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88ª Leva - 02/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte I

Por Claudia Rangel

 

Jogo de Cena. Brasil. 2007.

 

 

“For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way”
(Claude François/Jacques Revaux/Paul Anka – 1967)

 

Eu gostaria de falar especialmente sobre Jogo de Cena, um filme do Eduardo Coutinho que me marcou muito. Talvez porque ele seja um filme sobre mulheres, feito por um homem que possuía a incrível capacidade de ouvir as pessoas para além do que elas dizem. E talvez porque ali eu tenha me identificado profundamente com cada uma daquelas histórias contadas e recontadas por aquelas mulheres. E talvez porque eu seja uma mulher e sinta uma enorme necessidade de entender o que é ser uma mulher estando no mundo. Neste mundo marcado por milhares de anos de dominação masculina, no qual a cada meia hora uma mulher é morta no Brasil (dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Aplicada).

Mas o fato é que eu queria falar de Jogo de Cena e revi o filme para lembrar alguns trechos e, principalmente, reencontrar os elementos que nele me impactaram tanto da primeira vez que o vi. E ao revê-lo, com os olhos de releitura e do distanciamento, entendi outra coisa para além do fato de Eduardo Coutinho ser um arqueólogo de almas. Entendi que, na verdade, ele é um desnuda-dor de almas, e que, ao entrevistar uma pessoa (as mulheres de Jogo de Cena ou qualquer outro personagem real), ao mesmo tempo em que ele usa sua capacidade de entrevistador para que o entrevistado se sinta à vontade e abra seu coração, também faz com que o entrevistado, de certa forma, se represente dizendo aquilo que tem a dizer. É um jogo que lembra o poema do Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor, e finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. Esse é o tal Jogo de Cena, que ele deixa explícito no filme ao colocar em diálogo os depoimentos de mulheres e as representações feitas por atrizes desses mesmos depoimentos.

Para quem não teve oportunidade de ver o filme, nele algumas mulheres são levadas a um palco de teatro e lá, diante de Coutinho e de costas para a plateia vazia, contam suas histórias. São diversas mulheres e diversas histórias que depois são recontadas por diversas atrizes. Para filmar Jogo de Cena, Coutinho usou uma estratégia inusitada num documentário publicando um anúncio com os seguintes dizeres: “Convite. Se você é mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias para contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos.” Além do local e horário do teste, acrescido dos telefones da produção, o anúncio nada explicava. Esse convite abre o filme.

O que torna o jogo mais instigante e emocionante é que algumas atrizes são muito conhecidas de nós (Marília Pera, Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Mary Sheila), enquanto outras são totalmente desconhecidas. Por isso, em muitos momentos, nós não sabemos se quem está falando é o personagem real ou o fictício (e, às vezes, chegamos a duvidar de que as atrizes estão contando a história de outras e não a sua própria história). Principalmente porque, em alguns momentos, a interpretação parece mais convincente que a narração real da história, e o real e a representação do real se confundem de tal maneira que já não sabemos mais quem conta qual história, pois o que Coutinho deixa claro no documentário é que todas as histórias são narrativas e, como tal, são representações, são “jogos de cena”.

Tentando entender como Coutinho teria chegado a essa técnica tão sua de demonstrar essa tese, procurei rever alguns trechos de outros documentários dele. Revi Santo Forte e Edifício Master, outros dois filmes que me impactaram muito. E por isso a abertura deste texto com um recorte da letra de My Way, música imortalizada na voz de Frank Sinatra, que é reinterpretada pelo Sr. Henrique, um dos moradores do Edifício Master entrevistados para o documentário do mesmo nome, no qual Coutinho dá voz aos moradores de um imenso condomínio de quitinetes em Copacabana. Nós entramos na casa dele guiados pelo Coutinho. E o Sr. Henrique, ao cantar sua música favorita junto com seu ídolo (que canta no CD player), quase chora, se emociona, pois essa é a música da sua vida, o seu resumo pessoal. E ele canta, apesar de não saber cantar, apesar de saber que está sendo filmado. Ele abre essa janela da sua alma para Coutinho e para nós. Coutinho faz isso com a gente: nos faz ver aquele que não veríamos. Aquele que é desconhecido e indiferente. Ele extrai de cada entrevistado o diamante interior que talvez jamais percebêssemos naquele outro que esbarra conosco nas calçadas da vida. Como ele próprio falou ao amigo José Hamilton Ribeiro, “Cada história vale por si. Cada vida vale por si.” E ele nos faz olhar para uma pessoa comum como alguém totalmente singular e especial e nos faz perguntar, como na letra da música My Way: “E pra que serve um homem, o que ele tem? Se não ele mesmo, então ele não tem nada”.

Rever algumas cenas desses filmes talvez tenha me desvirtuado do caminho de uma análise sobre o documentário Jogo de Cena. Mas, na verdade, o que me desvirtuou desse caminho foi o próprio filme, ao me levar a uma reflexão maior sobre a questão da narrativa. A pergunta que Coutinho parece fazer no documentário é: quando falo de mim, quem me diz? Quando uma mulher senta diante de um entrevistador e uma câmera e conta sua história, qual é a história que ela conta? A narrativa, mesmo a pessoal, exige de quem narra um distanciamento da história. Então, cada pessoa se reconstrói a partir da narrativa de sua história. Eu acho que é isso que ele quer demonstrar em Jogo de Cena quando coloca atrizes para reinterpretar as histórias contadas por mulheres anônimas. E, ao fim, acaba tornando essas atrizes também entrevistadas do documentário.

O filme tem camadas que demoramos a perceber, pois elas se sobrepõem e interagem. Na primeira entrevista, por exemplo, a atriz Mary Sheila fala como começou no teatro. Quando ela diz que está fazendo atualmente a releitura do clássico Gota D’Água com o grupo Nós do Morro, Coutinho pede que ela faça a cena do envenenamento dos filhos. E ela faz imediatamente, saindo de si para o personagem com uma naturalidade admirável. E a fala da peça que ela reproduz é uma espécie de introdução para todas as histórias que virão depois. Então, começando o filme com o depoimento real de uma atriz sobre ela própria e finalizando a cena com a mesma atriz representando um texto clássico relido pelo teatro, Coutinho já nos dá a chave do seu documentário. Mas nós não sabemos, a princípio, o que fazer com essa chave, pois logo depois ele nos confunde com o depoimento de uma moça desconhecida, falando sobre sua própria experiência de ser mãe. E amarra esse depoimento ao da atriz Andréa Beltrão, que nós pensamos ser real. Somente quando as falas começam a se repetir (na boca da atriz e da mulher entrevistada) é que entendemos que a atriz está relendo, reinterpretando o que outra mulher diz. Mas ele não deixa que essas reinterpretações sejam apenas simples releituras e tira delas algo pessoal das atrizes, ao conversar com elas sobre as dificuldades de interpretar uma história real. E ele é magistral na técnica da entrevista.

