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88ª Leva - 02/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO – 2 e ½ – VOZES INVISÍVEIS

 

 

Inventariar fragmentos da memória, esta ciranda de lembranças que recende a pó da estrada. No meio do trajeto, também não se deve esquecer de cultivar raízes e frutos duma cumplicidade. Se a vida é feita de momentos compartilhados, os sentidos da amizade revelam muito mais do que meras marcas do tempo. É o gosto primevo das coisas quem deixa a face de coadjuvante e atua com destaque no palco duma existência que pode ser mais leve do que se supõe. Mas por que carregar mais fardos do que suportamos quando nada na vida pode ser mais urgente do que apenas respirar os instantes?

Talvez o parágrafo acima ouse definir uma pequena parte do ambiente de sensações que pairam pelo mais novo disco do grupo Graveola e O Lixo Polifônico. Tal como a vida nem sempre nos dá a chance de reescrevermos através das suas vacilantes linhas, assim o é quando vivemos saboreando o gosto incerto dos esboços. E esse sentimento de permanente incerteza parece reinar nos arremates poéticos do álbum 2 e ½ – Vozes Invisíveis. Certo mesmo é que em seu quarto disco, os mineiros da Graveola depositam suas impressões sutis sobre o tecido inexplicável dos dias sem buscar razões que se dignem a qualquer tipo de exatidão.

Se a própria vida jamais será uma equação matemática, é porque os caminhos não formam desenhos lógicos. E como saber disso nos serve de alento para continuarmos respirando sem os achaques científicos. Definitivamente e em matéria de sentimentos, a orientação meramente cartesiana das coisas é algo pronto a ser repelido. Assim, ao ouvirmos as composições musicadas da Graveola, temos a mínima noção de que estar no mundo é, acima de tudo, reverberar os acordes dissonantes dos devaneios que nos acometem por todos os cantos da mente. Para cada ouvido, uma experiência de percepções próprias se instala. E é justamente isso que faz de 2 e ½ um disco incompatível com bulas e manuais de instrução.

 

Graveola e o Lixo Polifônico / Foto: Flávia Mafra

 

A julgar pela escolha do título, o álbum já nos traz certa atmosfera de provocação e algum questionamento, pois as ações humanas, travestidas que estão pelo jogo das emoções e das ínfimas certezas, cabem num espaço de incompletude absurdamente colossal. É nesse momento que o novo trabalho da Graveola ganha proporções que flertam com traçados existencialistas.

As vozes invisíveis da banda evocam uma poesia que se situa no plano das ruas, dos becos errantes ou em sinas mergulhadas na rotina do tempo. Ao passo que revisitam afetos compartilhados, cantam a saudade, a transformação dos caminhos, as escolhas, o lado sublime das coisas e o gosto incessante pelo mistério. Numa tentativa de autodefinição, o próprio grupo se considera uma comunidade em movimento, repleta de investidas não necessariamente finalizadas. Pelo somatório de cenários, conduzidos pelos laços das afinidades em vida, fica a impressão de que ouvimos a expressão moderna de um outro clube da esquina.

Da escuta de faixas como Vozes Invisíveis, Cafeína, Canina Intuição, Escadaria, Maquinário e Da Janela, percebe-se que os caminhos percorridos não são nada uniformes. Refletem elementos rítmicos e melódicos bem típicos duma brasilidade carregada de pluralidade sonora. Assim, vocais e instrumentos estão a serviço de um verdadeiro mosaico de intenções puramente comprometidas com um certo ímpeto de acolher a porção sublime e indescritível da vida. Noutros momentos, há referências explícitas ao legado da MPB, como é o caso da canção Envelhecer, que entoa um “preciso aprender a ser só”, frase presente na composição dos bossanovistas Marcos e Sérgio Valle.  Em a Lenda do Homem Pássaro, há um pungente sentido de reflexão sobrevoando resultados de algumas escolhas nossas.

Quando o Graveola resume seu novo rebento como sendo fruto de andanças entre amigos, é porque o melhor significado é resultado direto e inexplicável da arte do encontro. A despeito de se levar em conta a capacidade que temos de alimentar o jogo das complementaridades, reconhecemos que a inteireza do ser não passa de uma quimera. Entramos e saímos dos inefáveis cenários da existência sem ocuparmos todos os espaços eterna e teimosamente vazios. A vida não passa de uma obra em construção.

 

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87ª Leva - 01/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TONO – AQUÁRIO

 

A possibilidade de ressignificar estados da alma é uma das grandes benesses proporcionadas pela música. No caso da banda carioca Tono, isso parece ganhar um sentido ainda mais amplo. Basta observar a trajetória do grupo para perceber que os caminhos sempre estiveram voltados ao modo sublime de olhar e sentir as coisas da vida. Em Aquário, mais novo trabalho da banda, prova-se não somente do sabor dos temperos do tempo, que só fez bem aos músicos, mas principalmente da afirmação de um jeito muito particular e consistente de se fazer música.

