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145ª Leva - 05/2021 Ciceroneando

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Ilustração: Paula de Aguiar

 

O agora longínquo ano de 2006 lançava as bases iniciais da nossa caminhada com a Diversos Afins. Àquela época, ainda se percebia certa efervescência em torno dos blogs pessoais de autores e artistas dos mais variados. Eram espaços que se propunham a exprimir conteúdos demarcadores de liberdade criativa e que também alimentavam trocas entre os seus articuladores. Por seu curso, havia um quê de incipiência nas redes sociais de então, pois estas não possuíam a pujança informacional e interativa de que hoje são as mais alvissareiras representantes. As possibilidades de leitura não desfrutavam ainda dos inúmeros aparatos tecnológicos tão típicos da era da mobilidade. Certamente, também não vivenciávamos ali o estado de hiperconexão ao qual estamos enredados no tempo presente. Uma vastidão de coisas se processou de lá para cá. Na seara eletrônica, vimos surgirem projetos editoriais de fôlego, envolvendo gente com garra suficiente para trilhar caminhos valiosos em torna da Literatura e das Artes. Testemunhamos um sem fim de autores e artistas se aproximando do nosso convívio, ofertando para a revista não somente a qualidade de sua potência criativa, seus textos e imagens, mas principalmente um rico diálogo de vida. Todos eles foram e são responsáveis pela Diversos Afins que construímos. Celebrar 15 anos de existência é lembrar travessias e encontros, todos eles movidos pelo encantamento em se percorrer as vias culturais. Nesse momento, nossa memória editorial evoca a pluralidade de vozes que por aqui compartilharam conosco a expressividade de suas visões de mundo. As veredas da arte são arrebatadoras quando nos propõem visitas a lugares outros, desarmados de certezas, dotados de irreverência, tomados pela beleza e também pela inquietude. O saldo do presente é imensurável aos olhos e sentidos, sendo que a gratidão se faz tamanha. A revista é verdadeira família edificada ao longo dos anos, gesto coletivo que engendra existências, gira mundos no mundo. E não seria possível nunca esquecer quão importantes são os laços estabelecidos e as pessoas que desejam seguir adiante conosco, viabilizando cenários de atuação em benefício de outras palavras e imagens mais. Nossa edição atual é dedicada à memória de Vicente Franz Cecim, escritor das paragens amazônicas que em muitas ocasiões descortinou andanças míticas e especiais entre nós. Assim, chegamos a 145 levas pensando um menu de arroubos de vida. E no traçado poético de tal celebração, estão presentes agora os versos de Roberta Tostes Daniel, Gabrielle Dal Molin, Jéssica Iancoski, Constança Guimarães e Sílvia Barros. Numa entrevista bastante especial, o poeta capixaba Jorge Elias Neto acentua aspectos importantes sobre o seu modo de pensar a Literatura e a contemporaneidade. São de Sandro Ornellas as impressões atentas sobre “Pulsares”, livro da poeta Lílian Almeida. Desbravando novos territórios sonoros, contamos com a resenha de Larissa Mendes para o disco “Lonjura”, do cantor e compositor pernambucano Juvenil Silva. Adentram conosco os bem elaborados nichos da prosa os contos de André Mitidieri, Adriano B. Espíndola Santos e Marcus Vinícius Rodrigues. Com suas escolhas sempre aguçadas, Guilherme Preger traz à baila o seu olhar para “Druk”, longa dinamarquês que ousa tocar em delicados pontos da condição humana. Com riqueza habitual de detalhes, Gustavo Rios mergulha habilmente no universo de “Riviera”, romance de Rodrigo Melo. Como é de costume em todas as nossas edições, as artes visuais tomam conta dos recantos da nossa leva de aniversário. Desta feita, estão conosco as poéticas ilustrações de Paula de Aguiar, contemplando nossos espaços com seu peculiar olhar sobre a vida. E assim debutamos na estrada cultural desejando que, mais uma vez, nossos leitores sejam abraçados pelos diálogos aqui propostos. Bons mergulhos a todos!

