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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wesley Peres

 

Foto: Magali Abreu

 

NA ORIGEM, SABIA-SE O NADA,
e saber era nada, e não havia véus,
e, por isso, tudo estava oculto.

E ocultuava-se o corpo com o corpo,
e o corpo, enrolado em papiro,
sendo o papiro feito do corpo.

Sendo o corpo feito papiro:

planura de inscrição de coisas,
das coisas, das fímbrias oscilações
constantes
da textura das águas
dos corpos, seus extratos de ares
ásperos.

Dizem que, na origem,
o corpo era todo línguas e lábios,
e havia matérias espécies, especiarias
cortantes, capazes de gravuras
sobre superfícies águas do corpo
e suas abismas quedas d’aves
estroçadas de tal modo que
até mesmo os antepassados
d’águas se arrepiavam
qual nuvem desaba do oitavo
andar d’algum sol há muito
nem servindo mais
a título de ocidentações
nem de orientações.

Na origem, sabia-se o nada,
e o destino é o outro nome para origem,
e origem é o outro nome para o destino.

 

E origem e destino são nomes outros
para esse imenso outro da palavra: o corpo.

 

 

 

***

 

 

 

ERMO DE UMA VOZ SOMENTE, O CORPO.

Inscrita no corpo
a palavra erra
os enormes abismos,
os entres do corpo:
aqueles que sim,
aqueles não
— são bocas.

Mesmo no beijo, há ínsulas,
mandíbulas sereias,
ruínas ruidosas,
pedaços, areias
de civilizações inteiras.

…….Anômalo orifício no silêncio do corpo, a boca

 

 

 

***

 

 

 

POR MAIS QUE PULSE,
a palavra,
trêmula pedra,
pulsa embaraçada na lei mosaica,
a que proíbe o derramar-se dos olhos.

A imagem denuncia o tempo no corpo,
enquanto, na palavra,
o tempo se redime,
conserva-se,
neste resinífero reino humano,
conserva-se palavra, apenas.

 

 

 

***

 

 

 

NO ENTANTO, HÁ MORTIFICAÇÃO
também na boca e na língua,
a palavra, quando preserva,
preserva porque mumifica.
Adivinha-se isso entrando
num estranho quarto
em que corpo e palavra frequentam-se
e frequenciam-se, imperativamente,
desde o final dos tempos.

Neste quarto, a lógica das paredes
— símile ao que um arquivo morto
sabe do mar —
pensa as papilas dos corpos,
pensando-as, sonha o sonho
de torná-las recortes de um sistema
nervural de conexões entre estrelas
e os ambíguos lábios do chão e da chuva.

 

 

 

***

 

 

 

AS PAPILAS DAS COXAS:
trilhamentos de vozes
chamando e soprando chamas
da carne, tremeluzindo,
como tremeu e luziu a carne
quando nela a vida soprada
qual a vela soprada pelo vento,
movendo os traços traçados
pela madeira riscando
a moura musculatura dos mares.

 

 

 

***

 

 

 

MORREMO-NOS, IMPERATIVAMENTE,
com nossas impérios de bolso,
com nossos deuses enrodilhados nos cabelos,
ou em pequenos códigos sensórios
qual um marinheiro suspenso
em dúvida
quanto a existência de céu e mar,
qual um homem indeciso
quanto a qual primeira parte olhar
do corpo da mulher que lhe
desloca a retina e as vértebras dos lábios.

 

Wesley Peres é psicanalista e escritor. Autor do romances Cartografias de um Doente dos Nervos (7letras, 2022), publicado com apoio financeiro do Itaú Cultural; Casa entre vértebras, (Record, 2007), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo – 2008, e As pequenas mortes (Rocco, 2013). E dos livros de poesia: Palimpsestos, vencedor do Prêmio Coleção Vertentes em 2007; Rio revoando (ECA- USP, 2003); Água anônima, vencedor do Prêmio Cora Coralina 2002 e O Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo, 2019).

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A inquietude talvez seja uma das ferramentas mais indispensáveis a um criador. Seja por um eixo filosófico ou meramente orgânico, estar vivo já pode ser entendido como uma experiência densamente inquiridora. Esse tipo de reflexão pode conduzir-nos também à instigante ideia de que o produto da arte não é um objeto de um mero e reduzido estado de contemplação das coisas. Achar-se aqui, no meio da “civilização” que construímos até hoje, representa muito mais do que um exercício estético de observação. Por mais acomodados que sejamos, acondicionados em bolhas de isolamento pessoal, o fato é que não passamos impunes pelas urgências do tempo.

