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155ª Leva Janelas Poéticas

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Anora. Estados Unidos. 2024.

 

 

Anora foi o filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024 e vencedor do Oscar 2025 nas categorias de filme, diretor e atriz principal. É o oitavo longa do diretor americano Sean Baker. Estes prêmios foram a consagração de um diretor considerado independente e autoral. Suas obras têm roteiros originais escritos pelo próprio diretor. Também a produção de seus filmes fica em família, realizada por Samantha Quan, sua esposa.

Desde Tangerine (2015), pelo menos, Baker tem recebido atenção frequente pelo seu caráter inovador e experimental de construção. Este filme, por exemplo, foi inteiramente filmado em câmera de celular. Seu estilo frequente é o docudrama, mistura de documentário e ficção, com câmera na mão, locações reais e luz natural, baixo orçamento e uso de não atores, o que confere um grau elevado de realismo às suas obras, ou mesmo de hiperrealismo, se podemos dizer.

Mas é sobretudo o conteúdo dos filmes, roteirizados pelo próprio diretor, que realmente dá uma marca autoral à sua obra. Baker enfoca os marginalizados da sociedade norte-americana, ou ao menos de suas promessas de felicidade pelo consumo. Neste caso, seus protagonistas pertencem a um subproletariado, ou a um precariado de jovens trabalhadores em atividades que estão nas margens entre o lícito e o ilícito, alvos vulneráveis do apelo (ou pressão) por consumir.

Nesse aspecto, o sensacional The Florida Project (2017) é um filme exemplar da pesquisa cinematográfica de Sean Baker. O filme retrata os moradores de um condomínio vizinho à Disneyworld, em Orlando, sugestivamente chamado de “The Magic Castle”. O condomínio é um motel barato onde Halley, mãe solteira e desempregada, ex-stripper, vive com sua filha Moonee, de seis anos. Halley vive das refeições que sua vizinha Ashley obtém de seu trabalho de garçonete. Ela tenta obter uma ajuda temporária para famílias em situação de vulnerabilidade social, porém o passado de stripper e drogadição dificultam a Halley o acesso ao benefício. Enquanto isso, o foco do filme vai para Moonee e seus amiguinhos do condomínio que se divertem em brincadeiras, algumas das quais pouco inocentes pois envolvem pequenos furtos em lojas das redondezas. As brincadeiras e atividades desse grupo de crianças preenchem de vida e sentido lúdico o ambiente inóspito e vazio do condomínio. O Projeto Flórida se refere a um projeto urbanístico de condomínios no entorno da Disneyworld, mas que carece de toda forma de beleza arquitetônica, contrastando com o sonho encantado vendido pelo parque de diversões vizinho que atrai turistas do mundo inteiro, e que é, no fim, o sonho de consumo das crianças do próprio condomínio.

No último filme de Baker, Anora (Mikey Madison) é stripper e trabalhadora sexual da comunidade de Brighton Beach no Brooklyn. Por sua ascendência russa, Anora é designada pelo gerente do clube para atender Ivan “Vanya” (Mark Eydelshteyn), um jovem de 21 anos. Vanya se revela como filho de um magnata oligarca russo e mora sozinho numa mansão dos pais nos EUA. O jovem russo é um perfeito “nepobaby”, ou jovem da geração nem-nem que, longe dos pais, se diverte às custas da fortuna da família. Ele pede que Anora seja sua acompanhante de luxo, simulando sua namorada durante uma semana, quando vão para Las Vegas com amigos, e por lá acabam, num rompante romântico, por se casar oficialmente, à revelia dos pais de Vanya. Anora começa então como uma releitura do mito de Cinderela, da moça pobre que encontra seu príncipe encantado, para finalmente se desconstruir numa desastrosa confusão narrativa, porém em tom de comédia dramática na qual os desastres são observados com olhar cômico e afetuoso para os personagens, inclusive os supostos vilões.

 

Mark Eydelshteyn e Mikey Madison (centro) / Foto: divulgação

 

Anora partilha com o filme anterior de Sean Baker, Red Rocket (2021), muitos elementos comuns. Neste último filme, o protagonista, que se chama Mikey (curiosamente o mesmo nome da atriz de Anora) e é um ex-ator de sucesso da indústria de vídeos pornográficos, retorna falido e no ostracismo à sua cidade natal no Texas e procura recomeçar a vida junto à sua ex-mulher, também ex-atriz pornô, numa profissão ordinária. Porém, não conseguindo encontrar emprego, acaba se valendo da venda de maconha na cidade. Mikey se apaixona por uma ninfeta de 17 anos, atendente de uma loja de donuts, e procura convencê-la a se tornar uma atriz em Los Angeles, oferecendo-se para empresariá-la na indústria de vídeos sexuais.

Tanto Anora como Mikey, ou a transgênero Sin-Dee Rella, paronomásia de Cinderela,  do filme Tangerine, ou ainda Halley de Project Florida, são ou foram trabalhadores sexuais que caminham às margens do sistema americano e sobretudo de suas fantasias. Sean Baker procura nesses filmes um olhar cúmplice para esses personagens marginais, sem julgamentos morais. Embora todos estejam envolvidos em decepções, desilusões ou mesmo violência, Baker evita o tom dramático, reforçando o lado cômico, mesmo quando amargo. Como pertencentes ao subproletariado da nação mais rica do planeta, eles desfrutam do consumo fútil de fast-food, donuts, e outros produtos junkies vendidos nas lojas de conveniência à beira de estradas.

Em Anora, no entanto, elementos distintos se inserem, pois há uma tensão étnica e classista na relação entre os pais russos de Vanya, bilionários, e seus seguranças armênios, especialmente Toros (Karren Karagulian) que os dirige. Os armênios são responsáveis por “supervisionar” em Nova Iorque a vida do filho Vanya, que a todo momento se mete em confusões. Entre os seguranças está o recém-chegado Igor (Yura Borisov), que é russo como os patrões, mas que ocupa o grau social mais baixo entre os “gangsters”, supostamente tendo que realizar o trabalho mais “sujo”. Há uma mudança de ritmo no filme quando Toros e os seguranças entram em cena. Uma longa e violenta passagem de quase 20 minutos de briga na mansão de Vanya marca essa virada de ritmo. O filme então, nas palavras de seu diretor, se torna uma “montanha-russa” de situações e emoções. Aliás, “montanha-russa” é um símbolo metafórico frequente nos filmes de Sean Baker, aparecendo num momento crucial também em Red Rocket. Esta mudança de ritmo é habilmente explorada pelo diretor, pois também representa uma mudança de foco, na qual a protagonista Anora passa a dividir as cenas com o segurança Igor. A partir de então, pelo restante do filme, eles aparecem sempre juntos nos enquadramentos da câmera.

 

Mikey Madison como Anora / Foto: divulgação

 

Uma sutil conexão de afetos se estabelece entre a protagonista e o segurança russo pobre e bruto, que é o único que a entende. Neste aspecto, este último filme difere dos demais, pois os anteriores enfocam o subproletariado por dentro, enquanto Anora apresenta uma oposição entre sua classe e a dos ricos, neste caso, de magnatas russos, e também entre russos e armênios. O que era um conluio entre a jovem e seu namorado milionário e inconsequente, logo se revela com as cores da luta de classes. O sonho de Cinderela da jovem stripper esbarra em fronteiras de classe inexpugnáveis.

O final emocionante não resolve, mas antes ilumina as contradições e as vias secretas e entrevistas para ultrapassá-las. Ao mostrar suas margens, a câmera de Sean Baker mostra por onde a sociedade imperialista do consumo deixa esvair seus sonhos. Seu cinema afronta o “realismo capitalista” (Mark Fisher), que é a estética de uma sociedade que não tem mais futuro a apresentar. O espírito da esperança, no entanto, mantém-se vivo, mas escondido, latente, guardado nas formas de vida periféricas, desejosas por sua própria natureza.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Substância. Reino Unido/França. 2024.

 

 

O filme recente, que concorreu em Cannes e ganhou prêmio de melhor roteiro neste festival, vem assustando ou impactando muitos espectadores.

A obra da diretora francesa Coralie Fargeat tem elementos de contato com Titane, de Julia Ducournau, que ganhou a Palma em Cannes em 2021. Ambos são filmes de horror, baseados em metamorfoses corporais, filmes nos quais uma sensação de incômodo, beirando a aversão, atravessa a plateia. Ambos os filmes também trabalham com elementos fantásticos, que não são simplesmente “surreais”, como nas versões modernistas, mas também não são sobrenaturais. O fantástico nesses filmes é um gênero de hibridização com formas inaturais, aberrantes. Não é sobrenaturalismo nem surrealismo, mas inaturalismo. Não trabalha com objetos, mas com abjetos. Trata-se de um cinema que tem uma interface com a literatura do insólito, como na obra da escritora argentina Mariana Enriquez.

Esses dois filmes abordam as intervenções técnicas no corpo produzindo deformações que precisam ser “incorporadas” pelas personagens. Nisso, fazem referência aos ciborgues da teórica Donna Haraway. A menção a esta teórica é importante, pois se tratam de obras sobretudo feministas, mas que não reivindicam um estatuto próprio à feminilidade, mas, ao contrário, indicam o que podemos chamar de uma “desapropriação do feminino”. Na obra de Haraway, o ciborgue é justamente aquele que “borra” o binarismo sexual e o dualismo natural/artificial.  No entanto, os filmes diferem num elemento fundamental: em Titane há um processo de alienação psíquica que é almejado e desejado (o ego deseja ser outro), ao passo que em A Substância, o ego procura um encontro com sua própria essência “substancial”, para além das formas corporais.

