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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Líria Porto

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

espantos

 

muitas caras
uma da infância outras da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
todo dia a cara muda
:
e cega
e surda

 

 

***

 

 

maríntimo

 

desde ontem
uma onda rebenta em meu peito
traz à tona o que vem lá de dentro
e me tinge de urgências

desde sempre

 

 

***

 

 

suburbano

 

meio sábio
meio cético
meio cínico
meio sóbrio
:
e cheio
de empáfia

 

 

***

 

 

herege

 

não caio nas malhas de deus
mais fácil me prenda o demônio
o céu não é lugar para gente
como eu
anjo não é santo
e nem faz milagre

 

 

***

 

 

frappé

 

nem nas horas tristes
foi infeliz
nem na mais alegre
sentiu felicidade

(viver é corriqueiro
um rato a roer queijo
um gato a perseguir passarinho
um cão a rosnar no portão
a levar pedrada de moleque)

 

 

***

 

 

desvios

 

primeiro enfiou-lhe um prego
depois um fósforo aceso
e ao final um saca-rolhas
(torceu e puxou)

seus olhos brilharam
sempre gostou de
ver-me-lho

 

 

***

 

 

monstros

 

a lagartixa me olha
a lagartixa me fita
eu na cama fico rija
lá no teto ela se move
e faz isso lentamente
como a medir o perigo

eu temo que ela despenque
mas não sei o que ela pensa
eu sou tão inofensiva
:
nós assim passamos horas
a temer a morte
a vida

 

Líria Porto, mineira de Araguari, professora, poeta, dois livros editados em Portugal (Borboleta desfolhada e De lua) e dois no Brasil (Asa de passarinho e Garimpo – finalista do Prêmio Jabuti 2015), autora do blogue tanto mar, participa de vários sites, jornais e revistas na internet, entre eles Escritoras Suicidas, Germina Literatura, Zunái, Blocos Online, Considerações do Poema, Poesia Perfeita, Mallarmargens. Reside em Araxá, interior de Minas Gerais.