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129ª Leva - 01/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Jurema e o tesão amaldiçoado

 

A noite já tinha entrado nos estratos mais bem forrados da goiabeira divina quando de lá do quintal saltaram dois mancos presumindo que a escuridão e uma velha lamparina da chama gasta poderiam dar ao mundo a miragem de novas divindades.

 

MANCO TONEL

Ando colando em cartas vulcânicas as figuras que darão pelo fim, eventual, do encadeamento lógico da espécie humana.

 

SÁBIO DETÔKA

O encadeamento lógico é o que levará a espécie humana à sua extinção. Sua única chance é enrolar o encadeamento no pé-de-manga, e ir saindo de mansinho…

 

MANCO TONEL

Mas aí tem um dilema eterno: o pé-de-manga insiste em não sair do lugar, argumenta que ficou imenso, e cresce cada vez mais a devorar a sombra da planície das ilusões inteira…

 

SÁBIO DETÔKA

Trata-se de um Pé-de-Manga-Sagrado… Mais uma vez, o Concerto das Nações tira o chapéu para o Brasil.

 

MANCO TONEL

Isto se deve em grande parte porque abriram a caixa de consertos das nações e deram de cara com a imensidão de um vazio silencioso.

 

SÁBIO DETÔKA

A caixa de consertos estava quebrada.

 

MANCO TONEL

Tão quebrada e ao parecer irremediável que logo organizaram um concerto com instrumentos dispersos, a ver se era possível reunir uns tostões para o conserto.

 

SÁBIO DETÔKA

Apitos e reco-recos…

 

MANCO TONEL

Mas nada, público esvaziado, instrumentos desafinados, mais parecia a orquestra do Fellini, não juntamos um trocado que seja.

 

SÁBIO DETÔKA

É que esse público é acadêmico, só quer Guerra-Peixe,  o Guarany, e… o Wagner…

 

MANCO TONEL

Já tratei de reenviar o vídeo para o Xu-Manfú, que não apôs a menor declaração de recibo ou desgosto. Nem conserto ou concerto, os peixes estão em guerra na panela e os guaranis traçaram o Wagner no almoço, com pirão de valquírias e a velha e boa água de fogo.

 

SÁBIO DETÔKA

Agora então… Só resta embarcar no trenzinho caipira e subir a Serra da Boa Esperança.

 

MANCO TONEL

Dizem que Dona Esperanza perdeu a serra na bocarra de uma Boa no pantanal. Sequer foi à festança em Currais Novos do Céu.

 

SÁBIO DETÔKA

Isso acontece com as melhores famílias

 

MANCO TONEL

As melhores famílias são hoje um outdoor na entrada do Grande Shopping Barnabé, mas ah como doem…

 

SÁBIO DETÔKA

Quando abre a porta do Saldo Global Começa a Grande Porrada Familiar.

 

MANCO TONEL

Tailandeses e filipinos no saldão da semana, porcos e pérolas embaralhando as tábuas da lei.

 

SÁBIO DETÔKA

E o turco vendendo tapetes gombra ké baratinho, freguês…

 

MANCO TONEL

O turco faria melhor do que insistir em ser videomaker. Mas a quem deleita chá de pó de osso, que trate de raspar o seu bem raspadinho.

 

SÁBIO DETÔKA

O Selim insiste em querer fazer um zuper-8 do Homem Vapor… não precisa contratar ator nenhum. É só filmar a chaleira.

 

MANCO TONEL

Pois de tanto falarmos nele o Homem-Vapor acaba de chiar na panela de pressão, e me escreveu dizendo haver perdido o vídeo turco

 

SÁBIO DETÔKA

O Homem-Vapor é de uma astúcia oriental, e de uma periculosidade de Xu-Manfú … Há sempre um 2° pensamento oculto em suas amáveis crípticas declarações… Xu-Manfú certamente está fumando seu ópio… e quer que tudo o mais vá pro Inferno… Tenha Confúcius seus ancestrais, Buda seu Nirvana… Lao-Tse seu Tao, e Mao-Tse-Tung seu trator… Que lá importa?… Contem eles suas marolas pros parvos… Tenha o Bebê suas Tetas… Xu-Manfú tem o seu Ópio…

 

MANCO TONEL

E fuma como um jargão caído do pé. Tombando nas raias da impunidade, atravessa os séculos com a mesma pá, cavando o que se agigante contra ele.

 

SÁBIO DETÔKA

O segredo do Xu-Manfú é que a força do tráfico tem  o apoio místico da galera do fubá.

 

O meu fubá ao sol
eu deixei para secar.
A Jurema chegou cedo
e lavou toda a varanda.
O fubá que estava seco
aprendeu logo a nadar.
A Jurema encabulada
saltou bem na minha cama.

 

Embevecidos com a melancólica voz do prado, os dois troca-leros nem deram por conta, o Homem-Vapor se disfarçou em Surco Talim, pirateou uma nave-mãe nos porões da área 51 e dizem que foi repaginar a Ursa-Maioral…

 

SÁBIO DETÔKA

Homem-Vapor fala muito, mas o que gosta é de estar juntinho da jornalista do Braz-Ximbum, uma bonequinha de molas…

 

MANCO TONEL

Telma Suspíria é o nome dela, e pula e pula, como se as verdadeiras molas as levasse em seu íntimo, eu a conheci no México há mais de uma década, e se riu quando indaguei se ela havia engolido um canguru. Com seu olhar magnético me disse: “Eu sou uma rã”.

 

SÁBIO DETÔKA

Cuidado com a Kiki Moleng…  se facilitas… te dá um nó-cego nos cordões do sapato, e te passa um coquetel do Rei Coreano…

 

MANCO TONEL

Pois foi em outra festa, bem pra lá do ChiBungai, que conheci o então famoso coquetel do Rei Coreano, apontado por três revistas especializadas como o mais atrativo dos alucinógenos líquidos… Lembro que as paredes da festança pareciam os biscoitos Fraterno, e dei de saboreá-las como a última quimera.

 

SÁBIO DETÔKA

Xu-Manfú e Rei Jonjonga da Coréia cada um tem seu Dadá: Xu-Manfú o seu ópio e Rei Jonjonga os seus foguetões.

 

MANCO TONEL

Decerto os dois se matariam mil vezes seguidas, empanturrando a barriga da Grande Baleia devorada por Jonas, o Pacífico. Primeiro exercício de levitação: tornar o desejo mais pesado que o objeto.

 

SÁBIO DETÔKA

Perdemos o salpico na esteira das ilusões, onde os pesos excessivos tinham a última chance de levitarem e as cordas que nos prendem ao mundo poderiam esticar até o desenlace entre sonho e vigília. Os querubins sopravam as flautas uns dos outros. As luzes coruscantes cobriam de efeitos as células que sucessivamente germinavam no umbigo de todas as divas. Quem dera um pomar para reciclar os desejos. Quem dera uma torta onde hibernar as abelhas. Perdemos tudo – ainda grita o Padre Ezequiel, e o tesão amaldiçoado completa o ciclo das tensões.

 

MANCO TONEL

De tesão amaldiçoado, melhor dar uma pausa no andor, e ir pedir uma benção do Padre, e outra da Mãe de Santo.

 

Padre Ezequiel me disse que atualmente a fé não anda movendo nem montinho de areia e que no sótão da capela tem uma caixa de milagres que deve estar comida de bolor. Jararuna, a mãe de todos, lá em seu terreiro, me tranquilizou afirmando que de maldição ela entende e que dará um jeito no tesão.

 

EZEQUIEL

Aí está, o mundo de hoje… a continuar assim, presto virá o Armagedão…

 

MANCO TONEL

E as tropas de Arcanjos, depois de destroçar os pilantras de Belzebú, voarão pra Terra do Fogo, pra comer as Gigantas Patagonas nas escarpas dos Andes…

 

Para onde quer que se mande o cachimbo o tempo fumará seus bigodes, não importam os calos do Tinhoso ou as alpargatas do mocreia, a selva será sempre selvagem dentro dos olhos do lince, e o guerreiro mantém a guarda mesmo em repouso. Credo, assim o cajado se parte e a conversa destripa a língua. Dali… Jurema foi se confessar com Padre Ezequiel. Manco Tonel nunca mais se viu.

 

JUREMA

Ai, meu santo Padre Ezequiel, que faço eu  pra obter o perdão divino?…

 

EZEQUIEL

Pois, Jurema, só com umas lambadas…

 

JUREMA

Lambadas vossas, meu Padre?…

 

EZEQUIEL

Mais eficazes serão as lambadas do Sineiro Corcunda, com a corda do sino.

 

JUREMA

Mas as vizinhas vão ouvir…

 

EZEQUIEL

Já estão acostumadas…

 

Jurema ainda indagou se não lhe cabiam melhor umas lambidas, assim os pecados tomavam gosto, se empanturravam e quem sabe até naufragariam na barca dos degredos, ah Padre, deixa…

 

EZEQUIEL

Lambidas só no Purga, quando Catão de Utica está distraído…

 

JUREMA

Ai que eu beijo a pulga dele toda…

 

O PÚBLICO

Beija, beija, beija…

 

CORTINA

O que eu faço agora? Caio?