O filme de Coralie tem um apelo extra, que vem a ser metalinguístico, ou ainda, que é a feliz escolha pela atriz Demi Moore como protagonista para um papel que basicamente é o de interpretar a si mesma. Moore como se sabe é uma atriz icônica, mas que está associada a um semblante jovem, representante de uma geração (dos anos 80) que agora envelhece, o que significa para as atrizes (que ultrapassaram os cinquenta anos) um deslocamento para o ostracismo. No filme ela interpreta a atriz Elizabeth Sparkle, que se tornou uma estrela de aulas de ginástica (como Jane Fonda, outra atriz icônica de geração anterior), mas que os patrões da indústria cultural (representados pelo ator Dennis Quaid) querem “aposentar”. Elizabeth tem o destino de estrelas que são tratadas pela indústria cultural como “corpos bonitos”, o que quer dizer especialmente jovens e sexys. O envelhecimento significa para elas algo que simplesmente “stops”, como lhe diz o empresário bufão, branco e machista Harvey (Quaid).

 

Demi Moore como Elizabeth Sparkle / Foto: divulgação

 

No roteiro do filme, Sparkle tem acesso no mercado negro a uma “substância” que quando injetada nas veias dá lugar a uma bifurcação genética gerando uma cópia de si (clone), porém mais jovem. No filme, esta Elizabeth jovem é vivida pela atriz em alta Sarah Qualley, filha da atriz da mesma geração de Moore, Andy McDowell. A bula da “Substância” indica que as duas Elizabeth, a jovem e a madura, devem trocar (switch) de posições a cada semana. A bula também diz que elas não são duas, mas uma única pessoa. Uma só pessoa, mas com dois corpos. Enquanto uma vive, a outra “hiberna”. Mas a troca entre os corpos precisa respeitar o prazo de uma semana, ou consequências sérias acontecem.

Embora seja a mesma Elizabeth, sua versão jovem assume o nome de Sue, nova promissora atriz que ocupa precisamente o espaço de estrela destinado a Elizabeth, com um novo programa de ginástica no qual desfila seu corpo jovem e sexy. E então no roteiro do filme começa uma disputa entre as duas Elizabeth, a jovem e a madura, que agem como se fossem duas mulheres diferentes, mas que são a mesmíssima pessoa. Essa disputa vem às expensas da decrepitude acelerada da mulher madura, mas cuja desconstrução corporal ameaça a saúde da mais jovem. Ambas estão “umbilicalmente” ligadas. O melhor seria então dizer, “geneticamente ligadas”.

 

Sarah Qualley como Elizabeth Sparkley / Foto: divulgação

 

O mais interessante da obra de Fargeat é a incorporação de referências literárias. Já mencionei sua proximidade com a literatura do insólito. Em A Substância ecoam dois clássicos da literatura do século XIX, de influências góticas: O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Deste último, em particular, o filme parece uma releitura cinematográfica.

Mas a principal referência é a sua proximidade manifesta com o cinema de David Cronenberg. Há primeiramente uma relação com seu duplo, como em Gêmeos, mórbida semelhança do diretor canadense.  Há igualmente um interesse nas deformações corporais e no cruzamento entre corporeidade e tecnologia, no qual os corpos são objetos para intervenções tecnocirúrgicas (como em seu filme recente Crimes do futuro) ou hibridizações genéticas (como no clássico A Mosca). Há, no entanto, uma diferença crucial entre os dois diretores: a questão de gênero.

Os filmes de Cronenberg, ao que pese suas qualidades indiscutíveis, não deixam de apresentar aquilo que é chamado de “mirada masculina” (male gaze). A mirada é um gozo voyeurístico presente no cinema. Seu gênio absoluto foi Alfred Hitchcock que fez a mirada do espectador adentrar o espaço cênico como composição. Os exemplos mais óbvios são os filmes Janela Indiscreta e Psicose, em que  o gozo da mirada não é apenas um tema, mas é parte da construção da própria imagem cinematográfica. Este assunto foi objeto de diversas leituras psicanalíticas. No entanto, a mirada cinematográfica sempre foi tendencialmente masculina, principalmente quando a mirada recai sobre o corpo da mulher.

O que Coralie Fargeat faz em A Substância é desconstruir essa mirada de viés masculino. Sem recusá-la, ela a “deforma” e faz com que o corpo da mulher de objeto se torne abjeto. Faz com que a exigência de que o corpo feminino seja jovem, bonito ou sexy, seja revertida em monstro. De um lado revela o aspecto senil, branco, decrépito e grotesco da indústria cultural (uma verdadeira máquina monstruosa), retratada no conjunto de seus acionistas, homens velhos e brancos que são justamente os voyeurs iniciais da cadeia de exploração das formas femininas. Por outro lado, também denuncia por detrás o desejo cúmplice (pois todo gozo tem cumplicidade com o desejo) das mulheres com sua obsessão em corresponder aos apelos de juventude e beleza eternas, ou a própria dificuldade de lidar com a decadência corporal.

Walter Benjamin já escreveu que o choque estético, iniciado na obra do poeta Charles Baudelaire, havia sido incorporado tecnicamente pelo cinema. O cinema, para o filósofo alemão, era a arte do choque. Noventa anos depois de seu artigo (1936), o choque perdeu sua capacidade de impactar a sensibilidade do espectador. A questão não é que o cinema deve assumir formas cada vez mais radicais de choque, próximas ao terror, como certa linhagem cinematográfica pretendeu, explorando a violência ao ponto do sadismo. Essas novas diretoras trazem outra via para atender a necessidade do cinema “mexer” com a sensibilidade do público. Coralie Fargeat consegue construir um cinema do incômodo estético, retirando do espectador o direito a uma mirada acomodada.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética  e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

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152ª Leva - 02/2023 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Mato seco em chamas. Brasil. 2022.

 

 

Lançado em 2022 no Festival de cinema de Berlim, sendo aclamado em outros festivais internacionais, como o “Cinema du Réel”, em Paris, ou o Festival do Rio (2022), a última obra da dupla Adirley Queirós e da portuguesa Joana Pimenta só foi lançado em cinemas comerciais no Brasil neste ano de 2023. Para falar desta obra insólita, no entanto, é preciso retornar à obra anterior da dupla, Era uma vez Brasília, de 2017.

Em Era uma vez Brasília, o agente intergaláctico WA4, após fazer um loteamento ilegal em seu planeta de origem, chamado de Sol Nascente, é preso e para ser perdoado deste crime e receber uma moradia para ele e sua família, recebe a missão de viajar no tempo e no espaço e matar o presidente Juscelino Kubitschek no Brasil.  No entanto, devido a problemas em sua nave precária, WA4 cai em Brasília em 2016, precisamente no momento histórico em que ocorre o processo de impeachment da Presidente Dilma Roussef. Sua história é contada por Marquim da Tropa a Andréia Vieira, a Rainha das Kebradas, que será a responsável pela rebelião para expulsar os monstros que tomaram conta da sede do governo brasileiro.

Assim, nesse filme de 2017, o estilo da ficção científica fornece uma alegoria cinematográfica para confrontar o retrocesso representado pelo impedimento da Presidente deposta: só através do desaparecimento da capital brasileira seria possível salvar o Brasil. Contra o projeto golpista da “Ponte para o Futuro” (expressamente citado no filme), Adirley e Joana apresentam a viagem no tempo para o passado e a temática do “paradoxo do avô”, temas clássicos dessa abordagem narrativa. O filme também recupera o personagem viajante e cadeirante Marquim da Tropa, do filme anterior de 2014 (apenas de Adirley) Branco Sai, Preto fica, assim como a temática das viagens no tempo através de naves precárias (neste último filme representada por um container). Por sua vez, o personagem de Andréia Vieira estará presente em Mato seco em chamas, de 2022. Assim, os três filmes de Adirley, os dois últimos com Joana Pimenta, estão conectados, menos como uma saga ou uma série, mas como uma passagem cinematográfica de bastão. Cada filme recupera do anterior um gancho, uma peça do argumento, que serve como um “fio” para sustentar o roteiro minimalista da obra seguinte.

Em Mato seco em chamas, três ex-presidiárias, Léa (vivida por Léa Alves da Silva), sua irmã Chitara (vivida por Joana D’Arc Furtado) e Andréia Vieira (ela mesma), acham petróleo num oleoduto que passa no subsolo de seu terreno de moradia (de Chitara) e montam uma refinaria “caseira” para extrair o combustível e vendê-lo a um preço barato aos motoboys da favela Sol Nascente em Ceilândia. Elas se tornam então famosamente as “gasolineiras”. Ao mesmo tempo, Andréia começa a campanha para se eleger deputada pelo PPP – Partido do Povo Preso. O negócio das meninas é visto com preocupação pelas forças da lei, da ordem e do mercado, e as amigas precisam montar guarda na refinaria, que está ameaçada por uma espécie de caveirão, um blindado com agentes fiéis ao lema Deus, Família e Pátria. O enredo se desenrola entre as eleições de 2018 até o momento da posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019.

 

Mato seco em chamas / Foto: divulgação

 

Há, portanto, pontos de contato, como “encaixes” narrativos entre os três filmes, mas o que de fato os liga definitivamente é o “estilo” cinematográfico de Adirley e Joana. Os diretores são conhecidos por construir cenários e roteiros de “ficção científica periférica”, ou ficção científica precária. De fato, o autor brasiliense, com sua produtora 5 do Norte, assim como seus colegas de Contagem (MG), da produtora Filmes de Plástico, já bastante comentados nesta revista, são cineastas da periferia, ou como disse um crítico, do “ponto de vista da laje”. Esses autores não fazem filme sobre a periferia, mas da periferia. É a perspectiva (ou a objetiva) da própria periferia que está em ação. Seus filmes comungam do registro não só da realidade como da fantasia das comunidades periféricas.  Assim, em Marte Um, de Gabriel Martins, um menino da periferia de Contagem, que já é periferia de Belo Horizonte, sonha em estudar astrofísica e viajar para Marte. Este sonho recupera um ideal tecnológico como utopia da periferia, num momento em que justamente os horizontes utópicos se rebaixaram. As amigas Léa, Chitara e Andréia, que montam uma refinaria e extraem petróleo com seus próprios meios e braços, já produzem sua própria utopia, e sonham a partir daí com uma vida melhor, transformada.

