Vi Doroteia uma única vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde então, e isso já faz três dias, ela vem me perseguindo a lembrança a ponto de conhecê-la.
Gritei quando a vi. Na verdade, antes de vê-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atrás de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.
Não sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei três passos e pude contemplar seu silêncio indescritível. Era tão fiel sua ausência completa de movimento que era mesmo possível acreditar que não estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que perceptível, sensível. Cometi nossa espécie mais chula de pecado e fingi que cri.
Não sei exato. É possível que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorrência de padrões em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrevê-la.
Busquei metáforas, perdi. Acredito agora também que não emiti som, também não acho que me lembre mais ultimamente o que é isso de a voz ter função externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente – agora é que isto me ocorre –, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o café, vejo o noticiário, abro a janela e volto à cama. Telepatia, acho que é essa a palavra que dizem. Diziam.
Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne moída, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.
Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos há pouco. Foi nessa ocasião, agora é que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia até então sorrateira de tê-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, não tenho tido propensão a exatificar as memórias, enfim, de tê-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos preços. Bodejar à toa.
Dei mais dois passos em direção a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. Nós duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Riríamos da primeira vez à porta. Você me desculpe é que não sabia. Eu que não sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha história de. Como é que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.
Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. Não, não foi. Senão começaria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia não estava mais em lugar algum. Olhei atrás, dentro e debaixo de todos os móveis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a máquina de lavar. Não quis ligar, menos pela energia que já aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo lá fora, mais porque ainda não sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.
Não. Agora eu tenho certeza porque, como já disse antes, embora ninguém confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhecê-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na máquina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela também prefere assim. Nós combinamos tão bem. É uma pena que tenha durado tão pouco. Ou não. Ainda não sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. Não posso recriminar sua apreensão. E eu gritei deveras alto. Doroteia não disse nada. Um silêncio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.
Olhando aqui essa sombra que cai na área de serviço. Quando percebo, já estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, peço milhões de perdões. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.
Digo então, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique à vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. Só não parta. Não me abandone. Não vá pras ruas, é perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fechá-las, para que Doroteia não se exponha. Abandono o ímpeto no ar. Não sei se precisa voltar.
Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma pá de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sofá. Olho o vulto das nuvens atrás dos prédios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efusão acelerante. Qual sua uva preferida, senão shiraz. Peço escusas, Doroteia, hoje não tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de pão.
Já faz tanto que não faço uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Será uma pena sem sálvia. Quem sabe no mês que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um horário mais pela tarde. Conferimos o movimento.
De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra máquina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da prússia. Vou lhe fazer uma máscara, Doroteia, belíssima. Você nem vai acreditar. Não sei se sabe o que está havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.
Dheyne de Souza é goiana. Vive atualmente em São Paulo (SP). É doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Recém-publicou “lâminas” (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi “pequenos mundos caóticos” (poemas, PUC/Kelps, 2011). Mantém ainda um blog e um canal de leitura de poemas chamado Pequenos Mundos. É membro do grupo goiano de vocalização de poesia Corpo de Voz.
Não passamos pelo mundo sem sermos tocados por algo que nos desafia. Vista assim, de modo apressado, talvez esta frase soe até mesmo um tanto frágil. Quiçá seja melhor dizer que não estamos aqui pelo planeta de modo inteiramente descompromissado, soltos e embalados pelo vento. Somos marcados pelas paisagens humanas que se nos afiguram cotidianamente, impelindo-nos a repensar nosso papel diante do Outro.
A vida enquanto uma comunhão de anseios: eis um propósito possível. E não precisamos concordar em tudo para que convivamos melhor uns com os outros, pois mentes e corações são capazes de nos dar sua contribuição em meio ao engenho da diversidade de pensamento. Estamos aqui a falar do entendimento necessário sobre as nossas diferenças até o ponto em que isso possa representar um caminho viável para uma, digamos assim, lucidez social, esta que também nos faça agir de modo mais harmonioso.
Se utopia ou não, o fato é que um mundo melhor passa por transformações que primeiro partem dos indivíduos, engendradas que estão nas porções internas de cada pessoa. Diante do desassossego que insiste em nos rondar hoje, a palavra resistência nos é por demais preciosa, sobretudo quando ela se inclina a combater os atropelos e insanidades que tanto ferem a nossa dignidade. E é um verdadeiro alento perceber vozes que se insurgem contra os desvarios do presente. Gente como a poeta goiana Dheyne de Souza nos faz acreditar que resistir não é mero artifício retórico, mas uma causa que se respira cotidianamente.
Nas mãos de Dheyne, a literatura é instrumento, palavra afiada que atravessa e sensibiliza, motor de estados da alma, indignação, clamor, escuta, encantamento, espanto e estranhamento. Ler seus versos implica num exercício de mergulhos intimistas que reverberam notícias de um mundo que também é nosso, esse mesmo que exige incansavelmente nossa cota e sangue. Desde “Pequenos mundos caóticos” (PUC/Kelps, 2011), seu primeiro livro, a autora já nos apresenta sua verve existencial a fluir entre as dimensões internas e externas da pulsação da vida. Mais recentemente, ela nos brinda com o seu “Lâminas” (Martelo, 2020), obra que movimenta recônditos líricos com o olhar delicado e incisivo sobre a nossa tão conturbada contemporaneidade. Então, coube à poeta, em seu último rebento, lembrar que estamos vivos e que há, sim, antídotos contra a crueldade e o esquecimento.
