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98ª Leva - 01/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

PASTEL DE MIOLOS – NOVAS IDEIAS VELHOS IDEAIS

 

The Weapons of Mystery

 

Não seria coerente falar em longevidade quando o assunto aqui é simplesmente um CD, ainda mais se tratando de uma banda de punk rock baiana surgida numa década em que, ao menos para mim, frequentador raso e esporádico da cena, parecia perder seus melhores representantes. A palavra longevidade, quando metida no contexto do que me proponho a fazer agora, poderia ser citada quando falamos de Stones – só para ficar no óbvio terrivelmente ululante. Ou seja: ao falar de rock and roll, e vincular tal palavra ou qualquer um de seus sinônimos a esta resenha, corro o risco de converter tudo em exagero e banalidade.

Mas antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que é exatamente nisso que pensava toda vez que tentei escrever (e reescrever) esta resenha: longevidade. Ao falar do mais novo lançamento da Pastel De Miolos, Novas Ideias, Velhos Ideais, é impossível não lembrar meu sentimento nas noites em que acompanhei a banda. Era uma sensação nova e incomum, coisa que de quem está acostumado a observar por hábito – situação reforçada pelo fato de que eu era uma espécie de câmera/roteirista de um documentário abortado; ou seja, eu tinha que absorver tudo ao meu redor.

Minha conclusão, talvez equivocada e muito simplória, foi a de que uma banda se faz com uma mistura de elementos que não são pra qualquer um: vocação artística, paixão, vontade de se expressar, amizades duradouras, muito trabalho e talento. Afinal são 19 anos ININTERRUPTOS e envolvidos numa rotina de ensaios, shows e tudo o mais inserido nesse contexto: plateias ruidosas, casas de show quase desconhecidas ou badaladas, bares, festivais independentes, sessões exaustivas de ensaio, tudo isso desembocando numa recente e merecida turnê por países do velho mundo. Tudo o que uma banda necessita para pensar seriamente num legado consistente e verdadeiro. Na tal longevidade. Como algo possível.

Em seu novo CD, mixado no Canadá e produzido por Jera Cravo, encontramos tudo aquilo que faz parte do que podemos chamar “grande disco”. E antes que algum de vocês perceba a existência de exageros de minha parte, aqui vai a defesa: o que a PDM nos apresenta em seu novo trabalho não é simplesmente uma obra impecável, tecnicamente falando (incluindo aí a parte gráfica do artista carioca Flávio Flock, que também já trabalhou para a Pitty, entre outros), cheia de qualidade e de “pegada”; não são simplesmente letras corrosivas com imenso poder de fogo e reflexão; nem a combinação certeira de guitarra, bateria e baixo: Novas Ideias, Velhos Ideais é o resultado de um trabalho que surge numa sequência de outros, feitos ao longo desses anos, que foram sendo aperfeiçoados em sua produção sem nunca dever nada em seus shows.

 

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Pastel de Miolos / Foto: Júnior Américo

 

Novas ideias, velhos ideais, a primeira faixa, dentro de sua simplicidade absurda, já nos mostra aonde a coisa pode chegar: a frase repetida, o peso – realçado pela presença do novo baixista, André, que trouxe à banda uma maior aproximação com outros estilos de rock and roll, um peso e uma coesão maior -, tudo, enfim, conspira pra uma grande festa, “como antigamente”. Em Desobediência Civil, cujo clipe presente na internet vale ser assistido, a gente pode pensar em cada momento de nossas vidas em que desistimos de agir com alguma coragem: poderia ser uma pedra arremessada ou simplesmente se recusar a votar em qualquer canalha cujo discurso hábil nos enche a paciência.

Na próxima, Insegurança Masculina, com a presença ilustre de Vital Cavalcante (da banda Jason), o que vale é bater de frente com os machos que escondem sua fragilidade doentia nas atitudes violentas que por vezes surgem nos noticiários. A Ilha traz em si uma série de questionamentos sobre para onde finalmente iremos algum dia (se é que isso será possível). E na faixa Sem Nome E Sem Razão a bola da vez é a destruição gradativa que presenciamos todos os dias ao nosso redor, em nome de um sonho equivocado de progresso. Vou Tentar, composição de Tony Lopes, cujo som desacelera um pouco para dar maior sonoridade a outra letra simples, o que vale é o olhar certeiro e sensível do compositor. Já em Hardcore a ordem é pogar, sem deixar de atentar para a mensagem evidente – afinal em todas as letras existe algo a ser captado. Porcos, em minha opinião, a melhor do disco, contém tudo que um punk rock deve ter: coragem, metáforas corrosivas, peso, veemência, inquietação e fúria. Logo depois Homem Ao Mar, com seu estilo surf music, também parece servir de base para outra daquelas mensagens nada subliminares que fazem de Alisson um compositor de respeito. Quarteto II é na verdade uma junção bem feliz de textos, dentre eles o do grande poeta Lupeu Lacerda, e em Quando A Vítima Se Transforma Em Algoz e A.E.P, sincera homenagem a uma banda paraibana, o que vale é enlouquecer. E admitir que a essa altura não se pode mais achar o caminho de volta. Homem Sério, que conta com a participação de Frango Kaos (Banda Galinha Preta), serve como uma crítica aos que de alguma forma entregaram completamente os pontos. Essa Porcaria Que Me Faz Feliz encerra o CD, como uma espécie de celebração aos que ainda hoje – apesar dos cabelos grisalhos e das barrigas proeminentes -, estouram os próprios tímpanos com aqueles clássicos sem ligar para o resto.

E aí talvez todo esse papo sobre longevidade finalmente não tenha feito sentido algum, apesar de saber que os anos serão generosos com Alisson, André e Wilson; e que a PDM cumprirá com raro louvor seu papel na cena rocker de qualquer lugar do mundo. Mas, sinceramente, pouco importa. A essa altura dos fatos, depois de ouvir o Novas Ideias, Velhos Ideais uma dezena de vezes, o que vale é celebrar. Com algumas cervejas honestas, ou uma dúzia de granadas nos bolsos.

