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124ª Leva - 02/2018 Ciceroneando

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Foto: Tati Motta

 

Afinal, de que é feita uma nação? De um mero aglomerado de pessoas marcadas pelos laços comuns e historicamente institucionalizados pela ocupação de um mesmo território geopolítico? Ou seria pela reunião de interesses difusos pautados por uma exposição das diferenças? Num país de proporções continentais como o Brasil, talvez seja árdua tarefa vislumbrar tudo como se fosse o resultado direto de uma uniformização de pensamento. E de fato esta última, para nosso bem, não deve existir. Pensando a partir do viés cultural, por exemplo, somos levados a concordar que a pluralidade de expressões é quem dá as cartas. Basta notarmos a multiplicidade de manifestações que, alocadas em seus espaços regionais, exprimem a força individual e personalizada dos mais distintos grupos sociais. Há razões históricas para isso, bem sabemos, mas a valorização das tradições de cada povo pode também dialogar com as mudanças trazidas por eventos como a globalização. Há, evidentemente, críticas a processos como este, mas, por outro lado, é saudável pensar no modo como determinadas culturas podem expandir suas epifanias além das fronteiras demarcadas usualmente. O saldo é deveras positivo quando tomamos contato com a arte de pessoas e coletivos dos mais profundos rincões do país. E há uma sensação semelhante de permanente descoberta quando, através de um projeto como a Diversos Afins, podemos conhecer os mais variados atores que, com a verdade de sua arte, ofertam sempre algo de relevante para nossos olhares. A marca principal disso é justamente o reconhecimento da diferença, da capacidade que cada autor ou artista tem de revelar o potencial de suas singularidades. Partindo dessa premissa, o presente nos leva ao encontro de poetas como Flavio Caamaña, Isabela Rossi, Luiz Frazon, Flávia Péret e Verónica Aranda. É ponto de destaque dos nossos caminhos a entrevista feita por Elis Matos com a escritora JeisiEkê de Lundu, artista multifacetada que nos expõe a força e a beleza de seu pensamento. Vivian Pizzinga promove mergulhos pessoais na provocativa peça “Insetos”. No caderno de música, temos a estreia de Pérola Mathias num texto sobre o primeiro disco do grupo de hip hop pernambucano Arrete, inteiramente formado por mulheres. São de Daguito Rodrigues, Carla Kinzo e Fernando Rocha os contos que por aqui povoam os espaços em prosa. O “Exercício da Distração”, mais recente livro de poemas de Kátia Borges, é tema das leituras de Saulo Dourado.  Em seus percursos pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com olhares para o documentário francês “Visages, Villages”, que traz a parceria entre a cineasta Agnes Varda e o fotógrafo JR. Cada recanto desta nova edição é contemplado com uma exposição fotográfica da mineira Tati Motta, artista que enxerga no mundo detalhes que nos escapam teimosamente. Eis a nossa 124ª Leva. Boas leituras!

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123ª Leva - 01/2018 Ciceroneando

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Desenho: Raquel Piantino

 

