Para Marceli Andressa Becker– minha terna “Beck”, neta da filha que não tive.
Do beiral a menina se escora na janela do décimo primeiro andar, amanhecidas desde a madrugada as pernas, dobradas sobre joelhos de sereia, como a escultura de proa num navio vertical em concreto armado, hora ou outra a ouvir nas barbatanas o trinar do elevador, chegando e saindo do andar, submergindo nas escotilhas opacas, acima, abaixo, apreende lições sonoras de mergulho.
Não nasce o dia sem uma lasca de falta trágica.
Lançar-se desde o alto ao lago de asfalto morno, desde a respiração refez incontáveis vezes o salto aquático, fecha os olhos feito Tirésias e vê-se com braços e pernas de nadadora experiente perfurando a atmosfera. Um mínimo oráculo do destino estatístico, daria no jornal numa das páginas subalternas, talvez nem nelas, em algum site lado B desses que trabalhara na época do namoro com Roberto.
Vem serpentino, de um dos tantos e tantos apartamentos sem face, aquele gesto de café recém-feito lhe acolhendo pelo olfato, como o pai quando chegava do serviço lhe dando um pequenino piparote na ponta da narina.
Não é bem o café café, esse café, é outro café, outro odor do fundo recordado, ternura feita em novelo de lã, ternura de sopro cálido sob as costas da orelha amante, ternura na espuma da quietude magra. Escondida sob indiferença urbana, como seu par de meias lilás embaixo da coberta cinza, o lírico que lhe apalpa as miúdas pestanas pisca sorrisos de querer vez outra ainda hoje.
Silvia Szymanowisky, 13 de março de 2010
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Tratado sobre a velhice
Dos últimos anos para cá fiquei obcecada por imaginar aterros. É velhice, sei disso e não precisa avisar.
Penso naqueles mineiros, não os nascidos em Minas, claro. Homens e mulheres descendo diariamente para colher carvão. É isso que vejo diante de mim.
A velhice é uma doença, menos grave que a da juventude, mas é.
Jamais me chame de idosa, isso não aceito porque estou na idade de não aceitar nem o aceitar. Quando a menina me disse querendo ser caridosa: “mas a senhora não é velha, é idosa”, dei-lhe várias bengaladas na cabeça.
Gastei quase quatro idades daquela garota para que me chame de idosa? E esse ideograma chinês feito por um bêbado igualmente chinês na minha cara? Tente apagar essas rugas todas então, minha filha.
Não, não é isso, inveja por já ter consumido quatro idades, é por olhar a moça e pensar que somos tão parecidas, se tivesse mais quatro idades dessas guardadas na poupança faria o mesmo que fiz, pouco, muito pouco.
Talvez começasse a beber chá antes e mais nada.
Ranzinza? Claro que sou, estou no direito consuetudinário de sê-lo, amargada pelo excesso de chá de tília tomado ao longo de duas décadas!
E os homens e mulheres descendo diariamente nas minas. Logo estarei lá pra baixo sem saber subir.
Preparada para morte? Só os velhos mais idiotas dizem isso, tomando 25 comprimidos diferentes se souberem que no Camboja há uma epidemia de gripe.
Esses velhos preparados, prontos, são os mais histéricos quanto à morte, tanto medo que já levam uma lápide no lugar da cara.
Que os jovens são idiotas, todos, sem exceção, é sabido, mas dizer que velhos são sábios, oráculos que acumularam experiência, isso sim é idiotice das brabas.
Não tenho gatos, não sou nenhuma velha clássica de filme ruim. Tenho plantas porque são mudas no meu idioma, ainda bem, a presença de algo humano me dá urticárias.
Ora, para quem escrevo então? Escrevo para as paredes, e um pouco para que as dores de minhas juntas fiquem quietas lendo.
Aterros, minas de carvão, bueiros e buracos.
Medo da morte? Não tenho. Meu medo é que lá, sabe-se onde, não tenha chá.
E comecei há anos a aprender o silêncio, assim, quando não voltar de lá, ao menos irei sabendo a língua deles.
Clara de Almeida Corbin , 05 de setembro de 2003
Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética, História da Arte e Teoria da Imagem. Nas horas vagas, passa seu tempo esculpindo ausências.
Silvia Szymanowisky nasceu em Frutal do Campo, num verão qualquer, perdido amarelado do céu sob terra roxa de viço. Tem 67 anos de idade e reside na capital paulista, desde sua viuvez, há 22 anos. Este é seu primeiro texto publicado.
Clara de Almeida Corbin nasceu numa cidade feia, feia mesmo, de dar dó, quase mais feia que enfeite de natal feito em plástico reciclado: Primeiro de Maio. Professora de filosofia aposentada que não conta a própria idade tem uns anos. Sabe fazer chá e gosta de ser velha porque a juventude é tonta – não há exceções, é um fato ontológico, diriam os filósofos, igualmente tontos.
você acena com a cabeça e eu penso – essa mulher que acena com a cabeça – e você continua a andar. quando nos tocamos. um, dois beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os dois mesmos?) e concordamos em estar entre cafezinhos, com uma mesinha a nos separar. você me olha e eu imagino – essa mulher que me olha, acena com a cabeça. ela que está para dizer alguma gravidade – e você não diz, você olha, toma um, dois, três mil cafés sem açúcar. você que sabe minha desajeitada mania de dizer coisas quando estou aflita, digo coisas que meu buffoon interno diria – neste momento praticamos uma nova categoria de meditação em dupla. acenar com a cabeça, olhar, olhar, olhar, queimar a língua e olhar – você pende a cabeça para o outro lado, suspira e faz um sinal positivo quase imperceptível. me sinto bem, porque fui aprovada pelo sinal. ainda que somente eu tenha percebido o sinal. ainda que o sinal não seja, porque posso muito bem ter inventado o sinal. me conheço bem para saber que inventei o sinal, que não havia nada de positivo no leve deslocamento do queixo, coisa que você faz, mania tua. nos levantamos e nos despedimos. um, dois, três mil beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os três mil mesmos?). nos separamos pela última vez. como testemunhas, meu buffoon quase externo e sua frase, ecos dos beijinhos no bueiro, a calçada em desnível e o organismo excitado de quem toma muito café apenas para não dizer nada junto de uma amiga que, só em mexer o queixo, coloca aspas em tudo do mundo.
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Que pode a mulher que pode
Você pode se esquecer de um dia especial. Você vai se esquecer daquele dia. Aquele dia estará para longe de ti. Um outro dia vai tomar aquele lugar. Mas ainda não chegou o dia que vem. Você vai se esquecer do dia especial quando o dia chegar. O dia que tomará o lugar daquele dia em que te disseram uma besteira cafona sobre bater com uma flor. Mas o dia que vem, como uma flor que é como uma raquete e que é como um sapato que é como um punho fechado que é como uma vassoura que é como um tijolo que é como uma panela quando é como bater com uma flor, ainda não chegou. E você pode esquecer.
Também pode esperar.
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Uva e Azeitona e Tempo
Numa ocasião, meu pai me falou sobre um tipo de uva. Não me lembro do tipo de uva e nem das coisas que eram especiais nesse tipo de uva. Me lembro do meu pai. Me lembro que ele se sentia feliz em me dizer da uva. Me lembro das risadas dele, porque algo que não me lembro da uva, talvez o vinho dela. O tempo do meu pai me dizendo a uva era o meu tempo de amar a voz e os gestos do meu pai. Então havia ali algo mais que dois tempos. Era o Tempo Meu Pai, era o Meu Amor Pai Tempo, era o Nosso Tempo Humor. Talvez até o Saudade Pai Amanhã Não Tem Mais Tempo. Havia também a caminhada pelo mercado municipal de Londrina. Meu pai caminhava num tempo lindo e eu tentava acompanhar. Era preciso mais de duas pernas para caminhar junto de tanto amor. Era rápido e lento e rebobinado, às vezes. Então os pastéis. Comer e ouvir e saber e rebobinar, às vezes.
Numa outra ocasião, meu pai me falou sobre a azeitona preta.
Não me lembro a cor e nem o que da azeitona existia.
Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. “Amanhã Alguém Morre no Samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil”, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), “Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse” (Douda Correria, 2016), “bater bater no yuri” (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A Menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), “A Munição Compro Depois” (a sair pela Cozinha Experimental, 2018).
Partiu em três pedaços grandes, vai dar pra colar. Recolhe os cacos da pia, entre os restos do refogado, o detergente, o que sobrou da louça. O que se estima não se usa, as coisas gastam; quebrou de massacrada pelo uso. Tem vontade de chorar e engole: se a xícara não gritou ao escapulir das mãos oleosas, não será ela a se denunciar. Lembra do super bonder que viu na geladeira, as gotas definitivas hão de reparar a concavidade da primeira estrutura. Organiza os pedaços, que bom que nada se esfarelou – há um ponto de equilíbrio entre as partes apoiadas que mantém a impressão antes da queda. Ninguém vai perceber. Tenta abrir a geladeira, a mão escapa da alça da porta; geladeira velha, mão cansada. Sente a dor aguda na ponta dos dedos, a dor de quem coloca mais esforço do que é preciso pra realizar uma tarefa simples e mesmo assim. Ouve a patroa na porta da cozinha, coloca o corpo entre a xícara e a porta, esquece os dedos. Tá tudo bem, Rita? Tá, tá tudo bem, a senhora precisa de alguma coisa? A patroa estranha a resposta longa demais, transformada em pergunta; acaba entrando na cozinha como uma personagem do século XIX, o corpo meio de lado dos que desconfiam: tá tudo bem mesmo, Rita? Tá, tá tudo sim. O diálogo não avança, nem Rita se move de sua posição. Ou a patroa. Quem visse a cena de fora, notaria o equilíbrio frágil na cozinha, as peças não coladas querendo saltar. Silêncio. Mesmo…? – a patroa insiste no papel; levanta a sobrancelha esquerda –, tem certeza que…? Rita percebe o corpo tenso, “tem vontade de chorar, engole”, é assim que se lembra do que já havia decidido, “se a xícara não fez barulho, não sou eu que vou me denunciar”: é que ando assustada com os assaltos no bairro.