 

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144ª Leva - 04/2021 Ciceroneando

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Foto: Lu Brito

 

“O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, canta nosso célebre Gilberto Gil em uma de suas mais reflexivas e tocantes composições. Posto assim de imediato, esse trecho da canção acentua o presente como sendo o instante mais precioso de todos, aquele sobre o qual temos a consciência do que estamos vivendo. Daí que está conosco a tarefa de prestar atenção no hoje, nesse agora que acontece e merece nosso cuidado para que se torne o mais pleno possível. E tanto nos convém olhar para tudo daquilo que se coloca ao nosso redor e no exato momento em que pensamos e agimos. No estar presente, interagimos com o Outro e com ele estabelecemos uma ponte de comunicação que também nos auxilia na compreensão do mundo. Diante de nossos sentidos, passam tantas imagens e a todo tempo somos convocados a contribuir com uma parcela de reflexões e ações sobre as coisas. Estar no mundo é, pois, escolher entre ser parte e atuar ou portar-se como um mero observador dos fenômenos que se nos apresentam. Por óbvio, há consequências naturais para qualquer que seja o caminho eleito. Nesse sentido, ter a ciência e a possibilidade de mover as alternativas parece ser a via mais pertinente para os que não temem os mais variados e desafiadores cenários da existência. E o que dizer do quanto aprendemos com todos aqueles que cruzam a nossa jornada? Por certo, o saldo é imensurável, ainda mais se tratando das perspectivas engendradas pela arte. Em nossa edição atual, por exemplo, há um banquete de palavras e imagens encerradas nas contribuições dos que se permitiram trilhar as estradas da revista. É gente como Fernanda Paz, Dheyne de Souza e Wellington Amâncio da Silva, que com suas narrativas em prosa provocam nossas mais aguçadas visões. No norte da poesia, nos alimentamos dos versos de Milena Moura, Carla Diacov, Rafael Nolli, Anna Apolinário e Rafael de Oliveira Fernandes. É Sidney Rocha quem nos apresenta o instigante “Todo suicídio é um homicídio”, novo livro do poeta Lupeu Lacerda. Conduzida por Elis Matos, temos a entrevista com a escritora e atriz Tereza Sá, potente voz da literatura e da arte baiana. Pelas mãos de Guilherme Preger, estão atentas análises sobre o denso filme chinês “Dead Pigs”. Com sua pesquisa musical apurada, Larissa Mendes nos brinda com uma resenha sobre “Você Não Sabe de Nada”, disco de estreia da banda O Grilo. Por sua vez, Vinicius de Oliveira aborda percursos possíveis em torno de “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, importante obra da escritora Bell Hooks. Por todos os recantos de nossa nova investida editorial, temos a companhia especial das fotografias de Lu Brito, cujo olhar atravessa sentidos especiais dispersos em corpos, espaços e cores. Bons mergulhos em nossa 144ª Leva!

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143ª Leva - 03/2021 Ciceroneando

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Ilustração: Marjorie Duarte

 