 

 

Porém, mais que um filme de entrevistas e depoimentos reais, Jogo de Cena é um tratado sobre a narrativa. Eu realmente gostaria de ter conhecimento da psicanálise para entender o filme, pois é da narrativa (do que é dito e do que não é) que a psicanálise se alimenta. O documentário, enquanto gênero, também se fundamenta a partir da narrativa. O documentário clássico, porém, constrói sua narrativa sobre um fato real, interpretando esse fato conforme as crenças e idéias do diretor. Coutinho não é um diretor que faz esse tipo de documentário. Ele buscou em todos os seus filmes a narrativa do outro. Em Jogo de Cena, porém, ele próprio questiona essa possibilidade quando desconstrói a narrativa do outro colocando no espelho da atriz a fala de uma mulher real e sua história real.

E voltamos à questão: quem é que me fala quando eu falo?  Em Santo Forte, dona Thereza, que incorpora entidades da umbanda, ao contar sobre a morte da irmã, para em determinado ponto da narrativa, vira a cabeça por cima do ombro e diz algo para alguém que não está ali. Coutinho então pergunta com quem ela está falando e ela responde que está falando com a irmã. Ele pergunta se ela está ali. Dona Thereza sorri e diz que todos estão ali, que em volta deles tem muitas pessoas que não podemos ver. E eles estão sempre falando com ela. Na simplicidade (ou complexidade) de sua crença, dona Thereza traduz o que os linguistas dizem o tempo todo: nós falamos com a língua do outro, nos constituímos na narrativa, que não é nossa, é anterior a nós e nos constitui. E é disso que Jogo de Cena trata. Ao mesmo tempo, não é só disso: é também sobre a dor de viver sendo mulher. E o diretor consegue juntar as duas linhas principais do filme – a narrativa e a dor feminina – quando, na última parte, uma das mulheres pede para voltar, pois queria ainda cantar uma música, começa a cantar a cantiga de ninar “se essa rua fosse minha” e, ao fundo, ouvimos Marília Pêra cantando a mesma canção.

No entanto, ao final do filme, que até então utiliza apenas uma câmera em plano fechado mostrando as entrevistadas e a plateia vazia (com poucas e raras inserções da chegada das mulheres ao palco), Coutinho nos surpreende novamente mostrando o teatro vazio visto do fundo da plateia, com as duas cadeiras vazias no palco. E percebemos que a cadeira que está de frente para a plateia é a dele, o diretor. E é ele quem está narrando uma história para nós.

 

 

Claudia Rangel é jornalista, Mestra em Educação e servidora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). A fotografia e o cinema são suas fontes de alegria.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Ela (Her). EUA. 2013.

 

“O passado é só uma história que nos contamos”.

 

No poema Não Deixe, o escritor Charles Bukowski adverte:

‘Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
(…)
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
(…)
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa’.

Influenciado ou não pelo conselho do velho safado, o homem tem procurado na tecnologia seu firmamento. São jogos, gadgets, aplicativos. Redes sociais que, ao clonar nossa melhor versão, expõem nossas maiores fragilidades. É da mente fecunda do cineasta Spike Jonze – responsável por obras como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) – que surge um dos mais instigantes filmes sobre a era digital. Com estreia prevista nas salas brasileiras no próximo dia 14 de fevereiro, Ela analisa de maneira bastante peculiar a mecânica das relações humanas estabelecidas a partir dos avanços tecnológicos.

Em uma futurista Los Angeles retrô, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é um introspectivo escritor que trabalha na agência “cartasescritasamao.com”, redigindo correspondências de pessoas com dificuldade em expressar seus sentimentos. Separado da esposa Catherine (Rooney Mara) há quase um ano, ele ainda se culpa pelo que possa ter minado a relação com seu amor de adolescência. Certo dia, movido por curiosidade e carência, Theodore adquire um revolucionário sistema operacional com inteligência artificial, cuja tecnologia permite que o software evolua e se adapte conforme sua interação com seres humanos. O OS1 apresenta-se como “uma consciência que promete ouvir, entender e conhecer” seu operador.

E assim nasce sua relação com Samantha (Scarlett Johansson), uma entidade intuitiva de voz suave, espirituosa e inteligente (quem mais conseguiria ler um livro ou compor uma canção em frações de segundos?) que se encanta com o mundo e faz com que o autor recupere seu entusiasmo pela vida. Tal encantamento transforma-se no mais legítimo afeto. Porém, estabelecer uma relação amorosa com “alguém” tecnicamente perfeito e ao mesmo tempo limitado pela ausência de um corpo físico, é de fato criar um vínculo real?

 

Theodore (Joaquin Phoenix) em seu contato inicial com o OS1

 

A delicadeza com que o diretor trata o assunto e a sintonia entre “o casal” é tão grande que em nenhum momento Theodore soa bizarro por apaixonar-se por uma máquina. Ao contrário, a impressão é que qualquer um poderia ser cativado pela voz (e é somente este seu recurso cênico) de Scarlett Johansson. Aliás, como diria a vizinha Amy (Amy Adams) em determinado ponto: “qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração”. Escrito e dirigido por Spike Jonze e vencedor do Globo de Ouro como Melhor Roteiro, Ela concorre ao Oscar 2014 em cinco categorias: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora (executada pela banda canadense Arcade Fire), Canção Original (The Moon Song, composta por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs e interpretada pela própria Scarlett, acompanhada por Joaquin no ukulele) e Direção de Arte.

Apesar da atmosfera científico-ficcional e da crítica ao cativeiro tecnológico do qual o homem se faz refém, Ela foge do lugar-comum para contar uma história genuinamente de amor. O filme apresenta um romance em seu estado mais puro e com toda a complexidade que o sentimento compreende. Sensível até em sua paleta de cores, o longa alia de forma genial passado e futuro, confrontando uma das mais primitivas formas de comunicação – a carta – com o que há de mais avançado em um computador. Certamente Samantha seria a destinatária da mais bela carta de amor já publicada por Theodore. E quanto ao poema de Bukowski, um adendo: Não deixe… de assistir esta pequena obra-prima do século XXI.

 

 

 

 

Larissa Mendes também quer um OS1 para chamá-lo de Him.

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

A Grande Beleza (La Grande Bellezza). Itália/França. 2013.

Por Larissa Mendes

 

 

Viajar é útil, exercita a imaginação. O resto é desilusão e fadiga.
A viagem é inteiramente imaginária. Eis a sua força. Vai da vida para a morte.
 Pessoas, animais, cidades, coisas, é tudo inventado.
É um romance, apenas uma história fictícia. Disse Littre, e ele não erra.
Porém, qualquer um pode fazer o mesmo.
Basta fechar os olhos. E está do outro lado da vida.
(Louis-Ferdinand Céline)

 

O prólogo do pensador Céline, em Viagem ao Fim da Noite, antecipa que as mais de duas horas do novo filme de Paolo Sorrentino são dotadas de verdades e ilusões desse ‘blábláblá’ que é o ínterim que separa vida e morte. Seja qual for seu conceito de beleza, em algum momento, ele estará em cena: uma paisagem, uma escultura, uma canção, um diálogo. Seja qual for sua idade, em algum momento, você sentirá certa nostalgia, um clima de fim de festa, uma saudade de não-sei-quê. Exótico e ímpar, A Grande Beleza é uma comédia dramática – com elementos do realismo fantástico de Fellini – que celebra os expoentes do cinema italiano dos anos 60 e fotografa como ninguém a Cidade Eterna. Com uma trilha sonora que passeia do clássico ao eletrônico, da ópera ao pop, o filme aborda o envelhecer de uma maneira crítica, festiva e moderna.

