Categorias
134ª Leva - 01/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

134 edições percorridas. Poderia ser apenas mero índice numérico, não fosse o conteúdo abrigado em tantas levas publicadas na revista. E não é apenas o gesto de colecionar textos e imagens aquilo que nos define no plano editorial. É muito mais que isso. É, por exemplo, saber que temas variados se entrecruzaram, que encontros pela e para a palavra se deram de modo substancial, sustentando todo um ideal de diversidade desejado por nós desde sempre. Cria do ambiente eletrônico, a Diversos Afins seguiu expandindo seus horizontes. Em meio ao oceânico universo da internet, a disponibilidade de acesso aos conteúdos gerou sempre mais encontros e aproximações. Ainda que experimentemos, enquanto sociedade, a crescente enxurrada de informações presentes em nossa rotina de conexão permanente aos dispositivos comunicacionais de toda ordem, somos capazes de selecionar o que desejamos consumir no amplo espectro cultural. Mesmo que o cardápio de oportunidades seja gigantesco, as predileções acabam por nortear os mergulhos pessoais de leitores e apreciadores dos temas ligados à Literatura e à Arte em geral. Talvez não seja um exagero afirmar que há espaço para todo tipo de expressão, bem como uma recepção disposta a acompanhar a multiplicidade de criadores imersos na pangeia contemporânea. Afortunados estamos quando nos é possível saborear e internalizar toda a sorte de obras que comunicam a experiência humana. Nesse momento, a arte parece revelar a face daquilo que somos, pensamos e reproduzimos no convívio com nossos iguais. Seguindo essa trilha, os diferentes modos de conceber a realidade, e também o que a transcende, são férteis instrumentos de criação. Vejamos, pois, quantos mundos estão dispostos nas narrativas de autores como Giovana Damaceno, Caio Russo, Tiago Chaves e Berg Morazzi, que passam por nós com seus pungentes contos. Difícil determinar. Mas eis que também o terreno condensado e catártico da poesia vem nos ofertar agora as aparições de Angel Cabeza, André Luiz Pinto, Maria Fernanda Elias Maglio, Romério Rômulo e Fernanda Nali. Vigoram entre nós as marcas complexas de nossas humanidades na entrevista do escritor Itamar Vieira Junior, que, além de falar um pouco sobre as repercussões de seu novo livro, transita lucidamente sobre questões de nosso tempo. São de Sérgio Tavares as impressões sobre o mais recente livro de Dênisson Padilha Filho, a reunião de contos intitulada “Um chevette girando no meio da tarde”. Certamente, os olhares sensíveis de Maurício Pinheiro para o álbum de estreia da cantora e compositora Livia Nery são algo arrebatadores. Daí ser quase impossível não ficarmos curiosos em pelo menos sondar as canções de “Estranha Melodia”. Imbuído por suas sempre impactantes descobertas cinéfilas, Guilherme Preger nos apresenta as delicadas tramas do filme russo “Uma Mulher Alta”. Todo o percurso empreendido até aqui conta com as sutilezas que marcam as fotografias de Hermes Polycarpo, dispostas nos mais diferentes recantos de nossa edição. A atual Leva é uma pequena amostra do que pretendemos materializar nesse recém-nascido 2020. Permitam-se seguir conosco, cara leitora, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

Categorias
133ª Leva - 05/2019 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Pintura: Canato

 

