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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Carla Diacov

 

Carla Diacov
Arte: Carla Diacov

 

ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?

 

 

 

***

 

 

 

a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes

 

 

***

 

 

o raio é posto, parada e rio
não chegam os olhos ao nó da garganta
quando de lado a vida
o corte é trilha carcomida e zarolha
inda me sobra te dizer assim:
venha comigo, deixe o cavalo ao meio, de nada adianta, deixe o cavalo comigo.

 

 

 

***

 

 

 

Anatomia Forense

era pra eu ser mulher de morar, mas sou amável.
era pra eu ser deparável.
mas sou odiável.
sou serial e sou adjetiva demais. era pra eu seu de morar, mas sou oxidável.

 

 

 

***

 

 

 

pela combustão

 

o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira

carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar

 

 

* Os poemas integram o livro AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA pela Douda Correria (Portugal/ Abril, 2015)

 

Carla Diacov (1975), São Bernardo do Campo – SP. Publicou “Fazer a Loca” (e-book) pelo selo Ellenismos. Tem poemas na Coyote número 25 (Kan Editora com distribuição pela Iluminuras).Integra a coletânea 70 POEMAS PARA ADORNO, Editora Nova Delphi (Portugal).Em Abril de 2015 lançou AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA, livro de poesias pela Douda Correria (Portugal).Tem participações no site Cronópios, nas Revistas Germina Literatura, Zunái, Mallarmargens, Usina, Diversos Afins, Ellenismos, Cruviana, Musa Rara e integra o Escritoras Suicidas. 

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Diego Moraes

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

LIRISMO É O ÚNICO DEUS EM QUEM ACREDITO

 

Eu compro a trigésima lata de cerveja e saio caminhando até o delírio parar de latejar. Gosto de sentir a brisa de Manaus lambendo meu rosto. Não tenho dinheiro para luxo. Não tenho grana pra viajar. Não tenho grana pra passar uma temporada no Texas. Não posso pagar um psiquiatra. Quem não tem grana para fazer análise, vai para o bar ou liga a televisão. Gosto de ver televisão. Gosto de um canal de vendas na tevê a cabo em que aparece o George Foreman vendendo churrasqueiras e um troço de fazer sanduíche. Se eu não tivesse entrado nessa furada de querer ser escritor, certamente seria um baita pugilista. Um boxeador fracassado cuspindo sangue num balde de alumínio encostado nas cordas de um ringue da terceira divisão dos pesos pesados. Minha mãe virou evangélica. Tem pregado versículos da Bíblia na geladeira e colou um adesivo na traseira do carro: “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Todo mundo é contra nós e a minha literatura é contra o mundo. Fico feliz por ela. Dia desses deu pra a ouvir orando de voz embargada. As paredes da minha casa são finas. “Que meu filho arrume uma mulher e seja feliz”. O lance é que não quero arrumar uma mulher. Não quero casar. Não quero filhos e conta conjunta no Itaú. Acostumei-me com a solidão. Não tenho pensando em comer ninguém. Meu pau balança mole faz alguns meses. Nunca pensei em arrumar um emprego na Volkswagen e casar com uma loirinha formada em propaganda e marketing. Tenho só pensado em poesia o dia inteiro. Tenho sonhado com literatura. Minha cabeça anda povoada de frases e parágrafos gritantes que poderiam fazer Dostoievski me rasgar de elogios. Puxo vinte reais do bolso e dou na mão do traficante. Ele diz que pareço com o Frejat só que mais gordo. A música dele (Frejat), que fala que um cara limparia os trilhos do metrô pelo amor de uma mulher, tenta atravessar a minha memória, mas não permito. Aí Cazuza tenta invadir cantando Vida Louca, mas apago. Deixo que a imagem da fotografia do Cazuza abraçado com Caio Fernando Abreu dure três segundos e pulo para o remake de Vicio Frenético filmado pelo Herzog na cena que o Nicolas Cage tá chapado de heroína e vê camaleões cantando no meio de um acidente de trânsito. Eu curto pra caralho essa cena. É uma das minhas prediletas. Também curto aquele tchau do Anthony Hopkins no desfecho de O Silêncio dos Inocentes. Hannibal Lecter vira as costas num terno azul e crianças negras seguram balões coloridos no meio da rua. Aí sobem os créditos. Sinto vontade de cheirar pó. Entro num bar que não faz bem para minha alma. De derrotado já basta eu. Saco o olhar desdenhoso de um otário que não tem a terça parte da minha vivência. Ele se escora no balcão. “você anda escrevendo muito. Quando sai o próximo livro?” falo que não quero papo. Ele abre um sorriso cínico. Digo pra ele cair fora. Que estou querendo ficar na minha escutando Belchior na máquina jukebox. Ele fala algo sobre Bukowski. Diz que o velho era só um bêbado. Antes de ele falar outra merda, meu cotovelo acerta o seu nariz. Respingos de sangue mancham a camiseta branca dele dos Beatles. Todo jornalista tem uma camiseta branca dos Beatles. Chuto a cara dele. Conhecidos gritam pra eu parar, mas já venho aturando esse cara faz tempo. Faz tempo que ele atravessa meu caminho com um sorriso idiota fazendo perguntas embaraçadoras como se eu não fosse escritor ou imitasse o velho Buk. Entro num táxi e acordo na porta da minha casa. Acendo um Derby na varanda e começo a rir. Minha gargalhada acorda os cães da vizinhança. Deito na minha rede e ligo a televisão. Edir Macedo fala que temos que dar para receber. O lirismo é o único Deus em quem acredito.