 

Bem poderia ser o fim do psicodrama, não fosse a dúvida corroer a alma acetinada da cortina. Um lapso e os Manuscritos de Tália soltam a sinopse de sua próxima comédia: Brancaleone e as vicissitudes do Dynamo Astral, sempre um patrocínio das Casas Prometeu e a benção do Papa Ponchito. E à dica culinária desta noite, atenção: Mistura o pó da inquietude em um cálice do talo da fina flor de lótus da pradaria… Ajuda o destino a tomar as mais sábias decisões.

 

MANCO TONEL

Como já disse o homem Fuzed das brasileiras noites: “Os dias que passam, estes passarão, mas, as noites, as noites que passam, ah elas também passarão.” Mas quem passou foi ele.

 

SÁBIO DETÔKA

O Ibralim se foi?… Uma celebridade dos 50s, surpreendeu-me a qualidade desta tirada!… A sua Coluna, agora fiquei desconfiado… talvez tivesse uma graça oculta… que na mocidade eu não saquei. Mas se ele escrevesse um livrinho inteligente, sua Coluna seria cancelada. Se escreveu, ficou em manuscrito, enterrado no quintal.

 

MANCO TONEL

Pois é, o Ibrahim não teria o sucesso que teve, na época, se não tivesse se decidido a ser o bobo da corte, resta a dúvida, agora que ele passou, como as suas noites, se ele era bobo mesmo ou se sagazmente criou o notável personagem…

 

SÁBIO DETÔKA

O Ibralim Fuzed é um curioso caso, meio inspirado no Frunando Fussoa. Todavia, enquanto o Frunando criou seus heterônimos, o Ibralim escolheu ser o seu próprio heteronômio. Um processo singularíssimo, que escapou à  argúcia lacaniana do Jório Borbes.

 

MANCO TONEL

Fuzed, também conhecido como Ibr-Fuzarca, recortava fotos suas em cena e as colava em paisagens de vários países, ruas, praças, na velha Enciclopédia Conhecer. Assim o conheci.

 

SÁBIO DETÔKA

Fuzed tentava promover seu irmão Zefud, porém Zefud não ia pra frente nem pra trás. Zefud era irmão, mas não tinha o jeitinho do Fuzed, de empacotar dondocas finas com grazzolas velhas frouxas, mas ora, se as dondocas gostavam, tudo bem…

 

MANCO TONEL

Pois logo dali deu a entender Ibr-Fuzarka que se mudara, por algum tempo… quando a rigor se tornou invisível e visitava as peruas chiques com seu colar de contas e elas em suas mãos suavam o perfume de suas ânsias.

 

SÁBIO DETÔKA

Assim, pois, desvendado o mistério: Fuzed é o Homem-Vapor que apavora os cinemas dos subúrbios da cidade!… O pavor do Homem-Vapor é contagiante e a inquietação ganhou as manchetes dos jornais, de sucesso em sucesso, foi avançando o filme irresistivelmente em direção ao centro da Metrópole. E Zefud foi erroneamente identificado com o Homem-Vapor. O Destino já estava escrito em seu próprio nome!… Recônditas são as sendas da Fatalidade…

 

MANCO TONEL

Não resta dúvida. Recônditas são as sendas da Fatalidade…

 

O PÚBLICO

Ohh-oooooh-oh

 

A CORTINA

Agora é o jeito. Caí, em definitivo. Este foi meu último suspiro.

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

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128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

José Carlos Sant Anna

 

Foto: Adelmo Santos

 

Pela janela aberta

 

Se um peixe entrar em sua casa sem bater, não estranhe ou fique nervosa, é porque, pé ante pé, ele resvalou o corpo para fora da tarde e porque claramente cansou do lago artificial em que vivia enclausurado. Há sinais e testemunhas do licor evaporado do seu hálito quando ele passou pelo átrio da igreja e o andar era um bálsamo para aquele espírito inquieto. Antes, ao passar pela porta, exclamou “que lugar maravilhoso”, e sorveu um pouco de paz com os belos vitrais que se realçavam em ambas as laterais da igreja. Parou, pensou e concluiu que o ar era solene e a igreja (talvez) seria pequena para remoer as inquietações metafísicas que sacudiam a sua cabeça na deambulação vespertina.

 

 

 

***

 

 

 

Minhas ostras

 

Vira e mexe as ostras desfilam pela calçada da praia do Bogari, calçando sapatos coloridos, como se nunca tivessem sido colhidas pelos meus apetrechos de pesca nos arrecifes. Quando tal acontece, quase sempre, remexem no meu antigo baú. São meus espantos guardados, sem chave, justo quando finjo não pensar em nada. As ostras giram o tronco em minha direção e, solícito, digo-lhes que se acomodem ao meu lado, no banco de areia da praia. Sentadas, me falam do que viram e ouviram, quando presas nas formações rochosas, próximas à costa, tornando-se muitas vezes cúmplices de algumas histórias. E ficamos, então, eu e elas, sob um céu estrelado, à beira de outro instante. No meu íntimo, uma estranha magia. A casa dos meus pais, a poucos passos. É do útero do tempo que elas ressurgem, que brotam. A pele arrepia, a alma cintila. E as ostras passam, ficam e se fincam em mim, pois, ainda que mortiça, trazem sempre uma claridade, como se fosse a luz de uma vela. Pedaços de saudades da ponta do mar, da península de ontem, cirandas de histórias que nunca chegam ao fim, um show de vaga-lumes por todos lados que estilhaçam o ar, abrem o armário e vão aquecendo, sem pressa, as esquecidas paredes da memória. Aproveito a lassidão que nos acolhe e vou também abrindo os olhos, as mãos, o corpo, enquanto elas parecem dizer-me que já não preciso correr contra o relógio. Contra o tempo. Aquecidas, as ostras ensaiam uma canção praieira do Caymmi para a noite que avança madrugada a dentro. Suspiram e se afastam. Não consigo desviar meu olhar dos moluscos que se distanciam lentamente, tampouco me ocorre o que ainda queria dizer…

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quase triste

 

Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: “O que é que houve, Madalena?” “O que é  meu não se divide”. É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa.

 

 

 

 

***

 

 

 


Desamparados

 

Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras.

 

José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da  Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.

 

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128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Gustavo da Rosa Rodrigues

 

Foto: Adelmo Santos

 

Deus ao mar o perigo e o abismo

 

Ele vai explodir o avião. Eu sabia. Desde o começo, sempre soube que o meu destino era morrer agarrado a uma mesinha de polietileno com fogo cegando os olhos míopes enquanto crianças afogadas passam do meu lado, boiando, de coletinhos laranjas, indo pra uma colônia de férias no céu. Se o avião cair na água, já era. Na terra, talvez o piloto tenha uma chance de fazer um pouso forçado, ou então cair em cima de umas árvores e aí dá pra tentar achar uma das oito saídas de emergência, que não serviriam de nada porque o avião já estaria todo arrebentado, e teríamos que engatinhar até a abertura mais próxima passando por cima, isso é certo, de pedaços de pessoas pelos cantos como se fosse uma piscina de bolinha versão hardcore; o negócio é ficar no fundo, sempre no fundo, porque é a parte que bate por último, e tem uma estatística que diz que 90% dos sobreviventes de avião sentaram nas últimas fileiras. Mas, nesse caso, acho que não tem saída. Ele pode levantar durante a noite, ir lá no cockpit e anunciar o sequestro, afunde esse avião no mar, ou, quando estivermos nos aproximando da costa da África vá direto para as Pirâmides do Egito, melhor acabar com aquilo, que se fodam os faraós e a especulação turística, ou, dê meia volta e arrebente o Christ the Redeemer — mas por que alguém iria sequestrar um avião no Brasil? Pra bater aonde? Vai ver o Brasil agora é um novo alvo do Estado Islâmico, ou Al-Qaeda, e eles estariam mandando uma mensagem afirmativa reconhecendo que os países economicamente emergentes mas nem tanto também entram na conta? 12 horas de voo, 7 horas só em cima do Atlântico, sem mapa de voo. A companhia é tão chinela que não tem nem o mapa do voo pra pessoa saber onde vai morrer.

