinte e três ou vinte e quatro anos. Eu pulava do trampolim de cinco metros, pulava e voltava, competia com os garotos, ficava na fila e pulava de novo. Eu estava me divertindo, nunca aprendi a nadar direito, nado do meu jeito, sem controlar a respiração, mas mergulhar não é problemático pra mim.
Então, ele me disse, “se você consegue pular do trampolim de cinco metros, você também pula do de dez metros.” Ele estava deitado na toalha, em cima do gramado.
“É mesmo?! Tem certeza?”
“Claro!” Fiquei alguns minutos na dúvida e, sentada ao lado dele, mirei a prancha de dez metros.
“Então vou pular. Por favor, fique olhando, se acontecer alguma coisa, se eu demorar muito pra emergir, você já sabe, estou me afogando, e você tem que vir me salvar.” E lá fui eu pular do trampolim de dez metros. Subi as escadas, subi as escadas, subi as escadas. Esta foi a primeira diferença que eu percebi: havia bem mais escadas para subir. Cheguei lá em cima e me dei conta da segunda diferença: não havia ninguém ali. No trampolim de cinco metros eu tinha que ficar na fila esperando os moleques se jogarem. Na fila era uma algazarra, falatório, risos, e minha paciência. No trampolim de dez metros eram apenas eu, a solidão e o silêncio. Estranhei! Mas agora eu estava ali, naquele lugar alto e vazio, como se não pertencesse à piscina, como se fosse um território proibido. Algo perigoso e ameaçador pairava no ar, mas eu não sabia identificar ao certo. O vento era mais forte e arrepiava a minha pele molhada. Ao caminhar pela prancha e chegar à ponta, olhei para baixo: tudo havia se transformado em pequeno e notei o quanto eu estava no alto, distante deles lá embaixo. Um frio suscitou no meu ventre e não era o vento. Pensei em voltar, se me recordo bem, cheguei a dar alguns passos para trás e parei. Continuei estudando a minha possibilidade e tentando captar de onde vinha aquela ameaça que pairava naquele exato ponto do planeta. Acreditei que poderia ser simplesmente porque eu estava só, lá em cima, ouvindo o silêncio. Voltei a caminhar para a ponta da prancha, meus dedos dos pés ficaram agarrados à beirada. Lá embaixo a voragem azul me mirava e eu mirava o azul da voragem. Olhei para a frente: metade do céu, alguns chumaços brancos de nuvens, as árvores verdes e a lanchonete da piscina -, pequenos e distantes. Olhei para baixo, comecei a me preparar para saltar. Pensei nas competições olímpicas, nas mulheres pulando e se rolando e virando no ar, e caindo n’água. Como elas fazem isso? Abri os braços, elas começam abrindo os braços. Me encarnei em uma nadadora olímpica. Eu mergulharia de cabeça, com os braços levantados para o alto, e ao mergulhar, eu logo faria a curva com o meu corpo para dar impulso para a subida. Mas eu ainda estava com os braços abertos me sentindo a estátua de Cristo Redentor, com a pele arrepiada do vento passando pelo meu corpo.
Levantei os braços para o alto, tomando cuidado para não tocar o céu.
Respirei fundo e me joguei.
A queda foi rápida e nada percebi do espaço, senti apenas quando meu corpo rompeu a membrana da água e a velocidade me empurrou para o fundo. Logo curvei meu corpo para o impulso. Comecei a subir sossegada. Eu tinha os olhos abertos e apreciava a luz na imensidão azul suave. E subi… e subi… e subi, mas eu não chegava. Eu nadava e nadava e não chegava lá em cima onde a membrana me separa destes dois planetas: o líquido e o gasoso. Aí, percebi qual o perigo de se pular do trampolim de dez metros: você afunda demais e precisa ter fôlego o suficiente para subir. Eu não tinha, meu ar estava acabando. Assustada, estiquei mais o meu corpo, me esforcei mais, aumentei a velocidade, me concentrei, reforcei os meus esforços e segui em direção à luz. No fundo da piscina, o silêncio continuou, como se tivesse pulado comigo, assim como a solidão. Eu movimentava as pernas e os braços o mais rápido que eu conseguia, empurrando a massa líquida pesada à minha volta e me concentrava para não perder a calma. Meus pulmões queimavam de tanto segurar o ar e por falta de ar. É assim que se afoga, pensei! É assim que se morre! A solidão e o silêncio, que me acompanhavam desde o alto do trampolim, me proporcionaram uma estranha tranquilidade azul celeste. A luz que se movia e cintilava no avesso da membrana, parecia uma entrada redonda para a salvação. Era apenas o sol distorcido pela cor e pelo movimento d‘água.
Eu movimentava as pernas e os braços me esforçando ao máximo. Quando, finalmente, consegui emergir, eu estava sem ar e sem forças, e no primeiro aspirar pensei que fosse engolir o mundo -, o reverso do trampolim solitário e mudo lá no alto, as pontas das árvores, as nuvens brancas, o azul do céu inteiro, o sol estrelado… Eu necessitava engolir ar, respirar, simplesmente respirar, mas meu corpo amolecido pelos esforços, meus braços e pernas não podiam mais e, sem forças, eu podia afundar de novo. Boiei. Sempre que estou nervosa e prestes a naufragar, eu boio. De novo meus braços abertos, como um Cristo crucificado. Sob mim o ciano do céu.
Eu normalizava a minha respiração, apreciava o oxigênio. Se algum moleque passasse por mim nadando estabanado, eu perderia o controle e afundaria. Um recém-nascido demanda cuidados, ele é frágil e indefeso. Eu era uma recém-nascida. Mas eu não podia explicar isso aos moleques desastrados, eu precisava agora encher meus pulmões. Por sorte, nenhum deles passou por mim, rindo e espirrando água para os lados, agitando a superfície. Eu estava sozinha neste trecho da piscina, a água lisa me sustentava como no leito de um berço.
Aos poucos consegui movimentar os braços e nadar de costas quase até a margem. Com os pulmões cheios me virei e dei algumas frouxas braçadas: alcancei a beirada, me segurei e atingi a escada, subi e saí da piscina caminhando insegura e meio tonta.
Me aproximei dele e o repreendi veementemente, “que grande irresponsabilidade a sua me falar que eu podia pular da prancha de dez metros, eu quase morri!”.
Ele, que esteve o tempo todo deitado na toalha, e nem me viu pular, apenas disse: “mas você está aqui. Você conseguiu!”.
