Categorias
115ª Leva - 09/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

RENATO SUTTANA – AS PORTAS QUE ME ABRIRAM

 Por Jorge Elias Neto

                                                                                                              

quando-me-abriram-portas-renato-suttana

Nem sempre as portas que se abrem, os caminhos que se apresentam – vários – se traduzem em possibilidades infinitas ou sinalizam um futuro de luz e certezas. É neste caminho que nos conduz Renato Suttana neste “Quando me abriram portas”.

Diz o poeta das portas transpostas, da ilusória luz do instante, do penoso desdobrar-se neste policromático mundo da pós-modernidade. Propõe a necessidade que o pressuposto semideus tem de “descer do Olimpo” e ficar “em casa, num tédio a demora-se…”, pois somente assim “apagadas as luzes” ele vê “reavivar a brasa do engano-pretensão na alma finita”. Mas, este avançar “sob luz escassa”, que se afigura desolador para os desprovidos, se apresenta ao bardo como uma prova da sombra.

Suttana convida o leitor a hesitar em lançar-se no instante; a aguardar e observar as portas abertas; a observar a luz-poema que antecede o passo desnecessário.

Uma lamparina ilumina muito pouco, quase nada. Seu principal papel pode ser nos mostrar o quão escura é a noite. Podemos raciocinar de igual forma em relação ao poema, pois ele pode servir para muito pouca coisa, ou mesmo para nada, como muitos pensam ou pretendem nos convencer. Mas isso é um engano. O poema nos abre os olhos para as cores em nosso redor. Faz-nos ver a poesia das pequenas coisas do cotidiano. Emociona-nos. E isso é essencial para a humanidade.

Que digo? – E eu, que não sei a não ser isto –
a não ser algum trapo de alcançar
que esfarrapa a nudez de que me visto?

O poeta nos motiva a “passar do trêmulo ao seguro”. E isso é possível quando não nos cobramos tanto em relação ao porvir e às conquistas; quando não imputamos à nossa existência a primazia do instante. Digamos “NÃO” à “urgência que a preguiça desmantela!”. Digamos basta às “necessidades, preitos, juramentos – saltos, vertigens, surtos, lançamentos…”.

Vemos o “ser desnudo”, múltiplo, incoerente a refletir sobre sua existência, abandonado nesse “mistério de avançar sozinho”.

Um brinde então à incoerência humana…

Através dessas portas não transpostas nos atinge a luz da imanência – aguda.

Eis o processo de desconstrução possível, o (desa)sossego atingido, essa “coisa simples, verdadeira, que há de durar, no entanto, a vida inteira.”

Homem, ser-arremesso, que:

Não encontra o propósito que o incumba
E passa assim seu tempo, transtornado,
A pensar no equilíbrio perturbado
De um peso sob o qual, no fim, sucumba.

Somos matéria incógnita – nós – o “capital humano”, os replicantes de “Blade Runner”, fruto de uma robotização, visto serem os replicantes também consumidores a realimentar o ciclo capitalista. Buscamos a notoriedade, mas somos massa de manobra, matéria incógnita.

Não se discute aqui o “salto” camusiano, mas o “salto” cotidiano em busca do que insta e instiga o “errôneo salto”.

Livro que nos diz do caminho, do nosso caminho, nossa relutância – quando críticos – em “avançar para dentro da chuva”, conscientes de estarmos “perdidos em um rastro não perseguido”.

Esse parar e avançar do homem contemporâneo, essa “ansiedade de ver e de saber”, essa busca incessante da superação do limite, esse “disparar-contra mil coisas”.

Não é inócua a batalha da vida. É uma busca inglória, onde nos consumimos em busca de prazer – “combustível de nossa ansiedade – aguado e vão”.

E isso já se observa no poema que nomeia o livro de Renato Suttana, quando o poeta identifica a falsa “Máquina do Mundo”, agora não mais a máquina metafísica drumondiana, mas uma “anti-máquina” – sedutora – a nos polvilhar instantes.

Quando me abriram portas, não passei.
Quando, ao longe, acenando, me chamaram
E a direção da entrada me mostraram,
Foi com orgulho e calma que os tratei.

Quando, sem compreender por que hesitei
Frente aos tesouros que me presentearam,
Finalmente, a sorrir, me deserdaram,
Seguindo o rito de uma antiga lei,

Foi com uma indiferença de mendigo
Que a sagração troquei pelo perigo,
Preferindo os desertos do extravio:

Sem entender eu mesmo – assim ninguém –
O motivo, a razão do meu desdém,
Nem o (se o houve) sentido do desvio.

 

As portas de Suttana se abrem para o efêmero, dizem dos mares, labirintos, nos guiam com a luz-poema por mares, desertos e labirintos. Mostra-nos, e nos faz sentir, a dor de “estar assim de frente para o que é sem resposta e é, no entanto, observável”.

São poemas-galope, de ritmo angustiante, tradução do que nos tornamos. Sim, mais uma vez a poesia nos traduz. Homens “moldados” pelo deus-mercado a nos dizer “Vai mais longe. Não para. Precipita-se. Atira-se por cima – do impossível…”.

 

Velocidade insólita – imprevista –
De tudo quanto a vida movimenta:
Da esperança de ter, que nos alenta,
Do desejo de ver, que nos despista.

Vertigem que nos alça e nos orienta
Em direção a um nada de conquista,
Pulsando em nós (até que a asa desista),
Como um sonho de altura, na tormenta.

Pressa de achar sentido e dar resposta,
No escuro do intervalo, a uma questão
Que é no entanto ou equívoca ou suposta;

Mas que nos leva adiante e nos madura,
Nos instiga entre as chuvas, no verão,
Nos faz querer a meta – erma e futura.

 

Suttana é um “especialista em desistência”.

 

sabe que na metade, em plena urgência
de dar um fecho ao plano, ao meditado,
se cansou – e há de estar ali parado,
satisfeito de espera e inconsistência.

 

Diz Ortega e Gasset que “la conciencia de cada uno de nosostros, em efecto, es uma sociedad de personas; em mi viven vários yos, y hasta los yo de aquellos com quienes vivo.”

Se considerarmos que quando morremos persiste a Vontade, mas parte um Universo representado pelos olhos de nossa consciência; e se somos: “eu e nossa circunstância”, quando morremos morre um pouco da consciência da sociedade, pois nosso olhar, nossa forma particular de olhar, não deixa de sofrer algum olhar que seja o olhar do poeta; uma forma particular de “ver” contida em um universo de olhares “medianos”.

E este livro é uma visão critica da contemporaneidade sob o formato clássico do soneto. É esse o “truque” do poeta: a retomada da forma clássica.

Realizei o meu truque em plena claridade
Diante da multidão que não veio me ver,
Mas por acaso ali parou, a se entreter,
Num limite exterior da infinita cidade.

Movidos (reparei) pela curiosidade,
Uma pergunta me fizeram de ir e ser,
A que eu não soube – o equilibrista – responder,
Pois me ocupava um pensamento da verdade.

Como o espetáculo durasse pobre e morno,
Pediram-me que desse um salto diferente,
De modo a divertir com uma pirueta a gente. –

E eu, com um gesto teatral de excelência e retorno,
Da cartola tirei um pombo, um coelho, um lenço –
Que eram migalhas só do meu denodo imenso.

 

Não gosta o leitor da forma, da métrica? Que pena! Considera-a anacrônica? Um enfado? Sugiro que se desfaça deste ranço, deste preconceito, e reflita sobre o que significaria a retomada das formas clássicas para discutir a questão do nosso tempo.

E nada melhor do que começar pela leitura deste “Quando me abriram as portas”, do poeta Renato Suttana, lançado pela Editora Mondrongo. Certamente, um dos melhores livros de poemas publicados nos últimos anos em nosso país.

 

Jorge Elias Neto é capixaba, poeta, ensaísta e médico. Autor de “Verdes versos” (Flor&Cultura – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura – 2010), “Os ossos da baleia” (SECULT – 2012), “Glacial” (Ed. Patuá – 2014), “Breve dicionário (poético) do  boxe” (Ed. Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Ed. Mondrongo – 2016). Publica regularmente na Revista Diversos Afins, Mallarmargens, Revista Germina de Literatura e Revista Zunai.

 

 

Categorias
99ª Leva - 02/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Com quais arroubos se faz um poeta? Por mais que tentemos mensurar, a resposta é imprecisa. E é bom perceber que supostas definições para tal indagação não seguem uma orientação cartesiana das coisas. Mais ainda, é preciso que nos alimentemos da falta de explicação. Noves fora nada, o saldo da dúvida é muito mais atraente.

Quem escreve poesia não intenta clarificar verdades absolutas. Pelo contrário, semeia interrogações e alguns desassossegos. Não é um ser divino. Apenas olha o mundo com a sensação de que se não flutua em torno dele, mergulha fundo no oceano dos mistérios para depois constatar que é tão comum quanto qualquer mortal. Se o resultado dessa experiência implica em estranhamento ou encantamento, talvez consigamos ler tais marcas travestidas em versos.

Ler a obra de um autor não é suficiente. O ato da leitura demanda uma boa dose de envolvimento, quiçá cumplicidade. Quando se opera o despertar de um reconhecimento ou identificação, os indícios da aposta nos levam adiante. Ao percorrermos as veredas poéticas de Geraldo Lavigne de Lemos, uma miscelânea de sentimentos nos vem fazer companhia. Nada ali é gratuito. Cada verso advém de vertentes emblemáticas na trajetória do seu criador. Nesse ínterim, agigantam-se olhares especiais em torno da memória, duma visão crítica de mundo e, também, do amor.

Nascido em Itabuna, na Bahia, mas radicado na vizinha Ilhéus, Geraldo canta seu solo e sua gente como quem redimensiona laços de pertencimento. Com o passar do tempo, soube apurar sua percepção diante das complexidades da vida, tendo em vista que sua obra encerra um marcante componente filosófico. Publicou em jornais e revistas e integrou a coletânea Diálogos – Novo Panorama da Poesia Grapiúna (Ed. Via Litterarum/Editus – 2010 – 2ª edição). O livro À Espera do Verão (Ed. Mondrongo – 2011) marcou sua estreia solo. Recentemente, dois novos rebentos sedimentaram seus arremates criativos: Alguma Sinceridade e Amenidades, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

Ainda sob o efeito de suas novas investidas literárias, Geraldo nos revela um pouco de si. Hoje, sua obra denota um alguém comprometido com a maturidade da escrita diante de temas nada simples de confrontarmos. Tudo isso, somado às manifestações presentes nessa entrevista, faz com que consideremos a importância das escutas em torno desse talentoso poeta.

geraldo-i
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – “Alguma Sinceridade” é um livro no qual vislumbramos os efeitos da lucidez.  Nele, as indagações são maiores do que as certezas, todas elas flutuando sobre um oceano de constatações. Quais marcas assinalam esse trajeto poético?