Assaltos? No bairro?
É. Não tá sabendo?
Uma peça que se move.
Os olhos da patroa correm pra baixo, tentando saber; o corpo perde o alinhamento militar. Assaltos… não, não sabia. Quer dizer, é mesmo…? No bairro? Rita quase tem pena da patroa, mas as peças precisam ficar onde estão. Ela assente com a cabeça, é… as meninas tão falando. Algo da rigidez na cozinha se desfaz. Tão difícil a cidade – isso não é mentira. É, tá demais. Difícil demais. A patroa se aproxima, recua – é. Isso também me preocupa, Rita. Ah, se ela soubesse do seu bairro, dos bairros percorridos, cada um deles até chegar àquele ali. O trajeto no trem, no ônibus. As plataformas, o cheiro ácido do pão de queijo às sete no terminal. As chinelas com os calcanhares cavados. As xícaras frágeis. Uma daquelas que se quebrou, ela sabe, vale mais que um mês refazendo aquele percurso. Os vagões, os fones de ouvido coloridos comprados na ida e que não prestam mais na volta. As mãos manchadas do cobrador. Rita não percebe, mas seu olhar já está jogado na cozinha. Nem se lembra mais daquela xícara.
Não pensa muito nisso, Rita – e a patroa sorri. É verdade. Deixa pra lá.
Talvez Rita também tenha sorrido. De alívio, quando ela finalmente saiu.
Ao se virar, encarou a ainda falsa xícara, os pedaços porcamente agrupados com óleo, sabão, linhas de trens, asfalto. Agora sentia mesmo o choro no pescoço, querendo saltar. Mas quem disse que podia? Não podia não.
Abriu a geladeira com as mãos prevenidas, agarrando o super bonder antes que a patroa resolvesse voltar.
***
E ele cai
Toma ar. Como se tivesse que narrar aquele lance ou como se estivesse em campo e precisasse de todo o oxigênio do mundo pra disparar, da torcida ele toma ar.
Não é o único.
Por um instante, o ar parece imóvel, tomam ar todos; todos seguram na boca um pedaço do oxigênio do estádio, como se receassem atrapalhar o momento crítico que antecede a entrada do meia na grande área: a bola domada fora do chão no peito, o pé esquerdo e o direito abrindo um espaço definitivo sobre o gramado, adversários tentando interceptar chuteira, bola, caminho – e o jogador, impassível, atingindo a metade inimiga do campo, enquanto fura a cortina de ar parada no espaço, controlada apenas pela respiração da torcida.
Nesse instante, ninguém vê, ou quase ninguém, o menino que, em sua primeira vez num jogo, levado pela mãe, torcedora fervorosa, coloca a mão na boca, querendo o gol. Ninguém poderia saber – ou quase ninguém – que depois desse jogo o menino tomaria a decisão silenciosa e definitiva, ao lado da mãe santista, de se render ao oponente e torcer para o Timão. Seriam poucos aqueles capazes de dizer com precisão, muitos anos depois daquele dia, a marca da garrafinha d’água que a moça de olhos fundos bebia, aquela que, tendo sido focalizada pela câmera de TV no coração do lance, mais tarde se tornaria jornalista naquela mesma emissora. E apenas duas ou três pessoas no imenso estádio se lembrariam mais tarde que no meio da torcida Corinthiana estava aquele cantor famoso, aquele que fez sucesso com uma música que falava de um carro.
Então, um grito abafado. E alguém que se assusta, que tira os olhos da cena; que foi isso? O ar no estádio, tão estático, se descontrola.
O susto é a primeira peça que cai sobre a seguinte, aquela que faz cair todas as peças invisíveis que parecem levar o jogador pela mão na direção do gol. Mas acontece que há um grito e, por isso, ele cai. Bola e homem obedecem a uma lei misteriosa: ele cai, ela escapa. E o jogador caindo, é pênalti! Todos os olhares se voltam uma vez mais para o campo, o que houve?, pênalti!, como perdi isso, não tem dúvida, é pênalti, foi pênalti?, presta atenção, claro que foi, foi falta; menino, tira a mão da boca!; olha lá, não acredito, safado, ele se jogou, mas quem foi que gritou, você não ouviu?, esse aí não é aquele cantor? sei lá, quem?, aquele, daquela música; onde?, me passa a garrafa d’água, você não ouviu?, ouviu o quê?, um grito!, foi falta, a torcida concorda, sim, uníssona, é pênalti!, ela brada, soltando o ar até então estacado no peito.
Menos um homem na torcida.
Esse ainda o retém, o último ar. O derradeiro depois do grito e antes do chão, o coração subitamente paralisado; o ar final antes que a imagem certa do gol na retina se desmanche, antes do campeonato. Antes da queda do jogador no campo, antes da sua, esse homem o retém.
Mas o ar acaba e ele cai.
Mestre e doutoranda pelo Programa de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa na FFLCH/USP, Carla Kinzo é formada em Cinema pela ECA e em Letras pela FFLCH. É também atriz e dramaturga. Tem publicados os livros Matéria (7Letras, 2012), Cinematógrafo (7Letras, 2014), Eslovênia (7Letras, 2017) e o infantil Grão (Pólen, 2015). Em 2015, recebeu um ProAC de Criação Literária para desenvolver um livro de poemas, a ser lançado este ano.
Alguém que se foi, mas permanece aqui como um holograma, deitado na cama, de onde não pode mais se levantar, da boca apenas saem sons que não são palavras, a fralda é agora o banheiro, não sente mais vergonha dos excrementos, não sente mais o controle do próprio corpo, é um refém sem algoz, talvez a má sorte, que ele sempre ignorou, olhando sempre para os lados e para trás, mas nunca para frente, ela estava lá, pronta para desmanchar toda a construção inútil que foi a vida.
O homem forte, trabalhador, aquele por quem meus olhos e meu corpo se encantaram, não existe mais, ele está acamado há quatro anos, sequela de um a.v.c.. Tenho cuidado dele do jeito que posso, nossa filha me ajuda aos finais de semana. Ainda estou aqui, tenho querer, sinto o meu corpo pulsar.
Ontem a menina veio, menina? É uma mulher de 20 anos, mas aos olhos da gente é sempre uma criança, tomei um banho mais longo, senti cada gota de água correr em mim, um tempo comigo, depois saí por aí.
Parei na padaria onde ficava com os colegas de faculdade, nenhum deles estava lá, ao contrário de mim, concluíram o curso de direito, são doutores e doutoras, ocupados com as burocracias da vida de um advogado.
Sentei-me no balcão porque as mesas são destinadas aos que têm companhia, através dos lanches, eu vi dois homens que conversavam e bebiam suas cervejas, ali estavam como se flutuassem numa bolha que os protegia das chateações do cotidiano. Um tinha um sorriso encantador, eu queria, mas não conseguia parar de olhar, ele devia ter uns dez anos a menos que eu. Pela persistência do meu olhar, percebeu que eu o estava mirando, meio tentando disfarçar, mas sem conseguir, ele começou a retribuir o gesto, há tempos trancada em casa, como é bom ser desejada, ou será só devaneio meu?
Não, o amigo foi embora, ele veio até mim, a mão estendida era desejo, mas também receio, eu não tinha mais tanto tempo ou paciência para pudores, levantei, o beijei entre o rosto e a boca, disse um nome que acabara de adotar para aquela tarde, ele também se apresentou, conversamos sobre a vida, suas pupilas dilatadas me engoliam, olhos de menino num rosto de adulto, não recuei, pus a mão sobre a dele e com toda a minha coragem, não desviei o olhar, ele aceitou.
Disse que tinha que voltar para casa, eu disse que ainda estava cedo, me ofereceu uma carona, aceitei, minha intenção oblíqua era outra, entrar no carro e colocar meu plano em curso, eu disse vai por ali, vire à esquerda, entra! Estávamos na frente de um motel, ele titubeou, mas me obedeceu.
Entramos… Numa voracidade se atirou sobre mim, eu, faminta por um corpo aceitei e retribuí. O calor da pele transpassando a roupa, braços fortes e quentes, o beijo forte, parecia me engolir, era a vida sinalizando sua presença, logo estávamos nus, a boca dele percorrendo cada centímetro do meu corpo, acendendo em cada poro uma fogueira, um pouco afobado, mas eu logo comecei a ditar o ritmo, entendimento pleno entre corpos, duas horas morando no prazer.
Tomei banho sozinha, porque o contentamento é egoísta, saímos, disse a ele que podia me deixar na esquina, à direita, de lá pegaria um taxi, um último beijo, mais sereno, antes de sair do carro.
Em casa, a menina disse:
– Mãe, está tudo bem? A senhora está diferente.
– Coisa da sua cabeça, filha. Pode ir cuidar da sua vida, deixa seu pai comigo.
