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143ª Leva - 03/2021 Destaques Olhares

Olhares

Do tempo que não coagula

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.

A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?

Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.

Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.

Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade,  epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Olhares

Olhares

O legado das linhas de Vinha Oliveira

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.

Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.

Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.

A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.

É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Olhares

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Do corpo e seus sutis mergulhos

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Eis a vida, palco de universos e sentidos, em seu transcurso tácito. Vê-la desfiar seus instantes, capturando as substâncias dos entreatos, é algo que também nos cabe. Na adição dos tempos, somos os corpos que recepcionam e guardam os sintomas da existência. Corpos que evocam linguagens, sinalizam caminhos e se deslocam no contorno das intermitências mundanas.

Logo se vê que estar no mundo nos impõe o passo adiante, qual seja o de irmos além da fisicalidade das coisas. No roteiro imaterial da jornada, somos escritura viva dos sentimentos e mistérios guarnecidos sob nossas peles. E a arte pode ser o elo entre as dimensões intimistas e o todo circundante, bem sabemos.

Uma obra pode comunicar mais do que apressadamente supomos. Em sua capacidade de canalizar experiências e transpô-las para os mais distintos suportes visuais, o artista é condutor de rotas ante nossos olhares carregados de anseios. Nesse sentido, talvez esperemos dele que nos estimule o gosto pelos atravessamentos, pelos temas que nos tirem da passividade, propondo-nos o caminhar autônomo e desacomodado sobre os cenários apresentados.

A representação do corpo através da arte cruza os tempos e vem eivada de simbolismos dos mais diversos. E há quem traga em seu ofício um olhar marcado pelos apelos sobretudo poéticos, fazendo com que um conjunto de subjetividades se torne protagonista. Aqui chamo a atenção para o trabalho de Fernanda Bienhachewski, que faz de seu enleio artístico também um acesso para a expressão de narrativas humanas.

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Devo ressaltar que há nos desenhos de Fernanda uma construção especial de pontes com o mundo através da exposição do corpo feminino. E este corpo é como um instrumento de diálogos sensíveis entre a natureza, o cosmo e o humano. Nessa confluência de eixos, a mulher é protagonista num cenário que sabe a mistérios, desejos e inquietudes, mas que também leva em conta a profundidade dos sonhos, sejam eles quais forem.

Ligada desde a infância às artes visuais e à literatura, Fernanda Bienhachewski tem seu trabalho também marcado por temas como o cotidiano, relacionamentos e questões existenciais. Estas últimas, diga-se de passagem, conferem à obra da artista certo tom filosófico, momento em que seus desenhos flertam com indagações da ordem do humano, envolvendo processos de consciência e busca pela compreensão do ser/estar nesse nosso vasto mundo que é, por natureza, repleto de dúvidas.

Graduada em Ciências Sociais pela PUC, e também especializada em Gestão Cultural, Fernanda vem atuando como produtora cultural ao passo que trilha a sua carreira nas artes visuais. Concentrando-se especialmente em técnicas a partir do nanquim e da aquarela, a artista vai tecendo múltiplos contextos para as criações. Seu retratar de corpos também revela as projeções de mundos imaginados, ampliando a noção de um limiar tênue entre o vivido e o inventado. E ficamos assim, marcados pela substância intangível das sensações ao mesmo tempo em que aquilo que nominamos como o real bate sorrateiramente à nossa porta.

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

* Os desenhos de Fernanda Bienhachewski são parte integrante da galeria e dos textos da 139ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Olhares

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Esses insondáveis olhos que nos miram

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A Arte não é apenas esse complexo de possibilidades, concretudes e experiências que se prestam ao território de uma já tão costumeira e reduzida noção de entretenimento. E talvez esse discurso visa reduzir o real impacto que o ofício artístico pode representar para quem se digna a produzir seus conteúdos. Ao lado disso, há a necessidade de percebermos que o artista é, para além de seus gestos humanamente transformadores e contemplativos, um alguém que vive do seu labor, um trabalhador que também oferta seus produtos e precisa se manter profissionalmente dentro de uma determinada lógica de sobrevivência.