Ele se vira de um lado pro outro no assento desde que sentou e fica praguejando alguma coisa em árabe, ou é francês? não dá pra saber, fala sussurrando, pra dentro, como se rezasse. Quando chegou na minha fileira e apontou pro assento da janela efusivamente dizendo hã, o cabelo comprido e a cara imberbe, perguntei em português aqui e ele não respondeu, só apontou, mas quando se sentou disse obrigado, achei que fosse brasileiro. Tinha que chover, sempre decolo com chuva durante a noite; pela janela oval só as luzinhas vermelhas e verdes em rotação universal, 24 de dezembro, deve ser isso, e os risquinhos da água na janelinha fake de plástico ou acrílico anunciando a ressurreição, tears of joy; agora ele pegou a revistinha da companhia, o cara parece que é de boa, tô até viajando, lê revistas de turismo e tal; folheia o negócio recheado de imagens profanas por dois segundos e, num som abafado, socando a revista atrás do assento da frente, sussurra pra dentro de novo, árabe ou francês, vai saber, e se inclina na janela pra tentar ver alguma coisa; certo que ele pode ter colocado a bomba na mala e tá com um detonador na calça, escondido; lá fora, as luzinhas fuzilantes das asas, revestidas de polietileno, que não servem pra nada, e os funcionários caneta marca texto tocando a vida das pessoas pra dentro; ele deve tá tentando conferir se a mochila com os explosivos já entrou, calça jeans rasgada no joelho; telinha do entretenimento, ele liga e seleciona filmes, dá pra ouvir o ronco da gasolina fluindo, e se eles se enganam e colocam menos do que precisa, ou se tem um vazamento tipo a Apollo 13 e estamos no meio do oceano sem o Gary Sinise pra nos salvar, aí já era, a única coisa boa é que o avião não explode, a não ser que o cara queime tudo, claro, e quando vê eles conseguem pousar e passar as instruções de segurança corretamente pra galera sair show, infle o colete só fora da aeronave, não corre, senhor, mantenha-se calmo, porque todo mundo tem que sair em fila, se bem que não vai dar pra saber, e no impacto, metade já morreu; o negócio é touch-screen, ele rola rola a lista de filmes oferecidos durante o périplo de 12 horas dentro de uma lata de sardinha que voa e ninguém sabe como; dá duas batidinhas na tela, o filme não entra, paraísos perdidos, talvez ele nem seja um terrorista, só tá meio puto porque tem que viajar às pressas e queria continuar no Rio, entendível, ou alguém ligou dizendo que a mãe dele morreu e agora precisa voltar pra pagar pelo caixão e tudo mais; não entra, ele dá um tapa bem dado na tela esbravejando alguma coisa em árabe, é árabe, não francês, e solta uma bufada; que merda, o cara tá ficando puto e ainda nem decolamos, vai estourar essa porra aqui mesmo no chão; tenta desligar o negócio, mas a bosta nem desligar desliga, travou; ele inclina o banco pra trás e outra bufada, murmura de cabeça baixa e olhos na cintura, analisando a estratégia de ação e pedindo a última bença pra se vingar da companhia que não consegue nem oferecer as mínimas distrações antes do encontro final com o profeta; ele sabe, ele sabe de tudo. Luzinhas, as luzes das asas, me deram perto das asas de novo, se cair, já era; a chefe de cabine anuncia que as portas foram fechadas, embark completed, ligo a minha telinha, english, deutsch, français, italiano, desenhinhos, português, filmes, música, televisão, joguinhos — sem árabe sem mapa de voo; uma das aeromoças me entrega um saquinho plástico, dois, entrego um pro cara e ele faz um sinal assertivo com a cabeça, não deve ser terrorista, é gentil; pega o saquinho e nem olha, atira no chão e dá uma risada, uma cobertinha de poliéster dourada e um travesseirinho de bebê, tá de manga curta, sabe que não vai precisar de coberta nenhuma, não sente frio porque vai explodir tudo e o avião vai virar um fogo de artifício gigante celebrando nossa libertação eterna e a cessão de todos nossos pecados ocidentais; ele tira a bunda do assento e bota a mão no bolso com dificuldade fazendo questão de não encostar em mim, latino, e tira um pacotinho de chiclete, o Trident que parece uma mini carteira de cigarro, certo que o detonador tá escondido na caixinha, é agora; ele coloca o chiclete na boca sem tirar o papelzinho e vira de lado, juntando as mãos, com frio. O avião começa a andar, o comandante, preciso avisar o pessoal, anuncia naquela voz robótica cabin crew prepare for the take off please, só a companhia das luzinhas vermelhas, não tem mais volta, talvez se eu der um grito e pedir pra descer, que tô passando mal, ou que deixei o fogão ligado, ou que minha mãe tá morrendo ligaram do hospital, mas não; o cara tá puto, uma das mãos pressiona o rosto colado na janela, os olhos bem abertos, vendo o quê, as luzinhas vermelhas e o breu; vai ver na real ele só tem medo de voar mesmo, é isso, sou um merda, coitado do cara, tá inquieto porque viu que não tem mapa de voo nem uma mísera indicação de altitude ou tempo até o destino e tá apavorado; as luzinhas vermelhas se apagariam no primeiro impacto, nunca ninguém nos acharia, o foda é só o mar, depois que passar o mar tá tranquilo; ele se revira no assento, quem sabe o negócio é imitar o cara, colocar as mãos no rosto e fingir uma reza sussurrada pra ele ter compaixão de mim e não explodir nada, vai pensar que merda o cara do meu lado tá fodido que nem eu, não vou explodir nada, deixa quieto, desculpa meu Deus, esse cara não merece. Decolou, não tem mais volta mesmo, só daqui 12 horas, ou até a explosão; ele olha pra fora, as luzes das favelas da cidade do Rio de Janeiro mais próximas do céu, deve ter deixado um amor aqui, um grande amor no Rio.

Duas horas de voo, nada de explosão. O cara já ligou e desligou a tv umas quinze vezes, não para de se virar e volta e meia ainda resmunga, olhando sempre pra cintura, pro cinto de explosivos. Cinco minutos depois da decolagem e o cara já tinha tirado o cinto de segurança, com o aviso luminoso ainda aceso; já dá pra sentir um cheirinho de comida, o avião balança, pauso o filme, Trapped, o sinal do cinto acende; e se eu puxasse conversa, e aí meu da onde tu é, gostou do Brasil? sim, lindas, é, pessoal muito amável, e tu tá fazendo o quê? ah negócios, sim, eu tô indo visitar minha namorada, é, sim, morei na Europa um tempo, agora tô indo pra passar o inverno, sim, que merda, aqui tá muito bom né, é, não conheço o Rio muito bem, mas é lindo sim. A aeromoça se aproxima com o carrinho, sr. would you like something to drink? o cara nem baixou a mesinha de polietileno boia-salva-vidas que o pessoal avisou antes, o colete tá embaixo do assento, e as máscaras vão cair automaticamente, ninguém em pânico, de boa, se mantiver a racionalidade, 75% sai vivo daqui e vai escrever um livro de autoajuda; ele diz chicken water, comedor de bicho morto, and a coke. Olho pra minha mesinha esperança, uma bandejinha de papel alumínio com massa, um potinho de plástico com duas rodelas de tomate e uma folha de alface entocado do lado, um bolinho de chocolate, um pãozinho redondo, um potinho de geleia de goiaba, dois pacotinhos de polenguinho e talheres de plástico enrolados numa embalagem de plástico e um guardanapo de papel enrolado em outra embalagem de plástico. Tomo meu suco no guti guti, quente, mas tá valendo; ele pediu coca, olha praquela lata como quem olha pra uma perna irremediavelmente gangrenada, ou uma carta de amor de despedida, e balança a cabeça; acabou se ocidentalizando nesse tempo no Brasil, sabe que uma coquinha é contra os ensinamentos e doutrinas, mas força e a tampinha do alumínio se rende, o som da explosão do gás finalmente liberto depois de dias, meses, expandindo felicidade; em dúvida, olha pra janela, breu, gotas no acrílico, toma direito da lata e solta um arroto seguido de um grande puxada de ar, tava com sede, sabe que é a última coca da vida antes de explodir o avião, a culpa tá batendo forte, não poderia ter feito isso tão perto do céu; talvez o cara gosta mesmo de coca, que merda, e os dois quilos de açúcar vão fluir a serotonina providencial pra que ele decida não sequestrar nada; deixou metade do frango e nem encostou na água, dá mais uma golada; o cara tá de boa, deve ter problemas com colesterol alto, mas é magrelo; coloco o fone de ouvido de novo e dou play no filme com o dedo sujo de polenguinho. Desligaram as luzes pro pessoal não saber que vai morrer, não vou dormir enquanto ele não dormir; qualquer coisa ele vai ter que passar por mim se quiser ir no banheiro pra estourar a bomba, ou invadir a cabine, se ele levantar agarro as pernas e grito por ajuda; a luzinha da asa, incessante, falha a qualquer minuto, pegar um livro e ler, não dá, não vou ligar a luz aqui na cara do cara pra ele ficar mais puto e explodir tudo de uma vez sem compaixão, não, coloco o fone, pela hora, em cima do Atlântico, o avião vai até o nordeste por terra por uma razão, todo mundo sabe, a lua, do mesmo tamanho, nada de especial; finalmente o filhadaputa pegou a cobertinha, ainda bem, a última cochiladinha antes do sono eterno. No filme o cara sai atrasado de manhã pra trabalhar e quando tá descendo as escadas lembra que esqueceu o celular; volta correndo pra buscar o negócio no quarto só que nesse meio tempo a porta de metal bate com a chave do lado de fora e não abre por dentro de jeito maneira; o cara tá trancado num apartamento sem comida sem água sem bateria no celular, ninguém ouve, e pra piorar é um prédio abandonado, ninguém mora ali, o pico não tem nem energia elétrica direito, tudo gateado; ele gasta todas as energias gritando e tentando quebrar a porta, mas não rola; aí ele tem a brilhante ideia de rasgar o sofá e as roupas de cama e pendurar nas grades da sacada a palavra H-E-L-P e atear fogo, só que o negócio meio que foge do controle e o fogo se espalha pra dentro da casa e o cara quase morre asfixiado. O fera acordou, tudo escuro; alguém bate no meu ombro no caminho do banheiro, um cara gordão só de meia, bigode, camisa de flanela; o nutrido apoia as mãos no bagageiro perto do banheiro e sufoca a menina que tá na poltrona da frente; ele acordou mais puto que antes, se inclina pra frente, o cabelo comprido e fino encosta de leve na tela e ele volta a olhar pra cintura, agora com as mãos entrelaçadas; tá aí, chegou o gran momento, o gordão é comparsa dele, sim, levantou e fingiu que ia banheiro pra dar o sinal, uma encoxada abdominal na cara da moça; agora ele vai fazer a última reza e pedir perdão pela coca-cola antes de apertar o detonador Trident; o foda é que se ele levantar, não posso simplesmente dizer ô malandro onde tu vai, o cara vai achar que sou maluco, ou, pior, vai ficar ainda mais putaço que vai querer me explodir primeiro; aviso luminoso, please remain seated with you seat belts fasten, we are going through an area of turbulence, eh, pelo menos agora ele não vai poder levantar, turbulência; eu sempre soube que ia morrer num avião, sempre, janelinha quatro camadas de plástico não segura porra nenhuma, uma criança começa a chorar algumas fileiras na frente, pessoal tá acordando, do outro lado tem duas mulheres apagadas desde que a gente saiu do Brasil, certo que elas tomaram lítio ou dramin, água escorre pela janelinha, o cara ainda tá abaixado, rezando, a asa do meu lado parece uma trampolim com sete crianças em cima sem coragem de saltar, chocalhada, tão baixando de altitude, tá caindo essa merda; olho debaixo da poltrona, pressão nos ouvidos, não tem colete nenhum, lembre-se de inflar o colete apenas quando estiver já fora da aeronave, nunca dentro, ok, discernimento nas horas extremas é o que nos trouxe até aqui, Santos Dummont apertando a mão do alfaiate voador e dizendo vai malandro, que merda, por que eles dizem coisas do tipo em caso de um improvável pouso na água, que pouso, velho, não tem pouso, nem muito menos improvável, é provável, sempre foi provável, o avião tá baixando, fugir da turbulência, quebra-molas, os morros do ar, 200 quilômetros de ar, as luzinhas vermelhas, lindas, morrer no Natal no meio do Romanche Trench, um everest de profundidade com uma temperatura de 1 grau celsius e, com sorte, enroscar num cabo de internet submarino e acabar com a internet do mundo; sempre soube, amanhã vai ser notícia e todo mundo vai pensar, ufa, caiu um agora, então demora mais uns três meses pra cair outro, e meu corpo trucidado sendo levado para as profundezas oceânicas até que algum peixe mais faminto resolva se alimentar das minhas orelhas e se lambuzar com o sangue ainda quente de um dos braços de uma mulher, finalizando, de sobremesa, com pedaços do vestido de uma outra, florzinhas roxas e amarelas; mesinha do desespero tremendo, zumbido, o cara ainda tá abaixado, pode tá morto já e ter programado o dispositivo, ou a reza tá demorada mesmo, depois de tudo, se ele não explodir, mais chance de sair de vivo, please remain seated, tá baixando, vai cair certo, na próxima vou tomar dramin, sempre digo isso, mas é igual um amigo me disse uma vez, mesmo que tu teja lá no quinquagésimo sono, se o avião tiver caindo sempre vai ter alguém pra te acordar e dizer que o avião tá caindo, o cara levantou a cabeça, é agora, o pessoal do serviço de bordo sentou e tá colocando o cinto, nenezinho em prantos, please remain seated we are going through an… tá perdendo altitude, GPWS, seguro no encosto da poltrona, rígido, aperto os olhos, vai cair, sempre soube; tudo escuro, me inclino pra trás e sinto uma mão suada na minha; abro os olhos no susto, ele aproxima os lábios do meu ouvido e, segurando meus dedos com força, sussura numa voz adocicada — amigo, no tenemos apuro.