Um novo ano começa a mostrar suas investidas. E para um projeto editorial como o da Diversos Afins é sempre tempo de vislumbrar caminhos, possibilidades de outros encontros movidos por palavras e imagens. A arte tem o condão de promover arranjos diferenciados, tirar as coisas de lugar, desacostumar o tempo. Com maestria, ela evoca um olhar atento ao viés inquieto da existência, quiçá uma busca pelo sentido da nossa própria vida. Se só usamos dez por cento de nossa cabeça animal, tal como apregoava Raul Seixas, podemos imaginar o quanto ainda permanece desconhecido em nós, sobretudo nos imensos labirintos componentes da mente humana. Então, o que pode a arte diante das zonas obscuras ou inexploradas? No mínimo, alguma espécie de sondagem. Mas pode também ser uma agente movida pela provocação, aquela que nos impele a buscar uma não conformidade das coisas. Daí que, em matéria de criação, as manifestações mais peculiares possíveis podem contribuir para aproximações na diferença. Se cada autor confere à sua obra uma voz própria, emanada de seus mergulhos íntimos, talvez possamos supor que as experiências, por mais assemelhadas que sejam entre si, nunca exprimem idênticos saberes e sabores. Em suma, a cada um de nós e dado sua própria travessia com toda a sorte de ambientes explorados. Em matéria de literatura, por exemplo, podemos imaginar como cada autor reage a seu tempo, ao mundo que o cerca. E é com a bagagem de sua individualidade que os poetas Natália Agra, Fábio Pessanha, Cibely Zenari, Analice Martins e Adrian’dos Delima desfilam por nós seus pungentes versos, prenhes de imagens, prenhes de vida. Revelando-se um protagonista de seu tempo, o escritor Itamar Vieira Junior é o entrevistado da vez. Numa resenha sobre o livro de estreia de César Manzolillo, Daniel Russell Ribas destaca perspectivas para o conto. Vivian Pizzinga menciona suas sensíveis impressões sobre o espetáculo teatral “Preto”. São de Paulo Bono, Danilo Brandão e Glauber da Rocha as narrativas que evidenciam vias desnudas da vida. É Daniela Galdino quem nos apresenta o disco de estreia do cantor e compositor Rafique Nasser, jovem revelação da nossa música popular. No caderno de cinema, o filme “The Square – A Arte da Discórdia” é alvo das análises de Guilherme Preger. Entre múltiplas incursões textuais, a nova edição traz a marcante presença dos desenhos da artista plástica Raquel Piantino. Com vocês, caros leitores, a 123ª Leva!

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122ª Leva - 07/2017 Ciceroneando

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Foto: Bárbara Bezina

 

Mesmo que de forma involuntária, cada ano que finda encerra consigo alguma espécie de ciclo. No caso específico de um projeto como o da Diversos Afins, tal transição de etapas se opera na compreensão de que algumas construções aqui feitas abrem espaço para outras mais. Desse modo, há o estímulo natural para que novas vozes tragam até nós o que de mais genuíno elas podem apresentar: suas identidades. São encontros proporcionados pela expressividade oriunda de palavras e imagens, verdadeiro coletivo sobre o qual criadores engendram a substância de seu pensamento. A ideia de reunir autores e artistas das mais distintas orientações e estilos acaba sempre por contemplar o propósito central da revista, que é o de mostrar a pluralidade de expressões. E assim vamos aprendendo a seguir adiante, pois é a experiência vivida a cada fase alcançada quem dá o tom e a medida do que precisamos ajustar e melhorar. Tanto no terreno da Literatura quanto das demais artes aqui veiculadas, as revelações acontecem de modo muitas vezes inusitado, dividindo as frentes de atuação entre aquilo que é pesquisado por nossa equipe e o que é resultado da adesão espontânea dos interessados em colaborar com a caminhada. Dá para sustentar com bastante firmeza que a revista é um trabalho de permanente construção, constatação esta que sempre nos lança um desejoso olhar para o futuro. 2017 finaliza seus ímpetos, mas deixa conosco o sabor da descoberta, condição que se projeta para as intenções do ano que virá logo em seguida. A Leva 122 traz em seu âmago o contato e consequente publicação de alguns autores que estreiam conosco. Quem povoa com a pungência de sua arte todos os recantos da nossa mais nova edição é a fotógrafa argentina Bárbara Bezina. Nos cadernos de prosa, desfilam as palavras de Anderson Henrique, Viviane de Santana e Marcelo Ariel. Tocando em temas tão caros à literatura contemporânea, o escritor Nivaldo Tenório concede uma entrevista a Sérgio Tavares. É Guilherme Preger, com sua precisa análise, quem nos convida a assistir o filme francês “A Trama”, mais novo trabalho do diretor Laurent Cantet. Na agulha de nosso Gramofone, giram as impressões sobre o segundo disco da banda OQuadro. Por aqui, também passam os versos de poetas como Teresa Coelho, Vladimir Queiroz, Rafaela Ferrari, Hilton Valeriano e Ana Freitas Reis. São de Vivian Pizzinga as valiosas reflexões em torno do espetáculo teatral canadense SIRI. Num verdadeiro convite à leitura, Geraldo Lima dedica atenções especiais para “O tapete voador”, livro de contos de Cristiane Sobral. Com o melhor que o presente pode nos proporcionar, eis uma nova jornada de expressões culturais, caros leitores! Sejam bem-vindos!