Essa discussão toda acaba trazendo à tona o próprio valor que atribuímos aos bens culturais. E fica a questão: por qual razão ainda tomamos a Cultura como algo secundário numa sociedade que demanda sempre pautas urgentes? Indo mais além, por que a seara cultural não seria um gênero de primeira necessidade em nossas prateleiras pessoais? Talvez nos falte informação ou, melhor dizendo, educação suficiente para que consolidemos a Cultura num amplo nível de aceitação social.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Mas por que levantar todas essas questões num texto que se dedica a destinar olhares sobre uma artista em especial? A melhor resposta talvez seja considerar que, assim como poderia ocorrer com qualquer outro ramo de atividade profissional, as escolhas e o poder do chamamento pessoal influenciam e mudam rumos. Foi o que aconteceu com Ana Luiza Tavares, que, ao longo de anos consideráveis, viu-se dividida entre as feições de dentista e artista plástica. Ela confessa que, numa certa altura de sua vida, chegou a se afastar da arte por dilemas atinentes à subsistência financeira, chegando a colocar em xeque a própria vocação artística.

Para nossa satisfação e descoberta, o tempo, este senhor que também atenua fardos, foi capaz de apresentar a Ana Luiza caminhos de permanência pelas vias artísticas. Hoje, sua arte coexiste com a ainda trajetória de odontóloga, mas de modo mais firme, decisão que certamente redimensionou sua vida a patamares nítidos de realização pessoal.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A seu modo, os desenhos de Ana Luiza Tavares rendem especiais visitas a um universo feminino que sabe a territórios de delicadeza e força. Nesse ínterim, chama especial atenção o emprego das cores, pois estas representam um verdadeiro termômetro de sensações aplicadas às personagens que nos são apresentadas. Cada tom utilizado traduz a performance feminina diante dos mais distintos cenários mundanos, condição tal que pode refletir tanto serenidades quanto inquietudes.

Flertando com elementos poéticos, dos quais a síntese se destaca, Ana Luiza condensa imageticamente sentimentos que pulsam na intimidade humana. Dessa maneira, percebemos alguns de seus desenhos comunicando e reunindo, a um só tempo, temas como o silêncio e o recolhimento, gestos tão necessários em meio ao turbilhão contemporâneo a que somos submetidos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A artista, nascida em Salvador, vive no Rio de Janeiro há cinco anos. Desde muito pequena, testemunhou no seio de sua família a presença ativa da arte, pois sua mãe é ceramista e seu pai um geólogo aficionado por artes plásticas, literatura e música. Quando retomou seu ofício artístico, Ana viu as coisas acontecerem numa velocidade que nem supunha pudessem ocorrer. Conseguiu impulsionar sua carreira de ilustradora, passando a divulgar e comercializar suas obras tanto nas bandas virtuais quanto em espaços físicos no Rio.

Há o algo que se destaca na expressão facial das mulheres dispostas nos desenhos da artista. É como se cada gesto, cada olhar em particular, nos despertasse para contextos peculiares de contemplação e reflexão, sugerindo mergulhos ensimesmados e nem sempre leves de assunção. Aliás, dizer do que somos também denota um infindável complexo de narrativas marcadas por tensões de natureza múltipla. Seja na via de um clamor profundo ou na transmissão de um simples encantamento com a vida, as mulheres de Ana Luiza Tavares olham bem dentro nos nossos olhos, ofertando-nos possivelmente um banquete de estranhamentos e espantos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

* As ilustrações de Ana Luiza Tavares são parte integrante da galeria e dos textos da 135ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Olhares

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O corpo, o cosmo e o caos

 Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Felipe Stefani

 

São linhas que transpassam a existência. Contornos que anunciam o alvorecer de gestos e movimentos como se tudo coubesse num universo de beleza e mistério. É preferível assumir que a vida é ela mesma a assunção de mistérios, desses que se embotam na trama dos destinos. Imaginemos, pois, tudo como consequência de um permanente entrelaçar de ações na medida em que o que somos espelha os reflexos das investidas de outrem, nossos semelhantes e suas difusas trajetórias e repertórios. Assim, reconhecemos nossa humanidade a pulsar imperiosa no turbilhão de corpos e mentes que nos atravessam a visão dos dias que carregamos conosco. Sim, somos um amalgamado e complexo organismo que é fruto das trocas e intervenções do Outro em nossa caminhada.