 

 

 

Gustavo Rios é baiano e escritor.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – CONVOQUE SEU BUDA

 

Criolo

‘Eu não venci nada, ninguém vence nada. A gente só passa’.
(Criolo)

 

Três anos se passaram e Criolo – codinome de Kleber Cavalcante Gomes – permanece honrando as raízes africanas do pai (meu lado África, aflorar, me redimir) e subvertendo a candura cearense da mãe (é que eu sou filho de cearense/a caatinga castiga e meu povo tem sangue quente). O álbum com nome de mantra é o terceiro registro de estúdio do rapper e um dos mais aguardados do ano. Lançado em novembro e novamente produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, ambos integrantes de sua banda, o disco está disponível para audição e download gratuito no site do artista. O trabalho comprova o amadurecimento sonoro do homem com olhar de profeta, que quase abandonou a música antes de gravar o impactante Nó Na Orelha (2011).

É preciso lembrar que no ínterim de um álbum e outro, o músico lançou o CD/DVD Criolo & Emicida – Ao Vivo (2013), filmado todo em GoPro (vencedor do 25º Prêmio da Música Brasileira), além de canções para projetos específicos. A exemplo de seu antecessor, as 10 faixas de Convoque Seu Buda (Oloko Records) continuam aproximando o rap aos mais diversos ritmos, como samba, reggae, soul e até mesmo ao baião. Criolo não só imprimiu definitivamente o gênero na música popular brasileira, como dividiu o palco com alguns de seus maiores expoentes, como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Milton Nascimento, comprovando que, de fato, não existem barreiras para sua poesia.

Criolo
Criolo nos trilhos de “Convoque Seu Buda” / Foto: Divulgação

 

A faixa-título, o rap-oriental Convoque Seu Buda (ao trabalhador que corre atrás do pão/é humilhação demais que não cabe nesse refrão) abre o álbum invocando Shiva, Ganesh e demais deuses para que mantenham nossa fé e equilíbrio diante do panorama atual. A letra incisiva de Esquiva da Esgrima (hoje não tem boca pra se beijar/não tem alma pra se lavar/não tem vida pra se viver/mas tem dinheiro pra se contar) mantém a tônica social, tecendo críticas que vão do racismo ao abuso de autoridade: é o ‘céu da boca do inferno esperando você’. O contagiante soul setentista Cartão de Visita – um dos momentos mais ensolarados do álbum –, parceria com Tulipa Ruiz, discorre sobre o consumismo-ostentação e relembra com bom humor a controversa entrevista concedida a Lázaro Ramos no programa Espelho, do Canal Brasil (Lázaro, alguém nos ajude a entender!), que virou meme na internet. Casa de Papelão (prédios vão se erguer/e o glamour vai colher/corpos na multidão) aborda a especulação imobiliária do centro de São Paulo, enquanto o samba Fermento pra Massa (eu que odeio tumulto/não acho um insulto manifestação/pra chegar um pão quentinho/com todo respeito a cada cidadão) – que bem poderia integrar a roda do Pagode da 27, nos domingos do Grajaú –, discute as manifestações populares.

Enquanto o reggae Pé de Breque (o Criolo Doido respeita o rastafári/e pede licença pra poder cantar/essa nossa teoria secular/és responsável por tudo que cativar) celebra o estilo Bob Marley de ser, o baião Pegue Pra Ela tem um quê de Chico Buarque e deixa qualquer um com vontade de puxar seu par para dançar. A densa Plano de Voo (e por mais que eu tente explicar, não consigo/de tornar concreto abstrato que só eu sinto/é como se eu ficasse aqui nesse cantinho/vendo o mundo girar no erro abusivo), que flerta com o hip hop de Ainda Há Tempo (2006), seu primeiro álbum, tem a intervenção do rapper Neto (Síntese) e atinge o clímax do álbum. Duas de Cinco (e eu fico aqui pregando a paz/e a cada maço de cigarro fumado/a morte faz um jaz entre nós), lançada inicialmente em 2013, em EP homônimo, faz as honras para ‘tombar o mal de joelhos’ no experimentalismo regional de Fio de Prumo (Padê Onã), que tem participação de uma onipresente Juçara Marçal e fecha o álbum no melhor estilo africano.

É notável que o discurso de Criolo está cada vez mais contundente e aprimorado para além da crueza periférica. Em sua poesia abstrata, ele responsabiliza a miséria, a inveja, o desamor e principalmente o consumo de drogas pela falência do ser humano. E cita ainda a depressão como “a peste entre os meus”. Os arranjos estão cada vez mais experimentais e ousados, assim como a arte do álbum, que se apropriou do acervo digital liberado pelo Museu Nacional da Holanda (Rijksmuseum) para construir uma bela colagem, onde a figura central é um oficial da Corte da Ilha de Java (Indonésia) de saiote, pintado a óleo, em 1820, por um artista não identificado – e que se assemelha muito ao rapper.

Em tempo: assisti o terceiro show de lançamento da nova turnê, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, que contou com os convidados especiais Síntese, Tulipa Ruiz e Ricardo Rabelo (Pagode da 27) e afirmo que Criolo continua em perfeita comunhão com seu público. Ao final da celebração como costuma chamar seus espetáculos , o artista recebeu calorosamente os fãs. Posso dizer que o abraço apertado do messias do Grajaú conforta e abençoa. Convoque Seu Buda é o relicário do ano e Criolo não passará tão cedo.