***
No meio do inferno
Ele e seu primo foram passear no final da tarde, nas férias de verão, na trilha à margem da floresta avacalhada porque estava sendo desmatada para construírem um balneário. A trilha fazia parte da antiga rua, agora havia a autoestrada logo mais acima e a mata tomou conta do caminho de terra. Eles gostavam de caminhar nesta parte selvagem, desabitada, onde somente alguns raros automóveis passavam na estrada de areia e terra. Andavam descalços carregando as sandálias nas mãos. À volta, os pássaros piavam, os insetos zuniam, os sapos coaxavam e o verde escuro deixava transparecer os raios de sol fraco. As árvores não eram altas e cresciam intactas em um trecho; em outros, elas tinham sido desmatadas. Na mata densa, cobras, lagartas, aranhas e borboletas podiam ser vistas escondendo-se. As formigas formavam longas fileiras na areia fofa. Outros insetos desconhecidos habitavam aquele mundo. De vez em quando eles se deparavam com um corpo no solo e interrompiam o passeio para buscar um pau e mexer no morto. Virava para cima e para baixo, observavam a estranha couraça ou a pelugem, as antenas, as asas, as patas esticadas, e seguiam. Alguns répteis faziam ruído na folhagem ao saírem correndo assustados quando eles passavam falando alto. E eles se assustavam com o susto dos bichos.
Chegaram ao trecho onde ficava a antiga ponte. Mas ela não estava mais ali, apenas o seu esqueleto. Eles acreditaram que podiam atravessá-la. Assim cortariam caminho pela praia e chegariam em casa antes da tempestade. No canto esquerdo do horizonte nuvens escuras confabulavam. Ele foi na frente. No começo da ponte a madeira estava boa, quase no meio, quando ele passou com o primo atrás de si, a madeira rompeu-se. O primo não pôde continuar e regressou. Ele ficou no meio da ponte, entre um buraco e o outro mais adiante, que ele só viu agora. Lá embaixo o rio negro passava com as tranças da correnteza veloz. Do outro lado do buraco havia uma estreita estrutura de cimento dando seguimento à ponte. Ele tinha treze anos e não sabia nadar. Estava preso no meio do esqueleto da ponte.
— Você precisa pedir ajuda! berrou para o primo parado na margem.
— É, eu vou pedir ajuda! Mas primeiro eu preciso cagar! O seu primo gritou de onde estava.
— O que? Eu estou morrendo aqui e você precisa cagar? Ele retrucou irritado.
— Eu preciso cagar! O primo repetiu agitado e se escondeu atrás da moita ali perto.
Ele ficou sozinho, e não sabia se o seu primo precisava cagar porque estava nervoso ou porque não entendeu a gravidade da situação e tanto fazia quanto tempo ele permanecesse em cima da ponte. O melhor seria não contar com o primo para sair do apuro. Olhou novamente para o outro lado da ponte. Não podia olhar para baixo, a correnteza o deixava zonzo e o sugava. A tarde findava-se, a claridade do sol diminuía rapidamente, e as nuvens escuras se intensificavam e aumentavam. Reprovou a sua coragem. Nos passeios pela mata ele sempre saía andando na frente, enfrentando os répteis e os lamaçais. Agora parado imóvel sobre a frágil madeira ele chegou à conclusão que até o primo chegar em casa e pedir ajuda, já teria escurecido. Não havia luz elétrica ali. Seria breu puro mesclado ao ruído dos insetos. Além disso, os morcegos voariam raspando em seu corpo. Ele acreditava que não sobreviveria. Ele não sabia nadar, tinha medo daquela correnteza negra, do breu da noite e dos morcegos invisíveis.
Ele imaginava o seu primo chegando esbaforido em casa: “o Daniel está lá no meio de uma ponte quebrada sem poder ir para a frente ou voltar”.
— Que ponte, menino? Explica as coisas direito! A mãe diria. E depois da explicação confusa seus pais e seus tios sairiam em seu socorro, todos dentro do carro, munidos de faroletes, e seu pai dirigindo com dificuldade no caminho de areia. Talvez tarde demais! “Não. Eu não vou morrer”, pensou. E observou novamente a construção de cimento do outro lado, cogitando pular. Seria um risco de vida, ele sabia que precisava manter a calma e se concentrar e pular antes que a noite caísse como chumbo e então ele não enxergaria mais nada. Lá embaixo a correnteza passava indiferente. Mas ele podia morrer se pulasse tanto para o lado da viga de cimento quanto para a parte de madeira fragilizada. Talvez pular fosse mais perigoso do que se concentrar para permanecer em pé algumas horas, no escuro, esperando ajuda. Quem sabe os morcegos voassem essa noite para outro lado! E os insetos em solidariedade a ele zunissem mais baixo. Mas também o silêncio seria assustador no qual somente o murmúrio das tranças negras lhe chegaria ao ouvido. Era desesperador ter que escolher entre os diferentes caminhos ruins. Por que o seu primo precisava de tanto tempo? E se fosse o contrário, se fosse seu primo parado no meio da ponte e precisasse de ajuda? Como ele reagiria? O primo não seria tão sensato como ele; desesperado, ele provavelmente já teria caído na água. Mas por um momento ele pensou que em vez dele poderia ter sido o seu primo a estar ali. Ele tinha os mesmos treze anos e sabia nadar.
— Onde você está? Ele gritou para o primo e não recebeu resposta, apenas um pássaro gralhou e levantou voo por trás da copa de uma árvore.
Passados alguns minutos o primo finalmente saiu de trás da moita gritando:
— Eu vou buscar ajuda. Espera aí!
— E para aonde você acha que eu vou? Eu estou preso aqui. Ele respondeu irritado.
— Eu sei.
— Isso é muito sério. Vai correndo pedir ajuda. Eu não posso ficar aqui por muito tempo.
— Não se preocupe, eu estou indo. E a figura do primo desapareceu por entre as árvores e o matagal da trilha. Ele ficou só, ouvindo o ruído da água negra murmurando ameaçadoramente sob seus pés. Os pássaros haviam se calado e não mais voavam. Quanto tempo ele precisaria permanecer assim?
Ele precisava pular, sabia que era esse o único caminho. Seria uma questão de concentração, pensou ele, se se concentrasse livre e profundamente, conseguiria. E fixou o olhar na extremidade da viga de cimento, calculou exatamente onde pousaria o pé.
Durante alguns longos minutos ele pensou o que poderia acontecer, imaginou todas as possibilidade: bater a cabeça e morrer com a cabeça rachada ou cair na água e morrer afogado. O rio levaria o seu corpo para desembocar no mar. Ali na desembocadura o rio era raso e seu corpo permaneceria boiando na água escura misturada com a água clara e cheia de espuma do mar.
Ao longe, no horizonte esquerdo, na retaguarda, nuvens escuras já tinham se juntado em uma manada para desabarem em tempestade. E uma tempestade naquela região litorânea, depois de um dia quente, no meio do verão, significava vento forte, trovões ensurdecedores e inúmeros relâmpagos que se iluminavam intensos e tortuosos no azul cinzento do céu e toda a nervura das nuvens poderia ser vista no plasma sobreaquecido.
Ele precisava pular e sobreviver.