Olhei nos olhos do meu marido, eles permaneciam opacos, mas me miravam de um jeito diferente, fui até a cozinha preparar um sanduíche, mordido com força de quem está inteira em si.
Fernando Rocha da Silva é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, professor de Língua Inglesa na rede municipal de São Paulo, autor do livro de contos Sujeito sem verbo (Confraria do vento), da novela Os laços da fita (Penalux) e Afetos (Penalux). Tem um conto na antologia Descontos de fadas (Alink editora). Possui textos publicados em Mallarmagens, Diversos Afins, Incomunidade, Musa Rara e Letras Inacabadas.
Menino é menino, menina é menina. Vinicius sempre soube. O timbre da criança confundia um pouco. Fino, agudo. De garota, diziam. Libertador, contestava o pai. Era nos acordes do violão que Vinicius concordava com ele. Quando se derramava pela música ao pé da sucupira branca, na noite ao lado da fogueira. Ninguém negava. Quem poderia? E todo mundo aplaudia, pedia mais. Era uma voz bonita a do garoto, por mais que fosse feminina.
Ubiratan, o homem de dedos grossos e pele seca, do corpo contorcido e recurvado, a paisagem do cerrado, cresceu com as canções que amansavam as noites de um passado duro como aquela terra. Cresceu com a arte. Aprendeu a transformar as cordas em poesia de curioso. E desde que Vinicius nasceu embalou os sonhos do menino com harmonia musical. E tantos outros de tanta outra gente. Um inquieto.
Doze anos e lá estava o pequeno nas festas das fazendas. Microfone na mão e amor no peito. A mãe achava esquisito, gostava mesmo era do dinheiro a mais no fim do mês. No começo, Ubiratan tocava junto, levava o garoto no colo, mas a idade já não permitia a jornada dupla no campo e nas cerimônias. As reuniões até altas horas também ocupavam o tempo do velho pai. Encontros gritados, de braços erguidos e porradas na mesa. Batidas de portas. Vinicius acompanhava quando podia. Ou quando Ubiratan deixava. Era assunto sério.
Menino bonito. De cabelos longos e ondulados. Pele mais clara que o comum. Quase um filho de fazendeiro. Talvez por isso oferecessem tantos palcos a ele. Além da voz, claro. Dos sorrisos. Dos olhos pretos e lacrimosos, como se chorasse. E chorava, dependendo da música que ecoava na boca. Uma menina.
Quando as noites eram princesas, e Ubiratan preparava o fogo, com o violão ainda adormecido, quando o sol riscava o horizonte, Vinicius ouvia do pai as palavras de um mentor. O dedo escuro de unhas apodrecidas apontava para a vegetação rasteira, para as árvores esparsas no campo, e esse mesmo dedo se voltava para o peito do menino, para a testa do garoto, para a Lua no céu. A criança ouvia e entendia. O canto de mulher eram as asas da seriema, o sabor do araçá, o vento na cagaita. Somos. Escutava e memorizava. Um só. Mirava a enorme máquina no descampado e discorria sobre justiça e progresso, com exemplos que envolviam balas de menta e bombons de chocolate. Falava dos fazendeiros e de suas próprias leis. Tocava as folhas grossas com os mesmos dedos que tirava sons das cordas de aço. Segurava um punho de terra na palma das mãos. E discorria mais. Sobre o homem e o corpo. A separação cega do um e do todo.
A noite chegava com as pessoas, que iam se sentando, perguntavam de brigas e discursos, e Ubiratan levava o dedo à boca. Não ali. O palco sob a árvore e a luz da brasa não era o casebre das reuniões. O momento era da poesia, não de lutas. Os problemas e perigos que ficassem para lá, para além do cercado. Ao menos naquelas noites, que tudo parecesse simples e pequeno. Que fosse como deveria ser. Com respeito e união. E como era.
Hoje, se pudesse, Vinicius falaria da saudade. Falaria do tempo e do pai. Voltaria ao cerrado, à casa, à sombra da sucupira branca. Se ela ainda estivesse lá. Recolheria uns galhos, acenderia a chama. E apontaria também para o horizonte, para o peito e para a testa. Apontaria para o céu e teria a certeza de que somos sim um só.
Na tarde em que Ubiratan não voltou do campo, o garoto cortava batatas na cozinha. Sussurrava uma canção e a mãe estendia roupas no varal. Esperou na porta, com o sol já baixo. Não ouviu o som pesado dos pés na terra, que chiavam cada dia de um jeito. Macios no verão, duros no inverno. Os sapatos num ruído seco roçando as gramíneas e as ervas que rodeavam a casa. Eles não vieram.
Foi com a mãe que viu o corpo no casebre. Já sem reunião nem gritos. Só o silêncio. O sangue escuro no piso. Os olhos abertos para o nada. Foi com a mãe que tentou entender. Com o tecido da saia dela no rosto e as mãos apertando as coxas cansadas. Não pôde explicar para o garoto. Apenas lamentar. Os anos ensinaram. As conversas com os outros. As leituras dos textos. Só depois, o garoto de voz fina finalmente conheceu o pai e compreendeu seu fim. Só depois, o timbre agudo cumpriu a vocação para libertar.
Se soubesse antes, jamais teria cruzado os pórticos com partituras debaixo dos braços. Não teria versado canções entre taças de vidro e risadas insossas. Se soubesse antes, teria se agarrado aos braços do pai todo fim de tarde antes das reuniões. Teria implorado como um mimado para que abandonasse os grupos e as discussões. Rasgado pôsteres e papéis. Teria? Vinicius concorda com o pai. Hoje sabe, hoje entende.
E solta a voz em outras terras, distante das plantações de soja e milho. Por mais que se estendam por todo lado, não chegam onde o canto do garoto adulto chega. Tão longe. E com versos e rimas, com trovas e poesia, Vinicius repete as palavras do pai, transformando a luta em notas, desfilando baru, buriti e mutamba, galito, anhuma e irerê, abotoado, piapara e taguara, João, Maria e José. Espalhando o cerrado e seu povo pelo Brasil, como a água dos rios que nascem naquele solo. Terra rica, terra pobre. Povo sofrido, povo feliz. O progresso, a tradição. O dinheiro, a natureza. O masculino, o feminino. A voz de menina do garoto é também a voz grossa do pai sonhador.
E Vinicius levanta a bandeira. Como cantor e poeta. Ele, filho de Ubiratan, filho do cerrado brasileiro. Somos, canta e universaliza, um só. E é assim que seguiremos em frente.
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Menino nas caixas
“O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.” (João Cabral de Melo Neto)
Fui o menino dos cantos. Calado, nos bancos das quadras de esporte. Escondido nas quinas das festas. Metido nas frestas dos clubes. Era medo das palavras, dessas faladas. Preferia o silêncio. As páginas dos livros. Ou aquelas em branco das papelarias. Um novo pacote de sulfite. Rasgava com a mesma vontade que as outras crianças rompiam os de bombons de chocolate. Mais que o cheiro do papel moço, eu gostava do vazio.
Fui o menino das viagens à praia, mas sem pés na areia. Escolhia a sombra da sala vazia, ao som das cigarras e dos gritos dos vendedores de sorvete. Distantes. A vida no verão era do lado de fora, mas não a do menino. Com as janelas fechadas e as cortinas cerradas, mordia o lápis e arranhava o papel, sentado no chão frio de uma casa alugada.
O menino não jogava bola como o pai. Não contava piadas como a mãe. Nem era cercado de amigos como a irmã. Fui esse menino esquisito. Um único. Desses que os adultos desconfiam, falam um para o outro. Não era normal, ficar assim de lado, perdido em livros e papéis. Tão longe do comum. Vai ser escritor, brincavam. Vai ser é louco. Queriam mesmo é que o menino fosse mais um.
O castigo era ir à praia. Mas mesmo lá, desenhava na areia, erguia muros e projetava rodovias que carregavam o menino para onde não havia nenhum outro, nenhuma voz. As pessoas assustam.
Mas fui também o menino cercado de amor. Um amor desses protetores, que mimam, impõe regras e conceitos. Só o amadurecimento consegue destruir tudo depois. Tarde demais. Um amor repleto de boas intenções, mas também de medo. Porque os pais, adultos como eram, sabiam que a vida não é amiga do estranho. A vida quer mais do mesmo. Os iguais com quem a gente cruza o tempo todo. O mundo não abre as portas para o diferente. Esse tem sempre que arrombar. Mas que menino tem força para arrebentar um cadeado?
Pois foi esse amor que roeu o menino. Matriculou no judô, no futebol, no vôlei. Jamais num curso de leitura ou escrita, muito menos de desenho. Roeu. E ele, tímido e com medo de se tornar igual a ninguém, fugiu dos papéis rabiscados e dos lápis mordidos. Vestiu a beca e carregou o diploma. Bateu cartão, usou o vale refeição, recebeu o décimo terceiro. Fez e refez o currículo. Entrou em reuniões, participou de happy hours e quando viu já não era mais menino. Sumiu nas mesmas roupas, na mesma rotina, nas mesmas frases de tantos outros. E se tornou igual a todo mundo. Como o mundo todo sempre quis.
Cadê o menino que riscava os livros, mordia o lápis e andava na rua chutando pedras? Cadê? Tiro o paletó, tiro a gravata, tiro a camisa. Arranco tudo e me assusto com o vazio. Bem o vazio, que eu tanto amava, hoje me arrepia. No espelho, não vejo nem homem nem menino. Não me vejo ali.