 

 

 

Larissa Mendes não é uma pessoa de muitas crenças, mas ainda acredita no ser humano.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

TIÊ – ESMERALDAS

 
Esmeraldas

 

Depois de trocar as passarelas pela música, pousar em um independente Sweet Jardim (2009) e dividir-se entre A Coruja e o Coração (2011), eis que a ‘menina-pássaro de rubro passional’ lança seu terceiro voo. Batizado de Esmeraldas – em alusão à cidadezinha mineira que recepcionou suas composições –, as 12 faixas do mais recente trabalho da paulistana Tiê despontam sua verve mais pop e visceral.Produzido por Adriano Cintra (ex-CSS) e Jesse Harris (parceiro de Norah Jones),e gravado entre São Paulo e Nova York, o álbum conta com as participações do músico escocês David Byrne (ex-Talking Heads) e de Guilherme Arantes. Lançado em setembro pela Warner Music, Esmeraldas revela um profundo amadurecimento da cantora de 34 anos, que desta vez transita por distintos estilos musicais – pero sin perder la ternura jamás – com uma despretensiosa segurança. Irônico, se pensarmos que, contrariando a síndrome do segundo disco, Tiê confessa ter entrado em crise criativa em seu terceiro trabalho.

 

Tiê
Tiê / Foto: Divulgação

 

A balada Gold Fish – primeira das duas canções em inglês presentes no álbum – abre Esmeraldas em ritmo sussurrante para desembocar num sofisticado arranjo e funciona como uma prévia do que se verá ao longo de toda a obra: a voz doce de Tiê desfilando por diversas sonoridades. Se o pseudo-blues Par de Ases (nem sempre a gente acerta em tudo/e muitas vezes fala demais/mesmo assim/se você me pedir, eu mudo/e ainda prometo um par de ás) aborda o sempre desgastante jogo de amar, a divertida Máquina de Lavar traz o piano de Guilherme Arantes e a guitarra de Tim Bernardes (O Terno) numa sensual pegada radiofônica. Apesar da letra densa, Urso (errava a dose/errava sempre/erradicava a palavra/e ouvia com o coração) mantém a animação, desta vez, utilizando bases eletrônicas, enquanto o rock de Mínimo Maravilhoso (eu nem vi dezembro passar/tanta coisa boa que aconteceu/destranquei a porta para entrar/o que um dia já foi meu) contrasta com o regionalismo épico da canção-título Esmeraldas (e nesse silêncio/meu sotaque vai mudar/e então meu pensamento vai divagar).

A romântica Isqueiro Azul (e quantos quase cabem num segundo/me vi chegar no fim do mundo/me vi sofrer na solidão/de um jeito que não suportei) dá início a um imaginário lado B do álbum, lembrando a suavidade das composições de Sweet Jardim. Depois de um Dia de Sonho (nunca fugi, nunca escondi/os meus desejos por você/eu sempre fui o seu brinquedo/mas tudo tem um tempo pra durar) – uma das melhores do álbum e os violinos de Vou Atrás (posso fingir/que não mexeu comigo/posso inventar/que sou só seu amigo/mas na verdade/essa canção/é um recado/à solidão) dão uma tônica mais dramática ao disco. A Noite (qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços/me entorta as costas e dá um cansaço/a maldade do tempo fez eu me afastar de você), primeiro single do álbum, é uma versão da balada La Notte, da cantora Arisa, sucesso na Itália e México. Meia Hora – escrita curiosamente em 15 minutos– é um rockzinho de bateria marcante que aponta para o final do álbum em alto astral, junto com All Around You (na minha vida catalogada/podem até me dar um search e coisa e tal/mas ninguém sabe do que eu sinto), cantada em português por Tiê e em inglês por David Byrne e aborda a nossa controversa [falta de] privacidade atual.

Por não se acomodar entre a simplicidade de Sweet Jardim e a alegria de A Coruja e o Coração – que teve até canção executada em novela global –, a compositora firma-se definitivamente no rol da nova geração da MPB, composta por nomes como Tulipa Ruiz, Céu, Marcelo Jeneci e Thiago Pethit. Tiê segue compondo suas próprias histórias de letras simples sobre o cotidiano e o amor, talvez agora de modo ainda mais refinado e liberto: se os instrumentos e arranjos das canções agigantaram-se, o mesmo aconteceu com sua intérprete. Em tempo, a cantora com nome de passarinho ‘reescreveu as memórias, deixou o cabelo crescer’ e já têm sua própria ninhada de três álbuns e duas filhas. A vida ainda é nossa joia mais preciosa.

 

 

Larissa Mendes tem olhos de esmeraldas e só pia no twitter.

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

ROZE – ACORDE

 

Capa Roze

 

 “quanto mais eu ando mais vejo estrada
mas se não caminho não sou é nada”
(Plantador, Geraldo Vandré e Hilton Acioli)

Acorde. Palavra ambígua, título do primeiro disco solo da cantadora baiana Roze. Acordar é de dentro, primeiramente. Acorda-se em explosão interior e o estopim ultrapassa o deslimite do corpo (em si). Mas acordar, sendo de dentro, pode dilatar a percepção e gerar um desacordo com tiras, pedaços, fragmentos do mundo. Não digo com o mundo inteiro porque hegemonismos transformam particularidade em totalidade… e bem sabemos que mundo é vastidão (melhor seria dizer nos plurais). De modo que acordar para o desacordo vem acompanhado da encenação, da construção de outros mundos possíveis. Roze, sendo artista, parece confirmar isso.

Lançado em 1979, Acorde impressiona pela avidez misturada com doçura. Segundo o estudioso baiano Telito Rodrigues, “Roze canta como se tivesse fome”. Procede. Roze, trazendo consigo as pulsações de Tucano (seu lugar de origem), é toda apetências. Ela canta no limite, espalha ecos poderosos e nos envolve: a fome é compartilhada. Em estado emergencial a artista se apresenta com ânsia de dizer. Somente o canto apazigua ou sacia a fome. Cantar, portanto, é crucial, condição de sobrevivência, mas também tem algo de cíclico – quanto mais é apaziguada a fome se refaz.