Aos poucos, mais um ano se despede de nossos domínios. Sem dúvida alguma, é outro ciclo de realizações que completamos no transcurso histórico da revista. É impagável manter a chama acesa, ter vontade permanente de seguir com um projeto editorial dessa monta. Acima de tudo, é incomensurável o retorno que emana como resultado das ações todas. O ânimo se renova cada vez que percebemos o interesse das pessoas em alimentar nosso caminho com colaborações que são fruto de suas vivências e mergulhos no fértil terreno da Arte. E aqui decompomos o termo para abarcar as expressões literárias, cinematográficas, musicais, teatrais, a fotografia, a pintura, as ilustrações e desenhos dos mais variados participantes. Enfim, inúmeras são as possibilidades de atuação no contexto da Diversos Afins. Ao mesmo tempo, notamos que se forma um movimento espontâneo de pessoas em torno do projeto, dinâmica tal que move encontros nos campos da palavra e da imagem. Realizar é preciso. Coisas precisam ser ditas. O pensamento necessita da amplitude dos horizontes. A Arte é instrumento de comunicação. Mais ainda, é território de expansão das nossas humanidades, da consciência do nosso lugar no mundo. Ela também é ferramenta de partilha social em plena contemporaneidade, era que vem apresentando tensões em escala global, seja no aspecto geopolítico, seja no quesito ideológico, para não dizer em outros muitos mais. Cada autor que aqui desfila suas criações é, em última instância, alguém a dividir conosco (editores e leitores) saberes e sabores desse complexo denominado existência. Para além dos instintos mais básicos, de que realmente temos fome? Arriscamos em considerar que temos fome de poesia, dessa a que aludem os versos de gente como Alex Simões, Clarissa Macedo, André Rosa, Bárbara Bittencourt e Pedro Vale. Desejamos também os sinais da perplexidade presentes nos contos de Viviane de Santana Paulo e Rodrigo Melo. Agora somos contemplados com a reinvenção do humano abordada nas pinturas de Canato e que estão dispostas pelas vias da nossa nova edição. É Helena Terra quem nos mostra suas reflexões sobre o livro de estreia da poeta Priscila Pasko, Como se mata uma ilha. Com sua verve analítica sempre atenta, Guilherme Preger fala a respeito do instigante filme sul-coreano Parasita. Numa entrevista, a escritora Lelita Oliveira Benoit expressa reflexões sobre seu novo livro, bem como areja ideias em torno de sua trajetória e outros afins literários. Vinicius de Oliveira discute aspectos do romance Rio Negro, 50, obra de Nei Lopes que traz à tona abordagens históricas sobre a questão racial brasileira.   Apresentando suas observações sobre a peça Nastácia, que é baseada na obra de Dostoiévski, Vivian Pizzinga adentra as vias da seara teatral. Com sua pesquisa musical sempre ativa, Pérola Mathias desfila entre nós as suas sensações para o disco Na Base do Cabula, do cantor e compositor Roberto Mendes. A julgar pelo acervo aqui apresentado, há um conjunto de partilhas disponíveis. E é com grande prazer que anunciamos que ele faz parte de nossa 133ª Leva. Boas leituras e mergulhos!