A moçada da Tono chega a seu terceiro rebento sendo fiel a tudo o que fez até aqui.  Ressalte-se, sobretudo, a força autoral de letras e músicas, traço marcante deles. E tudo ali se harmoniza favoravelmente ao conjunto da obra. O que se vê nas onze faixas do disco é uma verdadeira profusão de melodias, arranjos cuidadosamente pensados e um preciso equilíbrio entre vocais e instrumentos. O saldo disso é que cada canção, além de possuir roupagem própria, funda em si um microuniverso de sensações. São mundos num mundo, fazendo do disco um organismo único, porém com onze momentos autônomos.

O jeito suave e delicado da voz de Ana Cláudia Lomelino é uma verdadeira marca da banda. E ela não está sozinha nesse quesito, pois a presença vocal do baterista Rafael Rocha, compositor de boa parte das canções, é outro ponto de destaque. Diga-se de passagem, os dois artistas já são fiéis representantes da proposta sensível e poética da trupe carioca. Só para se ter uma ideia da sintonia musical dessa dupla, prestemos atenção no modo como eles passeiam sublimes pelas vias delicadas da bela Sonho com Som, canção que discorre tanto sobre levezas quanto densidades do amor.

Pelos quatro cantos do disco, fala-se de amor e outros tantos temas que absorvem a natureza humana sem, no entanto, pesar a mão nas questões da alma, o que fatalmente poderia tornar mais labiríntica a tarefa da banda, com sérios riscos de algo essencial se perder no caminho. Para a felicidade de quem aprecia a boa música, os rumos aqui não se desorientam. Ao contrário, observa-se a vida sem deixar que a consciência das coisas se atole num fundo de poço qualquer.

Tono / Foto: divulgação

Por ser um álbum completo em todos os seus arredores, é bem ingrata a ideia de eleger faixas que se destacam em Aquário. Instantes como os de Murmúrios, Como vês, Leve e Do Futuro (Dom) dão uma boa mostra da viagem musical vislumbrada pelo grupo. Diluído pelo jogo sonoro das palavras em Tu Cá, Tu Lá, emerge um caminho feito de ímpetos filosóficos. Merece também atenção a roupagem especial dada à canção Chora Coração, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aqui, a banda trouxe sua identidade para interpretar e viver a música do maestro soberano. Nesse sentido, a composição ganhou novo ambiente, mantendo a carga lírica que lhe é peculiar.

A flauta de Danilo Caymmi (Sonho com Som e Como Vês), a percussão de Gustavo Di Dalva (Leve e Do Futuro) e a voz e violão de Gilberto Gil (Da Bahia) acrescentam um ingrediente a mais no consistente caldo sonoro de Aquário. Marcado por elementos do rock, jazz, samba e música eletrônica, o álbum conta com a produção do experiente Arto Lindsay.

Pensar o disco é imaginar uma morada onde coabitam versos, sons e imagens dotados de uma estética pura e que prima por um sentido descomplicado para celebrar a existência.  Assim, pegando o gancho da canção A Cada Segundo, tudo pode se condensar num único e fugidio instante, inclusive nossa mais tímida percepção da beleza. Ana Cláudia, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo, Bem Gil e Eduardo Manso são valiosos mensageiros dessa ainda espantosa constatação.

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GAL COSTA – RECANTO

 

 

 

 

A voz atravessa uma alameda de aparatos eletrônicos. Insere-se no outro lado de um mundo imerso em tantas e tamanhas reflexões. O que está por trás de seu canto revela-se como uma intensa ciranda de perguntas. Mas poucas são as respostas quando sabemos que tudo acontece diante de nossos indomáveis olhares e percepções. Definitivamente, a modernidade é um vão onde alguns poucos se sentem à vontade para desfilar suas convicções. No entanto, Gal Costa, penetrando outras esferas do tempo e da canção, vem nos lembrar de alguma coisa que não sabemos bem onde se abriga. Seja numa porção obscura da memória ou no ato de flagrar o que explode em nossa realidade, o disco Recanto nos lembra que a vida é uma estrada teimosamente sinuosa.

Desde o início do álbum, somos impactados pela densa atmosfera duma abre-alas Recanto Escuro, restando prenunciado que tipo de percurso seremos levados a experimentar daí por diante. Como numa viagem carregada de signos múltiplos, o disco flui pelas vias hesitantes dos sentidos humanos. Um eixo filosófico cruza a obra de norte a sul. Talvez aqui um parêntese seja fundamental: considerar que as letras são todas compostas por um inquieto Caetano Veloso. E o ato de flertar permanentemente com os impulsos da modernidade parecem não apenas fazer parte das acepções do compositor baiano, mas também atraem Gal para um terreno pouco usual em sua carreira.

Esqueçamos, temporariamente, da Gal Costa acostumada a interpretar com os arremates puros da delicadeza para considerar que certas ousadias fazem bem a uma artista de trajetória inquestionável. E por que não dizer que Recanto é um disco ousado, forte e necessário?