No campo da literatura, qual seria, então, a melhor forma de representar a avalanche de sensações que presenciamos através dos dias? Buscar respostas não parece algo razoável. Tudo isso também porque escrever implica penetrar nas camadas mais complexas possíveis, muitas delas envoltas em saberes e sabores que só são viáveis graças a um permanente estado de perplexidade deveras útil aos caminhos da criação. O espanto de se estar vivo e pertencer a uma cadeia de elementos pelas quais não temos domínio absoluto é aspecto que povoa as mais distintas intenções quando o assunto é travar o combate das palavras. E não há como percorrer as paisagens humanas sem retirar das andanças um mínimo que seja de estranhamento. É, por exemplo, um pouco da sensação marcante que nos toma de assalto quando lemos André de Leones. Em sua trajetória, esse jovem escritor goiano penetra de modo denso nas estruturas que permeiam a nossa condição de humanos. De posse disso, faz uso de estratégias narrativas que chamam a atenção pelo modo como seres e lugares convergem para um sentimento de constante perturbação. Assim, perceber-se vivo na ótica do autor é não pactuar com uma acostumada e perniciosa “ordem natural” das coisas.

O caminho de lucidez sobre o qual André edifica sua obra demonstra que após atravessar as vias de Hoje está um dia morto (Romance – Record – 2006), Paz na terra entre os monstros (Contos/Novela – Record – 2008), Como desaparecer completamente (Romance – Rocco – 2010) e, mais recentemente, Dentes Negros (Romance – Rocco – 2011), ele parece estar cada vez mais disposto a pôr em xeque os alicerces em que se funda nossa tenra existência.  Nesta entrevista, o autor pontua aspectos decisivos de sua criação, refletindo um pouco sobre nosso tempo e seus ventos eivados de desassossego.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – “Dentes Negros”, seu último livro, é, digamos assim, um romance caótico, no qual a sensação do derradeiro instante paira por sobre a sina dos personagens de modo a representar muito mais do que uma mera ideia de finitude. Em meio à paisagem desoladora da narrativa, vestígios parecem ser precioso legado. O que lhe é mais emblemático nessa percepção?

ANDRÉ DE LEONES – Não vejo ‘Dentes negros’ como um “romance caótico”. Em termos estritamente estruturais, por exemplo, talvez seja o livro sobre cuja organização eu mais trabalhei. Tudo nele aponta para a finitude, de uma forma ou de outra. O fato de a narrativa ser tão curta é um indício dessa intenção. Ela é constituída por capítulos pequenos, objetivos, crus, mas que eu não encaro como “vestígios” ou coisa que o valha. Também não gosto do termo “sina”, pois tem a ver com certo fatalismo. Não sou fatalista. Não acredito em “sina” ou “destino”. Não era o “destino” de Hugo voltar à sua terra natal, assim como não era o “destino” de Alexandre encontrar Ana Maria. Escolhas são feitas cotidianamente, não importa em que circunstâncias. Nesse sentido, ‘Dentes negros’ tem tudo a ver com meus livros anteriores. Crio os personagens e os coloco em determinadas situações. A narrativa avança a partir do que eles escolhem fazer (ou não), desde as coisas mais simples (ficar em casa ou sair) até as mais difíceis (continuar vivendo ou não).

 

DA – O livro tem uma construção narrativa cujo encadeamento das ações chama atenção pela disposição das situações. Nesse sentido, há algo marcantemente cinematográfico na obra. Quais caminhos nortearam essa perspectiva criativa?

ANDRÉ DE LEONES – De fato, o romance nasceu de um determinado gênero (ou subgênero) de filmes que me interessam muito. São aqueles passados em mundos desolados por uma qualquer hecatombe, como que depois do fim do mundo, com os sobreviventes tendo de se virar com o que restou da civilização, por entre os escombros. Claro, há livros estupendos que se apropriam desse tipo de coisa, e eles também são muito importantes para mim (cito “A Estrada”, de Cormac McCarthy), mas a minha vontade, ao escrever “Dentes negros”, foi me basear num subgênero cinematográfico do qual ‘Mad Max’, de George Miller, talvez seja o exemplo mais perfeito. Não só pela extrema competência com que foi realizado, pela inteligência visual de seu diretor, mas também pela sua aridez, pelo fato de não fazer concessões na maneira como introduz um mundo ou um pós-mundo em que os estamentos da civilização vieram abaixo. Ao escrever “Dentes negros”, eu me permiti contaminar por esse sentimento de desolação, pela aridez dos cenários e situações, pela sensação de que algo deu muito errado e não há muita coisa que se possa fazer a respeito. Por outro lado, e nisso eu me distingo desse tipo de filme, optei por não embarcar numa narrativa de peripécias. Observe que mesmo a violência, em “Dentes negros”, é anti-climática, não há a construção de um emaranhado de ações que culminem num clímax redentor ou coisa que o valha. Os personagens erram por aí, simplesmente. O retorno de um deles à terra natal é abortado logo de cara, por exemplo. O gesto de outro (ir à procura da prima do morto e lhe entregar uma encomenda) não é heróico, cinematograficamente falando. Eu me fixo nesses gestos menores, que, no fim das contas, são aqueles de que somos capazes, quando somos. Fosse um filme, “Dentes negros” não seria cinema de ação, mas teria a lentidão que percebo, por exemplo, nos filmes de Michelangelo Antonioni (um mestre, aliás, em tomar premissas que renderiam ‘thrillers’ para construir narrativas das mais introspectivas – vide “A Aventura” e “Profissão: Repórter”).