Jep Gambardella (Toni Servillo) chegou à Roma aos 26 anos com a expectativa de tornar-se “o rei dos mundanos”. E de fato conseguiu. Hoje, já sexagenário, é um escritor e jornalista bem-sucedido, mesmo sem concluir nenhuma outra obra após a publicação de seu best-seller O Aparato Humano, lançado há décadas. Vivendo da reputação de outrora em sua bela cobertura com vista para o Coliseu, sua rotina é um vai-e-vem de festas e jantares da alta sociedade. A boemia, porém, não exime o bon vivant, que acaba de saber da morte de seu grande amor de juventude, de refletir — sempre em conversas sagazes e existencialistas com os estereotipados amigos intelectuais, especialmente com sua editora anã Dadina (Giovanna Vignola) — sobre o tempo, a vida, a morte, o amor, a religião (destaque para a etiqueta de um funeral e a sequência da “santa” Irmã Maria, interpretada por Giusi Merli) e, é claro, a beleza. Afinal, o elegante escritor é “um homem destinado à sensibilidade”.

 

Jep Gambardella (Toni Servillo) em seu aniversário de 65 anos / Foto: Divulgação

 

O roteiro, assinado por Paolo Sorrentino e Umberto Cantarello, tece uma infinidade de críticas à superficial e decadente sociedade contemporânea, seja na representação dos “nobres de aluguel” — condes falidos contratados mediante cachê para aparições em reuniões sociais, na sessão de botox coletivo ou mesmo na necessidade de registro de tudo que é visto/vivido, a exemplo do turista japonês da primeira cena ou da mulher que acaba de fazer amor com Jep e ainda assim quer mostrar a ele suas fotos nua. Ao mesmo tempo em que ironicamente adula, A Grande Beleza aponta cada defeito do jeito Berlusconi (sem máfia) de ser: em determinado ponto, um dos amigos do escritor afirma que a velha bota é “um país de tecelões e pizzaiolos”, em alusão ao que lhes dá notoriedade no exterior.

Aclamado em Cannes (foi até mesmo comparado à La Dolce Vita) e premiado em diversos festivais por onde passou, o primoroso sétimo longa-metragem de Paolo Sorrentino acaba de ser eleito como o melhor filme europeu do ano pela European Film Award. Além disso, recebeu uma indicação ao Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e é o representante italiano (e forte candidato) ao Oscar 2014, na mesma categoria. Se os trenzinhos das festas de Jep não vão a lugar nenhum, o mesmo não se pode dizer de sua inspiração e d’ A Grande Beleza do cinema de Sorrentino.

 

(Larissa Mendes, partilha da mesma melancolia de Jep e, em se tratando de beleza, concorda com Vinicius de Moraes)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Frances Ha (Frances Ha). EUA. 2012.

 

 

‘Gosto de coisas que se parecem com erros’.
(Frances Ha)

“Ninguém passa incólume aos 27”. Seja você um astro do rock ou um reles anônimo, colecione sucessos ou fracassos, a verdade é que tal combinação numérica parece desencadear uma crise existencial em qualquer jovem-adulto. Com a cativante e atrapalhada Frances (Greta Gerwig) não seria diferente. Assistente de uma companhia de dança de Nova York, seu sonho é integrar a trupe no cargo de bailarina e atuar no aguardado espetáculo de Natal. Inocente, sonhadora e quase infantil – mesmo próxima a tornar-se uma balzaquiana –, a moça divide um apartamento no Brooklyn com Sophie (Mickey Sumner, filha do cantor Sting), por quem nutre uma amizade incondicional que, em determinado ponto, mostra-se praticamente unilateral, pois a amiga não pensa duas vezes antes de abandoná-la por uma morada em melhor localização. A partir disso, observamos (e nos identificamos) com as agruras da personagem em busca de realização pessoal e profissional. Além, claro, de um novo lar.

Dirigido por Noah Baumbach, que assina também o roteiro em parceria com a própria Greta, e filmado em preto e branco, Frances Ha possui certo ar nostálgico e quase atemporal: presta uma bela homenagem à nouvelle vague (sobretudo na lacônica passagem da protagonista por Paris), remete ao emblemático Manhattan (1979), de Woody Allen (Frances herda o estilo neurótico do nova-iorquino) e possui certa aura loser de O Balconista (1994), outro clássico P&B, de Kevin Smith. Comparado à série Girls (ao menos o ator Adam Drive está presente em ambas as produções), talvez a originalidade desta comédia dramática resida justamente em sua simplicidade e no inquestionável carisma de Frances, uma espécie de Amélie Poulain monocromática.

 

Frances (Greta Gerwig) em performance pelas ruas de NY / Foto: Divulgação

 

Mesmo sem decretar julgamentos, Frances Ha traça um perfil bem-humorado e sincero dos confusos jovens do século XXI, estes adolescentes tardios, equilibristas entre tantos anseios e poucos resultados. Leve, mas nem por isso menos complexo, a narrativa verborrágica jamais chega a soar filosófica ou fatalista: ao contrário, a personagem é só mais um ser “bagunçado” e “inamorável” tentando administrar suas frustrações cotidianas. Impossível não se emocionar, por exemplo, com a descrição de Frances do que seria “a sua pessoa nesta vida”, uma das únicas passagens “românticas” do filme. Outro ponto de destaque é a animada trilha sonora, com David Bowie (ela dança ao som de Modern Love pelas ruas de NY), Paul McCartney e o oportuno hino Every 1’s a Winner, do Hot Chocolate.

O longa (nem tão longo assim, pouco mais de 80 minutos de exibição) retrata as relações e rupturas que se estabelecem na vida dos imaturos kidults. Inspirado na própria experiência de Greta Gerwig e na vida de seus amigos artistas que vivem na Big Apple (a atriz contracena inclusive com sua família real na sequência da cidade natal, Sacramento), Frances Ha (aliás, o significado de Ha é elucidado nos minutos finais) tem a verdade e o improviso que a vida coreografa. Apesar da atmosfera cult, não se trata de um enredo hermético ou experimental: é a história de altos e baixos de qualquer ser humano errante e passional. O erro aqui é perder este pequeno clássico moderno.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é uma Frances Ha tupiniquim, sem Sophie e sem o lance da dança)

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

A Música segundo Tom Jobim. Brasil. 2012.