Num tempo em que a globalização de nossas virtudes e misérias uniformiza até mesmo modos de pensar, o cenário pode ser um pouco menos desolador. Talvez, nesse aspecto, o disco de Gal chacoalhe ideias e pontos de vista buscando afirmar que, entre mortos e feridos, sempre restará algo por dizer. Munida com a armadura de sua magistral voz, ela cruza os áridos caminhos propostos pelo verbo de Caetano e confere um recorte insone à vida.

Não são poucas as canções que traduzem o espírito indócil presente no álbum. Faixas como Cara do Mundo, Autotune Autoerótico, Madre Deus e Segunda reverberam a constatação de que nosso tempo é um verdadeiro painel de imprecisões. Mas é em Tudo Dói que o todo se desnuda. Nela, um exercício de deslocamentos ganha corpo, demonstrando a unicidade dos momentos que ignoramos com certa frequência.

Não seria possível trilhar as vias da dita pós-modernidade sem cutucar a sociedade de consumo e suas clássicas distorções. É o que fica evidenciado em letras como Neguinho e Sexo e Dinheiro. Para ambas, Gal insinua sua verve afirmativa como quem pontua uma adequada crítica ao colossal modelo impregnado pelo capitalismo. Se nessas duas canções os ânimos estão mais ácidos, o contraponto vem da suavidade inserida em Mansidão, música que festeja o dom do cantar, sem dúvida alguma a ferramenta mais preciosa da artista. Noutro momento, ainda há espaço para o estreitar de laços entre o funk carioca e o maculelê, ritmos que se unem acertadamente em Miami Maculelê.

Recanto, sobretudo por sua proposta inovadora, não é uma obra fácil de se apreender numa primeira escuta. É necessário um mergulho mais aprofundado, algo que faça com que os ouvidos percebam as convergências e nuances entre texto, voz e arranjos. Diga-se de passagem, a atmosfera eletrônica é ponto de destaque no disco, evidenciando a alternância de sentimentos ali misturados. Mesmo saindo dessa viagem musical e poética constatando que “tudo dói”, ainda podemos ser atenuados pela singularidade das coisas que fingimos não ver.

 

 

 

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JENECI – DE GRAÇA

 

 

“De Graça é um espelho.
De um lado ele reflete você, de outro, o universo.
Que é como a gente, sem fim.
O De Graça aconteceu.
Como o sol, que não é meu, nem seu.
É nosso”.
(Marcelo Jeneci)

O melhor da vida é de graça. Sob essa tônica de ‘celebração 0800’ o multiinstrumentista Marcelo Jeneci acaba de lançar o sempre mítico segundo trabalho na carreira de um artista. E o herdeiro do bem sucedido Feito Pra Acabar (2010) apresenta-se como um álbum tropical, dinâmico e autobiográfico. Na contramão do hermetismo dos lançamentos nacionais de compositores da nova geração, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (aliás, se depender do visual atual, Jeneci seria facilmente confundido com um barbudo dos Hermanos), a verdade é que o paulistano nunca temeu parecer popular. E é assim que ele soa: leve e pop (jamais simplista) em pelo menos metade das 13 faixas inéditas que compõem De Graça (2013). Nas canções restantes, Jeneci mantém certa aura épica-intimista-melódica consagrada em seu disco de estreia, porém sem perder o tom esperançoso que envolve todo o repertório.

Curioso é o fato de o álbum manter esse astral mesmo sendo concebido após o fim de seu casamento. Por vezes, a temática e a própria sonoridade expõem certo sentimento de ruptura, mas tudo sem dramas ou pesares. É como se Jeneci tivesse profetizado que amores têm prazo de validade pré-determinado (a gente não é feito pra acabar?), mas colocasse em prática toda a filosofia de auto-ajuda de Felicidade, carro-chefe de seu primeiro disco. Assessorado por velhos (Arnaldo Antunes e Kassin, que produziu Feito Pra Acabar e dessa vez assina a produção junto com Adriano Cintra) e novos parceiros (Eumir Deodato e Isabel Lenza, atual namorada, com quem divide as composições em 6 faixas), De Graça foi contemplado pelo Programa Natura Musical e está disponível em streaming no site do artista. Já o álbum físico será lançado em novembro pelo selo Slap (Som Livre).

 

Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação

 

A deliciosa e radiofônica Alento e seus versos de consolo (se alguém se for, não tente entender/o que se passou segue com você) abrem o álbum apontando o lado bom de todo revés e avisa que ‘tudo se desestrutura pra você se estruturar’. Espécie de baião eletrônico, De Graça, primeiro single e canção que dá título ao trabalho, mantém o ritmo frenético e indaga: ‘sentir o sol te acordar, bem de manhã, quem acha pra comprar?/viver na pele um grande amor e o seu calor, quem acha pra vender?’. Ironicamente, Temporal fecha o primeiro bloco de canções mais ensolaradas, não sem antes anunciar seu arco-íris otimista (o que tem começo, tem meio e fim/deixa passar o dia ruim/que a tempestade resolve com Deus).