 

DA – O modo como você aborda a questão da alteridade no contexto do livro é um aspecto de interessante reflexão. Tens a sensação de que algo ali é posto à prova?

ANDRÉ DE LEONES – A alteridade sempre foi um tema norteador em tudo o que escrevi. Desde os meus primeiros contos até “Dentes negros”, passando pelo “Dia Morto”, o mais importante sempre foi situar os personagens em determinadas situações; para tanto, é imprescindível um ponto de referência, ou seja, o outro. Nos meus textos, tão ou mais importante do que aquilo que os personagens dizem de si é o que eles dizem uns dos outros e para os outros. O outro, portanto, é uma via para alguma espécie de auto-conhecimento. “Dentes negros” traz, também, um esforço dessa natureza, seja para situar-se num mundo transformado em escombros, seja para seguir adiante, ainda que de forma precária. O outro nos pede que o asseveremos de que ele está ali, continua ali, e em troca faz o mesmo por nós.

 

DA – Observando o que vivemos hoje, sobretudo no que se refere ao terreno das relações, acredita que estamos diante de uma crise de humanidade?

ANDRÉ DE LEONES – A humanidade está onde sempre esteve. Não somos grande coisa, nunca fomos, nunca seremos. Compreendo que muitos precisem acreditar num sentido maior para tudo o que há, até para conseguir suportar uma existência que, na maior parte do tempo, é desoladora. Eu, felizmente, não preciso disso. Nada faz sentido. Escrevo porque é algo que aprecio fazer e porque preciso me ocupar enquanto estiver vivo. Acho que, se as pessoas conseguissem se manter ocupadas assim, sem recorrer a quaisquer transcendências, viveriam melhor, prestariam mais atenção em si, nos outros e no mundo ao redor. Até porque não há mais nada, reitero. Você não passa de uma carcaça arremessada para a morte, isto é, para o vazio. Acostume-se com essa ideia e tente aproveitar a viagem, se possível.

 

DA – Lugares como Silvânia e Goiânia integram de modo recorrente seus escritos. Estas referências refletem em você alguma sensação de pertencimento?

ANDRÉ DE LEONES – Não, pelo contrário. Só me senti em casa em dois lugares até hoje, e um deles foi Jerusalém. Silvânia e Brasília (onde residi por três anos e que adoro) são recorrentes, não Goiânia. Nasci em Goiânia, mas só passei temporadas relativamente curtas e em momentos muito distintos da minha vida na cidade, de tal forma que não a conheço bem. Mas, respondendo à pergunta, Silvânia aparece justamente como terra estrangeira, para não dizer alienígena, em meus escritos. Não há sensação de pertencimento. A angústia surda que move os personagens de “Hoje está um dia morto”, por exemplo, surge justamente de uma extrema sensação de desconforto para com aquele ambiente. Não por acaso, sempre descrevo a cidade como um lugar opressivo, desarvorador. Reitero: Silvânia é onipresente em meus escritos porque fui criado ali e também porque, como escritor, querendo ou não, sempre recorro aos lugares que me marcaram de alguma forma, boa ou ruim. A memória engendra a ficção, no meu caso – o que não significa que os meus livros sejam factualmente autobiográficos, acho bom ressaltar.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – Hoje você vive em São Paulo, metrópole que, por mais que pareça colossal e anacrônica, seduz por seus atrativos de toda a ordem. Esse cosmo paulista instaura um novo paradigma em sua escritura?

ANDRÉ DE LEONES – Creio que sim. Os lugares em que estou ou estive são muito importantes para a minha imaginação. Aliás, gostaria de retificar algo: além de Brasília e Jerusalém, também me sinto muito bem em São Paulo. Talvez por se tratar de uma cidade em boa parte constituída por imigrantes como eu e seja, em função disso, muitas cidades numa só (no que isso tem de melhor e pior), ela parece se moldar aos olhos de cada um, de tal maneira que há uma São Paulo, boa ou ruim, ou às vezes boa, às vezes ruim, suportável e/ou insuportável, para cada pessoa que vive nela, dependendo de onde e em que condições se vive. Essa justaposição tresloucada de olhares e vivências constitui, por um lado, a pluralidade tão associada à cidade, mas, por outro, como que isola os que nela habitam em bolhas que mal se comunicam. Somos como sistemas isolados, e é realmente muito fácil (para aludir ao título de meu livro mais paulistano até agora) desaparecer completamente por aqui e deixar de perceber o outro, o diferente, com um mínimo de atenção. Se a pessoa tem interesse e condições de aproveitar o que a cidade oferece, a movimentação cultural, a enorme variedade gastronômica, a colcha de retalhos que a constitui, viver aqui é muito bom. Mas, se a pessoa não tem, pode ser um inferno. O caos urbano e a multiplicidade de personagens que ele engendra são extremamente inspiradores para mim. Não trocaria São Paulo por nenhuma outra cidade brasileira.