GERALDO LAVIGNE – Estou sempre tentando acertar e, por isso, sempre pensando na coisa certa a fazer. Não quero que confunda esta postura com qualquer sentimento que se alinhe ao egocentrismo. Trata-se apenas de depurar as atitudes, fazer o bem. Acredito que são estas reflexões que ensejam os meus pensamentos expostos em “alguma sinceridade”. A tentativa de amadurecer e ampliar a compreensão. A tentativa de dialogar isto com o leitor; não para ensiná-lo, mas para refletir. Lógico que os mais variados sentimentos vêm à tona no itinerário da criação (que antecede o da escrita), desde os afáveis aos censuráveis. Exponho-os e exponho-me. Deste modo, as constatações que você aponta na pergunta são as certezas que acredito ter angariado, mesmo sabendo que maiores são as dúvidas. Os poemas apresentam a minha visão sobre o mundo e o homem, bem como sobre mim e minha cidade.

DA – Na medida de sua exposição, um poeta se revela. “Alguma sinceridade” parece trazer um Geraldo muito conectado com uma espécie de sentimento do mundo. O saldo dessa percepção lhe apresenta mais espantos ou contemplações?

GERALDO LAVIGNE – Cada conjuntura pode ter um saldo avaliado. Às vezes os dissabores são maiores, às vezes não. Cada dia que vivo, novas experiências renovam a minha percepção sobre o mundo e sobre o homem, modificam a minha visão ou confirmam os meus pensamentos. Quando comecei a escrever rotineiramente, há mais ou menos 10 anos, sem dúvida o saldo era de espanto. Hoje busco converter este saldo para contemplação. Isto tem acontecido de fato nos últimos tempos. 2014, por exemplo, foi um ano decisivo para aprender que há abrigo em qualquer tempestade. Dele sobreveio um extremo sentimento de gratidão. No mais, permaneço antenado para captar as informações que vagam em cada experiência que temos. Continuarão a surgir espantos e contemplações e eu espero poder continuar a transcrevê-los para o papel.

DA – No terreno do “Amenidades”, seus versos se voltam fundamentalmente para a memória afetiva. Esse, digamos assim, encontro consigo mesmo, serve como uma espécie de renovação do olhar?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Em “amenidades” eu perenizei temas diletos. Reuni neste livro as pessoas que me iluminam, apresentei a ternura da minha infância, resgatei a memória de minha família e discorri sobre meu querido solo, Ilhéus, entre outros lugares. Os poemas de “amenidades” trazem o meu lado afetivo, até então não publicado. Daí, posso dizer com certeza que há nele minhas boas lembranças e o agraciado presente. Nele também há um certo descanso sobre as demais questões. Sabe aquele momento, deitado na rede da varanda, ao lado de quem ama? É assim.

DA – Em que medida as lembranças desse “Olimpo do afeto” são capazes de fazer frente às inquietudes do presente? Um poeta pode afugentar suas dores?

GERALDO LAVIGNE – O sopesamento de o que prevalecerá entre lembranças e inquietudes depende da valoração que atribuímos a elas em dado momento. Acredito que as boas lembranças sempre oportunizarão felicidade na angústia, seja durante a própria recordação, seja na esperança do que virá. Destarte, e levando em consideração que recordar é viver, não só um poeta, mas toda e qualquer pessoa pode afugentar as suas dores se permitir que as boas lembranças nutram a felicidade em seu coração.

DA – “Alguma Sinceridade” e “Amenidades” estão agregados num mesmo volume. Enquanto o primeiro livro observa o mundo com olhos desnudos e certa intranquilidade, o segundo exalta um percurso sereno diante da vida. Equilibrar tais distintos hemisférios pressupõe algum significado especial para você?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Hoje os livros impressos em um mesmo caderno representam para mim a dualidade: saber que as alegrias não são irrestritas e que as tristezas não são eternas. Saber ainda que a alegria convive com a tristeza quando levamos em consideração a vida. Para além destas questões, saber que convivemos com erros e acertos e com um mundo benevolente e cruel. Compreender esta dinâmica me parece o caminho para estar bem consigo e com os outros. Ela também nos auxilia a fazer e a respeitar escolhas, a entender o mundo – mesmo com irresignação. Quando levei os originais para o editor, Gustavo Felicíssimo, eles estavam, como ainda estão, separados, e eu disse para ele que eram livros distintos. A conformação conjunta surgiu ao longo do processo editorial. Já a revelação deste sentido mais apurado sobre a dualidade me ocorreu quando ele já estava impresso.

DA – Você faz parte de uma geração que exercita com mais habitualidade o desengavetar dos escritos, seja em sites, blogs, revistas literárias ou em livros. Com que olhos você observa esse cenário?

GERALDO LAVIGNE – Eu enxergo a literatura como expressão e diálogo. Não expor os escritos é como calar frases pensadas em típicos casos que nos arrependemos de nada ter falado. Esta geração que você diz e da qual participo está mais à vontade com a divulgação. E, a partir daí, penso que a literatura parece possível para pessoas comuns como eu, e não apenas para os extraordinários. Além disso, a divulgação está mais acessível: a internet é uma porta constantemente aberta; novas editoras têm surgido no mercado e oportunizado a publicação de autores inéditos; revistas digitais, blogs e sites criaram espaços qualificados voltados para a literatura. Assim, entendo que o cenário atual de desengavetamento de originais resulta da confluência entre a maior liberdade pessoal dos autores e a disponibilidade de meios.

Geraldo Lavigne
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – Um autor deve estar comprometido com sua verdade pessoal ou com as expectativas dos leitores?

GERALDO LAVIGNE – Ambos são importantes, porém deve estar antes comprometido com a verdade pessoal. A verdade pessoal traduz a identidade do autor. Já as expectativas dos leitores representam o que ele tem provocado nas pessoas. Parece-me que a partir dos reflexos da obra recente de determinado autor surgem tais expectativas. Elas podem servir como guias para trabalhos futuros. No entanto, o autor jamais deve negar o seu espírito, sob pena de se ver descaracterizado e possivelmente infeliz com a própria obra. Isto, claro, levando em consideração que literatura é forma de expressão. Se o autor omitir a verdade pessoal, ele será mero veículo, não voz.

DA – O poeta está preparado para compreender as complexidades mundanas?

GERALDO LAVIGNE – A complexidade do mundo tem aumentado dia a dia. A qualidade intersistêmica dos conhecimentos tem avançado em todas as áreas. Compreender tecnicamente algo demanda cada vez mais informação. Elas estão aí para quem quiser. Por outro lado, as relações humanas dependem muito da sensibilidade. E de sensibilidade, todos nós somos dotados. É possível compreender as questões mundanas, basta se permitir. Estar preparado é um quesito difícil para todos. Por isso digo que o importante é manter a mente aberta e o coração limpo, ser prudente, estar atento para as experiências, aprender o que for possível e guardar o que for verdadeiro.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

GERALDO LAVIGNE – A falta de realidade. Contarei isso em algumas frases. As pessoas convivem menos. As crianças brincam em ambientes virtuais, muitas vezes sem sair de casa. Elas também não conhecem os alimentos naturais ou as coisas simples da natureza. A ficção está presente no cotidiano. A pessoa é frustrada por não possuir características de personagens ou se decepciona quando o outro não as tem. Há um culto exacerbado da perfeição. A pressa é implacável. O futuro é uma sombra que as pessoas dizem se preocupar. Posso relatar aqui ainda um longo conjunto de exemplos, mas tudo se resumirá à falta de realidade. Precisamos reencontrar o ser humano.

DA – Qual a diferença do Geraldo de hoje para aquele de “À espera do verão”?

GERALDO LAVIGNE – Muitos fatos sobrevieram neste interregno. Tentei aproveitar as lições da experiência. Delas eu consegui alguma maturidade, pude me conhecer melhor e aprendi os valores da gratidão e do amor. Hoje consigo exercitar melhor os meus pensamentos e princípios. Sobre a produção literária, acredito que tenha acompanhado este amadurecimento. Os poemas estão mais fluidos e rítmicos. A linguagem melhorou. A mensagem está mais apurada com o que pretendo. Também houve uma participação acentuada de temas afetivos, sem dispensar a continuidade da temática existencialista e metafísica, nem tirar os olhos do homem e do mundo.

DA – Afinal, por que escrever?

GERALDO LAVIGNE – Literatura é linguagem e arte. A comunicação é a finalidade precípua da linguagem, enquanto a libertação, a da arte. Existem vários porquês nestes dois universos interseccionados. Há neles substrato em abundância, inclusive para os casos aquém das questões essenciais. O meu primeiro foi a necessidade premente de expressão. O seguinte foi a busca da compreensão. Vieram mais; uns eu abandonei, outros não. O império do pensamento lógico incentiva a procura pela verdade mediante o cotejamento da causa com a consequência. Por isso nos deparamos com dúvidas como a da presente interpelação. Afinal, é mesmo preciso algum porquê?

Categorias
92ª Leva - 06/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Tantas eras já atravessadas e o caminho das palavras continua a se  guiar pelos imperativos da liberdade. Podemos aqui falar em liberdade a abranger tanto o campo criativo quanto o editorial. No primeiro caso, a conjunção entre forma e conteúdo confere vigor a todo e qualquer escrito. Com relação ao outro, novas investidas são pensadas como estratégia de trazer ao lume do mundo vozes muitas vezes nunca dantes percebidas.

O fato é que editoras não funcionam sem que tenham em suas mãos algo valioso. De nada adiantaria todo um trabalho de garimpagem de escritos os mais diversos possíveis se os sujeitos que os representam não trazem a marca da qualidade em suas expressões. O tempo em que vivemos tem trazido alternativas significativas no que se refere a publicações de obras. Nesse ínterim, um ânimo renovado irrompe. Na contramão dos ditames puramente mercadológicos, os quais segregam muitas obras a espaços confinados ou as enquadram num círculo duvidoso de preferências, o papel das pequenas editoras tem proposto novas reflexões sobre o tema.  Através do uso de tiragens reduzidas e de ferramentas de comercialização e divulgação diferenciadas, tais empresas intentam não somente um lugar ao sol, mas também servirem como espaços de democratização de expressões.