Nas melódicas Tudo Bem, Tanto Faz (letra de Arnaldo Antunes) e Pra Gente Desprender, quem assume completamente os vocais é a doce Laura Lavieri, cantora que já acompanha Jeneci desde o primeiro álbum. O cantor reassume os microfones no pop-rock de Nada a Ver, que fala de um amor que já não se pode disfarçar, e de Sorriso Madeira, onde afirma estar em extinção e propõe plantar no quintal ‘um pé de nós dois’. A psicodelia de A Vida é Bélica (tire a distância entre você e eu/sejamos um/sejamos Deus) lembra Os Mutantes, enquanto a despretensiosa Julieta (você não sabe ler/uma carta de amor/muito menos contar/quantas silabas têm/uma desilusão), balada sessentista, poderia tocar no bailinho pré-trocadilho de Genival Lacerda.

Os versos de O Melhor da Vida reiteram a intensidade de nossa existência (sinto que o melhor da vida sempre vem de graça/sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar/e que dura toda a eternidade/e isso é só pra começar). A majestosa Um De Nós (um de nós/vai sentir a falta/de um de nós) fala do caráter insubstituível de um grande amor e têm os mais belos arranjos do pianista Eumir Deodato, que assina também a orquestração de outras quatro canções. Composta para a trilha de Vila Sésamo, a graciosa Só Eu Sou Eu (tem muita gente tão bonita nessa terra/nas minhas contas são 7 bilhões/mais eu) é praticamente uma cantiga de roda com direito a burburinhos e gargalhadas infantis. O lirismo e a introspecção ficam a cargo de 9 Luas, faixa soturna que encerra o registro e remete a um comportado Ney Matogrosso.

Nestes três anos que separam primeiro e segundo álbum, definitivamente Marcelo Jeneci amadureceu (e emagreceu). A feição de bom moço agora dá lugar a certo ar de mistério e de um charme desleixado. A temática sentimental/existencial está presente nos dois registros de estúdio e, de forma discreta ou não, a sanfona continua assumindo sua importância. No entanto, agora, a sonoridade jeneciana assume um novo groove e suas composições estão ainda mais seguras. Se Feito Pra Acabar era considerado brega, De Graça virou indie e está um barato. E ache graça quem quiser achar.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é sua graça. E, escrevendo, tenta levar a vida em estado de)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

RODRIGO BEZERRA – TEMPO ILUSÃO

 

 

 

Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.

Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.

Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.

Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.

 

Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani

 

Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.

Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.

Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.

 


 

 

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82ª Leva - 08/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rodrigo Melo

 

JAIR NAVES – E VOCÊ SE SENTE NUMA CELA ESCURA, PLANEJANDO A SUA FUGA, CAVANDO O CHÃO COM AS PRÓPRIAS UNHAS

 

 

 

Jair Naves é um sujeito magro, de nariz grande e olhar perdido que, ao vê-lo na rua, você provavelmente ficará a imaginar que é mais um órfão de Ian Curtis ou Kurt Cobain, um desses rockers que perderam o bonde, mas mantém a pose, o jeito um tanto tímido e enigmático no caminhar. Há uma porção por aí, e eles passam as tardes zanzando de um lugar para o outro, fumando cigarros, olhando as coisas, criando teorias sobre como tudo poderia ter sido se seus ídolos não tivessem morrido. Jair, entretanto, embora pareça, não é um desses órfãos, tampouco perdeu o bonde para algum lugar. Circulando há um bom tempo pela dita cena alternativa nacional, a primeira vez que soube dele foi através da banda Ludovic. Lançaram dois discos muito bons, cultuados hoje, com um hardcore de primeira linha, sem frescuras, por alguns alcunhado de hardcore pé de cana – em cima do palco, e ele era o frontman, o seu jeito retraído desaparecia, como se assumisse outra personalidade ali. Antes da Ludovic, participou, ainda, como baixista no último disco da Okotô, outra banda de destaque.

As bandas, no entanto, acabaram, e Jair sumiu.

Em 2010, ouvi falar dele outra vez. Ensaiava uma carreia solo. O nome do ep era Araguari, e há toda uma história sobre a escolha desse nome. Araguari é, na verdade, a cidade mineira em que Jair nasceu. Em 1967, Luís Sérgio Person dirigiu o filme “O Caso dos Irmãos Naves”, que contava a história de Sebastião e Joaquim Naves, parentes distantes do nosso rocker, acusados, presos, e torturados por um crime que não cometeram. O filme foi premiado, a história ganhou destaque e um dia, muitos anos depois, chegou às mãos de Jair. Identificando-se com o filme, ele viveu um tipo de resgate, usando a história e lembranças que tinha da cidade como alimento para voltar a criar. Numa das músicas, Araguari I(Meus Amores Perdidos), ele diz: “As lembranças que guardo de Araguari/ Resumem-se ao dia em que fugi/ Caçado de perto por uma multidão/ Decidida a fazer justiça com as próprias mãos”. Entre uma faixa e outra do ep, trechos de áudio do filme de Person.

