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145ª Leva - 05/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JUVENIL SILVA – LONJURA

 


“E o médico perguntou: o que sentes? Sinto lonjuras, doutor. 
Sofro de distâncias”.
(Denison Mendes)

A frase perfeitamente aplicável a nossa realidade nestes últimos anos dá a tônica do que é transformar o sentimento de sozinhez em arte. E se “todo mundo é uma ilha” nesse período pandêmico, o criativo, multifacetado (e boa praça) artista pernambucano Juvenil Silva – que figura há praticamente duas décadas na cena underground – é um arquipélago inteiro. O “compositor, tocador e cantante” como define a bio do músico no Instagram, iniciou sua trajetória na banda Canivetes e hoje, além de sua carreira solo lançada com o álbum Desapego (2013) – sucesso de público e crítica – mantêm os projetos Dunas do Barato, Avoada e FREVO 70, ao lado de outros artistas. Juvenil tornou-se conhecido também – ainda que não se considere exatamente um produtor cultural – por comandar por 10 anos, em Recife, A Noite do Desbunde Elétrico, conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”.

Lonjura (2021), seu quarto trabalho solo, foi registrado à distância durante o início do isolamento social, praticamente sem ensaios e com músicos alastrados pelo país (e até mesmo no exterior, caso de Marcos Gonzatto da clássica banda curitibana Faichecleres, que participou de Londres). Transitando entre folk e pop psicodélico, o EP sucede os álbuns Super Qualquer no Meio de Lugar Nenhum (2014) e Suspenso (2018). As 6 faixas versam sobre a incerteza e distopia do futuro, mantendo o mesmo olhar crítico e sarcástico habituais na obra de Juvenil Silva, porém, desta vez, em uma atmosfera mais melódica e melancólica.

 

Juvenil Silva / Foto: Thaís Rodrigues

 

A balada, a la Jovem Guarda, Dias Impossíveis (olha, nesses dias impossíveis/onde o medo anda na moda/empatando a foda, risos, laços, nós/quero que você tome cuidado), parceria com o paraibano Seu Pereira, composta logo nos primeiros momentos de quarentena e lançada em março, elucida a aura pós-apocalíptica que tem pairado sobre nossos dias. A faixa ganhou ainda um simpático “videoclipe coletivo”, editado a partir de vídeos enviados por seus fãs. Alpinismo (e eu também já desci, já desci/e me esqueci como eram os sonhos/que mesmo com asas cortadas podia voar), outra parceria, dessa vez com Guilherme Cobelo, vocalista da banda brasiliense Joe Silhueta, é um folk animadinho que tece uma crítica à escalada social. Horários Bagunçados (ando com os horários bagunçados/tesão desregulado/cabeça sem lugar/gaveta que nem fecha/cinzeiro a transbordar/você me acalma) – talvez uma das mais belas canções do EP – aborda a nova dinâmica afetiva desses tempos obscuros.

A malemolente Regalia (na periferia não tem regalia/ você sabe, mas não sabe como é/um supermercado inteiro ele cabe na barriga/mas não cabe nem metade, da metade da metade, no meu bolso), primeiro single divulgado ainda em 2020, filosofa sobre o “idealismo burguês” e parece ter profetizado a alta dos preços. A balada Você Mulher (eu queria te dizer/coisa pra caramba/da minha cabeça/eu queria mesmo era saber/como você anda/tudo que fez hoje/e desde que nasceu) é uma sincera declaração de amor e saudade. Aliás, a canção recentemente ganhou um belíssimo videoclipe, ou melhor, “uma fotonovela audiovisual” escrita, dirigida e estrelada pela trans colombiana Ava Reyna Bárbara e composta por mais de 2 mil fotos. A dramática O Mal de Nós Mesmos (quem fica com cara pra cima não enxerga tão bem/quem cai com a cara no chão já percebe melhor) encerra o disco com um blues tropicalista num diálogo entre o bem e o mal que habita em cada um de nós.

Disponível em todas as plataformas digitais, Lonjura possui também uma “versão comercial” com três faixas bônus (para adquirir, basta entrar em contato através do Instagram do artista). Tal versão segue o projeto Discos Off-line, que já rendeu os EPs Isolamento Acústico Vol. 1 e Vol. 2, Não Amolem os Canivetes, Cinzas de Um Ano Morto, Calendário dos Sonhos e o novíssimo Farol das Esperanças. Trata-se de discos que não são lançados nas plataformas de streaming, disponibilizados exclusivamente via e-mail com as faixas em wav/mp3 e encartes com fotos e letras mediante o “pague quanto puder/quiser”. Vale ressaltar ainda que além do EP, Juvenil acaba de lançar, em parceria com o jovem músico Tonho Nolasco, o selo musical Plurivox.  A dupla prevê o lançamento de novos artistas tão logo seja concluído seu estúdio que está em fase final. Cria, agrega, resiste e voa, Juvenil, que “voar não se limita em romper as nuvens”.

 

 

Larissa Mendes também sofre de lonjura, Dr. Juvenil. Inclusive de lonjura dos editores Fabrício Brandão e Leila Andrade, que me impedem de abraçá-los pelos 15 anos de arte, cultura e Diversos Afins.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

O GRILO – VOCÊ NÃO SABE DE NADA

 

“(...) Faça como o grilo
Sem grilo canta pro seu bem chegar”
(4 Cabeça, Quem Canta)

Se a adolescência é a etapa da existência que nos dá toda a coragem e certa petulância para enfrentar a tudo e a todos, é no início da vida adulta – e provavelmente durante toda ela – que nos damos conta de que “por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender”, como diria Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii em Terra de Gigantes, no já distante final dos anos 80. Mais de trinta anos depois, a banda paulistana O Grilo dispensa o apoio de hey, mãe (!) para reafirmar que ninguém sabe de coisa alguma. Composto atualmente por Pedro Martins (voz e composição), Felipe Martins, o “Fepa” (guitarra) não, eles não são parentes! —, Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo), o grupo formado em 2017 (entre o final do Ensino Médio e o início da vida universitária) que queria fazer covers de música indie nacional passou por uma reformulação em 2019 e define-se hoje como um grupo de “Rock Popular Brasileiro”.