Concentrou-se em alcançar a viga de cimento com um pé (ali cabia somente um pé de cada vez), de forma nenhuma podia olhar para baixo. Seu olhar se mantinha firme para a frente, onde à sua volta as árvores, a montanha adiante, o horizonte acinzentado e uma risca de mar formavam a paisagem. O vento soprava cada vez mais forte. Em pé, sem ter onde se segurar, ele fitou mais uma vez as nuvens obesas marchando em sua direção. Pensou em se sentar, assim não se cansaria tanto e não ficaria tonto com o vento lhe compelindo o corpo. Mas imaginar as suas pernas penduradas em direção àquele negro vertiginoso passando lá embaixo lhe causou aversão. A correnteza maligna poderia criar braços ofídicos e lhe puxar pelos pés. Não, não podia se sentar.
Ele precisava pular.
O rio estava cheio e alargara-se, por causa da chuva dos últimos dias. A grossa correnteza fluía rápida, assustadora. O negro da água parecia com um rio de coca-cola, e, conforme o raio de sol e a profundeza da água, ele adquiria um tom avermelhado. A sua nascente ficava nas montanhas cujas silhuetas ele podia ver de onde estava. E ele não acreditava que a cor escura originava-se das raízes das árvores. Para ele aquilo era a urina daquelas árvores na montanha.
Ele precisava pular.
Escurecia muito rápido. Ele não conseguiria permanecer ereto e imóvel na escuridão. E os morcegos vinham à noite. Quantas vezes ele sentiu as asas de um passando rente ao seu braço nu ou ao seu rosto, quando estava sentado no muro do jardim, tarde da noite quente. Ele se assustava. A mãe lhe dissera para tomar cuidado, os morcegos mordiam, podiam transmitir doenças. Ele tentaria enxotá-los com os braços levantados e perderia o equilíbrio caindo na escuridão do rio.
E a tempestade o mirava. Os primeiros pingos grossos começaram a cair e explodiam em sua pele. Mas ele não podia se desesperar, o medo atrapalharia a sua concentração. Como em um alvo, os pingos lhe acertavam, molhavam a camiseta e o short.
Um sentimento forte de arrependimento lhe enjoava o estômago. Por que ele tinha que ter pisado nesta ponte? Por que ele foi o primeiro?
E de repente os pingos cessaram, também o vento forte parou de soprar e se transformou em uma leve brisa morna. Às vezes, isso acontecia, era o intervalo antes do dilúvio.
Ele precisava pular o mais rápido possível antes que chovesse ou escurecesse. Não podia esperar mais. Enrijeceu o corpo, fixou o olhar na ponta da viga de cimento, calculou a queda de seu pé direito exatamente ali. Convenceu-se de que conseguiria e concentrou-se.
Concentrou-se novamente.
E pulou.
O pé direito pousou no cimento duro, o corpo balançou desequilibrado, ele abriu os braços para recuperar o equilíbrio, e olhou para o horizonte a sua frente. A sensação de alívio transcorreu pelo seu corpo. Mas ele ainda não estava fora de perigo. E de forma alguma poderia olhar para baixo. Estava no começo da viga estreita de cimento, com os braços abertos como um Cristo Redentor caminhando com um pé meticulosamente atrás do outro, mantendo a máxima concentração.
E no final da viga havia mais um buraco entre a margem e a ponte.
Depois de toda a coragem e o risco para chegar até ali havia mais um obstáculo, faltavam poucos passos para ele estar a salvo e de novo o perigo a sua frente. Uma moleza de desânimo abateu o seu corpo, mas ele não podia vacilar.
A margem era um barranco escorregadio cheio de plantas gosmentas, e a água estava parada, suja de lama, de pólens e restos de plantas. Ele não podia cair ali, seria fatal, as raízes das plantas embaraçariam em suas pernas e o puxariam para o fundo lamacento. Mesmo que se segurasse nas plantas escorregadias, o breu da noite o mataria de medo sob o murmúrio da correnteza no meio do rio escuro como o inferno.
Ele precisava pular.
Novamente necessitava da concentração e do sangue frio. As taboas e as folhagens sussurravam com o vento. Repensar as chances que ele já tinha refletido até ali ele não queria e também não havia mais tempo. A penumbra cobria tudo de cinza. Ele precisava pular. Era assim que podia ser morrer, concluiu, apenas ir passear em uma trilha, na natureza, nas férias, em um final de tarde quente e cair em um rio. A morte não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ele precisava pular. A tempestade estava no seu encalço, se chovesse enquanto ele estivesse caído na margem lamacenta, a correnteza alargaria-se e o atingiria levando-o consigo. Concentrou-se, ele precisava pular. Não cairia naquela água nojenta. Não podia cair ali. Daria o máximo de impulso. Ordenaria o seu corpo a voar alguns ínfimos metros, esticaria as pernas como um sapo na hora do salto. Nada o impediria de atingir o barranco e fincar os seus pés na terra firme. Concentrou-se. Esperou mais um momento e concentrou-se mais ainda.
Concentrou-se novamente.
E pulou.
E sentiu o pé carimbar a sua marca na parte seca e segura da margem, logo fincou o outro pé mais adiante e mais um largo passo. Estava salvo, nem sequer olhou para trás. A penumbra o envolvia e uma trilha seguia em direção ao mar. Estava livre, estava vivo, pensou correndo feliz naquele trecho descampado, de braços abertos para ele. Aspirou fundo o cheiro salgado da mata mesclado ao da terra e vislumbrou a silhueta escura da imensidão do mar. Estava salvo, estava livre.
Ao chegar em casa, encontrou o primo na varanda conversando com o tio. Tudo estava na sua ordem habitual. Seu pai e seus dois tios tomavam cerveja à mesa na varanda. O calor amolecia os gestos e a noite já tinha engolido as cores e os contornos. Nada revelava que eles tinham sido avisados, ninguém se mostrou contente ou aliviado em vê-lo.
Com um olhar intimidador, ele fitou o primo e o seu primo lhe revidou o olhar com expressão indecifrável.
Ele entrou na casa. As suas irmãs e os outros primos estavam na sala. A mãe e as tias terminavam de preparar a janta, na cozinha. Ele foi para o quarto onde se deitou de costas na cama e, com as mãos cruzadas embaixo da cabeça, mirava o teto no escuro, pensando que provavelmente aquela não seria a única ponte quebrada que necessitaria atravessar ao longo de sua vida.
Neste instante a tempestade desabou derramando gotas pesadas de água, o vento soprava veloz assobiando por entre as frestas de madeira e batendo na janela fechada do quarto, os relâmpagos iluminavam seguidos dos trovões estrondosos e ensurdecedores. Dentro da casa foi uma correria para fechar as portas e as janelas. O pai, os tios e o primo entraram carregando copos, garrafas e pratos de petiscos.
