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102ª Leva - 05/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Após nove anos de trajetória, percebemos que os caminhos culturais são definitivamente recompensadores. E o mais relevante disso tudo está representado nos encontros que aqui ocorreram. Nem de longe foram poucos e estão dispersos por todas as frentes da revista. Aos poucos, poetas, fotógrafos, contistas, artistas plásticos, músicos e outras tantas vozes foram nos ajudando a compreender melhor o significado de tocar adiante um projeto editorial. Agregar pessoas em torno de um objetivo comum é algo bem mais valioso do que um mero inventário numérico de feitos expostos. Não está na quantidade de palavras e imagens o impacto maior, mas sim na intensidade com a qual nossos sentidos são surpreendidos pelos arremates dos criadores. Durante toda a nossa jornada, as janelas poéticas têm sido importantes veículos de divulgação de autores das mais diferentes estéticas e estilos. No que se refere à prosa, há também uma imensa gama de contistas que, com suas visões de mundo, constroem múltiplos modos de se erguer histórias. Um dos cadernos mais valiosos do nosso trabalho é o de entrevistas, pois ali se insere um amplo espectro de escutas, fomentado pelo diálogo com criadores dos mais variados campos artísticos. E todas as conversas servem notadamente para compreendermos os elementos motivadores do trabalho de cada autor. No quesito resenhas, a adesão de colaboradores se multiplica vigorosamente nos campos do cinema, música, teatro e literatura. Num propósito de harmonizar textos e imagens, o papel de artistas plásticos e fotógrafos é fundamental para a completude de um projeto que pretende ser também visual. E, para que os caminhos continuem, outros encontros são necessários. Por agora, as veredas da poesia trazem versos de Susanna Busato, Ricardo Paião, Carla Diacov, Matheus José Mineiro, Camila Charry Noriega e Michelle Mendonça. Numa entrevista conduzida por Sérgio Tavares, a escritora Nara Vidal faz importantes considerações a cerca do ofício literário. O escritor Anderson Fonseca destaca importantes obras de Franz Kafka, Pascal Bruckner e Augusto Monterroso. Quando o assunto é construir narrativas, presenciamos as instigantes linhas de Rodrigo Melo, Priscila Lira e João Bosco. Dando seguimento às suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes convida-nos a assistir o filme húngaro Deus Branco. No terreno da música, acolhemos o esmerado texto de Graccho Braz Peixoto sobre o mais novo disco do cantor e compositor Mário Montaut. Dialogando com as expressões de agora, a fotógrafa Ana Pérola Pacheco expõe imagens marcantes de seu trabalho com a luz. Assim, uma outra edição surge, plena em descobertas e gratidão. Eis a 102ª Leva!

Os Leveiros

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102ª Leva - 05/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Deus Branco (Fehér Isten). 2014. Hungria.

 

poster

“Tudo que é terrível precisa do nosso amor”.
(R. M. Rilke)

 

Esqueça Lassie, Beethoven, Marley ou Hachiko. A trama do vira-lata Hagen, de olhar inicialmente meigo e, mais tarde, aterrorizante, jamais entraria na cota “filme de cachorro” da Sessão da Tarde. Interpretado pelos versáteis labradores (ressaltando: apenas emitindo latidos) Luke e Body, que ganharam inclusive a Palm Dog – prêmio alternativo para eleger o maior destaque canino entre os filmes exibidos no Festival de Cannes – por sua atuação, Deus Branco, o surrealista longa do húngaro Kornél Mundruczó, dá uma nova dimensão à relação homem/cão. O título em inglês (White God) faz alusão ao ser humano e remete ao filme White Dog (1982), clássico de Samuel Fuller. A obra do Leste Europeu encrava uma crítica social universal, baseada nas atuais relações de poder e opressão e escancara o preconceito e a maldade.

Enquanto a mãe viaja a trabalho para a Austrália, a pré-adolescente Lili (Zsófia Psotta) e seu cão Hagen passam uma temporada na companhia do pai ausente, o intolerante ex-professor Daniel (Sándor Zsótér) – que agora trabalha em um frigorífico. Para reprimir o cruzamento entre raças, o governo institui um tributo para os donos de cães que não sejam de “raça húngara pura”. Por conta disso – e pressionado por uma vizinha –, Daniel se recusa a efetuar o pagamento e abandona Hagen numa movimentada avenida de Budapeste. Durante a busca incessante da menina por seu companheiro e vice-versa, Hagen se depara com o lado mais perverso do ser humano e acaba por liderar uma revolta canina. Conseguirá Lili – e seu trompete, numa versão moderna do conto O Flautista de Hamelin, dos irmãos Grimm – deter a vingança da matilha?

Lili (Zsófia Psotta) e Hagen (Luke/Body)
Lili (Zsófia Psotta) e Hagen (Luke/Body) em cena de Deus Branco / Foto: divulgação

 

Rodado nas ruas da capital húngara, Deus Branco é repleto de cenas brutais – o treinamento em que o protagonista é submetido para tornar-se um cão de rinha é extremamente violento, assim como as investidas da carrocinha e o ataque dos cachorros aos seus algozes – e mostra a crua realidade que toda e qualquer “minoria” recebe de uma fatia tirana da sociedade. Com um ritmo dinâmico, Deus Branco é uma obra de fotografia e direção impecáveis. Aliás, a tomada da festa onde Lili bebe demais, numa fusão de música eletrônica/imagem, lembra Gaspar Noé em Enter the Void (2009) e a cena final é digna de moldura. O longa conquistou o prêmio Un Certain Regard no festival de Cannes de 2014 e surpreendeu sobretudo por suas sequências de ação envolvendo cerca de 300 cães (segundo o diretor, todos oriundos de uma sociedade protetora de animais e posteriormente adotados pela equipe), filmadas sem ajuda de computação gráfica.

Não recomendado para quem perdeu seu animal de estimação há poucos meses (meu caso), Deus Branco é um visionário e intenso retrato do lado obscuro dos seres: os cães são uma bela metáfora para representar todas as parcelas da sociedade que estão entregues à própria sorte e submetidas à lei do mais forte. Além de discutir a moralidade e a ética, o filme renova o estilo quase sempre infantil de se referir aos animais e confirma que o cinema precisa de mais audácia e menos efeitos especiais. Talvez este seja o esboço de uma pequena revolução. Dos bichos ou do cinema.

Larissa Mendes gosta de cães, mas prefere os gatos.