 

DA – Seu processo de imersão na criação de um livro compreende algum rigor específico? Entre palavra e imagem, quem normalmente desponta como a centelha inicial?

ANDRÉ DE LEONES – Tenho um processo cheio de manias. A palavra está sempre na origem. O nome de um lugar, de um personagem, uma frase solta, o nome de uma canção. A partir disso, penso numa situação e procuro desenvolvê-la. Se preciso, pesquiso a respeito do lugar onde quero situar a história e outros detalhes que julgar importantes. Ouço música, bastante, porque me ajuda a encontrar o tom, o ritmo que quero imprimir num determinado texto. Pego um caderno e escrevo muito sobre a história que quero contar antes de começar a esboçar a história propriamente dita. As primeiras versões são sempre manuscritas. Depois, digito, imprimo, reviso, volto a digitar, imprimo, reviso, reviso, reescrevo. Escrever, para mim, é reescrever, nunca me canso de dizer isso. E não me canso porque ainda existe a ideia do artista “inspirado” escrevendo um texto assim, de primeira, graças a uma qualquer “febre criativa” ou coisa parecida. Claro, há dias em que o trabalho flui melhor e há dias em que simplesmente não flui. Mas é disso que se trata, sempre: trabalho.

 

DA – Está em curso algum novo projeto literário seu? 

ANDRÉ DE LEONES – Terminei de escrever ‘Terra de casas vazias’, meu novo romance (com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2013 pela Rocco), em julho passado. Foram mais de três anos de trabalho e, bem, eu estou cansado. No entanto, a cabeça nunca para de trabalhar e uma ideia me ocorreu há algumas semanas, para um novo romance. Ocorre que eu não quero nem posso me envolver em um novo projeto agora. Assim, o que estou fazendo é “cozinhar” essa ideia, de tal forma que ela não morra, pois me parece interessante, mas tampouco se imponha e me obrigue a colocar todas as minhas outras atividades em segundo plano, que é o que acontece quando inicio, de fato, a escrita de um novo livro. Como de hábito, tenho anotado algumas coisas que me ocorrem relativas a essa ideia em um caderno. Daqui a um ano, mais ou menos, depois que eu já tiver lançado e, por assim dizer, me livrado de ‘Terra de casas vazias’, voltarei a esse caderno e verei se há mesmo alguma coisa ali. Se houver, aí, sim, embarcarei noutra viagem.

 

DA – Jerusalém, pelo fascínio que exerce em você, figura como uma provável influência criativa?

ANDRÉ DE LEONES – Provável, não. A cidade já integra o meu universo criativo, tanto que parte de ‘Terra de casas vazias’ se passa em Israel e, sobretudo, em Jerusalém.

 

DA – Na literatura e, também, fora dela, o que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

ANDRÉ DE LEONES – Na literatura e fora dela, seja na pós-modernidade, seja quando for, antes ou depois, não endosso ideologismos de qualquer espécie, à direita ou à esquerda. A estupidez é ambidestra.

 

DA – Por tudo o que já viveu até aqui em sua trajetória com as palavras, o que o impele a continuar trilhando o pantanoso ofício de escritor? 

ANDRÉ DE LEONES – O que mais sei fazer? Muito simples: não tenho interesse por fazer mais nada.

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A perspectiva de vislumbrar o mundo suplantando quaisquer questões que reflitam distinções de gênero é um caminho válido para pensar uma obra literária. Mesmo se o tom das premissas apontar para uma escrita que pulsa de uma específica condição do ser, há, sim, significativo espaço para que a voz criativa pautada num determinado ponto de vista faça operar a convergência de sentimentos e outras tantas aferições da existência. Quando nos debruçamos sobre as escrituras de criadores como Marilia Arnaud, logo nos vem à mente a desnecessidade de levantarmos bandeiras de gênero. Muito pelo contrário, o olhar densamente feminino da autora desloca-se para uma noção de harmonização de percepções, tornando leitores cúmplices e atores de suas narrativas como se todos partilhassem o mesmo solo das esperas.

Com uma trajetória marcada pela verve contista, algo que inclui obras como A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Estado da Paraíba – 1994), Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – 1996) e O livro dos afetos (7Letras), Marilia acaba de edificar seu primeiro romance, Suíte de Silêncios (Editora Rocco), livro que demarca de modo bastante especial um percurso por paisagens intimistas embebidas em lembranças, projeções e mistérios. A narrativa, levada a cabo pela personagem Duína, revela-se arrebatadora e singular porque sabe atravessar com pungência alguns desertos que devassam a alma humana. Dentro da camada sensível da ótica feminina, pulsa intenso o jogo das ausências e hesitações, reforçando a ideia de que existir é saber-se fugidio e finito. No breve diálogo que agora segue, Marilia Arnaud fala desse momento especial em torno do seu primeiro romance, do olhar feminino na literatura e de outras questões integrantes de sua vivência no intricado universo das palavras.