Comum também a todos esses filmes é a indeterminação entre realidade e fantasia. A fronteira ficcional nunca está completamente clara, sobretudo em Mato seco. As moças que são, na ficção, ex-presidiárias, também o são na “vida real”. Léa também se chama Léa e Andréia, Andréia. Chitara era o apelido de capoeira de Joana Furtado. Léa e Chitara são efetivamente irmãs. Numa das cenas do filme elas conversam sobre seu pai. Este é ao mesmo tempo um registro documental e ficcional, pois está inserido dentro da trama, das moças que conversam enquanto montam guarda na refinaria fictícia (que, no entanto, é um cenário dramatúrgico efetivamente construído para a realização do filme e que permaneceu na comunidade durante alguns meses). Por outro lado, a própria atriz Léa torna a ser presa durante as filmagens. Essa prisão é incluída igualmente na montagem final. E finalmente, há as cenas referentes ao contexto histórico. Distante alguns quilômetros da refinaria, Jair Bolsonaro toma posse. O filme inclui as cenas, feitas pela própria equipe produtora, do dia da posse presidencial, quando a Praça dos Três Poderes é tomada pelo público “verde-amarelo” apoiador do ex-presidente. A história ficcional se passa paralelamente à História oficial. Os mesmos fogos de artifício que iluminam a sede de governo também iluminam a laje da refinaria.

No entanto, este paralelismo gera no filme de Adirley e Joana um estranhamento cognitivo: o tempo da ficção se ramifica e se dobra em torno de si mesmo gerando efeitos não-lineares. A montagem cinematográfica privilegia não uma narrativa de temporalidade linear, mas se desenvolve em torno de eventos singulares, cuja localização temporal é indefinida. Léa, que é presa numa cena e encaminhada ao presídio feminino, reaparece depois livre conversando com seu irmão motoqueiro. Não sabemos se esta conversa acontece antes ou depois da prisão. Ele, o irmão, mostra a Léa a comunidade transformada e eles passeiam pela construção do que será, futuramente, um enorme presídio federal bem no meio da comunidade. Sol Nascente, recentemente recenseada como a maior favela brasileira, é transposta então para um tempo feérico. O estilo de ficção científica periférica, pela qual o diretor Adirley é conhecido, se torna fantástico, como um Mad Max brasileiro ou, ainda melhor, como um novo Bacurau.

 

Mato seco em chamas / Foto: divulgação

 

No entanto, a ficção científica de Mato seco é mais um “mcguffin” do filme. Ela permite embaralhar fato e ficção, o real e a fantasia. Como disse Adirley numa entrevista, para falar de futuro é só ligar uma câmera na periferia. Há neste filme, como nos anteriores, uma “estética da sucata”. Assim como as naves construídas em containers ou em kombis, agora é toda a refinaria que é construída de forma “artesanal”, com os materiais disponíveis. A fábrica de petróleo é movimentada inteiramente por braços femininos, que recuperam para o contemporâneo toda uma nova dignidade para o trabalho físico e manual. A sonoplastia do filme é um elemento fundamental dessa estética. O som incessante das máquinas funcionando ressoa como elemento acústico de atrito e de intervenção de um real material, obrigando a que o próprio contexto histórico (que acentua o trabalho imaterial) pareça fantasioso.

Essa fantasia não serve para borrar a fronteira entre fato e ficção, mas para figurar outra temporalidade que transcorre cortando a realidade histórica dominante. O filme de Adirley e da portuguesa Joana Pimenta (com fotografia e cenografia primorosas) tem a linguagem do corte ríspido (na edição incrível de Cristina Amaral) e do choque estético que contrapõe nossas noções de classe (como na cena do churrasco na refinaria, quando sentimos aflição com as moças comendo com as mãos cheias de graxa). A cena em que a quarta parede cai é uma intrusão diegética súbita do real na ficção. Se os espectadores ficam “chocados” com as personagens fumando ao lado de tanques de petróleo, era essa mesma a intenção dos diretores. Esse choque estético tem um elemento de real que se contrapõe à cena esdrúxula da posse do ex-presidente. Seus apoiadores, em seu culto desvairadamente kitsch, parecem mais irreais do que as personagens ficcionais.

É incrível que filmes como Marte Um e Mato Seco sejam precisamente obras que abordam os modos como a periferia teve que se “virar” no período bolsonarista. Ambas as obras se passam exatamente no mesmo período histórico, quando as periferias brasileiras se defrontaram com o fato da extrema-direita chegar ao Poder. É, no entanto, uma estética sobre a pluralidade dos mundos: cada periferia é um mundo autônomo não só do ponto de vista da realidade, bem como de seu imaginário. No filme de Adirley e Joana estão justapostos na noite seca de Brasília o Poder e a Periferia. A estética da sucata funciona como um modo próprio (ou impróprio) de se trabalhar materiais e signos em reciclagem e para construir outro mundo autônomo em coexistência. Esta obra tem base numa filosofia da gambiarra, numa gambiologia. Isso significa não apenas um elogio ao precário, ou mesmo ao precariado, mas antes a uma ideia de que a obra de arte não é um produto acabado, mas que funciona com “ganchos” ou “puxadinhos” semióticos, com ligações com outras esferas de reprodução da vida, como a economia ou a política, ou ainda com a própria estética. E finalmente entre realidade e imaginário. A estética ficcional “gambiarrada” do filme não é afinal a da tradicional montagem cinematográfica, mas sim a de uma DESMONTAGEM poética do padrão global, hegemônico, da verossimilhança dos paradigmas narrativos dominantes e sobretudo das falácias da ideologia de extrema-direita, com suas conspirações, mentiras e violência.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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151ª Leva - 01/2023 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Marte Um. Brasil. 2022.

 

 

Marte Um é um filme brasileiro dirigido e roteirizado por Gabriel Martins. Foi o vencedor do Festival de cinema brasileiro de Gramado de 2022, ganhando nas categorias de melhor filme de júri popular, júri oficial, direção e roteiro. A produção esteve indicada para representar o Brasil na premiação do Oscar de 2023, porém acabou cortado da seleção final. Gabriel Martins é um premiado diretor da cidade de Contagem, MG, diretor e roteirista dos excelentes Temporada (roteiro e parceria com André Novais, 2019) e No Coração do Mundo (como diretor), entre outros. Marte Um teve ampla repercussão e podemos dizer com tranquilidade que, na exclusão para a premiação do festival americano, quem saiu perdendo foi o próprio festival.

O roteiro aborda a vida de uma família de classe média baixa em Contagem. Há Wellington (vivido pelo ator Carlos Francisco), o pai de família, zelador de um condomínio de classe média alta, onde mora entre outros o ex-jogador argentino Sorín. Wellington é um ex-alcoólatra que frequenta o AAA. É torcedor apaixonado do time Cruzeiro (onde jogou Sorín) e sonha para seu filho Deivinho a carreira de jogador profissional no seu time preferido. Há Tércia (Rejane Faria), sua mulher, doméstica. Tércia fica traumatizada por ser vítima de uma pegadinha televisiva. Ela acredita que esse incidente lhe trouxe uma aura negativa que recai como infortúnio para aqueles com quem se relaciona; Há Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, que já tem um emprego de salário modesto numa escola e que sonha sair da casa dos pais para viver com seu súbito novo amor libertário, Joana, porém teme a reação preconceituosa de seus pais. E há finalmente o garoto Deivinho (Cícero Lucas), adolescente que se esforça no futebol para agradar seu pai, mas que sonha mesmo em participar da expedição Marte Um, projeto que pretende realizar a primeira viagem ao planeta vizinho. Deivinho é apaixonado por astrofísica e gosta de assistir pela internet os vídeos do divulgador negro Neil deGrasse Tyson.

 

Cena do filme Marte um / Foto: divulgação

 

A narrativa de Marte Um é toda tecida em torno dessa família de quatro personagens. Uma das grandes virtudes do filme é o equilíbrio de tratamento entre os quatro protagonistas. Cada um vive a sua vida de forma bastante autônoma, mas há um cruzamento complexo das expectativas e dos afetos. Assim, o sonho de Wellington em ver o filho como jogador profissional de seu time de coração se cruza contraditoriamente com o sonho do filho em estudar astrofísica. A busca de liberdade existencial e amorosa de Eunice se cruza com a luta de seu pai contra o alcoolismo. E há também uma conjugação entre os sonhos utópicos de Deivinho em participar de uma missão espacial e as suspeitas de mau agouro de Tércia, após o episódio da pegadinha.

O pano de fundo, o contexto histórico, é a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. A história se passa nos meses entre a eleição e a posse presidencial. É justamente esse fato que surge como sendo de mau agouro sobre a vida dos personagens: a certeza que num regime de extrema-direita a situação dos moradores das periferias urbanas iria certamente piorar. Assim, a eleição de um presidente funesto é um sinal de azar e pesa sobre a vida de Tércia que, após a pegadinha, se acha vítima de poderes nefastos sobrenaturais. É assim que a Grande História recai sobre as pequenas estórias dos personagens. Como o poeta paraibano Augusto dos Anjos, os personagens de Marte Um também poderiam dizer que “Um urubu pousou sobre a minha sorte”. Tanto os personagens como todos os trabalhadores das regiões periféricas brasileiras tinham razões de sobra para preocuparem-se com a chegada do bolsonarismo ao poder.

 

Cena do filme Marte um / Foto: divulgação

 

Uma das curiosidades marcantes do filme é que ele foi filmado naqueles mesmos meses de 2018 e, no entanto, só está sendo lançado e apresentado ao grande público quatro anos depois, exatamente num momento histórico ao reverso daquele, com a derrota histórica do movimento de direita então vitorioso. Essa diferença temporal entre a produção do filme e sua recepção influi de sobremaneira na sua interpretação. Assim, se por um lado as marcas pessimistas do mau agouro estão presentes nos infortúnios e conflitos que se abatem sobre os personagens, também está presente um fio de sonho e de esperança que os conduz. Um elemento utópico se configura no sonho de Deivinho de participar da missão espacial marciana (projeto que existe de fato sob a direção de Elon Musk, o bilionário americano que comprou o Twitter). Mesmo que essa missão científica seja ela própria signo de uma grande catástrofe (a promessa de colonização de Marte se liga às condições cada vez mais inóspitas da existência no planeta Terra), ao se tornar objeto de desejo de um adolescente pobre da periferia capitalista seu lado negativo é invertido e o pesadelo se torna então sonho.