Gustavo da Rosa Rodrigues tem 26 anos e mora em Porto Alegre-RS. É escritor, poeta, tradutor e estuda Letras (Tradução) na UFRGS.

 

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128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Ramayana Vargens

 

Foto: Adelmo Santos

 

HORA LIVRE

 

A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.

Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.

Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel).  Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho).  Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar.  As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar o funcionamento do mundo.

O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.

Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer.  A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora.  Só saía quando a velha dizia que precisava descansar.

Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação), a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).

Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.

A velha professora detestava os livros que ganhava.  Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento.

Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá.  Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.

O avô de Ester não gostava da velha.  A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.

– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade.  Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio…

O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.

Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago!  O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo.  Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.

O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa.  Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam por que tinham sido destruídos com tanta violência.

 

Ramayana Vargens é escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilhéus.        

 

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127ª Leva - 05/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa I

Dheyne de Souza

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Ana, uma promessa

 

Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fogões sofás essas coisas pesadas que querendo ou não atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. É o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se é quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, só que com a boca levemente curvada não rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. Não vejo muito tv. Mas às vezes aprendo. Já fiz arguição sobre isso.

Eu quase nunca me apresento, não é uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrogância, só. Odeio justificativas. Mas meu nome é Ana. Como sempre, vocês já devem estar sacando. Estou na verdade pensando que história conto ou invento sobre a minha vida. Há pontos de vista demais em mim.

Quando me pego pensando, acaricio meu lábio. Na verdade esse não é um hábito meu. Nunca fiz até então. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos prédios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar francês. Ela de fato era da França. E eu do sofá fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos lábios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha memória europeia de películas. O olhar cor de nórdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando não o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. Às vezes inventava obstáculos nos lábios, acariciava-os com força e depois com leveza. Raramente o sentido anti-horário. Depois de um tempo, soltava a mão das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela também levantava o pescoço. Digo, o queixo. Porque era mais belo. Às vezes alguém chamava seu nome. Ela virava a cabeça de lado, abaixava até o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas não me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que até hoje tento entender por que, e me arrependo de não ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.

Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, vocês entenderam, não foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontuações.

Esses momentos são mais tensos, não gosto. Vou pensar em uma história pra contar. Depois volto. Engraçado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se não. Idiota isso, mas sincero. Se é que se dá crédito ao mas depois de vírgula, hoje em dia. Quem é que sabe correr de justificativas.

As coisas ficaram mais difíceis. Minhas histórias das histórias diminuíram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.

Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.

Eu digo, na minha cabeça mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.

Não que eu não lembre. Assim, não muito cronológica e ordenadamente. Muitos buracos. Há espaços em branco impenetráveis. Talvez nem com a psicanálise. Aprendi muito bem como cerc(e)á-los.

Hoje, especificamente, não é um dia muito bom.

Uns dias atrás alguém buzinou e não soube se era para mim. Esse tipo de não resposta que fico guardando na memória. Não exatamente nessa proporção. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa rápido.

Às vezes me pego pensando que, se não fosse a Bíblia, eu teria me suicidado na adolescência.

Menos, bem menos.

Meu nome é Ana. Não tenho filhos, não tenho ninguém. Quase um aforismo.

Quem sabe na próxima tentativa eu possa ser melhor.

 

 

 

***

 

 

 

Cidade quente

 

A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goiás. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa época do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais rápido, o som mais real, não. Uma moto passou tão devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. Não estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente é uma espécie de hálito móbil. Arriscou levantar os olhos do all star preto puído para uma fachada de prédio art déco. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, anúncios, smartphones. Ela apertou a mão no bolso da calça jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goiás. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a mão na fonte onde tanta gente já se banhou. Mas faltavam só quatro quarteirões para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a memória do medo do som do galho na velha Avenida Goiás. Tinha o hábito de olhar o chão, o resto que fica no chão. E na cidade quente o chão é rico de história. Já descobriu pilhas, anéis, tickets, moedas, suores, seus relicários. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o braço de uma boneca. Não se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto não sabia que. O acaso? A última lembrança poderia ter sido o braço da boneca. Mas a mão no seio na calça em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda não pegaram no sono no alto dos prédios cansados. Na Avenida Goiás, que lástima, logo agora que estava a dois quarteirões de casa.

Foda-se. Era só no que ele pensava enquanto andava mais rápido. Atrás da garota de blusa de alça. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os braços se abraçarem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada é uma solidão sem fome. Quando o braço da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.

Uma garota na Avenida Goiás sendo seguida, mas isso são horas. Vou devagar. Se ela estiver sem sutiã, não posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela não tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara também nem me parece uma má pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.

Até pensei em chamar a polícia quando vi lá embaixo na Avenida Goiás aquela moça que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas até eu conseguir descer não vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto é uma coisa que não dá pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua à noite, mas não tão tarde, e passa uma moto, eu já mudo meu destino, sei lá. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, graças a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai daí, sai. Ai meu deus do céu, misericórdia. Carlos André, acorda, me dá o remédio, corre! Esse calor do cão.

Adolescente é estuprada e morta na Avenida Goiás na madrugada desta terça-feira. Sem testemunhas no local, polícia segue investigação. Prefeito promete reformar asfalto. Os ipês-rosas estão morrendo enquanto florescem os ipês-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.

 

Dheyne de Souza está em Goiânia-GO. Tem um livro de poemas publicado (“Pequenos Mundos Caóticos”, PUC/Kelps, 2011). Em breve, lançará o livro, também de poemas, chamado “Lâmina”s (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no YouTube, em parceria com Helô Sanvoy, com leitura e vocalização de poesia.