 

 

Uma câmera acelera seus percursos e varre a secular capital do Rio de Janeiro. Como num álbum de memórias, coleciona retratos de um tempo-berço, pano de fundo de um ambiente regado a contemplações e uma boa dose de romantismo. Quem pensa que com ela se inicia mais uma viagem do tipo cartão-postal da cidade maravilhosa, não imagina que está prestes a acontecer um caminhar fora do comum por sobre a trajetória de alguém.

Ao vislumbrarmos de pronto o nome de batismo do filme, A Música segundo Tom Jobim não nos deixaria pista alguma a respeito de como a narrativa do maestro soberano poderia ser contada num modus operandi cinematográfico. Muito pelo contrário: é preciso deixar que a sucessão dos instantes iniciais da obra se instale e reste bem clara a sua forma diferenciada de abordagem. Nela, o conceito padrão do gênero documentário é magnificamente substituído pelo que de mais especial a trajetória de um artista pode conter – a viva exposição de seu trabalho.

A partir do momento em que Gal Costa surge interpretando Se todos fossem iguais a você, no show “Tributo a Tom Jobim”, de 1993, abrem-se as portas de um delicado e emocionante trajeto pela obra do compositor. Tal como o título desta canção anuncia, a primeira sensação é a de que o legado do artista paira como um modelo de se creditar à existência um exercício constante de perceber a beleza das coisas que nos cercam. Depois desse começo clímax, um sem número de cantores e músicos do mais alto quilate revezam-se em recortes precisos sobre o ato de celebrar a carreira de Tom Jobim.

Dirigido por ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos e também por Dora Jobim, o documentário deixa de lado a forma tradicional de se narrar a vida e obra de alguém. Não há depoimentos, entrevistas, narrações em off. Sequer há fala alguma. Predomina um acervo fotográfico e audiovisual meticulosamente selecionado para dimensionar a importância do compositor na formação musical brasileira. Tudo flui única e exclusivamente pelas ricas alamedas sonoras que a música em si é capaz de proporcionar. Diga-se de passagem, o próprio conteúdo de certas composições de Tom Jobim norteia a sucessão do tempo, especialmente pelo modo como cada intérprete mergulha no universo jobiniano.

Tom Jobim / Foto: Divulgação

Em meio à sequência de momentos marcantes da carreira de Tom, colecionando tanto aspectos íntimos quanto profissionais, um vasto painel de lembranças surge vigoroso. São passagens antológicas, tais como a sua estreia no palco do Carnegie Hall (famosa casa de shows de Nova Iorque), a parceria com o poetinha Vinícius de Moraes, os duetos com Frank Sinatra e o momento em que a composição Sabiá, feita juntamente com Chico Buarque, veio à tona num dos festivais da canção, e cujo registro imagético traz as vozes de Cynara e Cybele, integrantes do Quarteto em Cy. No que se refere aos apelos jazzísticos que sempre rondaram a figura do maestro, o filme mostra desde a magistral voz de Ella Fitzgerald, em Desafinado, como também assinala a presença de nomes como Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Errol Garner e Oscar Peterson.

Ao mesmo tempo em que se traduz como um verdadeiro registro sonoro, o documentário possui um valor histórico inquestionável, pois a própria caminhada de Tom se confunde com passagens importantes da nossa música, sobretudo pelos movimentos que agregaram emblemáticas expressões, como é o caso da Bossa Nova. Um dos pontos do filme que reforçam essa ideia é a cena de “Um Desconhecido Bate à porta”, de 1958, na qual Elizeth Cardoso aparece cantando Eu não existo sem você, ao som do violão de um ainda jovem João Gilberto. E o que dizer também de Agostinho dos Santos interpretando A Felicidade ou Silvia Telles vivendo, à flor da pele, a canção Samba de uma nota só? Como esquecer Elis e Tom no dueto antológico em torno de Águas de março?

A Música segundo Tom Jobim é capaz de repercutir um intenso efeito de encantamento pela falta de interferências narrativas tradicionais. Isso faz com que cada espectador encaixe seu próprio roteiro, demarcando na trajetória do artista aquilo que implica em começo, meio e fim, se é que é possível se falar na figura de um instante derradeiro. Abolida toda e qualquer noção de linearidade, certamente o maior sentido aqui é o de confirmar a imaterialidade da música, dando vazão ao que mais importa: penetrar numa camada onde apenas as sensações fazem morada. Não há espaço para reflexões complexas e tampouco se almeja um grande feito cinematográfico. Como diria o próprio Tom, a linguagem musical basta.


 

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Bling Ring – A Gangue de Hollywood (The Bling Ring). EUA. 2013.

 

 

Sofia Coppola, mais do que ninguém, gosta de imergir no universo superficial do ser humano, principalmente quando ele vem regado de dinheiro, status e glamour: algo que ela conhece bem e ignora ainda melhor. Guardadas as devidas proporções, a temática foi abordada no drama existencial das irmãs de As Virgens Suicidas (1999), na solidão do ator decadente em solo oriental, em Encontros e Desencontros (2003), no falso poder da princesa Maria Antonieta (2006) e, mais recentemente, na vida fútil do astro às voltas com a filha adolescente em Um Lugar Qualquer (2010). Em seu quinto longa, Bling Ring – A Gangue de Hollywood, a cineasta acompanha a história verídica de um grupo de abastados jovens de Los Angeles que invadiam e roubavam mansões de celebridades (de quem eles admiravam e invejavam o “lifestyle”), enquanto elas estavam viajando ou participando de eventos não menos badalados, e exibiam seus feitos e furtos em festas e fotos compartilhadas com amigos.

A líder da gangue, Rebecca (Katie Chang) e seu melhor amigo Marc (Israel Broussard) localizavam as casas de suas vítimas por meio do Google Street View e seguiam suas agendas pelo canal de fofocas TMZ. Nicki (vivida pela inglesa Emma Watson, mesmo não sendo protagonista, a grande estrela e chamariz do filme), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julian) também integravam o grupo, que entre 2008 e 2009 roubou cerca de 3 milhões de dólares em dinheiro, roupas, sapatos, joias, bolsas e demais artigos de luxo, de afortunados como Paris Hilton, Lindsay Lohan, Orlando Bloom e Megan Fox. A propósito, a socialite Paris Hilton faz uma ponta no longa e empresta sua residência-vítima como locação. Outro que tem sua presença subestimada na trama (e passou praticamente anônimo à crítica) é o vocalista do Bush (e marido de Gwen Stefani), Gavin Rossdale, no papel de Ricky.

Bling Ring começa de forma intensa ao som de Crown on the Ground, do Sleigh Bells (aliás, a trilha sonora continua sendo o ponto forte de Sofia, que traz ainda Azealia Banks, Kanye West, Rihanna, MIA e o melhor do gangsta rap) com cenas de câmeras de segurança que registram a movimentação dos jovens numa das mansões para, então, contar o que se passou no ano anterior. O filme mescla os fatos ocorridos com recortes de declarações da quadrilha em estilo de documentário, postagens em redes sociais e cenas do julgamento.