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121ª Leva - 06/2017 Ciceroneando

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Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Existem realmente fronteiras para a arte? Usando de mais exatidão, as expressões artísticas, com toda a sua carga de diversidade e linguagens múltiplas, podem se curvar ante a ditames que as impedem de mostrar-se ao mundo? Ao que parece, o controle do homem sobre o homem nunca deixou de ser exercido. Seja para aplacar as possibilidades libertárias encerradas pelas epifanias da mente ou do corpo, seja para desfilar todo um império de moralismos montados numa égide de hipocrisias, são abertas cada vez mais novas alas de intolerância e desrespeito. Numa instância mais aprofundada, negar a alguém o gozo de sua humanidade plena é também um ato de barbárie. Nesse ínterim, a censura à arte parece ser uma das formas mais cruéis de tentar aniquilar a voz de alguém. E podemos deslocar tal intento limitador aos mais variados campos de expressão, da literatura, passando pela música, até as artes visuais. Então, qual seriam os elementos argumentativos que classificariam uma determinada obra como sendo um atentado à pauta conservadora da sociedade? Melhor pensarmos num jogo de oposições, através do qual interesses obscuros e moralistas alimentam um nocivo status quo de garras imperiosas. A tais tipos não interessa que uma voz, por exemplo, periférica ouse falar ao mundo sobre a inteireza de sua verdade pessoal marcada pela caracterização de sua identidade. A arte jamais deixará de ser atravessada pelas marcas pessoais de quem a engendra, ainda mais quando se trata da construção identitária que se mostra ao mundo por intermédio das criações. Assim, discurso e linguagem se amalgamam dentro de uma ideia que aponta para a mais viva representação de uma individualidade. A ninguém é dado o direito de exterminá-la. Definitivamente, não há espaço para destruições identitárias num ambiente como a Diversos Afins. Que novas vozes venham a transitar suas faces por aqui. O caminho está aberto. A Leva 121 traz, a propósito, uma importante entrevista com a poeta e performer Daniela Galdino, artista que conduz com maestria a segunda edição do coletivo de poetas e fotógrafas “Profundanças”. Sobre este e outros temas afeitos à Performance e à Literatura, o diálogo germinou algumas preciosas reflexões. Por aqui, agora trilham as alamedas poéticas os versos de Eunice Boreal, Celso Yokomiso, Tassyla Queiroga, Lilian Sais e Helena de Andrade. A partir do espetáculo “Para que o céu não caia”, Marcus Groza descreve sua experiência com vigorosas manifestações da dança. São de Guilherme Preger as impressões sobre o filme cubano “Últimos dias em Havana”. As narrativas de Rita Santana, Anchieta Mendes e Vinícius Canhoto compõem nossos dedos de prosa de então. Thiago Mourão nos apresenta uma significativa prévia do novo disco da cantora Illy Gouvêa. São de Saulo Dourado os atentos mergulhos no livro de crônicas “#Parem de nos matar!”, de Cidinha da Silva. Para coroar todas as alamedas desta nova edição, expomos as pinturas da artista portuguesa Cláudia R. Sampaio. Com os caminhos cada vez mais abertos, eis uma nova Leva. Boas-vindas!