 

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

 

DA – “Suíte de Silêncios” é uma verdadeira transversal de tempos, fazendo convergir presente e passado numa narrativa marcantemente intimista. Ali, a alma humana é devastada pela personificação tida em Duína, menina-mulher que suscita esperas e ausências. Na escolha desse caminho repleto do algo intangível instaura-se a via crucis de um criador?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida, a criação é um processo doloroso, na medida em que demanda a total entrega do artista. Sempre me pergunto por que escolhi essa paixão, o que busco nas palavras, na invenção, quando poderia simplesmente viver. Ao mesmo tempo, acho que não escolhi nada, que simplesmente fui tomada pela literatura, assim como fui arrebatada por Duína, por sua história de perdas e desamparo. Escrever é um processo, de certa forma, obsessivo, porque o autor acaba tão impregnado pelo personagem, por sua voz, que tem dificuldades com a realidade.

DA – No livro, chama atenção a densidade que povoa o olhar feminino sobre as coisas e sentimentos. De que forma tal condição se consolidou como uma escolha narrativa?

MARILIA ARNAUD – A literatura, assim como toda criação artística, é o espaço do imprevisível e da imprecisão. É preciso acreditar na voz narrativa e manter-se fiel a ela para trazer à tona o personagem (homem ou mulher) em sua inteireza. Somente uma narrativa densa e coesa, capaz de impactar o leitor, de fazê-lo refletir sobre as coisas do mundo, sobre a condição humana, pode assegurar que um romance não seja lido impunemente. Trabalhei mais de dois anos para isso, para trazer ao mundo a voz de uma mulher marcada por uma infância traumática, para revelar a inadequação e o sentimento de insuficiência de uma irrevelável Duína. Não sei se consegui (os leitores que o digam).

DA – Guardadas as devidas diferenças contextuais, Duína aproxima-se da Macabéa de Clarice Lispector quando a perspectiva é olhar o mundo sob o manto da delicadeza. Ambas têm uma expressão que suplanta qualquer conclusão apressada de ingenuidade. Como é que você percebe tal associação?

MARILIA ARNAUD – Duína e Macabéa são personagens talhadas por faltas. Na infância, faltaram-lhes os pais. Na idade adulta, afetos, alegrias, talentos. O isolamento, a culpa, a saudade, a aparente passividade e o sentimento de fracasso também as aproximam. Em ambas, a vida dói com força, no corpo (Macabéa sofre de tuberculose e de um dente cariado – a dor da polpa exposta é uma das piores – Duína, de um câncer que lhe rói as entranhas) e na alma (inadequação ao mundo e consciência da rasura da própria existência).

DA – Apesar do aparente espaço conquistado pelas mulheres em plena pós-modernidade, conceber a condição de Duína em nosso mundo é, sobremaneira, refletir sobre um contraste entre certa liberdade do corpo, tão apregoada hoje, e as amarras que nos são mais caras, as do pensamento. Acredita que reside aí o principal conflito que atravessa o universo feminino?

MARILIA ARNAUD – Eu diria que houve uma conquista efetiva, mas não, plena. A mulher pós-moderna trabalha (muitas são chefes de família), estuda, exerce seus papéis sociais, traça os próprios caminhos, e especialmente a mulher de classe média investe na carreira e luta bravamente pela independência financeira. Porém, é uma mulher dividida. No plano da subjetividade, ainda há muito a ser conquistado. Ao fazer escolhas que fogem do padrão enraizado, do modelo maternidade/família, ela se enche de culpa e angústia. É compreensível. Durante séculos, viu-se impedida de afirmar a própria existência, de expressar sua identidade através do corpo e da palavra. Nessa busca por um equilíbrio, a mulher segue se construindo, construindo sua identidade.

DA – A seu ver, quando o assunto é o olhar sobre as densidades humanas, qual a diferença marcante entre homens e mulheres? Padecemos muito com os determinismos?

MARILIA ARNAUD – A diferença marcante talvez seja a maneira de um e outro estar no mundo, os papéis sociais que lhes foram atribuídos ao longo da história, o determinismo sexual que durante séculos apontou o homem como um ser de poder e a mulher como um objeto de reprodução. Em sua essência, o homem e a mulher são universos complexos, sobre os quais o ficcionista deve se debruçar com o mesmo olhar de espanto, porque é do espanto que brota a criação literária.

DA – Depois de construir uma trajetória devotada ao conto, você edifica, com vigor e propriedade, seu primeiro romance. Quais percursos foram fundamentais para essa, digamos assim, mudança de rumos?