Oco, povoações, vasculhamentos interiores. Roze chega, toma assento e não vem sozinha. Está acompanhada por rezadeiras, andarilhas/os, marisqueiras, tropeiras/os, romeiras/os, lavradoras/es, índias/os, caboclas/os. Na visualidade que “Acorde” provoca está essa procissão desses seres que não tomam assento na santa ceia do progresso. Talvez seja por isso que o disco doa e instale vácuos, ao mesmo tempo em que desperta esperanças no meio do dia abrasante.

Ainda sobre “Acorde” é importante dizer que traz composições de Geraldo Vandré e Hilton Acioli, Candinho de Jesus, Jorge Alfredo e Antonio Risério, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Capenga e Patinhas, Carlos Pita. O resultado é um disco que pulsa dores e esperanças, exala cheiro de mato seco, poeira de estrada, traz desertos e anoitecimentos por dentro. Correntezas de rios que transportam sonhos não se sabe para aonde. E ouvimos, na íntegra, sem conseguir pular nenhuma das doze faixas. O disco talvez seja uma ampla narrativa de nós.

Prefiro não dizer que Roze teve uma carreira meteórica. De 1979 datam a sua intensa participação no álbum “Águas do São Francisco” (de Carlos Pita) e o disco solo “Acorde”. Em 1980 foi lançado o compacto duplo “Roze”, seguido do terceiro disco também intitulado “Roze” e datado de 1984. As décadas de 80 e 90 foram marcadas pelas participações na coletânea musical “Som Brasil” (organizada por Rolando Boldrin) e em discos de Gereba, Fábio Paes, João Bá, dentre outros. Depois disso ela continuou transitando por mostras musicais, cantorias, eventos de celebração das culturas populares.

Roze, nos tempos atuais, segue cantando com avidez e doçura (cantar é crucial). Não está desaparecida, nem invisível. Canta onde é impossível. Tem “a boca preta de tanto sonhar” (Acorde, Candinho de Jesus). Se há desconhecimento da sua obra, culpa dos hegemonismos que transformam particularidade em totalidade e impõem modos de “consumo” musical, alastram o mero entretenimento com prazo de validade. Então, por (im)pura desobediência precisamos ouvir o canto faminto de Roze.

Agradeço a Telito Miranda e Renailda Cazumbá pelas contribuições que geraram esse texto. As impressões que aqui se apresentam são dedicadas, antes de tudo, a Roze.

 

 

 

Acorde (1979). Ficha técnica:

 

Produtor fonográfico: Gravações Chantecler LTDA.
Diretor Artístico de Produção: Luiz Mocarzel
Assistente do Produção: Candinho
Arranjos de Cordas: Wilson Moura
Arranjos de Base: O Grupo
Estúdio: Gravodisc
Técnico de gravação e Mixagem: Elcio Alvores Filho
Corte: Adenilton
Capa/Direção de Arte: Sergio Grecu
Produção Gráfica: Antonio Luiz
Past-up: Trinkão
Fotos: Candinho

 

Daniela Galdino é Poeta, por vezes Performer. Professora de Literatura na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Nasceu nas brenhas sulbaianas (em Itabuna) e vem se espalhando pelo mundo. Mantém o blog Operária das Ruínas.

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94ª Leva - 08/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BANDA DO MAR – BANDA DO MAR

 

Banda do Mar

 

2008: a música une o casal Fabrizio Moretti e Binki Shapiro ao hermano Rodrigo Amarante para formar o Little Joy, uma das “bandas de um álbum só” mais promissoras do universo musical da década.

2014: a música (re)úne o casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães ao baterista português Fred Ferreira para formar a Banda do Mar e lançar seu primeiro álbum, quiçá um dos mais fofos do ano.

Se, na ocasião, afirmei que o Little Joy “parecia perfeito para ser ouvido numa tarde ensolarada na estrada, rumo à praia ou à cachoeira mais próxima”, o mesmo reitero em relação à Banda do Mar.

Semelhanças e coincidências à parte, o grupo apresentou no final de agosto o primeiro registro do encontro, disponível na loja virtual do iTunes. O álbum físico será lançado em setembro pelo selo Zé Pereira (de Camelo) e distribuído pela Sony Music. O trio luso-brasileiro, que tem turnê agendada para os próximos meses nas principais capitais, acaba de lançar o videoclipe oficial da canção Mais Ninguém, cantada por Mallu e “dançada” por Fezinho Patatyy e toda trupe do mar, filmado numa grafitada Lisboa, onde Mallu e Camelo viveram por mais de um ano (para manter as comparações, o vídeo lembra vagamente a sátira brasileira de One Way Trigger, do The Strokes, banda de Moretti, no clipe com os bonecos de festa infantil).

 

Camelo, Fred e Mallu/Foto: Divulgação
Camelo, Fred e Mallu / Foto: divulgação

 

Camelo abre os trabalhos com a faixa Cidade Nova, onde brada “eu não deixo o tempo parar” e enfatiza a proposta de sua nova aventura musical: “eu só trago o mar de algum lugar comigo”. Mais Ninguém (preciso me fazer só/pra me fazer maior), um dos singles pré-divulgados antes do lançamento do álbum, juntamente com o pop-rock Hey Nana – que lembra muito um Camelo nos áureos tempos de Los Hermanos –, têm bateria marcante e suingue suficiente para tornarem-se hits. Se em Muitos Chocolates Mallu avisa que além do doce, precisa de cafuné e massagem no pé, na marchinha Mia, ela conta a história de outra manhosa gata de hábitos peculiares. O folk quase autobiográfico Me Sinto Ótima (cansei de carregar milhões de medos/das pessoas que me cercam e me pesam de agonia/eu já tenho lá os meus anseios, os meus receios/que eu perco com a luz do dia) e a destemida Seja Como For (não tenho medo de rato nem barata/meu bem, você pra mim é privilégio/sorte grande de uma vez na vida) nem lembram a menina tímida que cantava em inglês em 2008, por julgar mais sonoro.