Depois de alguns singles e dois EPs lançados, o contagiante Herói Do Futuro (2017), com destaque para o hit Serenata Existencialista e de O Grilo no Estúdio Showlivre — Ao Vivo (2019), os meninos (sim, meninos; eles estão na faixa dos vinte e pouquíssimos anos) — que abriram o Lollapalooza Brasil 2019 (sonho de muito artista veterano) após vencer um concurso lançado pela Rádio Rock 89 FM — estão de volta. As 13 faixas autorais do disco de estreia Você Não Sabe De Nada (2021), gravado pelo selo Rockambole, foram produzidas pelo quarteto em parceria com Hugo Silva e alternam ritmos dançantes com momentos mais introspectivos. A sonoridade pop-tupiniquim mistura bossa, baião, new wave, indie, pop, rock e outros elementos brasileiros, que agora se apresentam de modo ainda mais intenso.

A despretensiosa Trela (o meu amor vem da terra e do mar/uma musa estendida na areia/anjo de um céu de estrelas do mar/um balé de mulher e baleia), primeiro single divulgado abre o álbum em ritmo de pop. A canção seguinte, Guitarrada (é que eu sou mais eu, mas eu queria ser você/eu sou mais você/mas se você sou eu, agora eu quero te esquecer/eu quero me esquecer), é um carimbó ou forróck, como a banda gosta de chamá-la e já tem videoclipe em fase de pós-produção. O samba-rock Contramão (nada novo sob o sol/são aquelas mesmas mentiras/banhadas em formol), segunda música lançada, lembra de um carnaval de outrora, um amor entre coisa de cinema e quarta-feira de cinzas. Ainda há espaço para Tudo e Mais um Pouco e para a balada Vou Levar. A levemente vingativa Meu Pior Amigo (eu só quero ver você cair/eu só vim pra ver, ver você cair/eu só quero ver você cair/em si) manda um recado praquele alguém que você já guardou no lado esquerdo do peito e hoje figura no hall dos seus desafetos, enquanto Infinito (-1) (vou partir o horizonte ao meio/vou me dividir/por todos os caminhos que eu quiser seguir) passeia por caminhos mais experimentais.

 

O Grilo / Foto: divulgação

 

Na “mini-música” Você Não Sabe de Nada, O Grilo divide o refrão da faixa de pouco mais de 1 minuto e meio com diversos convidados, entre eles Gabriel Aragão, Reolamos e as bandas Maracatech e Pluma (da qual Teixeira também é baterista), o que é a deixa perfeita para a setentista Meu Amor (meu amor/as coisas não precisam ser assim/pega uma lata de tônica, um copo de gin e vai dançar), que alterna refrão engraçadinho com uma crítica à indústria fonográfica, na qual “a música mais bonita d’O Grilo tem que ter/um bilhão de curtidas/10 mil cópias vendidas/lotar estádios e avenidas/e tocar o coração das rádios Brasil afora”. Se a vinheta E daí, eu sei lá prefere não opinar, eu me arrisco a dizer que ela é o abre-alas para o melhor bloco do álbum, composto pelas três últimas canções: a disco Adeus (não dá pra esquecer alguém como você/mas bem que eu queria/o que te encanta em mim é você/sempre foi você e eu sabia/mas resolvi não me abandonar), que ganhou até coreografia oficial no TikTok; a festiva Onde Flor (onde flor não for jardim/eu não vou, eu sou assim/algo que não cabe mais em mim/ôô, eu quero viver um grande amor/e morrer de saudade), que pode figurar ao lado de Todo Carnaval Tem Seu Fim, do Los Hermanos no catálogo de canções-foliãs que alegram nosso “carnaval fora de época” instantaneamente; o belíssimo bônus-track de voz e violão Malabarista de Granadas (malabarista de granadas/me conta quantas fardas você já vestiu/pra manter a cabeça ocupada/enquanto o mundo te estraçalha como um tiro de fuzil), que finaliza o álbum com toda a doçura que pode haver na voz de Pedro Martins.

Responsável pelo projeto gráfico da obra, o cartunista Pietro Soldi idealizou também um livro que acompanha o disco. O personagem central de Você Não Sabe De Nada – o livro, é Lauro, sujeito de poucas palavras que traz em sua personalidade características físicas ou psicológicas de cada um dos integrantes da banda. Lauro já deu o ar da graça em 2020 nas capas dos três singles lançados: Trela, Meu Amor e Contramão. Além das tirinhas, o livro traz ainda cifras, fotos e canções comentadas, com direito a rabiscos, anotações e muita criatividade (revelada inclusive à luz negra). Os integrantes são bastante atuantes nas redes sociais e chama atenção a constante interação com seu público, seja através de lives, posts, tweets ou dancinhas no TikTok. Ou mais especificamente em seu podcast (ou melhor, Grilocast) e no canal no YouTube (o GriloTube), com destaque para Você Não Sabe de Nada — o Mini Doc. Aproveitando o lançamento de VNSDN no final de março, os músicos têm disponibilizado em seus stories do Instagram cifras das canções no violão, comentários sobre as inspirações das faixas, enquetes e versões das músicas feitas por seus fãs. O Grilo está mais falante, dançante, maduro e criativo do que nunca. E é só o começo.

 

 

 

 Larissa Mendes se identifica com Lauro e tampouco sabe de muita coisa.

 

 



		
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143ª Leva - 03/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

TAGUA TAGUA – INTEIRO METADE

 

 

“Se eu nunca vir você de novo
Eu sempre vou levar você
dentro
fora
na ponta dos meus dedos
e nas bordas do meu cérebro
e em centros
centros
do que eu sou do
que restou”.
(Charles Bukowski)

O Modelo Kübler-Ross aponta que os cinco estágios do luto compreendem: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nem sempre as etapas seguem exatamente esta ordem, podendo haver oscilação entre os estágios, que inclusive podem ocorrer de forma simultânea. E o que é o fim de um relacionamento senão uma experiência de morte? Atualmente, porém, a positividade tóxica parece tentar impedir o “estado de não estar bem” e sugere que na manhã seguinte a gente vire a página e faça a fila andar. O produtor musical, instrumentista e ex-vocalista da banda gaúcha Wannabe Jalva, Felipe Puperi, não é o primeiro a transformar seu período de luto (profissional , geográfico e amoroso) em arte, porém muito bem o fez normalizando-o como uma etapa necessária para a transmutação gradual das emoções.