Ah, o corpo, esse receptáculo de intenções! O corpo enquanto a expressão mais pura da nossa sina terrestre. O corpo como essa estrutura física a compor o bailado dos dias, posto que tentamos nos equilibrar diante das demandas racionais e afetivas tão nossas. Pensando a arte de Felipe Stefani, os trajetos corporais são os mais autênticos representantes das nossas condições de ser e estar num mundo em que habitamos de forma errante. Ao mesmo tempo em que nos incita ao mergulho denso, Felipe relembra certo caos que nos acomete em matéria de experiência humana. Vale considerar que a cartografia caótica sugerida pelo artista em questão não é um banal engenho de desordens, mas, antes de tudo, a síntese orquestrada de nossos espantos e estranhamentos. Na confusão entre desejos e equívocos de nossa natureza, as imagens se expandem compondo um complexo painel de desassossegos.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Felipe Stefani deixa entrever um sentimento de cosmovisão em muitos de seus desenhos, algo abrigado na noção de que múltiplos saberes e cenários da existência humana aparecem profundamente associados entre si. Tal percepção é, ao mesmo tempo, a constatação de que os homens e suas investidas encontram terreno favorável para a expansão no solo comum e enigmático das expectativas. Desse modo, o artista observa as partes que, ao fim e ao cabo, integram um todo em incessante construção, organicamente engendrado pelo flerte com a dúvida.

O corpo em Felipe Stefani também é casa que acolhe delicadezas. É nesse momento que a bagagem de poeta empresta seus atributos ao artista, movendo seu traçado sob a imagética de um lirismo que se pretende intenso. Dentro desse caminhar, seus desenhos harmonizam desejos, crenças e epifanias humanas com uma indelével  marca emotiva, fazendo-nos refletir sobre temas como a solidão, os afetos e o amor.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Paulista que vive em bandas cariocas, Felipe também se dedica aos versos e à fotografia. Seus primeiros contatos com o desenho derivam da infância, principalmente por intermédio da mãe, a também artista plástica Sandra Lagua. Confessa que suas principais influências vêm de gêneros da cultura de massa, tais como o cinema e o rock. Desde 2002, vem atuando como ilustrador, com trabalhos voltados para o cinema e literatura. Como poeta, possui dois livros publicados: O Corpo Possível (Dulcineia Catadora, 2008) e Verso Para Outro Sentido (Escrituras, 2010).

Essencialmente, a arte de Felipe Stefani é um convite ao sublime. E tomemos aqui tal atributo não com um sentido de exaltação estética de perfeição. Mais vale considerar o potencial de representação humana de sua obra como sendo aquele que expõe a carne viva de nossos atos, anseios e projeções, misto de coisas que refletem um estado permanente de poesia, essa dimensão de abismos íntimos e compartilháveis.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

* Os desenhos de Felipe Stefani são parte integrante da galeria e dos textos da 131ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Olhares

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Sutilezas da irreverência

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A vida dilui-se em formas. Seus contornos nos falam de mundos próximos ou quiçá distantes. Universos que abrigam seres e suas narrativas, sinas a revelarem sintomas do ato de existir. Se existir é domar o sopro vital, talvez sejamos tidos como criaturas a repetir a mecânica das coisas. Se existir for algo além, estaremos, pois, diluídos na paisagem dos instantes.

Atravessar o tempo é uma das inúmeras possibilidades de se olhar a tudo como se fosse a primeira vez. Aí reside a permanente chance da surpresa, do encontro não marcado. O maior desafio humano parece ser o de não se repetir diante da colossal jornada da existência. Quando perdemos de vista a curiosidade da descoberta, algo em nós talvez nos coloque mais próximos do fim. E o término das expectativas e buscas pode representar a própria finitude do indivíduo.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Mas o que fazer diante de um mundo multifacetado? O que aproveitar do banquete imagético que ele nos fornece? Talvez uma pessoa como a artista plástica Raquel Piantino tenha algo a nos dizer a respeito. Sua arte está muito próxima de um mergulho ampliado das percepções da vida. As figuras humanas por ela apresentadas em seus desenhos são parte integrante dessa tentativa incessante que empreendemos de domar os ímpetos do viver.