 

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127ª Leva - 05/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Silvana Guimarães

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Carteira de Identidade Nº 803.412

 

Alguém está cantando perto daqui. Um cachorro late. O carro freia com estardalhaço e deixa um silêncio sem eco, depois. Um galo cocorica, em despropósito. Uma criança chora, um homem tosse. Eu começo um trabalho de parto ao reverso: vou dar à escuridão um poeta. A escuridão completa, definitiva, única espécie de eternidade em que ele acredita. Nenhum anjo torto por perto. Apenas eu, a outra. E essa coleção de ruídos.

Minha mão direita segura a sua mão esquerda (tão vazia tão fria).

Lio…

Sim.

Ele não diz nada. Apenas me olha e tão brevemente seu olhar confirma: cheguei a tempo: era só eu quem faltava para a sua partida. Entrega-me, então, seu último fôlego.

 

Meu nome de batismo e registro é Lygia Fernandes, mas durante 36 anos, sempre às tardes, sempre no meu apartamento, fui a sua Lio. E nos amamos, dançamos, rimos juntos como todos os animais que se amam com fervor. Anos à sua sombra: eu nasci para ser a sua sombra. Agora mesmo, que eu o tenho morto em minhas mãos, estou à sombra de sua morte e nela permanecerei, como se morta também estivesse.

Os obituários estão prontos, amanhã vão noticiar. Em vão, jornalistas do mundo todo virão me buscar para a triste inquisição. Eu negarei tudo, nada direi a mais. Não contarei que o bardo roncava e não tinha chulé. Nem as palavras obscenas de sua preferência, recitadas ao meu ouvido, quando eu lhe pedia decifra-me, e ele me devorava.

 

Decifra-me.

O defunto amado apenas sorri:

Quer se prevalecer do meu corpo inerte?

Quero que desvende a minha poesia escassa. Quero que me responda o que eu nunca perguntei, o que nunca aprendi (agora é tarde?).

A sua poesia de banheiro, você cansou de dizer, ele sorri, de novo.

 

 

***

 

 

Lembra-se do poema de amor, abril de 1974? A dedicatória?

Eu nunca esqueço. Estava escrito: Charlie, nu em pelo.

Pronto, nada mais a declarar. Tudo o que eu quis dizer, está escrito.

Mas eu não estou falando de amor. Já nos falamos tudo do amor. Quero saber da poesia, da inspiração: é coisa do destino, é arranjo da genética? A gente já nasce com ela? Como se nasce de olhos azuis ou castanhos?

Ah, os olhos. É preciso revirá-los, mantê-los atentos, há que haver intenção no olhar, olhos de observar, de ler, de ler até o silêncio das coisas inauditas. Os olhos têm de ser mágicos, constantemente atados à imaginação. Os olhos são importante instrumento de criação…

Borges era cego.

Falo de outros olhos, que têm tato, consegue perceber? Os olhos de dentro.

Sim, os olhos profundos, de mergulhador, eu percebo.

Então…

Não acabei: e os adjetivos tontos?

Sobre isso eu cansei de dizer: entre dois deles, escolha um substantivo. E não me leve ao pé da letra, por favor. (Os seus são pequenos arremedos de metáforas abortadas, covardes).

E você me amou assim mesmo.

Assim.

Superficial (eu nunca desmaiei).

Assim.

Com todos os meus temores e insignificâncias.

Assim. Tire a roupa! Tire tudo. Fique pelada, entendeu? Mostre as estrias, a celulite, a flacidez. Mostre à poesia o que cansou de mostrar a mim. Não lhe negue nenhum pedaço de você. A musa é uma puta a quem se deve esperar e se entregar completamente despojado, sempre.

Por favor, você pode.

Não posso dizer o indizível.

Mas você exerceu o cargo de poeta como se fosse um servidor público, batendo ponto, a vida inteira, ano a ano, mês a mês, dia a dia, minuto a minuto. Explique-me: de que substância foi feita a sua imaginação? De onde arrancou esses olhos?

Que o amante manteve fechados. E calados. Repetindo em silêncio que não era um deus, que era ínfimo (além de tímido, sem graça).

Você dizia que a sua escrita era a sua terapia. Devo acreditar então que todo poeta é louco?

Deve deixar-me em paz. A paz sonhada em verso, em prosa, a paz da paz da paz: aquela que me faltou enquanto eu vivia.

 

Então me dou conta de que ele não está mais ali, somente o peito mudo.

Nunca mais, penso (aniquilada).

Nunca mais, choro (discreta).

Nunca mais, reajo (intrépida).

Antes que me tomem seu corpo arredio — seu andar curvado, de cabeça baixa, braços colados às pernas, o ar antigo de seminarista — antes que me levem a sua alma, antes que me arranquem o seu coração, insisto:

Eu quero a senha.

O poeta abre os olhos e a boca, puxa a dentadura com a língua, deixa-a pendurada nos lábios, a careta desfazendo-se num sorriso descomunal, teimoso, de goiaba vermelha e madura. Com voz pálida e murcha, anuncia — assim na morte, como na vida —, irredutível:

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

 

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora. Organizou e participou de algumas coletâneas, entre elas, Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Jorge Mendes

 

Foto: María Tudela

 

SOBRE OS OMBROS DO VENTO VELOZ QUE ME LEVA

 

ontologia voraz

 

o tempo tem dentes afiados e come pelas bordas. você não percebe o estrago, a erosão abrindo buracos escuros no peito e pratica esportes monocromáticos, se socializa com os vermes, decora as senhas. segue o esquema. o tempo é um bom cão de caça e se alimenta de sombras e psicopatologias. você sente calafrios, flutua entre nuvens desidratas, faz pactos com a insolvência, é seduzido pelos que sabem manipular o gelo. o tempo tem os olhos de vidro que embaçam e hipnotizam e você não está vivo nem morto e ninguém dá a mínima. o tempo sofre do vício em adrenalina e vertigens. o tempo sussurra em seus ouvidos o primeiro nome do inimigo e engatilha a pistola nos seus tímpanos. o tempo está parado na esquina vendendo relógios, negociando destroços e doenças de pele. o tempo acumula rancores e vaidades em caixinhas espelhadas. o tempo entra no mormaço, trava o coração. o tempo tem as pontas dos dedos geladas e um manto negro sobre os ombros. o tempo vai domesticar todos os sonhos, corromper a natureza dos pássaros. o tempo é o outro, todos os outros.

 

 

 

***

 

 

 

sitiado

 

cercado por bichinhos de estimação, orquídeas rancorosas e teorias motivacionais. cercado por perfis megalomaníacos, necrológicos recreativos e hinos de louvor. cercado por incensos e britadeiras. cercado pelo bizarro, por imagens da destruição e helicópteros. cercado pelos cães da polícia militar, gerentes do tráfico e garotas anoréticas que me monitoram pelo google. cercado por flores de perfumes degradantes, por pássaros autistas, gatos obesos e crianças em tons de cinza. cercado por energéticos, depressivos, anticorrosivos. cercado pelas vozes dos alto-falantes, por fogos de artifício, pelos gritos e tiros de ar-15. cercado pelo mormaço, pelo frio calor. cercado por corpos e objetos que provocam dor e fazem sangrar. cercado por máscaras, próteses, luvas de borracha, gadgets e metáforas da carnificina. cercado por deuses de plástico e caixas de supermercado. cercado por passeatas e paredes, orixás, gases lacrimogêneos e erva daninha. cercado pelo invisível horror e por todo o lixo que existe ao meu redor.

 

 

 

***

 

 

 

necrosociety

 

é preciso acalmar o medo com voos panorâmicos no elevador de vidro, próteses sensoriais, tabletes, ansiolíticos. é preciso acalmar o medo levantando peso, clareando os dentes, eliminando gordura. é preciso acalmar o medo com mantras, mentiras, hinos de louvor, esgoto, efusões de ervas mágicas, gadgets. é preciso acalmar o medo bebendo do veneno incandescente. é preciso acalmar o medo no comércio dos corpos, na sala escura com aparelhos de tv, indo dançar com os trapaceiros. é preciso acalmar o medo negociando com os deuses e os demônios da dissimulação, com doses cavalares de tédio e tinturas para o rosto. é preciso acalmar o medo com alvejantes, sucos de clorofila, recebendo propinas e espíritos da maledicência. é preciso acalmar o medo com barbitúricos líricos, falcatruas, câmeras de segurança, estelionato. é preciso acalmar o medo molhando de sangue, suborno e miséria as mãos dos homens públicos. é preciso acalmar o medo ficando rígido e desidratado. é preciso acalmar o medo como fazem os cadáveres.

 

 

 

***

 

 

 

addiction blues

 

ela diz que sou feio, confuso e indiferente à luz do sol e tenta me prender dentro do cubo de gelo. ela simula caridade e ataques cardíacos pra que eu entre em transe e frite na fervura. em seu planetinha corrosivo existem plantas carnívoras, tempestades elétricas, cocaína. ela corrompe minha natureza de pássaro, me passa malária e os barbitúricos. ela se finge de morta e eu só no conhaque. ela lê o que escrevo sentada só de calcinha na mesa da cozinha e diz que não tem tempo nem paciência prus meus paradoxos e viagens suicidas ao redor do fogo. ela ri do meu medo, me aprisiona em espelhos que são frios frios frios. ela me leva pru fundo do mar e me deixa anêmico, aflito, incomunicável. ela tem um jeito de mexer nos cabelos curtos que desestabiliza as sólidas estruturas. ela me olha de longe, sem piscar, e ainda dói. ela me beija com desespero e ternura, ela me ama com tigres e punhais, ela corrói meu voo de ícaro, apaga meus passos, me abandona em labirintos, acende meu desejo, morde meus mamilos e é por isso que eu bebo.