Na entrevista que agora segue, Dheyne de Souza é potência, pensamento e ato, principalmente quando divide conosco suas reflexões sobre o agora que tanto nos tem trazido desarranjos de toda ordem. É a poeta que nos fala sobre sua trajetória com as palavras, capaz de nos brindar com dois poemas inéditos em meio ao desenrolar de um diálogo que tenta sondar um pouco do que somos e daquilo que nos tornamos até então.
Dheyne de Souza / Foto: arquivo pessoal
DA – É impossível percorrer “Lâminas” e não notar ali verdadeiros atravessamentos da alma humana. Há o labirinto de paixões que se cruzam, a sondagem dos desejos e mistérios e a conta de um presente insano. O que dizer dessa mescla de sensações a serviço da palavra?
DHEYNE DE SOUZA – Primeiramente, Fabrício, quero agradecer pela presença constante nessa travessia de poesia, pela escuta e também por acolher “lâminas” e ter essa gentileza de olhar esses versos meio cortes. Bem, tentarei responder como posso, e não estamos conseguindo poder muito, não é? Eu tenho achado isso. Então, por favor, releve os hiatos os parênteses as indeterminações. Talvez eu dance pelas perguntas de um modo um pouco errante, talvez disperso, talvez reticente. Ando (andamos?) assim. O que dizer dessa mescla de sensações a serviço da palavra? Nem sei o que dizer, na verdade. Acho que “lâminas” foi se construindo assim, entre a tentativa de dizer e essa parede de empecilhos (o que dizer desses últimos anos no país, no mundo?). São poemas gestados por mais ou menos uma década, em que as sensações (arrisco dizer, sem estar certa se é, aviso) foram se encontrando, cada vez mais, com a insanidade do presente. O livro foi publicado neste fatídico 2020. Tenho dito (ou justificado) que não consigo responder a este ano com reflexões teóricas ou críticas satisfatoriamente objetivas ou sei lá. Só tenho tido (não, não é preciso) respostas estéticas, que vêm, como sabe, no terreno das dúvidas. Acho que “lâminas” (e nisso preciso dizer de mim, não de todos, mas o que eu gostaria mesmo é de saber como é para os outros) atravessa em mim um campo enorme de dúvidas, especialmente, agora, sociais. E a linguagem tem algo a nos dizer da cicatriz que fica nela, acho. O que dizer dessa mescla de palavras a serviço das sensações também, não é? Por que atalho porventura batalha deixamos nossas almas? Deixamos? Sinto que estou mais propensa a perguntar que responder. Não sei. A poesia diz?
DA – Diante das angústias e incertezas que experimentamos, poderia a poesia nos ajudar a suportar a realidade?
DHEYNE DE SOUZA – Eu acho a poesia uma possibilidade. Gosto de pensar não como um apoio para suportar a realidade, mas como uma indignação que confronte, questione, critique esse “real”. O que sabemos do que é real? Não sei. Acho que a poesia nos fortalece as dúvidas. E gosto de pensar na poesia em um sentido amplo, para além das fronteiras de gêneros literários, acadêmicos, enfim. Gosto de pensar a poesia como esse sol corajoso que se põe, o vento que deita as folhas do mato, que movimenta alguma emoção, que nos lembra alguma coisa de nós que está no sem nome, ou o sol o vento o mato a emoção que porventura cai numa linha. Para lembrar que é de todos (acho que nunca achei tanto como agora que somos esse todos, que nós = um & outro). Gosto de pensar que a poesia, esse algum estado do que flui em nós, toca-nos e ao outro, se permitimos, se oferecemos, se aceitamos, se lutamos, são muitos “ses”. Sinestesias. Saraus. Sons. Acredito (ou procuro acreditar) que, com alguma consciência de uma incerta “onipresença” dela, entramos mais fundo nas angústias e incertezas que experimentamos. Enfrentar o medo disso. Daí, de dentro de nós, inúmeras outras possibilidades. Conhecimento. Partilha. Resistência. Lembrança de alguma coisa que não sei exprimir. Talvez a lembrança de que somos queremos ser seremos humanos. O que é o humano? Quero acreditar que sim.
DA – “Lâminas” toca em temas sociais que nos são muito caros. Marielle Franco está ali presente e, só em pronunciarmos seu nome, toda uma simbologia de resistência emerge. Ali também está Evaldo dos Santos Rosa, homem negro que morreu ao ser alvejado com 80 tiros disparados por militares contra o carro em que também estava sua família. Falar sobre tais chagas abertas é também um clamor contra o esquecimento?
DHEYNE DE SOUZA – Acredito que seja principalmente um grito contra o esquecimento. Especialmente no momento atual, com um governo que é uma vergonha para qualquer tipo que imagino de humanidade, são ainda mais essenciais, na minha opinião, gritos contra violências, racismos, machismos, desigualdades, entre outras pautas importantíssimas. Marielle está presente e, de fato, é símbolo de resistência. São inúmeros nomes que merecemos lembrar e registrar na história. Crianças foram assassinadas pelas mãos de policiais, elites, preconceitos. Estamos morrendo a cada dia por quê? Fabrício, acredito que já está passando da hora de mudarmos várias coisas nesta sociedade cujo templo é o capital, de adoração patriarcal. Mudanças drásticas, enormes, pode até ser que utópicas. Mas é esse o tipo de sangue que anda correndo em minhas veias e que sinto escapar de “lâminas”. Às vezes me debruço na janela e penso tanto. Eu sei que são poucos os que têm força e, especialmente, esperança de mudanças tão enormes. Mas eu acho que é o que pode nos movimentar. Não quero achar possível que Marielle morra todos os dias pela falta de impunidade e pela tentativa de apagamento dessa memória. Não. Não quero imaginar que 80 tiros sejam apenas um símbolo debaixo do tapete, porque na verdade foram muitos mais. Não. Nem que o golpe vista outro nome, ou a ditadura militar, ou o genocídio e etnocídio de indígenas, negros, mulheres, LGBTQI+s. E, enquanto não quero pensar nisso, escrevo. Escrevo porque acredito que as literaturas podem lembrar à história… sabe? E porque escrevo como resistência, como luta e com a seguinte utopia alimentando atualmente meu peito (segura esta): vem aí a era feminista. Avante.