Um dos exemplos vivos dessa nova aurora editorial é o da Mondrongo Livros. Sediada em Itabuna, no sul da Bahia, a editora tem como seu fiel condutor o escritor paulista Gustavo Felicíssimo. Há pouco mais de vinte anos, Gustavo, que é natural de Marília, escolheu as paragens baianas como seu novo espaço no mundo. Sempre foi um obstinado ativista cultural e durante muitos anos fomentou a recuperação de obras de relevantes nomes da poesia baiana, bem como colaborou com a divulgação de outras tantas vozes. Sem dúvida alguma, sua vivência de poeta e de apaixonado pela literatura é que faz dele um homem mais preparado para enfrentar as vias editoriais. Dentre suas obras, estão os livros Outros Silêncios (2011), Procura & Outros Poemas (2012), Blues Para Marília (2013), todos pela Mondrongo. Experimentando um outro momento em sua feição de editor e prestes a lançar seu mais novo rebento poético, Gustavo nos recebe para um diálogo cujo tema maior não poderia ser outro: a marca indelével da literatura.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

 

DA – Num determinado ponto de sua trajetória com a literatura, eis que surge a Mondrongo Livros. A partir daí, sua feição de editor, já acostumado a projetos diversos, ganha um substancial impulso. Que tipo de necessidade marca a origem da editora?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A Mondrongo nasceu de uma imensa e profunda insatisfação que eu vivia com tudo o que me cercava profissionalmente há anos. Posso dizer que foi o Teatro Popular de Ilhéus, através do Romualdo Lisboa, que em 2011 livrou a minha alma de um infarto fulminante ao me convidar para o desafio de fundar a editora com o objetivo claro de fomentar a literatura no sul da Bahia. Agora a Mondrongo está em voo solo, desvinculada do grupo, e batendo suas asas para além das fronteiras sulbaianas, mas a gratidão é e sempre será imensurável. 

 

DA – Como está sendo o processo de expansão da editora? Há uma clara intenção de abrir espaços para autores de outros recantos do país?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Há uma assertiva atribuída a Tolstói, que diz mais ou menos o seguinte: se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia. Eu digo que para tornar a Mondrongo uma editora de relevo nacional, primeiramente ela precisa, além de tempo, ser importante para o local em que nasceu. Assim, após três anos de existência e já tendo consolidado uma posição de relevo na cultura sulbaiana, começamos a pensar na ocupação de um espaço estratégico na Bahia. Para tanto, criei a “Série Horizontes”, que vem, desde o final de 2013, publicando alguns dos principais poetas baianos da chamada “Geração Anos 2000”, como o João Filho, Henrique Wagner, Silvério Duque, Nívia Maria Vasconcelos, Patrice de Morais e Herculano Neto. Esse nosso empenho em prol de uma geração vem dando bons frutos, atraindo público satisfatório para os nossos eventos, e olhares interessados tanto das academias quanto do próprio meio literário, o que comprova o acerto das nossas escolhas. Até o final de 2014, somente nesta série, teremos 10 obras publicadas. Criei também a “Série Mondronguinho”, exclusivamente para a publicação de obras infantis e infanto-juvenis. Fruto de uma demanda natural, a Mondronguinho tem dado um retorno muito positivo e alargado os nossos horizontes, pois é uma seara nova para mim e com a qual venho aprendendo muito e consolidando parcerias estratégicas. Já em um plano mais amplo, mas nem por mais importante, trabalharei para tornar a Mondrongo uma referência nacional para o Haikai, essa forma poética tão importante, mas ao mesmo tempo tão marginalizada, publicando, inclusive, autores de relevância. Para isso tenho em desenvolvimento a edição das cinco primeiras obras que deverão ser lançadas até outubro deste ano. Enfim, a expansão está acontecendo de maneira natural. Ou seja: de acordo com o que avançamos no cumprimento das metas planejadas, outras metas vão se impondo naturalmente. 

 

DA – Na sua avaliação, quais características marcam a nova face da literatura baiana?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A face é sempre a mesma. Em “Oropa”, França e Bahia, como em qualquer lugar, a literatura é multifacetada. Não há características que a possam definir. O que existem são os bons e os maus escritores. Os primeiros são capazes de escrever obras que marcam nossas vidas; outros, mal conseguem preencher os espaços vazios na estante.

 

DA – Cada vez mais, as editoras independentes vêm ganhando espaço no Brasil. Uma das alternativas de atuação delas está no uso de tiragens reduzidas como estratégia de sobrevivência e também de reação ao mercado editorial vigente. De que modo você percebe esse processo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Cada dia mais me parece que ser independente é, necessariamente, depender de todo mundo. Mas o que aqui se deve entender como “independente” é o fato de ser uma editora pequena, de poucos recursos financeiros, que valoriza o autor e tem um olhar diferente para projetos inusitados, muito embora, como qualquer empresa, necessite trabalhar com os pés no chão para não quebrar por conta do entusiasmo. O capitalismo nos deu tecnologias, possibilitando pequenas tiragens com boa qualidade, custo acessível e canais de venda via internet, possibilitando que nos distanciemos cada vez mais das livrarias convencionais, muitas vezes parecidas a cemitérios de livros. Deu-nos ainda, em certa medida, a condição de ignorar a mídia tradicional, que sempre nos quis ver com pires na mão. Parece-me que o caminho dessa “reação” passa por aí. 

 

DA – Desde 1993, você elegeu a Bahia como morada. E seu livro “Blues para Marília” é algo pungente na medida em que pontua a sua travessia como escritor até aqui.  Como você vislumbra esse seu exílio íntimo de poeta? 

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Minha ligação com a Bahia é algo muito especial, transcendental, diria. E Marília é a base da minha gênese. Em 1970, meu pai, que era Caixeiro viajante, esteve em Salvador a trabalho e trouxe consigo a minha mãe. Quando retornaram, ela estava grávida. Daí por diante, sempre que ele se lançava no mundo dizia: “Mulher, cuida bem do nosso baianinho”. E na volta, inevitavelmente, perguntava: “E aí, mulher, como está o nosso baianinho?”. Daí que para mim não há mistério algum ter vindo parar ocasionalmente a trabalho na Bahia, em 1993, e daqui não ter saído mais. A par disso, posso dizer, literalmente, com as palavras do Gilberto Gil, que a Bahia me deu régua e compasso, que aqui, graças a todas as influências, sobretudo culturais, fui forjando o homem que sou, o entendimento de mundo que tenho. Foi aqui que entendi que sem a literatura a minha vida não poderia mais acontecer. E o que me é mais caro: aqui nasceu a minha filha, esse ser que amo tanto e que me mostrou o quanto sou pequeno. É à margem do que sou que sei exatamente o que não fui.

Sobre Blues para Marília, penso que essa pungência atribuída à obra se deve pela inserção de um forte componente emocional, minhas mais alegres e dramáticas reminiscências. Com elas me fiz e me desfiz nos caminhos da vida. Foram dez anos de escrita, dez anos tentando entender as minhas agonias para traduzi-las em imagens, algo que somente a poesia, com sua potência verbal, pode dar conta.  Isso se o autor trouxer consigo uma profunda consciência literária e o respeito pela tradição. Somente assim é possível manter a poesia liberta, em pleno voo. O livro foi lançado em abril de 2013 e vendeu os 500 exemplares iniciais, o que me forçou a providenciar uma segunda edição ainda mais caprichada, disponível para aquisição.

 

DA – Criar é notadamente uma confissão de pertencimento?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Em todos os sentidos. E mais: é uma questão de identidade. Afinal, nossa escrita é o reflexo do que somos. Mas criar é também uma espécie de defesa, uma forma do ego repelir a angústia e a ansiedade, sublimando-os.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

DA – A memória afetiva pode ser também um terreno melindroso para o poeta?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Se, como afirmo anteriormente, nossa escrita é um reflexo do que somos, logo a “memória afetiva” é parte da identidade do autor. É ela que repudia os contrários gerando tensão. Essa oposição gera a necessidade de se diluir a tensão, proporcionando a força motriz da criação. O Anthony Storr, em “A dinâmica da criação”, explica que uma pessoa criativa necessita de um mergulho incomum no seu interior para conter e fazer uso do que descobrir ali.

 

DA – Em “Procura e outros poemas”, você experimenta o gosto de uma maturidade literária. E há ali também uma, digamos assim, alusão ao uso responsável do verso livre. Diante dessa atmosfera, quais reflexões lhe parecem mais relevantes?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Embora transite por diversos gêneros literários, sempre fui conhecido, ou mais conhecido, como poeta. Talvez por isso a Mondrongo venha se firmando e merecendo atenção por conta dos projetos e publicações nessa área. Quanto a meus livros, o que posso dizer é que sempre tive a consciência de que um compêndio de poesia precisa ser formado por uma unidade, um aspecto qualquer que o perpasse como uma espécie de fio condutor, afinal, um livro do gênero não deve ser um ajuntamento aleatório de poemas, mas antes de tudo uma proposta conceitual, seja ela discursiva ou formal. Daí eu ter levado, em média, dez anos para aprontar cada um dos meus livros. Mas sejam em versos medidos ou não, me parece importante que os volumes de poesia reflitam essa proposta estética, muito embora não tenha muita esperança quanto a isso, pois os poetas, de um modo geral, historicamente interpretaram de maneira inadequada o modernismo, permitindo que a sua influência lhes prestasse, em verdade, um desserviço na medida em que se confundiu liberdade com permissividade e até mesmo vulgarismo. É como disse o Elliot: não existe verso livre para quem quer fazer um bom poema.

 

DA – No conjunto de sua obra, há uma busca consciente por uma unidade formal?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – O termo “formal” da pergunta parece vir revestido de um significante pejorativo, no entanto é necessário considerar que todo poema é uma unidade formal se levarmos em conta que não poderá ser considerado como tal se não conseguir amalgamar em seu bojo elementos como “imagem”, “melodia” e “ideia”. O problema é que termos como “forma”, “métrica” e “versificação” se transformaram em verdadeiros xingamentos para os poetas na modernidade. Só que não conheço nenhum bom poeta que não domine esses elementos fundamentais, até para quem se identifica mais, ou mais especificamente, com o chamado verso livre. Todavia, como afirmou Ildásio Tavares, esse é um processo dialético e o esvaziamento de um conduz à valorização do outro. À parte essas considerações, o importante é que, seja em verso livre ou concebido dentro de alguma forma, se faça poesia. No entanto, é necessário lembrar aqui um provérbio latino que diz fit orator, nascitur poeta.

 

DA – Você está prestes a lançar seu mais novo livro, “Desordem”. Com qual clamor estes versos surgem?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Mesmo não tendo nenhuma certeza quanto a isso, posso dizer que “Desordem” foi se construindo permanentemente assistido por um rigoroso discernimento crítico. Nele, através do uso da metalinguagem, estão contidas diversas das minhas reflexões sobre a poética e o fazer poesia, também há uma suma importante de reflexões sobre a morte, resumidas em um capítulo formado apenas por elegias, e, por fim, há um capítulo intermediário em que floresce muitas vezes o meu lado combativo em poemas de feições diversas, normalmente de características obscuras e até mesmo pessimistas.   

 

DA – Nesse universo de percepções que abriga o poeta e o homem, o quanto Gustavo Felicíssimo conhece Gustavo Felicíssimo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A única maneira que tenho para responder à pergunta é com um antigo poema, intitulado Autorretrato.

 

Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;

sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo

a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta:

trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.

 
– 3 POEMAS INÉDITOS* –

 

À POSTERIDADE

 

Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!

 

 

***

 

 

EU NASCI DECLARANDO GUERRA A VOCÊ

Para Cristiano Jutgla

 

Dane-se essa onda do politicamente correto,
essa mania de não poder desagradar nunca,
afinal, a existência não é mais que um incêndio.
Que importa restarem cinzas depois das chamas?*
Que importa a bondade dos liquidados?
Não procurar a verdade na imensidão da verdade,
senão na força falsa de um imbecil diplomado
é o mesmo que não se aplicar em traduzir
o que a vida mesma está sempre a nos dizer.
Não tecerei alvíssaras a mais pura mediocridade.
Não vencerei o tolo jogando o seu jogo.
Ele surge como se fosse o novo,
mas é o farol apagado no meio da imensidão.
Assim ele marcha: num cortejo fúnebre.
Assim se mantém: com muletas que não o sustentam.
Nenhuma filosofia o alimenta ou ampara.
Estúpido, que na estupidez se espelha,
eu nasci declarando guerra a você:
eu nasci odiando a tua mediocridade.

 

* O verso é de Mário Quintana

 

 

***

 

 

UMA FAGULHA

 

Essa corda que vibra
no poema é a vida
pois se nela um sopro insiste
se um fio de esperança
……..ainda resiste
é por que enquanto houver gente
haverá sempre o sonho
uma fantasia qualquer
que fará da poesia tão somente
…………….o sol na face
…………….o sorriso da criança
…………….o seio da amada
– e porque não –
um domingo de futebol
e a torcida na arquibancada.
É que enquanto houver no homem
a sede de afrontar a angústia
e a fome
……..implacável
………………….de viver
haverá por certo uma explosão
algo fazendo tinir
o cristal que nos move
e não deixa morrer a ilusão
de que a poesia
……..– para sempre –
……..continuará a ser
uma fagulha que inflama a existência.

 

 

* Os poemas acima fazem parte do livro Desordem, a sair pela Mondrongo em 2014.

 

 

Categorias
85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Do sonho ao pó… ou breves considerações sobre o livro  O Chão e a Nuvem de Heitor Brasileiro Filho

Por Silvério Duque

 

 

 

 

ao poeta e amigo Antônio Brasileiro,
pois tudo que, aqui, se aplicar ao brasileiro de Jacobina-Ilhéus,
aplicar-se-á, muito melhor, ao brasileiro de Feira de Santana…
Esquecida no tempo, a alma procura
algo que, já não é, porque era tanto…
Emílio Moura

 

Fui presenteado, por seu próprio autor, com o livro O chão e a nuvem (Mondrongo, 2013), de Heitor Brasileiro Filho, e, sem perder tempo com a tamanha falta de tempo que muito me desagrada ultimamente, li-o de pronto e com muito apetite. E posso confessar que, com o manjar poético que Heitor Brasileiro Filho preparou para mim, bem como aos seus outros leitores, dei-me muito por satisfeito.

Poeta de alma e coração de ouro – por ter nascido na cidade baiana de Jacobina – e de verso e prosa atrelados a uma consciência tão lírica quanto rebelde – pois é escritor radicado em Ilhéus –, Heitor Brasileiro Filho revela-se um poeta de temas e formas tão engenhosos quão bem realizados, por mais que lhes faltem, muitas vezes, as técnicas clássicas que formaram nossa consciência literária ao longo de séculos e lhe sobrem aquele impulso de liberdade e, muitas vezes, de libertinagem, que nos é inerente desde a aurora do século passado. Dizer mais o quê, então…?!

Vejamos… À primeira impressão, o livro (com uma primorosa edição, diga-se, bem típica à qualidade que a Editora Mondrongo tanto gosta de prezar e presentear aos seus consumidores) não poderia me parecer melhor, porque os elementos estruturais da poesia de Heitor Brasileiro Filho revelam-se frutos de uma consciência artística muito vigorosa, sem que, em algum momento, venham perder-se de uma identificação realista tanto com a vida, em suas mais diversas impressões, quanto com a natureza, em seus mais diferentes sentidos, mostrando pouquíssimos traços com as influências românticas e modernas das quais a expressão poética brasileira, em sua atualidade, ainda se fia e se confia. Não que Heitor Brasileiro Filho não as possua; só não se dá ao luxo idiossincrático de revelá-las, sem nenhum pudor, a um público tanto preparado, bem como àquele pouco afeito a discussões poético-formais de quaisquer tipos, como é o caso deste que vos fala… – Oh, meu Deus!

Também, não é preciso, todavia, um diploma universitário de qualquer tipo para perceber que, em sua poesia, Heitor Brasileiro não é um homem de comportamento fechado – defeito terrível de muitos pequenos e grandes bardos –, digo: de se apresentar (enquanto poeta que é) fechado ao mundo. Como queria um T.S. Eliot, o autor de O chão e a nuvem não foge “ao desenho de autorretratos nem de confissões pessoais”, sem que sua veia poética se perca por causa disso. Tudo que se lê, em O chão e a nuvem, é de uma autonomia muito sagaz, e digo até sem vergonha, pois se lá existem temas fortes à pessoa de Heitor Brasileiro Filho, os mesmos poderiam ter um alto preço ao poeta.

Uma coisa é certa, este versificador de formas livres e, às vezes, até descuidadas, sabe (como poucos) captar a essência espiritual de pessoas de modos e vidas simples, somadas, evidentemente, aos modos e, quem sabe, à vida simples dele próprio. Seus versos, diga-se não só de passagem, têm uma espécie de engenharia que muito contribuem para isso. E, se não bastasse, aglomeram um imenso cabedal de sons, imagens e efeitos sinestésicos tão dissonantes, muitas vezes, que só poderiam terminar numa mistura tão inusitada quão intensamente reveladora. É o caso de versos como os contidos em Soluços Sísmicos:

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado.

 

os do intricado e revelador O grande espetáculo da terra:

 

Hoje não vou à Broadway –
pois não é que nunca vou à Broadway –
que importa fogo ou neve em New York?
Vou ficar para o grande espetáculo da terra

como o circo de Maru
com a rumbeira Margareth
e os clowns Chega-Chega e Batatinha
no ritmo inebriante de Tijuana Taxi

meu Deus, que fim levou a rumbeira Margareth
delírio da criançada de perdida infância
casou-se e foi para Feira de Santana

véus – muitos véus – iam-se dissolvendo um a um
agora grinaldas, o buquê, girândolas de pétalas
uma tiara de corações partidos
e aquela calda toda
……………………………..de branco

imagino-a sob o altar da Catedral
da sagrada Nossa Senhora de Sant’Anna
ao eterno som de Tijuana Taxi

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

(apoteose dos grotões de minha terra:
na aurífera
na agrícola
nessa imensidão distante e tão próxima
como a antiga cidade de Jacobina

sem o arpejo, o canto, o desespero de Bob Silva
sem o auto-faltante da Rádio Nacional
nem a doce viola de Paulo da China
numa esquina perdida da Rua Ana Nery
mas cristalizada numa antiga cantiga)

Há um momento em que os malabares
…………………………………..eternizam-se no ar

e o trapezista projetava-se
para o alto e precipitava-se
sobre um assoalho de taipás
para o delírio da meninada
………………………sem infância
sem rede
sem coração

e lá estava o homem-borracha
estatelado em linha reta
– e a linha tênue –
Na linha oblíqua do chão

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

Têm-se infância e memória?
A quem importa a ruína do Empire State?
Que importa a estrutura vítrea do Louvre
o burburinho do Quartier Latin
as ruínas gregas e as pirâmides no Cairo
o Coliseu e o túmulo de Tutacamon?

Meu Deus, o que importa
a privada de ouro de um sultão em Omã
se o levante do Oriente
é o que há de mais moderno?

Que importa aquele edifício em Dubai
ante o singelo pedido da natureza –
subcutânea tatuagem e a fina estampa da pele?

Deem-nos infância e memória
e ficaremos para o grande espetáculo da terra.

 

ou mesmo nos versos, como dirá Jorge de Sousa Araújo, de “solução simples e grande gozo estético”, contidos em Lirium:

 

quem
bem me
quer
não me
despe
……ta
……la

 

Mas cuidado, confissões de poetas não têm valor algum para a obra de arte se não forem compostas como obras de arte. E versos como os contidos em Soluços Sísmicos e O grande espetáculo da terra, bem como a todos pertencentes em O chão e a nuvem são bem mais que meras confissões de um menino ainda presente num homem adulto – tema, aliás, caríssimo ao velho Manuel Bandeira – mas que não se encaixa muito bem à obra de nosso jacobino-ilheense que, acima de tudo, quer se vestir de muita maturidade em tudo que faz e escreve. É preciso, antes de qualquer interpretação ligeira, ler tais poemas como uma grande crítica à política, ao mundo, ao cotidiano, à hipocrisia dos homens e outras tantas temáticas ali presentes e tão prontamente reveladas por uma poesia muito fácil de compreender; contanto que não se entenda “fácil”, aqui, como sinônimo de coisa pouca ou sem grandes significados, pelo contrário: um bom poeta, formal ou não, erudito ou afeito às cantigas populares, tem de saber dialogar com o público que carrega sua poesia e a quem ela pertencerá quando este se for deste mundo para se misturar ao húmus dos monturos e coisa e tal.

É impressionante a capacidade que Heitor Brasileiro Filho tem em criar uma espécie de background emocional em seus poemas, fazendo com que a força dos elementos significantes de seus versos pouco precise dever aos elementos de sua estrutura sonora ou rítmica, ao tempo que tudo isso nasce de uma disposição muito engenhosa, como já disse. Assim sendo, Heitor Brasileiro Filho pode muito bem se sentir à vontade para reivindicar temas tão pessoais e que lhe trazem conflitos tão arrebatadores, pois, ao se reportar novamente à infância, e com ela, por exemplo, a um circo de onde a alegria e a ingenuidade de menino dão lugar aos primeiros delírios eróticos de rapaz – como se pode facilmente perceber em O grande espetáculo da terra –, fica fácil, ao leitor, mergulhar no turbilhão composto tanto de alegrias bem como de profunda angústia; de esperança e tristeza; fantasia e realidade… e tudo o mais que se pode extrair mesmo de uma leitura menos cuidada de versos como os de Heitor Brasileiro Filho e que, em certos momentos, nos parece ser tudo que ele possui de real e de valor. Eis a força da sinceridade de sua lírica e da maneira apaixonada com a qual o poeta entrega-a ao seu público.

A facilidade em captar diferentes planos para um mesmo tema ou efeito imagético, independentemente de se tratar de um tema autobiográfico ou uma evidente intertextualidade, é, quem sabe, a parte mais bem elaborada de O grande espetáculo da terra e um caractere muito revelador em tudo que diz respeito ao seu livro, O chão e a nuvem. Com isso, Heitor Brasileiro Filho consegue poemas ao mesmo tempo tão belos quanto elaborados dentro da melhor técnica artística possível e compreensível, ou como dirá o professor Jorge de Souza Araújo, na apresentação deste mesmo livro: “um poeta que se chama Heitor – evocando acordes de um Villa Lobos – e é brasileiro no sobrenome e na natividade de ações afirmativas, tem, neste O chão e a nuvem, um agudo repertório de espantos, uma frequência de ironias, uns remates de mímeses, coincidências fabulares, diálogos e interlocuções com outros comparsas (a exemplo de Ferreira Gullar) a que não podemos deixar de apreciar e refletir”. Em suma: a poesia de Heitor Brasileiro Filho se quer uma poesia plena em sua essência, ou seja, quer nascer e se firmar através da documentação dramática que só a perplexidade aliada a uma carga lírica, tão técnica quanto emotiva, pode nos trazer.

Se há algo de realmente muito agradável na poesia de Heitor Brasileiro, mais até que a sua evidente capacidade poética, é a sua total incapacidade para o “mascaramento”, tão comum tanto ao poeta moderno quanto ao contemporâneo. Por isso mesmo, é mais que evidente que um poeta que escreve um livro como O chão e a nuvem se sinta tão livre para eleger temas como os que nele se encontram; capazes mesmos de fazer com que uma linguagem que não se pretende mais do que simplória adquira conteúdos às vezes tão mágicos e cujas metáforas possam abrir mãos de suas relações analógicas criando imagens tão dissonantes e símbolos tão dissolventes que, aliados a temas tão pessoais, e, não raramente, caros ao seu autor, capazes de trazer à superfície dos versos uma pesada carga de emoções – nem sempre agradáveis – possam criar poemas como esses: frutos de sonhos e de pó.


(Silvério Duque é poeta, professor, formado em Letras pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), e músico. É autor de “A pele de Esaú” (Via Litterarum, 2010), “Ciranda de Sombras” (É Realizações, 2011), “Do coração dos malditos” (Mondrongo, 2013). Seu próximo livro, “A moldura vazia”, está no prelo)


 

 

Categorias
82ª Leva - 08/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar entre os mortais e perceber nisso um trunfo é algo, no mínimo, instigante. E pensar que deixamos, muitas vezes, o filme da vida passar, desavisadamente e sem maiores considerações, diante de nossos olhos é mais curioso ainda. Caberia, então, somente a um escritor repisar as corriqueiras epifanias restritas, em sua maioria esmagadora, ao cenário das individualidades? Quem mais se habilitaria a expelir a seiva de nossas verdades esquecidas?

Na música Peter Gast, Caetano Veloso, por exemplo, entoa o canto de um homem comum, enganando entre a dor e o prazer. E vai mais longe, confessando-nos a sina de atravessar uma existência sob o manto da insignificância, encontrando alento num coração de poeta que, mesmo condicionado à solidão, ainda seria capaz de algum voo. Guardadas as devidas proporções, talvez seja mesmo esta a trajetória de um escritor, sobretudo quando a luta maior seja fazer ecoar sua voz num universo de múltiplas representações do ser.

Adentrar os becos e vias difusas das letras de Rodrigo Melo pode nos ajudar a perceber porque divagamos outrora sobre a necessidade de perceber as coisas que nos cercam. Oriundo das paragens marítimas de Ilhéus, na Bahia, Rodrigo é um daqueles artífices da palavra que têm predileção por dissecar a alma humana. Com um tom lúcido e sagaz, seus contos põem em xeque algumas costumeiras zonas de conforto, muitas vezes propondo arremates decisivos a algumas situações. Utilizando-se de uma linguagem despojada de elaborações mais formais, é hábil em fazer de sua obra um elo de aproximação com os leitores. Suas narrativas privilegiam aspectos tão vivos e intensos de nosso tempo, embalando revelações e propondo olhares especiais sobre o mosaico de complexidades que reveste as pessoas. Autor de O sangue que corre nas veias (Ed. Mondrongo – 2013) e, mais recentemente, integrando a coletânea de contos 82 – Uma Copa – Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo), Rodrigo Melo nos recebe para uma entrevista. Fala um pouco de seu caminhar literário e expõe algumas opiniões sobre o meio. De todo o dito, fica a impressão de que estamos próximos a um alguém que valoriza a arte do encontro, vislumbrando no leitor um sujeito ativo na condução das histórias.

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

 

DA – O livro é o “82 – Uma Copa – Quinze Histórias” e, com o conto “A culpa foi minha”, você demarca seus territórios naquela coletânea de difusas vozes literárias. Sua escolha narrativa passa ao largo de ter uma partida futebolística como o centro das atenções. Qual a real dimensão da aposta nesse, digamos assim, deslocamento temático?

RODRIGO MELO – Não sei bem se foi uma aposta. Parece clichê, mas acho, na verdade, que não tive escolha, porque não recordava o bastante daquele jogo. Ao buscar alguma lembrança, o que vinha era a infância e, consequentemente, a casa de minha avó. Aqueles três gols de Paolo Rossi feriram o Brasil, mas, antes disso, a minha família, porque era essa a minha referência – e foi assim:   minha tristeza não existindo por conta do jogo, mas pela dor que os outros sentiam. Lembro que, por uma semana ou mais, depois que tudo acabou, todos, voluntariamente, abdicaram da felicidade. Para um moleque de onze anos, vivenciar aquilo era como ficar um tanto mais maduro antes da hora. Calculo, então, que ligar aquela copa de 82 à minha família foi, de todo modo, inevitável.

DA – A maneira como você articula o mote da culpa por entre os personagens é algo que chama atenção. Nós, míopes mortais, estamos acostumados a esse jogo de transferências quando buscamos respostas para as coisas. Seriam as armadilhas dum incorrigível espírito humano?

RODRIGO MELO – Imagino que somos todos uns sofistas, afinal. Porque, como você mesmo cita, a alma tem as suas armadilhas. Já devem ter dito que entendê-la assemelha-se a desvendar um labirinto, e é o que também me parece. Esse labirinto tende a crescer ou diminuir. Calculo que tudo vai de acordo com o dia, a fase, ou, quem sabe, a evolução. O mais provável, e comum, é que cresça, e, embora pareça antagônico, enxergo um encanto nisso. Encanto e esperança. Mesmo falível e sem saber verdadeiramente qual o combustível que o move a sair e fazer as coisas, mesmo sem entender muito bem o que é e qual a finalidade de existir, vivendo numa espécie de superfície, ou miopia, evitando qualquer mergulho que o molhe um pouco mais, o ser humano segue contínua e insistentemente em busca da redenção. Chega a ser bonito: a eterna luta para alcançar a luz, luz essa que nem sempre é divina.

Por conta disso, creio que somos todos corrigíveis, embora também acredite que a humanidade ainda recenda a uma multidão correndo em direção à saída de emergência, ou a um bêbado, no escuro, tateando pelo interruptor.

DA – Depois de algum tempo de lida com as palavras,  você lançou seu primeiro livro, “O sangue que corre nas veias”. A obra veio no momento certo?

RODRIGO MELO – Tenho certeza que sim. Quando Gustavo Felicíssimo (poeta e editor da Mondrongo) me convidou a lançar, me senti honrado, quiçá vaidoso, ao mesmo tempo em que surgiu a dúvida. O material que tinha eram os contos antigos, escritos, quase todos, há mais de dez anos, e eles necessitavam de bastante atenção. Além disso, eu vinha de um longo período sem contato com a literatura – não escrevia, sequer lia algo. De alguma forma, abaixara a guarda, ou, como se diz, colocara a sujeira debaixo do tapete, e estacionara.  A possibilidade de ser editado trouxe de volta a vontade de pegar o mundo todo num ouvido só. Passei dois meses revisando e, se pudesse voltar no tempo, passaria mais dois. No entanto, o resultado me agrada, me satisfez. Acho que “O sangue que corre nas veias” dá seu recado.

DA – As paisagens que você visita no livro refletem um universo onde os personagens, com certa frequência, vivenciam situações de limite extremo. Entre hesitações e impulsos, desfechos se operam arrematando com um golpe certeiro os destinos entrelaçados. O que dizer de tais escolhas?

RODRIGO MELO – Situações limite, e creio nisso cada vez mais, não precisam necessariamente estar envolvidas em violência ou trauma. Elas podem ser a expectativa de que algo aconteça ou a frustração daquilo não ter acontecido: um tiro que será disparado, um beijo que ficou pra depois. Acho que foi o Raymond Chandler quem disse que quando uma história vai mal, o certo é matar alguém. Eu, embora goste dele, protelo mortes. Busco, hoje, no cotidiano, nos acontecimentos ditos banais, comuns, que pra mim têm força, beleza e significância, o mote para escrever. E não há nada mais doido e grandioso que existir – os sonhos, os medos, a vida de cada um. Acho que tento pegar esses pequenos pedaços, eles sempre em andamento, posto que nada para.

DA – E é interessante perceber que a linguagem através da qual você engendra suas histórias, dotada de clareza e simplicidade, sustenta com propriedade as narrativas. A que você atribui essa sua aproximação com o coloquial?

RODRIGO MELO – Muito provável que pelo desejo de ser entendido. Admiro a técnica, ao mesmo tempo em que alimento um distanciamento do virtuosismo. Penso que pode ser uma armadilha. Talvez pense assim por comodismo, não sei bem. A questão é que, embora valorize a forma de dizer as coisas, acredito que vale mais o que se diz. E é essa a busca: ser, dentro do possível, simples, sem ser simplório. Claro que é difícil e, quase sempre, o tiro acerta o pé. A tentativa, no entanto, já conta.

DA – Dois aspectos presentes em seus contos e que merecem destaque são a fluidez e um ágil ritmo narrativos, traços bem típicos do cinema. Some-se a isso, também, o viés imagético. Diria que sua literatura mergulha conscientemente nas influências da sétima arte?

RODRIGO MELO – Gosto dos cortes, da velocidade que os filmes têm, e penso que aplico, ou tento aplicar, muito desse “dinamismo” no que escrevo. Aliás, bem antes de Rubem Braga, Carlo Mossy já era um herói. Ele e tantos outros. Crescemos vendo tv. Lembro de “Agarre-me se Puderes”, um dos filmes que marcaram, e todas as vezes eu ficava com aquela espécie de encantamento, satisfação. A mesma coisa com os filmes dos Trapalhões. Depois vieram os outros. Hoje, e não digo por desdém, mas porque, imagino, a forma de contar as histórias se ampliou, ou quem sabe por já saber o final, não assistiria novamente “Agarre-me se Puderes”, nem mesmo pelas perseguições. O mundo mudou e eu, provavelmente, também. De qualquer maneira, o filme cumpriu o seu papel. Assim como “As Minas do Rei Salomão”. Porque somos todos uma esponja, carregando algo de tudo o que experimentamos, cada vivência nos transformando, a operação de uma tia ou o último lançamento dos Coen,  juntos e misturados num recipiente só.

Acho, então, que tanto a tentativa de fluidez quanto essa questão da imagem, em grande parte, vêm, sim, dos filmes que assisti. Mas acontece também, por outro lado, que há certas pessoas, e elas podem escrever, filmar, pintar, cantar, tirar fotos ou fazer malabares, tanto faz, essas pessoas às vezes mandam muito bem, e isso te força a pensar que também dá pra conseguir. A mais forte influência, acredito, é sempre essa. 

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

DA – Em matéria veiculada recentemente pelo site Estadão, apontou-se um outro panorama no que se refere à aparição dos novos escritores. Muitos deles estão preferindo submeter seus primeiros escritos na via dos concursos literários, almejando prêmios e, com isso, suporte para publicação, em lugar de buscarem diretamente editoras. O que pensa a respeito disso?

RODRIGO MELO – Os prêmios dão visibilidade, e, com a verba, imagino que uma tranquilidade maior. Escrever é por vezes recompensante, mas quase nunca pelo lado financeiro. Isso raramente acontece. O sujeito tem que ser professor, fiscal de trânsito, corretor ou leão de chácara antes de ser escritor. Escrever soa até como uma contravenção. Pode-se também conseguir um mecenas, mas parece que os mecenas, historicamente, sempre se amarraram mais aos pintores e escultores. Penso então em alguns caras que lançaram excelentes livros, e, afora algum evento, só fazem sucesso com uma pequena turma, e a grana que juntam, quando conseguem, não vem desses livros. Porque ao sentar-se no sofá e ligar a tv, ou o som, depois de uma hora e meia, no máximo duas, a pessoa se levanta com, pode-se dizer assim, a missão cumprida. Com um livro, entretanto, ela terá muito mais trabalho pela frente. Isso causa, em muita gente, uma aversão à leitura. E há outros fatores que fazem com que os livros fiquem nas estantes (de casa ou das livrarias). Se existe, então, esse tipo de subsídio, que, a meu ver, vem por merecimento, deve ser levado em conta.

Por meu lado, só participei de um concurso. Foi em Recife, anos atrás, e eu estava em lua de mel. Escrevi um conto num bangalô de frente pro mar. O bangalô era uma porcaria, o conto também, mas eu não sabia – estava envolvido pelo clima do mar, do por do sol e da lua de mel. Acabei não me classificando.

DA – A necessidade de reconhecimento é a maior inimiga de um escritor?

RODRIGO MELO – Penso que a pressa é a maior inimiga do escritor. A busca pelo reconhecimento me parece algo natural, humano, e independe da área em que se atue. Quem não quer vencer, afinal? Mas o talento se faz na prática. De alguma forma, todos precisamos de maturação.

 

DA – Para alguns, a única faceta do conto é a de se contar uma história. Pensar dessa forma não implicaria numa limitação dos desdobramentos possíveis de um texto, sobretudo na sua perspectiva de transcendência?

RODRIGO MELO – Não acredito que o gênero defina a qualidade ou importância da escrita. Ou, como diz, a transcendência. Talvez se imagine que, pelo tamanho reduzido que tem, um conto seria mais fácil de se construir. Por esse prisma, os poemas também seriam. E não são. Tampouco mais profundos ou necessários. Tudo vai de quem escreve. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, excelentes prosadores, encontraram-se no conto, e não os vejo simplesmente contando histórias. Há sempre algo entranhado ali. Portanto, não acho que o tamanho ou o gênero do que se escreve tem a ver com sua força ou precisão.

DA – Vivemos num tempo em que muita gente se atira à criação literária. No entanto, parecem ser poucos os que ainda o fazem com propriedade. Separando o joio do trigo, não precisaríamos mais de leitores do que escritores?

RODRIGO MELO – Tudo indica que a diferença entre o joio e o trigo esteja na relação com a leitura. Parafraseando meu camarada Heitor Brasileiro Filho, “Melhor ser um bom leitor a um mau escritor”. Antes de esvaziar o tanque, é preciso ter algo dentro. Imagino agora um sujeito: ele tem uma história original, uma história que fala sobre as coisas que ele viveu e sentiu – ele está nas ruas, ele conhece a vida, ele sabe o que dizer -, vai na internet, faz um blogue e a coloca, ou então a publica em um livro. Anos depois, descobre que tanto Voltaire quanto Patativa do Assaré já tinham falado sobre aquilo, de uma forma mais sincera, melhor.   Claro que não dá pra ler tudo, tampouco considero obrigatório o eruditismo. Todavia, sobretudo para quem escreve, a leitura é necessária. Ela te situa. E é com ela, imagino, que se enche o tanque.

DA – O que impele Rodrigo Melo a continuar escrevendo?

RODRIGO MELO – A vontade de criar boas histórias. E conseguir tirar alguém do seu ramerrão diário, cheio de desassossegos ou garantias, com qualquer coisa que escrevi.

 

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.

Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada.  Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.

 

 

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva

 

DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim.  Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.

DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando  “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.

DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.

DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?

DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa.  O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo: perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal

DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de  “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que  Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.

DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em  “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.

DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã.  Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.

DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.

DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.

 

 

 

– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –

 

 

 

 PEDINTE

 

A loucura bate à porta

do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água

amanhã virá a consciência
em busca de comida

 

 

A REPÚBLICA & O NEWMONARCA

 

A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica

a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei

a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça

a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem

é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente

é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi

a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício

é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia

– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca

 

 

* Outros poemas do autor podem ser lidos aqui

 

 

 

 

 

Categorias
76ª Leva - 02/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodrigo Melo

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

O SANGUE QUE CORRE NAS VEIAS

 

Moleque, imaginava que, homem feito, eu seria alguma espécie de guerreiro, herói de batalhas, conquistador (nunca um médico, como meu pai, ou contador). Transformei-me, por fim, num fiscal da Secretaria de Trânsito e Transportes da prefeitura: o bloquinho e a caneta na mão, óculos escuros pro romantismo não morrer.

O ônibus era o 016, linha 20, que entrava pelo Alto do Basílio, cortava Palmares e descia lá na Avenida Esperança, perto da Polícia Federal. Minha função era anotar o número da catraca toda vez que chegássemos ao ponto final, e o objetivo da missão, como o pessoal da Secretaria gostava de falar, era descobrir se o trajeto suportaria um ônibus maior. Eu sabia que não, mas não fazia diferença: os diretores e os seus secretários, com suas caras brutas e mal humoradas, quase nunca seguiam a lógica ou a opinião dos fiscais na hora de tomar as decisões.

Eu subia e descia as ladeiras olhando para o mar lá embaixo, pensando que, séculos antes, centenas de homens haviam cruzado aquelas águas em busca de riquezas, amores e salvação – o sangue humano, nunca derramado em vão. Agora, cruzando os morros, eu só buscava um pouquinho de emoção.

O tempo, de uma maneira ou de outra, acabava passando, da mesma forma como passavam as ruas e as janelas que eu investigava. Quem sabe a vida, minha e das pessoas que eu via, se resumisse àquilo: a sombra dos prédios e o sol marcando o asfalto, as tardes sonolentas, uma curiosidade infantil, a melancolia dos lugares e dos dias.

A empreitada acabava perto das sete da noite. O 016 me deixava a dois quarteirões de casa. Eu apertava o passo porque era justamente nessa hora que as costas começavam a doer.

Naquela noite, no entanto, enquanto eu caminhava distraído, coincidentemente pensando na história dos Aqueus (e em Aquiles, que, antes da flechada, vingou Peleu, do jeito que previram), havia uma garota lá, do outro lado da rua, gritando e assobiando pra mim. Tinha mais ou menos vinte e poucos anos, usava um short largo, estilo surfista, um top cor de abóbora e marrom. Linda não era, mas a gente nem sempre pode escolher. O mundo aperta o laço pra quem já passou dos trinta e tantos e não vingou.

– E aí, gato, tá afim?

– Tô – respondi sem pensar muito. – Quanto é?

– Trinta.

– Ela tinha uma boca carnuda, os seios grandes e pontudos.

– Tenho doze – falei.

Ficamos parados, nos encarando. Fazia frio. Eu pensava que era um tanto Aquiles também, o destemido guerreiro encarando a vida e suas provações.

– Com doze, gato, é rapidinho – ela disse, a testa franzida, o dedo me apontando a direção.

E a transcendência e a eternidade nos fundos de uma serraria em alguma noite sem estrelas de um ano que não lembro mais. Eu não sabia se era um guerreiro usufruindo das conquistas da vitória, o fiscal de trânsito e transportes da prefeitura rumo à salvação ou o sujeito ultrapassado e perdido no labirinto dos anos e da vida, gastando a grana do cigarro pra beliscar a alma. Não encontrava a resposta, mas concluí que naquele instante não necessitava encontrar: me bastava sentir, indo um pouco pra frente e pra trás, com os olhos fechados, tentando, entre as pilhas de cedros, vinháticos e putumujús, fazer valer a vida, o sangue que corria nas veias e os meus doze reais.

 

(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo)

 

 

 

 

Categorias
76ª Leva - 02/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Heitor Brasileiro Filho

 

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

 

A OUTRA FACE

 

A poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas
……………..de efeito moral

madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana

tremula o horror
nos lábios de uma menina
tremula o horror
na face de uma criança

no lado acordado peito
tremula uma flâmula
tremula uma bandeira
no quintal da infância

no lado açodado do peito
tremula um fleuma
e mais que infla o inflama

novamente o arbítrio
a tutela – cinco dedos
tatuados na cara
e os chutes na canela

colar de medos
adorna o tornozelo
os guizos no esqueleto
pedem ao novo ilustre
um lustre na caveira
limpem as botas pois
os novos soldados

aonde vai a insensatez
essa bala de borracha
se o espaço é infinito
e o átomo está dividido?

está dividido o homem
o peito está dividido
e o coração endividado
despe-se em inexato leito

madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana

a poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas
……………..de efeito moral

 

 

***

 

 

SOLUÇO SÍSMICO

 

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede

um berço
a ser embalado

 

 

***

 

 

A TIBIEZ DA PAISAGEM

 

Eles estiveram aqui
trouxeram antiga mala
……………em espécie
…….sob auspícios
de Pandora

foram afáveis
com a minha mulher
e acariciaram
a fronte do meu filho

eles estiveram aqui
com uma grande mala
abriram seu coração
com cédulas perfumadas

– fixaram uma etiqueta –

tinham dentes retocáveis
como um sorriso de Hollywood
& tinham olhos comovidos
com a tibiez da paisagem

dóceis
……..porta-vozes
………………….do agouro

um dia estiveram aqui
& diante dos seus olhos
abrimos aquela grande mala

incrédulos: todos os pássaros
foram libertados
como borboletas em chamas

 

 

***

 

 

HARAKIRI

 

todas as manhãs
afia a lâmina
de matar o tédio

tira-a da têmpora

– aonde
..a forja arde –

e divide a tâmara

essa lâmina
……………luminar

eletricidade
…………..e nuvem

não a porta
………mas
a comporta

………. não a porta
………. mas
………. a transporta

na baínha da alma
na cerzida
….bainha da alma

essa lâmina
fotossintática
………tética

para
……enfim
………….guardá-la

entre pétalas
na floração do umbigo

 

 

(Heitor Brasileiro Filho é ensaísta, cronista e poeta. Natural de Jacobina, Bahia, reside em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras, é pós-graduado em Estudos Comparativos em Literaturas de Língua Portuguesa. Integra os livros “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum); “O Triunfo de Sosígenes Costa” (ensaio – Editus UESC-UEFS), e “Bahia de todas as letras” (conto – Editus – Via Litterarum). Acaba de lançar o livro de poemas “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo – 2013))

 

 

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar no mundo é não passar impune pelas vias feitas de matéria e alma. É dizer mais: não fugir ao embate proporcionado por tudo aquilo que está encerrado nos mais distintos cenários. O olhar, esse intricado instrumento de inserção, é algo muito além de uma mera janela para a dimensionalidade do múltiplo que nos acomete. Ele parece ganhar mais sentido quando mexe nas densas tramas de que somos feitos, provocando-nos e direcionando nossas atenções para uma necessidade de rompermos com o óbvio e suas traiçoeiras armadilhas. E não há como se falar em provocação sem pensar em transgressão. Qualquer ruptura que se pretenda levar a cabo, traz em si mesma a perspectiva de uma coerência de propósitos, para que não reine sorrateira a sombra do discurso vazio.

No caminho das palavras, utilizar a transgressão como recurso criativo representa verdadeiro desafio a um autor, pois tal empreitada requer doses bem ministradas de lucidez e renovação do olhar. Tais atributos parecem se encaixar com precisão no modo de escrever da poetisa baiana Daniela Galdino. Dona de uma linguagem que sabe a instigantes percursos existenciais, Daniela sabe manusear palavras como quem lapida a pedra fundamental das nossas imperfeições. Com “Inúmera” (Editora Mondrongo), seu mais novo livro de poemas, a autora demarca, de modo especial, um lugar no mundo, fazendo convergirem sensações que dialogam com terrenos complexos da natureza humana. A obra pontua travessias feitas de delicadezas, intensidades e provocações, utilizando-se também de um apelo erótico muito bem posicionado frente às nossas dualidades e contradições. Ali, a multiplicação do “eu” é artifício valioso nas mãos da poetisa, fazendo com que, sob a forma de versos, contemplemos a possibilidade de sermos simultaneamente um e todos.  Com algumas participações em eventos literários, antologias e organizações de obras, Daniela também publicou “Vinte poemas CaleiDORcópicos” (Via Litterarum). Graduada em Letras (UESC), a autora é Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS), Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA) e professora de Literatura da Universidade Estadual da Bahia. No breve diálogo com a Diversos Afins, é possível constatar que estamos diante de uma criadora inquieta, cujo compromisso maior é nitidamente o de tecer vias que confiram significados consistentes ao que chamamos vida. Não há regras fixas para isso e Daniela aposta firmemente que, se hoje estamos aqui, é porque nos foi dada a capacidade de também desconfiarmos de tudo.

Daniela Galdino/ foto: Felipe Thomaz

DA – “Inúmera”, seu mais recente livro, devota atenções especiais a um lirismo feminino vigoroso, capaz de observar o mundo, este grande útero que guarda nossos acessos, com olhos de lucidez, provocação e algum mistério. Na gestação de tais versos, o que lhe parece mais inquietante?

DANIELA GALDINO – Inquietante, para mim, é viver. Dos trânsitos e transes cotidianos, capto a matéria de poesia, o combustível para “assustar palavras” e gerar imagens. Eu fico digerindo a vida, aquela por mim experimentada e também a supostamente experienciada por outras/os. A arte tem dessas coisas, não é mesmo? A possibilidade dos desdobramentos. “Inúmera” é uma galeria de pulsações. Eu já disse, numa brincadeira: as percepções ficaram doendo, pesando, cutucando, provocando a minha alma… Enquanto eu não devolvi essa provocação em forma de imagens poéticas, não tive sossego (risos).  Aí eu me lembro de Hilda Hilst: “Estou mais do que viva: embriagada.”

 

DA – Nos seus percursos criativos, a ideia da ordenação do caos interior lhe soa como algo atraente?

DANIELA GALDINO – Ao pensar numa resposta, recordo de outra poeta, Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”. A ideia de “ordenação do caos” é muito sedutora, torna-se uma grande pretensão, um desafio delicioso. O que há de atraente nisso – a meu ver – é que não consigo atingir o grau máximo de ordenação do caos interior. Ou seja, a tarefa parece mesmo o trabalho de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra até o cume de uma montanha, sendo que essa pedra rola novamente, provocando a repetição do ato. No entanto, segundo a leitura de Albert Camus, na cena intervalar Sísifo acentua a consciência e se revolta. Então, para mim, ordenar o caos anterior é uma tarefa que não cessa, que desafia o cotidiano. Não é o caos que gera a luz da estrela bailarina nietzschieana?

 

DA – Acredita na literatura como sendo um instrumento de transformação humana?

DANIELA GALDINO – A Literatura é a minha transformação. Lendo ou escrevendo literatura, eu experimento um desdobrar constante, “transito por rotas imprecisas”. Sempre brinco dizendo que acredito na Arte como forma de transgressão, e que se não for para transgredir de alguma maneira, melhor escrever manual de instrução, bula de remédio. Eu não acredito que o possível e a realidade sejam isso que o mundo nos oferece todos os dias via bombardeio de desejos pré-fabricados para consumo em larga escala. E por mover essa “descrença” acredito na força da expressão artística e na força da palavra literária, em especial. A Literatura é o descortinar de nós mesmos, a possibilidade de reescrever o possível. Ela é também a trapaça da linguagem e com a linguagem, como observou Barthes. Sendo assim, movendo sensibilidades, alterando olhares, desestabilizando mundos interiores, a Literatura transforma sim: a linguagem, em primeiro lugar. E como nós somos linguagem, somos alterados, transformados produzindo e lendo Literatura.

DA – Abraçar-se à transgressão seria, na verdade, negar os atalhos propostos pela dita pós-modernidade?

DANIELA GALDINO – Acredito numa poética do pós-modernismo nos termos colocados pela Linda Hutcheon. Aqui não quero fazer discussões acadêmicas ou enveredar por abordagens teóricas, mas do que Hutcheon apresenta, capto justamente os aspectos transgressores dessa poética pós-moderna, esse modo de constituir-se, de ser sendo: ser um/a forasteiro/a de dentro (ou adotar um “posicionamento duplo paradoxal”), investir no potencial da ironia para implodir a dita “arte séria”. Em termos artísticos, valorizo bastante o caráter ex-cêntrico, que significa estar na fronteira ou na margem e, ao mesmo tempo, provocar implosões nos modelos. Os discursos podem ser objeto de reapropriação constante – seja o religioso, o político, o literário… – e nesse jogo o que me interessa, nos exercícios de reapropriações e implosões, é revelar uma perspectiva diferente, brotar o inusitado no peito do leitor.

DA – Em “Inúmera”, a convergência masculino/feminino ganha um contorno bastante especial, como se ali tivéssemos a perspectiva de um novo gênero, sem amarras usuais. Como você percebe tal questão?

DANIELA GALDINO – Amarra é um termo que eu quis apagar em “Inúmera”. Essa convergência é perceptível mesmo, flutua na poética, sobretudo na segunda parte do livro, intitulada “É passeio abissal”. Ali estão os poemas deliberadamente eróticos, ali está o corpo despojado de rótulos – sobretudo livre do carimbo do pecado. O prazer é linguagem também, o corpo aparece numa outra cartografia (são “mapas distorcidos por cartógrafos loucos”, como no poema “Saudade amanhecida”) e, nesse novo estado, a fusão acontece. O inusitado brota já no poema “Obra de fricção”: “gosto de homens que tem buceta imaginária” / daquelas bem colocadas na coxa esquerda”. Eu desejei investir nisso, pois entendo poesia como recriação do real. E entendo a realidade comportando o invisível, o recriado (ou melhor, o recriando-se). Daí, o que você chama de fusão, ainda que tensa, é uma fusão. É tensa porque mobiliza forças que eram entendidas como díspares, o desafio fica sendo a constituição, a partir das imagens poéticas, de uma possibilidadecorporal, prazerosa, gozosa sem o punhal da violência simbólica; e muito próxima do refazer-se. Em “Inúmera” o corpo não é objeto.

DA – Acredita que a condição de ser mulher poeta tem algo a ver com uma certa busca por uma virilidade esquecida nalgum ponto da jornada?

DANIELA GALDINO – O que é ser viril? A quem pertence a virilidade? O dicionário diz que viril é aspecto próprio do universo masculino, uma condição do varão. O dicionário, enquanto espécie de lei, para mim, é insuficiente. Não foi Drummond quem disse: “as leis não bastam/ os lírios não nascem das leis/ meu nome é tumulto e inscreve-se na pedra”? Pois sim… Eu não busco a virilidade perdida – aquela do dicionário! Certa feita, um poeta (e interlocutor constante) me perguntou: “Daniela, você faz parte do grupo de autoras que escreve com a vagina?” Conheço bem esse poeta, ele queria me provocar, obviamente, e usou uma metáfora que, ao seu ver, era até mesmo pejorativa. O caso é que eu adotei essa metáfora, e a adoção foi ao meu modo: da vagina sai gente, quando não sai gente, sai sangue. Gente é vida brotando, sangue percorrendo os atalhos do corpo também é vida jorrando. Então, eu entendo que escrever com a vagina é imprimir vida às imagens poéticas. Gestar, colocar movimento, som, cor, cheiro, movimentar sensações. Isso é escrita viril? Não sei. Viril de vigor descamba no que acabei de dizer: vida. Mas eu confesso: não estou à procura de uma  “virilidade perdida nalgum ponto da jornada”.

Daniela Galdino/ foto: Milena Palladino

DA – Podemos suportar a civilização sem poesia?

DANIELA GALDINO – Repare bem.  Eu acho que o mundo, como nos é apresentado, e como foi construído (ou destruído) até então, é insuportável sem poesia. Essa é a minha posição, a forma como me lanço e reconstruo a realidade. No entanto, bem sabemos que essa postura não é nada consensual. Costumo repetir: “você já soube de algum caso de uma pessoa que enfartou porque passou 1 ano sem ler um livro de poesia? Alguém que definhou por falta de leitura poética?” Eu nunca soube de uma história assim, mas sei que o senso de “cidadania” e de “humanidade” fica diminuto quando muitas pessoas são impedidas de exercer o seu “poder de consumo”. Quem nunca se sentiu com um sinal de menos por não ter condições de adquirir as novidades mercadológicas para uma vida mais feliz, prática e confortável? Eu estou enveredando pela ironia…

A poesia não tem verdade(s) para professar, não é a chave para a resolução das nossas angústias, poesia não é autoajuda. Por isso mesmo, ela é necessária: dialoga com a nossa sensibilidade, desafia as formas usuais de entendimento do mundo, provoca a nossa humanidade. Compreendendo a poesia dessa maneira, eu repito: o mundo torna-se insuportável sem ela. Por isso leio poesia, por isso escrevo poesia. “Por uma vida menos ordinária pintamos o chão”, bradam os rapazes da Nação Zumbi – e eu faço coro com os descontentes.

DA – Somos facilmente seduzidos pelos apelos do consumo. No entanto, parece ser tarefa homérica atrair pessoas em torno da leitura. Na sua visão de educadora, o que podemos fazer? Acredita num caminho de formação de leitores?

DANIELA GALDINO – Acredito, sim. É o que move a minha ação como educadora, formadora de docentes. No entanto, há que se ampliar essa noção de leitura. Sou bem freiriana nesse sentido. Paulo Freire investiu na leitura de mundo como algo que precede a leitura da palavra, sendo componente fundamental na formação dos sujeitos. E a leitura de mundo comporta o para além da palavra. Se a gente ponderar isso com mais atenção, vai surgir um caminho para a formação de leitores de Literatura, por exemplo. A palavra literária é grávida de mundo, bem sabemos. E a leitura sensível é condição necessária para o trânsito pela linguagem literária.

Eu não tenho receitas para socializar, mas posso dizer que tenho encontrado pessoas por aí afora, nos mais diversos espaços sociais, atuando com vigor nessa área de formação de leitores – inclusive tendo as linguagens artísticas como grande aliada.

Agora eu lembrei de uma experiência de ciranda de leitura literária que ocorreu num acampamento (movimentos de luta pela reforma agrária) no sul da Bahia. A coisa foi simples e impactante: uma educadora (em formação) levou algumas obras literárias para socializar com a comunidade, no entanto, como muitos sujeitos não eram alfabetizados, essa jovem iniciou sessões de leitura coletiva, o que acentuou o senso comunitário. E as pessoas se emocionavam, se encantavam com as narrativas. Ao final da experiência, ao receber um prêmio concedido pela UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz), essa jovem socializou o seu desvelamento: a sua família vive sob o barracão de lona, não havia energia elétrica, usava-se o candeeiro. Ela acordava de madrugada para ler esses livros. Depois, lia para os outros. Só depois disso ela afirmou entender que a estante de livros que existia na comunidade não era para enfeitar o barracão de lona preta. Havia vida ali.

Nessa trajetória recente de divulgação de “Inúmera” também vivi duas experiências muito marcantes. A primeira aconteceu em Salvador, no CEPAIA/UNEB, no dia do lançamento do livro. Foi um dia tenso, greve da polícia… Cheguei ao local do evento um tanto apreensiva e entrei no primeiro lugar disponível para ajeitar o figurino da performance (trabalho com essa linguagem). Num banheiro minúsculo encontrei Sanda, auxiliar de serviços gerais. Em meio àquela agonia toda, Sandra ia me dizendo: “nossa, eu gostei do teu livro. Nele a mulher pode tudo”. Imediatamente, perguntei: “mas como você sabe disso, se ainda nem lançamos o livro?”. Ela havia lido, de uma só vez, todos os poemas, aproveitando o descuido de alguém que esqueceu um exemplar sobre a mesa. Eu presenteei Sandra com “Inúmera”. E noutro dia, num samba, nos reencontramos e ela me disse: “olha, eu conheci homem com 16 anos, mas só fui gozar aos 25. No seu livro aprendi que gozar faz parte da descoberta da mulher. E muitas mulheres não têm a liberdade de gozar”.

A outra experiência foi em Olinda, no pós-carnaval. Num domingo cultural eu encontrei dona Conceição, professora aposentada, com formação em magistério. Ela deve ter, aproximadamente, 70 anos. Dona Conceição leu todo o livro, teceu comentários e me conduziu até a cozinha da pousada onde estávamos, fazendo questão de socializar os poemas com as cozinheiras. Aquilo me deu uma emoção retada, pois ver aquelas mulheres manuseando o livro, lendo os poemas com os seus trajes de trabalho, suas toucas e luvas, foi inusitado para mim.

Acho que histórias assim comprovam que a leitura da palavra – e da palavra literária em especial – não é um elemento de distinção, um privilégio de escolhidos. Ela é um direito social – e como tal deve ser trabalhada. Ler com olhos não convencionais, ler com o espírito, ler com sensibilidade independe de condição social.


DA – “Eu sou muitas pessoas destroçadas”, arremata em versos Manoel de Barros. Tal sensação também parece impregnar a poetisa Daniela. A ideia da fragmentação das personas a serviço do discurso poético alimenta o jogo dos estranhamentos?

DANIELA GALDINO – “Eu sou muitas pessoas destroçadas”. Eu sou leitora de Manoel de Barros. “Eu sou maior por dentro”, como está no poema Conselho Infantil… Mas eu penso nesse “eu” como uma conjugação de vários modos de ser. Isso escapa a qualquer forma de identificação da poeta Daniela Galdino – “Inúmera” não é um diário. Os vários modos de ser comportam as experiências alheias, sobretudo as femininas. É esse o mote do livro: “sou intrusa, sou inúbil, sou inúmera” – um exercício de multiplicidades conjugadas. A experimentação dos desdobramentos a que me referi anteriormente. Talvez aí resida a ciranda que o livro tem gerado. Frequentemente, recebo fotografias de leitoras/es de Inúmera.  São imagens de pessoas diversas (idosas, jovens, homens, mulheres, gays…) nas mais inesperadas situações, manipulando o livro em cenários próximos (Brasil) e distantes (terras estrangeiras). O que me surpreende e encanta, nessas imagens, é que as pessoas perdem o pudor: se deixam fotografar em locais públicos, diante de monumentos, locais turísticos, na intimidade da cama (com o/a parceira/o).  Já houve até uma sequência de fotos com nu artístico – e o mais belo de tudo: são pessoas que até então nunca haviam experimentado a nudez dessa maneira. Não preciso dizer que isso me encanta bastante. Essas imagens, antes de tudo, revelam essa conjugação dos diversos modos de ser sendo.  Elas são belas porque surpreendem, são fortes porque impulsionam que outras/os entrem na ciranda. Nos estranhamentos a gente se reconhece.

DA – Entre palavras e percursos humanos trilhados, no que acredita a operária das ruínas Daniela Galdino?

DANIELA GALDINO – Sou entusiasta das artes, amante do invisível, concubina do inusitado. Também flerto com as realidades minúsculas e, ao mesmo tempo, sou uma megalomaníaca convicta. No que acredito? Acredito que tenho que manter a minha desconfiança perante as certezas perenes… Quem sabe daí sai o alimento para recriar mundos – aos menos os meus mundos interiores…

Eu respondo novamente com Hilda Hilst:

“Bebendo, Vida, invento casa, comida /E um Mais que se agiganta, um Mais / Conquistando um fulcro potente na garganta / Um látego, uma chama, um canto. Amo-me. / Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos / Quando não sou líquida”.

 

 

Daniela Galdino/ foto: Milena Palladino

 

 

– TRÊS POEMAS DE “INÚMERA” –

 

OBRA DE FRICÇÃO

 

Gosto de homens
que têm buceta imaginária
daquelas bem colocadas
na coxa esquerda.

Gosto de homens
aventureiros da carne e do osso
daqueles que vibram
com o encontro das nossas bucetas.

Esses homens incomuns sabem,
no relincho do segundo,
no piscar do silêncio,
que eu explodo blasfêmias
com a voracidade vulcânica.

Esses raros homens sentem,
no calor da obra friccional,
que na dessemelhança
da minha realidade
nada é mera coincidência:
primeiro, o diálogo de bucetas.
Depois, a penetração por trás.

 

 

ARDIL

 

recolher
a matéria
que é de
silêncios:

eu não
quero
levantar
a palavra
em vão

porque…

quando
eu falar
irão
despregar

todas
as estrelas
do meu
céu da boca.

 

 

PROCISSÃO LUNAR II

 

Veste o teu hábito de penumbra
afasta aromas de naftalina
orna a fronte com um véu opaco
flutua como uma noiva que não foi.

Abre a gaveta da memória
traze aquela laço delicado
vede a seda já sem brilho:
com ele secarás a lágrima da santa.

Levanta dos precipícios de silêncio
toma o fôlego aos ventos esparsos
ergue o andor pesado das esquecidas
nele estarão teus sonhos mofados

Vede o tempo que escorre
ouça: estás em atraso.
sinta a lacuna, crede: a vida
é uma procissão que não sairá.

 

 

“Inúmera” está disponível para compra no site da Editora Mondrongo