Cruzo as ruas como o menino virava as páginas dos livros. Histórias ficam para trás. A casa onde o menino morou, a escola, a praia, hoje é tudo apenas imagem no retrovisor. E com as mãos no volante, finjo que estou no controle. Que posso encontrar o menino. Mas, cadê?
Eu sei, não vou mentir, eu sei. Eu sei onde o menino está. Está jogado em caixas no alto do armário. Em papéis amarelados e duros, estampado em frases e rascunhos. Enterrado na dispensa. Escondido e isolado. Calado. Roído pelo amor. O menino são restos perdidos em papelões de leite desnatado.
Não há praia, não há areia. Não há pai nem mãe, apenas mudez. Não há amor, também. Nem luz. Mas não me venham falar de amor. Já li tanto sobre amor. Quem tem coragem de falar o quanto ele corrói meninos e meninas?
Não há resposta. Não há perguntas. Não há menino. Apenas caixas.
Apenas caixas. Ainda que essa verdade chegue a doer, ainda que venha a vontade de gritar, melhor mesmo é lembrar que um dia houve sim um menino. E que ele queria viver e sentir. Chorar e sorrir também. E se deixar levar pelo tempo, para que no tempo certo, um dia pudesse voltar.
Daguito Rodrigues é escritor e roteirista. Foi repórter da Folha de S.Paulo, Diretor de Criação na agência Publicis Brasil e dirigiu e escreveu o curta O Santo Salvador e o Demônio, entre outros. Acumula prêmios nos principais festivais de criação do mundo, como Cannes Lions, Prêmio Abril e Clube de Criação. Quer muito que você leia o primeiro romance dele, “Vozes na rua” (Kazuá, 2016).
Bem no meu tímpano. Ia longe. Todo o suor do mundo. O seu cuspe que se espalhava.
E então eu deslizava. Dan Brown. Paulo Coelho e algumas americanas de meia idade. Da esquerda pra direita. E meus olhos se esforçaram. R$ 39,90. Não parava e eu não conseguia me concentrar. Calor do caralho. Como fedia.
Seus peitos eram enormes. Pálidos. Flores eram regadas em sua camisola cor de mel. Tetas enormes e molhadas. Pequeno. O quarto era o contrário de suas tetas.
Tinha esse hábito. Meio-dia. Chegava com o pote. Arroz, feijão, bife. O pote azul. Suava. Invariavelmente, suava.
Calor do caralho.
Vera. Vera me encontrou num fim de tarde. Ela me viu primeiro e sempre dizia isso. Estava no banco. Pisava na minhoca. Ela já estava morta. Vera carregou seus peitos até nós. Eu e a minhoca. Desequilibrou-se. Firmou. Pescou meus olhos.
Minhocas não têm olho. Disse-me. Não têm mesmo. Ela jamais saberia.
Eu só usava verbos. Chamou-me pro quarto. O quarto de Vera. Sabia que eu era escritor. Jurou-me que eu era. Então, abriu a Amazon. Mais vendidos.
Desliza.
Desliza.
Calor do caralho. Vera estava sempre ligada nos mais vendidos. Todo dia. Ela abria e anotava o nome de alguma novidade. Comprava todos.
Disse-me que amava literatura. Estava na faculdade e tomava sol. Num fim de tarde. Adorava tomar sol. Os raios nos meus poros. Ela me disse que fazia mal. Fazia. Gostava.
Gostava de literatura também. Bandini, Arturo Bandini. Ri. Ela: não.
Seus peitos eram enormes, de fato. Como o vestido pretendia. Dois olhos enormes a me olhar. Achei que a escreveria em algum dos contos. Era uma boa personagem. Ela gostava.
Nua. De óculos. Abriu meu caderno. Sem janela. Seu quarto. De novo. Não entendeu a letra, me perguntou o tempo todo. Aquilo me irritou. Fechei os olhos. E por que não usa um notebook?
Mutarelli.
Não entendeu. Nunca tinha ouvido falar. Calor do caralho.
Lourenço é calvo e explicava pra plateia, com os dedos, amarelos do tabaco, em riste, que tinha um caderno. Preenchia-o com qualquer merda, o fedor de uísque no ar. Não se interessou no papo. Mas continuei mesmo assim: quando pintava algum trampo, ele voltava lá, desbravava a merda, alguma coisa sempre se aproveita de lá. Não curtiu.
Stephen King. Estava no topo. Mostrou-me o ranking dos que mais faturaram no ano. Tá certo. R$ 15 milhões não é nada mal. Compraria o Mutarelli e uma camisola nova pra Vera. Riu.
Nua.
Fechou o caderno. Devolveu-me. Eram verbos. Demais. Ação e corte. Corte.
Ia me fazer um escritor. Mestre em fazer adolescentes gritarem no cinema de shopping center. Estava terminando a faculdade. Queria ser escritor, de fato. Vera ia fazer isso pra mim.
Passei as tardes com Vera. Ela já era formada e sabia das coisas. Vera me trancava no quarto. Trazia o pote. Azul. Calor. Às vezes vinha com o que chamava de inspiração. As tetas despencavam. Como pêndulos, balançavam. E os mais vendidos nos encaravam. Eu, pras tetas. Ela, pra eles. Gozava. Depois, voltava a me trancar. Era preciso. Fechava as janelas e o sol sumia. Escritor precisa ficar sozinho.
Tá ruim. Vai, vai, desliza.
Vera caiu numa terça. Uma faca atravessou-lhe as tetas. Era terça e desliza agora vai. Morreu de desgosto. Culpa minha. Ação e corte. Saudades da Vera. Quando morreu, suas tetas estavam no ar.
***
Ciclo
Lembra quando sua mãe te lembrou que eu era preto? E quando ela te perguntou se você não percebia isso. E quando ela falou que a casa agora fedia. E que isso era normal porque preto tem um cheiro diferente mesmo. Um cheiro que impregna no estofado da linha alta. E você trazia um preto pra jantar todas as noites na casa dela então isso iria acontecer mesmo.
Lembra daquela vez que eu menti pra você e você chorou por um mês? E ela te lembrou que namorar preto era assim mesmo. E que em preto não dava pra confiar mesmo. Era normal. Isso ia acontecer mesmo. Tudo isso era pra você aprender. Depois desse dia ela nunca mais conseguiu respirar o mesmo ar que eu. Eu chegava e ela saía. Mesmo assim, eu curtia sacar o olhar dela pra mim. O olhar em direção ao preto que jantava com a sua filha. Eu curtia. Aquela porra era puro ódio e a gente ficava nesse jogo de se olhar e se odiar mutuamente. A atmosfera da casa pesava quando o preto chegava. E isso eu também curtia.
Você sempre me disse que ela era uma boa pessoa mesmo assim. Que aquela parada era cultural e pronto. Não era nada pessoal. Não era um racismo fodido desses que eu tropeçava na rua todos os dias. Desses que me fazia ser acusado de entrar em um lugar. Era uma mais leve. Quase calmo. E eu quase me convencia disso. Até eu olhar o olhar dela e a gente recomeçar nosso jogo.
Acho que foi sua mãe que terminou com a gente. Você disse pra ela que me amava, apesar disso. E ela não entendia nada. Tinha te educado e te pagou escola particular até o final do ensino médio. Tinha tanto menino bonitinho na sua sala, ela te dizia. Um dia peguei ela dando socos no ar. Ela chorava igual criança quando se perde dos pais. Ela murmurava com a boca torcida para os próprios ouvidos. Ela se perguntava aonde tinha errado pra filha gostar de preto.
E o seu pai tentou acalmá-la. Levantou-a. Deu três tapas de leve em sua cabeça e beijou sua testa. Ele olhou pra porta e me viu lá. Ele procurou minha essência. Olhava o mais profundo que seus olhos rasgados podiam chegar. Cavava-me. Entendi que aquilo era um pedido de desculpas. Acenei e fui embora.
Quando descobriram que o primeiro namorado dela era preto e que sua avó a trancou em casa por semanas até o seu avô dar um jeito no preto, eu senti pena. Mas curti. Eles disseram pra ela que o preto havia se casado com outra e que era assim que deveria ser e que preto era assim mesmo. E ela engoliu a lorota e ficou por isso mesmo.
E eu te disse que colocaria sua mãe nas minhas histórias. E que ela havia mudado minha vida e você só dava risada. Mas eu te disse. E eu coloquei. E você me disse pra esquecer. E disse que amava. E eu disse que eu também. Mas eu menti. E quando a gente finalmente terminou, eu curti. Era o ciclo. Mas sinto falta do olhar de sua mãe.
***
Cisto
Brotou um cisto na minha orelha e ela está de papo com o cabeludo de novo. Descobri que não sei escrever histórias longas. Não tenho imaginação. O resultado do concurso saiu. Na Paraíba minha prosa não é muito popular.
As primeiras palavras brotaram de novo. Uma a cada minuto. Deve ser o cabeludo e eu preciso deixar meu cabelo crescer. Ficar com cara de autor. Entrar pro meio e chamar o editor no inbox. Elogiar sua revista. Sua curadoria refinada e, aí sim, seria popular na Paraíba.
É preciso ser popular na Paraíba. Cada um ganhou uma menção honrosa na câmara municipal. Dez exemplares, um pra cada. Só.
Muito bem, editor. Bela revista. Tem um cantinho de página pra mim? Eu deveria me preocupar com o cabeludo. Não posso deixar meu cabelo crescer, brotou um cisto na minha orelha.
