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119ª Leva - 04/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Em entrevista concedida à Diversos Afins, em 2013, Eduardo Lacerda apontou dois desafios especiais para o crescimento da editora Patuá, que havia montado fazia apenas dois anos: publicar livros diferentes e únicos, que inovassem o caráter editorial de alguma forma; e conseguir gerar lucro com isso.

Passados três anos, a realidade financeira do selo não se distingue da de qualquer editora pequena e independente no Brasil, cujo editor, além de se preocupar com a qualidade artística da obra, “tem de embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros”.

Quanto ao primeiro desafio, no entanto, pode-se dizer que foi superado com louvor. Com mais de 500 títulos lançados, a Patuá é hoje referência no mercado editorial para os autores que procuram uma maneira de debutar na literatura. Mas o reconhecimento não depende apenas dos estreantes. A notoriedade trazida por prêmios e pela presença constante na lista de indicados atrai, cada vez mais, escritores renomados que encontram, na editora, um novo porto de lançamento para seus trabalhos.

Na entrevista a seguir, Eduardo Lacerda faz um balanço dos últimos seis anos à frente da Patuá, tocando em temas que constituem um cenário realista do mercado editorial brasileiro, refletido a partir da experiência de se comandar uma editora que segue com a postura de independente. Com lucidez e otimismo, o poeta que se tornou editor fala ainda sobre vitórias e frustrações, mercado literário, premiações, formato digital, leitor no Brasil e da razão de seguir acreditando no que faz.

“Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores”. Uma leitura recomendada para quem já está e para aqueles que pretendem ingressar nos caminhos sinuosos – e nem sempre recompensadores – do universo do livro.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Passados quatro anos do lançamento da antologia poética “Outro dia de folia”, sua carreira de escritor segue em pausa. É mais fácil ser editor que poeta?

EDUARDO LACERDA – Eu não tenho uma carreira como poeta, tenho um livro publicado, composto por poemas escritos em um momento da minha vida no qual escrever era importante. Hoje escrever não é mais importante, acho muito importante ler e, como minha profissão, acho importante o trabalho de editor, o qual eu exerço com paixão, a paixão que eu não tenho mais como poeta. Mas também não é fácil ser editor, hoje leio muito menos do que lia há dez anos. Cuidar de uma editora pequena e independente me exige a leitura, mas também embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros. A edição, como trabalho, vai além e fica aquém da leitura, para o bem ou para o mal. Mas acho que o mais difícil é ser leitor do que ser poeta, considerando que ser leitor exige isolamento, reflexão, convívio com os textos e muita recusa. Já muitos poetas (e mesmo eu, quando fui poeta e agora, como editor) buscam o que é público, o reconhecimento, a leitura do outro, a crítica do outro, a venda do livro, a participação no evento. Quando somos apenas leitores, nos bastamos a nós mesmos, mas um poeta e também um editor não se basta sozinho, precisa do outro, o outro é imprescindível na busca de si mesmo. Se eu pudesse, seria apenas leitor.

 

DA – Fundada em 2011, a Patuá carregou, durante um tempo, o rótulo de ser uma editora voltada para a poesia. Hoje, o catálogo é bem variado, inclusive com proporções igualitárias entre romances, antologias de contos e antologias poéticas. Essa realidade já fazia parte da ideia original, quando planejou o foco da editora, ou foi algo inevitável, que ganhou forma de acordo com os pedidos de leitura de originais que chegavam?