 

Parte da “gangue” em cena de “The Bling Ring” / Foto: Divulgação

 

Baseado na reportagem ‘Os suspeitos usavam Louboutins’, publicada em 2010 na revista Vanity Fair pela jornalista Nancy Jo Sales, que entrevistou todos os envolvidos no denominado ‘Caso de Calabasas’ (em alusão à cidade californiana que fica nos arredores de Los Angeles), Bling Ring foi transformado também em livro e lançado no Brasil pela Editora Intrínseca. Numa tradução livre, bling ring significa “anel de brilhantes” ou “liga da ostentação”. A obra aborda a obsessão pelos holofotes, a alienação da juventude através de álcool e drogas, o fascínio pelo gangsta rap (nosso correspondente ao funk ostentação?), a fragilidade da segurança patrimonial e o culto à exposição. Ainda que pouco denso, mais uma vez Sofia Coppola faz um filme de estética pop, leve e reflexivo. De modo sensível e peculiar, a cineasta assina roteiro, direção e produção do filme. E como de costume, de forma ponderada, porém jocosa, imprime sua crítica sobre a fama e a ostentação. O fato de não se aprofundar nos dramas familiares dos personagens, o que possivelmente enriqueceria o enredo, que, vez ou outra, torna-se previsível por repetir inúmeras sequências de ‘invasão-roubo-fuga’, foi pontualmente uma opção sua em primar pelos rasos e banais sentimentos contemporâneos, dos quais também somos cúmplices, réus e reféns.

Bem-vindos, mais uma vez, ao mundo de Sofia.

 

 

(Larissa Mendes é cinéfila e consumidora voraz da grife Coppola)

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Antes da Meia-Noite (Before Midnigth). EUA. 2013.

 

“Ninguém é nada mais que si mesmo”.

 

Um sábio amigo costuma dizer que o amor deveria vir com prazo de validade. É como se algumas relações estivessem fadadas a existir por apenas uma noite ou determinado período de tempo e qualquer tentativa de prolongá-las só trouxesse estragos e dor. Até porque – como é pontuado em determinado momento de Antes da Meia-Noite – estamos todos de passagem e talvez seja pretensioso almejar um amor eterno. Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são uma espécie de Romeu e Julieta (de carne e osso) de nossa geração. Conheceram-se em um trem, em Viena, em Antes do Amanhecer (1995), reencontraram-se quase uma década depois, em Paris, em Antes do Pôr-do-Sol (2004) e desde então estamos na expectativa em saber se Jesse perdeu ou não seu avião.

A tomada inicial – que funciona como uma espécie de elo com o filme anterior – traz Jesse no aeroporto despedindo-se do filho Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), fruto de seu primeiro casamento, depois de passar o “melhor verão de sua vida” com o pai, a madrasta Celine e as irmãs gêmeas, no Peloponeso. Não por acaso, a locação europeia da vez sugere a ambiguidade das ensolaradas ruínas gregas; e o título do filme, o lado sombrio que está por se anunciar. O americano e a francesa estão na casa dos 40 anos e vivem em Paris com as filhas Ella e Nina (Jennifer e Charlotte Prior). Por conta da distância de Hank e do mau relacionamento com a ex-mulher, que moram em Chicago, Jesse sente-se um pai ausente. Celine assume o papel triplo de toda mulher moderna (e como tal, ressente-se por isso). Está travado o embate de mais um casal que precisa lidar com o amor, o cotidiano e o fatídico passar dos anos. Um amor que resistiu à ausência durante tanto tempo pode sobreviver à convivência e burlar qualquer prazo expirado?

 

 

Jesse e Celine em cena de Antes da Meia-Noite / Foto: Divulgação

Antes da Meia-Noite mantém o formato clássico, com diálogos longos e inteligentes e planos-sequência, marca registrada da série. Porém, inova (e acerta) ao introduzir outros personagens que se relacionam com os protagonistas, representados pelos casais de amigos do anfitrião – o renomado escritor Patrick (Walter Lassally), onde discutem o amor e todas suas vertentes, incluindo o afeto em tempos de Skype e Facebook, tecnologia ignorada (e inexistente) pelo par em seu primeiro encontro. Justamente pela maturidade de agora, o longa dispensa a pureza dos filmes anteriores. É nítido que há amor, cumplicidade e química entre o casal, mas algo se modificou. Jesse continua o mesmo escritor romântico que transformou sua noite de amor em livro e o fez reencontrar sua amada no segundo filme (reencontro que também virou literatura). Celine, porém, perdeu seu idealismo juvenil e é a primeira a perceber que eles não apontam mais para a mesma direção. Tal condição faz de Antes da Meia-Noite um filme pós-conto de fadas, franco e um tanto quanto amargo: algo próximo de um casamento de verdade. A sequência no quarto de hotel, onde Jesse e Celine travam uma honesta DR é de fazer inveja ao casal formado por Michelle Williams e Ryan Gosling, em Blue Valentine (2010).

Ainda que encarada como uma trilogia, e com mais um final em suspenso, a ideia inicial do diretor Richard Linklater e de seus co-roteiristas Ethan Hawke e Julie Delpy, é acompanhar a dupla até a velhice, com um reencontro há cada 9 anos. Antes da Meia-Noite até funciona de forma independente, porém não há sentido assisti-lo de forma isolada. Os dois filmes anteriores aumentam gradativamente nossa intimidade com os protagonistas e sutis detalhes podem se perder, como o tal avermelhado que Celine dizia observar na barba de Jesse sob o sol, o mesmo tom que vê no cabelo das gêmeas. Será que 2022 nos reserva mais algum momento do dia?

 

 

 

 

(Larissa Mendes ainda é uma coadjuvante à procura de seu “antes”)

 

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Augustine. França. 2012.

 

 

Seria por coincidência ou por um estranho “Zeitgeist”, mas vários filmes recentes voltam a uma questão que parecia ultrapassada clínica e historicamente: a histeria. Depois de Um Método Perigoso, de David Cronenberg, sobre a relação entre Jung e uma de suas clientes, Sabina Spielrien, e da comédia Hysteria, de Tania Wexler, sobre a invenção do aparelho vibrador, chega agora aos cinemas Augustine, de Alice Winocour, sobre a relação entre um dos fundadores da neurologia enquanto ciência, o médico Jean-Martin Charcot, e uma de suas principais clientes. Em comum, esses três filmes abordam a desordem mental ambiguamente epidêmica que mexeu com os corpos femininos de meados do século XIX e interrogou como um mistério indecifrável e oracular as cabeças dos médicos da época. Ou teria sido bem o contrário?

Os três filmes mostram o surgimento, ou melhor dizendo, o reconhecimento de uma estranha desordem chamada de “Histeria” (de Hysteros, ou útero em grego), que teria  abalado e desorientado os corpos de milhares de mulheres das sociedades europeias do século retrasado, como um verdadeiro enigma a questionar não apenas os fundamentos dos médicos oitocentistas, em sua quase totalidade homens, bem como do próprio estatuto científico da medicina mental reclamado por muitos e o poder alcançado por essa disciplina sobre os corpos e mentes das pessoas, sobretudo mulheres.