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120ª Leva - 05/2017 Ciceroneando

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Foto: Angelik Kasalia

 

Chegando a 120 edições, estamos certos de que os caminhos da revista atingem um patamar cada vez mais desafiador. As marés digitais têm representado um universo de transformações permanentes no sentido de apontarem novos rumos a serem empreendidos. Testemunhamos mudanças de cenários e comportamentos nos mais distintos momentos de nossa trajetória até aqui. A própria noção de uso dos suportes midiáticos eletrônicos encerra uma exigência bastante voltada para a questão da instantaneidade das experiências de leitura. E bem sabemos que este é um movimento que não vai cessar, pois há sempre um outro paradigma prestes a entrar em cena. Diante dessa constante alteração de rotas, autores e artistas são impelidos a fazer com que suas criações encontrem estratégias eficazes de comunicação com o seu público. A compressão tempo-espaço fomentada pelos trânsitos da internet trouxe, sem dúvida, uma perspectiva revolucionária em matéria de aproximações entre produtores de conteúdo e leitores. Nesse quesito, a literatura, por exemplo, tornou-se uma arte mais acessível, inclusive em relação a pessoas que não possuíam certa intimidade com ela. A perspectiva de compartilhamento das produções escritas, característica marcante dos tempos atuais, faz girar uma roda que antes talvez estivesse restrita apenas a determinados eleitos. Decerto, sempre partimos da compreensão de que há os naturais interessados pelos feitos literários e artísticos em geral, e que estes buscam voluntariamente aquilo que lhes interessa. Entretanto, podemos considerar que as ferramentas de divulgação trazidas no contexto contemporâneo acabam atingindo, mesmo que de modo desavisado, potenciais interessados em consumir conteúdos de tal monta. O resultado disso é um despertar de atenções que pode significar um incremento na via da recepção dos conteúdos. Ou seja, há mais gente tendente a ler e apreciar uma obra do que supõe a nossa vã convicção de outrora. O xis da questão talvez seja pensar quais seriam os mecanismos mais importantes para tornar as produções culturais algo verdadeiramente próximo das pessoas. Quiçá um dos propósitos de revistas digitais como a Diversos Afins seja o de encurtar distâncias, trazendo pra perto de seus projetos o olhar curioso e questionador de outro tipo de leitor.  O tempo dirá. O fato é que haverá por estas bandas sempre alguém pronto a estabelecer elos. É o caso de poetas como Lilian Aquino, Leandro Rodrigues, Dheyne de Souza, Jorge Elias Neto e Ana Pérola, os quais embutem em seus versos vozes que falam ao mundo. Trazendo à baila um olhar sobre a coletânea de poetas e fotógrafas “Profundanças 2”, Geraldo Lavigne de Lemos aponta as razões pelas quais a obra merece ser lida. São da fotógrafa grega Angelik Kasalia as imagens que percorrem os mais diferentes recantos da nossa nova Leva de epifanias. O poeta e editor baiano Jorge Augusto, ao nos conceder uma entrevista, revela o que pensa sobre o seu ofício e as paisagens literárias contemporâneas. São os contos de Itamar Vieira Junior, Alê Motta e Marcus Vinícius Rodrigues que mobilizam modos peculiares de conceber a vida. Em matéria de cinema, Guilherme Preger traz à tona as delicadas questões presentes no filme nacional “Fala comigo”. Vivian Pizzinga discorre sobre a montagem brasileira da peça argentina “Entonces Bailemos”. Num território que remonta a lembranças de um período especial da nossa música, Sérgio Tavares escreve sobre “Só se for a dois”, segundo disco solo do cantor e compositor Cazuza. Sempre com a disposição de ampliar horizontes, a Diversos Afins segue seu rumo. Seja bem-vindo (a), caro (a) leitor (a)!