Um ano depois, ele lançou o single “Um Passo por Vez”.

 

Jair Naves / Foto: Divulgação

 

Mas vamos a 2012, é por isso que estou aqui. Foi neste ano que saiu o disco E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas. Quase ninguém mais consegue, ou pelo menos tenta, títulos assim. Pensei que era ousado, sobretudo por flertar, perigosamente, com o lugar comum. Um monte de gente já sucumbiu a esse ardil. Mas devo dizer que, quando se é honesto e o sujeito gosta do que faz, os riscos diminuem. E o disco de Jair é bastante verdadeiro, dá para saber logo nos primeiros minutos de audição. Com uma pegada mais leve, mas ainda assim densa, o disco é cheio de melancolia e de um tipo de desespero contido, as músicas iniciando-se e acabando como se estivessem de mãos dadas, uma ligada à outra, por vezes transparecendo influências (de Wander Wildner, ao folk, pós-punk e algumas bandas dos anos oitenta), só que com uma atmosfera contemporânea e por demais particular, sem, justamente por isso, soar datado ou como se fosse alguma repetição. Sem perceber, você aos poucos se acostuma àquela toada de trovador perdido que Jair tem.

Outro fator que diferencia o disco são as letras. Mesmo quando fala de assuntos comuns, como amor e desilusão, seu jeito de tratar o tema chega a ser em alguns momentos literário, não se contentando em apenas rimar ou agradar. Um exemplo disso é a letra da música A Meu Ver: “Então me recebe/ Como eu te receberia/ No melhor dos momentos/ Ou no pior dos seus dias/ Estou tão esgotado/ Tudo é frágil demais/ Posso não estar aqui/ Quando olhar para trás/ Então hoje me abraça/ Como eu te abraçaria/ No pior dos seus dias”.

Ian Curtis, tudo faz crer, gostaria disso aí.

E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas é um disco que vale ser conferido. Talvez não te encante logo de cara, ou do jeito que me encantou. Meu conselho é este: escute algumas vezes mais, depois a gente conversa novamente.

No mesmo ano, 2012, Jair Naves ganhou o prêmio Revelação da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, e foi considerado um dos mais talentosos e promissores compositores de sua geração.

Ele é aquele sujeito do início: tímido e narigudo, de jeito meio enigmático ou estranho, que, ao passar por você na rua, talvez olhe para o chão.

 

 

(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo. Recentemente, integrou a coletânea de contos 82 – Uma Copa l Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo)

 

 

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


WADO – VAZIO TROPICAL

 

 


Não seria exagero afirmar que o cantor e compositor Wado tem o mesmo atrevimento daquele [quase] homônimo falecido que o separava por uma letra ene. O catarinense radicado em Alagoas entrega-se à variedade rítmica e poética com a mesma paixão de um colecionador excêntrico. A voz metálica que já derivou álbuns de sonoridades diversas e títulos criativos, como O Manifesto da Arte Periférica (2001), Cinema Auditivo (2002), A Farsa do Samba Nublado (2004), Terceiro Mundo Festivo (2008), Atlântico Negro (2009) e do elogiado Samba 808 (2011), assume agora um tom delicado, melódico e, por que não, mais acessível. Lançado em junho, Vazio Tropical é fruto do Festival MPTM (Música Para Todo Mundo), promovido em 2012 pela Oi, que premiou quatro artistas com a gravação de um disco físico pelo selo Oi Música (os outros contemplados foram Bárbara Eugênia, com É O Que Temos; Nevilton, com Sacode e Pedro Morais, com Vertigem). Produzido por Marcelo Camelo – que tocou vários instrumentos no álbum e já havia colaborado na faixa Com a Ponta dos Dedos, em Samba 808 – e abarrotado de convidados, o sétimo trabalho de Wado evoca um sentimento bem próximo ao do título sugerido e da ‘doce solidão’ já proposta pelo eterno hermano.

A primeira faixa, a bela Cidade Grande, abre o álbum tecendo uma crítica social à nossa própria trivialidade (e segue os mendigos nas multidões/já são tão normais que nem mais emocionam). A canção seguinte, Rosa, parceria com o músico Cícero, ensina que, como quase tudo na vida, ‘vai doer, mas depois vai passar’. O lirismo fica a cargo de Canto dos Insetos (co-autoria de Cícero e Momo) e Flores do Bem, única canção não-autoral, assinada inteiramente por Momo. Em Carne, Wado faz dueto com o uruguaio Gonzalo Deniz, do projeto Franny Glass e discorre sobre a iguaria em todas as suas acepções (me chamam carne dentro do açougue/me chamam carne, temos açoite).