É inegável que as melhores canções do álbum ficam a cargo das sempre inspiradas composições de Camelo, sobretudo nos versos das mansas Pode Ser (pode ser o seu tamanho/ou o jeito que você erra/no momento em que eu te ganho/ou no barco que te leva) e Dia Clarear (se você jurar eu posso até te acostumar/numa vida mais à toa/é só você querer que tudo pode acontecer/no amor de outra pessoa/base de um descanso milenar). Na libertária Faz Tempo, o compositor procura um lugar ‘na cidade ou no litoral’ e termina com um versinho em ritmo de Jovem Guarda. Solar, outro ponto alto do álbum, é uma daquelas canções-hino que se tem vontade de cantarolar na autoestrada, rumo à mesma praia do Little Joy. E a Banda do Mar(celo) despede-se literalmente com Vamo Embora, “que eu tenho meu encontro feito com um mar de pérola” e “o tempo que eu tenho é pra voar”.

Se os músicos não inovam esteticamente nas 12 faixas e soam como continuidade de Sou (2008) e Toque Dela (2011), de Camelo, e Pitanga (2011), de Mallu, ao menos eles trazem o seu melhor – e isso não é pouco. Fred Ferreira completa o trio cedendo toda a experiência percussiva e eletrônica dos coletivos Buraka Som Sistema e Ovelha Negra, num frutífero intercâmbio Brasil-Portugal. A capa do álbum é assinada pela fotógrafa Bruna Valença e traz um negativo vencido da modelo Camilla Baldin. Decididamente, a Banda do Mar não tem prazo de validade. É som que não morre na praia.

 

 

 

Larissa Mendes não sabe nadar, mas se amarra em surf music e Iemanjá.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

FERNANDA TAKAI – NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL

 

Na medida do impossível

 

A voz continua meiga e os cabelos curtos, mas as companhias… quanta diferença! A amapaense mais mineira do Brasil, Fernanda Takai, apresenta seu quarto trabalho solo mesclando regravações e canções inéditas, com parcerias inusitadas que vão de Zélia Duncan a Pitty, Padre Fábio de Melo a George Michael. Novamente produzido pelo marido e companheiro de Pato Fu, John Ulhoa, as 13 faixas de Na Medida do Impossível (2014) sucedem os aclamados Onde Brilhem Os Olhos Seus (2007), tributo à Nara Leão; Luz Negra (2009), registro ao vivo da turnê e Fundamental (2012), bossa nova eletrônica em dupla com Andy Summers, ex-guitarrista do The Police. O amor e o tempo dão a tônica do novo álbum – tudo com o cuidado e capricho que lhes são peculiares –, sob uma aura melódica, ensolarada e genuinamente pop.

O disco abre com a romântica Doce Companhia (sua doce companhia/não me canso de querer/me sinto ressuscitada/perto de você), versão para Dulce Compañia, da cantora mexicana Julieta Venegas, presente em seu álbum Limón y Sal (2006). Como Dizia o Mestre, samba-canção dos anos 70, de Benito di Paula, ganha uma roupagem contemporânea para ‘o fim da valentia de um homem quando a mulher que ele ama vai embora’. A bela De um Jeito ou de Outro, música presente no trabalho solo de Marcelo Bonfá, lançado no início dos anos 2000, fala da relação afeto x distância e talvez seja uma das melhores faixas do trabalho. A Pobreza (Paixão Proibida) é mais uma regravação – conhecida na voz de Leno, que fazia dupla com Lilian na Jovem Guarda – e aponta para as dificuldades amorosas entre as classes sociais. Seu Tipo, a mais radiofônica da obra, é uma parceria com a cantora Pitty, e aborda, provavelmente, o estilo Fernanda Takai de ser. Se You and Me and the Bright Blue Sky – única canção em inglês presente no álbum –, celebra o espírito folk e encarna o ponto de vista de um cão, Mon Amour, Meu Amor, Ma Femme, dueto com Zélia Duncan, une o ‘jeito de menina’ de uma e ‘o gosto de mulher’ de outra e traz um trecho incidental de La Vie en Rose, de Edith Piaf, talvez para glamourizar a música originalmente brega de Reginaldo Rossi.

Fernanda Takai / Foto: Bruno Senna

 

A baladinha inédita e melancólica Quase Desatento, parceria com Marina Lima para o poema de Climério Ferreira, avisa que ‘será preciso se engajar no amor/sentir saudade, alguma dor’. A grande surpresa fica a cargo da canção-catequese eternizada na voz de Padre Zezinho, Amar Como Jesus Amou, onde Fernanda divide os vocais com Padre Fábio de Melo, numa versão eletrônica – que mais parece trilha de videogame – comandada pelo produtor japonês Toshiyuki Yasuda. A doce Liz, canção do repertório do Trio Ternura, fala da mesma ausência provocada por Partida (vou, quanto mais eu vou/menos mal fica a vida sem você). Em Pra Curar Essa Dor, versão de John Ulhoa para Heal The Pain, de George Michael, Fernanda faz dueto com seu pseudo-conterrâneo Samuel Rosa. A propósito, a faixa acabou de ganhar um clipe com cenas das gravações no estúdio do Pato Fu. A densa Depois que o Sol Brilhar (Mary), encerra o álbum ao som de violinos e melodia inspirada em And I Love Her, dos Beatles.