EDUARDO LACERDA – Um editor precisa ser apaixonado pelo que lê e precisa ser um bom leitor daquilo que pretende editar. Eu não sou um bom leitor de literatura infantil ou de literatura infantojuvenil, por isso não me arrisco muito a editá-la. Eu reconheço sua importância, mas acho que outros e outras profissionais farão uma edição muitíssimo melhor do que a minha. Sou um bom leitor apaixonado de poesia e, talvez, um leitor mediano, mas apaixonado, de prosa. É natural que a poesia tenha um espaço maior dentro da editora, minha formação anterior, como editor, foi editando fanzines, jornais e revistas literárias. Eu convivi, na última década, com centenas de poetas antes de efetivamente editar seus livros, de muitos já tinha editado poemas nesses jornais, revistas, zines, articulado eventos, saraus. É uma relação anterior que tenho com os poetas e com a poesia. Mas gosto muito de prosa, de contos e de romances, e é natural querer publicá-los também. Contudo, o número de poetas publicados ainda é muito maior.

 

DA – Outra característica da Patuá era de ser um porto para autores estreantes. Com o amadurecimento da editora, porém, escritores de renome, com títulos lançados pelos chamados grandes selos, começaram a ser publicados pela Patuá. Você percebeu isso como uma consequência da incapacidade das grandes editoras de manter esses autores ou como a procura destes por um selo pequeno, que oferece uma participação ativa nas etapas do processo de feitura do livro? Chegou a se preocupar quando esses contatos começaram a acontecer? O que procura um escritor consagrado ao entrar em contato contigo?

EDUARDO LACERDA – Ainda somos uma editora focada nos autores estreantes. Nesse primeiro semestre, publicamos dezenas de autores e autoras estreantes e, dos ditos consagrados, ou mais experientes, apenas o novo livro de poemas do Ronaldo Cagiano e o novo romance da Micheliny Verunschk, que apesar de muito reconhecida como poeta, teve seu primeiro – e muito premiado – romance publicado com a Patuá. Ano passado publiquei as antologias poéticas de dois autores que me formaram, mas não posso dizer que são consagrados, apesar de algum reconhecimento, que são o Sergio Cohn e o Fabio Weintraub, mas eles sempre foram publicados por editoras pequenas ou médias. Claro, temos muitos autores que publicaram seus primeiros livros com outras editoras pequenas ou de forma independente, muitos que já não são estreantes, mas que publicaram seu livro de estreia com a Patuá. Acho que um catálogo de 500 títulos, como o nosso, permite uma pluralidade de autores e autoras. Dependendo do recorte feito, a impressão pode ser uma ou outra.

 

DA – Nesses seis anos de existência, a Patuá acumula premiações expressivas, tais quais o Jabuti e o São Paulo de Literatura, além de ter autores da casa regularmente entre os finalistas. Qual é o efeito real de um prêmio para uma editora de pequeno porte/independente?

EDUARDO LACERDA – Em um primeiro momento, ganhar um prêmio aumenta o “prestígio” da editora, o que acaba atraindo muitos escritores querendo publicar conosco. Após o resultado positivo em algum prêmio, recebemos um número três vezes maior de originais. Também vendemos um número maior, mas não expressivo, de exemplares do livro premiado. Acho que prêmios são importantes, precisam existir, assim como os eventos literários, mas eles não definem a literatura. No caso da Patuá, minha felicidade em ganhar um prêmio é saber que rompemos uma lógica de que somente as grandes editoras ganham esses prêmios. Já ganhamos duas vezes o Prêmio São Paulo, duas vezes o terceiro lugar do Jabuti, de poesia e de contos, dois Prêmio Guavira (um prêmio menos conhecido, do Mato Grosso do Sul), tivemos muitos autores semifinalistas e um finalista do Oceanos/Portugal Telecom, tivemos já cinco autores finalistas do Jabuti e, em 2017, a Patuá tem dois livros finalistas do Prêmio Rio de Literatura.

 

DA – Hoje você já consegue selecionar o original que irá publicar? O que leva em conta nessa escolha? E de que forma lhe chateia a maneira de um autor se portar diante da editora, pelo fato de ser independente? Talvez algo que certamente este nunca fizesse, caso fosse recusado ou tivesse de negociar com um grande selo.