Descobri que só sei falar de mim. Autoficção está na moda e os premiados já a desprezam. Jogam tudo no mesmo bolo. Chamam de merda narcisista. Ok. Eles são populares na Paraíba. Estão certos. É preciso ter imaginação.
Vi uma foto de Guimarães com os jagunços. Vi um filme de Hemingway no bar, no meio de Cuba, tomando cachaça com os pobres. É preciso ter imaginação. Mas brotou um cisto na minha orelha e não posso deixar o cabelo crescer.
O cabeludo toca violão. Deveria aprender a tocar violão, ficar com cara de autor que toca violão. É uma boa ideia escrever e tocar. Um homem com imaginação. Vi no jornal que o premiado leciona música na universidade. Toca violão e ganha prêmios. Deve falar francês. E essa é outra boa ideia.
É preciso ser popular na Paraíba. Não sou do meio e aí fica bem difícil mesmo. Falta o enredo. Mete lirismo nessa prosa, rapaz. Sobra lirismo na Paraíba. Ele é premiado, o cabelo é grande, escorrido, cabeludo, toca violão e deve falar francês. Pronto. Lirismo.
Poesia. É sempre bom ser poeta nas salas do departamento de música. Músico com cara de autor, premiado, cabeludo, arrastando seu violão. Fala francês e conjuga verbos corretamente.
Parece uma boa ideia. É legal ser autor com cara de autor. Os editores colocam a foto embaixo do conto.
Chegou um e-mail. Um convite. É um curso. Escrita criativa. O professor-autor desta vez não tem cara de autor, nem de professor. Não é cabeludo e como eles podem vender uma coisa dessas? Se vou pagar por um curso de escrita quero um autor com cara de autor. Cabeludo. Mínimo. Serragem no rosto. O professor-autor que ensina que editoras estão fora de moda e que o negócio é fazer os cursos que, aliás, ele mesmo dá. Auto-publicar-se-ei. Fazer um evento. Chamar seus amigos – não esqueça de seu professor. Ganhar vários tapinhas nas costas. Não vendeu. Resistiu.
Brota mais três mensagens do cabeludo no celular dela.
Vou operar do cisto e deixar meu cabelo crescer.
Ele dói.
Danilo Brandão nasceu em São Paulo e mora em Londrina, interior do Paraná. É estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Tem textos publicados em sites, revistas e jornais literários.
Prometi que nunca mais iria ficar preso por causa de uma mulher: podia ser a Vivi Fernandez, a Mônica Mattos, a Morgana Dark ou a Fernanda Corrêa que ia cagar para ela. Foi o que decidi na prisão. E não só isto: quando saísse, iria viver uma vida honesta, sem feitiçarias, assassinatos. Mas, ao ver a boazuda da Ana Rita saindo da casa de minha mãe, não pensei duas vezes para correr atrás dela, para me enfiar em mais uma roubada em troca do amor de uma mulher.
Ela entrou em seu carrão, bati na janela, Ana Rita abriu. Olhei para seus olhos e por um instante pensei estar olhando o céu. Nunca havia visto olhos azuis tão claros como os dela, era linda mesmo, Ana Rita dava de dez a zero nas mulheres das revistas que eu vivia folheando quando estava na prisão.
– Eu faço o que você quer, é só me pagar – eu fui logo dizendo.
Ela abriu a porta e eu entrei, sentando-me no banco do passageiro.
– A sua mãe não quis fazer o trabalho para mim…
– Que trabalho?
– Matar meu esposo…
– Olha, dona, faz mais de um ano que minha mãe não faz mais este tipo de trabalho, ela fez o santo… E quem é do santo não pode fazer o mal, só o bem… Ainda mais quem é de Omolu, santo que abomina a maldade… Mas eu faço… É só pagar bem que faço! – falei olhando para as suas pernas e depois para os seus olhos.
– Interessante. Como é seu nome mesmo?
– Zeca.
– Zeca, você falou que mata meu esposo. Do que você precisa? – disse ela, arrancando com o carro.
Falei para Ana Rita tudo o que precisava.
– Quanto vai dar tudo isto?
Disse o valor e ela parou o carro perto da ponte, para preencher o cheque.
– Quantos dias, Zeca? – ela quis saber.
– Dentro de um mês no máximo ele estará morando com o diabo.
– Precisa de mais alguma coisa?
– Só o nome do infeliz e uma foto 3×4, se tiver.
Chamava-se Ramão.
Ana Rita tinha uma foto 3×4 do marido na carteira, puxou-a e me deu. Olhei para o indivíduo: era um homem branco de bigode e sobrancelhas bem pretas, olhar sério, estava de terno e gravata.
– E se ele não morrer? – Ana Rita perguntou.
– Se ele não morrer na macumba, eu mesmo o mato na paulada. Não será o primeiro…
***
Tal como minha mãe antes de fazer o santo, na segunda-feira não tinha nem para o cigarro. É o que diz a Bíblia – se tinha algo que me fazia passar o tempo na prisão era a Bíblia, a Bíblia e as revistas de mulheres peladas –: “todo presente e todo bem mal adquirido perecerão.” Isto está no livro do Eclesiástico. No livro do Eclesiástico a gente encontra todas as respostas da vida. Nele diz também: “o trabalhador dado ao vinho não se enriquecerá, e aquele que se une às prostitutas é um homem sem valor algum”. Eu era assim. Um homem sem valor algum, sempre entregue à cachaça e às prostitutas de toda estirpe.
No mês seguinte, Ana Rita apareceu. O carro dela estava todo sujo, com a lama da favela.
– Sujei todo meu carro…
– Mas não é só o carro que está sujo não, dona. Você também está…
– Onde? – disse ela, olhando para a sua roupa.
– Esqueça. Diga…
Ela me olhou nos olhos:
– O homem está mais vivo do que antes…
– Droga!
– E agora?
– Agora vou ter que fazer outro trabalho no cemitério, para um exu pagão. O problema é que acabou o dinheiro, preciso de mais algum.
Mesmo contrariada, Ana Rita me deu mais dinheiro. Fui num cemitério bem assombrado, à meia-noite. A lua estava minguante. Se você deseja acabar com a vida de uma pessoa, tem que ser nessa lua. Porque a lua estava minguante não dava para ver quase nada na minha frente. Me cuidava para não acabar tropeçando numa tumba.
Desta vez não levei um bode, só um galo preto, uísque e charutos. Fui indo. Eu precisava chegar lá no fim, onde os trabalhos são feitos. De vez em quando encontramos alguém no caminho, mas desta vez não tinha ninguém, nem o coveiro cuidando das covas. Olhei para os lados, acendi as velas e fiz o trabalho. Terminei tudo rápido e saí daquele cemitério assombrado. Depois fiquei em casa, esperando notícias de Ana Rita. Passou uma semana e ela apareceu novamente, mas desta vez irritada porque o feitiço não tinha vingado:
– O santo de seu esposo é muito forte, ele deve ser de Ogum ou de Xangô. Na macumba não vai ter jeito. Vai ter que morrer na paulada mesmo. Mas vou ter que cobrar por esse serviço…
– Vou ter que gastar mais dinheiro, Zeca?
– Sim.
– Quantos desta vez?
Falei o valor e Ana Rita concordou.
– Mas é o seguinte. Eu tenho que prestar algum serviço na casa, para bolar o melhor plano.
– Vou dispensar o jardineiro. Você entra no lugar dele, na segunda-feira.
– Ok.
Ana Rita estava indo embora quando lhe pedi um dinheiro adiantado. Ela reclamou, mas acabou me concedendo. Passei o sábado e domingo bebendo, fumando e me deitando com as prostitutas de um bordel bem fuleiro perto de casa. Na segunda-feira pedi dinheiro emprestado para minha mãe, para comprar um passe de ônibus e uma carteira de cigarros. Ela me olhou com o olhar atravessado, sabia que eu estava tramando o mal.
– Pode ficar tranquila, minha mãe, arrumei um trabalho, de jardineiro.
– Você não me engana, filho. É na cadeia que você quer passar a maior parte de sua vida?
Minha mãe tinha uma intuição extraordinária, como a maioria dos filhos e filhas de Omolu. Muitas vezes ela nem precisava abrir as cartas ou jogar os búzios para saber o que seu cliente precisava. Eu sabia se era coisa boa ou não conforme o tempo da consulta: quando o cliente queria algo mal, ela já o dispensava, quando o cliente queria algo bom, a consulta demorava. Eu sabia que Ana Rita não queria algo bom porque do mesmo jeito que entrou, saiu. É impressionante ver o quanto que a beleza não define o caráter de uma pessoa: quem iria dizer que uma mulher angelical como Ana Rita não passava de uma bandida? A beleza física é a maior das ilusões, toda ilusão é uma prisão, como eu era um sujeito que vivia iludido, vivia preso.
Cheguei sete horas da manhã na casa da Ana Rita. Casa não, uma mansão! Ela me deu o macacão de jardineiro e me mostrou a dispensa com as ferramentas de trabalho: tinha enxada, pás pequenas e pás grandes, picaretas, serrotes. Era ali também o meu canto, onde eu devia almoçar e descansar. Queria me ver trabalhando, para não levantar suspeitas. Eu odeio trabalhar, ainda mais debaixo do sol. Na cadeia recusei todos os trabalhos que diminuíssem a minha pena. Mas fazer o quê? Trato é trato e eu iria ter que trabalhar debaixo daquele sol que às sete da manhã já estava forte pra cacete.