É este sonho que leva Deivinho a se colocar existencialmente e a construir, com seus próprios dotes de experimentador e com o material recolhido em ferro velho, um telescópio artesanal. Como disse seu diretor Gabriel Martins numa entrevista, Marte Um é sobre a “resiliência” do povo pobre e trabalhador das periferias brasileiras, colocados diante da severa adversidade histórica. É dessa resiliência que vem a força do sonho e do desejo. E é desta mesma resiliência que vem a força do cinema da cidade de Contagem, especialmente aqueles da produtora Filmes de Plástico. Já mencionei aqui em outro ensaio que o cinema de Contagem é um verdadeiro acontecimento, o maior da cinematografia brasileira desde o Cinema Novo. Contagem não produz filmes sobre a periferia com o olhar de fora. É periferia falando e retratando a periferia. Como diz Wellington ao final do filme: “a gente dá um jeito”. http://(https://diversosafins.com.br/diversos/dropsdasetimaarte-6/Os filmes de Contagem são também fruto da luta por sobrevivência periférica, e mesmo com o governo Bolsonaro, a produtora conseguiu produzir muitas obras. Marte Um é um desses “jeitos” estéticos que agora nos restitui o direito de sonhar com outro país.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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150ª Leva - 05/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

 Por Guilherme Preger

 

Alcarràs. Espanha. 2022.

 

 

Alcarràs é um filme de 2022, da cineasta Carla Simon. Venceu o grande prêmio do Urso de Ouro da Berlinale, um dos festivais mais importantes do mundo. A produção é a primeira representante em língua catalã a ganhar este prêmio. A jovem diretora, Carla Simon, também é catalã. Ela viveu a circunstância dramática de ter perdido ambos os pais pela doença da AIDS. Suas primeiras obras abordam o contexto dessa doença, porém Alcarràs não trata desse assunto, embora se debruce sobre os dramas familiares.

Alcarràs é o nome de uma vila no interior rural da Catalunha. O filme aborda a vida de uma grande família – avós, pais, filhos, tios, sobrinhos e agregados – todos dedicados à agricultura familiar ao redor de uma casa. Uma das preciosidades desse filme é a ilustração da exuberante riqueza frutífera do entorno: maçãs, pêssegos, figos, tangerinas, etc. A família historicamente se dedica à agricultura orgânica, sem uso de agrotóxicos. Por isso, os principais inimigos são as lebres que como pragas invadem o plantio e precisam ser mortas a tiros.

Porém, outro inimigo mais insidioso ameaça o cotidiano da família: o futuro. Mais especificamente: a energia solar e as placas fotovoltaicas. A Catalunha é uma região da Europa banhada exuberantemente pela luz do sol. O terreno lembra em parte nossa região do agreste brasileiro. A família mora numa casa em terras outrora comunais. Descobrem que a casa foi adquirida por acordo verbal e que não possuem um documento oficial de registro. Por isso, as terras em volta da casa são cobiçadas para sediar enormes placas fotovoltaicas para captar a luz solar e fornecer energia elétrica. As placas ameaçam assim as plantações que são o sustento histórico da família.

 

Cena do filme Alcarrás / Foto: divulgação

 

Três personagens se destacam: o avô e patriarca, quase sempre calado e angustiado pelo seu “erro” de não ter registrado a casa. Ele é cobrado pelo seu filho Quimet que é o verdadeiro motor tanto da produção agrícola, como da narrativa. Quimet quer apenas continuar o trabalho de sua vida que corresponde a plantar e a vender a produção a um preço justo. Toda a família está envolvida nessa atividade agrícola. Mas a possibilidade de receber renda alugando espaço para as placas fotovoltaicas parece seduzir seu cunhado e sua irmã, com quem Quimet acaba brigando.

E há também os filhos de Quimet e de seu irmão. Há os filhos pequenos, crianças, que se divertem brincando e correndo pelo campo agrícola, sob o sol. Essas crianças são incansáveis e felizes em sua liberdade rural impensável para os habitantes das cidades. Há o filho mais velho Roger, que é o que mais ajuda o pai; Roger gosta da vida de trabalho do campo, e contra o desejo dos pais se recusa a estudar para poder procurar mais tarde uma profissão diferente daquela. E há, finalmente, Mariona, a menina-moça, que é o verdadeiro foco narrativo da trama. De fato, o filme se passa filtrado pela perspectiva de Mariona que observa o conflito entre o pai e os tios, e que ainda possui uma sensibilidade especial para a chegada do tempo e as ameaças que derivam dele. Mariona gosta de dançar músicas contemporâneas ao estilo Tiktok. Ela encarna em seu corpo adolescente o ponto de encontro entre o passado e o futuro. Num certo sentido, Alcarràs é um filme clássico de coming at age, sobre a passagem da infância para a vida adulta, ao acompanhar os passos e os olhos de Mariona.

Apesar do destaque dado a esses protagonistas, um dos trunfos do filme de Carla Simon é o equilíbrio da atenção dada a todos os diversos personagens, pois embora sejam muitos, todos têm sua importância na trama narrativa e a tornam mais realista. A diretora escolheu a fórmula estética da obra semi-ficcional: atores contracenam com não-atores. O ganho em realismo é grande, com a câmera digital acompanhando de perto a movimentação vívida dos personagens, com suas hesitações, angústias e alegrias. Mas aqui é preciso cautela na observação: o apelo mimético dos filmes contemporâneos tem a ver diretamente com a complexidade dos arranjos afetivos e a indeterminação dos problemas abordados e não com uma suposta fidelidade aos esquemas sociais tradicionais.

 

Cena do filme Alcarrás/ Foto: divulgação

 

Em Alcarràs, temos como pano de fundo histórico a relação entre a agricultura familiar orgânica e as necessidades energéticas, em particular do contexto europeu. Normalmente, temos visto a demanda pela chamada transição energética, com o apoio dos governos à adoção das energias renováveis, em particular as de fonte solar. Esta transição energética é colocada como imperativa para que a humanidade consiga se livrar da dependência dos combustíveis fósseis, os maiores vilões do aquecimento global. A energia solar, com suas onipresentes placas voltaicas, é a “menina dos olhos” dos governos preocupados com o desenvolvimento “sustentável”. Mas o filme de Carla Simon traz complexidade a essa questão ao mostrar que o avanço das placas invade as terras dedicadas à agricultura orgânica. Trata-se, sobretudo, de uma disputa pela luz do sol, que é também a luz da vida. Ao misturar essa questão macroeconômica com a história íntima de uma família, a diretora catalã focaliza com sua câmera a imagem de um dilema planetário, conectando magistralmente o local e o global.  Alcarràs não é, portanto, um filme sobre o antagonismo entre tradição e modernidade. A família de Quimet não é a defensora tenaz das tradições locais catalãs; ela é ao mesmo tempo tradicional e moderna, a começar pelo fascínio pelas danças Tiktok, ou a defesa da autoprodução de maconha.

Alcarràs é então uma obra cinematográfica que se coloca no cerne de um grande problema planetário. Pois não se trata de um filme, como tantos outros, que mostra como as transformações tecnológicas impactam os modos de existência mais tradicionais, pois tanto a energia solar como a agricultura orgânica fazem parte de possíveis soluções para o enfrentamento contemporâneo do aquecimento global. É o próprio antagonismo entre tradição e modernidade que é questionado. A família de Quimet não é “tradicionalista”, no sentido de defensora dos velhos costumes. Ela é uma família contemporânea que deseja seguir adiante em seu modo de existência, que é maior do que apenas mais um modo de subsistência. O que o filme de Carla Simon aborda é justamente a beleza e a intensidade desse complexo desafio que atinge a todos os viventes e com o qual temos todos de lidar com nossos próprios meios.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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149ª Leva - 04/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A febre de Petrov. Rússia/França. 2021.  

 

 

O filme de Kirill Serebrennikov, ainda não lançado nas salas brasileiras ou nas plataformas mais conhecidas, participou do prêmio do festival de Cannes de 2021, na concorrência de filmes incômodos, tendo afinal sido premiada nesse ano a obra Titane da jovem Julia Ducorneau, um filme com o qual A febre de Petrov tem bastante semelhança na radicalidade de seu desconforto estético. Para o mais glamoroso dos festivais de cinema globais, que ocorreu no meio do período pandêmico, esses filmes fazem aflorar sentimentos patológicos para as audiências confinadas e socialmente distanciadas por máscaras cirúrgicas e álcool gel.

Serebrennikov é um diretor russo, de cinema e teatro, bastante premiado e com problemas com a justiça de seu país por suas posições políticas. Ele foi contra a anexação da Crimeia e isso acabou resultando num processo no qual um orçamento público obtido por ele foi contestado judicialmente e o diretor acabou sendo condenado à prisão domiciliar, depois revogada. Porém, suas posições em prol do movimento LGBT e sua condenação à recente invasão militar da Ucrânia acabaram fazendo com que perdesse seu prestigiado cargo de diretor do Teatro Gogol de Moscou. Tudo isso demonstra que, nesses tempos de guerra, é importante assistir à produção russa de seus artistas, verdadeiras antenas irradiantes dos anseios populares.