EDUARDO LACERDA – Eu sempre selecionei o original que publicamos. Não cobramos a edição, não ganho nada publicando algum livro sem acreditar nele, nem lucro monetário, nem um bom catálogo, posso até errar, mas erro por vontade própria, não porque o autor está pagando pela edição. Leio tudo o que publico, mas não posso dizer que consigo ler tudo o que recebemos para publicar, mesmo se me dedicasse apenas à leitura de originais, ainda assim o tempo necessário seria maior do que possível. Por isso (e por muitos outros motivos) acho bom que existam outras editoras trabalhando bons livros, não entendo uma outra editora como concorrente. Já sobre como os autores se portam, os autores e autoras são o que há de melhor e de pior no meu trabalho. Não teria conquistado nada sem a confiança de algumas pessoas, de alguns escritores e escritoras incríveis que me ajudam, apoiam, leem e compram nossos livros, que são muito generosos. Ao mesmo tempo é desgastante ter que responder algumas mensagens absurdas de madrugada, de pessoas que não confiam em nosso trabalho, que se estivessem em uma editora maior tratariam o editor de outra forma, mas eu, hoje em dia, ligo pouco para isso, para esses problemas. Em seis anos de trabalhos e mais de 500 títulos publicados, apenas três autores saíram com problemas da editora, brigados, alguns poucos outros tiveram problemas, mas que foram solucionados. Acho que a maior parte dos autores entende o que é e como funciona o trabalho de uma editora pequena e independente.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Patuá também oferece serviços editoriais para autores que optam por pagar por seus livros. Muito se discute sobre o papel do editor nesse tipo de situação; se o fato de o autor custear a tiragem não faria com que houvesse um olhar mais benevolente sobre os defeitos da obra. O que pensa sobre isso?

EDUARDO LACERDA – Do nosso catálogo de 500 títulos, posso afirmar que não chega a 10 o número de livros pagos pelos autores, talvez um pouco mais, mas provavelmente até menos. Todos os outros livros foram pagos por mim, por meio da venda de livros a leitores. E desses 10, apenas de um me arrependo, que posso admitir que publiquei por necessidade financeira e não por escolha minha e isso com consciência do autor. Um livro pago pela autora e do qual me orgulho é o nossa “Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O livro teve patrocínio da Petrobras, precisava de uma tiragem de 1500 exemplares e a autora tinha os recursos do prêmio para isso. O livro é excelente, de uma autora já reconhecida e que me enviou o original para leitura, original do qual gostei, era um livro que teria publicado gratuitamente (claro que com uma tiragem menor). Outros livros pagos pelos autores eu teria publicado gratuitamente, aliás, é o que faço quando pedem orçamento, leio e avalio, se aceito a publicação paga é somente se for por opção do autor. Dinheiro assim não me seduz, embora precise de dinheiro para manter o meu projeto. Pagar pela edição não é um problema, grandes e bons autores pagaram por suas edições. Ótimas editoras realizam esse trabalho com um critério e qualidade ainda maiores do que o meu. Não acho um mérito ou me vanglorio de não fazer muitos livros pagos, acho que é a minha opção de trabalho, que me traz alguns resultados positivos, como manter minha coerência editorial, que é até bem incoerente; e negativos, como deixar a editora quase sempre com problemas financeiros, não graves, mas também muitas vezes falta dinheiro para alguns projetos que gostaria de realizar.

 

DA – Seguindo nessa mesma linha de raciocínio, a proliferação das pequenas editoras proporcionou um aumento expressivo de novos autores no mercado. Muitos por meio dessa condição de pagar pela publicação de seus livros. Sendo assim, temos uma faixa etária cada vez mais baixa de escritores estreantes, muitos deles claramente despreparados para entregar uma obra de qualidade. Ao ter contato com alguns originais, você chega a conversar com esse tipo de autor, aconselha que espere um pouco, lapide a escrita, forme-se como leitor primeiro, antes de pensar em publicar o primeiro livro?

