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78ª Leva - 04/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Mais que invisível

Por Clarissa Macedo

 

Francisco Carvalho / Foto: divulgação

 

A poesia é uma instância muito contraditória. Contraditório, e curioso, é também o mercado que a promove. Contradições à parte, há na literatura mundial verdadeiras preciosidades escondidas ou pouquíssimo reveladas, seja por se encontrarem fora do circuito econômico central do país, seja por não estarem inseridas na mídia. O Brasil guarda muitas dessas pedras lapidares. Prova disso é o chamado “homem invisível”, o poeta Francisco Carvalho.

Autor de mais de 20 livros, quase todos de poesia, sendo um ainda inédito, o cearense de Russas, Francisco Carvalho, deixou, no mês de março deste ano, estas planuras como um desconhecido para a parcela maior do povo brasileiro. Injustiça sem tamanho, haja vista o autor de Quadrante Solar ser “Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis”, além de volumosa.

O cantor Fagner musicou alguns dos textos de Carvalho no álbum Donos do Brasil, que rendeu ao poeta mais leitores. Sem nos debruçarmos aqui sobre a belíssima leitura que Fagner fez de alguns poemas do homem “invisível”, o que podemos afirmar, sem temor, é que a poética de Francisco Carvalho é forte, sem engasgos e fórmulas universitárias de laboratório – as quais são aderidas por muitos escritores contemporâneos nacionais. Além disso, contrariando, ao que parece, uma de suas maiores características, a timidez, seus poemas são exibidos. Exibidos como aqueles que, escondidos sob a capa do livro, arrebatam o leitor ao primeiro contato. Basta um poema, para que fiquemos destinados a ler, incansavelmente, os demais.

Adepto da inspiração como caminho para alcançar a verdadeira arte, é o próprio, em uma das poucas entrevistas que concedeu, que aponta: “Tem-se vontade de escrever um poema da mesma forma que se tem vontade de fazer amor. Tem de existir certo clima de sedução e de cumplicidade para que o poema comece a existir. Têm de existir motivações, de ordem interior ou exterior, uma espécie de senha para que o poema comece a acontecer. O poeta constrói o poema, a emoção desenha o ritmo.”. E é este “clima”, talvez, um dos maiores motivos para sua obra ser tão expressiva e marcante – aspectos que podem ser verificados nestes versos:

 

Poema da Embriaguez

Bebem uns por desprazer,
astros, flor, vinho, absinto.
Bebem Deus para o esquecer.
Eu só bebo o que não sinto.

Outros bebem por desvelo,
solidões, o amor que dói.
Bebem Deus para esquecê-lo.
Eu só bebo o que não foi.

Outros bebem sal do mar,
azuis de ontem e hoje.
Bebem Deus para o matar.
Eu só bebo o que me foge.

Alguns bebem céus e ventos,
som, memória, espera e gesso.
Bebem Deus e anjos imensos.
Eu só bebo o que me esqueço.

 

A morte, o inevitável encontro, revela-se como um caminho para a sagração e um maior reconhecimento, quase sempre arbitrário, daqueles que são levados por ela. Para a obra de Francisco Carvalho, cuja matéria poética merece muitos estudos, tal reconhecimento, se vier, será justo e apropriado.

 

(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Está concluindo o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011), Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III  e  IV Feira do Livro (2011 e 2012),  e no livro teórico Sem comparação: Torga, Rosa e cia. limitada (2013). Publicou na Verbo21, no site Musa Rara, no Barcaças, em A Poesia do Brasil, nesta Diversos Afins, na 7Faces, na Blecaute. Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia. É colunista do site Viva Feira)