Tão logo trocou Porto Alegre por São Paulo, em 2017, Felipe formou seu projeto solo denominado Tagua Tagua, referência ao lago que banha o pueblo de San Vicente de Tagua Tagua, no interior do Chile, berço dos primeiros povos sul-americanos. Cantando dessa vez em português – curiosamente as composições do Wannabe Jalva eram quase em sua totalidade em inglês, enquanto o primeiro instrumento de interesse de um Felipe ainda menino foi o luso-brasileiríssimo cavaquinho –, o projeto explora elementos percussivos de MPB associados à música eletrônica, soul e rock. Após dois EPs lançados, Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018), Tagua Tagua apresenta seu primeiro álbum de estúdio, o intitulado Inteiro Metade (2020), fechando uma espécie de trilogia dos dissabores.

Com 9 faixas autorais, o disco mergulha entre timbres eletrônicos e orgânicos e apresenta uma faceta mais madura do artista. Se o lirismo intimista lembra um pouco o início de Silva em Claridão (2012), as melodias envolventes mesclam-se a letras inspiradas (praticamente poemas musicados) e sintetizadores que vão desacelerando ao longo das faixas. É como se o álbum traçasse uma linha do tempo desse processo reflexivo, girando em torno da ressignificação de sentimentos que vão sendo diluídos com o passar do tempo, desde seu estado mais efervescente até a nostalgia, às vezes em looping.

 
Felipe Puperi / Foto: Guillermo Calvin

 

A retumbante Mesmo Lugar (e ele vem, dá volta e volta/pro mesmo lugar/parece até que sabe onde chegar/andam dizendo que o agora/é tão diferente/e a vida vai passando pela frente), soul composto em 2019, mais parece uma canção premonitória para nosso longo período de isolamento social. Só Pra Ver (eu vou até o fundo só pra ver/que eu ando e só acabo em você/eu vou até bem longe só pra ver/que eu ando e só acabo em você), primeiro single divulgado, trata com irreverência, tanto no arranjo quanto na letra, da dificuldade em se desvencilhar de alguém. Com levadas orgânicas, mas baseadas em beats eletrônicos, 4AM (deixo a poeira me levar/corro, escorro sem ter hora pra chegar/me encontro com o dia que já se foi/e eu nem vi) aponta para um caminho mais introspectivo, como o próprio “sonho” que a letra propõe. A balada 2016 (parou pra ver ela escorregar/por entre as minhas mãos/parou pra ver ela voar), de fato gravada naquele ano, tem um clima saudoso de quem aprendeu a [sobre]viver “tão longe de mim”.

Com naipe de metais, Bolha (eu vivo na bolha existencial/indiferente, espero ir tudo pro lugar/discretamente, eu saio sem me retirar) retoma a pegada soul e faz uma auto-análise bem peculiar. A embargada Até Cair (feito folha seca desvendando o quintal/roupa enxaguada esperando o varal/xícara molhada desfazendo o jornal/quase em paz), talvez a canção mais séria do disco antecede Inteiro Metade (feito ferro no sal/eu sou inteiro e metade/risco de verso final/vou deslizando em saudade), faixa que leva o nome do trabalho e sintetiza o conceito do álbum. A experimental Sopro (não chegue tarde na minha vida/que eu já não posso te esperar/tô nessa vida/e o tempo pode nos terminar), com pseudo-gingado e verso único é um fragmento de alegria, como todo [re]início prevê. Assim como o encerramento de um ciclo, o álbum termina em clima de renascimento com o “poema etéreo” Do Mundo, avisando que “agora eu sou o/do mundo”.

A questão estética sempre esteve presente na obra de Felipe Puperi, que já trabalhou, inclusive, na produção de trilhas sonoras para cinema. O clipe de Rastro de Pó (faixa de Tombamento Inevitável), por exemplo, rodado no interior da Bahia, aborda a guerra de espadas que ocorre durante as festas juninas e ganhou o prêmio latino do Ciclope Festival, como Melhor Vídeo Musical. Inteiro Metade flutua entre recortes ensolarados e sombrios, como bem ilustra João Lauro Fonte, designer responsável pela arte do disco. Ele traduz nas capas (do álbum e dos singles) e lyric videos a vastidão do universo de Tagua Tagua.

Impedido de divulgar o álbum na estrada por conta da pandemia, Tagua Tagua lançou no final de janeiro uma live session para que os fãs tivessem uma experiência sonora e estética do disco. As 9 faixas – que passeiam entre MPB, indie, R&B e soul – foram apresentadas na íntegra com um belo conteúdo audiovisual. Disponível nas plataformas de streaming e também em vinil, o disco foi lançado simultaneamente no Brasil (Natura Musical), Europa (selo Costa Futuro) e Estados Unidos, de forma independente, aproveitando a exposição internacional do single “Peixe Voador”, presente na trilha do jogo FIFA 2020 e de sua apresentação no Brasil Summerfest NYC e a abertura de uma mini-turnê do The Growlers, ambas em 2019.

Como consta no release da obra, “Inteiro Metade é um disco sobre o processo de encontrar novos espaços pras mesmas pessoas dentro da vida. É ser inteiro num dia e metade noutro. É a caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós. Nesse percurso, aparecem os mais variados sentimentos: euforia, alegria, gratidão, saudade, tristeza, luto. Morre uma relação pra nascer outra”. E Tagua Tagua [re]nasce como um dos grandes nomes da nova música brasileira. Como diz o compositor em certo verso de seu primeiro EP: “tua dor é uma dádiva”. Aceita que dói menos: o mergulho é inevitável.

 

 

 

Larissa Mendes, nasceu em Caçador/SC, banhada pelo Rio do Peixe.