Do lado de fora a tempestade uivava como um monstro feroz, soltando raios e batendo a forte cauda de ventania.
Viviane de Santana (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.
Bento tinha mania de abraçar as árvores. Acordava cedo e antes de ir para a escola corria para a mata perto dali, conversava com uma, conversava com outra. E abraçava, abraço forte mesmo de quem gosta muito da pessoa abraçada. Com essa mania, a mãe dizia que ele devia era ter sangue de índio. –Índio é que acha que arvore é gente. Tirando a mania, a mãe se orgulhava do menino: inteligente, esperto, afetuoso e com saúde. A professora vivia elogiando o Bento. – Bento vai longe. Quem sabe ele poderia até ser um médico, quando crescesse, pensava a mãe, em silêncio. Um dia, quando Bento já tinha saído para abraçar as arvores, a mãe ouviu ruídos de motosserras vindo da mata. Saiu na porta e viu um monte de caminhões parados em volta das arvores. A mãe fechou a torneira da pia, tirou o avental, tapou o bolo com um pano de prato e foi lá ver o que estava acontecendo. No caminho encontrou outros vizinhos olhando. Quando chegou, várias arvores já tinham sido derrubadas. E havia um grupo de homens em volta de um tronco, jogado na terra, tentando tirar alguma coisa. Quando a mãe se aproximou dos homens, viu o Bento agarrado a um tronco com as pernas e os braços. Tiveram que enterrar o menino com o pedaço de tronco junto.
***
Pauzinhos de picolé
-Mãe, se você achar pauzinho de picolé na rua, traz pra mim? Pergunta o Luis Antonio, entretido, na varanda, contando os pauzinhos de picolé que já tinha conseguido. Nisso, passa o avião, baixinho, ali perto. -Estão jogando remédio na plantação, vem prá dentro que este é forte, depois vai ficar se coçando aí, diz a mãe. Luis Antonio corre pra dentro com a caixa de pauzinhos de picolé na mão. A mãe olha aquele monte e pergunta: -Pra que, tanto palito de picolé, menino? Eles esperam o avião passar, com portas e janelas trancadas. Quando não se ouve mais o ruído do avião, Luis Antonio pega a caixa com os pauzinhos de picolé e sai de casa. – Vou catá passarinho. Luiz Antonio caminha pelo bairro, olhando debaixo das arvores. Acha um, coloca na caixa, acha outro, coloca na caixa e, assim, enche a caixa. Caminha para um terreno baldio e lá está o Genésio esperando por ele, também com uma caixa na mão. Luiz Antonio corta o palito de picolé no meio e faz uma cruzinha que ele amarra com um pedaço de barbante. Genésio joga as que tem prontas no chão. Luiz Antonio pega uma faca velha e cava uns buraquinhos na terra. Os dois enterram todos os passarinhos, colocam terra por cima e fincam, nos montinhos, as cruzinhas que fizeram. O terreno é bem grande e está lotado de cruzinhas de pauzinhos de picolé.
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O biquini estampado
Doida para estrear meu biquini estampado com tons de azul e verde, que eu comprei em Caraguá, sai para a praia. No outono, o clima é ameno e aproveitei, então, a brisa gostosa da manhã, com aquele sol mansinho que não arde, mas bronzeia devagarinho a pele. Ah! porque eu estava precisando largar o corpo na areia e me deixar abraçar por aquela água fria que faz sossegar a alma. O mar estava calmo, ondas tranquilas, poucos surfistas. Os primeiros vendedores estão começando a chegar com suas barracas. Achei até que ia ter mais gente, mas, talvez o pessoal esteja aproveitando esta manhã de sábado para dormir mais um pouco. Um grupo de meninas adolescentes brincava tranquilamente na beira da água, rindo e jogando água umas nas outras, quando se ouviu um estrondo. Talvez uma bomba enorme tenha explodido num morro de pedras ali por perto, mas o estranho é que o barulho vinha de dentro do mar que agora estava violento. E como uma boca enorme que ia vomitar, uma onda gigantesca se formou na beira da praia e foi aproximando muito rápido. Sai correndo, descalça, como louca para a calçada, atravessei a rua no meio dos carros que buzinavam intermitentemente e fui parar lá do outro lado. Nem deu tempo de pegar a toalha e o celular. Buzinas e gritos se misturavam num só pânico. Parei do outro lado da rua, ofegante, exausta de tanto correr, mas o cheiro forte de peixe morto me fez olhar para trás. O dia se tornara cinzento e já não era mais possível ver o mar. Um paredão gigantesco, alto como os edifícios deste lado, se formara com pilhas e pilhas de peixes mortos emaranhados a plásticos antigos e desgastados, ocupando toda a orla marítima.
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Quase dois metros de altura
Estava no consultório do endocrinologista aguardando a minha vez, quando entra na sala de espera, uma senhora baixinha acompanhada de um rapaz de quase dois metros de altura, que abaixou a cabeça para passar na porta. A mulher, morena, jeito de interiorana, beirando os 50 se sentou perto de mim. Aí percebi que ela não era tão baixa assim como vi de longe, ao lado do rapaz de quase dois metros. O rapaz se sentou ao lado dela e esticou as enormes pernas. -Este vai ser jogador de basquete, hein! comentei. O rapaz olhou para mim e percebi nele um semblante de menino, meio neófito, que ainda não sabe das coisas. Deve ter uns 18 anos, pensei. -Mora onde? a mulher me perguntou, puxando assunto. -Aqui no bairro mesmo, respondi. -Eu vim de longe, lá do Jardim Felicidade, disse ela. Como eu devo ter feito cara de quem não sabia onde era o Jardim Felicidade, ela completou: -aquele bairro onde tem a granja Eldorado. Vim consultar o menino. A mãe dele deixou ele comigo, eu que crio. Sou avó dele. Mas eu quem cuido dele. Agora deu prá crescer, não para mais. – Mas quantos anos ele tem? – Ele tem 10, mas olha o tamanhão. No começo eu achava até bonito ele ficar grande, mas agora estou preocupada. Outra mulher entra no assunto e comenta. – Parece que existem vários casos de crianças, aqui na cidade, com crescimento precoce. Assustada, fiquei imaginando este menino crescendo até os 18 anos. A outra acrescentou: -Teve um caso, de uma menina que menstruou aos 3 meses de idade, porque a mãe comeu muito frango de granja. Hormônio do crescimento rápido, serve pro bicho, serve pra gente também.
Marithê Azevedo é cineasta, roteirista, doutora em Artes Cênicas pela USP. Propositora de poéticas urbanas. Nasceu em Alfenas, MG. Morou em Brasília, Rio de Janeiro São Paulo e atualmente vive em Cuiabá. Docente do PPGECCO, UFMT. Entre os roteiros de ficção que escreveu para longa, estão: Religare, Três tempos, Cidade Submersa. Entre os roteiros para curta de ficção: Licor de Pequi, Traquitotem, A noite nossa de cada dia. Com o documentário Memórias Clandestinas, em 2007, recebeu o prêmio de melhor documentário brasileiro no Femina, Festival Internacional de Cinema Feminino.