É difícil resumir o feérico roteiro de A febre de Petrov. Petrov (vivido pelo ator Semyon Serzin) pode ser um mecânico de oficina, ou um cartunista que desenha em HQ a vida de um mecânico, ou pode ser ambos. Ele aparece tossindo e fungando num ônibus na cidade de Yekaterinburg lotado num tempo gelado. A história se passa em algum momento dos anos 90 na Rússia pós-soviética. Os passageiros reclamam da traição de Gorbatchov e Yeltsin. Ao sair do ônibus, revoltosos entregam uma metralhadora na mão de Petrov para atirar em cidadãos burgueses numa espécie de fuzilamento sumário. Não sabemos se essa cena é real ou não. Aliás, essa é uma das características do filme: a completa indeterminação entre o que é ficção ou o que é a imaginação alucinada de Petrov, cujo estado febril o deixa em delírios.  Sabemos que ele está separado de sua mulher bibliotecária (vivida pela atriz Chulpan Khamatova, conhecida por sua participação no filme Adeus, Lênin!), com quem tem um filho que também está febril. Sua mulher sofre de ataques de insanidade e espanca um poeta na biblioteca cujo poema a desagradou. Depois, com os olhos revirados tal uma alienígena persegue outro estranho do ônibus para assassiná-lo com uma faca. Esta assassina serial sente ainda vontade de degolar seu próprio filho, dela com Petrov, porém não o faz. Mas não sabemos se esses instintos assassinos de sua mulher talvez sejam outro delírio de Petrov.

 

Cena de A febre de Petrov / Foto: divulgação

 

Em outros momentos, Petrov se encontra com um amigo dramaturgo e encena uma de suas peças, depois vai para a casa dele e o ajuda a se suicidar, puxando o gatilho da arma. Depois se encontra com um amigo, que é pai de uma criança na mesma escola do filho de Petrov. Ambos estão numa caminhonete que serve de rabecão. O nome do amigo é Hades, o mesmo do inferno grego. Eles bebem junto na caçamba do carro junto a um caixão onde está um morto. Petrov está sempre muito mal e sentimos angústia por seu estado de saúde. Ele toma uma aspirina antiga, da era soviética que está fora do prazo de validade. Depois vai para casa de sua ex-mulher, a mesma bibliotecária assassina e descobre que seu filho está com a mesma gripe e com febre bastante alta. Porque o filho não acorda ele parte com pressa para um hospital, mas o carro quebra no caminho e desesperado ele pede ajuda a alienígenas que abduzem seu filho e o curam; assim, na manhã seguinte o filho está saudável para ir numa festa de escola com seu pai. E é na festa de escola do filho que, além de reencontrar seu amigo Hades, Petrov tem encontro com a “dama de mão branca”, que lhe lembra sua mãe. Petrov sonha (ou delira) com ela nua fazendo amor com seu pai e depois lhe levando a uma festa na escola, exatamente como ele faz com seu filho. E por aí segue a história, delirantemente.

Este roteiro fantástico e insólito pode às vezes sugerir um novo tipo de surrealismo, mas não é exatamente esta a estética utilizada por Serebrennikov. É antes um filme cheio de ruídos com uma trilha sonora entre o punk e o metal hard core. Há algo exatamente de hard core, do cinema brutal do servo Emir Kusturica. Brutalismo é uma definição melhor para esse filme que envereda por uma coleção de diferentes registros cinematográficos. Há, por exemplo, o farto uso do plano-sequência, uma estética da qual o cinema russo tem vários experimentos extraordinários. Há muitos travellings, câmera na mão com movimentos vertiginosos, cores exuberantes contrastando com sequências em P&B. Há também vários flashbacks e em muitas cenas os espectadores não conseguem reconhecer a temporalidade narrada. E há muitas cenas que se passam dentro do transporte público russo, seja ônibus ou caminhonetes, com a câmera registrando o cotidiano dos cidadãos russos no período imediatamente após a dissolução da URSS.

 

Cena de A febre de Petrov / Foto: divulgação

 

É um filme de dissolução. A dissolução soviética de um lado, mas também a do cotidiano do capitalismo bruto, sem mediação do Estado, que falido então se decompunha. Por outro lado, essa perspectiva “representativa” do filme não deve nos iludir. Lançado em 2021, em meio ao caos pandêmico, a gripe do personagem e seu estado febril nos remetem a outro contexto bem diferente. O paroxismo alucinatório do roteiro ocorre dentro de um ritmo ofegante, “à bout de souffle”, para lembrar o filme de Godard. Há um clima ficcional “asfixiante” e doentio que remete os espectadores ao mundo contemporâneo da pandemia e da guerra. E, embora a invasão da Ucrânia (condenada pelo diretor) seja posterior à realização do filme, o caos da realidade de Petrov parece também prefigurar a situação do povo russo que é levado à guerra por questões históricas que confusamente estão relacionadas ao período de decadência pós-soviética. Questões políticas e sociais não resolvidas emergem na ficção feérica de A febre de Petrov.

O cinema, embora seja a mais mimética das artes, não representa nada além de sua própria realização como imagem e movimento. O que ele propicia, como toda arte, são os meios nos quais os desejos e emoções coletivos, inclusive o medo, podem se figurar. O filme russo é essa trama complexa na qual a diferença entre realidade e fantasia se esgarça na passagem através da doença do protagonista e o estado febril da sociedade. A febre de Petrov é o portal entre a alucinação pessoal doentia e a história coletiva patológica. O mal-estar da civilização é comum a Petrov, a Serebrennikov e a nós espectadores.  E a conclusão é que a “realidade” retratada no filme é ela mesma inteiramente ficcional e não permite nos situar historicamente. Assim, a fronteira entre fake news, teorias conspiratórias e os fatos sociais também é rasurada. E daí os espectadores percebem que não estão vendo um filme sobre a passagem histórica entre a URSS antiga e a Rússia atual, mas sim com uma obra construída com as vibrações nervosas, febris e paranoides da vida contemporânea nas quais estamos todos jogados.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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148ª Leva - 03/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Drive my car. Japão. 2021.

 

 

Drive my car foi concorrente ao prêmio Oscar de melhor filme e melhor produção estrangeira em 2022, além de roteiro e direção, um feito raro para um filme japonês. Ganhou afinal o prêmio de melhor produção estrangeira. A carreira cinematográfica de Ryûsuke Hamaguchi está toda dentro do século XXI e se torna importante para compreender o trajeto da oitava arte neste novo milênio, particularmente em relação à cultura oriental japonesa. Este filme é baseado no livro de contos Homens sem mulheres, de Haruki Murakami, na costura narrativa entre o conto que dá título ao filme e dois outros contos do mesmo volume. Murakami é um importante escritor japonês, às vezes criticado na terra natal pelo seu ocidentalismo. Sua obra é reconhecida pela confluência entre várias formas e meios de expressão diferentes. O filme de Hamaguchi é fiel a essa estética: consiste numa intricada construção semiótica entre literatura, cinema, teatro e música erudita. Por outro lado, essa construção heterogênea torna possível, numa obra de 3 horas de extensão, a afluência de delicados e entrelaçados sentimentos das personagens.

O filme abre (atenção para possíveis spoilers daqui para frente) num longo prólogo de 40 minutos. Entramos (os espectadores) no meio da vida íntima e amorosa de um ator, Yusuke Kafuku (vivido por Hidetoshi Nishijima), e sua mulher Oto (Reika Kirishim). Ela, uma roteirista, que durante os atos sexuais do casal tem os seus melhores momentos de inspiração, inventando histórias (este trecho do filme remete ao conto Sherazade de Murakami). O casal constrói sua química sexual baseada nesse estratagema criativo, mas aprenderemos que eles compartilham também de um grande trauma, a perda de uma filha quando pequena; ao mesmo tempo, descobriremos que Oto costuma ter amantes, preferencialmente entre os atores que encenam suas peças. Com a morte súbita de Oto, termina o prólogo e é então que o filme começa realmente, com os créditos aparecendo na tela e a trilha de abertura. Na sequência, dois anos após a morte de Oto, Yusuke é convidado para dirigir a peça Tio Vânia, de Tchekhov, obra que ele conhece bem, em residência na cidade de Hiroshima. O ator possui uma fita de áudio com os trechos da peça narrados por sua falecida mulher, com os espaços vagos das falas do protagonista da peça, de tal modo que ele pode memorizar as falas do personagem ao preencher os tempos vazios da gravação. Yusuke gosta de fazer isso enquanto dirige, mas ao chegar em Hiroshima, por exigência de contrato, é obrigado a aceitar motorista profissional, pago pela produção do festival; motorista que vem a ser Misaki Watari (Tôko Miura), uma jovem de 23 anos, que se revela excelente condutora.

 

Drive my Car / Foto: divulgação

 

Entre os selecionados para a peça, seleção do próprio Yusuke, está Koji, jovem ator que foi um dos amantes da falecida mulher do diretor. Koji assume justamente o papel principal na peça, aquele de Tio Vânia, apesar de não ter a idade apropriada, mas devido ao seu talento. Na narrativa então se desenvolve uma relação conflituosa e ambivalente entre esses dois homens, o diretor e o ator, mediada pela lembrança de Oto. Além disso, a peça é multilíngue e há uma atriz que fala em mandarim e outra que se expressa em libras. Esse caráter multilíngue é um dos interesses tanto da peça, que vemos ser montada aos poucos no correr da narrativa cinematográfica, como do próprio filme. Isso nos faz lembrar do conceito de heteroglossia do linguista russo Mikhail Bakhtin, que significa o plurilinguismo de idiomas e a multiplicidade de vozes presentes na literatura que Bakhtin chamou de “dialógica”, sobretudo em seus estudos sobre a obra do escritor Dostoievski. Já se chamou a atenção para a proximidade entre o cinema japonês e o romance literário russo, sobretudo na obra do grande diretor Akira Kurosawa. Hamaguchi traz para o cinema a aproximação com a obra de Tchekhov, que é paradigmática dos dilemas da Modernidade, entre a frustração e a impotência do indivíduo frente aos desejos que carrega e a ordem social que precisa seguir.