(em desespero o eu lírico pede SOCORRO)
clarice, foram mais de 80
carlos, já não há rio doce
manoel, o quintal está vedado
manuel, me recuso a pasárgada
paulo, o opressor está no cio
diadorim, conta a sua versão
macabeia, sem remédio a angústia
capitu, até hoje o bentinho
iracema, anagrama de queimas
marielle, quem mandou lhe calar
mariguella, onde estão vossos filhos
ágatha, quantas balas da escolta
mari, o culpado É o estuprador
(poema inédito)
DA – Como você vislumbra uma vindoura era feminista?
DHEYNE DE SOUZA – Não sei se exatamente vislumbro. Acho que mais intuo ou percebo (e nisso posso até estar equivocada, mas estou aqui dando apenas opiniões… então vamos lá). É o que estou observando e pensando. Eu conheço tantas mulheres incríveis, que têm trabalhado incansavelmente, seja na literatura, nas artes, na educação, na economia, no jornalismo, no lar, enfim, em qualquer trabalho, eu tenho visto tantas mulheres enormes, fortes, cheias de coragem. Estão por aí, em toda parte, suando. Cozinham, cuidam da casa, trabalham fora, criam filhos, sonham, escrevem, dão aulas, fazem lives, participam de saraus, falam, gritam, dizem não. É um movimento grandioso, é o que sinto. É muito trabalho. Porque toda essa indignação está na garganta há séculos. Você já imaginou? Sobrevivemos ao fogo. Estamos falando, fazendo, lutando. O que quero dizer é que acho que, se olhamos bem, em todas as partes, estamos. Sabe?
DA – Isso que você acabou de mencionar é algo muito vivo e poderoso. Parece que temos avançado um pouco no processo de redução de invisibilidades no que se refere a pensar o ativismo de muita gente. E notamos que não basta o empenho apenas daqueles que sempre sofreram os apagamentos, mas também é fundamental a adesão de tantos outros grupos sociais, inclusive os que sempre detiveram privilégios. Reconhecer-se parte do problema e ser vigilante quanto isso é um começo?
DHEYNE DE SOUZA – Eu acredito que sim, é um grande passo reconhecer-se parte do problema e também da história e também das rédeas, não é? A gente sabe que é muito difícil avaliar o momento presente com uma lente justa. E eu tenho sentido que o momento presente tem pedido extrema e intensa atenção. Tenho sentido a escrita como um campo talvez não de batalha (embora a luta seja necessária), mas de movimentação, de questionamentos, de dúvidas, sabe? Não sei se sei explicar. Acho que esse volume crescente (tenho também essa impressão) de atitudes que questionam nossas bases cheias de preconceitos, traumas sociais e desuniões, enfim, carrega uma força de uma luta absolutamente justa e necessária. Vamos?
Dheyne de Souza / Foto: Helô Sanvoy
DA – Você tem razão quando diz que essa luta é deveras necessária. Na Literatura, por exemplo, há várias frentes em ação advogando por vozes de mulheres, negros, pela comunidade LGBTQI+, dentre outros. Como você observa essas pautas identitárias transitando pelas produções literárias?
DHEYNE DE SOUZA – Com bastante entusiasmo, especialmente porque, nas nossas manifestações literárias, estão gritando as vozes de mulheres, negros, comunidades LGBTQI+, indígenas, entre outros grupos minorizados socialmente. Acho esses gritos, Fabrício, importantíssimos. Ouvi-los me dá uma força enorme. Tenho lido autores contemporâneos (dessa contemporaneidade que está aí na porta, aliás ouvindo pancadas fortes), digo dos últimos dois, três anos, por exemplo. Eu fico extremamente emocionada com esse presente explodindo em várias formas (e vozes). Tenho receio de citar nomes e cair no fatídico equívoco do esquecimento (com o qual, feliz ou infelizmente, já estou me habituando), mas gostaria de citar alguns nomes não porque tenho condições para tal (quem é que tem condições para tal em um país desse tamanho com os nossos níveis de desigualdades, me pergunto, mas vamos lá), mas porque estão ecoando forte com nossa conversa. Neste 2020, emocionei-me transbordantemente com a leitura de “N’oré Îukaî Xûéne!” (editora Patuá, 2020), da goiana Suene Honorato. Do tupi antigo, o título do livro faz um convite de reflexão e também de revisão da nossa história (e da potencialidade de nossa garganta): “Não nos matarão!”. Também morri um pouco com a leitura de “A mulher que nasceu sem metafísica” (livro no prelo), da também goiana Tarsilla Couto de Brito. Esse título pede muita reflexão. Tem “Bruxisma” (Urutau, 2019), dessa personalidade humana que é a Pilar Bu. Exemplo de força pra mim e desse som alto que digo que nos espreita, assim como ouvi ranhuras altas quando li “Modus operandi” (R&F, 2017), da Thaise Monteiro, mulher-escrita que é corpo-arte. “Cobra criada” (martelo, 2019), do Mazinho Souza, foi outro livro que me despedaçou o sangue negro que me corre a condição de estar e ser. “Uma casa se amarra pelo teto” (Macondo, 2019), da Viviane Nogueira, é algo que ainda estou desamarrando em mim. Enfim, há muitos nomes, muitos livros que me arrebentaram (e eu digo isso em tom de entusiasmo mesmo, porque acho realmente incrível). Fernanda Marra, com “taipografia” (martelo, 2019); Camila Assad, com “desterro” (Macondo, 2019); Wesley Peres, com “o corpo de uma voz despedaçada” (martelo, 2019); Wilson Alves-Bezerra, com “Malangue malanga” (Multinacional Cartonera, 2019); Lubi Prates, com “Um corpo negro” (nosotros, 2019); Arthur Moura Campos, com “5into” (Selo Doburro, 2019); Tarso de Melo, com “Rastros” (martelo, 2020); Natasha Felix, Ana Beatriz Domingues, Bruna Mitrano, há muitas, muitas vozes em todos os cantos. Precisamos ouvi-las e partilhá-las mais e cada vez mais, na minha opinião. Enfim, são leituras mais recentes que dizem tanto do nosso presente que.