 
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141ª Leva - 01/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

por Larissa Mendes

 

SILVA – CINCO

 

 

“A música é o meu chão. É onde eu encontro sentido para as coisas e para esse mundo tão controverso. Fazer música, em sua grande diversidade de sentidos e significados, é a minha razão de viver. Hoje, vivendo de música, nunca imaginei chegar tão longe. E já que tão longe cheguei, chego também ao meu quinto disco autoral, que muito intencionalmente se chama Cinco. Cinco sou eu, Silva, com 5 letras e Lúcio, também com cinco letras (…)”. Numerologia à parte, o fato é que Silva chegou e permaneceu. O menino capixaba e tímido de Claridão (2012) deixou a barba crescer em Vista Pro Mar (2014)  e  Júpiter (2015)  e deixou também de ser promessa para hoje figurar como um dos principais expoentes da nova música brasileira. Lançado em dezembro nas plataformas digitais, Cinco – décimo álbum de carreira, incluindo quatro discos ao vivo e Silva Canta Marisa (2016) – traça uma continuidade natural do seu antecessor de estúdio, Brasileiro (2018). Finalizado durante a quarentena, Silva, que já havia lançado Ao Vivo em Lisboa no primeiro semestre, celebra genuinamente, mais uma vez, o amor e suas facetas: chegadas e partidas, idas e vindas, do encantamento a depois do fim, com serenidade, esperança e um pouco de sarcasmo.

 

Silva / Foto: divulgação

 

O ska sessentista Passou Passou, primeiro single divulgado, tem clipe em plano-sequência com o músico equilibrando-se em uma tiny house em movimento, enquanto despede-se em tom de deboche de um amor que tem que ir embora de sua vida. O suingue de Sorriso de Agogô (tira essa poeira dos olhos/vem pra ver como nasceram os sonhos/o depois a gente faz é agora/não dá pra adiar) e No Seu Lençol (como se fosse um dia bom/você sorriu e é bem melhor/morar aqui no seu lençol) evidenciam a tropicalidade do álbum composto com o sempre parceiro Lucas Silva, em passagem dos irmãos por Caraíva (BA). Enquanto a densa Pausa para a Solidão (pausa para a despedida/já não sei como expressar/que não encontrei saída) exalta com maturidade o fim de um ciclo, Não Vai Ter Fim (o amor é parte de tudo/é parte do mundo/é parte de mim) parece saída do repertório de Roberto Carlos e se não houvesse pandemia, possivelmente o compositor dividiria os vocais com o Rei em seu especial de fim de ano. A canção de quarentena Jogo Estranho (trancado nessa casa/acendo meu cigarro/e pego um violão/olhando da janela/eu tomo um outro trago/dessa solidão) contrasta com a sensual Facinho (eu gosto e fico tranquilo juntinho/cama, sofá ou de pé, de ladinho/ai, isso é bom, muito bom, já parei de contar), espécie de ska em dueto com Anitta, repetindo a parceria de Fica Tudo Bem, gravado com a funkeira em Brasileiro.

A balada Você (é que quando acordei de manhã/eu tentei te esquecer/e esqueci que o querer é um mar turbulento/não tenho um alento, nem sei velejar) e a bossa Quimera (pra que sentir/coração feito de água/não vou mentir/a saudade me naufraga/quando acalmar/e eu nem sequer te lembrar/vou amar de novo) relacionam poeticamente a saudade aos movimentos do mar. Se a acústica Não Sei Rezar (ainda é cedo pra falar de amor/é melhor fingir não ser/não quero atropelar você, meu bem/e por tudo a perder), ironicamente, mais parece uma prece, tamanha simplicidade e beleza, Furada (eu sei qual o seu perfume/sei que é bom/mas não, não vou mais cair na cilada/você finge ter poderes que não tem/ai, ai, essa sua lábia é furada) diverte como a troca de mensagens com um “contatinho”. O disco conta também com a participação do icônico João Donato no jazz Quem Disse (tem coisas que a vida nos dá/tem coisas que são como um dom/é dom te querer e depois/vou te requerer) – que tem lindos arranjos de sopro e piano e do profeta do Grajaú, Criolo na “afro-baiana” Soprou (te vejo no céu/te sinto no ar/no vento uma brisa que vem me acalmar). Além de dividir os vocais com Silva, o rapper compôs a segunda parte da letra, com versos como “controverso diverso disperso/tua pele na minha é verbo/minha boca na tua é luar”. O delicioso samba Má Situação (eu nunca me importei/com as coisas que não sei/somente com você/que não conheço/já tenho um grande apreço) dá o tom final em ritmo de amor platônico: que atire o primeiro bilhete único quem nunca se apaixonou por um(a) desconhecido(a) próximo à plataforma de embarque.

Há que se destacar também o projeto Bloco do Silva (2019) turnê onde o cantor revisitou o melhor dos hits carnavalescos, sobretudo dos anos 90, passando por sucessos do axé, frevo, samba e MPB , o que lhe rendeu desenvoltura suficiente para transitar com tanta despretensão pela brasilidade de Cinco. O álbum marca ainda o rompimento do artista com o selo SLAP (Som Livre), o que talvez explique o ritmo frenético de lançamento de seus álbuns em apenas uma década de atividade. As 14 faixas do trabalho destrincham com ritmo, poesia e refrão(!) o sentimento mais puro e complexo que carregamos no peito. E os irmãos Lúcio e Lucas, como bons artesãos a serviço da música, traduzem de forma orgânica e atemporal tal engenhoca. Então, tire essa poeira das orelhas e ouça Silva (5 letras), agora (5)!

 

 

Larissa Mendes, 13 letras, tem na música o seu céu.