Meu pai faleceu há quase três anos, mas só recentemente desapareceu de vez deste mundo. Não lembro até quando, não faz muito tempo, ele ainda conversava comigo enquanto eu dormia – o sonho é lugar onde as pessoas realmente vivem.
Essa noite estive preso em um pesadelo, tentando me salvar de algo medonho, por não ter uma forma – faltava-lhe o nome. Só me senti um pouco mais tranquilo depois que Maya pariu corajosamente dois belos filhotes. O último deles me deixou intrigado, com o pêlo todo branco e uma única marca em forma de lágrima no canto do olho esquerdo. Uma palavra me distraía, não soava bem naquele verso, e isso ainda me aflige um pouco. As traças estavam terminando os poemas que o meu pai escrevia e nunca foram publicados. Ele não apareceu para comentar nada. Achei estranho. Tem sido assim nos últimos dias, parece ter experimentado a sua última morte.
***
A Vigília
O sol já estava se pondo. Iuri atravessou o jardim, caminhando lentamente em direção à rua. Seu cão pastor acompanhava-o quieto.
Talvez o companheiro tivesse adoecido, talvez ambos estivessem tristes somente. Esse dia parecia com o fim do mundo – não por uma catástrofe, mas como uma vela que se extinguisse aos poucos: logo não haveria mais sombras, tudo se apagaria.
Adiante deles, entre os telhados, viam crescer a mata que separava a vila das extensas plantações do vale lá embaixo. Em sua orla, os eucaliptos mostravam-se ainda mais altivos contra o céu derrotado.
Os dois continuavam andando para dentro da noite. Não lhes interessava mais o dia. Uma velha lâmpada incandescente havia se acendido no limite da brenha escura. Embora frágil e vacilante, estava pronta para a longa vigília.
Héber Sales nasceu em Pernambuco e reside em São Paulo, onde atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns textos seus também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras.
– Porra nenhuma. Mas foda-se. Que se foda essa merda.
– Tem café?
– Tem sim, vou fazer. E a pequena cozinha se encheu com o cheiro de café.
Depois de uma semana eu estava sentado de novo naquela cozinha. Um ovo, três kilos de arroz e quatro batatas. Tudo encaixado estrategicamente em dois potes. Microondas. Talheres dentro de um
copo. A prateleira encardida suportava tudo aquilo com elegância. Os produtos de limpeza ficavam embaixo, questão de facilidade. “Melhor que nada”, pensei. Até o fim do mês era aquilo. Acendi o último cigarro e espantei a fome com ele. Hora de dormir que amanhã é outro dia.
Dois dias depois arrumei um trampo no porto de Peruíbe. Meus dedos ficavam fodidos, carne viva. Conheci ela na praia, caiçara e escorpiana. Nicole. Morena, queimada de sol e lábios grossos. Pouco
conhecia das coisas da cidade grande. Vendedores ambulantes que disputavam calçadas, mendigos e putas, buzinas e carros. Pouco sabia. Alugamos dois cômodos. Tudo deu certo por dois meses, é o tempo médio para até paranoias individuais aparecerem. Depois tudo vem à tona.
Três meses depois já estávamos um querendo matar o outro.
– Ae, bola um beck?
– Podepa, bolo sim.
Fumei e fui pra casa. Sabia que Nicole estaria em lá e aquilo me desanimava. Sofria por antecedência. As mesmas merdas de sempre. Dinheiro, pai morto e mãe desempregada, quem foi no programa de quem, artistas, yoga e medicamentos contra o peso. Eu aguentava tudo aquilo.
Relacionamentos são assim. O problema era quando estávamos juntos e usando drogas. E começou a ficar constante. As mudanças de humor, agressivas por parte de ambos, nos desgastavam. Dia a dia. Bebida e cocaína, eu preferia a bebida e ela o pó. Nos dávamos bem enquanto tinha sobrando. Depois vinha a merda. Certo dia dei uma rasteira num maninho só porque olhou a bunda dela. E o trampo
continuava. Peixes, camarões, merdas marinhas. Certo dia eu e Nicole tivemos a pior briga. Saiu por uns quatro dias, voltou, como se nada tivesse acontecido. O cheiro de sexo e cerveja ainda impregnava seu corpo. No dia seguinte que voltou quis arrumar outra briga. Algo se quebrou em mim e foda-se. Taquei suas merdas no chão e mandei se foder. Ela gritava e eu também, ela me machucava enquanto tentava se machucar. A merda tava completa. E eu tava no meio. Os dias seguintes foram de silêncio profundo entre os dois. Estávamos imersos nas nossas merdas internas. Depois ela sumiu. E o trampo continuou. Preguiça. Sabia que meus dias naquele trampo estavam contados. Não suportava o cheiro de peixe impregnado nas mãos, roupas e cabelos. O odor piorava conforme o dia passava. Os dedos encaroçados, fruto das cabeças de camarões descascadas. Cabeças e mais cabeças. Bolhas e cortes. Sabia que a merda do camarão fica na cabeça? Arranca-se a cabeça pra tirar a merda. Literalmente o filho da puta tem merda na mente. Barata do mar. Aquela merda preta percorre quase metade do corpo dele. Pelo menos todo dia tinha peixe na mesa. Arrastei por mais três meses o serviço. Peguei o dinheiro, um bucado de peixe e fui pra São Paulo. Trampar de flanelinha não dava tanto, mas os dedos pararam de encaroçar. Pelo menos minhas mãos melhoraram.
Três semanas depois cansei das ruas. Queria um gabinete, algo com ar condicionado. Começo de ano era sempre uma merda, o calor fodia tudo. Ainda possuía dez reais e um maço de eigth. O mundo era
indiferente aos meus problemas e eu sabia disso. Fumei um cigarro e fui entregar currículos. Não deu certo, pelo menos não hoje. Mas amanhã é outro dia. Fechei os olhos e dormi. Bem suave.
No dia seguinte fui no ônibus conversando com um parceiro, trombei por coincidência, tinha acabado de sair da cadeia. Conheci ele em Peruíbe e agora lá estava ele. Vendendo uns halls em São Paulo. Ideia vai, ideia vem, me aparece com uma foto no celular e pergunta:
– Ta vendo essa foto?
– Que foto?
– Essa porra, olha aqui.
– To vendo. E aí?
– Comassim?
– Que que você acha, porra.
– Eu sei lá, acho nada. Que tem?
– A mina tirou essa foto antes de se matar.
– Mas que merda! Porque você tem essas merdas? Assiste essas merdas. Coisa de doente!