 

 

 

***

 

 

 

ininteligível       

 

existe algo de sublime e sujo no amor. algo que faz o assoalho tremer e que incomoda a vizinhança. existe algo no amor que fura a pele e deixa rastros de sangue pelo chão da cozinha. existe algo no amor que provoca febres, corrosões, desmoronamentos. existe algo no amor que embriaga os pássaros e nos faz dançar violentos e descontrolados ao redor da fogueira. existe algo no amor que é doce, ácido, incandescente. existe algo no amor que alucina, causa sonambulismo, desafia a gravidade e faz voar. existe algo no amor que provoca espasmos, psicoses, infecções e ainda goza. existe algo no amor que cavalga os ventos, arranha a carne e as paredes, corta os cabelos bem curtos, abre oceanos e produz cegueira e uma severa forma de dor. existe algo no amor que não tem cura, que é loucura, perversidade e canibalismo. existe algo no amor que dispensa explicação.

 

 

 

***

 

 

 

chroma key

 

um romance parecido com filme super 8 e rastros de fogo. um romance com hálito de vodca, com formigas correndo na corrente sanguínea, pista magnética e flores carnívoras. um romance que solte as mãos na curva fechada, que abra asas quando pular do décimo segundo andar. um romance atravessado na calçada atrapalhando os pedestres. um romance sem dia seguinte, com olheiras fundas e olhar obstinado. um romance volátil que levite sobre os incêndios. um romance com os cabelos molhados pela tempestade, que solte faíscas e choque elétrico a cada beijo. um romance inesperado, sem ponto final, que comece pelo fim, que encante meu corpo e me faça dançar o blues.

 

 

 

***

 

 

 

sobre os ombros do vento veloz que me leva

 

talvez não haja tempo nem paciência pra esperar pelo sol. preciso acender fogueiras e deixar o fogo se alastrar. a garota linda me ama e me odeia e mora longe numa casa cheia de gatinhos psicóticos. eu encaro paredes, minto pru chefe e pru sub-chefe e de noite viro dragão da lua e faço sobrevoos. existe dor nas coisas que toco com a ponta dos dedos, pessoas insalubres no fim do arco-íris, dissonâncias e tempestades que não me deixam mentir. sigo só de encontro ao inimigo. por livre e espontânea vontade caio em todas as armadilhas. sou fraco para os cálculos. talvez não haja amor, doses de conhaque, neblina e manhã seguinte. preciso ir.

 

 

 

***

 

 

 

devir

 

para o medo da morte doses cavalares de adrenalina e nuvens. para o desejo que arde fogo alto, brasa viva, solstício. para o beijo outro beijo outro beijo outro beijo. para o sangue que corre pelas veias oxigênio e matilha. para os olhos andrômedas, luas de virgem, calafrios. para o passado, o presente e o futuro as águas dos rios, a dura luz do dia. para todas as coisas que existem e para as que estão por vir o fundo do mar, a matemática do sol, a pureza do sal e o que escrevo aqui sozinho.

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: María Tudela

 

A FRESTA

 

— “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano”.

A voz ecoou majestosa, como se amplificada pelo vão de uma catedral gótica, a abóbada central da nave se esticando para os céus entre a devoção e a afronta. Soberba, diria Dona Antônia com a mesma voz tonitruante que tinha agora no alto da escada. Não estava em uma catedral gótica, nunca mesmo tinha entrado em uma, nem mesmo aquela no Largo dos Mares, imitação moderna e que achava vulgar. Gosta da sua. O pastor transformou um antigo galpão em templo. O teto era altíssimo. No lugar de janelas para a rua, as paredes eram pintadas como um céu azul. Quando se apagavam as luzes e se deixava apenas a iluminação nas paredes, era como se já estivessem todos no céu. Ela se sentia abençoada por estar ali. Cantava o louvor com fé e força, a voz enchendo toda a amplidão.

Mas Dona Antônia não estava no templo. A voz soava amplificada porque metia a cabeça para dentro do armário de mantimentos. Acabava de limpar quando falou.

— O cedro cresce lento, menina, mas cresce alto e forte. Tem de ter fé.

— Ah! Don’Antônia, às vezes eu desanimo. Não vou mentir. Nem sei mais o que…

— Passa as latas.

Luciana passou algumas latas de milho e extrato de tomate para a mulher, que, do alto da escada, foi incisiva.

— Mas precisa ser um rapaz da igreja. Nada de homem do mundo. Esses não dão futuro pra mulher nenhuma. O primo de Nalva?

— Quer nada comigo, não.

— O macarrão, não. Deixa aí fora. Vou fazer uma sopa pra de noite… levar pra Dona Almira.  A filha está de plantão hoje.

— Domingo? Vida de enfermeira é pesada.

— Ela não chega a ser enfermeira. É técnica. Limpa os pacientes. Ganha pouco. É outra que devia ter casado logo. A mãe viúva, doente…. se eu não ajudo, nem sei. Tem de ter caridade, minha filha… e casar bem.

— A senhora casou cedo.

— Casei. Barreto me viu no culto e falou com meu pai. Era bonito, bem vestido. A oficina era pequena, mas tinha jeito de crescer. Já tinha o dobro do tamanho quando a gente casou.

— Que bênção.

— Você sabe em que o primo da Nalva trabalha?

Luciana fez um gesto de negativa enquanto entregava o pacote de macarrão. Dona Antônia recebeu o pacote com impaciência. A menina não percebeu o olhar e continuou passado pacotes e latas.

— Luciana, você precisa prestar mais atenção. Tem de se interessar pelas pessoas, saber o que fazem, onde trabalham. Você não conversa com ninguém depois do culto. Como é que alguém vai se interessar por você?

— Fico com vergonha.

— Ter vergonha é bom… ser recatada. É uma boa qualidade numa moça, mas converse, seja mais alegre.

— Vou me esforçar.

— Bem. Aqui já acabou.

Dona Antônia desceu a escada com o pacote de macarrão na mão. Colocou na mesa e recolheu a escada para levar para o quintal.

— Vamos tomar um cafezinho agora.

— Eu preparo.

— Obrigado, minha filha. Sem barulho. Não acorda Barreto.

No quintal, colocou a escada encostada no muro e subiu a outra escada, a de concreto, para a laje. Dois lances. A casa tinha dois pavimentos e, no alto, uma área coberta onde ela estendia a roupa lavada e o marido fazia churrascos. De lá de cima podia ver todo o bairro com suas casas baixas. A torre da Igreja dos Mares aparecia de costas. Não dava pra ver a Igreja do Bonfim dali. A ostentação dos católicos, dizia o Pastor. “E destruirei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas”. Pegou as roupas na corda e desceu, desta vez, por dentro da casa. Passou pelo andar dos quartos e ouviu o ronco do marido. A porta do quarto estava aberta. Encostou um pouco, sem fechar totalmente. Fazia calor. Desceu com as roupas para a sala de estar.

— A água está esquentando.

— Obrigado. Vou dobrar essas roupas, mas não vou passar hoje, não. Fiz muito pra um domingo. Amanhã eu passo com calma.

— A senhora é tão jeitosa.

— Gosto de minha casa arrumada.

— Quero a minha assim quando casar. Aqui no bairro não tem casa mais bem cuidada.

— Você vai ter sua casa. É direita. Deus recompensa.

Luciana olhava pela janela. Apenas três crianças brincavam perto.

— Aqui é bem calmo. Lá na rua tem pagode o final de semana todo.

— Fui abençoada. A vizinhança é boa.

— E essa moça aí do lado, como é mesmo o nome dela?

Dona Antônia dobrava uma camisa do marido. Um dobrar que deveria ser displicente — ainda ia engomar —, mas começou a acertar o vinco do colarinho com a mão. Forçava o lugar da dobra com a unha.

— Deixa a vida dos outros, menina. Essa é uma ovelha perdida.

— Dizem que ela tem um monte de homem. Será?

— Eu não fico me metendo na vida dos outros, não. É policial. Anda com homens por causa disso.

— Será que já atirou em alguém?

— Mulher policial… É coisa que não concordo. Profissão de homem. Mora aí sozinha. Que futuro pode ter? Trato bem, não tenho preconceito, mas não acho que seja boa amizade.

— Mas é importante a mulher ter uma profissão, Don’Antônia. Acho a farda bonita.

Dona Antônia suspirou fundo.

— Você fica aí pensando besteira… vai acabar solteirona.

— Mas tem mulher policial casada. Tudo direitinho… Don’Antônia, espia. É ela? Esse é o namorado?  Um rapaz bem apessoado… parece direito. Vão passear.

— “Não tenha teu coração inveja dos pecadores; antes sê no temor do senhor todo o dia”.

— Oxe, Don’Antônia. Né isso não. Acho bonito passear domingo de tarde, um sorvete na Ribeira. Eles passeiam sempre?