 

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

VARAL ESTRELA – VARAL ESTRELA

 

 

“Da última vez que nos vimos, você disse que visto daqui, do interior, o céu é mais bonito, de um azul-anil-marinho-royal-bic”. Empresto meus próprios versos de Ciclo Curto para tentar definir as nuances da banda que mistura noite estrelada com literatura de cordel e possui cheiro de terra molhada no atual quintal musical brasileiro. Formada há três anos e meio em Itapeva (SP) e radicada em São Paulo, Varal Estrela é composta por Thaís Rolim (vocal), Rodolfo Braga (guitarra), Lucas Silva (guitarra) e Thalles Macedo (contra-baixo). Lançado no final de 2019 através de uma campanha de financiamento coletivo, o disco de estreia possui influências de MPB, indie e pop. Enquanto a vertente dos músicos sempre foi o rock’n’roll (os rapazes integravam o PBB Pink Big Balls), Thaís entoava sua voz junto aos batuques de umbanda da Paranambuco, em sua passagem por terras curitibanas. Disponível em todas as plataformas digitais, o álbum homônimo celebra esta mistura sonora de [re]encontro e exalta todos os artistas interioranos.

Casarão, assim como sinaliza um de seus versos, “escancara os seus portões” para adentrarmos em toda pluralidade da Varal. Maria, primeiro single lançado, composição da vocalista Thaís Rolim é uma homenagem à filha de um casal de amigos. Se fosse uma canção de ninar, seria daquelas que faz você querer mudar de nome apenas para tê-la um pouco sua. O pop-rock Guri (desfila seus pés de moleque/sobre calçadas e quintais/por aqui te chamam guri/na pedra ao lado te chamam piá), dueto com Hugo Rafael (Sambô), discorre sobre a infância de várzea de tantos meninos (guris ou piás, como chamamos no sul). Primeira Canção de Amor (você me abraçou/e não houve jeito/meu ninho em seu peito/estava feito) — talvez a mais bela canção do álbum — tece sobre amor e liberdade e atinge o ápice da doçura e potência vocal de Thaís, que lembra o timbre de Elis Regina. A instrumental Um Trem pra Capital tem clipe recém-lançado, gravado em plano-sequência no apartamento dos meninos (Thaís gravou de sua casa) e funcionaria tranquilamente na abertura de uma série de TV, comprovando toda a habilidade dos instrumentistas. A explosiva Furacão (sou o olho do furacão/sou movimento que só vai/sou a lava do vulcão/derretendo e escorrendo/dentro de mim) abre uma espécie de lado B do disco flertando com o maracatu, o que deixaria Mestre Salustiano orgulhoso em seu céu de rabeca. Se as doces Seguir (eu sei/você tentou me avisar/deixou a porta aberta/e foi pra não voltar) e Sem Fim são baladas de [des]amores que transmutam, o rock Viagem Astral (aqui nos vemos como somos/sem maquiagens, mentiras ou planos/expandindo nossa consciência/fluindo com a correnteza) simplesmente transcende e arrebata. Passarinho (minha raiz é movediça/estou em casa onde for/eu já me acostumei ao movimento/por onde eu passo/sou onda de amor) finaliza o primeiro vôo da Varal Estrela em grande estilo, ao som de samba e ijexá — ritmo nigeriano.

 

Varal Estrela / Foto: divulgação

 

A arte deste primeiro compilado de canções foi produzida em xilogravura por J. Borges, outro interiorano — dessa vez de Pernambuco. O artista ilustrou o álbum em consonância com as dez faixas autorais, dialogando com as lendas e histórias que envolvem Itapeva. O momento de quarentena rendeu ao grupo algumas parcerias em composições e projetos, tais como as canções de “MVB” (Música Virtual Brasileira) A Cura (a curva achatada/a porta fechada/a cabeça aberta/e o coração cheio), com participação de Hugo Rafael, Camilo Macedo, Tiago Giovani e Ítalo Riber, e Camarada (a face do futuro te afrontaria/pra te dizer que os fatos/vão tecendo nós), parceria com Lucas Gonçalves (Maglore). Além disso, no canal oficial da banda no YouTube, encontram-se inúmeros episódios do programa Varal Resenha, divertido bate-papo, onde os convidados abordam suas origens e influências musicais. Como frisa o release do álbum: “Distantes de megalópoles e megalomanias, nós, os artistas enraizados à margem, somos resistentes e sonhadores, em essência. Dar asas às produções para migrá-las aos grandes centros representa um esforço quase que aos moldes de Sísifo, no entanto a recompensa por elevar uma pedra até o cume de uma montanha é imensurável. Sim, nós sabemos, certos mitos existem para serem derrubados”. E é com esse entusiasmo que o grupo pretende disseminar suas mensagens, sonhos e saudades. Para isso, em uma noite qualquer, basta aumentar o som, deitar na grama ou no sofá, olhar para o céu ou para o teto. Com as bênçãos de Salú ou de Sísifo, Varal Estrela é uma constelação inteira, é luz que vem de dentro.

 

Larissa Mendes nasceu no interior catarinense, também tem Maria no nome e ainda se pergunta o que é, o que é. 

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Gramofone

Gramofone

Por Rans Spectro

 

RACIONAIS MC’S – SOBREVIVENDO NO INFERNO

 

 

 O ano era 1997. Enquanto o mundo se distraía tragicamente com o desenrolar da morte de Lady Di, vítima da insanidade midiática ao extremo, e com a trama científica da clonagem da ovelha Dolly, o Brasil seguia sob as vacilantes rédeas neoliberais da era FHC. Na TV, no mesmo canal onde Zé Ramalho cantava as agruras da “Vida de Gado” na abertura da novela, o ainda semi grisalho Bonner noticiava extasiado em rede nacional a prisão da banda Planet Hemp.

Grande ano da música brasileira, com lançamentos de discos que ajudariam a notabilizar ainda mais os produtivos anos 90, e imprimiria definitivamente suas digitais na subjetiva calçada da fama nacional. O citado grupo de Marcelo D2, antes de ir preso por falar de maconha, agraciou o mercado com o fantástico Os Cães Ladram Mas a Caravana não Para. O ano também contaria com pedradas, a exemplo do primeiro cd do Charlie Brown, e o Quebra-Cabeças, sucesso estrondoso e pop de Gabriel o Pensador. Sem esquecer de mencionar também o Lapadas do Povo, quarto disco de estúdio da melhor fase dos Raimundos.