Lançado em março – a linguagem gráfica do encarte é um deleite à parte: apresenta um quê de realismo fantástico e exprime o ecletismo das canções –, distribuído pela Deck Discos e patrocinado pela Natura Musical, Na Medida do Impossível firma Fernanda Takai como uma das grandes vozes femininas da MPB em paralelo a sua carreira à frente do Pato Fu. Se no título do álbum a artista sintetiza a dificuldade em realizar uma ‘obra dos sonhos’, reunindo nomes tão distintos, na realidade, ela conjuga o verbo experimentar de maneira bastante peculiar e positiva. Como confidencia em seu site (que, aliás, disponibiliza o áudio na íntegra): ‘Tudo à primeira vista parece meio caótico musicalmente, mas foi pelas arestas que encontrei o encaixe de mundos tão distintos. Não pelo insólito’. Feliz ela já está.

 

 

 

Larissa Mendes, na medida do possível, compartilha do mesmo jeito takainiano e meigo de ser.

 

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92ª Leva - 06/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

BOOGARINS – AS PLANTAS QUE CURAM

 

No dicionário, o termo lisérgico remonta a algo que tem a propriedade de alucinar ou explorar os recursos da imaginação. Da mesma forma, poderia ser aquilo que se torna passível de descortinar outros estágios da consciência. Com isso, cenários alternativos se configuram rompendo a barreira da materialidade e sugerindo ambientes nos quais o ato de transcender é uma das principais vias de percepção.

Em meio ao contexto do rock, a atitude lisérgica sempre esteve relacionada à capacidade de se percorrer outras terras através da música. A possibilidade de experimentar níveis diferenciados de entendimento das coisas marcou toda uma geração e até hoje vem deixando seu legado vivo. No caso da banda Boogarins, esse sentido de permanência fica bem evidente. Munidos por arranjos e letras que apontam para um caminho amplamente psicodélico, essa trupe de artistas goianos aposta vigorosamente na densidade de suas incursões sonoras.

É só colocar o disco para tocar que logo nos deparamos com um cartão de visitas bem representativo do espírito da banda. Trata-se de Lucifernandes, canção que evoca a transformação de uma visão pessoal de mundo para uma fase de clareamento das ideias. Por aí, já se pode supor o que está por vir na sequência das faixas. E o fluxo segue preciso até Erre, verdadeira viagem ao centro do eu, num movimento de revelações que atestam que a existência nem sempre nos direciona boas notícias.

Da combinação de verbos e arranjos, resulta um agregado de sentimentos que não se dispõem de forma desordenada. Pelo contrário, As plantas que curam pode ser visto como uma tentativa de dar algum sentido ao caos que assoma nossos dias. Esse movimento de sensações parte primeiramente das esferas íntimas do ser para depois se amalgamar ao mundo que nos desafia com seus vastos contrastes.

Boogarins / Foto: divulgação

 

Algumas influências são bem perceptíveis no álbum. Sem dúvida alguma, paira no ar uma atmosfera que ressoa tanto a Beatles quanto a Mutantes. E isso fica apenas no terreno das inspirações mesmo, pois a Boogarins consolida sua própria personalidade, reprocessando os estímulos valiosos e transformando-os na sua genuína forma de ver o mundo e imaginar-se além dele. Como toda boa viagem pressupõe algum sentido de brevidade, não poderia ser diferente com o disco. Afinal, são apenas seis faixas que, após consumadas, nos deixam com a impressão de que as palavras não se diluem na exiguidade temporal da vida.

Mesmo com o meteórico repertório, o álbum é feliz pela sua fundamental capacidade de síntese. Com letras que trazem o colossal desafio de dar significado a percepções diversas, aos poucos vamos sentindo que o efeito do disco é contínuo, ou seja, mesmo que os sons encerrem seu trajeto, as canções têm um poder de permanecer na mente de quem as escuta e lá causarem desdobramentos.

Formada por Fernando Almeida Filho (voz e guitarra), Benke Ferraz (guitarra e voz), Raphael Vaz (baixo) e Hans Castro (bateria), a Boogarins também navega por mares filosóficos no teor inteiramente autoral de suas composições. Exemplo disso está na faixa Infinu, a qual denota uma vontade de também abraçar o universo das coisas com o ímpeto de desfrutar de tudo em doses terapêuticas, sem freios morais nem tampouco juízos pré-concebidos. O grupo investe pesado na incursão pelos sentidos, celebrando uma harmonização entre corpo e alma, e enaltecendo um exercício de transcendência.

Curiosamente, a banda é mais conhecida fora do que dentro do país e sua agenda de shows por lugares como os Estados Unidos e a Europa é algo intensa. No entanto, não cabe aqui lamentar por ainda haver um espaço discreto de atuação da Boogarins em seu próprio habitat, mas sim levar em consideração que isso, mais cedo ou mais tarde, deverá acontecer. Afinal de contas, quem tem algo tenaz a dizer afugenta sabiamente o esquecimento.

 

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

NAÇÃO ZUMBI – NAÇÃO ZUMBI

 

 

Veias, coração, desejos, legado. O trecho de Cuidado, faixa do oitavo álbum da Nação Zumbi parece sintetizar a capa e o sentimento presente no mais recente trabalho da banda. Vinte anos depois do icônico Da Lama Ao Caos (1994), o sexteto pernambucano afaga as cicatrizes deixadas pela prematura morte de seu idealizador Chico Science, em 1997, e lança um disco calcado nos primórdios do manguebeat. Com uma roupagem solar e dançante, Nação Zumbi (2014) traz 11 faixas inéditas, depois de um intervalo de 7 anos desde Fome de Tudo (2007) – hiato este marcado por projetos paralelos de seus integrantes, pelo lançamento do DVD Ao Vivo no Recife (2012) e do duelo Mundo Livre vs. Nação Zumbi (2013), no qual a trupe comandada por Fred 04 canta músicas do grupo de DuPeixe e vice-versa.