Diego Moraes (Manaus, 1982) é um escritor brasileiro. Publicou os livros “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” (2012), “A solidão é um deus bêbado dando ré num trator” (2013), ambos pela editora Barteblee, e “Um bar fecha dentro da gente” (2015), livro de poesias publicado pela Douda Correria, de Lisboa.

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101ª Leva - 04/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Catarina Santiago

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Catedral

O meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros.
Quando praguejam em tosse seca
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas
transforma-os em passarinhos e voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
– bebe-o.

 

 

***

 

Escultura fantasma

A pele ventilada adquire malhas
as mucosas arenecem
de tão estrábica
a consciência deixará de questionar
quando perderás a paciência
e começarás a gritar-me rente ao tímpano
aspergindo-me o perfil esfíngico
………………….. …..o sorriso bovino

dormirás com um cadáver
porque terei um sono de olhos vítreos
serei incontinente e esfregar-me-ás fezes na cara.

Por isso mudo-me já para
uma morada isolada
numa encosta escarpada
numa ínsua porque-não-atlântica
rodeada de galinhas e carpas
azedas e acelgas
atabúas e maçãs bravas
salinas e beterrabas
enquanto sou um freddy krueger
mínimo e híbrido que aprecia
fermentações e aves canoras.

 

 

***

 

 

Arca

Pedes licença
trancas-te no lavabo
tocas-te e é o dilúvio nas instalações sanitárias
– ossos do ofício inegociáveis –
sais com girinos e moreias numa enxurrada
chamas a tua meia-cara
“escancara-te, temos de ir de viagem”.

O que tens para oferecer são
intuições penduradas da pestana da alma
onde conseguirás reservar florestas várias
culturas esquecidas da grande ásia
novas estirpes do vírus da malária
enxertos para preservar vinhas roxas hereditárias.
Esgotadas, fechar-se-á a pálpebra.

 

 

***

 

 

Plutão

A oriente
lambia o sol
da manhã aliviava
o rubor da queimadura
com um gole de água fria
e um fio de azeite na língua.
Perseguia-o o resto do dia
até tombar na distracção
do mar
sem vertigem
sem veneração.
Sonambulismo
e nada mais.

***

 

 

Baço

O sofrimento afunila-te.
E depois mergulhas na lagoa ou
……………………..;…as mãos em cabelos amantes.
E depois escalas a montanha.
E depois rumas ao Oriente.
E depois tens uma criança.
Curas o corpo como quem
atravessa uma ponte.

O absoluto de ontem agora perspectiva.
Tu descansas.

 

Catarina Santiago Costa nasceu em Lisboa, em 1975. Frequentou o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa). Desde 2005  publica os seus poemas num blogue pessoal. O site português Enfermaria 6 (e sua respectiva revista Caderno) divulgou alguns dos seus poemas.O seu primeiro livro será publicado este ano, pela editora portuguesa Douda Correria. Dele farão parte os dois últimos poemas desta seleção.