Mas foi em dezembro, precisamente no dia 20, poucos dias antes do Natal, que fomos presenteados com um dos discos mais relevantes da música negra mundial, 14° mais importante do Brasil, segundo ranking da Rolling Stone, e, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis lançamentos do gênero Rap de todos os tempos no país e no mundo. Sim, ele mesmo, o quarto disco dos Racionais MC’s, o histórico Sobrevivendo no Inferno. Obra que extrapola o universo do hip-hop, flerta com fotografia, literatura e jornalismo de denúncia. Mais do que um disco, é um verdadeiro manifesto político da periferia, álbum que colocou merecidamente em definitivo os Racionais no panteão sagrado dos grandes nomes da música.

Em maio de 2018, o álbum foi incluso na lista de leitura obrigatória para o vestibular de 2020 da Unicamp. Meses depois, a obra virou livro, lançado pela Companhia das Letras.

O Sobrevivendo no Inferno é um divisor de águas não só na carreira dos Racionais, mas para o rap nacional. O grupo, que seguia uma trajetória ascendente na qualidade dos seus lançamentos, incluindo o primeiro grande disco independente de sucesso (Raio X do Brasil, lançado em 1994), ajudou a impetrar no imaginário coletivo das periferias brasileiras narrativas complexas e reais, que dialogavam assustadoramente com a realidade. Narrativas essas com notáveis teores de reflexões sociais, críticas ao sistema e a explicitação de realidades não presentes para a maioria dos brasileiros: o dia a dia do sistema carcerário.

 

Foto: divulgação
Racionais MC’s / Foto: divulgação

 

Além da evolução das letras e narrativas, a sofisticação da estética da capa e das bases chamou a atenção, deixando claro que o grupo não passaria despercebido perante outros setores da sociedade até então não alcançados pelas narrativas da periferia do rap.

O disco é iniciado com uma bela versão de “Jorge de Capadócia”, oração de guarnição dos adeptos de São Jorge, imortalizada pelo homônimo cantor de sobrenome Ben. Na sequência, o interlude “Gênesis” e, após, a faixa “Capítulo 4, Versículo 2”, um verdadeiro soco no estômago da sociedade brasileira, até então nunca “afrontada” de maneira a se deparar com o formato musical duro e sofisticado do que o grupo define por “efeito colateral que seu sistema fez”. A música conta com a participação do ex-goleiro do Santos, e filho de Pelé, Edinho.

Também são destaques no disco as faixas “Tô ouvindo alguém me chamar”, que, a meu ver, é um curta-metragem no formato rap, além da incrível “Diário de um detento”, que alçou os Racionais a porta vozes e interlocutores das parcelas excluídas e marginalizadas da sociedade e ganhou um histórico videoclipe.  Surgiam os primeiros ídolos musicais da periferia com conteúdo altamente politizado recheado de ferrenhas críticas sociais, totalmente independentes e sem depender dos grandes meios de comunicação. Um fenômeno da indústria cultural sem precedentes até então no Brasil.

Segundo informações divulgadas pelo Racionais, o disco Sobrevivendo no Inferno vendeu cerca de 1 milhão e 500 mil cópias. A metade pirata.

 

 

 

Rans Spectro é Randolpho Segundo Santos Gomes. MC, sócio fundador da empresa OQuadro Corporation e jornalista.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

O TERNO – <ATRÁS/ALÉM>

 

 

Uma das tentações mais recorrentes no estudo da obra de um determinado artista é dividi-la em vários períodos. Ainda que de forma controversa e simplificadora, fala-se das fases romântica e realista de Machado de Assis ou dos períodos coloridos e cubistas de Pablo Picasso, para ficar apenas em dois exemplos fáceis.

Quem acompanha o trabalho da banda paulistana O Terno e de seu principal expoente e compositor, o vocalista e multi-instrumentista Tim Bernardes, pode se sentir tomado pela mesma tentação. A banda, que lançou em 2012 seu elogiado álbum de estreia, 66, se notabilizou por um som com tintas neo-psicodélicas, um tanto quanto freak, na melhor acepção do termo.

Em <atrás/além>, o quarto disco do grupo, lançado em abril de 2019, há uma continuidade estética do primeiro voo solo de Bernardes, Recomeçar, de 2017, sem a companhia de seus colegas de banda Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria). Com o artista alcançando uma maior maturidade pessoal e criativa, <atrás/além> segue na procura por caminhos mais lapidados. As composições intimistas e melódicas mostram um Tim Bernardes com um sotaque próprio, típico de cantores-compositores de grande calibre.

 

O Terno / Foto: divulgação

 

Há uma grande coesão no álbum, muito em razão do grande zelo nos arranjos, que possuem uma qualidade cinemática, emoldurando os vocais cada vez mais idiossincráticos de Tim. Mesmo o balanço à Jorge Ben de “Bielzinho/Bielzinho” não soa deslocado e carrega alguns dos mesmos elementos de introspecção que permeiam os cinquenta minutos do disco. Aqui cabe destacar o talento de Tim não apenas como compositor, mas também como produtor, já que em <atrás/além> ele é creditado pela primeira vez na história da banda como produtor solo.

Tim Bernardes parece consciente de atravessar um movimento cíclico em sua vida e carreira, e os títulos das canções parecem retratar essa dicotomia: “Atrás/Além”, “Nada/Tudo”, “Profundo/Superficial”, “Passado/Futuro”. Ao se aproximar dos seus 30 anos de idade, Tim se autodiagnostica ao mesmo tempo no final de algo e no começo de outro, como nos versos de “Pegando Leve”: “Dividido, indeciso / Me cansam tantos hipsters e modernos de plantão / Me cansa ser mais um // Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim, recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu”.

Ao mesmo tempo em que celebra a coletividade em “Nada/Tudo” (“Como é que vai, Vaquinho? Como é que vai, Luiza? / Como é, my brother Charlie? Salve, Tute, salve, Geeza! / Companheiro Bielzinho, porows, peixe, nóis, clubinho / Mari e turma da pesada, não me sinto tão sozinho”) e homenageia o baterista Biel Basile em “Bielzinho/Bielzinho”, O Terno se torna cada vez mais um retrato de Tim. Falta-nos o distanciamento temporal para classificar onde termina o período “Terno” e onde começa o período “Tim”, ainda que eles coexistam nos dois discos mais recentes, o solo do Tim e <atrás/além>. De uma forma ou de outra, sejam quais forem os caminhos futuros, O Terno e Tim Bernardes já se configuram como objeto de estudo obrigatórios na música brasileira dos anos 2010.