Arriscamos dizer que há mais dúvidas do que certezas pairando sobre nossas cabeças sempre inquietas. A dúvida é, por si só, combustível do ato espantado de existir. E entendamos aqui por espanto não a obviedade primeira do susto, mas o incômodo capaz de nos movimentar e levar a questionamentos e ações mais efetivos sobre as coisas que nos acossam. A criação motivada pelos imperativos da arte parece ser eterna companheira desse vasto espaço de incertezas. E o fascínio sobre aquilo que desconhecemos e não dominamos pode levar a resultados dos mais instigantes. Um escritor ou um artista visual, por exemplo, flertam com o abismo na medida em que seus passos estão desgarrados da ideia de controle sobre as coisas. Explicando melhor, é considerar que certos resultados são pretendidos, mas estes nem sempre acontecem pelas vias naturais dos arremates desejados. Ao mesmo tempo, não se ter respostas para tudo pode gerar a fagulha do alerta permanente, sensação que faz com que criadores nunca se deem por satisfeitos com primeiras soluções e, desse modo, busquem o aperfeiçoamento de suas investidas recusando qualquer tentativa de acomodação diante de qualquer resposta que se mostre facilmente sedutora. Literatura, cinema, música, teatro, dentre outras expressões do delirante espírito humano, são tributários das inquietações que jamais cessam em nós. No trabalho de observação que fazemos aqui na revista, notamos uma imensa paisagem por onde transitam as mais diferentes subjetividades e seus projetos de mover suas apostas para além da incerteza. É quando notamos, por exemplo, o gesto que desacomoda coisas nos poemas de gente como JP Schwenck, Bruna Baldez, Anna Clara de Vitto, Helena Aranha e Ilza Carla Reis. Na entrevista feita por Rogério Coutinho com o escritor Rodolfo Guimarães Neves, assinaladas estão algumas reflexões pungentes sobre literatura, filosofia, cinema e política, dentre outros alvos. É Sandro Ornellas quem nos mostra as veredas de “A teoria da felicidade”, mais novo e sensível rebento da escritora Kátia Borges. No caderno de cinema, Guilherme Preger explora a temática das experimentações do real tidas no filme “Notturno”, do diretor Gianfranco Rosi. Por sua vez, Larissa Mendes traz à tona suas escutas precisas para o álbum “Inteiro Metade”, de Tagua Tagua. Nos contos de Márcia Barbieri, Alessandra Barcelar e Adriano B. Espíndola Santos, sintomas amplificados da condição humana. Na resenha de Gustavo Rios, atenções pormenorizadas percorrem “Cães”, romance de Júlia Grilo. Cruzam todas as esquinas e alamedas de nossa edição as ilustrações de Marjorie Duarte, artista que se move vigorosa pelas urgências do tempo e da avidez em comunicar mundos através de seu engenho criativo. Com toda essa reunião de potentes vozes, caras leitoras e leitores, trazemos com ânimo renovado a 143ª Leva. Bons mergulhos!

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142ª Leva - 02/2021 Ciceroneando

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Foto: Joice Kreiss

 

Como a Arte pode colaborar em meio a tempos tão difíceis quanto os que estamos testemunhando agora? Esta talvez seja uma das perguntas mais recorrentes que povoam a mente de quem produz e consome os produtos artísticos. Para nós que respiramos através das vias culturais, estar na arte significa também a busca por um caminho de libertação, que tanto passa por um nível de consciência sobre as coisas quanto por diferentes graus de fruição experimentados. Criadores nos apontam caminhos de reflexão crítica sobre nós mesmos e nosso mundo, mas também nos sugerem que podemos mergulhar em diferentes zonas de contemplação estética das coisas. Libertar-se pelas vias artísticas seria não um gesto de fuga, mas modo de não sucumbir pelas durezas da realidade acessando outras dimensões da experiência humana. Nesta edição que agora surge, trazemos conosco os versos de Marize Castro, Wilton Cardoso, Maitê Rosa Alegretti, Leonardo Bachiega e André Siqueira, todos eles a chacoalhar de algum modo nossas estruturas. No território da prosa, temos a companhia de Marcus Borgón, Julia Sereno e Vivian Pizzinga com suas narrativas eivadas de sintomas do existir. São de André Rosa as impressões sobre “Barroquinha”, romance de Carlos Vilarinho. No nosso Gramofone, giram, através das impressões de Larissa Mendes, as canções de “Espero Que Você Entenda”, mais recente disco da Flerte Flamingo. O emblemático “A Febre”, filme brasileiro dirigido por Maya Da-rin, é tema da resenha de Guilherme Preger. Numa entrevista concedida a Fabrício Brandão, o escritor Renato Tardivo fala dos desdobramentos de seu romance de estreia, “No instante do céu”, bem como outros percursos que remontam ao universo literário. Com seus mergulhos aprofundados na obra “Formas de cair & outros poemas”, de Sandro Ornellas, Rita Santana nos oferta suas mais atentas análises. Nosso 142º caminho editorial com a revista traz as fotografias de Joice Kreiss dialogando também com as palavras dispostas por todos os nossos recantos. De mãos dadas e contra qualquer forma de desprezo à Cultura, seguimos adiante trilhando os caminhos da Literatura e da Arte. Boas leituras!