 

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119ª Leva - 04/2017 Ciceroneando

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Arte: Samuel Luis Borges

 

Numa estrada que sempre aparenta ser um tanto imprevisível, manter os passos com estabilidade é algo a ser celebrado, principalmente quando o alvo são as vias movidas pela literatura e pela arte. Nesse trajeto notadamente dinâmico, entram em cena novos atores a cada investida editorial e que trazem consigo detalhes importantes de seus mundos, de seus universos particulares. A partir da soma de um número incontável de expressões, um projeto como o da Diversos Afins consegue perpetuar seu objetivo principal, qual seja o de servir como um recorte da produção literária e artística contemporânea. A revista chega a onze anos de publicações consciente de seus propósitos, pontuada pelo compartilhamento de vozes, verbos, imagens e sons de sujeitos a demarcarem suas identidades diante dos complexos cenários mundanos. Entendendo o meio como uma fluida e mesclada plataforma de possibilidades culturais, percebemos que os ímpetos autorais comungam cada vez mais de uma noção plural de sentidos. Ou seja, estar no mundo revela aos criadores que as alternativas de produção de suas obras não representam uma ideia assentada em bases unívocas e cristalizadas. Ao longo de mais de uma década de edições, pudemos testemunhar uma variedade substancial de obras que apontam para perspectivas estilísticas e estéticas diferenciadas. E aqui não estamos a falar de intentos vanguardistas, mas de formas singulares de propagação do pensamento através da arte. Assim, cada autor trouxe até nós as marcas valiosas de suas existências enquanto sujeitos que almejam alguma transformação quiçá pessoal ou coletiva. É imensurável falar aqui dos colaboradores que nos ajudaram a manter viva a chama da revista. Torna-se impossível quantificar ou traçar qualquer painel classificatório dos diferentes tipos de contribuição que fizeram com que todos os esforços de publicação surtissem efeitos reais. Some-se a isso a importância do papel dos leitores, os quais têm se firmado como incentivadores permanentes do projeto, muitas vezes sugerindo caminhos. Como a abertura para o novo sempre esteve em pauta entre nós, nada mais natural do que trazer à cena, desta que é a nossa leva de celebração, criadores que comungam dos nossos ideais. É, por exemplo, o caso dos poetas Helena Zelic, Morgana Adis, Hugo Lima, Luís Perdiz e Sara Síntique. Do mesmo modo, a presença marcante dos desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges oferece-nos vias especiais de revelação. Em mais uma valiosa colaboração, Guilherme Preger convida-nos a percorrer os delicados ambientes do filme palestino “Degradé”. Trazendo densos recortes de vida, temos em mãos os contos de Kátia Borges, Cesar Cardoso e Marcus Groza. Numa pequena sabatina concedida a Sérgio Tavares, o editor Eduardo Lacerda fala um pouco sobre sua trajetória na condução da Patuá, uma das mais importantes editoras independentes do Brasil.  Alex Simões apresenta-nos “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún. Quando o assunto é teatro, Vivian Pizzinga volta seus olhares para a peça alemã “The so-called outside means nothing to me”. Numa preciosa contribuição ao nosso caderno musical, Tiago Velasco estreia entre nós falando do novo disco da banda carioca Do Amor. E assim, queridos leitores e parceiros, surge a Leva de número 119! Nossos mais calorosos agradecimentos a todos aqueles que, sem exceção, estiveram conosco até aqui perfazendo mais um aniversário. Evoé!

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118ª Leva - 03/2017 Ciceroneando