Os Leveiros

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Chegando a 120 edições, estamos certos de que os caminhos da revista atingem um patamar cada vez mais desafiador. As marés digitais têm representado um universo de transformações permanentes no sentido de apontarem novos rumos a serem empreendidos. Testemunhamos mudanças de cenários e comportamentos nos mais distintos momentos de nossa trajetória até aqui. A própria noção de uso dos suportes midiáticos eletrônicos encerra uma exigência bastante voltada para a questão da instantaneidade das experiências de leitura. E bem sabemos que este é um movimento que não vai cessar, pois há sempre um outro paradigma prestes a entrar em cena. Diante dessa constante alteração de rotas, autores e artistas são impelidos a fazer com que suas criações encontrem estratégias eficazes de comunicação com o seu público. A compressão tempo-espaço fomentada pelos trânsitos da internet trouxe, sem dúvida, uma perspectiva revolucionária em matéria de aproximações entre produtores de conteúdo e leitores. Nesse quesito, a literatura, por exemplo, tornou-se uma arte mais acessível, inclusive em relação a pessoas que não possuíam certa intimidade com ela. A perspectiva de compartilhamento das produções escritas, característica marcante dos tempos atuais, faz girar uma roda que antes talvez estivesse restrita apenas a determinados eleitos. Decerto, sempre partimos da compreensão de que há os naturais interessados pelos feitos literários e artísticos em geral, e que estes buscam voluntariamente aquilo que lhes interessa. Entretanto, podemos considerar que as ferramentas de divulgação trazidas no contexto contemporâneo acabam atingindo, mesmo que de modo desavisado, potenciais interessados em consumir conteúdos de tal monta. O resultado disso é um despertar de atenções que pode significar um incremento na via da recepção dos conteúdos. Ou seja, há mais gente tendente a ler e apreciar uma obra do que supõe a nossa vã convicção de outrora. O xis da questão talvez seja pensar quais seriam os mecanismos mais importantes para tornar as produções culturais algo verdadeiramente próximo das pessoas. Quiçá um dos propósitos de revistas digitais como a Diversos Afins seja o de encurtar distâncias, trazendo pra perto de seus projetos o olhar curioso e questionador de outro tipo de leitor.  O tempo dirá. O fato é que haverá por estas bandas sempre alguém pronto a estabelecer elos. É o caso de poetas como Lilian Aquino, Leandro Rodrigues, Dheyne de Souza, Jorge Elias Neto e Ana Pérola, os quais embutem em seus versos vozes que falam ao mundo. Trazendo à baila um olhar sobre a coletânea de poetas e fotógrafas “Profundanças 2”, Geraldo Lavigne de Lemos aponta as razões pelas quais a obra merece ser lida. São da fotógrafa grega Angelik Kasalia as imagens que percorrem os mais diferentes recantos da nossa nova Leva de epifanias. O poeta e editor baiano Jorge Augusto, ao nos conceder uma entrevista, revela o que pensa sobre o seu ofício e as paisagens literárias contemporâneas. São os contos de Itamar Vieira Junior, Alê Motta e Marcus Vinícius Rodrigues que mobilizam modos peculiares de conceber a vida. Em matéria de cinema, Guilherme Preger traz à tona as delicadas questões presentes no filme nacional “Fala comigo”. Vivian Pizzinga discorre sobre a montagem brasileira da peça argentina “Entonces Bailemos”. Num território que remonta a lembranças de um período especial da nossa música, Sérgio Tavares escreve sobre “Só se for a dois”, segundo disco solo do cantor e compositor Cazuza. Sempre com a disposição de ampliar horizontes, a Diversos Afins segue seu rumo. Seja bem-vindo (a), caro (a) leitor (a)!

 

Os Leveiros

 

 

Categorias
115ª Leva - 09/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Re

 

Chegamos à última etapa de celebrações em torno dos 10 anos da revista. Com essa nova leva, vem também a constatação de que 2016 foi um ano repleto de realizações editoriais por parte da Diversos Afins. Apesar da conturbada fase política que acomete o Brasil, situação que contamina todos os demais segmentos por plantar no país um grave clima de desconfiança em torno do papel das instituições, é necessário continuar demarcando posições e trabalhando efetivamente em prol da cultura. Autores e editores das mais diferentes linhagens tornam essa continuidade dos caminhos possível na medida em que enxergam nas suas realizações um motivo de evocação da liberdade de expressão e pensamento. Poder criar e mostrar ao mundo suas produções faz de muitos criadores verdadeiros agentes da democracia, palavra tão questionada ultimamente em nossa continental nação. Todos somos seres políticos nalguma medida, e isso se confirma nas práticas cotidianas.  A grande questão que fica é saber se temos um compromisso consistente com a consolidação da democracia, indagando até que ponto ela não representa um conceito vazio ou mero elemento de retórica. Um artista não está desvinculado do seu tempo e dos fatos marcantes constituintes da sociedade em que vive. E se ele pode contribuir com seu ofício para compreender e modificar paradigmas, já é uma outra importante questão que se estabelece. Numa visão mais otimista, todos poderíamos ser componentes ativos de quaisquer tentativas de mudanças nos planos social, político e cultural. Saber como tal processo se daria demanda um outro nível de compreensão que não se esgota nessas breves linhas de um editorial. Prosseguimos aqui com o intuito de revelar aos leitores e apreciadores da literatura e da arte perspectivas de experimentar alternativas de criação. A Leva 115 vem marcada, por exemplo, pela forte carga visual e provocadora dos desenhos de Re, jovem artista plástica que apresenta ao mundo suas inquietudes. Novas veredas poéticas são instauradas através dos versos de João Gabriel Pontes, Hanna Halm, Weslley Almeida, Alexandra Lopes da Cunha e Leandro Jardim. São as linhas de Guilherme Preger que trazem à tona as reflexões presentes no documentário “Cinema Novo”, do diretor Eryk Rocha.  Numa conversa que mescla literatura e gastronomia, Sérgio Tavares entrevista o escritor e editor Alexandre Staut. “Quando me abriram portas”, livro de poemas de Renato Suttana, é cuidadosamente percorrido pelas leituras de Jorge Elias Neto. Há uma abundância de possibilidades narrativas encerradas nos contos de Helena Terra, Anderson Fonseca e Cristina Judar. Dentro de um valioso processo de inventividade artística, marcado pela cultura popular, “Duas Cidades”, novo disco do grupo BaianaSystem gira nas linhas de Fabrício Brandão. É Carla Carbatti quem promove delicadas incursões em “Vermelho Rupestre”, obra poética de Katyuscia Carvalho. Seguiremos firmes em 2017. Agradecemos a todos os nossos leitores e colaboradores por tornarem sempre especial a nossa jornada. Saudações!