– Doente nada, vi hoje numa matéria. Passou de tarde, Datena. Doidera. Procê vê como a vida é um bagulho frágil, né?
– Pode pa, é sim. Falando nisso, se viu o Luis?
– Vishe. Você é o primeiro dos moleques que eu trombo.
– Pode pa, que fita.
Descemos no mesmo ponto. Quando começou a contar sobre a cadeia, logo em seguida, escuto um barulho alto. Ecoado. Me viro e um policial dá um tapão na minha mochila que cai. Agacho pra pegar e levo uma bicuda na bunda. Caio de cara no chão. Merda! Ele começa a esparramar os pertences com o coturno enquanto faz comentários sobre meus pertences. O fardado não se deu ao trabalho de encostar nas minhas coisas com as mãos. Passava o coturno em tudo. “Que merda é essa? Pobre sabe ler agora?”, pega o livro e lê o nome do autor meio sem jeito “FEREZ?!”. “Que porra é essa?”, grita olhando ao redor. Eu sem saber o que dizer fico quieto. Ele me levanta pela blusa e pergunta de novo “Que porra é FEREZ?”. ”É F-E-R-R-E-Z, senhor”. “R de rato”. “É um escritor do capão”.
“E agora favelado sabe escrever? que porra, hein. É o que me faltava”.
Meu parsa não teve a mesma sorte. Não teve o mesmo diálogo. Foi levado não sei pra onde. Tem passagem? Tem? Então vem cá. Nunca mais o vi.
Loucura. Depois daquilo resolvi recuperar o tempo perdido. Comecei trabalhar e estudar. Os currículos finalmente deram certo. 8 horas num arquivo empoeirado e 05 horas numa cadeira de madeira. Depois de um tempo torna-se automático. Ônibus, chefe, carteira rabuda, chefe gritando, almoço, futebol do fds, chefe, ônibus, professor e salas lotadas. De repente acordei dentro do ônibus. Demorei um pouco até conseguir perder a sonolência. De repente pego uma conversa do meu lado.
– “Oi. Você é do noturno né? Faz qual aula no primeiro horário?” um bombado, do tipo de academia, pergunta pra uma morena de vestido preto e pernas grossas.
– “Ah, LP V. Mas…”
– “Aaaaaah, não, é que eu faço uma depois da sua”. O cara responde na sequência.
– “Mas o que você quer saber porra?”. A mina reage. O cara enfia o rabo entre as pernas e sai vazado. Eu dou uma risada. Ela me olha com um olhar ainda cauteloso e diz “Homem tem que ser assim senão monta”. Bem, se ela diz. E comecei a observar outras pessoas conversando. Animadas, afinal, sexta. O professor declama “fim de aula, bom final de semana a todos!”. Finalmente! Ônibus, caminhada, ônibus, caminhada e porta, xave, cheiro de mofo. Boa sexta.
Na mesma época conheci Karen. Morena de início, possui um belo nariz e pernas grossas. A cintura fina dava o toque. Me esperava em casa com uma garrafa de vinho. Aliás, suco de uva com álcool. Conversas sobre o cotidiano, comer, banho e dormir. Sexo deixávamos pro dia seguinte, antes do serviço. De repente, tá tudo no automático. A gente se torna refém da comodidade. Insensível a toda merda. Explodimos nosso cérebros com comida radioativa e propagandas medíocres, um atrás do outro. E plá! Uma arma contrabandeada por um policial gordo acaba na nossa mão. E estouramos nossos miolos. Pá! O dia a dia nos mata. Rapidin. Consome. Quando me dei conta estava na frente de casa novamente. Chave na mão, porta abrindo.
Normalmente encostava de sábado na Santa pra fumar um baseado. E de vez em quando encostava o Felipe. Playboy, branco e faixa preta em jiu jitsu. De cada dez palavras, nove sobre si. Músculos, academia e bandido bom é bandido morto. Um trago no baseado… cof! cof! Tem que matar todos esses filhos da puta. Cof! Gastei mil reais em esteróides. Tudo pelo corpo né?! Ah, eu não aguento. Foda-se, vou embora. Levanto e saio andando. Ninguém entendeu nada e no dia seguinte o neguinho perguntou “Caralho, luã! Que porra foi aquela ontem? Cê saiu do nada.” “Ah, sabe como é. Às vezes nóis passa mal… mas ae vamos fumar um?” “Vamos ae”.
Sentei com o neguinho, nome Guilherme, mas conhecido como neguinho, e acendi o baseado. Já tava bolado. Na sequência dois moleques encostaram no outro lado da praça pra fumar também. Entre um trago e outro escutei entre eles algo sobre as garotas da escola. Cê viu a Bruna? Eu vi, mó gostosa. Essas coisas. De repente um tapão! Plá! Me viro e vejo os dois moleques levando um enquadro monstruoso. Os policiais apareceram do nada. Nessa meu parsa já se ligou, pegamos o beck e vazamos na miúda. Melhor não arrastar. Fui pra casa e queimei lá mesmo.
Domingo e tudo de novo. Segunda, terça, quarta. Quinta-feira e uma japonesa, meio metro e cabelos negros, entra na sala. Começa a falar. E falar. A boca abre, fecha e mesmo assim mantém um sorriso
eterno. Dos assuntos mais alegres, como happyhour, até a crise política atual e morte de Marielle, todos os assuntos eram acompanhados daquele medonho sorriso. Talvez nunca tenha passado necessidade na vida. Um pai professor sócio em multinacional e mãe professora universitária, estabilidade financeira,
professor de dança, escola particular, férias na Europa, boas amizades e ruas arborizadas. Tudo encaminhou aquela descendente asiática pra felicidade. Tanta felicidade que nem a morte ou miséria
abalavam. Nenhum parente viciado em crack ou vizinha suicida. Talvez por isso sorria tanto.
Parei de olhar pra ela, desisti de ouvi-la e comecei a rabiscar num pedaço de papel. Eu? Tinha tudo pra dar errado. E dei. Mas às vezes coisas boas aconteciam. E o segredo é se agarrar nelas. Quando tudo
aquilo acabou fui pegar o ônibus. Acendi o cigarro e percebi. O mundo continuava lá. E amanhã era sexta. Happyhour e os mesmos bêbados de sempre. Beber com o pessoal do trampo é uma merda. Dificilmente dá certo. Os papos viram grandes debates. Ruins são os críticos, pior ainda, críticos escritores. E com essa pérola Oswald inicia aquela merda. Dizia no último domingo ter comido quase um porco inteiro, joelho, toucinho, com arroz e couve. Oswald devorou o toucinho do coitado em poucos minutos. Luisa era vegetariana e começou a discursar sobre amor aos animais e como humanos são horríveis. Antropofagia? Só dos índios. Eu limitava a acenar com a cabeça meio sem entender. Não tinha pique pra’quele falatório. Só queria ir pra casa e dormir.