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Foto: Kristiane Foltran

Há o mundo sempre a nos ofertar suas complexidades. E não nos interessa reivindicar verdades universalizadas, pois a cristalização de ideias pode representar a imobilização de um tempo, de toda uma era. O que chamamos por novidade é, sobretudo, fruto de uma transformação das coisas existentes, embora haja sempre modos distintos de se comunicar algo. Alguém já disse reiteradas vezes que não há nada novo sob o sol que nos aquece e alimenta. Rejeitemos, então, as fórmulas que declaram em uníssono a visão essencialista das coisas. Somos muito mais que isso. Fazemos parte de um intercruzamento de papéis que hoje já não encontra muitas razões para justificar a demarcação de fronteiras. Mesmo as individualidades, certamente virtuosas ferramentas da criação artística, não são capazes de rechaçar a perspectiva de sermos tomados numa concepção social orgânica. Mas estaríamos falando aqui de uma espécie de utopia quando mencionamos uma organicidade a guiar nossos impulsos de coesão social? Talvez. Quem sabe a capacidade que temos de transgredir e transcender em matéria de arte possa espelhar efetivas mudanças no campo das relações humanas cotidianas. Daí, qual seria o papel da cultura no que se refere a pensar o modelo de sociedade sobre o qual nos achamos imersos? Sempre a dúvida a se fazer senhora de alguma tentativa de resposta. Quando atuamos nas trincheiras artísticas, somos também um corpo efetivamente político na medida em que as expressões construídas delineiam atitudes pautadas na exposição das identidades. Cada sujeito criador sai de seus domínios, indo ao encontro de um outro que ressignifica sua obra. Assim, é perfeitamente possível crer no (res)surgimento de uma obra a partir dessa amálgama de sujeitos. Desse modo, a espiral da vida gira e tornamos a frequentar pontos permanentes de recomeço. Nessa roda viva de aparições humanas, testemunhamos as expressões que tomam os espaços de uma nova edição da Diversos Afins. Eis que temos por aqui agora a presença marcante das imagens da fotógrafa Kristiane Foltran, a qual instaura diferenciadas perspectivas de olhar o mundo em que estamos misteriosamente mergulhados. Há peculiares recortes da existência nos contos de André Timm, Nicolau Saião e André Mellagi. Contando com uma instigante análise sobre a delicada temática do filme brasileiro “Era o Hotel Cambridge”, Guilherme Preger envereda novos percursos críticos. Numa cuidadosa seleção, vemos passar ante nossos olhos os poemas de Ingrid Morandian, Nuno Rau, Sel, Iolanda Costa e Muna Ahmad. Na pequena sabatina, a escritora Claudia Nina dialoga com Sérgio Tavares sobre importantes aspectos do universo literário. Evidenciando a peça “Tom na Fazenda”, Vivian Pizzinga empreende suas minuciosas análises. “Mecânica Aplicada”, novo livro de poemas de Nuno Rau, é tema das precisas leituras de Roberto Dutra Jr. Ao girar em nosso gramofone, “Círculo”, mais recente disco do cantor e compositor Helton Moura, apresenta o renovado momento de um artista. E assim, caras leitoras e leitores, surge o novo palco de expressões da revista, nossa 118ª Leva. Sejam bem-vindos!

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117ª Leva - 02/2017 Ciceroneando

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Ilustração: Bianca Lana

 