Os Leveiros

 

 

Categorias
114ª Leva - 08/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Observar o tempo e seus matizes. Passivos ou não, somos parte dele. Na sucessão dos instantes, imagens se coagulam, fatos são esquecidos; outros, lembrados. Na contramão de uma série de sentimentos, flui sorrateiro o gozo dos mistérios. Dentro da explosão de palavras e imagens, a tentativa de se construir pontes com a vida e com o âmago de nós mesmos. A criação é um agora e porvir marcados pela hercúlea tarefa de exprimir algo. Como diria a poeta Hilda Hilst, “O texto é sangue/E hidromel./É sedoso e tem garra/E lambe teu esforço”. Ao autor, artesão da palavra que é, cabe não somente a pena e alguma glória efêmera, mas o sangue derramado nas entrelinhas do esforço. E palavras são curiosos seres acostumados, desses que tramam ardis, falseiam sensações de conquista e põem seus articuladores à beira do abismo. É preciso não se regozijar dos feitos antes da hora certa das coisas, antes da existência plena de um texto, sua janela para algum mundo. O engenho do verbo tem como aliado o ato constante de burilar, o qual é, em melhor instância, permanente estado de desconfiança. Então, vem a pergunta: quando se pode dizer que um texto está definitivamente concluído? Quem primeiro fica pronto, texto ou autor? Eis uma zona de compreensão deveras imprecisa. Fiquemos, pois, com a capacidade de trazer as leituras para dentro de nós mesmos, vê-las crescendo num jardim de percepções regado a infinitos particulares. Na Leva 114, edição que representa nosso atual estado de sensações, observamos a escrita ganhar contornos difusos nos versos de pessoas como Cândido Rolim, Yasmin Nigri, Sândrio Cândido, Liv Lagerblad e Otávio Campos. As construções de mundo e vivências pela palavra são o tema marcante da entrevista do escritor Sidney Rocha concedida a Lima Trindade. Por entre nossos cadernos, está o vigor poético e visual das fotografias de Milton Boeira. Vinte e sete anos depois, Sérgio Tavares celebra “As quatro estações”, álbum antológico da banda Legião Urbana. Mirando “Bastardo”, o novo livro do poeta Victor Prado, Lisa Alves desfila todas as suas impressões. Outros recortes de vida estão presentes nos contos de Márcia Barbieri, Marcus Vinícius Rodrigues e Samantha Abreu. O metafórico filme “The Lobster” agora é tema da resenha de Larissa Mendes. O romance “Vaga queda”, de Caio Russo, vem devidamente apresentado pelas breves incursões de Márcia Barbieri. E assim segue mais uma etapa da celebração dos 10 anos da revista. Que sejam ótimos os percursos!