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140ª Leva - 07/2020 Ciceroneando

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Foto: Cristiano Xavier

 

Passadas 140 edições da revista, cá estamos a contabilizar os efeitos dos encontros promovidos. No decorrer do tempo, o agregar de palavras e imagens consolidou ainda mais os nossos propósitos editoriais, tornando o ambiente de publicações profundamente marcado por expressões bastante distintas. No campo das subjetividades, uma profusão de singularidades vem ganhando corpo e mostrando, a cada nova leva, vozes comprometidas com a criação artística nas mais variadas frentes. Há muitas visões de mundo assinaladas nesse caminho, muitas delas notadamente imbuídas do desejo de transformação das coisas. Transformação que se desdobra em matizes diversos, a exemplo daqueles de natureza social, política e cultural. É quando autores percebem seus trabalhos como instrumentos possíveis de reflexão sobre a realidade. E tal constatação não se mostra contrária a uma noção de fruição do gozo estético que cada obra sugere. Notamos que é perfeitamente possível, por exemplo, harmonizar ideais estéticos com o exercício ativo de uma consciência crítica que emana dos trabalhos artísticos. Ao que nos parece, o grande desafio dos autores é saber lidar com as armadilhas do discurso que movimenta suas criações, afastando-se de qualquer noção de gratuidade, falta de embasamento, desconhecimento do processo histórico ou ímpetos de cunho meramente panfletário. Assim sendo, talvez fosse possível arriscar que ninguém passa incólume aos imperativos do seu tempo, mesmo que se recuse a professar isso na materialização de sua arte. De toda sorte, os sintomas do mundo vão marcando a presença dos autores na Diversos Afins. É o caso agora dos poetas Alberto Bresciani, Milena Martins, Alex Simões, Sara F. Costa, Felipe Fleury e Adriana Linhares, que com seus versos nos atravessam com doses pungentes de realidade e ilusão. Nas reflexões de Helena Terra, as marcas do romance “Entre outras mil”, de Rochele Bagatini. Percorrendo o terreno das delicadezas da memória afetiva, entre outros afins literários, Clarissa Macedo entrevista o poeta Tiago D. Oliveira. Nossos cadernos de prosa de agora estão assinalados pelas porções de vida presentes nos contos de Marcus Vinícius Rodrigues e Geraldo Lima. É Larissa Mendes quem desperta nossas escutas para o disco de estreia da banda Varal Estrela. Pelas veredas da sétima arte, Guilherme Preger analisa “High Life”, o denso e provocante filme de ficção científica da diretora Claire Denis. Na resenha de Rafael M. Fogaça, atenções voltadas para “O Amor é um abismo furtivo”, livro de Adriano de Paula Rabelo. E são as fotografias de Cristiano Xavier que transitam em todos os espaços da nossa atual jornada, um trabalho artístico devotado especialmente a registros de verdadeiras raridades da natureza. Eis a 140ª Leva da revista. Seja bem-vinda (o), cara leitora (o)!