Foi o que fiz até o meio-dia, quando Ramão chegou, em sua BMW branca. Estava vestido tal como na foto 3×4. Não suava, é claro, quem vai suar dentro de uma BMW? Ao me ver me cumprimentou, mas fez com um desinteresse próprio de quem não gosta da ralé. Me deu mais vontade de matá-lo. Fiquei pensando na origem de Ana Rita: de onde ela veio, da vida honesta ou das calçadas da vida? Por que queria matar seu esposo? Só pelo dinheiro ou por ódio?
Ramão era um político corrupto, um deputado. Um ímpio. O ímpio que pensava da seguinte maneira, com seus comparsas: “tiranizamos os justos na sua pobreza (o pobre), não poupemos as viúvas (e as mães solteiras) e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião (os aposentados)”. Ele diz: “que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, na verdade, não serve para nada!”. É assim que pensa o político corrupto, era assim que certamente pensava o deputado Ramão.
Na hora do almoço Ana Rita mandou a Luana, sua cozinheira, trazer um prato de comida: seria o mesmo que foi servido em sua mesa? A cozinheira era uma mulher negra e bondosa, carregava uma corrente bem fina no pescoço, com um pingente do Cristo Crucificado. Ela era simpática, não muito bonita, mas uma mulher que pelo jeito parecia saber colocar o homem no caminho estreito, no caminho correto.
Conversamos um pouco. Gostou de conversar comigo. Toda vez que ela vinha me trazer o almoço, conversávamos. Ela me falava passagens bíblicas que eu já estava cansado de saber, contudo com um sentido diferente, com um significado diferente: enquanto eu lia procurando a lei, ela lia buscando o amor. Me envergonhei. Comecei a me interessar por Luana. Ela era um anjo que Deus havia enviado em minha vida, a melhor coisa que podia fazer era casar com uma mulher feito a Luana.
Pensando assim, veio a vontade de desistir do plano de matar Ramão, de me arrepender, de trabalhar honestamente e de devolver à Ana Rita todo o dinheiro que tomei dela. Pensei em me converter, em deixar esses exus pagãos que eu me envolvia de lado e colocar Jesus no altar da minha vida, tornar-me um justo, andar lado a lado com as entidades de luz, com os anjos e os apóstolos. Ainda dava tempo. O ladrão que foi crucificado com Jesus se arrependeu antes de morrer e Cristo o perdoou. Não sei se ele teve uma grande recompensa nos céus, mas com certeza entrou ao lado do Filho de Deus e, portanto, protegido. Era melhor fazer o mesmo. Chegar em Luana e dizer: case comigo! Foi o que fiz. Quando ela entregou o meu prato de comida lá naquela dispensa escura, eu peguei em sua mão e a pedi em casamento:
– Casamos em tua igreja, Luana, e seremos felizes, com a bênção de Deus!
– Está bem, Zeca.
Mas Ana Rita era uma mulher astuciosa e malvada. No Eclesiástico está escrito que “a mulher maldosa é como um jugo de bois desajustado; quem a possui é como aquele que pega um escorpião”. Seu esposo e eu estávamos nas mãos de um, pronto para nos ferroar sem dó. Falei com ela, disse:
– Ana Rita, não quero mais matar ninguém nesta vida. Por mais que seu marido mereça morrer, que seja pelas mãos de outro justiceiro, não eu.
Falei-lhe que iria arrumar um emprego e que iria devolver todo dinheiro que me deu, centavo por centavo. Mas Ana Rita, como disse, era uma mulher astuciosa e malvada. Disse-me que não confiava que longe dela pudesse lhe devolver o que devia, que seria mais correto de minha parte ficar e pagar com meu trabalho. Todo mês ela descontaria a metade de meu ordenado. Em três meses estava livre.
Miseravelmente, aceitei. “Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher”, já dizia Eclesiástico e eu caí na sua malícia. No fim de um expediente, quando Ramão estava viajando, Ana Rita me ofereceu um copo de vinho. Eu teria rejeitado tranquilamente se não tivesse visto pelo decote de sua blusa seus seios brancos bem redondos e soltos, desprotegidos. Eram como maçãs suculentas.
Não resisti, esqueci meu compromisso com Luana e tomei num gole só todo o copo de vinho. Bebi outro copo cheio e mais outro. O vinho reacendeu o fogo de minhas paixões e quando vi estava na cama da pecadora. Entrei nela como um animal, virei Ana Rita de um lado, de outro, fi-la segurar firme nas barras de ferro de sua cama! Quando caí estremecido de gozo, ela pediu:
– Mata ele para mim, meu homem, mata?
– Mato sim!
Dois dias depois Ramão estava de volta. Quando deu meu horário, saí da casa deles e fiquei lá fora, esperando o telefonema de Ana Rita, me informando se Ramão já dormia. Luana saiu um pouco depois, mas não me viu, pois eu estava atrás de uma árvore. Onze da noite Ana Rita ligou. Pulei o portão da casa, fui até à dispensa, peguei uma pá e entrei na casa. Ana Rita, com uma camisola vermelha, abriu-me a porta. Ramão roncava. Cheguei perto dele e comecei a desferir os golpes com a pá.
Ele deve ter morrido na primeira, que acertei em cheio em sua cabeça. Fui para cima de Ana Rita, para beijá-la. Ana Rita não quis meu beijo, escapou dos meus braços, sacou o celular e ligou para a polícia. Tive vontade de matá-la, mas o desespero de ser preso foi maior, saí correndo. A polícia me pegou a dez quadras da casa dela. Fui preso e enquadrado no artigo 157 seguido pelo 213. Hoje, aqui na cadeia, cada vez que vejo uma de minhas revistas de mulheres peladas, faço a mesma promessa de sempre: nunca mais volto para a cadeia por causa de uma mulher! Nunca!
Glauber da Rocha é escritor e professor. Formado em filosofia e em pedagogia, com pós-graduação em educação especial inclusiva. Mora em Campo Grande, MS. Publicou “Pelas ruas de tua cidade, ó morena!” (poesias/2018) e “Crônicas Para o Face” (crônicas/ 2018). Para 2018, pretende lançar dois livros de contos: “Com os dentes que ainda me restam” e “matando anões”.
Era uma cidade no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não encontra outdoors, flanelinhas, engarrafamentos, nem o M da McDonald’s. Lugares assim a solidão chega antes da novela das oito. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce. Ele me garantiu a localização exata do puteiro.
Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato e uma cerca torta. Nenhuma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando fogo lá dentro. Havia esse tipo com boné sentado numa bicicleta. Apoiava-se entre uma Kombi e o portão de entrada.
– E aí, campeão – eu disse – as meninas estão no serviço?
– Estão. Você é de Salvador?
– Sou. Desculpa qualquer coisa.
– Quer ovo?
– Devagar, que história é essa de ovo?
– 7 reais, a dúzia. Galinha de quintal.
– Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.
– Mas se quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.
– Tudo bem, Zé.
O cheiro de buceta parecia grudado nas paredes do Castelinho. Havia pouquíssima luz, mas achei uma mesa no canto. Do outro lado, um grupo apostava a vida e a morte numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e de fazer cálculos rápidos. Havia também um pequeno salão onde dois casais dançavam uma versão brega de One, do U2. Apesar da música, eu escutava o choro de uma criança chegando de algum lugar daquele inferno. Claro, havia também as mulheres. Putas feias e mal vestidas. Sentadas no colo da rapaziada, bebericavam cerveja, riam das desgraças. Já que eu estava por ali, pensei em procurar a dona do Castelinho. Sempre achei que trepar com a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão de um videogame. Então esse sujeito se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. Não sei dizer se era canhoto, mas não tinha o braço direito.
– O QUE VAI QUERER? – disse.
– Me diz uma coisa. O estabelecimento tem um proprietário ou uma proprietária?
– MINHA MÃE.
– Ah…
– O QUE VAI QUERER?
– Vodka.
– SÓ TEM CACHAÇA.
– Serve.
– MAIS ALGUMA COISA?
– Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?
– PARECE. MAS O NARIZ É DE MEU PAI.
– Então me vê só a cachaça.
Logo o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.
– Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.
– É MEU FILHO.
– Então tá em casa…
– MAIS ALGUMA COISA?
– Tudo certo, chefe.
Lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A minha falta de adequação. A falta de grana. As escolhas erradas. Os anos que passavam. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e notei aquela puta sentada no fim do balcão. Ao contrário das outras, estava só. Não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. Essa mania de me identificar com os desprezados me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Um pouco magra além do ponto. Mas a novela já havia acabado faz tempo e eu estava subindo pelas paredes.
– Qual o seu nome?
– Arlene.
– Por que está sozinha, Arlene?
– Não gosto das pessoas.
– Inteligente da sua parte.
– Você também não tem amigos?
– Só um. Zé da Monark.
– 50.
– O quê?
– Chupo, dou o xibiu, faço ver estrela.
– É tudo que preciso, Arlene.
Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas se divertindo e o choro estridente do bruguelo. O quarto era escuro. Só uma cama e uma cortina na janela. Arlene sentou e começou a chupar. Pedi um tempo. Corri pra janela, mas vomitei na cortina. De repente, a criança parou de chorar. Respirei um pouco o ar gelado e aquilo me fez bem. Então bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um só braço, o escroto fazia um barulho desgraçado.
– Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.
– TERMINOU?
– Como assim?
– TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.
– Você que manda, canhota.
– ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.
Voltei pra Arlene. Mandei ficar de quatro, botei a camisinha e enfiei. Quer dizer, acho que enfiei. Ou meti no meio das pernas, não sei, talvez minha ferramenta não fosse compatível, só sei que eu não sentia as paredes. Veio a suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, a batalha do século, vi estrelas e cometas, mas consegui terminar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi quando peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Deixei soltar um “puta que pariu!”.
– Algum problema? – disse.
– Ham?
– É meu olho?
– Que olho?
– Se incomodou com meu olho?
– O que tem seu olho?
– VOCÊ JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?
– Não tem nada demais no seu olho.
– VOCÊ TAMBÉM É FEIO!
– Arlene…
– VOCÊ É MAIS FEIO QUE DOR NO RIM!
– Calma, Arlene. Vai acordar a criança.
– VOCÊ É FEIO COMO A DOR DA MORTE!
– A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 100. Você é linda, Arlene. Você é linda.
Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota. Então fizemos as pazes. Depois tomei mais um trago e deixei o Castelinho. No caminho de volta, enquanto respirava aquele ar gelado, comecei a imaginar. Eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Uma vida sem fila pra entrar em elevadores. Pensamentos que se perderam com os latidos de uma suruba de vira-latas. Eu precisava descansar. O ônibus saía às seis. Acertei relógio pra 5h45. A rodoviária ficava bem ali ao lado da pousada de portão amarelo.
Paulo Bono nasceu e cresceu nas ruas da Lapinha, em Salvador. É flamenguista, publicitário, escritor e roteirista. Publicou Espalitando (Cousa, 2013, Contos e crônicas), participou da coletânea Casa de Orates (Mondrongo, 2016, Contos) e escreveu O Garoto (Saturno Filmes, 2014, 14 min.).
Descobriram uma bomba da segunda Guerra Mundial ao fazerem uma obra na proximidade do meu prédio. A polícia passou convocando os moradores, pelo alto-falante, a deixarem suas casas. Na Alemanha, as bombas estão por aí, enterradas inertes no fundo da História, mas chega o momento no qual desabrolham como a gigante semente de uma flor nefasta, despontam da terra como uma enorme melancia enferrujada e repleta de crostas de lama. Mesmo depois de setenta e poucos anos podem explodir. Bombas são assim, não possuem prazo de validade como o pão, o leite ou a nossa vida. Enquanto ela estiver protegida por uma camada de terra como o embrião maligno da morte, ela fica ali, esperando a sua vez de espocar e despedaçar tudo a sua volta. Ouço os passos dos vizinhos descendo as escadas, os automóveis, antes estacionados na rua, deixam o local. O cinza do dia é escuro e chove. O eco do megafone funde o final da tarde. Não sei para aonde ir assim rápido, espontâneo. Devo ir a algum restaurante – longe – e ficar jantando a noite toda? Será que eu seguirei o chamado da polícia para evacuar ou ficarei em casa como aqueles teimosos que não abandonam os seus pertences mesmo com a chegada de um furacão, permanecem implacáveis junto de suas coisas como se pudessem salvá-las com sua presença flutuável, quebradiça?
Com repulsa visto o casaco, calço os sapatos, pego a bolsa, meu livro e o caderno de anotações. Na calçada, pergunto ao policial: quanto tempo isso demora? Talvez até amanhã de manhã! Até amanhã de manhã?! Penso perplexa. A polícia nem disponibilizou tempo para eu fazer uma mochila com a escova de dente, creme antirrugas, uma toalha e o pijama. Tocou a campainha de casa em casa ameaçando: deixe o apartamento imediatamente! Voltei. Regressei para o meu apartamento. Sentei-me no sofá da sala e escuto a mudez de tudo ao meu redor, como se o mundo tivesse se esvaziado. Não posso acender a luz, para não descobrirem que transgredi a regra. Será que sou a única a contrariar as ordens? Vejo a pantomima do vento farfalhando as folhas da árvore diante da minha sacada. Isso me leva a pensar naqueles que vivenciam a guerra, que sentem os tremores da explosão sob seus pés, ouvem o ruído ensurdecedor, que perdem as paredes de sua casa ou o teto, perdem os móveis e os que sobram são cobertos pela grossa camada de cimento pulverizado e seus pedaços, e perdem seus pertences – quando não perdem um braço, uma perna, — a vida.
Não é a primeira bomba a ser encontrada e não será a última. Há milhões enterradas nesta terra e nas regiões mais afetadas pelo conflito bélico daquela época, também são encontradas ossadas de civis mortos plantadas debaixo da cidade, por várias décadas. Eles renascem tão inocentes como morreram. Os ossos são resgatados e levados para um laboratório ou para o cemitério. Suponho que façam um teste de DNA para saber quem é. São tantos ossos ainda dormindo, esperando alguém libertá-los e lhes dar um rosto e uma biografia, e os levar aos seus parentes que agora fazem parte do futuro.
Os artefatos são desativados com sucesso, com exceção de alguns poucos. Acontece de trabalhadores da construção civil depararem-se com um dispositivo, cavando a terra com a escavadora, e ele explodir. Geralmente, são encontrados em terrenos baldios. O governo de Berlim comprou documentos e fotografias pertencentes aos arquivos dos Aliados para a busca de artefatos, e criaram um mapa com as regiões mais afetadas. Será que o piloto de um dos seiscentos aviões que jogaram mais de cinco mil bombas nesta cidade imaginou que ele poderia me acertar? Eu, que não vivi a guerra, não nasci neste país, vivi muito tempo longe daqui, e setenta e poucos anos depois, uma bomba da segunda Guerra Mundial pode me atingir como se a guerra fosse ontem.
Certa vez, o artefato explodiu e escutei na rádio: três especialistas em armamento morreram, as vidraças de alguns prédios se espatifaram, brotaram rachaduras nas paredes. Deixaram mulher e filhos. Quando explodem, apesar de antigos e enferrujados, é com os mesmos vigor e iniquidade, como se todos esses anos a força de destruição da guerra tivesse incubada ali.
Há pouco eu ainda ouvia o chiado das rodas dos automóveis passando ligeiros pela autoestrada lá adiante, o som undíssono dos pneus no asfalto encharcado ecoava alquebrado até a janela da minha sala. Agora nada, apenas o silêncio, parecido com o primeiro de janeiro quando todos dormem de ressaca.
E então, depois de algumas horas, na meia-luz, anotando palavras ilegíveis, a fome me surpreende e vou à cozinha, comer o resto da batata-frita que eu fiz para o almoço. Semelhante aos condenados à morte que fazem a sua última refeição. A bomba pode explodir agora, comigo comendo batatas-fritas. No banheiro, fazendo xixi, torço para que ela não exploda agora que estou com as calças abaixadas sentada na privada. Não é assim quando se está em guerra? Nem ao banheiro podemos ir em paz, as mínimas e insignificantes ações podem se tornar as últimas e tudo é perigoso. Percebemos o quanto as mínimas coisas são essências e o quanto podemos ser felizes com elas, como simplesmente jantar em casa com a família, ouvir uma música na rádio, guardar a louça no armário, tomar banho…
Ando como uma intrusa no interior do meu próprio apartamento. Não há mais alto-falante lá fora, não há mais polícia perambulando pela calçada. A rua está deserta, o prédio está abandonado. Não vejo mais o xadrez das janelas acesas e apagadas, que aparece todas as noites, somente o breu indecifrável resplandece na fachada das casas. E quando a taciturnidade é mais pesada do que aquilo que escrevo, a sensação de fim de mundo me advém, me sobressalta, logo em seguida, desaparece de novo. E depois? Devo pensar na vida eterna? O que vem depois da destruição, do fim? Não sei, só sei do não existir mais neste apartamento, neste corpo, nestes pensamentos. Só sei da abrupta interrupção de mim com esta vida, com as coisas deste mundo material. Talvez eu me torne somente pensamentos gasosos que flutuam no ar, uma espécie de névoa que se evapora ou se transforma em chuva e cai na terra, no cimento, nos telhados, no vidro dos automóveis. Pois não é assim, na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Nós nos transformamos em quê depois de mortos? Não sei para aonde vou quando eu deixar de ser eu incorporada nesta armação de carne e ossos, sangue e órgãos. No fundo, morrer é simples, basta um segundo e, às vezes, nada percebemos; outras vezes, a vida é um morrer constante, repleta de dor e desespero.
Reflito nos especialistas em engenho explosivo trabalhando ao redor do artefato. Certamente precisaram cavoucar cuidadosamente a terra, na região onde o dispositivo se encontra, para liberá-lo do lamaçal. Presumo que armaram uma cabana com cobertura de plástico sobre esta área, para que os pingos de chuva não caíssem sobre o rosto dos especialistas e em suas mãos, atrapalhando a concentração. E também de luz eles precisam, deve haver um grande farolete doando claridade. E no instante decisivo, os especialistas precisam ficar sozinhos, completamente solitários, e assim poucas pessoas morrerem se algo der errado.
Imagino um único especialista enfrentando este artefato de duzentos e cinquenta quilos, enterrado a cerca de meu prédio. Tudo a sua volta foi evacuado, a autoestrada está vazia, os edifícios, o supermercado, o asilo de velhos, a estação de metrô, os prédios, as calçadas. Apenas ele e o silêncio absoluto, ele e a afonia que caiu sobre esta parte da cidade como um manto negro, ele e o isolamento, ele e a solidão, ele e o pipocar dos pingos de chuva sobre o plástico, ele e o suspense, ele e a obscuridade do futuro.