 

 

Rogério Coutinho é operário museal, podcaster e publicitário de formação, não-praticante. Um homem do interior, em vários sentidos.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

MARCOS VALLE – CINZENTO

 

 

Claro que em janeiro não sabíamos o que estávamos prestes a viver pelos próximos 7 meses: uma pandemia. Mas já tínhamos fatos e dados suficientes para saber que, sendo brasileiros, teríamos um ano difícil – ou, no mínimo, desafiador. Ao menos em termos econômicos e políticos. E parece que o disco de Marcos Valle, lançado ainda no primeiro mês do ano, parecia já dar conta desse ar no qual estamos imersos. Seu título é “Cinzento”, e traz na capa uma foto em que Valle aparece sério, envolto por um plástico transparente.

Marcos Valle tem quase 60 anos de carreira. Seus discos marcaram fases e períodos diversos da música brasileira, justificando que um crítico o considerasse, ele mesmo, um gênero musical; caracterizado pelo “estilo valleano”, na qual cabe bossa, cabe experimentação, cabe jazz e cabe pop.

Ao ouvir “Cinzento”, três aspectos parecem saltar aos ouvidos. O primeiro são as letras e os arranjos. Elas soam atuais, urgentes, feitas mesmo com a consciência de que o agora precisa ser transformado para continuar existindo. O segundo é que o disco foi composto por parcerias diversas: a clássica de Marcos com seu irmão Paulo Sérgio e também com uma geração bastante conhecida de músicos cariocas, mais novos que Valle. Entre eles, Moreno Veloso, Domenico Lancellotti, Kassin e Bem Gil. O músico também recuperou uma parceria sua com Zélia Duncan, ainda inédita. Somam-se ao time, ainda, Jorge Vercillo e um dos maiores cancionistas do país, Ronaldo Bastos. A faixa de abertura e a faixa-título do disco são de uma parceria inusitada, porém bem sucedida, entre Valle e o rapper paulistano Emicida. O terceiro aspecto é a leveza com que o disco consegue ir de um retrato da realidade ao tema do amor. O que lembra o feito do músico no seu clássico “Previsão do tempo”, de 1973. E é preciso dizer que essa “leveza” é implícita no som característico de Valle, e não resultado de uma negação da aspereza da vida real.

 

Foto: Jorge Bispo

 

Logo no primeiro minuto, é impossível não se render ao groove de Valle somado aos versos “Se tudo é ciclo, me reciclo e volto mais bonito, ano que vem/Em tudo eu acho graça/Mesmo em meio à desgraça/Entendo e rendo graça/Que a vida ainda é de graça”, que soam como profecia ou mantra.  “Cinzento” também traz o tema do tempo, cita o deus Cronos como um ser de fome voraz. Mas sem o movimento do tempo, não há aprendizado. Admitindo a grandeza do tempo, é possível libertar a alma. E Valle e Emicida deixam o recado: “Pra ciência e outros campos que aciono/Alinhado com cada cromossomo/Grisalhos cabelos dizem bem como somos/Bem tranquila nos aguarda num domo/A cinza sabedoria de cajado e quimono”.

“Se proteja”, parceria com Bem Gil, também parece trazer um recado de como enfrentar dias difíceis: olhando para si mesmo. Diferente das composições que Valle assina com Moreno, Kassin e Domenico, nas quais predomina a temática amorosa. As músicas são “Redescobrir”, “Lugares distantes” e “Pelo Sim, Pelo Não”. Nesta última, a cantora Patrícia Alví, também esposa de Valle, canta junto a ele.

A letra de Jorge Vercillo em “Só penso em Jazz” faz tremer as teses críticas escritas por José Ramos Tinhorão nos idos dos anos de 1960. Nela, o sujeito revela uma completa paixão pelo jazz, que poderia ser completamente sem sentido, já que “cê fica louco” e “cê ganha pouco”, diz. Mas a alegria do som vale a pena e ele termina ligando nomes de diferentes vertentes da música brasileira, não apenas da bossa nova, ao jazz, como Ivone Lara, Capiba e Luiz Gonzaga.

“Cinzento” saiu pelo selo brasileiro Deck Discos, menos de um ano depois do disco “Sempre”, lançado em junho do ano passado pelo britânico Far Out Recordings. Esse último tem uma sonoridade mais ligada à bossa, enquanto o último soava mais funky e pop. O disco pode ser um belo afago para sua quarentena, caso ainda não tenha escutado.

 

 

Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

ADRIANA CALCANHOTTO – SÓ

 

 

A ano era 1992, eu voltava de Itabuna de carro para Ilhéus. A recém-lançada Morena FM tinha se tornado minha predileta por trazer uma “nova música brasileira”, ou seja, me apresentava  novas vozes em faixas não necessariamente de trabalho, com cuidado e boas sacadas. Os primeiros acordes de “Esquadros”, do disco “Senhas”, invadiram o carro e numa era pré-smartphone você tinha de ouvir a música e pedir a Deus que o locutor dissesse o nome do autor/faixa ao fim do bloco, e não no início (doces angústias). Adriana Calcanhotto se tornou uma das musas dos meus 90 e de quatro discos que nunca deixei (Senhas, A fábrica do poema, Marítimo e Partimpim). Esse ano me vi reencontrando naqueles discos um alento, doses de nostalgia contra a ansiedade.

Adriana lançou recentemente o disco “Só”, e aborda a solidão, a política e agruras desses dias. Um trabalho minimalista e marcado pela voz, ora suplicante, ora contemplativa que flutua e traz à tona muito daquilo que me fez manter “Esquadros” em todas as minhas playlists.

Faixa a faixa:

Abrimos com “Ninguém na Rua” – tambores fazendo ponto, leves, eletrônicos e aludindo ao mesmo tempo ao funk e à marcha, ruas desertas, saudades e a dor da distância de quem se quer.