Ao nos debruçarmos sobre os desenhos de Raquel, podemos notar a urgência que habita a linguagem das formas. Mesmo nos contornos mais silentes, algo quer falar, invocar ao mundo a veemência de um verbo plantado desde sempre na tessitura humana. Assim, corpos e ambientes se integram e harmonizam, convocando os apreciadores da arte a uma detida incursão pelos gestos simples e ao mesmo tempo relevantes em nossa tão controvertida matéria cotidiana.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Para abordar as nuances complexas da realidade que nos acomete, Raquel passeia pelas rotinas dos homens como a demonstrar que ali também está o espírito irreverente das coisas. O real emerge com uma ajustada dose de humor e criticidade, fazendo-nos crer que a experiência dos dias sobre o nosso planeta equilibra efusões e precipícios. Com tamanha empresa nas mãos, a artista desvia-se de um mero jogo de oposições das forças contrastantes e não adota engenhos maniqueístas. Afinal, a nossa natureza de seres imperfeitos é um organismo através do qual as dualidades se mostram amalgamadas.

Diante do incorrigível espírito humano, é inútil o encargo de separarmos o bem do mal. Acertadamente, este não é o interesse de Raquel Piantino. No entanto, engana-se também quem possa considerar que a artista, ao navegar pelas águas de alguma fantasia ou abstração, estaria promovendo um mergulho frouxo pelas alamedas da arte. Pelo contrário, seus recortes plenos de serenidade e contemplação trazem à tona, sobretudo, um inquietante ato de provocar nossos lugares de acomodação.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Raquel nasceu, vive e trabalha em Brasília. Com uma formação marcantemente influenciada pelo cinema de animação, além de vertentes como quadrinhos e design, a artista já trabalhou em curtas-metragens, projetos experimentais e também comerciais. Também desenvolve animações ópticas com brinquedos mecânicos e, como ela mesma confessa, sua busca está voltada para a simplicidade do traço e o potencial simbolismo encerrado nas imagens.

Quando a arte não se furta à perspectiva de perceber a dinâmica das coisas, abre-se um valioso precedente, qual seja o de enxergar nos fenômenos mundanos uma fonte possível e inesgotável de apreensão dos sentidos. Os desenhos de Raquel Piantino são como lembretes de que estamos vivos. Mais que isso, vivos e passíveis de uma transformação que nem sempre envia seus presságios.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

* Os desenhos de Raquel Piantino são parte integrante da galeria e dos textos da 123ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Olhares

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Espirais do caos: uma vereda em Samuel Luis Borges

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

No cerne do tempo, as formas transitam. Saem do plano mental das ideias para depois ocuparem espaços plenos de significado. Flutuam por entre seres e dimensões possíveis num emaranhado de sensações que, ao fim e ao cabo, são demasiadamente humanas por natureza.

Acima de toda uma composição abstrata da vida que as linhas iniciais desse texto acabaram de mencionar, há o fino trato do entendimento das coisas pelo viés da poesia, essa colossal capacidade que um determinado artista possui de tornar perceptíveis sentimentos emanados de uma fonte intangível.

Faz toda diferença considerar que certas rotas traçadas pela arte aproximam dois polos fundamentais da acepção das coisas: o primeiro deles pensa a materialidade como instância do que nos é imediatamente visível aos olhos; o outro mergulha no âmago das interioridades, indo buscar ali um resultado subjetivamente marcado pelas construções abstratas do ser/estar no mundo.

Nessa confluência de dimensões aparentemente opostas por natureza, mais especificamente na relação entre o concreto e o impalpável, é preciso dar nome aos bois. Estamos falando de Samuel Luis Borges, artista que, na miríade complexa de seus desenhos e aquarelas, engendra um caminho marcado por uma elaboração peculiar das formas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Por que não falarmos em transgressão quando o artista ao qual acabamos de aludir ousa trazer à baila contornos nada usuais para referendar a experiência humana? A resposta é afirmativa na medida em que Samuel mescla sabores e dissabores tão nossos na caracterização dos seres que advêm da sua inquieta verve criativa. Diga-se de passagem, a tais criaturas pensadas pelo artista em questão é dada uma conformação traduzida em caos e mistério.