— Deixe de ser fofoqueira. Vai ver a água do café. Anda.

Luciana sumiu para a cozinha. Dona Antônia ficou olhando para a janela. Do sofá via apenas o céu. A tarde começava a cair. Demorou-se um tempo e foi até a janela. Não chegou a olhar para fora. Apenas murmurou enquanto fechava a janela: “porque da janela da minha casa, olhando eu por minhas frestas”. Voltou às roupas. De lá de dentro, Luciana perguntou se tinha falado alguma coisa. Ela respondeu que estava relembrando uma passagem da Bíblia: “E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro com enfeites de prostituta, e astúcia de coração.” Ela recitava provérbios 7.

— Que passagem?

Luciana voltava com o café em uma bandeja.

— Aquele salmo que eu estava lhe dizendo.

— O 92.

— Muito bem. Vejo que está estudando. “Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus.” Lembre bem disso, Luciana. Só assim você encontra a graça. Fora da palavra só existe danação.

A moça concordou de cabeça baixa.

— Pega uns biscoitos?

A moça saiu da sala e Dona Antônia voltou à janela. Decidiu que não valia a pena passar calor e a abriu novamente. Luciana voltou com biscoitos salgados.

— Pega aqueles amanteigados. São mais gostosos. Tem uns chocolates no armário. Pega também.

— Mesmo?

— Só um pouquinho não é gula. Vai. Vou guardar a roupa no quarto.

Dona Antônia pegou as roupas e subiu as escadas. Mal chegou ao andar, já podia ouvir o ronco do marido. Abriu a porta devagar. O homem dormia de lado. Estava sem camisa. A barriga grande e peluda avançava para o lado em que ela dormia. Sobrava pouco espaço, caso ela quisesse deitar. As coisas se acomodam, respondeu para uma pessoa imaginária que lhe perguntava como ela fazia para dormir. Deixou a roupa sobre uma cômoda e foi para a janela. Abriu uma fresta e avançou o olhar para a casa vizinha. De sua janela, no alto, podia ver a janela do quarto da vizinha. Dali podia ver parte de uma televisão. Às vezes vinha ver o que a mulher gostava de assistir. Achava que policiais viam filmes policiais, mas não era verdade. A mulher via os mesmos programas de todo mundo. Nada demais. Podia ver, também, um pedaço da cama. O lado vazio. A mulher costumava dormir do outro lado.  Aquele vazio era sempre ocupado por homens. Não eram tantos como diziam as fofocas. A mulher de fato já tinha tido muitos namorados, mas com esse estava já há algum tempo. A cama estava vazia naquele instante, mas Dona Antônia tinha bem viva a memória da noite anterior. Tinha visto os dois se amando. Ficou com vergonha de ver a nudez tão franca daquele homem, a maneira como se curvava para amá-la, lento, carinhoso. Quase uma devoção. Fechou a janela pra não ver, mas não conseguiu fechar tudo. Uma fresta. Por ali entrou a imagem da mulher, o rosto de contentamento durante o gozo — “o meu amado pôs a sua mão pela fresta da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor dele”. Depois do gozo, vieram as risadas frouxas. A felicidade. Fechou a janela, fechou os olhos. A cama vazia ainda rescendia a amor naquela tarde de domingo. Olhou para a própria cama. O marido ocupava quase tudo. Não havia lugar para mais nada.

Desceu para a sala. A mesa para o café estava posta. Louvou a arrumação que a moça tinha feito.

— Uma casa arrumada é convite para o amor, Luciana. Parabéns.

A moça corou. Não se decidia entre a vergonha e o orgulho enquanto servia os cafés, os biscoitos e o chocolate.

— Depois do café, vamos fazer a sopa. Vou lhe ensinar uma receita muito boa.

Dona Antônia, antes mesmo de tomar um gole de café, numa ânsia disfarçada, enfiou um pedaço de chocolate na boca.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Tem sete livros publicados, entre os quais “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015)  e “Cada dia sobre a terra” (Contos, Editora Caramurê, 2010). Seu oitavo livro, “Café molotov” (Contos, Ed. 7Letras, 2018) será lançado em agosto/2018.

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Foto: María Tudela

 

 COPA & FLERTE COM O SURREALISMO​​

 

Anos depois de haverem participado da última viagem do Trem Carthago, Olegário Trombeta e Anarquista Raspok se encontraram na Padaria Progresso para uma aguinha Xambuquira, gelo e raspa de tangerina. Ao fundo, a TV Pegada Atômica transmite o jogo Brasil x Bélgica:

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Enquanto vemos os jogos da Copa, releio a poesia de nosso cubista  tropical Vicente do Rego Monteiro,  tão injustamente esquecido como quase tudo em nosso país…

 

ANARQUISTA RASPOK | Naqueles tempos, se você saísse de terno sem gravata, ou saísse da igreja no meio do sermão… era linchado. Meu pai ia de terno e gravata para o cinema.  Tarsila se torna assim a miss paraquedista da época.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Realmente surrealista entre os modernistas, além de Murilo Mendes, é o Raul Bopp. Acho que poderíamos incluir no Surrealismo, ao lado do Jorge de Lima, o Nelson Rodrigues e o… Barão de Itararé.

 

ANARQUISTA RASPOK | O sonho do Oswald Lelé era ser a encarnação do Bispo Sardinha. O mais perto que chegou foi exatamente a mordida na canela que lhe deu Tarsila. Bopp tem um bom livrinho em que narra o caos fumegante dos bastidores da Antropofagia. Todos comiam as canelas de todos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | A entrada de Tarsila pela janela deve-se provavelmente à sua fase antropofágica, quando mordeu a perna do Oswald. A questão é saber se… ele gostou.

 

ANARQUISTA RASPOK | Então agora, da antropofagia, só sobram,  de autênticos, os índios Caetés… Depois do churrasco do Bispo, os Caetés passaram a falar latim. Mas este fato foi oculto pelas autoridades coloniais por ordem expressa do Palácio das  Necessidades. Foi um golpe cruel  na nossa nascente linguística.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ficamos entre o tupi e o latim. Latimos enxotando a latinidade.  Com o tempo o latim virou pó.  Dissemos adiós a nosotros.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Latim é um cachorro teimoso… Não nos deixa assim tão fácil.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O latim não nos deixa nunca. Nós é que nos abandonamos. Moramos em casas suspensas  sem quintal e não nos reconhecemos nos vizinhos. Nem temos com quem falar.  O tempo foge de nós.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tenho plano maquiavélico… Vou comprar um papagaio, batizá-lo de Plotino… e deixá-lo de estágio num convento jesuíta com  severas instruções de que só falem latim com o plumoso… Depois de dez anos de estágio, eu o trago pro meu gabinete.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Prof. Plotino Currupaco pode ministrar cursos de latim relâmpago e, tendo ele formação jesuística, pode reformular a etimologia indígena herdada de nossos ancestrais antes da Grande Gripe que varreu da terra.

 

ANARQUISTA RASPOK | Após a Grande Gripe, quando a população já estava completamente dizimada, inventaram o Xarope Pylathos contra tosse, gripe e bronquite.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Então já era tarde e a única invenção que vingou foi a metáfora de circunstâncias que propiciou a irradiação das colônias liliputianas.

 

ANARQUISTA RASPOK |… e um bom discurso do Rei elogiando  o patriótico sacrifício da população.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Contudo, a população já se encontrava surda e o Rei, temendo que espiões registrassem as entrelinhas de seu discurso, o fez com a mão cobrindo os lábios.

 

ANARQUISTA RASPOK | A moda do Rei de tapar a boca pra falar pegou na tevê. Até os jogadores de futebol, durante e até depois do jogo, tapam a boca pra conversar.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Pura presunção, de ambos, de acharem que suas falas despertem algum interesse. O Rei no gramado sintético e o goleador em sua torre de acrílico, alheio a tudo.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Rei encomendou uma roupa no alfaiate mago pra ficar invisível. Mas só a roupa ficou invisível. E o Rei… ficou nu.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O jogador encomendou uma torcida para gritar cada vez que ele fizesse gol, mas, como o gol não saiu, a torcida resolveu gritar mesmo assim…

 

ANARQUISTA RASPOK | O craque porém pegou o grilo, jogou-o contra a parede e ploffftttttt!!! sentou-lhe o martelo. O Rei, por sua vez real, escolado político, ainda se demora entre variadas soluções.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ora, há um momento em que ambos se igualam, quando rei e goleador coçam atrás da orelha e descobrem que ali mora um grilo surdo e sábio, que em morse bem pausado aos dois transmite o irremediável carteado da solidão.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tamanha distância entre as duas reações propiciou o surgimento de uma geração a mais de grilos sábios que, a cada nascimento, punha na estreita mente do rei e do goleador uma culpa sorrateira por serem tão iguais e ao mesmo tempo tão distantes entre si.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | As respostas se multiplicam sem eliminar as perguntas. Viva a pilha do gato.

 

ANARQUISTA RASPOK | Pilha dos sete gatos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Há uma caixinha especial com metade de meia dúzia, que acompanha um jogo de felpudas almofadas. Uma afoita gatinha ronrona na foto da capa.

 

ANARQUISTA RASPOK | Petekas saidinhas fazem piruetas enquanto os editores cruzam palavras no tabuleiro da Baiana Leocádia…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | revista Guapo Azteka… não deixa cair a peteka.

 

ANARQUISTA RASPOK | Os editores em geral não querem correr riscos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Editores correm de riscos. E fazem uma risca limitando suas ações… Creio que há uma escola onde aprendem a arte do capitalismo sem risco.

 

ANARQUISTA RASPOK | certamente num armazém portuga…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Lá bem no fundo do armazém, por trás de uns caixotes velhos da melhor Cubunquira.

 

ANARQUISTA RASPOK | Lendo no Jornal dos Sports as mazelas do Vasco.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | GOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Foto: María Tudela

 

UM MOEDOR DE CARNE NO LUGAR DO CORAÇÃO

Ele se escorou no muro, acendeu um cigarro e por algum tempo apenas ficou por ali, olhando para a casa como se olhasse para um velho inimigo. Passavam das duas da manhã. De tempos em tempos um carro cruzava a rua e, a alguns metros, dois mendigos discutiam por causa de uma garrafa de corote. Por algum motivo, pensou na velha estrada margeada por brejos que levava até as serras, lá onde tinha crescido, e em como ela era íngreme e cheia de pedras em algumas partes. Mesmo hoje ninguém andava muito por ali.

A casa estava cercada pelo mato e uma trepadeira cobria a janela de um dos quartos. Quem passasse certamente imaginaria que ninguém mais vivia naquele lugar. Mas ele tocou a campainha e, não demorou muito, uma luz se acendeu lá dentro. Escutou os passos sobre o piso de tábuas. O branco do olho mágico ficou negro. E a porta se entreabriu.

– O que você quer? – a mulher perguntou com a cara amassada.

– A gente precisa conversar.

– Não quero que ninguém te veja aqui, vá embora. Não temos mais nada para conversar.

– Não soube do que aconteceu?

– Não, não soube. Que história é essa?

– Deixa eu entrar. Você vai gostar de saber.

– Que merda! – ela resmungou, tirando a corrente da porta e a abrindo.

Por dentro a casa parecia ainda pior. Os quadros tortos nas paredes rachadas e com teias de aranhas, os móveis empoeirados, o chão sujo. No ar, um cheiro entorpecedor, a mistura do mofo e de algo apodrecido. Talvez fosse o corpo de alguém. Sentou-se numa das poltronas da sala e uma pequena nuvem de poeira instantaneamente subiu, como se há tempos ninguém se sentasse ali. Ela estava de pé à sua frente, com os braços cruzados. Devia ter envelhecido uns vinte anos e engordado pelo menos quinze quilos. O rosto estava cheio de vincos.

– Diz logo.

– Posso fumar antes? – ele tirou o maço de cigarros do bolso da camisa. –  Se não for um incômodo.

Ela não respondeu. Ele acendeu o cigarro e tragou forte e lentamente, soltando a fumaça em seguida.

– Você está bem – ele falou. – Quer dizer, imaginei que estivesse pior. Ainda tem aquele olhar.

– O que é que você tem para me falar?

– Ah. Pensei que já soubesse. Não lê os jornais?

– Às vezes.

– Bem, saiu hoje no jornal da cidade. Estava lá, na penúltima página.

– O quê?

– Eles encerraram o caso. Nenhuma pista nova nos últimos anos. Crime sem solução.

Ela permaneceu alguns segundos calada, olhando para ele. Então se sentou, cruzou as pernas e acomodou os seus pesados braços sobre os braços empoeirados da poltrona.

– Nossa.

– É.

– Puxa, e todos aqueles interrogatórios, detectores de mentiras e o caralho a quatro, pra nada… Em alguns dias cheguei a pensar que não aguentaria…

– Eu também cheguei a me arrepender. Quando comecei a pensar.

Ela o encarou, e o seu rosto parecia bruto e indecifrável como naquele dia.

– Deixa eu te dizer uma coisa sobre arrependimento: não existe, sobre toda essa terra, um único filho da puta que se salve, que tenha o coração limpo. A não ser as crianças, claro. As crianças herdarão o reino dos céus. Tenho certeza disso. O resto não presta, são bichos soltos numa selva. E no meio dessa selva, aquele cretino foi o pior e mais impiedoso animal que já conheci. Não tinha alma, o desgraçado. No lugar do coração, carregava um moedor de carne enferrujado… Uma hora ele ia acabar me matando.

– Mas você foi mais esperta. Tem uma mente e tanto pra coisas assim.

– Que porcaria de conversa é essa? Você também ia receber a sua parte se o seguro pagasse.

Ele sorriu e um buraco negro abriu-se em um dos caninos.

– Não tem um café? Um daqueles. Pra gente brindar.

Enquanto esperava a água ferver, ela levou as mãos às costas e tirou da cintura o revolver 32 que pegara quando a campainha tocou. Girou o tambor e ficou olhando para ele, para as balas acomodadas ali dentro. Calculou que de alguma forma o passado sempre seria uma presença hostil. Mesmo agora, com aquela notícia no jornal. Ela sabia que nunca esqueceria das coisas que precisava esquecer. Pegou a lata de café e despejou três colheres no coador, depois colocou dois dedos de conhaque em cada copo.

Ele estava reclinado sobre a poltrona. Havia cruzado as pernas e fumava outro cigarro.

– Ele está em algum lugar aqui perto, não é? – perguntou assim que ela lhe entregou a xícara.

– Que importa?

– Eu sei. Já não faz diferença. Nunca fez. Mas é que às vezes eu ficava pensando. Acho que é por isso você nunca se mudou daqui.

– Está enganado.

– Estou? Sabia que sonho com ele todas as noites?

– Sério?

– Sim. Quase sempre estou aqui, no meio da sala, mas é ele quem tem a porra da arma na mão. E aponta pra mim e diz, “você precisa me dizer em que lugar ela me enterrou!…”, e então atira. E é nessa hora que eu acordo. Às vezes a gente está lá fora, no quintal, e ele vira pra mim e pergunta, “é aqui?”, e, como eu não sei responder, ele atira.

– Que besteira isso.

– Pode ser.

Os dois ficaram em silêncio. Havia uma espécie de fio invisível cruzando a sala, o fio que ainda ligava os dois. Uma década antes, à sombra de uma paixão, eles haviam tramado e executado a morte de um homem. Mas, jovem e inseguro, ele se assustou e o corpo ficou ali, no corredor que levava aos quartos. Nunca soube o que ela fez.

– Tem mais conhaque?

Ela foi até a cozinha e trouxe a garrafa.

– E agora? – ele perguntou.

– Agora o quê?

– Que vai fazer? Pode ir embora, se quiser. É o que pretendo. Já estou de saco cheio dessa bosta de lugar.

– Acho que vou ficar por aqui. Já me acostumei. E ninguém compraria esta casa.

Ele deu um gole no conhaque e pensou em acender outro cigarro, mas sabia que não poderia ficar por muito tempo. Olhou para ela e perguntou:

– Ele está no quintal, não é?

– Você é insistente. Não sei por que quer saber.

– Curiosidade. Sabe que mergulhei tão fundo quanto você.

– Está – ela respondeu. – Perto da cerca, bem embaixo da amendoeira. Está satisfeito?

– Perto da amendoeira?

– Sim. No lugar em que ele enterrou os cachorros.

Falou aquilo e achou engraçado, tanto que quase sorriu. Pensou que não enterrara apenas a ele, mas também a si. Os dois e os cachorros. Para sempre. Mas então havia aquela notícia no jornal, ela que lhe trouxe algum alívio. Enfim tinha a certeza de que acabaria ali, dentro daquela casa, cada vez mais só. Pensava nisso e também em como tudo aconteceu, no que veio depois, naquilo em que se transformou, quando de um instante para o outro a porta da sala veio abaixo e aqueles homens entraram, todos vestidos de preto, armados. E, instantaneamente, ela teve consciência de tudo – de que nunca houvera sonho ou notícia no jornal. Puxou o 32 da cintura e apontou para ele, ainda sentado no sofá. Encheria aquele filho da puta de balas, era o que merecia. Antes que atirasse, no entanto, levou três tiros, tombou para a frente e caiu morta no chão.

Eram quase quatro e meia da manhã e cinco ou seis homens cavavam a terra ao pé da amendoeira no quintal. Depois que lhe tiraram o pequeno microfone grudado com uma fita em seu peito, ele foi liberado. Não desapareça, um dos homens disse. Ele atravessou a rua e caminhou pelo passeio até a velha caminhonete estacionada do outro lado. O céu, completamente escuro quando havia chegado, agora tinha pequenos riscos cor de rosa e azul. Tornou a pensar na estrada que levava às serras e em como eram bonitas e iluminadas aquelas noites quando era somente um moleque. Quem sabe voltasse para lá. Era um bom lugar para recomeçar, assim como para desistir. E ele poderia ficar sentado numa varanda, observando as estrelas no céu, acompanhando-as mudarem de lugar. Apenas ele, o barulho dos grilos e um cachorro qualquer.

Ligou a caminhonete, conferiu se vinha algum outro carro e saiu.

 

Rodrigo Melo escreve prosa e poesia. Tem três livros publicados. Vive em Ilhéus, no sul da Bahia. Este conto foi publicado na coletânea “O outro lado da notícia” (editora @link), organização de Daniel Lopes e Marcia Barbieri.