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139ª Leva - 06/2020 Ciceroneando

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Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Nestes tempos de relativo confinamento, muitos de nós percebemos o quanto a arte é fundamental. E ela não é tão somente a preenchedora dos instantes envoltos no ócio, mas a que tende a chacoalhar a rotina dos dias, propondo-nos um sem fim de caminhos. De todo o repertório possível, há mergulhos que nos impactam com mais intensidade do que outros. Seja na literatura, cinema, música, teatro ou artes visuais, para ficar nalguns exemplos, há sempre distintas chances de assimilação dos conteúdos. Mesmo que algumas dessas fruições não representem qualquer tipo de transformação do sujeito ou de sua realidade, ainda assim este pode ser atravessado pelos temas dispostos bem diante de seus sentidos. As obras também são instrumentos de comunicação que nos falam do quanto o estar no mundo significa muito. Quantos de nós não se sentem, em algum momento da vida, representados por determinadas narrativas artísticas? Certamente, há tanto processos naturais de identificação com obras específicas quanto o contrário. Sentir-se parte de algo, ainda que no campo ficcional, já parece nos dizer um pouco sobre o que somos. Pensando desse modo, o artista é também uma espécie de porta-voz de muitos ímpetos inconfessáveis, pois um dia talvez tenha faltado coragem a alguém de exprimi-los. Daí, percebemos o fio tênue entre dois mundos, o interno e o externo, através do qual a arte encontra seus deslizamentos. Dizer o indizível, provocar, balançar as fundações, desacomodar certezas, eis algumas investidas que podem muito bem não corresponder a um mero efeito retórico. E assim as estruturas vão se delineando e movimentando narrativas que nos atraem também por seus apelos inusitados. Nesse sentido, observamos, por exemplo, a capacidade que os poemas de gente como Alexandre Pilati, Helena Arruda, Neuzamaria Kerner, Juliana Sbrito, Vanessa Teodoro Trajano e Jorge Lucio de Campos têm de atrair nossas atenções. Quando o tema é discorrer sobre certas veredas literárias na contemporaneidade, a entrevista com o escritor Rodrigo Melo nos sugere perspectivas e reflexões bastante interessantes. É Vivian Pizzinga quem nos ciceroneia pelos caminhos de “haverá festa com o que restar”, livro de poemas de Francisco Mallmann. E há também espaço para as pulsações intensas nos contos de Adriano B. Espíndola Santos e Enio Jelihovschi. No nosso caderno de cinema, Guilherme Preger traz à tona algumas discussões sobre o instigante filme sueco “Border”.  Rans Spectro relembra o impacto causado por “Sobrevivendo no Inferno”, disco antológico dos Racionais MC’s. Por seu curso, Gustavo Rios nos oferta seus agudos olhares para “Bartolomeu”, romance de Bruno Ribeiro. Por todos os cantos de nossa mais nova edição, fomos brindados com uma exposição dos desenhos de Fernanda Bienhachewski, que tem como um de seus temas centrais as delicadas nuances do corpo. E assim se firma a nossa 139ª Leva, repleta de caminhos e acolhidas. Boas leituras!

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138ª Leva - 05/2020 Ciceroneando

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Foto: Ricardo Stuckert

 