Eis que chama atenção no fazer artístico de Samuel a caracterização espiralada de uma parte significativa dos seus desenhos. Tais delineações parecem estabelecer pontos de permanência das formas para algo além da esfera física e visível. Desse modo, a intersecção dos corpos revelados remonta a uma ideia de que os laços humanos estão atravessados por uma pungente sensação de amalgamento. Ao que fica a pergunta: novas existências brotariam dali?

Talvez a mecânica que articula os sentimentos humanos possa servir como resposta. No entanto, há, por assim dizer, o nascimento de outras tantas existências a partir desse cruzamento de traços propostos pelo artista. Dessa interligação dos seres, brota um todo orgânico capaz de nos lembrar que a espécie humana, sendo composta em essência dessa pangeia que aproxima tanto êxtases quanto espantos, delimita seu locus num limiar incessante de labirintos e precipícios. Assim, partidas e chegadas, alegria e dor, vida e morte como cenários possíveis.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Qualquer tentativa de tornar banal a acepção do caos parece não encontrar abrigo no trabalho de Samuel Luis Borges. Não é um trato meramente desordenado das coisas e sensações quem dá a tônica da construção imagética como se a solução criativa estivesse contemplada pelos artifícios de um rearranjo. Pelo contrário, devolve-se o incômodo, esse espantado gesto do ser, sob a forma de representações pessoais e sensíveis do laborioso ato que é viver. Daí, o artista não fugir do enfrentamento quando o mundo em toda sua complexidade o convoca a se posicionar.

A expressão artística aqui presente contempla também a impressão de que o homem contemporâneo não é detentor de uma identidade estática, tendo em vista que o caldeirão das representações culturais borbulha mudanças estruturais a todo tempo e que atingem o sujeito em sua busca por sentidos. Em face de tal cenário, difícil seria manter viva qualquer alusão a lugares pacificados pelas mãos invisíveis da uniformidade.

No seu modo autodidata de se comunicar com o mundo, Samuel confere à poesia um status de razão central de suas manifestações enquanto artista. E o fazer poético não é apenas o gesto que transborda de seus desenhos e aquarelas, mas também aquele que demanda incursões pela palavra escrita e falada.

Envolto pelas atmosferas urbanas, Samuel Luis Borges existe entre nós. Transita entre os espaços da metrópole que acolhe e repele, navega pelo insondável. É porta-voz da construção e também da desconstrução do tempo. Tenta fazer com que sua arte desacostume o arranjo natural das coisas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

*Os desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges fazem parte da galeria e dos textos da 119ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Olhares

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Um desintegrado lastro humano

Por Fabrício Brandão

Desenho: Re

Os dias caminham sobre o imenso território do planeta. Vez por outra, estamos inebriados ao ingerirmos, muito sem querer, doses cavalares de realidade. E a pergunta fica: alguém de fato encontra completude diante da incessante rotina do real?

De um lado, o que vemos e tomamos como coisa viva e presente na lonjura do tempo. Do outro, as construções internas reivindicando espaços libertários de representação. No consumo diário das cápsulas da realidade, alguém sempre encontra espaço para modificar a tônica ensaiada das coisas. E quando o livre universo da abstração adentra uma janela de nossa frágil casa, ali, na porta dos fundos, foge exasperada a banal figura de um olhar domesticado das coisas.

Definitivamente, não somos animais feitos para acostumar as horas. Podemos até, com certa frequência, negligenciar a face do inconformismo e postularmos alguma espécie de acomodação do olhar. Mas chega um momento em que isso não se torna mais possível, pois há chamados apontando rumos nada cartesianos, nos quais tempo e espaço são elementos nem um pouco mensuráveis sob aspectos de quantificação aparente.

A valoração íntima do modo como cada pessoa vislumbra as nuances do mundo alveja diretamente alguns lancinantes cenários. São recortes da existência a nos provar que é possível ressignificar a vida em grande parte. É o que tenciona a artista plástica Re, quando faz da sua arte um mergulho constante no território complexo e misterioso da introspecção.