MARILIA ARNAUD – Entre meu primeiro livro (contos/crônicas – produção independente) e o recente Suíte de silêncios, primeiro romance, caminhei bastante. Nesse meio tempo, mais de vinte anos, participei de algumas coletâneas e publiquei três livros de contos, dois deles (A menina de Cipango e Os campos noturnos do coração), através de concursos públicos. Foi O livro dos afetos, editado pela 7letras, em 2005, que me levou a pensar na possibilidade de escrever um romance. Explico. Luiz Ruffato apresentou minha prosa a Luciana Villas Boas que, à época, era editora na Record, e ela, muito gentilmente, escreveu-me dizendo que, embora tivesse gostado dos meus contos, não pretendia editá-los, tão somente pelo fato de serem contos, gênero pouco comercial, e sugeriu-me que eu escrevesse um romance. Então, a motivação inicial para a construção do Suíte de silêncios foi o conselho da Luciana, que tomei como um desafio. Comecei tateando, às escuras, sem nenhuma certeza de que teria fôlego para ir adiante. Em algum momento, encontrei o tom, e a história começou a fluir. Algumas pessoas têm me perguntado se o romance é de fato o gênero mais braçal, e eu lhes digo que as dificuldades na construção do Suíte de silêncios não me pareceram maiores do que aquelas com que me deparei na elaboração de alguns contos; creio que são de uma outra ordem.

DA – Somos crias de um deus menor, o mercado, quando, presos a ele, submetemo-nos à imposição de modelos. Consegue vislumbrar por qual razão um livro de contos, por exemplo, seja algo pouco comercial? Esse tipo de constatação não lhe soa incômoda?

MARILIA ARNAUD – Não compreendo a lógica comercial das editoras. Há um desprezo declarado pelo conto, como se tratasse de um gênero menor. Antes do Suíte de silêncios, ouvi inúmeras vezes a mesma pergunta, quando finalmente eu escreveria um romance. Leitores, amigos, familiares. Nessa cobrança equivocada, eu enxergava uma dúvida quanto ao meu valor como escritora, como se somente com a publicação de um romance eu pudesse confirmá-lo. Como já falei, encarei a negativa da editora como um desafio, mas eu já vinha percebendo que meus contos estavam cada vez mais longos. A experiência de escrever um romance não me desagradou. Pelo contrário. Tanto, que já tem um outro tomando forma dentro de mim.

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

DA – Acredita que estamos vivendo um tempo no qual as escrituras e seus criadores andam um tanto exasperados por reconhecimento ou afirmação? Não seria melhor lermos mais do que escrevermos?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida. Hoje se tem uma superexposição do autor. Se ele não aparece, não circula, não frequenta festas e feiras literárias, não dá palestras, não fala sobre a própria obra, seus livros simplesmente passam despercebidos. O “escritor espetáculo” não tem mais tempo para escrever; ele viaja o tempo inteiro, correndo de lá para cá, num frenesi e, muito provavelmente, numa ansiedade terrível. Peno demais quando sou convidada para algum desses eventos. Sou tímida. Gosto de ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo. Falar em público me constrange. E me pergunto qual o sentido de se falar sobre o que se escreve se o livro existe para ser lido? Não estaria o autor usurpando o espaço do livro?

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARILIA ARNAUD – A superficialidade das relações, a falta de interesse real pelo outro, isso é o que há de pior. Na literatura, os experimentalismos presunçosos, o barateamento da linguagem, narrativas sem a mínima elaboração, palavras vazias, textos ocos.

DA – Aos poucos, você prepara um novo romance. Depois de percorrer algumas veredas da palavra, tem a sensação de estar mais próxima de uma maturidade criativa?

MARILIA ARNAUD – Não tenho dúvida de que cresci nesses anos todos de escritura. Meu texto tornou-se mais denso, meus personagens, mais complexos, a linguagem, mais elaborada. Já falei, aqui mesmo ou em outra oportunidade, que esse é um processo natural quando se investe na carreira literária, quando o escritor se determina nesse sentido. Desde muito cedo, decidi que queria escrever. E escrever bem. Minha intenção é fazer isso de forma cada vez melhor. Não tome essa afirmação como arrogância. Reconheço minhas limitações. Sou uma eterna aprendiz, na vida e na criação literária. Tenho dó do escritor que se acomoda com a fama, com prêmios, com o reconhecimento dos leitores e da crítica, porque está morto e não sabe.

DA – O que busca a mulher Marilia Arnaud em sua teima com as palavras? 

MARILIA ARNAUD – Também já me fiz essa pergunta. Muitas vezes, para escrever, abro mão de grandes prazeres, como viajar, ir ao cinema ou ao bar/restaurante, estar ao lado de pessoas que amo. De certa forma, deixo de viver experiências reais para me embrenhar no universo da imaginação. Seria essa uma maneira de lidar melhor com esse sentimento, que é um misto de perplexidade e desolação diante do mundo, do absurdo da vida? De me livrar do desamparo existencial de que todos nós somos vítimas? Ou busco a emoção de ser tantos outros, sendo eu mesma? Não sei. Só sei que a palavra é a minha fé, minha verdade, minha beleza. É quando escrevo que me sinto mais próxima de mim mesma.