Produzido por Kassin e Berna Ceppas, o conceito do novo álbum parece inspirado na passionalidade narrativa de Nelson Rodrigues. Isso talvez explique a visceralidade que permeia toda a obra. A matriz manguebeat eternizada por Science é mantida, porém, vez ou outra, pop e rock se fundem de maneira exótica, o que pode causar certa estranheza aos fãs mais radicais, ávidos pelo compasso dos tambores. Como frisou o vocalista em uma entrevista, ‘é um caminho diferente para a mesma casa’. Distribuído pelo selo Natura Musical/SLAP (Som Livre), o trabalho está disponível em diversas plataformas digitais, incluindo o canal oficial da banda no YouTube. Todas as composições são assinadas por Jorge DuPeixe (vocais), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Pupillo (bateria) e pelos percussionistas Gilmar Bola 8 e Toca Ogan.

 

Nação Zumbi / Foto: Divulgação

 

Cicatriz, faixa de abertura e primeiro single do disco, fala das marcas estampadas na derme da nossa vida (fica bem desenhado só pra ser bem lembrado/risco do erro malvisto, malquisto e mau-olhado). Os versos crus de Bala Perdida relatam a fração de segundo que separa a vítima do sobrevivente (vi quando você passou/pra se esconder em outro alguém/senhora bala, me deixe passar/logo eu que sou pacífico/senhora bala, me dê licença/eu não sirvo pro seu destino não). Defeito Perfeito tem uma levada funk e os sempre potentes riffs das guitarras de Lúcio Maia. O Que Te Faz Rir ensina, entre outras coisas, a manter ‘a leveza num dia de cão’ e conta com os backing-vocals de Laya Lopes (cantora da banda cearense O Jardim das Horas) e de Lula Lira, filha de Science.

As três canções seguintes compõem o momento mais suave do álbum. A primeira delas é a ‘ciranda que não para’, A Melhor Hora da Praia, balada com arranjos de cordas e participação de uma onipresente Marisa Monte. A cereja do bolo (ou o caranguejo do mangue) fica a cargo da onírica Um Sonho (estão comendo o mundo/ pelas beiradas/roendo tudo/quase não sobra nada), onde DuPeixe empresta toda sua verve melódica, até então pouco explorada, para cantarolar sobre um doce devaneio. Os versos de Novas Auroras (feliz pelo que ainda não veio/saudades do que nem foi/esperando o melhor dos agoras/nem temos o antes e já queremos o depois) encerram o bloco analisando nossa insatisfação com o tempo, ou com o ‘Hoje, Amanhã e Depois’, parafraseando a canção de Futura (2005).

Se Nunca Te Vi (vivo na promessa de encontrar você/me perco na incerteza disso acontecer) aborda a busca por alguém idealizado, a intensa e belíssima Foi de Amor – já presente em shows da banda antes do lançamento do álbum, inclusive em sua apresentação na edição brasileira do Lollapalooza deste ano –, compara o amor a ‘uma droga mais que letal/quando não mata, aleija/faz esse temporal/não tem nem contraindicação/dependendo da dose/acelera e racha o coração’. As sirenes de Cuidado (quando você não ouve seus passos/você perde o chão) anunciam uma espécie de indie-rock preventivo que deságua na explosiva Pegando Fogo, encerrando o álbum com todo o amor e fúria dos mangue-boys.

É bonito de ver que, duas décadas depois, como profetiza Mateus Enter, faixa que abre Afrociberdelia (1996), o coletivo permanece ‘com Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão’, fazendo um som vibrante, renovado e sem síndrome de underground. E se ‘você dá um passo à frente e não está mais no mesmo lugar’, nada mais justo que todos os caminhos levem à Nação Zumbi.

 

 

Larissa Mendes é uma mangue-girl do oeste catarinense.

 

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90ª Leva - 04/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – VISTA PRO MAR

 

 

‘(…) Basicamente é isso. “Vista pro Mar” surgiu numa tarde ensolarada em uma piscina – como se fosse um caso de amor adolescente, daqueles que nos rende um ano de dor de cabeça criativa… E terminar um disco é como reencontrar aquele amor adolescente anos depois, mais velha, mais madura e bonita e pensar: “Acho que vou chamá-la pra sair”’. (SILVA)

 

Se depois da tempestade vem a bonança, podemos dizer que depois de Claridão, vem Vista Pro Mar. O denso e minimalista álbum de estreia do cantor e compositor Lúcio Silva Souza – ou simplesmente SILVA – tem como sucessor um conjunto de canções otimistas e ensolaradas. O músico capixaba de formação erudita continua mesclando MPB com bases eletrônicas e versando sobre o amor e suas vertentes, de maneira que se confirmam todas as expectativas em si depositadas como o novo nome da música nacional. O artista continua também dividindo a parceria das canções com o irmão Lucas Silva, seu letrista predileto. Gravado em Portugal, as onze faixas de Vista Pro Mar possuem 48 minutos de duração e soam muito mais orgânicas do que as canções de Claridão (2012), disco gravado praticamente de modo artesanal e solitário.

Produzido pelo próprio músico (e com uma bela arte gráfica), o álbum foi revelado aos poucos, antes do lançamento oficial, através de quatro singles: Janeiro, É Preciso Dizer (que ganhou clipe rodado entre França e Portugal), Universo e Okinawa, parceria com Fernanda Takai. Mais melódico, coeso e com menos manipulação eletrônica, Vista Pro Mar reafirma o processo de amadurecimento do artista e propõe certa reinvenção precoce: SILVA poderia repetir o óbvio experimentalismo para burlar a síndrome do segundo disco, mas não, a densidade do álbum de estreia agora dá vazão a momentos elaboradamente despretensiosos. Disponível no iTunes, o registro físico foi lançado em abril pelo selo SLAP, braço independente da Som Livre. No mesmo mês, SILVA apresentou-se no Palco Ônix, na 3ª edição do Lollapalooza Brasil e prepara-se para tocar no Rock in Rio Lisboa, em maio.