DA – Junto com Helô Sanvoy você mantém no You Tube um canal de leituras de textos literários variados, o Pequenos Mundos. Como foi a concepção desse projeto e como tem sido a experiência, seus desdobramentos?
DHEYNE DE SOUZA – Sim, o Pequenos Mundos. Foi uma ideia que surgiu processualmente, como se fosse um rastro (na virtualidade do nosso tempo) para leituras variadas mesmo. Um lugar para deixar lá essa coisa que tenho achado tão importante, cada vez mais, que é a leitura “em voz alta”, como se diz. Eu sempre gostei muito de ler “em voz alta”, desde pequena (na verdade, fazia leituras em murmúrio, para não chamar muita atenção, que o negócio comigo foi meio que assim muito reservado, digamos assim). Faço isso muito com meu próprio trabalho, avaliando o impacto do ritmo no tema (e vice-versa), procurando achar a rachadura na língua que faz a palavra sair. Quem deu a ideia do registro em um canal foi o Helô Sanvoy, que é meu companheiro de vida e de arte (possível separar?). É um trabalho que tem inúmeras lacunas, inclusive temporais. Às vezes, ficamos muito tempo sem “atualizar” o canal, por forças maiores, como viver cotidianamente e suportar o político que há nisso. Com a pandemia, senti uma necessidade muito grande de ler as vozes contemporâneas, de que falamos há pouco. Com essa vontade, retornou certa frequência de gravações e publicações. Também teve papel importante a publicação do “lâminas”. Quis divulgar alguns poemas em vídeos (também alcançando a índole instagrâmica da nossa época). Ler e publicar as leituras também foi uma espécie de compartilhamento de poesia, logo, quem sabe, de resistência, de fôlego, de indignação, de uma vontade de alcançar o outro de algum modo. Eu também faço parte de um grupo goiano de vocalização de poesia chamado Corpo de Voz, dirigido por Jamesson Buarque e Maria Ritha. Tem um corpo extremamente variado e potente de vozes, uma coisa linda de se ver e ouvir. O Corpo de Voz também tem um canal, em que há leituras tanto dos membros quanto de convidados espalhados Brasil e mundo afora, além de aulas e depoimentos sobre vocalização. É um trabalho muito importante e bonito, na minha opinião, que vem desse coração gentil e generoso que é Goiás pra mim. Tenho notado muitas manifestações assim, em que ler ou performar um texto convida a reflexões críticas e atitudes propositivas. Saraus, slams, batalhas de rap. Estamos vivendo uma época (e isso tem muita relação com o que falamos antes dessa reverberação de vozes representativas de inúmeras lutas) repleta de possibilidades, que não escondem nem minimizam as mazelas, mas arriscaria dizer que partem delas (também) para explodir. Não quero soar utópica nem otimista diante das gravidades sociais, políticas e atualmente sanitárias, mas quero manifestar que tenho olhado para as experiências e experimentações artísticas procurando pensar no que pode estar acontecendo com o compasso da história no nosso tempo. E também (talvez mais ainda) procurar formas de resistir e participar (para mim, escrever é uma forma de resistência, por mais que já se considere isso uma opinião démodé). Sei lá. Quero pensar o presente junto. E dizer disso algo.
DA – Goiás te deu régua e compasso?
DHEYNE DE SOUZA – Adorei a pergunta, principalmente porque pressupõe cortes arriscados (risos). Vou escolher uma via de resposta que pode fugir um pouco da referência, mas a imagem evoca medidas que me instigam a comentar. Goiás talvez tenha me gestado na desmedida do vento, do mato, do silêncio, da imaginação. E quando digo que sou goiana a pretensão é bem elástica mesmo, inclusive em termos geográficos. Nasci em uma cidade situada no mapa, hoje, no estado de Tocantins. Mas em 1983 ainda era Goiás e continuou sendo enquanto eu ainda estava lá. Com dois anos: de lá para o interior goiano, onde cresci conversando (estranhamente, para alguns) com as vacas antes mesmo de desconfiar que existiam medidas filosóficas nisso. Agora mesmo enquanto escrevo, lembro a sensação nas costas da grama da tarde quando deitava para adivinhar figuras nas nuvens. Só muito depois, vieram as nuvens de Baudelaire (digo do texto “O estrangeiro”). Diria que Goiás me deu sinestesias nos descompassos.