Durmo no sofá da sala. No meu quarto, a cama fica muito perto da janela, e se o artefato explodir o vidro se espatifará em cima de mim, cortando meu corpo, furando minha carne. A sala fica do lado onde a pressão levaria os cacos a caírem para fora, deduzi com os meus parcos conhecimentos de física. Meu prédio localiza-se à margem do perímetro dos quinhentos metros de evacuação.
Tenho o sono leve, meu sonho é uma mistura de vizinhos invadindo meu apartamento, me acusando, me ordenando a sair, e o amarelado claro e forte do sol se derramando na escada. No meio da madrugada, desperto e cogito se seria agora que ele separa a concha entre o impulsor de ignição e o explosivo, com o cortador de granulado de água — e fomos salvos. Meus olhos arregalados vislumbram o escuro como se pudessem atravessá-lo feito um raio. Esse escuro nada me responde. Não é possível eu saber, pode ser agora, daqui a meia hora, duas horas, ou já foi. O que ele pensa neste átimo de tempo preciso com o bafo da morte na sua nuca, instante no qual o seu corpo pode vir a ser despedaçado e pedaços voarem e como um bando de pombas pousarem no chão. As partes espalhadas como em um quebra cabeça imontável. Sentir ele não sentirá, nada disso ele sentirá. Mas possui a consciência. Talvez ele reze, se for religioso, talvez ele pense em sua mulher e filhos, em seus pais, em sua namorada ou apenas se concentra porque a rotina – são mais de setecentas bombas que ele desativou – a prática o fez esquecer que ele é a pessoa que executa um trabalho que toda vez pode ser a última. Como se eu, ao assinar um documento no escritório, corresse o risco de explodir. Pego a caneta, observo o papel profundamente, calculo minha assinatura no espaço exato, preparo a caneta, a minha mão, respiro fundo, concentro-me, penso nos meus entes queridos e — desejo viver e — assino.
Não há como eu saber o lance de tempo exato no qual ele cala a bomba, corta a sua aorta e o monstro morre para nunca mais, — vencido, agora inofensivo, semienterrado na terra como um estranho alienígena de ferro, sem olhos, sem ouvidos, sem membros, somente com a boca fechada, esta boca que ao abrir engole construções e vidas. Não há como eu saber, mas creio que esta bomba não me alcança, esta bomba não me alcançará.
Viviane de Santana é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, publicação independente, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.
O significante aqui é a sombra da árvore com sua música silenciosa quase tocando seus olhos, árvore ininteligível e silêncio amado com força suficiente para desintegrar a mistificação da linguagem poética, mas isto apenas no final, quando a sombra de um outro silêncio incancelável atravessar o espaço
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E se tudo for uma metáfora dos nossos sonhos? E se a realidade for um emaranhado de poemas e problemas tão misturados entre si que é quase impossível distinguir uns dos outros? E se o amor for no fundo a única maneira de distinguir uns dos outros?
Talvez as metáforas sejam ‘a droga do século’ mas na falta delas o amor pode se converter em mais uma droga anestésica, uma geração inteira viciada em ‘anestesia da vida interior’ não é melhor do que outra viciada em ‘fuga interior’, olhar para fora pode ser um ato revolucionário se nossa vida interior acompanhar o nosso olhar, vou reler o seu livro como se ele fosse um filme em estado puro ou seja, como se ele fosse ‘ algo vivo’ como os nossos sonhos, esse lugar onde o amor nasce ou se confirma como mais uma metáfora, a mais poderosa delas.
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Como acender uma paisagem para libertar os gritos?
Inesperadamente os sentidos mais profundos de um termo nos escapam se estamos no início de uma paixão por uma ideia vaga e errática como essa ideia do ao vivo (inexistente segundo a microfísica pois tudo é gravado) ou a ideia do encantamento como fundador do amor (impossível segundo a lógica mais abstrata e por isso mesmo uma longa sinfonia que toca muito baixa por dentro) como um pássaro que se apaga.
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Todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico, o caos é indestrutível e se multiplica através das galáxias, das palavras e dos silêncios.
O nazismo psíquico tem cheiro de menta.
Nós em nome do poema contínuo nos colocamos contra o nazismo psíquico neo-positivista dos livros de autoajuda e contra o nazismo psíquico pseudo-niilista e semi-hedonista da cultura das drogas.
o nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.
ora o caos já provou através da história que a vida se move dentro do impossível
e dissolve as coisas no ácido do tempo-morte. No ácido do tempo-êxtase
o caos é ambíguo como um elétron, ora é uma partícula de caos visível, ora é uma onda invisível de hipercaos.
o caos não é um teatro.
o nazismo psíquico é um cenário interior construído pela ditadura das coisas-conceito.
o hipercaos não é um poema.
nenhuma palavra jamais tocou na realidade, isso explica porque os escritores sempre fracassam quando tentam vencer o nazismo psíquico com palavras.
mas em verdade vos digo que a poesia fora das palavras é infinitamente mais poderosa do que a ditadura das coisas e ela virá como uma onda viva de dentro do hipercaos tudo o que chamamos de realidade será consumido por essa devastadora onda de sonho.
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Em O REI DAS VOZES ENTERRADAS
Manifesto Sabiá
18 de setembro de 2013 às 15:20
Conversando com um amigo sabiá, rimos muito das reclamações que fizeram de seus cantos. Ele disse que os cantos que mais incomodam são os quânticos desatrofiantes, que interiorizados oniricamente na cidade geram como primeira reação uma imediata indignação com os véus cegantes da pseudo exterioridade, e tem como consequência um acordar-revolta contra o próprio canto-reza (ele nomeou esse processo como ornitoclash anticósmico). Disse ainda que repelimos os cantos dos sabiás e dos sábios com a mesma ignorância que destruímos as abelhas humanas, atordoados e anulados pela pluriesquizofonia congelante e assassina do irreal. Tive de concordar, e rimos ainda mais. Quando lhe perguntei sobre os limites da desrazão, ele voou.
Depois me deitei no sofá e sonhei que ele não havia voado e havia começado uma convenção telepática de Pássaros do mundo inteiro e o Sabiá pousou em cima da lâmpada da sala e começou um canto-diálogo com o ‘Ele’ que é o eu dos sonhos:
Sabiá: – Nós somos o mesmo pássaro, mas de todas as formas de asa o seu olho é a mais bonita, a asa fechada no círculo, com todos estes fios finos
Ele: – Supercordas para receber as imagens do cosmos disfarçadas
Sabiá:- O canto do olho cria todos os sóis, você é um Sabiá diferente dos outros
Ele:- Eu sou um Sabiá, porque é o que todos nós dizemos quando encontramos vocês, definição é o assassinato pela nomeação
Sabiá:- Sim, vocês cantam isso com o olho-boca, mas a porta, o que vocês chamam de bico em mim, é em outro lugar na cabeça e é também um ovo que vocês quebram por dentro
Ele:- O cérebro, o nome do nosso bico é cérebro
Sabiá:- Então a flutuação dos raios é para dentro dos fios, aqui o ar é delicado e podemos conversar, mas meus eus estão chamando e tenho de voar para fora do seu dentro.
Eu acordo e não consigo mais pensar em outra coisa a não ser na origem da palavra ‘ Sábio’ e na ligação entre o canto dos Sabiás e o canto quântico dos Pré-Socráticos.
Escrito com Kleber Nigro
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Voltando para a floresta-sem-floresta que a película de Berkeley sempre confundida erroneamente com o véu de Maya continua escondendo. Nesse lençol de luz e gravidade que chamamos de VISÕES a ‘Une rose seule,c’est toutes les roses’ continua cantando :
” Ó imenso mar das formas coberto por este manto de olhares imensamente fechados…Logo mais TUDO estará flutuando como o sonho
Para acabar de uma vez por todas com o amor, basta chamá-lo de amor e esperar que a palavra dissolva A COISA… Que morre dentro do pote de vidro fechado de um nome ou passa como essas nuvens clonadas na superfície desse mar emprestado por um filme onde elas se deitam como putas ou dentes-de-leão filtrando um ex-poema dentro do pó. O amor é o esqueleto de um inseto.
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A Love Supreme
Cruz e Souza: Existe uma rutilância sublime nas auroras em contraste com o tempo que nos assombrava que tornava pálida a luz destas chamas que fomos e que hoje é musical se a este sonho for comparada.
John Coltrane: Talvez venha do Senhor todo esse resplendor, a luz invisível que era a música que hoje não podemos mais separar de nada, até da nossa carne, este pó de luz que volta a ser luz e de novo pó da luz
Cruz e Souza: Sim, entendo teu discernimento da música e dentro da arquitetura da etérea leveza das experiências, eras músico…
John Coltrane: Não, tentei não ser isto, eu tocava para o altíssimo e tudo o que eu fazia era orar e receber os sinais, Ele só desce pela escada das harmonias celestiais e a música e a oração são a mesma coisa, como degraus dessa escada
Cruz e Souza: Já que falaste em escada, vamos subir…
Marcelo Ariel é poeta, performer e dramaturgo. Nasceu em Santos, em 1968, e reside em Cubatão-SP. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados”, “Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio”, “Com o daimon no contrafluxo”, “Potestade e pássaro”, entre outros. Os textos aqui publicados integram o livro “A névoa dentro da nuvem – Prosa reunida”,recentemente publicado pela Lumme Editor.