 

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

 

A SUÍTE DE SILÊNCIOS DE MARÍLIA ARNAUD

Por W. J. Solha

 

 

Deixo-lhe a melodia tecida nas cordas da minha carne, nos acordes da minha memória, na cadência do meu coração, a melodia-existência, labiríntica como o espírito, misteriosa como o tempo, definitiva como a morte. Último parágrafo do romance

Aquela que até agora era conhecida como brilhante contista, não começa o seu primeiro romance (Editora Rocco, Rio, 2012) com ganas de deslumbrar o leitor. Nada parecido com as quatro notas iniciais da Quinta de Beethoven; com a chamada da orquestra e as marteladas de piano que abrem o concerto número um, pra piano e orquestra, de Tchaikosky; com a clarineta virtuosística de Rhapsody in Blue; com a imponência da Abertura de O Guarani. Porque a violinista Duína – a personagem-narradora de Marília Arnaud – não nos quer levar a nada de grandioso, imponente, grandiloquente, arrebatador. Seu clima é o da Ária na Quarta Corda Sol, de Bach; do Adagietto da Quinta de Mahler; a do tristíssimo, lento – e maravilhoso – solo das peças para piano de Éric Satie, como Trois Gymnopédies e Trois Gnossiennes.

– A vida – ela escreve – é uma suíte de silêncios, a longinqua música de Deus.

O cuidado com que Marília Arnaud nos apresenta cada nota de sua Suíte, é o de um solista que fecha os olhos com força,  com doloroso gozo, pra obter os sustenidos mais difíceis e perfeitos do instrumento. Que instrumento, no caso?

Meu corpo, minha unidade. Meu corpo, minha vida. Meu corpo, eu.

É curioso o fascínio que o mundo das mulheres exerce, principalmente sobre os homens. Quando eu trabalhava no filme Era uma vez eu, Verônica – igualmente confessional – perguntei ao diretor e roteirista Marcelo Gomes, se ele iria dizer, depois, como Flaubert sobre sua Bovary, que “Veronique c´est moi”. E ele, rindo:

– Não, não…

Mas eu vi, passo a passo – no papel de pai da personagem – o esforço ingente da grande atriz, que é Hermila Guedes, pra chegar à perfeição de dar corpo à proposta do cineasta. Quem se esquece de Laura, Lara, Scarlett O´Hara, outras grandes personagens femininas do cinema? E de Aída, Carmem e La Traviata, na ópera? E das figuras femininas de Shakespeare, como Ofélia, Cordélia, Rosalinda, Desdêmona, Cleópatra, Julieta, Lady Macbeth? E acabo de ler os originais do excelente Palavras que Devoram Lágrimas, do paraibano Roberto Menezes, que será lançado em outubro, pelo estado, em que há um fluxo de memória de uma personagem louquíssima à la Molly Bloom, via Almodóvar; e leio a sólida resenha do também nosso  Rinaldo de Fernandes sobre Suíte de silêncios e me lembro de seu premiado Rita no Pomar, e não há como não citar  a Ana Karenina, de Tólstoi; a Capitu, de Machado; a Lolita, de Nabokov;  Anna Terra, de Érico Veríssimo; a Diadorim, do Guimarães Rosa; a Gabriela, Tieta e Dona Flor, de Jorge Amado, etc, etc, etc..

Mas

é notável como aumenta o interesse dos leitores quando encontram tais almas em livros diretamente de autoras.  Como Clarice Lispector, Françoise Sagan, Jane Austen, Virginia Woolf e assim por diante, simplesmente porque delas é que se espera mais… verdade.

Suíte de Silêncios é um romance extremamente feminino, extremamente bem escrito, extremamente triste e – sabe o que é dizer isso como elogio? – extremamente lento. Aborrecido? Nunca, never, jamás! E como ela conseguiu? Há uma cena incrível de equitação, no filme Mazeppa, de Bartabás, no qual ocorre uma demonstração de absoluto controle de um galope ao fazer a montaria – a cada movimento – quase não sair do lugar.  Assim, Marília Arnaud – no que tange ao tema de sexualidade de sua narrativa de 190 páginas, por exemplo – entrega-nos um primeiro toque íntimo, o de Victor em Duina, apenas na página 174, e – na seguinte -, a do prof. Ramon. Só na página 179  o grande amor da jovem, João Antonio, faz amor com ela pela primeira vez.  De novo a questão: Como ela consegue nos manter presos a seu depoimento? Como os cavaleiros de Bartabás: entregando-nos – perfeito em si mesmo – cada momento, cada etapa de sua evolução.