Entre os três, é a comédia da britânica Wexler, o roteiro menos sisudo e que, dentro de uma linha que poderíamos chamar de “pragmatismo anglo-saxão”, vincula a histeria à invenção histórica do apetrecho sexual feminino. Mas é esse filme que mais claramente demonstra o caráter social e classista da desordem a incidir majoritariamente não apenas em mulheres casadas insatisfeitas sexualmente, mas sobretudo mulheres ociosas, na posição de dependência econômica de seus maridos provedores e da subalternidade moral derivada desta dependência.

Em Um Método Perigoso, Cronenberg apresenta o diálogo tenso entre as duas figuras mais proeminentes da psicanálise, Freud e Jung, mas o mérito maior do filme está em introduzir ao grande público a figura de Sabina Spielrien, uma cliente histérica de Jung que se tornou ela mesma psicanalista. O filme demonstra como o desenvolvimento da psicanálise deveu muito a uma paciente mulher histérica que teria dado a chave a Freud para formular seu conceito de Pulsão de Morte. Assim, o filme defende que a psicanálise não surgiu como um saber específico sobre a histeria, mas num sentido inverso, como a própria – ou imprópria – histeria forneceu os subsídios teóricos para a sua evolução, como se a psicanálise tivesse surgido do interior desse transtorno.

Em Augustine, voltamos ainda mais no tempo para conhecer a figura polêmica de Jean-Martin Charcot, um dos fundadores da neurologia. Charcot foi professor de Freud e é conhecido historicamente por ter descrito um grande número de doenças ou transtornos mentais, muitos deles levando seu nome, entre as quais a esclerose múltipla, uma doença auto-imune cujos sintomas são muito parecidos com os sintomas histéricos misteriosos que acometiam muitas de suas pacientes. Uma delas, de quem se sabe pouco, se chamava justamente Augustine.

Iliterada, Augustine era uma serviçal de uma rica casa burguesa, uma personagem praticamente invisível e insignificante. É durante o serviço de um grande jantar burguês que ela, logo após ser observada pelo olhar insinuante de um rapaz, sofre seu primeiro ataque histérico com fortes convulsões corporais que acabam por deixar um lado de seu corpo paralisado e um olho fechado. Augustine é então levada para o famoso hospital-escola Salpetrière, na época dirigido por Charcot e dedicado ao estudo psiquiátrico, sobretudo de mulheres. Lá a moça se tornará não apenas uma cliente à procura da cura de seus males, mas um caso clínico, um objeto de estudo e uma cobaia para novas formas de tratamento mental cujo diagnóstico era tão difícil como um verdadeiro mistério.

A histeria era um nome genérico dado a um transtorno que apresentava uma série de “sintomas”, males corporais, sem que, no entanto, qualquer anormalidade orgânica se apresentasse. Assim, Augustine, aparentemente uma mulher sadia de 19 anos, não apresentara até então sinais de menstruação (no caso real, no entanto, Augustine tinha apenas 15 anos). A personagem se torna um caso exemplar de histeria, para ser apresentada em conferências médicas, submetendo-se a procedimentos terapêuticos tão dúbios quanto a hipnose, muito utilizada por Charcot numa época pré-psicanalítica.

 

Soko e Vicent Lindon em cena de Augustine / Foto: divulgação

 

Marcada por sintomas de assimetrias corporais, um olho fechado, um lado paralisado e insensível à dor, ou uma das mãos fechada em gancho, Augustine é, sobretudo, uma mulher que se recusa a ser um “objeto de estudo” numa posição de passividade, uma mera serviçal de mais um mestre ou um “doutor” clínico. Ela quer ser antes um sujeito que possui um corpo. E esse corpo-sujeito está também sujeito a uma série de relações de assimetria que se estabelecem: médico e paciente, homem e mulher, burguesia e proletariado.

A diretora Alice Winocour estrutura essas relações de assimetria como relações de poder e também de desejo. Um dos alunos de Charcot censura seu professor por ele negligenciar a evidência de que os sintomas histéricos aparecem quase sempre associados à questão da sexualidade. As cenas de exames clínicos, supostamente frias e neutras, tornam-se no filme cenas eróticas: a cliente é colocada nua para os olhares voyeurísticos de jovens estudantes, um tratamento com objetos compressores lembra uma cena de sado-masoquismo.

O desejo é aquilo que faz com que um corpo se recuse a ser um objeto para ser um sujeito e é também o que cria polos de tensão numa relação de poder. O que acontece entre Charcot e Augustine é algo que se passa entre doutor e paciente, entre aquele que supostamente “sabe” e aquela que supostamente “ignora”, entre a consciência do professor e a inconsciência de seu “objeto-sujeito” e, finalmente, entre o homem e a mulher. Ou, em outras palavras, o que acontece é uma transferência, num sentido psicanalítico.

Mas estamos numa era pré-psicanalítica e Charcot, por mais importante médico e estudioso da mente que tenha sido, dessa vez é aquele que “ignora” e se “perde” nessa relação de transferência. A histeria é justamente o fenômeno social que produz uma clivagem no interior da neurologia, como estudo da mente, que abre uma brecha num campo social dominado pela ideologia da medicina enquanto ciência. Em um momento do filme, Augustine censura seu médico porque este não a escuta. É exatamente essa “escuta” que a psicanálise através de Freud introduz no estudo da histeria.

Médico neurologista, “Napoleão das neuroses” como foi chamado, porém incapaz de dominar os conceitos básicos psicanalíticos da transferência e da escuta, Charcot se deixa seduzir por sua cliente mulher mais do que é seduzido por ela. Numa das cenas mais interessantes do filme, a diretora nos mostra um Charcot nu e fragilizado diante do espelho. Por outro lado, Augustine, uma moça virgem, é também um corpo de desejo. A todo momento questionando o renomado médico se ele trará sua cura, ela também será aquela que seduz e é seduzida como mulher. Ela é paciente e também sua parceira: suas convulsões histéricas motivadas por regressões de hipnose em conferências estão na fronteira entre um processo inconsciente e uma atuação performática sob medida para os olhos dos alunos e pares de Jean-Martin Charcot, que está afinal em busca de um reconhecimento social.

Mas essa performance histérica do corpo feminino através de seus sintomas é menos uma exibição de sinais corporais passíveis de diagnóstico clínico do que expressão de uma linguagem em busca de decifração. Não são sinais, mas signos. No filme, a diretora Alice Winocour interrompe a narrativa para exibir mulheres com problemas mentais vestidas em trajes de época narrando suas visões, alucinações ou devaneios. Tal como a famosa e igualmente polêmica síndrome do déficit de atenção que supostamente acomete milhares de crianças nos dias de hoje, a histeria foi uma grande mensagem no final do século XIX a uma possível interpretação histórica. Em seguida, viria Freud com sua “Traumdeutung”, sua interpretação dos sonhos traumáticos. Presas em seus sintomas, as histéricas buscavam as escutas e interpretações para poderem tomar posse de seus corpos e escapar rumo ao desconhecido.  Como descobriu Augustine, o trauma é tanto aquilo que adoece, mas também o que liberta.