A peça de Tchekhov serve como um substrato dramático para o filme. As tensões entre Yusuke e Koji, as frustrações, o sentimento de culpa e de vergonha dos personagens, a mistura entre admiração e despeito, e entre competição e cumplicidade, ou entre maturidade e juventude, todos esses elementos relacionais aparecem sob a forma de silêncios, vazios e hesitações, filtrados pela encenação do drama russo; abaixo do roteiro cinematográfico está a peça de Tchekhov que sustém os vazios da narrativa, como na fita de áudio que Yusuke ouve com a voz de sua falecida esposa. As duas obras, Tio Vânia e Drive my Car, estão assim conectadas em camadas de significação. Numa das cenas em que a companhia teatral encena a peça ao ar livre, um ato da peça aflora dando sentido à relação vivencial entre duas atrizes. É menos a incorporação de personagens do que a correlação de sentimentos aquilo que se desvela. Com isso redefinimos a própria noção de mimese estética: não é a arte que imita a vida, mas, ao contrário, a arte que permite a articulação (ou a emergência) das relações existenciais. Mas além dessas duas obras, há também a costura com os três contos de Haruki Murakami. A grande virtude da obra de Ryûsuke Hamaguchi é esta intrincada costura de tecidos estéticos, entre cinema, teatro e literatura, na qual os sentidos parecem mover-se para várias direções.

E a principal linha de fuga do filme é a personagem de Misaki, a motorista que serve a Yusuke durante a preparação do espetáculo. É ela, sobretudo, que faz com que o foco narrativo se distancie da rivalidade entre os personagens masculinos. Japonesa da região do Norte, também marcada por um trauma familiar, ela “só sabe dirigir”. E enquanto conduz o carro, na referência que dá título ao filme, ela ouve a fita com a gravação em áudio de Tio Vânia. Ela é testemunha da disputa entre os homens pela lembrança da mulher morta, através dos diálogos tensos que ocorrem durante os trajetos de carro. E finalmente ela é uma assistente da peça que está sendo montada. Assim, ela está na posição do próprio espectador do filme e atua como uma mediação entre a intriga ficcional e o contexto mais amplo e vivencial de sua recepção estética.  Quando ela e Yusuke partem em longa viagem ao norte do país para conhecer a vila onde viveu, a personagem intervém no fio narrativo principal fazendo-o desviar de rota. Há então uma imbricação entre sua história de vida, a vivência de Yusuke, o drama de Tchekhov e o destino da montagem teatral. Essa deriva do roteiro (que também implica a associação com os contos de Murakami do volume mencionado) favorece a imersão do espectador no espaço-tempo construído do filme.

 

Drive my car / Foto: divulgação

 

Tudo se conjuga num jogo entre a audiência e a participação. E, de fato, no filme de Hamaguchi, há uma dedicação ao trabalho de escuta e de observação. A importância dada aos gestos, tão presente nas relações de cortesia oriental, relativiza assim o suposto ocidentalismo tanto de Murakami quanto do diretor. Compreender o outro a partir de seus gestos ou em suas palavras se torna o elemento mais enfático dessa obra. Pode ser tanto de Yusuke em relação às histórias de sua mulher contadas durante e após o ato sexual, dos atores que observam seus parceiros atuando na peça, ou de Misaki que observa a disputa viril entre ator e diretor, ou ainda enfim dos espectadores do filme que reconstroem na imaginação todas essas peças do enredo. Esse trabalho de observação é ressaltado pela sua duração longa e na temporalidade vagarosa das cenas. E vai no sentido contrário da compressão de tempo narrativo tão frequente no cinema hegemônico contemporâneo.

Os contos de Murakami são conhecidos por essas derivas na intriga ficcional, que levam a finais inconclusos e vagos, e nesse aspecto há aqui convergência entre literatura e cinema. Drive my car é um caso exemplar de cinema complexo, no qual é mais importante a perspectiva da visada do que encontrar uma explicação para o que é visto. Não é tanto por uma questão de mistério a ser decifrado, mas por algo que, sendo complexo, exige do espectador a aceitação do que permanece inexplicável.  No título de um dos contos do escritor japonês, Kino, que também serve de mote para o filme de Ryûsuke Hamaguchi, há tanto referência ao nome do protagonista japonês da narrativa literária, quanto ao próprio cinema e ao plurilinguismo (Kino significa cinema em alemão). Por isso, não é surpresa quando a realidade da situação pandêmica contemporânea adentra a narrativa ficcional subitamente. Não se trata de uma cena que se pretenda enigmática, mas de uma saída do ficcional para o contexto mundano e histórico global. Tal fuga confirma a costura delicada da trama realizada por Hamaguchi, na qual estão conjugados cinema, literatura e teatro, ficção e realidade, imagem e áudio, personagens e espectadores.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Druk – Mais uma Rodada. Dinamarca. 2021.

 

 

Druk – mais uma rodada é o último filme (2020) de Thomas Vinterberg, diretor remanescente do movimento dinamarquês de cinema Dogma, junto com a estrela Lars von Trier. Druk recebeu o prêmio de melhor filme em língua estrangeira do Oscar deste ano (2021), um prêmio inédito para diretores provenientes do Dogma. Em geral, os filmes oriundos das experiências estéticas desse movimento estético não parecem se encaixar nos moldes cinematográficos reconhecidos pelos jurados do prêmio norte-americano. Os cineastas dinamarqueses prezavam a experimentação estética com a iluminação natural, a câmera documental que intervém na imagem para quebrar a ilusão da “quarta parede” cinematográfica, e sobretudo os temas espinhosos e inquietantes. O fato de Druk ter superado as expectativas junto ao grande público não significa necessariamente que os diretores dinamarqueses “se renderam” ao cinema tradicional, mas antes que suas inovações experimentais foram incorporadas ao “cinemão”.

Sobre muitos aspectos, Druk lembra o filme de 2012 de Vinterberg, A Caça, filme sobre o qual também escrevi uma resenha. Entre os dois filmes, o diretor dinamarquês realizou outros dois longas, mas Druk está ligado por irmandade a A Caça. Logo na abertura no filme de 2012, por exemplo, vemos uma confraternização entre homens ao redor de um lago de uma pequena cidade dinamarquesa. Druk também abre com uma confraternização semelhante, porém desta vez entre jovens adolescentes, rapazes e moças, bebendo e carregando muitas garrafas de bebida alcóolica, que depois irão distribuir no transporte público, até um dos rapazes ser abordado pela polícia.

Druk também é protagonizado por Mads Mikkelsen, o mesmo ator protagonista de A Caça. Também como neste filme, ele agora interpreta um professor de história para o ensino médio (no filme de 2012 o protagonista era professor numa escola infantil). Mikkelsen é um conhecido ginasta e dançarino dinamarquês, que mais tarde se tornou um ator premiado de cinema e de seriados. Como se verá, essa característica se mostrará importante neste último filme. O professor Martin, interpretado por Mikkelsen, aparece deprimido e incapaz de estimular seus alunos a um melhor desempenho escolar. Logo no início, ele é cobrado pelos pais desses alunos que acham que seus filhos não terão um desempenho suficiente para ingressar na faculdade por causa de sua atonia. Num jantar com seus colegas de trabalho, Martin, que também enfrenta problemas em seu casamento, acaba por se emocionar e chorar, o que provoca em seus amigos de longa data a vontade de ajudá-lo.

 

“Druk” / Foto: divulgação

 

E é então que o roteiro do filme entra em sua questão mais delicada, pois o grupo de amigos decide se fiar numa suposta hipótese de psicologia de que haveria um nível “normal” de álcool no sangue, mas que estamos cotidianamente sempre abaixo desse nível. Mesmo que essa extravagante hipótese exista, ela funciona quase como uma anedota de bar: devemos beber todos os dias para manter uma taxa normal de álcool. A verdade é que o quarteto de professores entra de cabeça nessa ideia e eles passam a experimentar um consumo diário de álcool. E assim, uma hipótese incongruente, ou mesmo inverossímil, passa a ser um dos principais argumentos do filme.  E o que acontece surpreendentemente é que seus desempenhos realmente melhoram, como professores e homens.

Podemos questionar se uma hipótese desse tipo seria capaz de convencer professores de várias disciplinas a participar de um experimento envolvendo consumo diário de álcool. Essa ideia, no entanto, funciona como um “mcguffin”, o pretexto que move toda a trama. Inverossímil ou não, é este argumento que alimenta a narrativa e faz com que os quatro principais personagens sejam conduzidos a seus destinos, como pessoas e como grupo. De toda a maneira, o alcoolismo é um problema grave na Dinamarca, de modo que já há uma disposição normalizadora a se aceitar sugestões como a apresentada no filme. Mas aos poucos, este problema de verossimilhança se torna uma questão menor, pois o desdobramento narrativo irá nem confirmar nem rejeitar a hipótese, mas complexificá-la bastante.

Assim, Martin, o protagonista vivido por Mikkelsen, deixa de ser um professor enfadonho para se tornar o mestre entusiasmado e entusiasmante de seus alunos. E melhora também sua vida conjugal na qual se sentia ausente. Os quatro personagens principais todos têm sucesso na primeira fase desse experimento “entre amigos”, e ao mesmo tempo conseguem incluir seus alunos nesse sucesso. E passam, cada um deles, a viver mais bem dispostos, quando recuperam uma alegria jovial. Em certo sentido, Druk é basicamente um filme sobre homens de meia idade que através do álcool recuperam um sentimento de juventude, inclusive de potência sexual. Numa sociedade regulada por cobranças e medidas, o álcool serve para “afrouxar o controle”. E este, não o alcoolismo, é o verdadeiro tema do filme de Vinterberg: na sociedade regida pelo princípio do desempenho, pela lógica do controle, pela meritocracia e pela cobrança individualizada, há pouco espaço para o sentimento de êxtase.