À frente de um projeto editorial, como é o caso da Diversos Afins, não há nada que nos estimule mais do que a continuidade dos caminhos. E é realmente uma renovação que, por estar inserida numa condução marcantemente cotidiana, acaba por nortear sempre o desejo pela descoberta do novo. Quando falamos em novidade, pensamos muito mais numa noção de abarcar eventuais aproximações que se configuram de modo natural numa jornada como a nossa, e não numa busca forçosa pelo inusitado. De fato, o que a experiência tem nos revelado é que ideias e colaboradores surgem em nosso caminho como consequência de um fluxo autônomo de movimentações. Significa dizer que, para além das rotas que projetamos alcançar, marcadas essencialmente por intenções de busca e pesquisa, existe um fator que permanece imensurável: o interesse crescente de pessoas no que se refere a integrar nosso painel de diversidades. Nesses pouco mais de 10 anos de trajetória, a revista vem construindo um largo espaço de convivências, o qual é marcado fundamentalmente pela convergência de perspectivas criativas. Palavras e imagens pavimentam as vias editoriais trilhadas até aqui através dos diálogos, do entrecruzar de olhares e estilos. O resultado é um universo no qual trafegam identidades e representações as mais distintas possíveis. Nada é uniforme, pois sempre há uma voz que nos conclama a olhar para uma direção raramente pensada. Do mesmo modo, não precisamos fazer uso das vestes da vanguarda para justificar toda e qualquer investida que se pretenda realmente nova. Nunca é demais lembrar que tudo sempre esteve no mundo e que a construção de sentidos também pode passar pelo crivo da subjetividade. Então, quem seriam os sujeitos que por ora compartilham seus mundos conosco? A Leva 117 apresenta alguns valiosos nomes. Nas searas poéticas de agora, vemos Vinícius Mahier, Rita Santana, Nayara Fernandes, Diego Vinhas e Mariana Basílio desfilarem seus versos entre nós. Numa entrevista concedida a Floriano Martins, a fotógrafa e poeta Leila Ferraz divide conosco um pouco das suas impressões sobre suas experiências imagéticas. É através da cuidadosa análise de Vivian Pizzinga que tomamos ciência dos caminhos propostos pelo espetáculo teatral “Redemunho”, baseado na obra de Ronaldo Correia de Brito. Quando o assunto é prosa, os contos de Izabela Leal, Tatiana Faia e Matheus Arcaro ocupam um especial lugar no contexto de narrativas de vida. São de Bianca Lana os desenhos, pinturas e ilustrações que perpassam todos os recantos desta edição. No quesito cinema, Guilherme Preger traz à tona uma série de reflexões em torno de “A Garota Desconhecida”, novo filme dos irmãos Dardenne. Alexandra Vieira de Almeida aborda a importância de se ler o mais recente livro de ensaios de Igor Fagundes. “Canções para depois do ódio”, mais novo disco de Marcelo Yuka, é objeto das escutas de Fabrício Brandão. Com o estímulo permanente de seguir adiante, caro leitor, convidamos você a descortinar mais uma etapa de publicações.

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116ª Leva - 01/2017 Ciceroneando

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Foto: Antonio Paim

 

Nos primeiros movimentos de 2017, os caminhos insinuam possibilidades. Outros tons e cenários se delineiam diante da aproximação de novos criadores. A Revista Diversos Afins aprofunda o interesse por diálogos que representem perspectivas de construção crítica da arte. Tal predileção está associada ao fato de que há de se contemplar o mundo e suas faces através das vias artísticas, isso é inegável, mas deve-se levar em contar o caráter de enfrentamento da condição humana por um prisma também analítico e que seja capaz de promover alguns importantes questionamentos. Autores conferem uma especial dimensão à sua obra quando, ao deixarem de lado as armadilhas do discurso frágil e quiçá panfletário, deslocam suas vozes para um efetivo lugar de representação.  É quando o tempo da inconformidade e da inquietude deixa claras as suas marcas sem que esse processo aconteça de modo gratuito.  Há de se retirar da própria vida o subsídio daquilo que expõe e afirma as identidades de autores e artistas. Nada é em vão. Uma obra é construída notadamente pelas marcas que carregamos, pelo sopro que constantemente atravessa os instantes percorridos. Para entender um pouco tais mergulhos íntimos, individuais e agora aqui compartilhados, servem como referência os versos de Vanessa Dourado, Lucas Rolim, Taís Bravo, Casé Lontra Marques e Myriam de Carvalho. São vozes poéticas que nos convidam a desfrutar dimensões desafiadoras do espírito humano. No contexto da prosa, também os contos de Mariel Reis, Viviane de Santana Paulo e Caio Russo visitam paisagens nada usuais e tampouco confortáveis. Coube a Sérgio Tavares a preciosa tarefa de entrevistar a jornalista e escritora Paula Dip, profunda conhecedora da pessoa e obra de Caio Fernando Abreu. Na entrevista, Paula relembra importantes passagens da trajetória do autor gaúcho e sua relevância para a literatura brasileira. Noutro ponto da nossa edição, Helena Terra apresenta suas leituras para “Bífida e outros poemas”, primeiro livro de Alexandra Lopes da Cunha. Também na esteira dos convites à leitura, Jorge Augusto comenta a estreia de Robson Poeta Du Rap em livro. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger mostra um olhar agudo em torno da delicada temática presente no filme “Eu, Daniel Blake”. É W. J. Solha quem nos indica “Grãos de Esperança”, livro de haikais de Wilson Guerreiro. Por todos os cantos da 116ª Leva está a presença marcante das fotografias de Antonio Paim, cujo trabalho contempla um viés fortemente subjetivo. Com todas essas atuais expressões, abrimos mais um ano de publicações. Desejosos de continuidade, dedicamos essa nova edição a nossos leitores. Que sejam todos bem-vindos!