DA – O quanto Dheyne de Souza conhece Dheyne de Souza?
DHEYNE DE SOUZA – Nossa, essa é uma pergunta bem difícil. Inevitável: o quanto nós conhecemos de nós? Não sei. Eu olho para a pergunta e me pergunto se você (também) vê duas pessoas ou se vê apenas uma. Logo em seguida, penso que enumerar seria sempre impreciso. Mas, no geral, fugindo desavergonhadamente da pergunta, diria que pouco. Sendo um pouco mais aventureira, talvez, confesso que brinco de algumas camadas nessas identidades relacionadas ao nome, à linguagem. Confesso também que, no meu processo de escrita, às vezes acho que a personagem me conhece melhor do que eu a ela (estou com essa impressão atualmente, na escrita do meu romance, o que dá certa medida de angústia com a personagem). Eu considero um pouco difícil explicar essas situações de uma forma lógica ou sintética. Ou talvez seja um mistério. E se for mesmo, parece que, de qualquer modo, a gente se conhece pouco ainda.
Dheyne de Souza / Foto: Helô Sanvoy
DA – Sabendo que as águas do imenso e caudaloso rio da vida se movimentam constantemente, coloco novamente a pergunta que te fiz por ocasião da nossa última entrevista, em 2012. Afinal, por que escrever?
DHEYNE DE SOUZA – Antes de responder (ou de me esquivar de, rs), gostaria de deixar registrado o quanto fiquei feliz com a edição de “lâminas”. Agradeço muito ao meu companheiro, Helô Sanvoy, por ter feito uma obra especialmente para a capa do livro e com tanto diálogo com os cortes e alinhavos. Também fiquei emocionada com o trabalho cuidadoso e com grande medida de olhar poético de toda a equipe da martelo casa editorial. Agradeço a todes e particularmente ao meu editor, Miguel Jubé, pelo carinho e respeito com o objeto e subjetivo livro. O trabalho da Martelo, como o de tantas outras pequenas e médias editoras hoje no país, e a presença numerosa de revistas virtuais, como a Diversos Afins, têm sido, na minha opinião, sinais de resistência fincados neste nosso presente tão, para dizer o mínimo, difícil. Ter “lâminas” registrado neste 2020 significa muito para mim e me embala uma força para seguir trabalhando, com tantos exemplos de coragem aos redores. Sigamos! “N’oré Îukaî Xûéne!” Bem, sempre acho essa questão difícil de responder. Costumo dizer que é mais importante que comer, para mim. Mas é uma ficção até isso, avaliando bem. E se a gente cavucar um pouco, chega em subterrâneos ainda hoje muito íngremes. Então, se me permite a “leveza” do aparente fim:
esquife
de tudo isto, o que levar
o queixo alto, as páginas viradas
a lembrança amarelada do que latejou
algum sinal que sobrou no cenho, no colo, na velocidade do silêncio
quem sabe nada
nem serenos
hão de ocupar todas as horas
vezes algum lampejo de memória
como um livro em que nunca se banha duas vezes
de tudo isto
quem sabe tudo
não passou de pesadelo
e antes de terminarem as últimas linhas
já foram lavadas
levadas as mãos
e de dor nunca se soube
(poema inédito)
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
memória, essa lâmina que não vem só com corte mas o cheiro dos móveis o vapor do olhar a temperatura do dolo
as horas em torno
memória, esse som
que escava
regurgita
apodrece
o urro mais largo
o vazio da prece
memória, essa língua dentada
esse punho tombado
essa voz sem assento
memória
esse eco sozinho
esse tempo sombrio
a saudade de cada
memória,
esse espólio de guerra
***
nãos tempos
não temos tempo de perder o trem
olhar no olho
parar ouvir
não temos, tempo, veja bem as horas
veja bem a
veja
não temos saldo paz joelho asilo
temos fome miséria temos filhos
não temos tempo de pedir à mãe ao pai à amada
pátria, não temos tempo de dizer
não
não temos tempo de tratar a morte o açoite a voz
não temos tempo de temer
sequer
***
ontologia
o que é isso que a vida
tem feito conosco
passam-se os anos
fincam-se as farpas
o que é isso que o tempo
crava na pele
enrugando a coragem
constipando a voz
o que é isso que a gente
tem permitido
jazigos de sonho
esses nossos co
pos
o que é isso amigo
você está longe
aonde foi que embarcamos
ou
o que é isso que há
feito fumos lúcidos
tragamos
o que mais podemos
o que é
escute
não olhe no espelho
em que ponto da rua
nos
***
amor dest’era
o nosso amor tem o som de um animal sofrendo
o nosso amor, eu não sei, anda puxando uma perna
ou talvez tenha deficiência de sol
o nosso amor, parece, dorme no enorme vão de ar que atravessa nossas espinhas
à noite
o nosso amor tem visto demais e escutado palavras extremas
o nosso amor perece
não sei
perdendo
até aqui
o nosso amor tem uma bala
no ventre
***
à meia voz envio
um sorriso
um alento
uma mão
uma linha
quem sabe para guardar, quem sabe para sempre, quem sabe em algum lugar virtual onde a memória suspende onde compartilhamos a vida quem sabe pra gente com certeza pra poucos que sentem mas os bem poucos e seu poder imensurável que se querem sabem de tudo e usam sem rastro a vida moldando a memória soterrando o bagaço ameaçando a mão esfumando o alento apreendendo sorrisos
essa meia voz não
é o nosso presente
não cala
***
ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há
Dheyne de Souza é goiana, está morando em São Paulo e sustém um blog. Tem um canal de leitura de poemas, em parceria com Helô Sanvoy. Os poemas desta seleção estão no recém-lançado “lâminas”, pela Martelo Casa Editorial.
Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fogões sofás essas coisas pesadas que querendo ou não atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. É o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se é quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, só que com a boca levemente curvada não rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. Não vejo muito tv. Mas às vezes aprendo. Já fiz arguição sobre isso.
Eu quase nunca me apresento, não é uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrogância, só. Odeio justificativas. Mas meu nome é Ana. Como sempre, vocês já devem estar sacando. Estou na verdade pensando que história conto ou invento sobre a minha vida. Há pontos de vista demais em mim.
Quando me pego pensando, acaricio meu lábio. Na verdade esse não é um hábito meu. Nunca fiz até então. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos prédios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar francês. Ela de fato era da França. E eu do sofá fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos lábios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha memória europeia de películas. O olhar cor de nórdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando não o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. Às vezes inventava obstáculos nos lábios, acariciava-os com força e depois com leveza. Raramente o sentido anti-horário. Depois de um tempo, soltava a mão das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela também levantava o pescoço. Digo, o queixo. Porque era mais belo. Às vezes alguém chamava seu nome. Ela virava a cabeça de lado, abaixava até o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas não me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que até hoje tento entender por que, e me arrependo de não ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.
Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, vocês entenderam, não foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontuações.
Esses momentos são mais tensos, não gosto. Vou pensar em uma história pra contar. Depois volto. Engraçado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se não. Idiota isso, mas sincero. Se é que se dá crédito ao mas depois de vírgula, hoje em dia. Quem é que sabe correr de justificativas.
As coisas ficaram mais difíceis. Minhas histórias das histórias diminuíram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.
Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.
Eu digo, na minha cabeça mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.
Não que eu não lembre. Assim, não muito cronológica e ordenadamente. Muitos buracos. Há espaços em branco impenetráveis. Talvez nem com a psicanálise. Aprendi muito bem como cerc(e)á-los.
Hoje, especificamente, não é um dia muito bom.
Uns dias atrás alguém buzinou e não soube se era para mim. Esse tipo de não resposta que fico guardando na memória. Não exatamente nessa proporção. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa rápido.
Às vezes me pego pensando que, se não fosse a Bíblia, eu teria me suicidado na adolescência.
Menos, bem menos.
Meu nome é Ana. Não tenho filhos, não tenho ninguém. Quase um aforismo.
Quem sabe na próxima tentativa eu possa ser melhor.
***
Cidade quente
A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goiás. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa época do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais rápido, o som mais real, não. Uma moto passou tão devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. Não estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente é uma espécie de hálito móbil. Arriscou levantar os olhos do all star preto puído para uma fachada de prédio art déco. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, anúncios, smartphones. Ela apertou a mão no bolso da calça jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goiás. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a mão na fonte onde tanta gente já se banhou. Mas faltavam só quatro quarteirões para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a memória do medo do som do galho na velha Avenida Goiás. Tinha o hábito de olhar o chão, o resto que fica no chão. E na cidade quente o chão é rico de história. Já descobriu pilhas, anéis, tickets, moedas, suores, seus relicários. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o braço de uma boneca. Não se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto não sabia que. O acaso? A última lembrança poderia ter sido o braço da boneca. Mas a mão no seio na calça em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda não pegaram no sono no alto dos prédios cansados. Na Avenida Goiás, que lástima, logo agora que estava a dois quarteirões de casa.
Foda-se. Era só no que ele pensava enquanto andava mais rápido. Atrás da garota de blusa de alça. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os braços se abraçarem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada é uma solidão sem fome. Quando o braço da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.
Uma garota na Avenida Goiás sendo seguida, mas isso são horas. Vou devagar. Se ela estiver sem sutiã, não posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela não tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara também nem me parece uma má pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.
Até pensei em chamar a polícia quando vi lá embaixo na Avenida Goiás aquela moça que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas até eu conseguir descer não vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto é uma coisa que não dá pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua à noite, mas não tão tarde, e passa uma moto, eu já mudo meu destino, sei lá. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, graças a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai daí, sai. Ai meu deus do céu, misericórdia. Carlos André, acorda, me dá o remédio, corre! Esse calor do cão.
Adolescente é estuprada e morta na Avenida Goiás na madrugada desta terça-feira. Sem testemunhas no local, polícia segue investigação. Prefeito promete reformar asfalto. Os ipês-rosas estão morrendo enquanto florescem os ipês-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.
Dheyne de Souza está em Goiânia-GO. Tem um livro de poemas publicado (“Pequenos Mundos Caóticos”, PUC/Kelps, 2011). Em breve, lançará o livro, também de poemas, chamado “Lâmina”s (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no YouTube, em parceria com Helô Sanvoy, com leitura e vocalização de poesia.
Às vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.