“Era só” – balada agridoce, piano bar, luz incidental e doses fortes de dor on the rocks. “Gostar de gostar de gostar de você” é o tipo de indulgência que só é possível pra quem tem cotovelo dolorido.

“Eu vi você sambar” – como que para desfazer a fossa da faixa anterior, essa tem aquele típico samba/pop que faz as perninhas mexerem por baixo da mesa, clima solar, e uma história de paixão fulminante e esperançosa. Devia vir com a caipirinha pra mesa na mesa.

“O que temos” – faixa que traz o papo sobre o agora pra frente “… o que temos são janelas/panelas…”, beat seco, piano, guitarras e sample de panelas sendo batidas. “Janela indiscreta” de Hitchcock encontra “Pelas tabelas” de Chico Buarque. Necessário.

 

Adriana Calcanhotto / Foto: reprodução instagram

 

“Sol Quadrado” – partido alto, também muito próxima de Chico, principalmente na construção, faixa sem nome aos bois que refere até o gado. Quem planta, colhe.

“Tive notícias” – mais uma balada, voz e violão numa intimidade de pé de ouvido. O tema da distância (“… coração de quarentena.”) traz o amor partido e que escondemos até de nós mesmos.

“Lembrando da Estrada” – foxtrot de bongô e guitarras no molho que nos joga na saudade das estradas, da mobilidade e também na viagem interna advinda da reclusão, as estradas que elevam pra dentro e nos forçam a abandonar as bagagens que já não cabem nas nossas vidas.

“Banda Lê Lê” – funkinho divertido, que seria uma dessas “bônus” nos antigos cds. Deu vontade de ouvir um disco inteiro dela com base eletrônica (funk, trap e house).

“Corre o Munda” – muito legal que num disco tão intrinsecamente atual, AC escolha uma homenagem a Coimbra, essa Europa possível vista como fuga para tantos de nós.  Presos em nossos apartamentos, batendo panelas e cheios de medo e saudades.

Este é um belo trabalho, com as sacadas inteligentes e sentimentos que vão se tornando mais visíveis a cada audição. Senti falta de arranjos e de riscos, coisa que ela sempre teve. É uma dose homeopática de uma grande artista. Te faz bem, mas também te faz perguntar: “Só?”

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

PEARL JAM – GIGATON

 

 

O grunge morreu. De overdose, de velhice, de Boy Band. Ainda assim, permanece imantado a nossa realidade cultural, seja na imagem de Cobain, seja nas playlists de Rock n’ Roll (onde virou clássico, que horror!).  A única banda dessa geração que nunca parou foi o Pearl Jam. Cada vez mais longe dos  seus próprios clássicos (Ten, Versus e Vitalogy)  e mais próxima de New Young, tanto na excelência quanto  no desapego ao passado, em se tratando dos discos. Só por isso eles já merecem palmas.

Gigaton (2020) é um disco que se aproxima muito de Bruce Springsteen fase “Lucky Town” (1992). É um disco de 12 canções em que Eddie Vedder fala sobre tudo (política, machismo etc.) sem abandonar um certo messianismo e aquela autoanálise autoindulgente que pode soar totalmente mala, mas também vale pra boomer se sentir o próprio (quem? eu…?).

Faixa a faixa:

1- Who ever said – se você já ouviu PJ, você já ouviu essa, tem todas as convenções, mudanças melódicas e tals . Traz já de cara uma letra olhando pra dentro. Num mundo de incertezas e inércia, de verdades distorcidas e doloridas, pra que o Rock? Resposta, pra ter “Satisfaction”.

2- Superblood Wolfmoon – essa pra mim deveria abrir o disco, rápida, agressiva e um tanto polêmica. É a faixa “me too” dos caras, onde Eddie não só faz uma autocrítica, mas também manda descer do pedestal. Ele fala de um homem acuado, irritado e culpado, que ainda não sabe como lidar com  a “loba” na lua cheia.

3- Dance of the Clairvoyants – faixa de lançamento, causou uma comoção entre os fãs que acharam muito “eletrônica”, mas a mim veio “Cannonball”, do Breeders,  e  “Ulysses”, do Franz Ferdinand, no refrão. Mais temas de confusão e angústia em relação a uma modernidade que não veio pra resolver, mas pra piorar.

4- Quick Scape – fazia tempo que eu não ouvia uma faixa tão Zeppelin dos caras, seja nas guitarras, na cozinha ou no refrão. A letra,  bem anti-trump, justifica sua “saída rápida” pra arrumar as ideias no meio dessa lama. Sugiro umas cervejinhas ou um chá.

 

Foto: divulgação

 

5- Alright – Essa é tão neo hippie que exala patchouli. Discursinho tirado a U2 tentando mostrar que se importa. Não, obrigado!

6- Seven O’Clock – Bruce Springsteen devia cobrar direitos autorais por essa. Panfletária (Trump escroto!), funciona muito porque o estribilho faz tudo soar sincero.

7- Never Destination – outra das minhas preferidas, direta, reta e energética. Muito legal pensar que uma banda com esse tempo de estrada ainda soa tão crua quando quer.

8- Take the Long Way – tem um riff quebrado muito interessante, me lembra  “Life Wasted” na melodia, desce redondo e não desanima.

9- Bucle Up –  faixa passável, passe pra próxima.

10- Comes then Goes – melhor balada do disco, de longe. Violão de cordas de aço, sempre roqueiros. Influência Country sem soar mala, uma das coisas que o PJ sabe bem.

11- Retrograde – aposto que essa foi encomendada para o vídeo do Partido Democrata, messianismo embalado a vácuo. Boa pra Ioga de manhã cedo. Amanhã eu começo, tá?

12- River Cross – segunda faixa roubada do “Boss”, última do disco, uma súplica por luz em tempos sombrios, não funcionou pra mim, mas talvez vire a sua “música da crise”.  Se cuida. Tamo junto.

O disco funciona, seja pra quem é fã, porque não foge muito do som deles, seja pra quem quer ouvir um disco de rock que trate do estado atual das coisas sem querer lhe dizer o que fazer, mas perguntando por que fazer. Pearl Jam ainda me causa um certo orgulho, boomer nostálgico que sou.

 

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.