 

Cícero, Wado, Marcelo Camelo e Momo / Foto: Divulgação

 

A ciranda Quarto Sem Porta, faixa mais ensolarada e suingada do álbum, tem a discreta participação [e a risada] de Mallu Magalhães (pra um casal um quarto sem porta é mais que um tormento/como qualquer visita depois de um certo tempo). Zelo e Tão Feliz são, indiscutivelmente, as melhores canções do disco. Na primeira, o músico divide os vocais com Cícero, amparados por solos de instrumentos de sopro que lembram muito a sonoridade de Los Hermanos; na segunda, é a vez de Marcelo Camelo e Wado revezarem os microfones na faixa que possui certa aura de Radiohead (eu me sinto tão feliz/a ponto de explodir/e divertir um campo inteiro de futebol). Se Primavera Árabe (é que quando você cala/é que mais você me fala) e Cais Abandonado (eu mantenho a língua afiada/mastigando o vidro da ilusão despedaçada) apontam para o melhor da poesia musicada, a instrumental Vazio Tropical, que intitula o trabalho, em menos de um minuto de duração, parece sintetizar a agradável melancolia do álbum, tal qual um passeio por uma praia deserta num entardecer frio e nublado.

Mesmo sendo um disco de inéditas “canções-sobras” de trabalhos anteriores do músico, em nenhum momento isso compromete a atemporalidade e homogeneidade das 11 faixas. Ao contrário, despido de recursos eletrônicos e orgânicos, os versos de Wado soam introspectivos e confessionais, representando uma nova MPB [sub]tropical, porém temperada de sensações.

* Vazio Tropical pode ser ouvido na íntegra aqui

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes, atualmente, vive um vazio quase[bi]polar em Santa Catarina)

 

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BAIA – COM A CERTEZA DE QUEM NÃO SABE NADA

 


À primeira vista, Maurício Simão de Moraes – que atende pela alcunha de Baia – mais parece um híbrido de Raul Seixas com Chico Science. Astrologicamente, arriscaria a classificá-lo como de signo solar baiano, com ascendente em Pernambuco e Lua no Rio de Janeiro, traçando um paralelo entre sua naturalidade, raízes familiares e o local onde sua alma habita. Aos 40 anos, e pelo menos há duas décadas na estrada, o cantor, compositor e instrumentista, lança o sétimo CD de sua carreira – e seu terceiro trabalho solo. O artista estreou na música nos anos 90, já no Rio de Janeiro, à frente da banda Baia e Rockboys, gravando em estúdio Na Fé (1995), Overdose de Lucidez (1998) e Entrada de Emergência (2001).

Depois de um hiato marcado pela morte prematura do guitarrista e amigo Tonho Gebara, Baia aventurou-se em voo solo, o que resultou em Habeas Corpus (2006) e Baia no Circo (2009), alusão ao Circo Voador, lendária casa noturna da Lapa, onde o show também foi registrado em DVD numa celebração aos seus 18 anos de carreira. No final da década, ao lado de Gabriel Moura, Rogê e Luis Carlinhos – todos expoentes do atual cenário musical da Guanabara – fundou o projeto paralelo 4 Cabeça (2009), que resultou na gravação de um álbum homônimo e lhes rendeu, no ano seguinte, o Prêmio de Música Brasileira como Melhor Grupo de MPB.

Baia já bebeu na fonte de Raul e de Bob Dylan, dividiu o palco com Zé Ramalho, promoveu e participou de diversos festivais nacionais e internacionais. Seu carisma e presença de palco aliado à inteligência e irreverência que destila em suas canções garantem ao músico tecer críticas sociais com a mesma “doce doçura” com que fala de amor. Lançado em abril pela gravadora Som Livre (também disponível na loja virtual do iTunes) e intitulado Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada, as 11 faixas do álbum revezam-se entre MPB e pop-rock, e têm na construção das letras, ora reflexivas, ora provocadoras, seu maior apelo.


Maurício Baia / Foto: Divulgação

A contagiante Essa Moça abre o disco e narra as estripulias de uma desinibida e libertária donzela. Talvez a mesma da canção Baia e a Doida, do álbum Entrada de Emergência, o último na companhia dos RockBoys. A acústica Desafio e seus contrastes estão presentes na regravação do cantor Edu Krieger, lançada originalmente em 2006. O quase ska Passa e Fica (passou, como tudo passa/e algo em tudo que passa, fica/passou porque tudo passa/porque tudo se pacifica), parceria com o cabeça Gabriel Moura, é um dos pontos altos do álbum, juntamente com a canção que nomeia o trabalho, Com A Certeza de Quem Não Sabe Nada (e esse vazio que nos inspira e apavora/já não judia/distância versus tempo/produto bruto desta história/que se anuncia). Enquanto Pousando (fora muitos desenganos/após todos esses anos/entre o agora e o quando), parceria com outro cabeça, Luis Carlinhos, tem ares intimistas, o pop-rock Solto Pelo Ar (se não parte com vontade/não vai dar nem pra saída/se só vive com saudade/aproveita muito pouco a vida) deixa sua mensagem de positividade.