***
é feito de versos livres meus buracos
é leito de rasgos amargos, bordôs, quinas de alma quitada, muito bem riscadas, rasuras ranhuras alturas vesgas
são feitos de esquinas meus verbos
lânguidos. profanos. paralelepípedos logrados
deitados à rua como deitados à lua como deitados à alma sem tráfego sem traqueia
é feita de poros a língua
à míngua de tatos
***
das frestas
tem uma guelra na minha janela
movendo o olhar da paisagem
qual uma folha quando desperta
qual um transeunte quando erra
qual quimera, verbo na língua
quando bate no asfalto um sol a nado
tem uma morada
insone
nas minhas guelras
***
Poiesis
enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos
uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)
nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente
poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos
poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa
mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo
qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente
tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de
despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores
foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano
***
domingo, 17 de abril de 2016
do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.
Dheyne de Souza é poeta. Mora em Goiânia. É membro do grupo de vocalização de poesia Corpo de Voz. Tem, em parceria com Helô Sanvoy, um canal no YouTube de leitura de poemas prosas prosemas, Pequenos Mundos.
O que seria uma atitude poética diante da vida? Idealizar o inatingível? Mensurar o insondável? Penetrar em zonas desconhecidas ou ignoradas? Estas são algumas indagações que podemos entabular. Certamente, estamos a falar muito mais num estado de coisas, quiçá de espírito, a nortear as ações em matéria de criação e recepção. É um ser poético não somente quem cria sob tal égide, mas todo aquele que abre seus canais de acolhida e mergulha nos signos que lhe são apresentados. Então, muda-se a perspectiva das coisas e confere-se um lugar de destaque também para quem tão somente consome os feitos culturais. No caso da literatura, é o leitor um ser especial na medida em que confere sentido ao que lê, estabelecendo uma tácita relação com quem cria. Também o é no caso de outras tantas manifestações artísticas. Admite-se, por parte do receptor, um caráter de expansão duma determinada obra sem que isso represente algo desgovernado e, portanto, sem controle. Como advertem alguns, uma obra pode ser aberta, porém não escancarada. Afora qualquer discussão sobre o tema, importa mais saber do interesse das pessoas pelos percursos criativos das mais diversas ordens. É saber que, em seu íntimo, todas elas são capazes de vislumbrar caminhos até mesmo impensados pelos próprios autores. Olhando por esse viés, o maior sentido da arte seria o de promover uma libertação que surtisse efeito para todos os lados envolvidos? Responda quem puder. O fato é que hoje somos livres para acolhermos os ímpetos poéticos de gente como Germano Xavier, Camila Passatuto, George Pellegrini, Monica Marques e Jorge Elias Neto, todos eles com seus versos a descortinar janelas de vida ante nossos sentidos. No universo que sonda as motivações literárias e artísticas, o escritor e multifacetado artista W. J. Solha fala sobre o seu mais recente livro e toda uma gama de assuntos que remonta ao ato inquieto que é o estar no mundo. Gustavo Rios elenca boas razões para a leitura de “Fernanflor”, romance de Sidney Rocha. Quando o assunto é cinema, Larissa Mendes destaca a produção norte-americana “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer”. Nos cadernos de prosa, os contos de Dheyne de Souza, Krishnamurti Goes e Poliana Paiva pedem passagem. O disco de estreia da banda Caim gira nas linhas do gramofone de Fabrício Brandão. “Corpo Sepulcro”, novo romance de Mike Sullivan, recebe a atenta leitura de Maurício de Almeida. Em todos os recantos da 105ª Leva, os desenhos, ilustrações e tiras de Juca Oliveira interagem com outras tantas formas de expressão. Assim, caros leitores, mais uma edição ganha corpo. Evoé!
hoje eu disse que, se sensibilidade fosse pólvora e texto (e não digo qualquer texto, digo daquele que. sabe) fosse fogo, eu explodia. que hoje estou minúsculo e daqui, sabe, as coisas são. obviamente, sim. maiores. eu sei. às vezes fico perdido sem você, ana. sem. caio. hoje eu queria escrever um romance de uma personagem que nasceu esses dias no semáforo. foi quando ela nós ali ante o vermelho que às vezes acho que é o espírito do trânsito tomando aquele fôlego para uma jornada abrupta rumo ao sucesso ao shopping ao dentista ao café ao terapeuta ao sexo a noite amanhã um dia. e ela havia nela um vinco bem no centro da sua testa que era onde o sol se punha naquele fim de tarde. o céu depunha ali nódoas e eu pude, veja, colher muitas cruas nacas de desejos entre, bem entre, assim como se abaixo dos lábios pequenos um pouco à esquerda do caos e eu vi do negro o avesso. que, e também me impressionei, era escuro. mas o que quis dizer dessas montanhas de areias vincadas ali naquele pedaço de face que via do meu vidro fumê a película que a abraçava vinha da sua mão escorrendo como quem não esperasse o verde a ação o futuro em sua parte que é breve. e essa mão de manchas feito a nuvem quando nada no mar. ela puxava assim tão gratuitamente uma mecha do seu cabelo que nem era leve talvez sedoso quando recém-lavado mas ela. ela emaranhada naquele fio suado que me contava do dia da fila do espaço do riso quando criança naquele balanço. eu quase ofereci um cigarro mas eu tive um medo tão grande de romper a sua Verdade. eu tive um medo tão grande de roubar dela e de mim aquela sobra do dia que vinha enquanto uma rima um verso branco mas tão rosa. feito a fresta do sol que dormia na sua testa. feito o vento que arrumava a cama enquanto o seu cotovelo ali despejado na porta do carro, suspeitando do meu olho feito cinema, decerto, tentava me esconder. ou me falar da lama que pousa nos sapatos. ou me contar da trama que sustenta o passo. ou me livrar do assalto que se tem quando. a vida da gente bate no. sinal aberto.