Dois meses depois perdi o emprego. Justificaram com “falta de interesse” e “corpo mole”. Além de trabalhar era preciso fingir que amava trabalhar. Sem seguro desemprego fui me virando. E sabia me virar. Comprava sucos de 2 litros e fazia 4, 5. Ligava às vezes a tv e porra, que merda fazem com nosso índios? Dizimam a maioria, fodem um monte de tradição antiga, e depois ainda reclamam quando os cabeças vermelhas querem uma terra. Terra Indígena por direito. E dai que índio tem celular?! Todo mundo tem e índio também é gente, também faz parte de todo mundo. Também quer terra. Enquanto a antropofagia indígena e oswaldiana tem objetivo de assimilar qualidades, o canibalismo do dia a dia faz o mais forte comer o mais fraco. Pura devoração. Empilhados em fábricas. Pausados em gabinetes. Continuamos marchando rumo à luz. A luz. Colocamos nossas bolas no cu e saímos todas as manhãs como se usássemos fardas. Aceitamos. Sim, senhor! E voltamos pra casa. Filhos ingratos e esposas tão perdidas quantos nós. Um tiozinho do aluguel, chefe zangado. Taí o sonho brasileiro, americano, venezuelano. Taí. Olhei pro teto e decidi ir pra rua. A chuva tinha acabado e a goteira ainda continuava. Não encontraria o cara do aluguel tão cedo. Só aparecia em dia de pagamento. E tava longe.
Luan Bonini Bonilha de Oliveira nasceu em São Paulo, Brasil, no dia 01 de novembro de 1994. Filho de mãe solteira, durante a infância passou por muitos bairros e cidades paulistas, como São Matheus, Jd. Jaqueline, Campo Limpo, Peruíbe. Instalado no Butantã, mais tarde vai morar em Taboão da Serra, Região Metropolitana de São Paulo. Começou a escrever por volta dos 18 anos, influenciado por Ferrez, Hemingway e Celine. Em 2014, ingressou no curso de Letras na Universidade de São Paulo e atualmente tenta viver da escrita.
Uma vez um amigo disse-me que sou uma pessoa ‘’confusa e nada analítica’’.
A análise da ocasião de nossas falas, para aqueles que se proponham a exercer a função de analista informal, era de uma falha de comunicação tamanha que fazia tempo que não sentia a urgência de despersonalizar, por incrível autodepreciação que me acometeu naquele 483 irradiando suor dos trabalhadores do subúrbio.
A poltrona azul-marinho parecia regozijar-se de entusiasmo para analisar – de modo passado a ferro, com toda certeza – a linguagem corporal que expressava sob seus tecidos quase sintéticos.
A angústia inoportuna realizava-se sob gritos de camelôs e bufos de uma multidão assalariada em seus assentos.
“Você não é analítica, é pretensiosa e confusa.”
“Se concentra no que as pessoas falam, e não no que você acha que elas querem dizer.”
Pareciam períodos de crônicas clichês, mas era a realidade material e objetiva de uma amizade de anos que parecia corroer-se a cada mísera vogal que projetava na tela transparente de um Android.
Considero que a contextualização não tenha sido esmiuçada o bastante.
Vejamos, era uma conversa que revogava qualquer contato mecanicista que outrora tive com meu amigo. Éramos bons amigos, mas eu acredito que nunca tivemos uma projeção de honestidade para com o outro em critérios de personalidade expressada.
Éramos arquétipos estúpidos de uma massificação midiática que conduzia os jovens a serem hedonistas, porém inexpressivos em seus sentimentos e virtudes. Em suma, éramos um montante de personagens que queriam disputar o palco para ter uma autopromoção e aprovação de um e outro.
De um ano para cá, a crise endêmica assola o país – por ironia das casualidades – nosso perfil produtivo de personagens foi para o fundo do poço. Aliás, uma música que pode esmiuçar esse termo seria ‘’Exemplar do fundo do poço’’, do grupo de indie-rock, Violins (eles são bons subprodutos de uma hipermodernidade patológica, aconselho a escutarem após seus jantares). Éramos jovens de 20 anos, mas que parecíamos mais um mesclado de personagens de ‘’Skins’’, célebre e degenerada série britânica.
E essas memórias perpassavam entre várias partes de meu córtex, especialmente o pré-frontal, pois a oscilação de humor tornava-se crônica, como o balançar do 483 na Avenida Brasil.
Pela primeira vez, expus fragilidades de um dia de nascimento e de morte de uma terça-feira, para completar a dualidade jocosa que uma terça-feira evocava. Era de uma considerável humilhação abrir seu tecido emotivo para uma pessoa que, por mais que fosse seu amigo de anos, tenha se tornado seu inimigo que pertencia a um grupo divergente (e sabotador) de seu.
E perpassou, adentrou, erradicou após alguns minutos a discussão que mais parecia que romperia uma longa amizade, para se tornar um reduto de confessionários ético-morais.
O assunto era do fenômeno do individualismo, para ser pertinente à ocasião.
O confessionário alastrou-se da Penha até a Cidade Nova em uma vergonhosa performance de prolactina. Lágrimas brotavam – a este ponto – em meu colo. O sistema nervoso simpático não queria inibir; o confessionário do solipsismo tinha começado, e ele não atentava a contrações das emoções, independentemente de estar situado em uma frota de ônibus com uma aglomeração relativa de trabalhadores.
‘’Eu não sou legal, não, eu sou egoísta. Eu costumo colocar as pessoas em primeiro lugar, e eu, em contrapartida, em segundo espaço. Agora, pois, por que seria egoísta, você me pergunta. Eu não faço isso pelas pessoas, mas sim para não ficar com a consciência pesada, tá ligado.‘’
E ele começava a rir, mas eu tenho quase certeza que era de nervosismo e vergonha individual.
Eu conhecia a peça, igualmente da formação da psique condicionada por uma ideologia de uma classe individualista dominante da sociedade de lucro.
Eu o indaguei, questionei, atordoei, eu o expus – quem sabe, agora, de forma analítica – a gênese desse comportamento que, caso fosse materializado em uma maçã, e alguém fosse, por algum motivo, bater em uma árvore, a fruta iria cair em cada esquina e avenida desse Rio de Janeiro (e por que não falar do mundo inteiro).
Ele ignorou minha argumentação, que agora tinha se tornado um monólogo externo para uma tela de Android.
Porém meu confessionário ainda não tinha cessado, mas sim virado um monólogo – quem sabe, agora, interno –.
O garoto que contemplava os saberes éticos, metodológicos e morais de uma sociedade putrefata por dinheiro e solipsismo me deu um tapa tão forte que eu não me recordava da última vez que alguém tinha me transferido tamanha crítica – e olhe que eu recebo várias e espessas críticas, mas eu não as recebo bem, pois minha patologia moral não me deixa escoar as perspectivas –.