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube de Leitura da Baratos da Ribeiro)

 

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80ª Leva - 06/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

O Som ao redor. Brasil. 2012.

 

Em que ponto de nossas existências é possível atravessar as situações sem que nelas deixemos vestígios? Como entender a nossa quase incapacidade de ouvirmos genuinamente a nós mesmos? Certamente, são indagações por demais complexas que atendem tanto a demandas externas quanto as que derivam dum processo consciente. O exercício da individualidade frequentemente encontra obstáculos, sobretudo quando o horizonte a ser vislumbrado reflete intervenções paralelas e, ao mesmo tempo, alheias à nossa vontade.

Tal sensação parece também costurar a narrativa de um filme como O Som ao redor. Com um olhar sobre a rotina de um bairro de classe média de Recife, o diretor Kleber Mendonça Filho expõe muito mais do que uma mera sucessão dos dias na vida de seus moradores, fazendo-nos perceber o quanto estamos imersos num fluxo de eventos paralelos com os quais dialogamos impensadamente.  Aos poucos, uma infinidade de sons, que normalmente são pano de fundo da realidade acostumada, aparecem propositalmente evidenciados. Barulhos de construção, de carros, pessoas a gritar, latidos de cachorro, ruídos de eletrodomésticos, dentre outros tantos, configuram uma sinfonia que mais caminha para a dispersão do que qualquer outra coisa.

A incapacidade humana e urbana de concentração, dada a variedade de coisas que nos abraçam incessantemente, aparece elevada à enésima potência. E isso tanto pode estar no plano meramente sonoro como também na forma como interagimos com o outro. Daí, também, pensarmos na questão da alteridade dentro de um mosaico de cenários que permeiam o cotidiano de quem quer que seja.

São muitos os objetos de interferência que passam despercebidos com frequência, banalizados que estão pela força da repetição. Com notória habilidade, o filme pinça os recortes da rotina sem insinuar vanguardismos estéticos. Basta amplificarmos a orquestração dos sons que estão no mundo para percebermos que, involuntariamente, dialogamos com o externo, o alheio. Ao mesmo tempo, o crescimento desordenado da grande cidade deixa claro que a grande presa do progresso continua sendo o próprio homem, na medida em que amarra, em nós bem cegos, a possibilidade de achar-se livre de fato.

Mesmo se tratando de um cenário ambientado em Recife, mais precisamente no bairro onde o diretor mora, o filme abarca sentimentos e características bem peculiares a qualquer cidade do país e quiçá do mundo. A valorização de uma cultura local com seus usos e costumes não aponta para um cinema que mira o próprio umbigo. Ao passo que expõe os efeitos descontrolados da urbanidade, é capaz de redimensionar seu foco para uma gama de assuntos comuns a um país de proporções continentais como o nosso.

Cena de O Som ao redor / Foto: Divulgação

O patriarca Francisco, personagem interpretado por W. J. Solha, é algo contundente quando assinala uma transição de uma sociedade originalmente agrária e que agora demarca seus territórios em pleno panorama desordenado duma metrópole em crescimento. O latifúndio aqui é o do concreto, principalmente porque, em meio a um mercado imobiliário predatório, Francisco detém uma quantidade significativa dos imóveis do bairro em questão. Mesmo assim, as memórias flutuam na trajetória desse personagem, sobretudo quando as lembranças apontam para um ambiente rural que não mais existe em sua magnitude histórica. A passagem dos engenhos para a selva de pedra pernambucana também não apaga a manutenção das relações de poder. Assim, patrões e empregados continuam protagonizando uma secular dissonância de expectativas e desejos.

O contrário de O som ao redor é o silêncio. E este, se pensarmos numa perspectiva de provocação, pode gerar mais incômodos do que supomos, principalmente se levarmos em conta a ausência do alheio e, por conseguinte, a duríssima condição de nos encerrarmos em nós mesmos. Nesse sentido, quem resistiria à presença teimosa de um silêncio pleno, cujos embates propostos fossem apenas os da consciência? Mesmo não tendo a onisciência precisa de tudo o que nos rodeia, é possível imaginar que a inexistência absoluta dos sons externos produziria, por si só, um efeito capaz de dimensionar o quanto somos curiosamente dependentes da tresloucada sinfonia de uma rotina urbana.

Recife é algo recorrente na filmografia de Kleber Mendonça Filho, cineasta cujas marcas apontam para um cinema autoral e orgânico. Ao mesmo tempo em que critica o tecido sócio-econômico que atravessa a cidade, o diretor também deixa entrever a sua paixão por ela. Isso acontece em Recife Frio, por exemplo, filme que, ao submeter a capital pernambucana a um inexplicável e incessante inverno, acaba pondo em xeque toda a forma de pensar de uma sociedade, notadamente gerando reflexos do ponto de vista comportamental.

A quem verdadeiramente interessaria um cinema que se volta para o exercício do senso crítico e dum olhar mais aprofundado da realidade? Parece uma indagação pertinente se considerarmos que, mesmo tendo sido exibido e aclamado em diversos festivais dentro e fora do país, O Som ao redor ficou restrito a parcas salas de exibição no contexto nacional.

Mesmo engendrando discussões complexas, a obra não enaltece posições ideológicas inflamadas. Aos poucos, envolvidos que estamos por ruídos de toda ordem, somos tomados pelo reconhecimento de coisas que, estranhamente e pela via cíclica, são íntimas de todos nós. Se, como diz Chico Buarque numa de suas canções, a dor da gente não sai no jornal, imaginemos só como o turbilhão do cotidiano por vezes aniquila toda e qualquer tentativa de dar sobrevida à pessoalidade. O tempo dirá se soubemos resistir.

 

 

 

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

A Caça (Jagten). Dinamarca. 2012.

 

 

Em seu Teses sobre o conto, o escritor Ricardo Piglia definiu o conto como a arte de contar pelo menos duas histórias. Há uma principal, narrada em primeiro plano, mas haveria sempre também uma segunda, narrada nos interstícios da primeira, qual uma história secreta. A arte do conto, para o escritor argentino, é a de narrar uma história enquanto se contar outra.

Esta estratégia narrativa de duas histórias funciona igualmente para a arte cinematográfica. Foi o mestre Hitchcock quem formulou o efeito McGuffin: o McGuffin é o argumento central em torno de qual gira a narrativa cinematográfica e pelo qual os personagens perseguem, mas que no final não representa nenhuma importância fundamental. O McGuffin não passa de um pretexto para que a ação cênica se desencadeie. Praticamente todos os filmes de Hitchcock seguem esta lógica, mas o caso mais exemplar é o de 39 Degraus: um segredo sussurrado ao protagonista no início do filme permanece obscuro durante toda a narrativa, composta das mais vertiginosas peripécias persecutórias, sem que ao final tal segredo seja revelado. Na verdade, ele foi esquecido devido à sua desimportância para o desenlace: era apenas um mero pretexto para que a ação acontecesse e o mocinho pudesse encontrar a mocinha…

Não foi Hitchcock quem inventou o efeito McGuffin, ele faz parte da própria técnica cinematográfica. Não é este o caso do recente filme A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg? Lucas, um professor de escola primária, é acusado injustamente de assédio sexual da menina Klara, de 5 anos, filha de seu melhor amigo e aluna da escola de uma pequena cidade no interior da Dinamarca. Com esta acusação, toda sua vida pessoal e carreira desabam tragicamente.