Nunca é demais lembrar do grande poeta Drummond quando este exortava, em versos, que deveríamos seguir de mãos dadas. Mesmo que não saibamos ao certo para qual futuro rumaremos, cabe a partilha dos instantes, os caminhos construídos coletivamente, pois talvez jamais cheguemos a muito longe sozinhos. Ah, o mundo, essa construção dialógica e difusa que não cessa de propagar seus sintomas! Esse verdadeiro painel de contrastes, desacordos, discordâncias, ao mesmo tempo em que agrega gente afinada e disposta a estabelecer trocas úteis por um bem comum. Mas o que seria de nós sem as diferenças de pensamento, sem o contraditório? Um estado de coisas no qual tudo permaneceria inerte? Um cotidiano atravessado pela visão permanente e totalizante sobre tudo? O menor esforço em ensaiar tal cenário uniformizante já nos causaria desassossego. Certamente, há algum saldo construtivo dentro da lógica das oposições de pensamento, daquelas que não se furtam a debater ideias com respeito e equilíbrio. No território das artes e da literatura, por exemplo, é deveras positivo ver a profusão de temas e ideias que sustentam as mais diferentes expressões. Cada autor ou artista confere a uma obra seu próprio tom, sua narrativa, ao nos mostrar olhares peculiares sobre o mundo. E assim vamos movimentando essa gigantesca e complexa roda da vida, estabelecendo pontes dentro e fora de nós mesmos. Na estrada que vai seguindo, encontramos mais gente disposta a somar. É, por sinal, o caso dos poetas Michaela v. Schmaedel, Ramayana Vargens, Samantha Abreu, Tales Pereira e Léa Costa Santana, cujos versos comunicam nuances da vida. Gustavo Rios vem nos trazer ao centro de sua análise a nova obra de Ney Anderson, o livro de contos “O Espetáculo da Ausência”. Por sua vez, Kátia Borges entrevista o escritor Lima Trindade, conversa regada a percursos sobre literatura, música e quadrinhos, dentre outros temas. Guilherme Preger é quem nos oferta seus olhares atentos para o filme brasileiro “Meu nome é Bagdá”. Nossos cadernos de prosa abrigam agora as densas narrativas de Dênisson Padilha Filho, Anderson Fonseca e Wilfredo Lessa Jr. Na seara musical, o disco “<atrás/além>”, da banda O Terno, é tema das anotações de Rogério Coutinho. Nas linhas de Geraldo Lavigne de Lemos, há instigantes mergulhos na obra “Sonetos em crise”, do poeta Jorge Elias Neto. Esta edição está entrecortada pelas imagens do fotógrafo Ricardo Stuckert, cujo trabalho evidencia também um sensível e importante olhar sobre os mais diferentes povos indígenas do Brasil. Sobre esta exposição fotográfica e outros apontamentos em torno da obra de Ricardo, há uma breve análise de Fabrício Brandão. Sejam, bem-vindos, queridas leitoras e leitores, à nossa 138ª Leva!

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137ª Leva - 04/2020 Ciceroneando

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“Diálogo”: Claudio Parreira

 

Eis que a Diversos Afins completa 14 anos de existência. De lá para cá, navegamos muitas águas, movidos sempre pelos atrativos da palavra e da imagem. Acostumamo-nos ao flerte constante com todas as possibilidades narrativas que dialogam com nosso projeto editorial. Por ser um território difusor de expressões do pensamento através da arte, a revista tem logrado êxito porque, acima de tudo, conseguiu fomentar encontros. Sempre é bom lembrar que, por trás de cada colaboração presente em nossas páginas e galerias, há rostos que subscrevem suas criações, gente de carne e osso que nos conduz pelas alamedas de suas obras. A riqueza maior do nosso trabalho tem sido a construção de uma valiosa memória coletiva de textos e imagens, todos eles tributários de diversos segmentos culturais, tais como a literatura, o cinema, o teatro, a música e as artes visuais. Desde a fundação da revista, em 2006, um grande e plural acervo foi sendo construído e contempla, ao fim e ao cabo, registros de tempos, de movimentos internos dos escritores e artistas que foram sendo expostos voluntariamente ao longo dos anos. Todo o conjunto de publicações advoga pela defesa incontestável da manifestação do pensamento através da criação artística, e é sempre bom reafirmar isso, ainda mais no momento em que vivemos, o qual traz consigo a energia de algum obscurantismo a tentar nos devassar. De todo modo, não cederemos ao ideário de destruição que, por exemplo, teima em dinamitar o campo cultural brasileiro. Seguir adiante é mais do que resistir, significa exaltar vidas, mostrar que cada uma delas tem algo a nos dizer. Por isso, seguimos, prestando atenção nas vozes que se aproximam. E o momento traz até nós os poemas de gente como Ricardo Thadeu, Elizabeth Hazin, Galvanda Galvão, Wesley Peres e Ângela Coradini. É especial a entrevista que Sérgio Tavares fez com a escritora Ana Paula Lisboa, cujo pensamento nos instiga a refletir sobre demandas urgentes de nosso tempo, como é o caso do racismo. Girando no nosso Gramofone, está “Cinzento”, o novo disco de Marcos Valle pelas impressões de Pérola Mathias. Nas linhas de Geraldo Lima, uma leitura para “Cinevertigem”, livro de Ricardo Soares. Nossos cadernos de prosa, são embalados pelas narrativas de Jonatan Magella, Maria Lutterbach e Aleilton Fonseca. Com todo seu apreço pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com uma atenta análise sobre o filme brasileiro “Piedade”, do diretor Claudio Assis. Nas reflexões de Gabriel Morais Medeiros, a temática da necrocidade perpassa a poesia contemporânea. São as colagens digitais de Claudio Parreira que, com o brilhantismo das inquietações, povoam todos os recantos de nossa nova jornada editorial. Dedicamos a 137ª Leva a todos aqueles que tiveram suas vidas ceifadas pela covid-19, pois para nós essas existências jamais serão meras estatísticas. Nosso muito obrigado a todos os leitores e colaboradores das mais distintas eras. Salve!