E é exatamente por isso que a partir de um determinado momento eles aceitam “dobrar a aposta” e aumentar a dose de álcool para além da sugerida. E, como seria de esperar, é a partir desse ponto que os problemas começam e a experiência desanda. E o diretor com sua câmera interveniente persegue seu quarteto principal como diante de um experimento científico. O fato de que sejam quatro personagens com situações vivenciais distintas, permite mostrar que, ao ultrapassarem a medida recomendada, já não conseguem mais se autocontrolar. O mais frágil do grupo então se perde nesse processo. Mas a maior virtude da obra de Vinterberg é não moralizar jamais a sua história, nem aceitar que sua câmera, que acompanha a vida dos personagens, funcione como juiz e o espectador como júri.  Para cada um deles, há caminhos e destinos diferentes.

 

“Druk” / Foto: divulgação

 

Para Martin, o protagonista, o teste é trazido para sua vida conjugal. Ele se considera um marido ausente e um homem falho. É interessante que, também à semelhança do filme A Caça, Druk aborde um círculo especificamente masculino, a partir de uma perspectiva claramente androcêntrica. Mas esta perspectiva, assumida pela montagem, não o torna necessariamente machista. A perspectiva androcêntrica é sóbria e procura não ser sexista. A única cena de sexo do filme ocorre dentro de um perfil tradicional heteronormativo conjugal, o que é espantoso para um filme vindo da linha Dogma, na qual sempre foram abordadas as formas não tradicionais da sexualidade. Um dos principais temas do filme é justamente enfocar os dilemas da sexualidade masculina de meia idade, faixa na qual se encontram todos do quarteto principal. O sentimento de fracasso, a perda de libido, a métrica dos sistemas de controle são problemas observados por vieses masculino e etário. Nesse ambiente, o álcool é um elemento de perturbação que funciona para o bem ou para o mal. Ou melhor ainda, para o bem E para o mal.

Essa recusa de Thomas Vinterberg de julgar o consumo excessivo de álcool acaba sendo de grande alcance. Ela permite não demonizar a substância, mas colocar o peso da objetiva sobre as relações e a maneira de cada personagem ligar com sua experiência. E nisso a perspectiva inclui tanto os adultos quanto os jovens, pois esses também participam do experimento. Aliás, o diretor menciona numa entrevista que os jovens coadjuvantes do filme foram colegas de sua filha prematuramente falecida num acidente de automóvel. É a ela que o diretor dedica sua obra. É, portanto, com essa nota de tristeza que a sublime cena final se conecta com a cena inicial. Para além do luto e da melancolia, e contra a hipótese psicologizante assumida pelos personagens, o filme termina com um olhar mais psicanalítico. A cena final é a vitória do júbilo do viver contra seu controle normativo. Nós, homens e mulheres, jovens e adultos, viemos à vida para gozá-la, e o gozo está bem além do princípio do prazer e da realidade.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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144ª Leva - 04/2021 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Dead Pigs. China. 2018.

 

 

Uma diretora chinesa de sucesso que é chamada para os Estados Unidos para fazer um filme americano de grande estúdio. Não, não estamos nos referindo à atual ganhadora do Oscar, a diretora Chloé Zhao, de Nomadland. Estamos falando de Cathy Yan, diretora cujo filme de estreia é Dead Pigs (2018). Cathy fez sucesso no festival de Sundance nesse mesmo ano e depois foi convidada para dirigir o filme Aves de Rapina (Birds of prey) do grande estúdio DC Comics. Dead pigs foi lançado agora para a plateia global via plataforma de demanda MUBI. Embora tenha nascido em Xangai, Cathy Yan mora nos EUA. Apesar disso, seu primeiro filme aborda sua cidade e país natal, Xangai. É uma comédia falada em mandarim, produzida com o estado da arte da tecnologia, que traz o cotidiano e os conflitos da China contemporânea da maneira mais franca quanto possível.

Não gostaria de realizar aqui uma comparação entre Nomadland e Dead Pigs, que são filmes quase diametralmente opostos, apesar da coincidência de situação de suas diretoras. A vitória do filme de Zhao no Oscar faz sua obra estar sendo bastante comentada. No caso da obra de Yan, no entanto, apesar da excelência de sua produção, é uma obra bem menos mencionada. No entanto, em termos de geopolítica, no momento mesmo em que voltamos a ingressar em um novo tipo de Guerra Fria econômica entre duas superpotências, esses dois filmes tornam-se de grande importância sociológica e histórica. A única comparação que arrisco é a curiosidade do contraste entre ambos: enquanto Nomadland investiga o nomadismo dos atingidos pela crise econômica americana, Dead Pigs observa, numa grande cidade chinesa, uma das maiores do mundo, o desejo de permanência e habitação, numa sociedade em que, mais do que os habitantes, o ambiente parece velozmente se alterar. Em outras palavras: no primeiro filme, as pessoas se mudam enquanto a sociedade está estaticamente congelada em seu consumismo sem remédio. No segundo filme, as pessoas querem se fincar às suas raízes, mas parecem levadas pela voragem do progresso acelerado.

Dead pigs é baseado em fatos reais: em 2013, centenas de carcaças de porcos apareceram boiando no rio que corta a cidade de Xangai, durante vários dias. Descobriu-se que criadores de porcos estavam jogando seus porcos misteriosamente mortos no rio à noite, clandestinamente. Mortes misteriosas de porcos na China são sempre um caso de apreensão, em função das epidemias. Até os dias de hoje a causa da morte dos porcos se mantém não inteiramente esclarecida. Houve boatos de envenenamento na ração dos animais ou na água do rio, ou de uma misteriosa infecção suína que, no entanto, não se propagou para os humanos. No filme, Wang, um dos protagonistas da história, é criador de porcos e perde toda sua criação no misterioso incidente. Tal como nos fatos verídicos, Wang também se livra clandestinamente de seus porcos mortos. Trata-se de um momento de grande infortúnio para o personagem, pois ele também perdeu todo seu dinheiro, tomado emprestado, na Bolsa de Valores, seduzido pelas perspectivas de enriquecimento especulativo fácil. Wang torna-se assim endividado e é cobrado por suas dívidas pelas gangues chinesas de agiotas.

 

Dead Pigs / Foto: divulgação

 

Wang precisa recorrer à ajuda de sua irmã, Candy Wang, que é a principal protagonista do filme. Ela é vivida pela grande atriz internacional Vivian Wu, conhecida do público desde o Último Imperador, de Bertolucci, nos anos 80. O nome de Candy Wang ressoa com o de Cathy Yan, da diretora, o que não é acidental. Candy é a principal cabelereira de um salão de beleza. Seu lema é que não existe mulher feia, mas apenas preguiçosa. Mas o drama de Candy, solteira, é que ela vive sozinha na casa que pertenceu há décadas à sua família. Havia toda uma vizinhança com quem ela cresceu, porém agora sua casa é a única que resta, isolada no meio de um aterro sanitário de destroços, num imenso terreno que foi comprado por uma empreiteira chinesa. Esta empresa planeja, em parceria com investidores americanos, construir no lugar um empreendimento residencial temático, como se fosse numa Espanha romanticamente andaluza. A casa de Wang é a única que não foi vendida e ela se recusa não só a vendê-la, mas a se mudar do lugar onde nasceu e cresceu, mesmo degradado. Acontece que seu irmão está endividado e precisa que Candy venda a casa para pagar suas dívidas, sob o perigo de pena de morte nas mãos da gangue de agiotas. E aí está criado o conflito de família.

Há também o jovem Wang Zhen, filho de Wang e sobrinho de Candy. Ele trabalha num restaurante de luxo em Xangai, porém mente a seu pai que é um jovem bem sucedido. Zhen se apaixona pela jovem rica Xia Xia, que é filha de um milionário chinês. Esta sofre um acidente de carro ao atropelar um vendedor de melancias. Ela pertence à classe dos novos ricos chineses, cujo destino é estudar fora, e que vivem uma vida de luxo consumista num país comunista. Com Wang, Candy e Zhen está formado o núcleo familiar da trama.

Uma das grandes virtudes da narrativa é entrelaçar à vida desses personagens os principais dramas das imensas transformações da China contemporânea. Wang é um criador de animais que é ao mesmo tempo um jogador da bolsa de valores. Ele está entre a vida rural e urbana, sendo o liame entre os dois polos da economia chinesa. Ele se diverte ao comprar óculos de imersão virtual 3D, ao mesmo tempo em que gosta de estar com amigos em jogos de tabuleiro tradicionais chineses. Sua falência é também a destruição de um estilo de vida tradicional popular, espremido entre as dívidas financeiras e as cobranças mafiosas de agiotas. Candy, como dona de um salão de beleza, a cada manhã reúne suas funcionárias para a tradicional dancinha de exaltação nacionalista. Ela é solitária e suas principais companhias são as pombas que alimenta em seu viveiro. Assim como seu irmão é vítima da especulação financeira, Candy é vítima da especulação imobiliária. Ela não quer deixar o lugar em que criou raízes e que se vê agora degradado. Já Zhen é um jovem que quer subir de vida, mas se vê às voltas com as grandes diferenças de classe que surgem num país outrora igualitário. Essas diferenças de classe interferem não só no seu orgulho (pois é humilhado por clientes ricos), mas também em sua vida amorosa quando se apaixona por uma jovem que é bem mais rica e que já tem valores bem diferentes.

Dead Pigs desenvolve inicialmente uma montagem vertiginosa entre esses mundos, de modo que o espectador também se vê tão desorientado quanto os chineses de Xangai. O tom é de comédia, porém ácida e auto-irônica, muitas vezes burlesco. Nisso, um dos personagens é também importante. É o arquiteto americano Sean. Ele está na cidade como parceiro dos chineses para a construção de condomínios residenciais temáticos. Sean é um romântico da arquitetura, mas os chineses querem o espetáculo, a simulação e a ostentação que julgam características tipicamente americanas. Os chineses querem ser melhores do que os americanos no próprio sonho americano. O filme sugere que a guerra comercial entre americanos e chineses esconde parcerias e acoplamentos mais subterrâneos ou menos aparentes. Numa das passagens do roteiro, Sean tenta uma abordagem mais “humanista” para justificar a desapropriação dos terrenos antigos para a construção de novos condomínios, mas é como se ele estivesse se expressando numa linguagem desconhecida e quase poética, e o resultado é uma situação totalmente constrangedora e fora-do-lugar, mas que inesperadamente funciona.