O Primeiro – provavelmente a letra mais inspirada, também co-autoria de Gabriel Moura, que desta vez assume os backing vocals contempla todo o universo substantivo, ordinal e cardinal (pois tudo pode estar por um segundo/posso te perder para um terceiro/trancar-me aflito no meu quarto/lançar-me ao ar do quinto andar/tudo está no seu sexto sentido/na ultima das sete vidas/entre o oito e o oitenta/noves fora zero). As três canções seguintes, Em Nome da Fome, Os Dias de Hoje e Quando Eu Morrer – as únicas inéditas em seu registro ao vivo no Circo Voador – ganham versões de estúdio e enaltecem, respectivamente, o apetite de viver/amar, a atualidade nostálgica e o sossego da morte. Oração de Regresso, quase um cântico de louvor, finaliza o álbum pedindo a Jesus bênçãos sobre os homens (mostra o teu poder/dá o teu perdão/guia teu rebanho/para a salvação/e acaba com essa eterna luta/pelo vinho e pelo pão) e demonstra que Baia continua sendo um camarada de fé, como sugeria sua versão para Santa Fe, de Dylan, nos primórdios de suas investidas sonoras e ainda hoje um de seus maiores sucessos. Não resta dúvida de que Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada é um álbum agradável e consistente, que carrega a brasilidade de um homem maduro com olhos contestadores de menino.

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes, compartilha das mesmas [in]certezas de Mauricio Baia e também abriga milhões de eus)

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


CLARICE FALCÃO – MONOMANIA


 

 

 

Para a psiquiatria, monomania “é a definição de uma obsessão doentia por uma ideia, objeto ou pessoa”. Em seu álbum de estreia, a atriz, roteirista e compositora Clarice Falcão parece ter apenas uma fixação: a meiguice. Filha do cineasta João Falcão e da escritora Adriana Falcão, esta pernambucana criada no Rio de Janeiro transita desde cedo entre diversas esferas da arte. Aos 23 anos, Clarice já possui um extenso currículo – como atriz e roteirista – na televisão, teatro, cinema e principalmente na internet, onde há pouco mais de um ano e meio começou a postar vídeos de suas canções de voz e violão, somando mais de 10 milhões de visualizações. Aliás, sua primeira composição foi a trilha sonora do curta-metragem Laços (2007), também estrelado por ela, que ganhou o concurso mundial Project: Direct, do YouTube. Parte deste sucesso virtual deve-se ao canal de humor Porta dos Fundos, onde a multifacetada artista escreve e participa ativamente das esquetes, muitas vezes ao lado do namorado Gregório Duvivier, um dos idealizadores do coletivo.

Suas canções de amor – de rimas fáceis e melodias suaves –, repletas de ironia e humor negro, são na verdade pequenas construções narrativas, o que talvez justifique a ausência de refrão da maioria das faixas. Lançado pelo iTunes no final de abril, Monomania não possui gravadora ou formato físico oficial, visto a relação direta que a cantora já estabelece com seu público. Atualmente, o álbum figura entre os mais baixados na Apple Store brasileira e é comercializado, de forma quase artesanal, apenas em suas apresentações ao vivo. Com influências de Magnetic Fields, Kate Nash e Chico Buarque e comparada à atriz e cantora Zooey Deschanel (da dupla She & Him), Clarice soa como um mix da canadense Feist com Mallu Magalhães. O primeiro registro de estúdio da menina de voz doce e canções despretensiosas ganha arranjos mais elaborados do que as versões acústicas disponibilizadas na internet e conta com a consultoria e produção musical da sogra, a cantora Olívia Byington.

“Só pra você saber”, como um mantra, Eu Esqueci Você abre o álbum enumerando as vantagens de superar um amor do passado. Na sequência, a insensata Macaé (e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar/você manda me prender no amanhecer?) e Monomania (se juntar cada verso meu e comparar/vai dar pra ver/ tem mais você/que nota dó) elucidam a tal patologia do título. A minimalista Um Só talvez seja uma de suas letras mais inspiradas (o meu desespero/é que quando acaba/você fica inteiro/e eu fico o pó), juntamente com o filmete-dançante Fred Astaire (mas, cuidado/me deixa no canto da sala/que se eu tiver alguma fala/eu mudo pra “amo você”), que ganha também uma versão em inglês no encerramento do álbum. A divertida Talvez (se eu não tivesse um troço/lá dentro da barriga/que eu sinto que está dançando a dança da garrafa) e Qualquer Negócio são sussurradas quase à capela – a última na companhia do violoncelo de Jaques Morelenbaum, que assume o instrumento em outras três faixas do disco.