Os Leveiros

Categorias
113ª Leva - 07/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Quantas acepções cabem na palavra continuidade?  Por certo, um sem fim de significados. Mas talvez o mais importante deles seja o da manutenção de um desejo: fazer com que a chama de um projeto permaneça viva e disposta a se nortear pelas virtudes necessárias da mudança. E o tempo assinala desafios trazendo para perto de nós sinais de que outros diálogos são necessários. A Diversos Afins obriga positivamente seus editores a um salutar estado de alerta, qual seja o de perceber novas possibilidades que agregam valores criativos. Seja nas artes visuais ou sob a forma de textos, pessoas surgem diante de nossos domínios ofertando suas peculiares experiências de conceber o mundo. É deveras interessante sermos surpreendidos com arremates poéticos ousados ou construções diferenciadas do olhar. Isso prova que não há espaço para a monotonia em nossas vidas, pois podemos usar as ferramentas de expansão da arte como importantes aliadas no processo do entendimento sobre nós mesmos. Não se trata de ocupar o tempo ou a mente para matar o infame tédio de algumas humanas horas, mas de abrir caminhos sugeridos de vivência e, com isso, saborearmos inusitadas sensações. É gente como a artista plástica Rety Ragazzo, que agora ilustra a nossa atual edição com uma singular visão de mundo, capaz de romper padrões impostos e apontar vias de libertação do olhar. O momento é feito também das reflexões do escritor Tadeu Sarmento numa entrevista concedida a Sérgio Tavares, conversa marcada por uma salutar criticidade ante o complexo palco das realizações literárias. Registramos os ímpetos da poesia de Clarissa Macedo, Tiago Dias, Marília Floôr Kosby, Maíra Mendes Galvão e Rita Isadora Pessoa. Há um olhar aguçado de Guilherme Preger para o filme brasileiro “Aquarius”, do diretor Kleber Mendonça Filho. Carlos Trigueiro revisita memórias numa merecida homenagem ao saudoso escritor cearense Nilto Maciel. Diferentes cenários surgem em meio às narrativas de Vicente Franz Cecim, Maira Moura e Geraldo Lima. O mais recente trabalho musical de Liniker e os Caramelows está presente nas detidas escutas de Larissa Mendes. Num ensaio, Shirlene Rohr de Souza mergulha fundo na obra do poeta Jorge Elias Neto. É a terceira etapa das celebrações dos 10 anos da revista refletida numa 113ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

Categorias
92ª Leva - 06/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Luiz Navarro

Um tempo que gira sem parar. E cada instante desfrutado tem a capacidade de se manter perene quando as experiências vividas são assimiladas com certa dose de leveza. Mesmo sabendo que frequentemente somos tomados por visões que nos desafiam, ainda assim cabe perceber tudo com serenidade. São bons combates aqueles que travamos na busca pelas palavras. São dignos combates os que mantemos na construção de imagens que representam o mundo em que vivemos. Nos últimos anos, autores e artistas variados fizeram da nossa revista um espaço de convergência de sentimentos de mundo. É como se precisássemos de suas vozes para atestarmos que todos estamos amalgamados pelas mesmas razões. E quando a revelação vem, entendemos que a arte é, sobretudo, uma forma de ultrapassarmos as barreiras dos mistérios. Talvez por isso o ato de criar seja um duradouro processo de reconhecimento não somente daquilo que vislumbramos alcançar, mas também do que nunca dissemos conscientemente a nós mesmos. Há um casamento de particularidades do ponto de vista de quem cria e quem recepciona as obras produzidas. Nesse movimento de dupla via, o grande efeito é supor o que o outro não pensou. É transpor barreiras de interpretação até mesmo como se uma nova obra surgisse a partir do que originalmente nos foi apresentado. Enquanto a tradição nos dá referências, a intuição, somada a nossas revoluções internas, redimensiona nossas percepções sobre as coisas. Assim, vamos tecendo um longo e imprevisível caminho de descobertas, cuja marca maior está sustentada no desejo de conceber a arte como um verdadeiro movimento de autoconhecimento.  Hoje, ao celebrarmos oito anos da Diversos Afins, sentimos que permanece bem vivo o propósito de fazer da revista um território efetivo de aproximações. Seguindo esse fluxo, novos criadores fazem da 92ª Leva seu habitat natural. Gente como o amazonense Luiz Navarro, que com suas fotografias põe em evidência as faces ignoradas de um mundo. Dentro das janelas poéticas aqui apresentadas, vigoram os versos de Regina Azevedo, Paulo Sérgio Lima, Carla Diacov, Inês Monguilhott e Carlos Barbarito. Compartilhando as marcas de sua vivência literária, o editor e poeta Gustavo Felicíssimo é o nosso entrevistado de então. No Aperitivo da Palavra, o livro de Lima Trindade é objeto da leitura sensível e atenta de Sérgio Tavares. O escritor Geraldo Lima celebra o teatro de Ariano Suassuna. Com sua devoção à sétima arte, Larissa Mendes nos conduz até o mais novo filme do diretor espanhol David Trueba. Nos ambientes da prosa, Andréia Carvalho, Lima Trindade e Márcia Barbieri desfilam as densas narrativas de seus contos ante nossos sentidos. Das paragens goianas, o rock lisérgico da banda Boogarins exibe seus acordes em nosso Gramofone. Aos nossos leitores e colaboradores de todas as eras, dedicamos mais uma especial edição. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