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136ª Leva - 03/2020 Ciceroneando

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Imagem: Roberto Pitella

 

Atravessamos um agora refletido numa espécie inesperada e inusitada de caos, coincidente com o reflexo do que muitos carregam teimosos ou até raivosos dentro de si: o desequilíbrio evidente, a sombra de um medo avassalador disputando espaços entre os transeuntes das ruas, inseguros em plena luz do dia. Há que se refletir o dissabor do momento, são muitos os avisos de pare, pense, olhe para dentro de si e enxergue o outro como parte de você mesmo.  Conscientes desse espaço tempo que desfrutamos, faz-se mais que urgente uma expansão de um polo positivo que podemos acessar dentro de nós, feito de pensamentos, traduzido em sentimentos e ações. Convém não banalizar a chegada dos incertos novos tempos, é muito provável que resista quem conseguir acessar melhores lugares de uma consciência mais alargada. Os espaços da arte jamais perderão seu estado de movimento, transformação constante que o universo impõe. A mudança de perspectivas e de paradigmas nunca foi tão impositiva e real. O instante exige a guinada instantânea de atitudes, sem muitos melindres ou culpas externadas ao que vem de fora. A era exige o afastamento da ideia limitadora de materialidade das coisas todas que nos cercam, exige, sobretudo, uma chance ao amor. Eis aqui, nesse sentido de dar lugar ao espaço intemporal e salvador da arte e do amor, a Diversos Afins construindo e abrindo mais lugares e alamedas desnudadas em muita reflexão e luz. Nessa dinâmica, as janelas poéticas traduzem subjetividades nos versos de Laisa Kaos, Dheyne de Souza, Jorge Elias Neto, Lorena Ribeiro e Dalila Teles Veras. As narrativas cortantes e conectadas de Viviane de Santana Paulo, Carlos Vilarinho e Adriano B. Espíndola Santos nos direciona ao cerne dos acontecimentos. As inspiradoras imagens artísticas de Roberto Pitella atravessam todos os espaços intertextuais aqui presentes, evidenciando em si mesmas uma ideia de expansão da linguagem iconográfica. É Kátia Borges quem nos oferta um percurso de leituras sensíveis para “As solas dos pés de meu avô”, novo livro de poemas de Tiago D. Oliveira. No texto de Wilfredo Lessa Jr., as escutas todas voltadas para “Só”, o novo álbum de Adriana Calcanhotto. A poeta Clarissa Macedo é a entrevistada deste momento, enfocando um pensamento fortemente voltado para alguns de nossos dilemas contemporâneos. O longa chileno “Ema”, do diretor Pablo Larraín, está no centro das atenções da resenha crítica de Guilherme Preger. Por seu curso, Gustavo Rios desfila impressões em torno do romance “Sexy Ugly”, de Paulo Bono. Com toda uma gama de expressões, eis a nossa 136ª Leva!