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115ª Leva - 09/2016 Ciceroneando

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Desenho: Re

 

Chegamos à última etapa de celebrações em torno dos 10 anos da revista. Com essa nova leva, vem também a constatação de que 2016 foi um ano repleto de realizações editoriais por parte da Diversos Afins. Apesar da conturbada fase política que acomete o Brasil, situação que contamina todos os demais segmentos por plantar no país um grave clima de desconfiança em torno do papel das instituições, é necessário continuar demarcando posições e trabalhando efetivamente em prol da cultura. Autores e editores das mais diferentes linhagens tornam essa continuidade dos caminhos possível na medida em que enxergam nas suas realizações um motivo de evocação da liberdade de expressão e pensamento. Poder criar e mostrar ao mundo suas produções faz de muitos criadores verdadeiros agentes da democracia, palavra tão questionada ultimamente em nossa continental nação. Todos somos seres políticos nalguma medida, e isso se confirma nas práticas cotidianas.  A grande questão que fica é saber se temos um compromisso consistente com a consolidação da democracia, indagando até que ponto ela não representa um conceito vazio ou mero elemento de retórica. Um artista não está desvinculado do seu tempo e dos fatos marcantes constituintes da sociedade em que vive. E se ele pode contribuir com seu ofício para compreender e modificar paradigmas, já é uma outra importante questão que se estabelece. Numa visão mais otimista, todos poderíamos ser componentes ativos de quaisquer tentativas de mudanças nos planos social, político e cultural. Saber como tal processo se daria demanda um outro nível de compreensão que não se esgota nessas breves linhas de um editorial. Prosseguimos aqui com o intuito de revelar aos leitores e apreciadores da literatura e da arte perspectivas de experimentar alternativas de criação. A Leva 115 vem marcada, por exemplo, pela forte carga visual e provocadora dos desenhos de Re, jovem artista plástica que apresenta ao mundo suas inquietudes. Novas veredas poéticas são instauradas através dos versos de João Gabriel Pontes, Hanna Halm, Weslley Almeida, Alexandra Lopes da Cunha e Leandro Jardim. São as linhas de Guilherme Preger que trazem à tona as reflexões presentes no documentário “Cinema Novo”, do diretor Eryk Rocha.  Numa conversa que mescla literatura e gastronomia, Sérgio Tavares entrevista o escritor e editor Alexandre Staut. “Quando me abriram portas”, livro de poemas de Renato Suttana, é cuidadosamente percorrido pelas leituras de Jorge Elias Neto. Há uma abundância de possibilidades narrativas encerradas nos contos de Helena Terra, Anderson Fonseca e Cristina Judar. Dentro de um valioso processo de inventividade artística, marcado pela cultura popular, “Duas Cidades”, novo disco do grupo BaianaSystem gira nas linhas de Fabrício Brandão. É Carla Carbatti quem promove delicadas incursões em “Vermelho Rupestre”, obra poética de Katyuscia Carvalho. Seguiremos firmes em 2017. Agradecemos a todos os nossos leitores e colaboradores por tornarem sempre especial a nossa jornada. Saudações!

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