Aqui o fundamental é mostrar como a acusação é evidenciada pelo diretor como injusta, inequivocamente: a menina Klara desenvolve por seu professor um forte afeto. Num tempo livre de suas aulas, ela recorta um pequeno coração e o embrulha num envelope em forma de presente e, num gesto muito sutil, coloca-o no bolso do paletó de Lucas enquanto rapidamente o beija afetuosamente. Percebendo a situação, o professor lhe devolve o presente dizendo que ela deveria destiná-lo a um de seus coleguinhas de classe. Nessa mesma noite, decepcionada, a menina conta à Mestre da escola uma história ambígua na qual ela menciona que o professor teria lhe mostrado a sua “vara”, expressão que a menina aprendeu de seu irmão mais velho quando este estava assistindo pornografia na internet. O desenlace é inevitável: entre a palavra do professor e a palavra da menina, toda a escola, os colegas, a namorada e a cidade inteira dão crédito à história de Klara e, então, a vida de Lucas (vivido pelo ator Mads Mikkelsen, cujo desempenho extraordinário lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes, 2012) torna-se um inferno. E este inferno assume a forma de um abismo descendente, por mais que a menina, posteriormente, desminta sua história como uma “bobagem”.

O lugar onde se desenvolve a trama é crucial nesse filme: uma pequena comunidade dinamarquesa cuja principal atividade de lazer é a caça de grandes animais como cervos e alces. No início do filme, homens tomam banhos nus num lago gelado e depois saem cantando para beberem juntos. Vinterberg nos mostra a caça, prática de onde tira o título do filme, como a atividade que dá sentido à vida da comunidade: a caça de grandes animais é a prática que irmana os habitantes e os une socialmente, incluindo o protagonista professor.

 

 

Aparentemente, A Caça é mais um filme que discute a questão contemporânea da histeria social da pedofilia: mais de 100 anos após a psicanálise defender que cada criança tem sexualidade própria, nada parece tão grave quanto o assédio ou o abuso sexual de crianças, que aos olhos sociais são portadores de uma imagem idealizada de ingenuidade, e tanto mais idealizada quanto maior a sensação de perda de inocência contraposta ao cinismo vivenciado pelos adultos da sociedade capitalista contemporânea. Nesse aspecto, a caracterização da pequena personagem Klara é extremamente pertinente: com seus 5 anos, ela vive a experiência precoce da descoberta do erotismo ao se apaixonar platonicamente por seu professor.  Sua mentira, causada por uma precisa “decepção amorosa”, é um expediente que prefigura a mulher que ela se tornará. E nisso, não devemos incluir também sua capacidade de reconhecer seu erro, como uma maturidade essencialmente adulta que se antecipa a de seu pai (mas não a de sua mãe…)?

Mas talvez a histeria social causada pelo possível caso de pedofilia seja o McGuffin do filme: na avançada Dinamarca, num vilarejo onde os problemas sociais parecem resolvidos, a prática anacrônica, mas legalizada, da caça de grandes animais permanece como uma espécie de “inconsciente” coletivo. Toda a estrutura do roteiro organiza-se na transformação do predador em presa.  Tal como seus amigos, Lucas é um bom caçador, mas encontra-se numa situação de fragilidade: recém-separado, disputa a guarda do filho adolescente com sua ex-mulher, e perdeu também seu posto de professor do secundário, tendo que se contentar com um trabalho numa escola primária. Assim, ele é um alvo fácil e a frágil acusação de que é vítima torna-se a chave para sua rápida mudança de status, de viril caçador para o de uma vítima indefesa e passiva (sua incapacidade de reagir ao receber as acusações está no limite entre a civilidade e a apatia). Por sua vez, com absoluta facilidade, todo o vilarejo muda de atitude em relação a um de seus estimados cidadãos e a perseguição com agressividade crescente a Lucas torna-se uma verdadeira caçada humana…

É como se aqui tivéssemos uma versão dinamarquesa de um dos temas caros ao mestre Hitchcock: o do “Homem errado”. O Homem errado é a versão existencialista do McGuffin: não importa o crime concreto de que ele é acusado, mas sim o fato de que na visão católica do pecado original, partilhada pelo mestre britânico, todos já são culpados “a priori” na sociedade, bastando um fato menor e casual para que um inocente seja eleito e a culpa social possa ser expiada. Assim, no filme dinamarquês, a má consciência em relação à caça expia-se numa reação de histeria anti-pedófila. Algumas passagens do filme reforçam essa ideia: o pequeno cão de estimação do protagonista é morto tal como um animal de caça e o próprio personagem é vítima de violência física desmedida. E o final do filme, que prossegue após o clímax e a pacificação do vilarejo, parece indicar justamente tal propósito, ao mostrar o ritual onde um adolescente de 16 anos recebe finalmente sua permissão de caça e ganha um rifle de presente: crianças podem ser indefesas e puras, mas sabem matar grandes animais…

Thomas Vinterberg é um dos fundadores do movimento Dogma junto com Lars Von Trier e A Caça é seu oitavo longa. Estão presentes nessa sua última obra algumas das características técnicas que marcaram o movimento: a presença da câmera digital levada à mão, acompanhando de perto a presença corpórea dos atores, com sua inconstância visual, e o uso predominante de luz natural. Tudo conduzido com uma grande mestria, como se tais recursos, outrora vanguardistas, tivessem se incorporado a uma linguagem comum cinematográfica contemporânea e o que era maneirismo estético pode ser visto agora em sua destreza quase clássica, emprestando notável realismo e verdade à narrativa.

O diretor dinamarquês acerta ao recusar fazer uma análise moralista do tema, seja em relação à pedofilia, seja em seu julgamento sobre a validade da legalização da caça de grandes animais. Interessa-se, antes, em mostrar as tensões e contradições de uma sociedade avançada, no alto de sua condição liberal de primeiro mundo, mas que ao mesmo tempo parece conviver com uma atividade que exige insensibilidade e isenção em relação à covardia. A tese das duas histórias de Piglia, ou do McGuffin do velho Hitchie, pode funcionar afinal como um desmascaro das relações hipócritas subliminares sociais que se justificam em torno de meros pretextos ideológicos. Ao sair do cinema, após assistir este filme, um casal comenta um com o outro: “ficamos sem saber se ele [o protagonista] era realmente culpado. O diretor não deixa isso claro”. Ou, em outras palavras, é preciso sempre encontrar uma boa presa para arcar com as nossas culpas…

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de Capoeiragem (ed.7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro)