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88ª Leva - 02/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em maturação é todo um conjunto de mecanismos e processos que dão suporte ao ato contínuo de um amadurecimento. Ao longo da vida, somos tomados, mesmo que forçosamente, pela necessidade de empreendermos passos decisivos rumo a algum tipo de evolução. E evoluir seria apenas uma das facetas da maturidade, embora nem sempre signifique uma renovação completa daquilo que supomos, sentimos ou desejamos. É de se desconfiar, então, que a transformação substancial do ser humano surge à custa de rupturas tanto no campo do pensamento quanto da ação.  No que se refere à literatura, alguns percursos próprios se apresentam. Um deles está na capacidade que um determinado criador tem de vislumbrar sua obra como uma janela de projeção para o mundo. É o caso de gente como a escritora Ana Peluso, que, profundamente envolvida pelas marcas de seu tempo, faz de sua expressão literária um voraz instrumento de lucidez.

Companheira inseparável do espanto e do estranhamento, Ana faz com que sua poesia transite por um lugar onde muita coisa pode ser posta à prova. Desde os sentidos mais elementares até os mais complexos, a autora revela-se intensamente movida pelos signos da inquietude. Seus versos movem moinhos de indagações, chacoalham as fronteiras do óbvio e, ao mesmo tempo, refletem uma sutil busca pela delicadeza oculta das coisas.  Sem sucumbir a bandeiras da moda ou apelos ideológicos voláteis, essa paulistana se vê agora diante de seu primeiro rebento poético, o livro “70 Poemas”, publicado através da Editora Patuá.

Nascida em 1966, Ana Peluso, além de escritora, agrega em sua trajetória os perfis de jornalista, editora e web designer. Integrou diversas antologias, dentre as quais: deZamores, pela Editora Escrituras em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan; É que os Hussardos chegam hoje, também pela Editora Patuá, 2014; e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014.  Tem textos publicados em diversas mídias impressas e eletrônicas, como é o caso do extinto jornal O Pasquim, revistas Coyote, Germina, Musa Rara, Cronópios e outras mais. Aqui na Diversos Afins, Ana é uma velha conhecida que, tendo participado com seus escritos de várias edições, agora retorna à casa para falar um pouco sobre o seu momento de saberes e sabores em torno do nascedouro de seu primeiro livro. Como se não bastasse, desfila também algumas pungentes opiniões acerca do laborioso e nada facilmente exprimível ato de escrever.

 

Ana Peluso
Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua trajetória é íntima das palavras, sobretudo pelas feições de jornalista, editora e escritora. Depois de um bom tempo, seu primeiro livro vem ao mundo.  Quais travessias foram determinantes nesse lapso temporal? 

ANA PELUSO – Eu não chamaria de travessia o que me levou a publicar, mas de incursão interna. Hoje em dia se escreve muito para o outro, para agradar o outro, seja esse outro o mercado editorial, um amigo poeta, um editor de revista, de jornal, ou até um crítico. A minha travessia se travestiu de incursão porque escrevo, antes de tudo, para mim mesma. Sob esse prisma, e de um ponto de vista meramente material, talvez eu seja egoísta, mas não acredito na arte que não dialogue antes de tudo com o interior do artista, com seu mundo particular, que, por sinal, é vasto. Caso contrário, ele ainda não é um artista de fato, mas alguém que necessita da atenção dos demais, e talvez por isso se vê tanta gente escrevendo igual a tanta gente. Em muitos casos, é natural que, ainda que o poeta tenha optado por trilhar esse caminho a que me propus, a obra chame atenção, mas aí a atenção é mera consequência, e não o estopim para que a arte aconteça, porque para mim é necessário que ela se distancie do criador a ponto de pertencer aos demais, e, ao mesmo tempo, que ela se mantenha como um mundo muito particular ao criador, muito pessoal e peculiar. Se o leitor encontrar o objeto da criação com outras feições, melhor. Sempre digo que “a terceira margem de um livro é o leitor”, justamente porque a primeira e a segunda pertencem ao autor, pelo diálogo interno que precisa acontecer para ele poder chegar ao ato da criação. Como se fôssemos híbridos, é necessária a contradição interna, pessoal, uma segunda leitura feita, talvez por alguma camada da consciência a que não temos acesso reconhecido, mas que está lá, apta a esse diálogo. Eu acho que todo bom autor é dialético por natureza.
Ai das coisas que não se contradizem.

 

DA – Em “70 Poemas”, há um vasto painel de olhares e percepções que não congratulam com o estado de coisas em que vivemos. O mundo sempre foi um lugar estranho? 

ANA PELUSO – Acho que sim. Eu poderia responder que fizeram do mundo um lugar estranho, mas se a gente imaginar o homem das cavernas e sua luta pela sobrevivência, vai ser obrigado a concordar que o mundo só é estranho à sensibilidade de alguns homens. Matar um semelhante pela supremacia da tribo é tão apavorante quanto administrar a desigual distribuição de renda. Para mais além, o mundo é tão estranho, que nascemos berrando, o que não foi exatamente o meu caso, mas não me pauto jamais pelas exceções, até porque o “nascimento de um natimorto” deve ser infinitamente mais doloroso. Pena que não me lembro. Adoraria narrar uma ressuscitação.

 

DA – Sua poesia tem uma marca substancial, que é uma atitude desperta e incomodada diante da vida. E você consegue equacionar as doses sem se perder em desvios ideológicos.  Em que medida o caos interior é um aliado de quem cria?

ANA PELUSO – O que você chama de caos interior, e eu de infinito interior, é matéria-prima. E tem uma ideologia lá dentro, sim, só que ainda desconhecida. Sem contar que tudo o que fazemos, fazemos por um ideal.

 

DA – No sentido lato da palavra, o seu ideal faz com que sua poesia seja algo engajada?

ANA PELUSO – Se há engajamento, é orgânico, não panfletário. Não adianta levantar uma bandeira se quem a pega não distingue cores. Então, a gente enterra a mão e fertiliza uma raiz interna. É como dizer ao coração porque o sangue corre nele, fazer pele falar com pele, é um engajamento sutil, quase impossível de um ponto de vista prático, racional. Mas é uma poesia feita de perguntas.

 

DA – É interessante quando você diz que escreve para si mesma. Esse pensamento parece colocar criador e leitor numa situação de autonomia compartilhada, através da qual cada um demarca seus territórios de vivência dentro de uma determinada obra. Leitores são seres realmente livres?

ANA PELUSO – Eu tenho que escrever para mim mesma. Para quem mais eu poderia escrever no momento da escrita? A quem o poema deve agradar de pronto? Escrevo sobre/tudo para mim mesma. E, sim, pode chamar isso de autonomia compartilhada (excelente termo), a questão é que para mim, como disse acima, o leitor é sempre a terceira margem de um livro, não adianta eu escrever poesia achando que o texto chegará aos olhos do leitor na forma que eu penso ter escrito a poesia, e, ainda, se chegará como poesia. Eu não gosto do óbvio, apesar de estar trabalhando em alguns textos óbvios, eu gosto de mistério, do que aquelas linhas podem me proporcionar de possibilidades, novidades. Recriar é laborar diretamente com a novidade, é rever, redizer. Quando escrevo uma frase que é minha por epifania, mas cuja alma, a ideia, pertencem já a alguém, digo que é do “dito-redito”. Também gosto de literatura de corpo honesto. É muito tentador dizer o que já foi dito como se não se visse que já foi dito, ou se fingisse não ver, mas é feio, é pequeno. A não ser que o autor desconheça mesmo a autoria – essas coisas acontecem – trata-se de um mecanismo de auto-engano voluptuoso. E um escritor não pode carregar um peso desses. Ele já carrega o mundo, na vertical, das costas para a cabeça. Aí é peso demais, e ele acaba largando o mundo, e ficando com o auto-engano.

 

Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Hoje presenciamos a aparição cada vez mais frequente de autores desembocando suas expressões em diversos meios. No seu entender, há um novo espaço de concepção criativa surgindo? Podemos falar em uma nova geração?

ANA PELUSO – Sim, acontece um movimento feito de outros movimentos, e que vivencia a arte, a própria escrita, de forma plural e constante. Acho que podemos falar em uma geração de gerações. É extremamente rico o momento. Cria-se convergência para um ponto comum: o reconhecimento de que somos vários, e somos variados, mas de forma alguma isso pode equivaler à total qualidade.

 

DA – Vez por outra, percebemos discursos inflamados numa defesa bastante firme da tradição literária. Apesar dos novos tempos instaurarem outras perspectivas, o purismo subsiste. Não é um exagero imaginar que tradição e modernidade não podem se harmonizar?

ANA PELUSO – Acho que tem que existir harmonia, sim. Reconhecer o diferente faz parte da prática da vida, mas por outro lado entendo os puristas, há que se resguardar uma certa tradição. Nem toda arte, nem toda literatura, será exatamente a mesma com o decorrer do tempo. O novo sempre surge, e sempre surge subvertendo o paradigma, mas acho de bom tom que os tradicionalistas estejam de olho. Nem tudo é mar só porque é água. Eu mesma não sei até hoje se o que escrevo é poesia de fato. Talvez comparado ao rigor da tradição, não, mas há um trabalho com a palavra, há uma preocupação em criar um universo poético, ou seja, não se trata de prosa na vertical. Mas isso, de trabalhar uma linguagem (mais) carregada de significados (Pound), não coloca ninguém no patamar de poeta, ou mesmo de escritor. Ao mesmo tempo em que há escritores de correntes tradicionais sem verve, há novatos que operam fora dos paradigmas tradicionais com um brilho literário inquestionável. Perceber e reconhecer isso é o que falta.

 

DA – Há quem defenda uma “fronteirização” da literatura. Nesse ínterim, bandeiras de gênero são erguidas, a exemplo de distinções criadas em torno do que seja literatura gay, feminina, dentre outras. Mais do que nichos de afirmação, essas ações não seriam ilusões de uma frágil tentativa de inclusão?

ANA PELUSO – Não acho que seja “frágil tentativa de inclusão”, mas tentativa de inclusão, e não é necessária. A obra fala pelo autor, com ou sem bandeira, de gênero, cor, classe social, mas aí é preciso ver se a luta é pela inclusão da literatura ou da classe. E isso é ponto relevante a ser apreciado porque dialoga com a história, com o momento histórico, que é de carnaval e toda fantasia tem sua cor, e quer se mostrar. O que não pode acontecer é o poeta engajado em uma causa ceder aos interesses políticos. Por mais política que seja a sua postura, com a vida até, a partir do momento em que a obra se torna um veículo meramente político que não seja de oposição, deixa de ser carnaval e a marcha é outra.

 

DA – Como ser de espanto que é, o que você não endossa na dita pós-modernidade?

ANA PELUSO – Se você fala da pós-modernidade no campo das artes, endosso tudo. E falo de arte, não de entretenimento. Se você se refere ao campo de ação do homem comum, me preocupa a falta de interesse pelo que está realmente acontecendo. E não está acontecendo direita e/ou esquerda, está acontecendo nesse exato instante o controle total do ser humano pelos mais variados tipos de comando. Desde a escravidão devotada voluntariamente, vício já na tecnologia, como a implantação de chips no pulso de cidadãos norte-americanos para validar o Obamacare, até as mulheres muçulmanas que vivem sob uma burca, passando pelas protestantes do “Cinturão da Bíblia”, nos EUA, e seus maridos violentos, até o controle do que eu devo ou não assistir na tv, ler nos livros, e ouvir nos discos. Eu não endosso o controle. A liberdade já é produto da utopia, ninguém precisa lembrar disso a todo instante.

 

DA – Somos incorrigíveis?

ANA PELUSO – Sim, para o bem e para o mal.

 

DA – Saberia dizer o que a literatura espera de você?

ANA PELUSO – Não, não saberia dizer, mas sei o que eu espero de mim em relação à literatura. Gostaria de ter tempo para escrever mais e melhor. E para poder levar adiante projetos antigos, como escrever para crianças. Também gostaria de ter fôlego, tempo e meios para me dedicar a um pequeno romance. Se eu tivesse condições, só escreveria. O livro ’70 Poemas’ não contém nem 1% do que eu tenho a dizer, a escrever. Mas infelizmente a literatura no Brasil é um artigo de luxo, principalmente para o escritor, e, sobretudo, se ele é obrigado a exercer outras funções que o mantenham como um bom pagador perante os banqueiros e o mercado. É uma via de mão única: ou se escreve verdadeiramente, e se come pão com água, ou se paga as contas, e se escreve pouco, muito pouco o que se tem a escrever. Ouvi certa vez de uma acadêmica em Letras: “Você é muito boa, mas não tem pé de meia”. Aquilo foi um choque para mim. Porque ela está coberta de razões. Não dá para parar um poema para dar sequência a um trabalho, por pura necessidade, e voltar ao poema depois com o mesmo espírito. O capitalismo é o maior assassino de pessoas no mundo, incluindo os escritores. Vejo muitos autores vivendo puramente da literatura com oficinas, workshops, palestras e performances, mas comigo não é assim que funciona. A literatura, para mim, é uma arte feita principalmente de burilamento e silêncio. Eu não teria cabeça para dar uma oficina e voltar a um texto em seguida. Seria como parar um poema para dar andamento num trabalho qualquer, quando a própria literatura já é um trabalho, que exige muito da gente. Só falta o mundo reconhecer isso.

 

 

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fernanda Pacheco

 

Ilustração: Vera Lluch

 

prazer, você

 

dentro de mim mora o infinito
e dos olhos pra fora,
um íntimo enquadramento
do desconhecido,
da ilusão condicionada
e consumida pelo hábito do absoluto
que desobedece minha imaginação,
tão genuína e desabitada.
isso me acostumou a ignorar os detalhes,
fez do meu corpo aliado do tempo,
calou meus sentidos
me colocou os olhos de outro
que nunca me reconheceu
e eu solucei por isso:
por ter me reconhecido
como se eu tivesse nascido postumamente.

 

 

***

 

 

marcha da cronocracia    

 

as árvores de raízes velhas
marcham na pista molhada.
as velhas cobrem o rosto,
viram as costas pra puta calada.
a intransigência disputa espaço
com o bafo do inevitável disparate,
do desassossego que me aponta o dedo,
que me crava a alma no ponteiro.
cada moleque de pé no chão
já me afronta com a rouquidão de um reencarnado
enquanto eu deformo meus dedos
com golpes de ansiedade.
por mais que viver seja um alento em hipótese
o regresso do mundo cão é evidente:
agora parou um homem cego
me pedindo em nome de deus uma aguardente,
implorando por um sono que dure pra sempre.

 

 

***

 

 

Em nome do santo

Meu desejo é a falência do tempo,
A cristalização do escorrimento da vida,
O estancamento dos passos dados absortos no fim,
A conformidade com as injustiças do tédio.

Multiplicam o silêncio em troca de conhecimento
E alcançam o fundo do poço num grito errante
Que não satisfeito com a agonia de ser sozinho
Cava ainda mais fundo com as mãos o prelúdio da morte.

Não há crítica que perfure tal desolamento.
A dor deixa de se superar para virar rotina
E o que ultrapassa a retina cansada
É o reflexo de uma luz incompleta.

Imagino a solidão como a finitude do mar
Num dia frio de abandono da vida
Deitada na fronte encolhida
Aguardando a eternidade do ponto final.

 

 

***

 

 

sem título

 

de copo
em corpo
amo
e sofro.

 

 

***

 

 

A culpa é do Chet Baker

 

Seu rosto é todo neblina.
Apaga esse cigarro.
Deixa que eu me apago
Sozinha.
Agora vê se destoa de mim
E não me encare à toa.
Que embaraço essa coisa
de ter que amar como quem adivinha.

 

 

Fernanda Pacheco é professora, tem vinte anos, mora em São Paulo e é formada em História. Seu primeiro livro de poemas, “A culpa é do Chet Baker”, será lançado pela Editora Patuá em fevereiro. Admira a crueza, o desequilíbrio e o improviso da poesia. Sua primeira publicação saiu pela revista Mallarmargens.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Elisa Ribeiro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

 

Peças em pau-marfim

 

A linha dos olhos
faz flechas
da cor de futuros

As mãos formam conchas
de pegar contentamentos

Os pés são grandes
como as telas
holandesas realistas

O corpo inteiro
é um tabuleiro
de jogar jogos de azar

As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada

Onde eu me finjo
de dama

 

 

***

 

 

Raso

 

Não me movo
neste espaço
por acaso.

Entre um lado e outro
destes braços
tem um raso.

Ímã, fivela, argola,
nada disso
cola.

 

 

***

 
Desvão

 

desvão esconso
tonto

cérebro torto
corpo oco

seu rosto flagrado
no topo
no cume mais morto

do meu próprio
torso
em fogo

 

 

***

 

 

Crise

 

É sempre por dois trizes
Que desistimos dos passos
Dos dias, das tentativas

Sempre por um triz de perder
E outro de ganhar
e não saber manter

 

 

***

 

 

Foram pingando umas estrelas no céu preto
Pintando umas nuvens no céu breu
Uns desassossegos, entreveros
Você, o abismo e eu

 

 

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte e faz 39 anos em 2014. Publicou Poesinha (Poesia Orbital, 1997), Perversa (Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (InterDitado, 2008) e Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), todos livros de poesia. Tem poemas em diversas antologias, no Brasil, em Portugal e no México. Na crônica, publicou Chicletes, Lambidinha & outras crônicas e Meus segredos com Capitu, pela editora Jovens Escribas. É professora do CEFET-MG.

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nydia Bonetti

 

Foto: Bruno Kepper

 

há um jardim qualquer
em qualquer
canto
onde uma flor qualquer
brotou
de qualquer
cor
de qualquer forma, flor
e eu a oferto
a quem souber cuidar

 

 

***

 

 

que gosto tem o verso e que
textura?

só sei da cor – vermelha
do coração na boca

da alma – na palma da mão

 

 

***

 

 

silencioso e raso passa o rio
não posso ouvi-lo
pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem — ávidas
de lua e mar

 

 

***

 

 

hoje nada me move – sou pedra
perdidos
……..olhos
……………no vazio
que cresce em minha face feito
………………………………..musgo

 

 

***

 

 

quando chove – desejo de não
……..chover
e quando faz sol – brilha
desejo  de chuva
……..a vida
parece mesmo ser
………..uma questão de tempo

 

 

***

 

 

o pássaro – com seus olhos de céu
me olha

buscando em mim – as asas
………………que já não tenho

 

 

***

 

 

assim, então dentro de mim
nasce um poema
enquanto
outro morre
moto perpétuo
roda d’água
que move a lâmina
que faz serrar a pedra / bruta
e faz brotar a flor

 

(Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker. Oficialmente, o Sumi-ê será lançado em janeiro de 2014, mas já se encontra para pré-venda no catálogo da Editora Patuá)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

leonardo MAthias

 

Foto: Bruno Kepper

manchas mínimas

reter, da travessia instável
sob retinas degeneradas de outro
agora
aquilo qual aflige
e deforma o que some
ignóbil, extirpar o medo
dos braços; estocada
– à frente –
abrir bem os olhos, horizontalmente
fixar o osso na pálida
pele,
dentro do som das sacolas, seus cortes secos,
manchas mínimas desfolham
sob um falso oco, o susto
– o cloro da manhã volta,
cerze tons, todos
os sabores quais não mais
se sente –
leveza esquecer
sobre a branca pelagem das horas, àquilo;
respirar
fundo, tudo o que pouco importa

 

 

***

MASSAS: recline

você fuma
você vai até a esquina
e carrega cigarros entre os dedos:

você tem sono mas
queima:

você vai aos poucos perdendo as qualidades

e em gesto resulta o peso
e o fogo adensa o vago

do que se ocupa em corroer
o que te escapa:

e você reclina

– não se sabe mais
onde encaixam-se
essas massas de coisas
que você vê –

e você perde
se cerca de um ecossistema construído aos poucos
e você parte
e ele permanece sem você:

ele pára em você
ele te arranca

 

 

***

 

 

dentro das gretas
dos sonhos,
presas debaixo
do espelho dos olhos,
as coisas,
ensejam seus ritmos secretos,
descobertos,
num impassível
talvez.

 

 

***

 

 

adaptar é romper:
abre-se a porta.
enfrenta-se a fina brisa.
é esboçada uma coisa ou outra.
a dúvida não aumenta nem diminui, segue num esgar a esmo.
desce-se a rua, odiando os outros transeuntes.
senta-se, vê-se um filme.
o homem é ritmo, vertigem de si mesmo.

como soubesse exatamente do que precisa, repete: “para a eternidade a estática”; continua a caminhar.

 

 

***

 

 

nivelamento:
ainda insiste em restaurar seu ânimo,
talvez isso o canse tanto.

apenas um imã estranho mantém tudo aquilo. delicadamente.
sentado, lendo não-sei-o-quês, teme a pressa dos outros, pela periferia dos olhos.

por vezes já considerou a caminhada, prefere não colidir, destroncar vetores: percebe, de relance, a momentânea mudança na composição de cores.

(leonardo MAthias (São Paulo, SP, 1987) atua em literatura, artes visuais e design. No setor editorial, mantém parceria com a Editora Patuá, pela qual ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de cem títulos. Publicou seu livro de poemas “de pé”, em 2011, pela Editora Patuá. Colaborou para veículos como os jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Em 2012, realizou sua exposição individual “As Janelas de Rilke”, premiada pelo ProAC Artes Visauis (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). Atualmente desenvolve projetos direcionados à pesquisa relacional entre literatura e artes visuais)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wilson Torres Nanini

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

 

boi

 

I

apenas a metafísica
de nossos mitos
explica-nos
– enquanto o boi ergue a cauda
e produz matéria

II

solene,
com mãos transfiguradas,
afago na
(dele) face minha hoje
escassa identidade

III

no meio-dia sem álibi
na meia-noite sem alento
o boi (peso, pelo e poesia
isenta) se indifere pois
intui que plenitude é
– rente ao prazer manufaturado –
deitar-se entre flores
na relva úmida
e lamber apenas
as próprias narinas

 

 

***

 

 

redemunho

                para líria porto

circum-arisco vento célere
– que fico o sigilo do chão de um rio –
em plena empoeirada rua

o sol me cega me sega o sol o sol me seca
o tato e sinto a sede tanta
de um mar interno

e para que meu cerne se reensolare
– poesia não duela afagos
(meço apaziguamentos
peso ausências) –
você me traz alumbrado mar

me relenta me
cataventa

me estende versos em lamparina
adivinhando enfim onde é
mais noite em mim

 

 

***

 

 

anestésico

 

canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva

“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta

beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis

enquanto isso
você me
nina

você me
conta
de fadas

 

 

***

 

 

dócil

 

penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança

seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)

ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem

penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo

 

 

***

 

 

cor de rosa

 

te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho

doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)

busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos

: a vida de
volvida do
fóssil

 

 

(Wilson Torres Nanini, autor do livro Alcateia (Editora Patuá, 2013), nasceu em 1980, em Poços de Caldas/MG, e vive em Botelhos, Sul de Minas. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajeúBR. Edita o blog Quebrantos, Relances e Abismos ao Relento)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Diego Callazans

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

Orfeu, não chore mais;
não vê que é inútil?
às moiras nada compadece.

os cantos ao silêncio marcham.
as palavras morrem.
os deuses esquecem.

nas flores o sublime é breve.
a criança encurva.
desafina a lira.
o amor é pó.

a voz mais bela dura só um sopro.

às moiras nada compadece,
Orfeu; não chore.

ainda sopram versos.
a arte é viva para além dos ossos.
os deuses recordam.

há palavras que claudicam,
mas distante é a noite
e o sol, se lhe calhar, não vem depois.

cantemos.
às moiras nada compadece.
não há por que ter pressa de silêncio.

 

 

 

***

 

 

 

jamais te iludas:
a paz é breve.

tolera o verme
somente o quanto
adia a luta.

todo tratado
é uma cilada.

ausculta à lupa
atrás dos sinos.
não dês desculpa
para explodir-nos.

se for preciso,
a mão lhe estende.
force um sorriso.

com vela rente,
indaga o vento.

mantém a adaga,
oculta o intento.
nossa voz curta
assim prescreve.

jamais te iludas:
a paz é breve.

 

 

 

***

 

 

 

não sou senhor sequer
do corpo que me veste

nem minha sombra
me reconhece

o nome a que me ataram
– largo – pesa

meu passo – leve
– nem rastro deixa

meus versos queime
– não há quem tome

ideias… dei-as
– me atrasavam

possuo nem mesmo a ave
que em meu inverno lateja

 

 

 

***

 

 

 

de tênis, botões e jeans devo estar
doravante por questão trabalhista.
as sandálias ficam para as andanças
entre a padaria, a feira e a banca.
todo o resto é área do professor,
montado como uma drag sem glamour.
o professor que faço me comeu
todo o sentido. sou hoje seu hotel.
leitura era prazer, é hora-extra.
a poesia agora é o que me resta.

 

 

(Diego Callazans vive em Aracaju desde a infância. Graduado em Jornalismo, está em vias de concluir doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Em sua trajetória, atuou em teatro, dirigiu vídeos e desenhou quadrinhos. “A poesia agora é o que me resta”, lançado recentemente pela Editora Patuá, é seu livro de estreia)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Um importante eixo filosófico movimenta o ambiente da criação. Talvez por isso um autor empreenda percursos mais vigorosos ao cerne daquilo que o impele a edificar palavras. Não raro, vê-se imbuído em complexidades que remontam muito mais a indagações que a respostas de toda ordem. Nesse ínterim, a face misteriosa da existência é senhora absoluta das horas, configurando um cenário através do qual pouco importa o saber dos significados. Ganha corpo o sabor dos desavisos e de como são indomáveis o tempo e seus rompantes.

O escritor com quem conversamos agora traduz em sua obra um pouco desse fluxo incessante em torno do mistério da vida. Trata-se de Edson Bueno de Camargo, poeta cujos versos instauram um especial sentido de ligação com a gênese do mundo. E está a se falar aqui de como a palavra funda territórios e ergue estruturas, todas elas a compor um vasto painel de características que nos ajudam a perceber quão imersos estamos no oceano do insondável.  Não bastasse essa hercúlea trajetória sugerida pelo trato com as letras, em Edson temos também a referência ao papel do tempo, seja como componente de transcurso dos homens e suas ações, seja na constatação de que os signos da permanência nos revelam mais atributos do que supomos.

Nascido em Santo André, no interior de São Paulo, o poeta traz embutidas em suas travessias diversas premiações em concursos literários e participações em antologias e revistas impressas e virtuais. Dentre suas publicações em livro, estão: “Cortinas” (edição artesanal), com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi – Mauá – 1981; “Poemas do Século Passado – 1982-2000” (edição de autor – Mauá – 2002); ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” (Edições Tigre Azul/ FAC Mauá –2006) e “cabalísticos” (Coleção Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010).  Seu mais recente rebento poético, “A fome insaciável dos olhos” (Editora Patuá – 2013), reforça a sensação de que estamos diante de um autor comprometido com as incursões possíveis da palavra.  Nessa entrevista, Edson Bueno de Camargo compartilha conosco traços importantes de sua obra, bem como impressões a respeito desse labiríntico espaço chamado literatura.

 

Edson Bueno de Camargo / Foto: Arquivo pessoal

DA – A começar pelo título, seu mais recente livro traz em si uma profunda carga imagética. As paisagens poéticas ali presentes mesclam ausências, silêncios, chamados e revelaçõestudo a compor uma arquitetura delicada para a existência. “A Fome insaciável dos olhos” pode ser tido como um exercício de travessias diante da fragilidade da vida?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Lembro de, em 2006, assistir a uma palestra da Adélia Prado em Paraty, onde ela falou sobre a fragilidade de nossa existência, de como somos seres precários, e de como aquilo me marcou profundamente. Creio que o poeta carrega esta viagem das possibilidades, fazemos o tempo todo esta travessia, ao tentar transformar o tempo em palavras, algo como um xamã imperfeito, tentando enganar o tempo e a morte.

Um bom amigo e grande poeta, José Carlos Mendes Brandão, fala que escreve porque sabe que vai morrer. Creio que seja isso, escrevemos nossos breves epitáfios, o poema é uma conversa com a morte e ao mesmo tempo uma celebração com a vida. A palavra é o fiel da balança.

 

DA – Chama atenção o caráter orgânico do livro, estabelecendo, nalguns momentos, um elo entre os homens e seus sentimentos quiçá mais primitivos. Em que medida seus versos questionam a gênese das coisas e do mundo?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Creio que não seja questionar, mas sim ser a própria gênese. Em muitas religiões tidas como primitivas, é a palavra ou o som da palavra o grande gerador das coisas.

Na própria Bíblia é a palavra que principia tudo. A grande relação mágica da poesia é o conceito de que a palavra cria a coisa ao nomeá-la. A poesia é minha relação com o sagrado.

DA – Diria que essa sua ligação com o sagrado é também uma resposta às tradicionais amarras ideológicas do pensamento?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Sagrado não significa necessariamente religião. É um rito de ligação.

Sempre estamos em busca de respostas, nós humanos. Sinceramente, não saberia dizer se a ligação da poesia com o sagrado seria alguma resposta a uma amarra ideológica. Creio que a contemporaneidade não exige mais respostas absolutas e que, principalmente,  não existe mais uma resposta única. Sinto por aqueles que acreditam em respostas prontas. Este mundo fácil e explicável não existe (e nunca existiu).

Vivemos no trânsito entre os mitos, cada um criando seu próprio mitologema diário. Além do que, não seriam também as ideologias, uma forma de religião tentando, ao seu modo, dar uma explicação para o mundo?

Sou daqueles que chegaram à conclusão de que não existe de fato um sentido nas coisas. A poesia não responde, não explica, não salva, e ao mesmo tempo nos dá o indicativo do que de fato é importante.

Ao mesmo tempo, acredito que o exercício da arte, e a poesia é uma delas, senão o mais importante, é o que de fato nos revela. Responde-nos? Explica-nos? Não creio que isso seja possível.

Somos essencialmente humanos, o exercício do poético talvez seja a forma mais adequada de nos afirmar isso. Caso contrário, o que nos separa e separaria das máquinas?

DA – Seus versos assinalam uma metamorfose do mundo sem se preocupar com ares de novidade. Diga-se de passagem, tem-se a sensação de que o novo é o velho transmutado, permanência relativa das coisas, fluxo através do qual percorremos ciclicamente as mesmas vias. O que pensa a respeito disso?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Realmente não tenho uma preocupação muito grande com a novidade. Para mim o texto tem de ser autoral, ter o seu sinal e a sua marca, mas, ao mesmo tempo, tenho a plena consciência de que toda a escrita é intertextual. De alguma forma, repetimos os nossos poetas prediletos, e simultaneamente damos nossa contribuição para este continuum espaçotempo da palavra. Somos o resultado de nossas leituras, leitura de livros, de autores, de mundo, de nossas experiências de vida. O formato que usamos para o poema é o mais conveniente e possível para cada um. O poeta que se apega a uma forma única ou a pré-requisitos corre o sério risco de se abortar criativamente.

Quanto aos ciclos, ao tempo e ao fluxo,  recorro, neste caso, ao Octávio Paz, que em “O arco e a lira” afirma que todo o poeta é um novidadeiro e ao mesmo tempo um nostálgico incorrigível.

Esta noção de tempo linear é assumida pela sociedade ocidental como a única que existe, ou a que é “certa”. No entanto, junto às sociedades arcaicas, a noção de tempo circular é muito mais aceita. Ocorre do poeta ser uma espécie de xamã, mais adepto às sociedades arcaicas que da “modernidade”.

O tempo da poesia é circular, é o tempo dos deuses, o tempo da contemplação e não o tempo do labor industrial. Uma coisa pode ter acontecido e, ao mesmo tempo, estar acontecendo, sem prejuízo a que ela ainda aconteça. Não raro, poetas antecipam acontecimentos, o acaso objetivo está aí operando o tempo todo.

DA – A lucidez encerra grandes desafios a um poeta? Seria ela um antídoto contra a traição dos sentidos?

EDSON BUENO DE CAMARGO – A lucidez pode ser uma armadilha. Nossos sentidos estão conectados a um mundo que muitas vezes pode se tornar fugidio. O nosso cérebro acredita que tudo o que ele sente é verdade, a ponto de existirem momentos em que podemos trocar memórias. Sei que muitas das memórias que carrego hoje não são minhas, mas ainda assim as sinto, me entristeço com acontecimentos que não vivi, choro saudades que não são minhas.

Não só os sentidos nos traem, a memória das sensações também. As pessoas que vivem nas cidades estão mergulhadas em um caldo de sensações diversas: um cheiro pode detonar uma memória, o cinema, a televisão, a leitura de ficção podem provocar viagens e trânsito entre os mundos.

O poema pode ser a tentativa frustrada de recompor o mundo das coisas, mas não creio que possa fazer realmente este papel. Talvez seja por isso que Sócrates expulsa os poetas da República, por essa ilusão entre o que de fato sentimos e o que de fato esta sendo sentido. Não há um antídoto para isso.

 

Edson Bueno de Camargo / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Há um quê de memória afetiva a percorrer algumas vias do seu novo livro. Ali, pessoas e lugares ganham corpo especial diante do poeta que reflete as marcas do tempo.  Esse contínuo devir pressupõe um experimentar de mistérios?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Toda a escrita é autobiográfica, mas nem sempre o que lembramos ter vivido corresponde necessariamente a um acontecimento real ou a uma vivência. Tomamos do mundo o que precisamos. Por que não também as memórias?

Estou a todo tempo a observar as pessoas, tenho um sentimento voyerista, fico imaginando o que essas pessoas fazem, como se amam, como se comportam diante do mundo. E isto acaba por compor o poema, que é um catalisador de sensações e realidades experimentadas.

Às vezes, penso que a memória afetiva é a única memória que realmente temos, nos lembramos das coisas que nos apaixonaram, pelo amor ou pelo terror. O poeta pode carregar a memória coletiva de sua comunidade. Elias Canetti fala que os poetas são cães de seu tempo, vivem a febre profética dos deuses, mas nunca conseguem fugir daquilo que os circunscreve.

Santa Tereza D’Ávila dizia que até as panelas da cozinha são objetos de sacramento, que são tão sagradas quanto os mistérios do altar, do cálice, do vinho. Acredito piamente nisto. Quando repetimos os rituais cotidianos, penetramos nos mistérios do mais profundo sagrado, todos podemos experimentar as sensações do sublime. Os poetas estão alguns segundos antes das pessoas no tempo.  Há momentos em que as pessoas necessitam ser lembradas do que sentem.

O poema, quando cumpre realmente sua função,  recupera o campo do sagrado onde o mistério é nossa vivência cotidiana.

A rotina industrial e o tempo linear que são impostos às pessoas afastam-nas das coisas que realmente são importantes. O poeta também tem a obrigação de lhes indicar o sentir, o ser, que deve ser nosso objeto primeiro.

DA – Em matéria de literatura, carecemos hoje da manifestação de vanguardas? Até que ponto a existência delas seria algo relevante?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Em primeiro lugar, teríamos de definir o que é uma vanguarda, um termo militar que foi absorvido pelos movimentos artísticos. No campo de batalha, a vanguarda é a infantaria ligeira, os primeiros a romperem as linhas inimigas, mas também o grupo que sofre as maiores baixas (o número de mortes, suicídios e insanidade entre poetas é bem representativo). Pouco o que fizermos irá superar o que foi feito na virada do século XIX e princípios do século XX. Creio que ainda estamos aturdidos pelo que foi feito neste período, não sei como poderemos superá-los.

Vivemos num tempo onde, aparentemente, não existem movimentos culturais, onde parece que tudo já aconteceu e que tudo se repete. Mas fico pensando em até que ponto isso é realmente verdadeiro. Como poderemos saber se não passamos por um grande processo de transformação se estamos inseridos nele? É muito mais fácil visualizar algo de fora, de longe, com o distanciamento que por vezes só o tempo pode dar. Quem disse que a “Semana de Arte Moderna” foi um movimento importante para a cultura do país, foram os analistas posteriores. O movimento de vanguarda mais interessante que ocorreu, para mim, foi o Surrealismo, que primeiro aconteceu, com seu manifesto e tudo mais, e depois buscou as motivações e inspirações do movimento, nomeando ao bel prazer seus precursores.

Para mim o grande movimentador cultural da atualidade é o uso da Internet como mídia literária, o uso de novas plataformas, a facilidade de pessoas de diversos pontos do mundo poderem usufruir de uma forma quase imediata de contatos pessoais, mesmo que virtualmente. No que pese que uma nova mídia jamais substitui completamente a velha, e meios de comunicação de diversas épocas e tempos convivam harmoniosamente. Um grande exemplo disso é a radiodifusão, que logo faz cem anos e não dá nenhuma mostra de perder o fôlego, ao ponto que a Internet, não só não substituiu, como absorveu o modelo. Temos muitas rádios on line operando por aí. Então, o uso da Internet é uma grande novidade velha, só que antes o correio postal, o telefone, faziam a função que hoje se tornou mais fácil e acessível. A grande revolução da Internet é a democratização da informação e do acesso, mesmo com possíveis críticas que lhes devem caber.

Creio que o que hoje falta é um manifesto, um movimento com um formato fácil e reconhecível, aquelas lutas pela hegemonia da razão. O que sinto e vejo hoje são pessoas muito talentosas, mas não muito afeitas ao contato físico e a reuniões intelectuais e políticas (muito chatas para quem não gosta). Pessoas que não sentem a necessidade de um mote agregador em sua arte, mas que também não se incomodam de trocar experiências com outros poetas, mesmo que virtualmente.  Mas existem também manifestações  que têm acontecido pelas bordas. Uma garotada com grande energia, nas periferias dos grandes centros, fora dos grandes eixos e dos circuitos tradicionais, sem uma preocupação com o reconhecimento, com seus fanzines, publicações alternativas, blogues, revistas virtuais. Quem sabe estes escritores venham a consistir alguma vanguarda, ainda que sem ter esta percepção?

Fica a reflexão. A poesia marginal dos anos setenta não teve nenhum manifesto, saiu às ruas para declamar poesia, enfrentou os anos de chumbo da ditadura militar e hoje, aos poucos, está recebendo o reconhecimento merecido de seus poetas. O Paulo Leminski está ficando até pop e frequentando as listas dos mais vendidos.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Acredito que a pós-modernidade já passou, pisamos na praia da contemporaneidade, e pouco sabemos o que isso pode significar.

Não seria necessariamente o que não endosso, mas me irrita profundamente (risos) é uma certa atitude blasé que alguns escritores assumem, em geral atualizando textos e agindo de forma a operar um revisionismo histórico, descobrindo que para chamar a atenção, ao invés de mostrar uma produção de qualidade, se especializam  em falar mal de escritores consagrados em algum período:  em especial, as críticas mais ferozes são para o Carlos Drummond de Andrade e para o Mário Quintana, não sei por que razão.

Em geral, estes senhores e algumas senhoras desfilam uma miríade de diplomas acadêmicos e especializações, lógicas incontestes, autoridade presumida, medalhas de honra ao mérito, e tudo o que possa ser usado para afirmar que sua razão é única e qualquer um que venha a confrontá-los corre um sério risco de virar alvo.

Fora isso, somos sempre fruto de nosso tempo, e, muitas vezes, poetas são criaturas meio deslocadas de sua época e lugar. Pego-me chorando sobre os versos de um poeta chinês da dinastia Tang e, ao mesmo tempo, admirado com a poética de um jovem blogueiro desconhecido até o momento. Nada que é poesia me é estranho.

O que vale é o que nos toca. A fruição poética é algo absolutamente pessoal, como uma religião pessoal.

DA – Como aproximar mais as pessoas das palavras sem a intervenção demasiada dos ditames meramente institucionais ou quiçá demagógicos? Somos, de fato, uma nação que subestima potenciais leitores?

EDSON BUENO DE CAMARGO – Talvez nem seja o caso de discutir “a intervenção demasiada dos ditames meramente institucionais”. Pessoalmente, nem enxergo isto como um mal em si, mesmo porque muitas vezes o que vejo é uma ausência total de políticas culturais para a literatura e a leitura. Costumo dizer que preferiria combater uma política cultural ruim a me deparar com uma política cultural ausente ou inexistente. Já ficaria muito feliz se as autoridades constituídas fizessem alguma intervenção, de fato, neste sentido. O pouco que é feito sempre vem no sentido de compra de livros,  programas feitos para grandes editoras e um conteúdo pasteurizado. Os autores e pequenos editores independentes estão fora da jogada.

Toda vez que falamos de leitores, penso em nossos vizinhos platinos, que têm uma tradição literária mais antiga e arraigada, e muito mais hábito de leitura que nós brasileiros.  O que neles é tão diferente neste aspecto que nós? Temos a mesma formação jesuítica, católica, opressora, caótica.