A segunda metade de Monomania inicia com a balada De Todos os Loucos do Mundo – uma declaração à Duvivier – e fala do encontro de dois seres pra lá de criativos (de todos os loucos do mundo/eu quis você/ porque a sua loucura parece um pouco a minha). A etílica O Que Eu Bebi narra as mágoas amorosas que todos já tentamos afogar (o que eu bebi por você/dá pra encher um navio/e não teve barril/que me fez esquecer), enquanto A Gente Voltou oferece um clima circense à reconciliação do casal da canção (não entra na bad, Romeu/Julieta morreu/mas a gente voltou). O ponto alto do disco fica a cargo do dueto de Clarice com o capixaba SILVA (que também toca violino em algumas faixas) na valsinha Eu Me Lembro, com as impressões masculinas e femininas do primeiro encontro. A deliciosamente mórbida Oitavo Andar, uma de suas letras mais teatrais, (e aí, só nos dois no chão frio/de conchinha bem no meio fio/no asfalto riscados de giz/imagina que cena feliz) reforça toda sua veia literária, bem como a singela Capitão Gancho e sua listagem de coisas que fizeram Clarice ser quem é. Definitivamente, a graça da autora/obra é a simplicidade, doçura e frescor adolescente. Sua audição provoca aquela sensação de riso bobo nos lábios: quando você se dá conta, já está totalmente arrebatado.

 

 

 

 

(Larissa Mendes, falco-monomaníaca)

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LUIZA BRINA E O LIQUIDIFICADOR – A TOADA VEM É PELO VENTO

 

 

 

A grande metáfora que suscita o valor da impermanência das águas é substancial alimento de muita coisa em matéria de arte. Assim como não é possível banhar-se duas vezes numa mesma porção aquática, muita coisa escapa ao controle dos sentidos num átimo de nossos lampejos pela vida. O que seria de nós se tudo fosse absolutamente fixo em todas as suas formas e proporções? Como curvarmo-nos frente à ciranda viciosa dos determinismos que nos soam muito mais como armadilhas do que qualquer outra coisa?

Desejosa mesmo seria a perenidade de saborearmos o sublime e toda a surpreendente força que brota de sua delicadeza. E quanto a nós, cabe bem entregarmo-nos ao fluxo constante das marés que assinalam o tempo das transformações. Ainda que típicas incertezas se façam companheiras dessa jornada, viver traduz-se por um mergulho atento ao presente.

Tudo principia no mar: eis uma definição especial para o disco de Luiza Brina. Juntamente com a banda O Liquidificador, a artista nos apresenta um álbum repleto de signos os quais evocam as imagens que correm paralelas ao dinamismo das águas. É uma verdadeira viagem pelas dimensões sensíveis tão peculiares aos olhares poéticos sobre a vida. De modo marcantemente autoral, Luiza penetra nas veredas dos dias, visitando os vestígios e povoando de esperanças e serenidade a existência. O resultado aponta para uma reunião de canções que primam pelo lirismo e cujo teor das letras reflete um vigoroso arremate filosófico.

A toada vem é pelo vento é um trabalho feito de arranjos e cuidados melódicos que não passam despercebidos. Há de um tudo no disco, principalmente estilos como o maracatu, salsa e boi, entre outros mais. Sem dúvida alguma, o aporte vocal tanto de Luiza quanto do coro da turma de O Liquidificador tornam as escutas bastante atraentes. A acertada reunião de violoncelo, sopros, percussão e violão constrói um painel que reforça um especial sentido de brasilidade ao disco.

Luiza Brina e O Liquidificador / Foto: Divulgação

Entre as faixas que roubam a cena, está a bela e intensa Catamarã, canção que situa a voz de Luiza numa ambientação precisa e forte. Ali, a letra harmoniza o denso contraste entre mar e sertão, exaltando um equilíbrio possível entre forças que se opõem por natureza. No jogo de palavras, o “tão” do ser explicita as distâncias entre dois mundos supostamente improváveis de conciliação, evocando momentos como na passagem “O meu violão é Dorival / o dele é obrigação”.

Também não há como deixar passar a presença extremamente virtuosa de Back in Bahia, desejoso retorno a uma terra idealizada, e que aqui aparece materializado numa vontade sublime de ouvir o canto de Maria Bethânia.  Diga-se de passagem, o título da música deixa entrever as sensações advindas da homônima composição de Gilberto Gil quando do seu desterro em Londres. No entanto, essa valiosa referência não retira a originalidade da letra escrita pela jovem compositora. Atravessando a canção, eis que um disco de Gil irrompe ao fundo, entrecortado por um liquidificador, retrato de sentimentos misturados, uma alusão a um baú de lembranças, abrigando a procura serena e nostálgica de uma Pasárgada cuja musa é Bethânia. Em meio a isso tudo, a voz de Luiza penetra nos ouvidos como uma espécie de acalanto.

E tudo também se prolonga no mar, esse colossal reservatório de sentimentos, que, aos olhos de muitos, abriga o desejo do infindável. Assim, somos conduzidos pelo balançar de águas. Assim, Luiza Brina e seus companheiros de existência nos relembram os caminhos que vão e vem, exaltando a sede do inominável, esse deus que habita todas as dúvidas.