Ao nos mostrar seus desenhos, Re põe em evidência uma espécie de desconstrução das formas tradicionais. As paisagens humanas por ela visitadas são o reflexo de um universo pessoal de abordagens, filtros de um olhar que expõe em certa medida o caráter maculado das nossas humanidades.

Desenho: Re

Seja na deformação de corpos, na utilização de sutis recursos irônicos ou na acidez crítica dos contextos, a desenhista invoca a urgência fragmentária das identidades mundanas. Trata-se de um vasto painel de sombras duma consciência dispersa por entre os vãos das desventuras dos homens, suas escolhas, bem como o idioma dos equívocos nossos de cada dia.

Mas eis que há a palpável constatação de que mergulhamos no fosso abissal da chamada pós-modernidade. Nesse contexto largamente indefinido pela fluidez das identidades e, sobretudo, pela ausência de um sujeito único e assentado numa zona de segurança, é que percebemos a contribuição da artista no que se refere ao desafio de pensar o estado atual das coisas às quais estamos submetidos.

Re é na verdade a persona artística de Renata Lisboa, trans, paulista, estudante de arquitetura, um alguém que vai moldando sua identidade em meio ao fluxo de alumbramentos inquietantes. Sua jovem idade (19 anos) é inversamente proporcional à promissora capacidade que possui de pôr em xeque através de sua obra a fixação de qualquer verdade universal.

Transitando entre o niilismo e o pessimismo, a artista confessa que suas inspirações vêm de nomes como os de Tim Burton, Jodorowsky e Iberê Camargo, além de artistas independentes, sobretudo aqueles pertencentes ao surrealismo pop.

Na inscrição traumática e apocalíptica dos seus desenhos, Re traz à tona as marcas de uma arte que provoca e, ao mesmo tempo, não congratula com vãs esperanças de futuro. É como se cada forma, contorno ou cor empregados fossem um vivo atestado de que estamos implicados até o pescoço com aquilo que quiçá também somos: misto de sujeitos errantes com falsas ilusões de salvação.

Desenho: Re

 

*Os desenhos de Re são parte integrante da galeria e dos textos da 115ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Olhares

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As libertárias silhuetas de Rety Ragazzo

Por Fabrício Brandão

ret ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

Um vasto mundo pode ser reproduzido através de um determinado ponto de vista. E tal peculiaridade assume um importante valor quando não se fecha ao jogo inútil dos determinismos. Quem expressa em seu ofício uma específica vertente do pensamento, não pode impor ao outro padrões de observação. Importa deixá-lo à vontade nos domínios dessa majestosa senhora chamada percepção.

Mas eis que uma artista como Rety Ragazzo, ao nos indicar seus caminhos autorais, aponta para contemplar o mundo com o poder das formas. Dona de um estilo próprio, ela recria a experiência humana ao representar o universo feminino pela abundância corpórea de suas personagens.

Mais do que apresentar em seus desenhos e ilustrações o corpo feminino avantajado por vias naturais ou de quaisquer ordens, Rety consegue extrair da sua arte um sentido especial de libertação. Na medida em que esteticamente professa um traço singular sobre as figuras humanas retratadas, a artista promove uma construção inclusiva da mulher gorda dentro de uma ótica que afugenta indícios de panfletarismo.

De fato, a artista em foco abraça a causa das mulheres gordas por também se assumir como sendo uma delas. E assim nos diz: “Tenho muitas dobras e, desde que parei para observá-las, resolvi desenhar a quebra de padrões e ampliar discussões feministas e contra a gordofobia”.

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

O que deseja, então, a artista quando nos apresenta a vida povoada por mulheres gordas? Não há dúvida de que a resposta para tal questão encontra abrigo num valioso fator de provocação. Aparentemente, vemos um mundo povoado exclusivamente por aquelas mulheres. No entanto, a principal simbologia dessa opção criativa está na crença de que gordos são naturalmente integrantes do mundo sem que seja relevante olharmos para eles com os matizes da diferença física. Melhor ainda é perceber que a representação formal de mundo habitado apenas por pessoas gordas não prejudica o caráter de igualdade sugerido pela artista. É como se, gordos ou magros, também estivéssemos ali expostos com as devidas marcas de nossas individualidades.