***
às vezes me preocupo tanto com minha memória, sabe, Acaso. é um duto hieroglifado. assim como se as paredes houvessem flâmulas a cada guelra. é uma espécie de nado, Nada, isso de transmutar o tempo, veia memória condão. a cada agora um apocalipse a cada desinência pretérita um epitáfio. e o olho que segue no túnel que era, veja bem, Tudo, era uma era. era uma escada sem step by step. que esse discurso fode-me, se me permite ser um pouco daquilo que vende mais. ouça, Todo, miragem pó e instante é tudo feito de achos. cachos. pedaços. dê-me uma pence de som, Silêncio. dê-me um soneto de escória, Mudez. dê-me uma toalha que não acho a vida líquida porra nenhuma é o meu olho que memora.
***
Um osso do verso
O cheiro que acorda a manhã tem raízes ocres.
E se se esquece a palheta?
E se se perde o horário?
E se tragando no tráfego no rádio no atropelamento na lembrança na resposta se se des-cobre o olfato? Digo, praquilo que é da Verdade, o não dito.
Que às vezes aquilo vem feito deus feito orvalho feito o rouco do locutor que erra o erre feito a cor dos pares. A dor dos semblantes. Mas isso tudo é muito pequeno, veja: já não se vê como toca. Como tolhe. Come-se. Sem olhar os dentes. Sem orar os crentes. Sim, senhora. Às vezes, deveras, vê-se sorrateiramente, quando a vida em estado comercial, de esguelha. Vezes se se cura com o sinal, vezes não. Que há o atropelo de som e de líquido e de insípido que é o. Isso. De ver que seja insípido. A sorte é que há sempre outros semáforos, há passos, há laços lassos. Do que se faz alimentar esses ó(s)culos. Pra ver melhor o não.
***
sem título
ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há
Com o tempo, fica a marcante impressão de que as coisas precisam seguir um curso natural, sem a geração de expectativas demasiadamente projetadas. Vontades existem, isso é fato inegável, mas o bom mesmo é fazer delas uma peça favorável à instigante engrenagem das descobertas até mesmo involuntárias. Em que medida a palavra resistência pode representar o principal mote dos caminhos que norteiam a Diversos Afins? De modo especial, o convívio e, por conseguinte, o aprendizado estabelecido com as pessoas que se aproximam de nosso projeto à frente da revista torna a trajetória um tanto mais serena. A busca pela qualidade é uma meta editorial que não sofre os efeitos de regramentos limitadores da criação. Entendemos que critérios pautados no bom senso, razoabilidade e, sobretudo, sensibilidade são definitivamente aspectos fundamentais em nossa jornada de pesquisa e seleção de materiais publicáveis. E é sempre bom frisar que, nesse ponto, o apego a verdades universais nada contribui para que novos diálogos se consolidem. Então, é preciso rechaçar a imutabilidade do pensamento, principalmente quando ela impede que o entendimento sobre os fenômenos que nos cercam possa se efetivar. Talvez aqui o termo resistência possa ser empregado, tendo em vista a importância de combatermos a mediocridade do pensamento. Sem dúvida alguma, o grande lado benéfico dessa reflexão é sustentar a amplitude da busca pela diversidade sem perdermos os referenciais indispensáveis a uma adequada análise e difusão dos conteúdos. O comprometimento maior que se opera a cada nova publicação está na perspectiva de estreitar laços entre criadores e o público almejado. A partir do momento em que uma obra se lança ao mundo, já não é mais a mesma, pois seus leitores e apreciadores, com suas esferas interpretativas próprias e quiçá singulares, conferem a ela um status de renovação sem a perda do seu ímpeto originário. Nesse exercício permanente e dinâmico de aglutinações, traçamos percursos dotados de certa autonomia quando, por exemplo, contemplamos e também internalizamos as sensações tidas a partir da expressão de Marcantonio, artista que expõe entre nós a espinha dorsal de sua epifania mundana. Compartilhando também desse sentimento libertário, apreendemos as vivências poéticas de gente como Juliana Krapp, Dheyne de Souza, Zeh Gustavo, Madjer de Souza Pontes, Winston Morales Chavarro e Pedro Du Bois. Na entrevista com a escritora Helena Terra, os densos caminhos da palavra atravessam a vida de uma autora que veio fazer morada entre nós. Na seara da música, o mais recente disco dos pernambucanos da Nação Zumbi vira alvo dos apontamentos de Larissa Mendes. Os diferentes modos de usar a vida enredam os contos de Paulo Bono, Thays Berbe e Mariza Lourenço. O mais novo livro do poeta Zeh Gustavo é tema das precisas observações de Leonardo D’Avila. No caderno de cinema, todas as atenções estão voltadas para o intenso Tatuagem, filme dirigido por Hilton Lacerda. O espírito reinante na Leva que agora surge rende homenagens ao saudoso escritor e parceiro Nilto Maciel, autor que dedicou imensa parte de sua vida à sua cumplicidade com as palavras. Com ele, aprendemos, dentre outras coisas, a cultivar a continuidade dos caminhos editoriais. Assim, fundamos mais uma especial edição.
vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
Assim meio desencapada.
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.
Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas.
Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.
(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)
***
Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!