 

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Kenia Vartan

Depois de um longo caminho trilhado, a Revista Diversos Afins volta suas atenções para a concepção de um novo espaço de publicações. Se é certo que, através dos tempos, a perspectiva de mudança ergue-se como companheira inseparável de muitas iniciativas desse porte, não seria diferente com o trabalho contemplado por nós. A vontade de ofertar aos leitores possibilidades, cada vez mais profundas de experimentar os signos aqui sempre exalados, fez-nos arrumar a casa em direção a novos rumos. Uma outra estrutura afigura-se agora bem diante de nossa trajetória, reportando-nos ao incessante desafio de mantermos a tônica viva de nossos propósitos. E esse é um caminho que nunca encerra bases definitivas, pois, a cada edição erguida, lidamos com a complexa tarefa do aprendizado. Seja em critérios formais ou subjetivos, a busca pela qualidade segue como sendo nosso objetivo principal. Dentro dela, a oportunidade de estabelecer uma conexão entre as expressões dos autores e artistas e os leitores constitui verdadeira missão, muitas vezes calcada em valiosas revelações criativas. A nova etapa de vida da revista contempla um vasto panorama visual, reforçando ainda mais o diálogo entre imagens e palavras expostas. Como forma necessária e inalienável de preservação de nossa memória editorial, nossas Levas anteriores permanecem vivas dentro do antigo site, proporcionando aos visitantes um autêntico percurso histórico pelo que já publicamos. Sendo o marco de um nascente tempo, a 66ª Leva aponta descobertas valiosas. Exemplo disso está na exposição fotográfica da amazonense Kenia Vartan, que traz um olhar especial sobre pessoas e lugares.  Nossas janelas poéticas abrem-se aos versos de Wesley Peres, Ana Vieira, Roberta Tostes, Felipe Stefani, Alice Macedo e Anna Apolinário. Falando sobre improvisação, o ator e diretor Rafael Morais promove a estreia do Jogo de Cena, caderno que aborda reflexões sobre teatro. Numa entrevista, o fotógrafo Márcio Vasconcelos fala sobre sua trajetória em torno da fotografia documental. Larissa Mendes apresenta sua mais nova dica cinéfila, o longa Medianeras. A pungência dos contos de Gerusa Leal e Jorge Mendes atravessa recortes de vida. O escritor Jorge Elias Neto traduz o poeta espanhol Ángel González. Por aqui, também as escutas do mais novo disco da banda Mundo Livre S.A. Com ânimo redobrado e brilho nos olhos, seguimos adiante. Agradecemos a todos os leitores e colaboradores por tudo o que trilhamos até hoje, em especial a Ana Peluso e Antonio Paim, parceiros responsáveis pela materialização deste novo ambiente.

Saudações sempre culturais,

Os Leveiros