A arte de Rety segue pelas trincheiras da ruptura de padrões e não hesita em firmar posições ideológicas diante da vida. Além de acumular as feições de pedagoga e professora da educação infantil, toma para si as frentes de feminista e esquerdista. Confessando-se uma mulher em emancipação, a artista torna o conceito de liberdade algo dinâmico na medida em que a construção de sua identidade se opera num deslocar de espaço e tempo, na vivência cotidiana que a tudo vê e sente, das coisas banais até as mais complexas.

Rety também expande seus traçados para outras fronteiras. É, por exemplo, o caso da  série “santos & orixás” (desenhos bem humorados feitos em parceria com Ana Roxo). Há também uma multiplicidade de tons e formas agregados sob a alcunha de “traços livres”.

Com a liberdade entre os dentes, Rety Ragazzo reinventa a própria existência e tudo que a cerca. Investe contra a rotina dos dias de modo a transformá-la numa fundamental aliada de sua arte. Cumpre seu ritual de pessoa comum e é capaz de desvendar pequenos mundos constantemente. Permite-se voar mesmo com os pés fixados ao chão.

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

*Os desenhos de Rety Ragazzo são parte integrante da galeria e dos textos da 113ª Leva

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Olhares

Olhares

Admirável novo olhar

Por Fabrício Brandão

 

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Desenho: Deborah Dornellas

A descoberta do mundo é um processo lento, dinâmico, complexo e continuado. Mas é necessária uma intervenção ativa do olhar para que isso se torne algo real. Do contrário, a imutabilidade dos gestos diante das horas que nos acometem não tem serventia, pois nada constrói. Nem tudo está posto e temos uma considerável margem de liberdade para traçarmos as interpretações ao nosso modo.

Quando nos deparamos com coisas já estabelecidas, podemos indagar se tudo deve transcorrer da maneira como se apresenta. Sob o manto da aparência pairam as mais diversas possibilidades, cada uma delas carregando em si uma oportunidade de ressignificação. E é preciso ousadia para romper as barreiras tão viciadas pela rotina que nos trai e acomoda.

Pensar a arte de Deborah Dornellas é apreender a sensação de que o mundo no qual vivemos não é o mesmo de sempre. Munida de uma imensa capacidade de abstração, a artista revela-se hábil em revestir seres e lugares com uma múltipla sucessão de camadas. Significa dizer que o objeto de seus desenhos opera num fluxo através do qual o caráter físico das coisas é fragmentado para depois servir de base a uma outra formulação.

A despeito do que foi dito acima, essa nova caracterização da matéria é capaz de desfigurar cenários e corpos para depois reordená-los com outra configuração em forma e conteúdo. Desse modo, Deborah consegue vislumbrar alguma ordem no caos que nos pertence por natureza.

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

No que tange aos traços humanos apresentados por Deborah em seus desenhos, chama atenção uma verdadeira consciência amplificada a cerca dos domínios do corpo. Nessa ótica, a artista prima, sobretudo, pelo recorte sutil das formas, pela indefinição de rostos e identidades. A aura que envolve corpos vem associada a uma espécie de esfera do mistério e, de certa forma, sugere uma conotação etérea.

Carioca criada em Brasília, Deborah hoje mora em São Paulo por escolha própria. Também é escritora, jornalista e professora de criação literária. Desenha e pinta desde 1993 e, depois que descobriu as possibilidades do desenho digital, tal ferramenta se tornou a base de seu trabalho.

A diversidade de cores e texturas é ponto de destaque no trabalho da artista. É a partir delas que o caráter abstrato das suas investidas toma substanciais proporções. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar que uma atmosfera intuitiva conduz as ações de modo predominante.

O que pode nos separar de um novo mundo é uma questão de ponto de vista. No entanto, a liberdade para definir como isso se dará é um aspecto crucial.  Mais que um mero exercitar de olhares, dar outros rumos para a existência é resultado de um inevitável flerte com o desconhecido. Se isso realmente mudará o curso das coisas, só os arremessos poderão dizer.

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Desenho: Deborah Dornellas

* Os desenhos de Deborah Dornellas são parte integrante da galeria e dos textos da 107ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.