 

Show de SILVA no Lollapalooza Brasil 2014 / Foto: Eduardo Magalhães

 

Um trio de metais em Vista Pro Mar, canção-título, abre o álbum com otimismo e valentia, anunciando que ‘não há mais maré baixa em mim’ e que ‘eu sou de remar/sou de insistir/mesmo que sozinho’, para em seguida declarar (-se), na melódica new age de É Preciso Dizer, que ‘esse mar já deu ’ (é preciso dizer/quando olhas assim/uma coisa me atropela/dentro o peito). A irresistível Janeiro e seus instrumentos de sopro mantêm uma cadência festiva numa típica história de amigo que gosta da amiga, tem medo de perder a amizade, mas não aguenta mais calar o sentimento (justamente no mês em que é sempre tempo de [re]começar). Entardecer possui um clima praiano de pôr-do-sol, com o barulho das ondas e um pseudo-reggae no final, que informa que ‘pra nós/não é questão de sorte’ e ‘o que há de ser/sim, será’. Okinawa, dueto com Fernanda Takai, apresenta um tom acústico-oitentista e o refrão adverte sobre a fragilidade das relações (faz chuva, esconde o horizonte/a cada vez que você não vem/não vale se amar tão de longe/é de perto que a gente se faz um bem).

A segunda metade do álbum destaca o pop dançante de Disco Novo (já amei, amei/também já desanimei/insisti em não lembrar/depois lembrei), candidata a hit e talvez a melhor canção do álbum. Se Universo aborda um mundo particular entre duas pessoas que não precisam ‘fazer tipo’ (o que eu quero/é sua companhia/o restante a noite faz), Volta (quem é de mim não se esconde/nem recusa o meu olhar), e seu quase assobio eletrônico-oriental, fala de um provável regresso. Na sequência, a romântica Ainda – bossinha com canto de pássaros – contrasta com a malemolência de Capuba. Maré encerra o disco com a mesma satisfação que um belo dia se despede nas areias, com os aplausos dos súditos ao astro-rei. Em dias nublados de verão ou ensolarados de inverno, definitivamente SILVA é som de todas as estações. É amor que sobe a serra.

 

 

Larissa Mendes gosta mesmo é de sombra e água fresca.

 

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89ª Leva - 03/2014 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

ARNALDO BAPTISTA – SHINING ALONE  (AO VIVO  1981)

 

 

Em 1981, o ex-Mutante Arnaldo Baptista realmente andava só, mas não se pode dizer que ele brilhava tanto assim para os olhos do grande público, que ignorava suas andanças e incursões musicais por aí. Após gravar o seminal Lóki em 1974 (disco que passou em branco na época e que a partir dos anos 90 viraria objeto de culto) e montar a banda Patrulha do Espaço, que bateria ponto no underground paulistano durante os anos 80 mesmo sem seu fundador, Arnaldo tentou uma reciclagem pessoal e profissional no Rio de Janeiro. Durante sua temporada carioca, tocou com os então iniciantes – e desconhecidos – Lulu Santos e Lobão, e gravou com gente como Walter Franco e Guilherme Arantes.

Essas experiências não trouxeram para Arnaldo seu reencontro com as plateias que lotavam ginásios na fase áurea dos Mutantes, mas ajudaram a gestar parte de seu mito e culminaram no seu retorno a São Paulo, onde foi registrada uma de suas apresentações solitárias no Teatro da (Pontifícia) Universidade Católica de São Paulo, o TUCA, que finalmente vieram a público – oficialmente – no final de 2013, no álbum digital Shining Alone.

Munido apenas de um piano elétrico, de um simulacro de órgão Hammond (“coisa de americano”) e de um violão (“o que rima com violão? Tesão…”), é um Arnaldo em estado bruto, despido de qualquer produção ou dos experimentalismos da sua época mutante ou mesmo do hard rock da Patrulha do Espaço. Surge aqui o Arnaldo motociclista (Ai Garupa, que seria regravada no álbum Let It Bed, mais de vinte anos depois), remanescente de sua viagem até o Panamá, a bordo de uma BMW 1951, e o caronista na Europa (Sentado ao Lado da Estrada). Voltando mais ainda no tempo, há o garoto que teve aulas de piano clássico com a mãe, concertista, que não tem o menor constrangimento de tocar a Marcha Turca de Mozart ou um movimento dos Concertos de Brandeburgo de Bach em um suposto show de rock.

 

Arnaldo Baptista / Foto: Grace Lagoa

 

Vai de Mozart e Bach a Bob Dylan (Don’t Think Twice, It’s Allright – onde comete a molecagem de responder o trecho da letra que diz “it ain’t no use in callin’ out my name” com um “Arnaldo!”) e Rolling Stones (Honky Tonk Women), passando por standards norte-americanos como Cry Me A River, curiosamente gravado por sua ex-parceira Rita Lee em seu Bossa’n‘roll de 1991. Rita, aliás, também é lembrada numa versão comovente de Ovelha Negra, como se não bastasse ela ter sido a destinatária de canções como Te Amo Podes Crer. Todo esse caleidoscópio musical estranhamente nada tem do repertório dos Mutantes, exceto a engavetada O A e o Z (“uma marcha guerreira”), aqui em versão instrumental e abreviada, que só viria a público nos anos 90.

Em que pese seu notório sofrimento e a insalubridade do ambiente musical que Arnaldo vivia naquele final dos anos 70 e começo dos 80, pré-explosão do rock brasileiro, fica aqui um registro imprescindível da melhor fase artística do mutante, fundamental para conhecer não só o artista, mas o homem. No caso de Arnaldo Baptista, essa distinção praticamente não existe, sendo alguém que fundiu sua história com sua arte até as últimas consequências (e pagando um preço alto por isso), como raras vezes se vê.

 

 

Rogério Coutinho é malandro velho e não se mete no enguiço.