Tinha dificuldades em discernir tais indagações do jovem de óculos que se encontrava a malditos e distantes 21km de meu bairro, a 1h de ônibus. Calculava, agora – pela primeira vez, inclusive – a distância da convergência de nossa amizade no decorrer de quase 5 anos.
‘’Amizade’’.
Era uma condição de relação que não tínhamos aperfeiçoamento.
E talvez a magnitude dessa escassez de condição tão imediata para todos fosse um dos motivos que me afeiçoei a ele.
E por isso, logo, encontrava-me a tremer por uma possível perda.
Era ridículo e quase obscurantista pelo contexto geral de uma nação de adoecidos em suas morais.
Ressoava a porra de uma sirene em minha mente fragmentada, mesclando-se com o falatório do ônibus, que, para completar, estava em um clima quase semiárido pelo descaso.
‘’Você não o perdeu, qual é, é apenas uma projeção de uma possível perda, pois você nunca foi tão humilhada por ele.’’
– Pelo contrário, você o humilhava –
– E a autopiedade do semi míope confirmava a sua condição de fracasso personificada –
‘’Por isso você não o aceitava; pois você estava tão confinada a reter seus conflitos internos em sua condição moribunda, que não percebeu que tinha passado dos limites da fronteira de uma amizade, que somente depois de um ano foi ser de fato uma amizade na prática.”
O que mais parecia assemelhar-se a uma dinâmica de um jogo de simulação de um slice of life (vulgo narrativa do cotidiano), parecia a desertificação de perspectivas de afeição.
‘’Ah, meu ponto chegou. Vou soltar, piloto, para aí, na moralzinha.’’
Sabia, quem sabe, a partir de agora, que eu deveria ter maior autocontrole em minhas interações diárias.
E arcar com despesas desnecessárias com remédios de oscilação de humor desnecessários de uma condição físico-mental desnecessária por uma sociedade desnecessariamente degradante.
E desnecessária.
Desnecessariamente solipsista.
Lorraine Ramos Assis, 22 anos, estudante de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).Fotógrafa, cujos trabalhos podem ser acessados via Instagram (@catarseoculares).Escrevo para tirar uma sociedade da inevitável zona de conforto.
Sem saída, empreendi esta fuga. Havia uma ladeira no caminho para o trabalho, e aquelas árvores já conhecidas suas. Passei por elas feito um foguete. Parei rapidamente no mercado para retomar o fôlego e então segui em disparada, sempre em frente. Onde daria, não sei. Só queria estar ainda mais longe. É que, de repente, até minha cidade se tornara sua. E eu já não suportava mais estas paisagens. Nem mesmo o mar, o muro do mar. Foi quando decidi optar pelos livros, onde já me abrigara com sucesso tantas vezes. Olhei minhas estantes de universo, quantos seiscentos e tantos enredos a esperar por este personagem. Tal o desespero, que cabia até em a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Me encaixava em Benjamin sem eixo. Firme em não desistir, ainda que as pernas quase não aguentassem o peso, do corpo que se movia e se movia e se movia. Tal o desespero que cabia em diante da dor de Susan Sontag. Neste, só por ironia. Insone. Lendo e relendo Fante. Autômato do pensamento, rumo às teses que me sustentariam, espécie desajeitada de esqueleto. Pensei criar ali um bunker como o de Hitler. E enquanto as tropas aliadas não o destruíssem, de lá comandaria meu exército. Fechado em mim, sempre correndo, parei numa praça, revi o gramado e as flores. Havia minado o gramado, esmagado com meus pés as flores. Sentei um pouco em um de seus bancos de concreto, neoconcreto, mas sem sintaxe. Talvez ninguém me alcançasse. Ali, invisível, silencioso como se não existisse. Como alguém que prende a respiração para mergulhar e simplesmente esquece. Como quem entra num automóvel, a máquina imóvel segue rumo imprevisível. Confiaria. Em nova pausa, parei ofegante a olhar os folhetos coloridos na vitrine de uma agência de viagens. Para onde? Haveria certamente algum destino. Qual era mesmo o nome da ilha ao meio-dia? Aquela nossa ilha ao meio-dia. Você sabe. Todas aquelas coisas que julgara nossas e que foram apenas minhas. Ilusões pedem perdão. Só assim se consegue ir adiante. Mas sem parar é quase perto, quase. Se mais corresse, é certo, se mais e mais e mais corresse, quem sabe, finalmente me aproximaria. Após cruzar este país inteiro, chegar à rua em que você vivia.
***
Um verão invencível
A espera da chuva me comove. A frase soou como se eu houvesse proferido uma heresia antes. Falei que um dia de sol faz esquecer que a morte existe. Pensava nisso aquela tarde, caminhando no condomínio, quando a tempestade veio. Tão forte que parecia que o universo inteiro chacoalhava por dentro. A chuva me deprime, pensei em silêncio, adiando alguma intimidade. Não queria contar a ela sobre a casa da infância. Papai amarrando um plástico com barbante, abaixo do teto de telhas vãs, sobre nossas camas. Ficávamos vigiando enquanto a bolha enchia de água, até os olhos não aguentarem. No dia seguinte, mamãe mergulharia as pernas na enxurrada, tentando salvar os móveis. Sentia vergonha ainda. Nada denunciava minha expertise, quando via famílias que perdem todas as suas coisas. Não havia razão para dizer a ela que fui uma dessas crianças pobres que temem a chuva ou entregar em suas mãos algo que me revelasse. Uma distância sóbria seria nossa ponte, de preferência tão longa quanto Danyang–Kunshan. Que aquela moça ficasse em Xangai e me deixasse quieta em Nanjing. Mas então ela se aproximou da sacada da casa onde estávamos, por um desses acasos imprevisíveis, porque havia um jardim de inverno, e seus dedos finos desenharam no ar, próximo da minha cabeça, o que imaginei ser uma pequena árvore. Observava, lá fora, o céu cinzento, certamente comovida. Logo, logo, choveria. Tristeza, às vezes, é pesada feito nuvem. Um retrato sem profundidade. Era assim que desejava que me visse. Foto impressa em papel, apenas imagem. Como um desses perfis que expõem nas redes sociais. Talvez, no verso, uma frase inteligente, um aforismo de Nietzsche, algo que a impressionasse. Tudo menos que soubesse a penúria das janelas de madeira sem vidro, a fragilidade da porta de madeira, cheia de buracos, por onde imaginávamos espreitar-nos algum olho, e os ratos. Nunca falaria com ela sobre os ratos, sobre como convivera com os ratos. Temia que morresse de medo ou de ternura. Quem sabe o que uma coisa como aquela despertaria? Notei que ria, distraída, diante dos primeiros pingos. Um abismo crescia na forma como víamos a aproximação da tempestade.
Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).