1) Foi quando passei a usar camisetas por baixo das blusas e vestidos, para disfarçar os seios de pitomba. Justamente nessa época começaram os constantes suores nas mãos, as espinhas purulentas no rosto, o odor repugnante nas axilas

2) Existiria algo mais bonito do que meu corpo, livre de qualquer reserva, à espera do seu?

3) A carne! (…) Porque tudo é carne, cavidades, secreções, odores, e é tanto, e tão intensamente, que chego a pensar em seu mistério como sendo tão grande ou maior do que o da Santíssima Trindade!

4) Eu o amei como só é possível amar em tempos de guerra, com a lucidez alucinada de quem sabe que aquela pode ser a última vez.

5) Guardar segredos. Sempre fui boa nisso.

Marília Arnaud faz um instigante jogo de espelhos em sua história. A Duína que narra, padece de uma dor insuportável desde que foi abandonada por João Antonio. E conta para ele (na verdade para nós) o que está sentindo e o que está rememorando, também: a angústia terrível – na sua infância – causada pela fuga da mãe com um amante, deixando o marido – e a filha – arrasados.

– Mamãe não voltou. (…) uma manhã como nunca houve outra igual! A primeira sem ela.

O desespero da rejeição que Duína sente e que também vê no pai a  desesperam:

Será que não existe nada mais indigno do que ser abandonado?

Quem viu Morangos Silvestres, de Bergman (Suíte – diga-se de passagem – também me lembra Bergman pela lentidão densa – é óbvio – e pelo  forte vínculo Eros e Tánatos: sexo e morte). Pois bem: quem viu Morangos Silvestres,  lembra-se do velho professor que, em meio a uma viagem de carro, para no lugar em que vivera muitíssimos anos antes, e se vê – a maneira bergmaniana de lhe mostrar a memória – em várias passagens decisivas de sua vida.

Observe a acuidade feminina destas observações de Duína sobre sua mãe, num detalhe dessa imensidão de um passado que não passa:

Um homem atravessou-se na minha infância (…) calçando sapatos brancos.

E ela anota:

– Parecia agitada, a todo instante arrumando o vestido do corpo, ou passando as mãos pelos cabelos. E que jeito de falar era aquele, em um tom frágil e cantado, que eu não conhecia?

É num momento desse que se conhece o romancista. E, mais precisamente: a romancista. E o efeito na própria garota é descrito por ela mesma, décadas mais tarde:

Nesse dia, tive a repentina compreensão de que  (…) em minha mãe existia algo indefinível, que transcendia a obviedade. (..) Essa descoberta foi o meu primeiro abismo.

Claro que o abandono da mãe a seu pai (e a ela) cala mais fundo quando a situação se repete com a partida de João Antonio, de volta para a esposa, deixando Duína, pela segunda vez, dolorosamente rejeitada. E essa última dor torna a primeira maior. Borges fala que Browning é kafkiano escrevendo muitos anos antes de Kafka, mas alerta que atentamos para isso – evidentemente – só depois que Kafka existiu.

Você se fora e eu me dava conta de que, enquanto vida houvesse, sempre se podia perder um pouco mais.

E ela realmente perde tudo: a mãe, Victor, João Antonio. A queridíssima vó Quela não morre, simplesmente: Deixou-me no meio de uma noite, sem despedida. E o maestro? Ao final da apresentação – ela conta do primeiro concerto de que participa – busquei, no momento dos aplausos, em meio aos olhos da plateia, os de meu pai, e o que enxerguei neles me deixou prostrada.

Duína, entretanto, não tem reações como a da personagem de Liv Ullman quando é humilhada pelo comentário da mãe – pianista famosa – à sua performance, no Sonata de Outono, de Bergman.

Toco razoavelmente bem – analisa – na medida da minha mediocridade, que hoje encaro com uma quase indiferença.

Mas a perda de João Antonio – apesar de aceita (Não o culpo por haver partido) – é definitiva.

Fora de mim, além do meu patético mundo de dor e autopiedade, não existia nada. Nada.

Mas Duína tem seu resgate num golpe de mestre de Marília Arnaud:

Agradava-me aquela sensação ambígua e inconfessável de entrega à dor.

Masoquismo? De Duína. Da romancista, orgasmo criador:

Me deixe ficar quieta em minha concha, você bem sabe como aprecio essas zonas sombrias, que me são quase uma carícia.

E foi na frase seguinte que ela descobriu que tinha um belo romance nas mãos:

– Só  a dor nos faz chegar à essência das coisas.

Marília Arnaud prefere selos a um outdoor. Música de câmera à orquestral, sinfônica, coros, trompas, trombetas. Prefere sussurros aos gritos. E, segura da qualidade do que produz, mantém-nos, passantes, no seu passo, compasso. Veja como ela descreve a capela da escola de sua infância:

É um mundo vagaroso, apartado do que zune lá fora, onde o ar é feito de um silêncio solene, que incha nos ouvidos, como se estivéssemos embaixo d´água.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)