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135ª Leva - 02/2020 Ciceroneando

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Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Nestes tempos sombrios e catastróficos de pandemia, nunca foi tão necessário um mergulho quiçá mais aprofundado em nós mesmos. A ideia de confinamento acaba por sugerir uma dedicação maior de nossa parte sobre temas que abraçam nossas indivualidades, nosso íntimo espaço de abstrações pessoais. Há quem leia mais livros, ouça mais discos, veja mais filmes, intercambie ideias com outras pessoas no ambiente virtual, seja nas enxurradas de lives ou prosas em vídeo privadas. Alguns hábitos foram remodelados diante de tamanha limitação do ir e vir humano, mas talvez o aspecto mais difícil dessas mudanças seja lidar com a desaceleração dos ritmos habituais. No campo da criação literária e artística, por exemplo, poderíamos até supor que o isolamento compulsório nos levaria a um estado garantido e deveras frutífero de produção. Mas as coisas não são bem assim. Há quem se queixe de certa apatia diante da realidade trágica do mundo a ponto de nada conseguir pensar, quanto mais criar. De repente, somos tomados pelo medo de imaginar o futuro, já que o presente é devastador. A paúra do amanhã obriga muitos a supor que talvez não haja um refúgio garantido. E a imposição do recolhimento acaba por flertar com dificuldades até certo ponto extremas para muita gente. Uma delas é a condição de ter que silenciar, emudecer por alguns momentos, o que certamente viabilizará combates dos mais diferentes sujeitos com as suas próprias mentes e consciências. De todo modo, cada um irá elaborar sua própria estratégia de sobrevivência para não sucumbir diante de um cenário nunca experimentado pelas mais distintas gerações que aí estão. Enquanto a tormenta global não passa, é possível descortinarmos mundos e seres sem sairmos de nossas moradas. Mesmo quem não está habituado pode se permitir um percurso por livros, discos, filmes, fotografias, desenhos, pinturas, enfim, sensações das mais diversas. O vasto território da Literatura e da Arte possui um acervo capaz de abarcar as mais diferentes procuras. Suportes como a Diversos Afins, mais do que nunca, são pontes para descobertas, para aproximações, a partir do ambiente cultural. Nosso caminhar segue em frente, sugerindo alternativas para atravessar um estado de coisas que tende à imobilidade das trajetórias. Assim, trazemos à tona conexões com a vida nos versos de poetas como Jennifer Trajano, Carla Diacov, Wesley Correia, Lílian Almeida e Maria Clara Escobar. São de Vivian Pizzinga as linhas que debatem os temas presentes no espetáculo teatral “Pá de Cal”. É Vinicius de Oliveira quem nos recomenda a leitura de “O corpo encantado das ruas”, livro de ensaios de Luiz Antônio Simas. Nossos cadernos de prosa de agora, estão marcados pela poética de Priscilla Menezes e pelos contos de Rodrigo Melo e Alê Motta. Seguindo as trilhas cinéfilas, Guilherme Preger analisa criticamente o filme “O Poço”, instigante produção espanhola. “Gigaton”, novo álbum da banda Pearl Jam, está na mira detalhada das abordagens de Wilfredo Lessa Jr. Numa entrevista concedida a Fabrício Brandão, o escritor Paulo Bono fala sobre seu novo livro e outros provocantes temas literários e mundanos. Durante toda a nossa atual edição, os desenhos de Ana Luiza Tavares compõem uma valiosa exposição que se volta com vigor para o universo feminino. Isole-se bem, cara leitora, caro leitor! Isole-se com mergulhos culturais. Eis a nossa 135ª Leva!

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