Qual será o mistério que faz com que o brasileiro não seja um leitor habitual? O hábito da leitura parece ser algo que não está na alma brasileira, ou está e não vemos. Mais uma vez, acredito que a questão está na educação. Enquanto no Brasil a primeira Universidade surge no século XIX, no mundo de nossos hermanos, as universidades têm quase o tempo da colonização. No que pese que esta educação foi sempre europeizante e excludente da massa das populações indígenas, é um diferencial a ser considerado.

No fundo, creio que o nosso grande problema seja o analfabetismo funcional. Não há leitores entre pessoas que não conseguem ler bem e com desenvoltura. Outra questão a ser considerada é que havia um caldo de cultura em populações ágrafas, quer nativas, quer por emigração forçada, que foi menosprezado por muito tempo.

No fundo, somos uma nação que desperdiça potenciais em quase tudo. Temos ainda uma alma colonialista que não consegue olhar para dentro de si mesma, onde as elites e, por reflexo, o governo, veem a cultura como um artigo de luxo, não reservado às castas inferiores. A leitura não consegue ser popularizada porque não se acredita nela e nem que a mesma deva ser para todos. A universalização do ensino deve deixar de ser um grande engodo,  além de passar a se pensar em diretrizes que funcionem como real educação.

A leitura é uma coisa cumulativa. Quanto mais se lê, mais se sente necessidade de ler.

DA – Na conjunção das feições de leitor e criador, de tudo o que viveu até aqui com as palavras, Edson Bueno de Camargo aproxima-se mais do espanto ou da revelação frente à existência?

EDSON BUENO DE CAMARGO – A revelação deve ser feita pelo espanto. Mesmo que em alguns momentos seja tomado por esta melancolia dos trópicos, e seja tentado a ser tomado pelo ceticismo  e pelo pragmatismo, abre-se sempre uma janela para me reconhecer como humano e dono de um potencial de criação infinito.

Os homens foram criados pelos deuses para a beleza. Só precisamos lembrar disso novamente e sempre.

 

*Alguns poemas de Edson Bueno de Camargo podem ser lidos aqui

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

José Geraldo Neres

 

Foto: Milena Palladino

 

 

AS PEDRAS SÃO RAMOS DE ÁGUA

 

Mergulho na sombra úmida. O rosto da vida que busca por onde começar. Sua distância ― uma tempestade que nos visita ―, seu olhar não se apresenta em forma d’água. Mergulho o rosto. A vida abre os dentes.

Os retratos tomam as cores de nossa memória. Reconhecem as feridas. Nos negam a origem. O silêncio é a porta da qual não temos a chave. A parede por cair. A olhar o tempo. Não encontro o seu rosto entre suas raízes. Sombras saltam comigo.

O relógio está quebrado, mesmo assim, o tempo joga suas cartas. Existe um fio quebrado no labirinto ― ele não se preocupa com as armadilhas ―, nos seus dentes um aviso.

A parede por cair nos estende as mãos. Ela não acredita na ressurreição. Na poesia os fantasmas se reconhecem, e a morte se pesa à parte. Avessa às festas, não se recorda da mãe ou do pai. Não consegue unir essas duas margens. Não se banha na mesma água. Corre no seu sangue uma música desconhecida. As mãos limpam a poeira dos ossos, desenham caminhos, e penetram a pele dos nomes.

Um menino de riso fácil junta gravetos para construir um esconderijo. Não me aproximo das paredes de olhos líquidos nem das igrejas. Deixo o corpo sepultado no seu colo. O silêncio guardado no espelho. Dentro do silêncio, espero o dia nascer, e sempre permanece escuro. Poucas palavras revelam meu nascimento.

Entre a parede e o espelho, observo suas unhas varrerem uma tempestade para detrás da porta. O menino pergunta: quem vazou seus olhos? Respondo: o voo dos cordeiros não termina em mim, e os fantasmas fazem fila atrás do seu sorriso. Afaste-me desta parede!

Como levantar essa parede sobre mim? Quero um pouco de veneno para novamente sonhar. Se precisa de uma igreja, engana-se: é lá que se despede a vida. No meu corpo carrego as preces antigas, as escamas dos pecadores.

A igreja entrevista os novos candidatos a santos. Um corte profundo nas veias ― observo a cena ―, não existe trapézio nos aquários. Os santos se imaginam peixes voadores. À minha volta mulheres cortam seus sexos com asas de arame farpado. Recolhem milagres.

A infância: pássaro embalsamado. O choro de mãe se faz terço invertido. Estamos perdidos, retiraram as estrelas de nossas pupilas. Os meninos não caminham na chuva.


 

 ***

 

A CABEÇA DA SERPENTE

Saí de casa mais cedo. A lua começa a cantar e cai dentro de um copo. Vermelho. A cor me faz ficar parado. A rua não tem nome. Orientaram-me não ficar parado, mas o corpo não responde ― tem o ritmo de uma fotografia ― Devagar. Dizem: o passado é um colecionador de luzes. Ninguém me espera.

Vermelho. Sinto a noite afundar no silêncio do semáforo. Olho pelo vidro. Uma sombra vem em minha direção, tento decifrá-la O passado é Outro a caminhar ao meu lado, se instala nas paredes do meu corpo. A parede não tem janelas. Uma tempestade com flores entre os dentes. Não sei das pétalas nem da boca que as carrega. Deve ser minha infância, ou apenas o medo: o ninho de punhos fechados.

Espere.

Ainda vermelho. Deve ser algum defeito mecânico. ― Estou aqui. Devagar. Olhe para mim. Não durma. ― Não consigo decifrar sombras.

Um menino bate na janela. Quer me mostrar ou vender algo. Faz pequenos movimentos com as mãos. Sorri.

― Construí um deus, quer ver? Fiz em sete dias.

Está tudo vermelho. Agora já aparece um verde, um amarelo. Preciso de descanso.

― Quer um pedaço da minha sombra? É para manter a pele dele aquecida. Isso, um pouco de vermelho, um pouco de barro.

― Não tem mais?

― Esqueci de terminar os olhos.

Ninguém me espera.

(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). O livro de contos “Olhos de Barro” (Editora Patuá, 2012) é sua mais recente obra. Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)