 

Dead Pigs / Foto: divulgação

 

Apesar do tom afetivo, a obra de estreia de Cathy Yan é bastante corajosa quando traz à cena os principais dilemas da vida chinesa que ambiciona se tornar a nova superpotência global. O filme nada censura sobre os reais problemas dos chineses de Xangai, tendo que se ver com a violência de máfias, a iminência cotidiana de uma nova epidemia, a crescente divisão de classes, e a soma das especulações financeiras e imobiliárias que estão intimamente conectadas, como o filme sugere. O pano de fundo histórico para todos esses problemas é o grande “Salto para Frente” do crescimento chinês, o maior de toda a história da humanidade. Na cena clímax do filme, em torno de um conflito que parece insolúvel, a saída do enredo é apresentar uma canção popular chinesa cantada por quase todo o elenco. O lirismo da canção pacifica e “supera” o conflito. Nesse momento de metalinguagem, o filme se volta para si mesmo, mas esta saída não é a mais fácil. Ela é antes a expressão de que os gigantescos problemas que os chineses comuns enfrentam diante das transformações incessantes não têm mesmo como ser resolvidos no plano individual. É nesse momento, ou nessa encruzilhada, que a potência da linguagem artística intervém. Ela não cria uma situação fantasiosa na qual os problemas magicamente desaparecem. Ela recorre e acentua o paradoxo da situação para mostrar que, em vez de simplesmente negar o conflito, é preciso usá-lo como a fonte que impulsiona tanto a História, com letra capital, quanto a pequena história individual e invisível, real ou imaginária, das pessoas que são exatamente comuns porque se reconhecem num momento de beleza compartilhada.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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143ª Leva - 03/2021 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Notturno. Itália/França/Alemanha. 2020.

 

 

Notturno (2020), de Gianfranco Rosi, é uma obra não-ficcional que aborda a guerra da Síria. O filme foi montado pelo diretor ítalo-americano com material recolhido durante três anos de gravação na região do Curdistão entre Turquia, Iraque, Líbano e Síria. A obra foi apresentada no festival de Veneza de 2020 e disponibilizada pela plataforma de vídeo sob demanda MUBI recentemente.

O tema de Notturno é o sofrimento das populações civis com o desastre humanitário da guerra da Síria, sobretudo em relação à ação bárbara e genocida do grupo extremista Estado Islâmico (conhecido pelo acrônimo ISIS). Mas também aborda os atingidos pelo extermínio étnico do governo de Saddam Hussein, que precedeu a guerra da Síria, sobretudo em relação à população curda, mas não apenas ela.

No entanto, Notturno não é realmente um documentário, como frisa seu diretor na entrevista com o diretor mexicano Alejandro Iñarritu que acompanha a versão do filme na plataforma MUBI. O diretor faz questão de dizer que não documenta, mas filma. Em boa parte de seu testemunho no making off ele enfatiza sua opção pelo registro direto da imagem contra a ideia de que faz um documentário.

E, de fato, não há roteiro aparente nesse filme. Apenas as cartelas de abertura nos situam no conflito que acontece numa região outrora ocupada pelo império Otomano e que, após a sua queda, passou por diversas guerras e conflitos de reclamação territorial. O povo Curdo, de imensa população, até hoje não tem um estado nacional, sendo uma região dividida entre pelo menos 5 países (Irã, Iraque, Turquia, Síria e Líbano).  No restante do filme, no entanto, sem qualquer tipo de narração, somos apresentados a uma montagem disparatada de cenas cujo contexto e localização não conhecemos. Temos que nos localizar apenas pelos testemunhos (nos quais se incluem os de crianças órfãs). A deslocalização faz com que o Curdistão seja uma terra sem geografia e fronteiras e Notturno um filme fronteiriço, no qual o deslocamento é seu motivo cinematográfico principal.

 

Cena de “Notturno” / Foto: divulgação

 

A dificuldade do espectador de se localizar nas cenas vem justamente desse aspecto fronteiriço que formalmente (in)determina o filme. Pois a obra explora também a fronteira entre a ficção e a não ficção. Somos levados a refletir sobre a função da perspectiva nesse caso. No cinema ficcional, sobretudo nas produções mais comerciais, a câmera fica dissimulada como se não existisse. O que aparece na tela quer se impor como se não houvesse sido filmado, por mais inacreditável que apareça. Num certo sentido, a câmera é a própria tela e além dela não existe mais realidade. O espectador está diante da tela como se também ele não existisse. A câmera do cinema comercial aponta para o espectador a sua metralhadora de 24 ou 30 imagens por segundo para atingir sua sensibilidade. Mas no cinema não ficcional, a câmera invade a cena e é uma parte dela. A câmera é uma intrusa e traz junto com ela o olhar do espectador. É a técnica do “kino-eye”, da câmera-olho de Dziga Vertov, na qual a câmera não focaliza objetos, mas é ela mesma objetiva. Ela participa da cena, transformando-a. Por intrusa, a câmera deforma parte da cena, mas sabemos que além dela há mais imagem, imagens do mundo, que é mais “defletido” do que “refletido” pela câmera-objetiva.

Nas primeiras cenas de Notturno, acompanhamos um guarda-guerrilheiro por uma estrada em sua motocicleta. Depois ele entra num bote e vai para o meio de um lago. Anoitece e torres de petróleo no horizonte jorram fogo. O guarda age como se a câmera não estivesse ali próxima, em outro bote. Esse modo de operar se repete ao longo de todo o filme quando os não atores são filmados em suas atividades diárias, sem se importar com a câmera que está próxima deles os enfocando.  Há uma espécie de pacto ficcional entre o diretor Giafranco Rosi e suas personagens. É assim que ele pode entrar na intimidade das guerrilheiras curdas, verdadeiras encarnações das amazonas guerreiras, não só nas suas atividades de vigilância constante, mas também na intimidade do dormitório. Esse pacto ficcional entre diretor e retratados mostra que esta obra recorta também ela uma fronteira, desta vez entre a ficção e a não ficção. É por isso que Notturno não é um documentário. Ele é, antes de tudo, como no cinema de Dziga Vertov, uma montagem de cenas. É também a prova que, da realidade mais crua e nua, a ficção pode se instalar não como uma obra de arte estética, mas como uma operação de dar sentido ao que não tem sentido, de organizar o absurdo da guerra civil, do genocídio, da tortura e do sofrimento extremo e desumano.

Por isso a gravação no sanatório psiquiátrico de Bagdá é tão importante. Lá há o registro da encenação de uma peça teatral entre os internos sobre a história do Oriente Médio. Esta peça no filme de Gianfranco é um verdadeiro “mise en abyme”, uma ficção dentro da ficção, mas que traz a verdade mais real. A terapia cênica é uma oportunidade aos internos do sanatório de se situarem em meio ao caos e à desordem extremos e é também a forma com que os espectadores de Notturno podem se situar na montagem aparentemente desconexa. A ficção é, nesse sentido, mais real do que a realidade, cuja destruição provoca traumas psíquicos e dissonâncias cognitivas.

 

“Notturno” / Foto: divulgação

 

Entre as cenas iniciais de Notturno, há duas bem contrastantes. Num primeiro momento, soldados, nas luzes iniciais da aurora, correm em círculo em torno de um pátio no meio de um quartel militar. A câmera está parada e registra a circulação em blocos dos soldados que a cada passada de seu treinamento gritam pausadamente “uh”, como um grito de guerra e de esforço. A circulação precisa como um relógio da marcha não se interrompe, como num circuito infernal. A seguir, o filme de Gianfranco acompanha mães islâmicas numa visita a um presídio no Iraque onde Saddam Hussein colocava seus inimigos para torturá-los. Saberemos que aquelas são mulheres que perderam seus filhos assassinados naquele presídio. Elas circulam aleatoriamente nas alas do presídio abandonado e se concentram afinal numa das salas onde ficou preso o filho de uma delas. Lá entoam um canto fúnebre. A cena nos emociona para o que tem de universal: a dor inconsolável das mães que perderam seus filhos numa guerra injusta e absurda. O que essas duas cenas têm de contrastante entre os soldados que se preparam para a guerra e as mães que lamentam suas mortes e desastres é a oposição entre o circuito infernal dos primeiros e a dança fúnebre das mães. Ou seja, a oposição entre a repetição e o irreparável.  Assim, o título Notturno nos vem com sua carga metafórica concreta: não apenas a noite sombria da dor, mas também a exigência de um not-turno, a recusa do retorno ao conflito absurdo.

O filósofo Walter Benjamin dizia que a fotografia torna bela até a fome e a guerra. Não devemos ler isso como uma crítica necessariamente negativa do filósofo alemão que, como sabemos, era um amante da arte fotográfica. Notturno, de Gianfranco Rosi, também faz usos de filtros de cores tarkovskianos para tornar sublimes as paisagens desoladas e devastadas do Oriente Médio. Em vez de embelezar a guerra e o sofrimento, ou de dar sentido ao absurdo, a sublimidade das imagens opõe a vastidão cromática da paisagem à pequenez da irracionalidade humana. É um filme sobre a intimidade daqueles que sofrem a guerra, que fizeram um pacto ficcional com o diretor para permitir que a câmera percorra as linhas humanas da História.  Essa História tem algo de absurdo, mas não de aleatório. Ela decorreu de escolhas e ações humanas. Suas consequências dramáticas também são humanas. A paisagem física é assim retratada como um horizonte de fuga do absurdo. A amplidão do horizonte é também a amplitude das alternativas humanas e das possibilidades da História, que deve se libertar dos seus ciclos infernais de repetição para enveredar por caminhos múltiplos de devires outros.

 

 


 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.