EDURADO LACERDA – Poucos escritores querem ouvir conselhos, muito menos os mais jovens. Com a facilidade de publicação, qualquer escritor encontrará uma forma de publicar seu livro de estreia (ou dezenas de livros por ano), seja por uma editora tradicional, seja por uma plataforma de autopublicação, seja pelo Wattpad, pela Amazon, por um blog, pelo Facebook. É uma opinião muito pessoal, muito, mas eu acredito que a literatura é um direito, é direito ler, é direito escrever. Se a facilidade gera banalização (e gera), também cria oportunidades de aumentarmos o número de escritores e de leitores, o que é ótimo. Não há como nos beneficiarmos de uma condição sem trazer junto vários de seus aspectos negativos. Agora, como filtrar esses aspectos negativos, isso é um ótimo desafio.

 

DA – O lançamento do primeiro livro, sobretudo quando o autor é jovem, é envolto por uma camada espessa de vislumbre sobre o que é o mercado e o meio literário. Muitas vezes, é difícil para um autor compreender que a carreira de um livro não depende do quanto ele ache que dará certo, que será um sucesso. Você lida com esse tipo de ingenuidade e, posteriormente, relatos de desapontamento? É papel do editor transmitir para o autor uma realidade que vai além daquela contida em seu livro?

EDUARDO LACERDA – Sim, lidamos com as decepções e frustrações de dezenas de escritores todos os dias. Não só com os autores mais jovens, mas também aqueles mais velhos, mais experientes. É comum receber ou publicar o livro de um autor mais velho, que já lançou livros nos anos 80 ou 90 e ver a decepção com as vendas, com a repercussão, diferentes da que tiveram há algumas décadas. Escuto muito desses autores “meu primeiro livro vendeu 300 exemplares na noite de lançamento, não vou vender menos do que isso”. Quando o livro não chega aos 50 exemplares vendidos, a decepção é enorme, alguns chegam a culpar a editora, que nunca trabalha de forma suficiente. Também os meios de divulgação são muito diferentes, alguns autores esperam ainda que o jornal irá noticiar o lançamento, mas sabemos que isso não ocorre mais. O lançamento de um livro, exceto para o autor e para a editora, não é mais um acontecimento social, que desperta interesse público (exceto em cidades menores, nessas cidades a dinâmica de um lançamento é muito interessante, os jornais locais noticiam, pessoas “importantes” da cidade muitas vezes comparecem). Podemos somar às decepções, além da recepção e das vendas, a inexistência de crítica literária (existem ainda alguns bons resenhistas, mas que não dão conta da leitura de milhares de lançamentos todos os anos) e os prêmios literários, poucos e que nem todos vão ganhar, mesmo com bons livros. Essa decepção ou frustração gera, em alguns autores e autoras, uma ansiedade, uma necessidade de lançar vários livros em um curto espaço de tempo, na expectativa de que o próximo livro alcance o sucesso que o anterior não encontrou. Assim um livro vai substituindo o outro sem que haja um tempo mínimo de trabalho. O editor deve explicar, mas também entender (muitos não entendem), que um livro é um trabalho a longo prazo. Um livro não pode morrer dentro do catálogo da editora e tem que continuar acontecendo, mesmo que os resultados venham bem devagar. É bem difícil, mas é possível.

 

DA – A Patuá trabalha com pequenas primeiras tiragens, entre 50 e 200 exemplares. Muitos desses livros acabam não alcançando leitores e, muito menos, os cadernos culturais e a chamada crítica especializada. Ter um livro publicado, assim, acaba sendo mais um capricho. Isso lhe angustia de alguma forma? E, diante de um cenário em que a literatura tem cada vez menos espaço nos jornais e nas revistas, como avalia a importância dos sites, blogues e demais plataformas digitais voltadas para a literatura?

EDUARDO LACERDA – Me angustia, mas não considero um capricho ter um livro publicado com uma baixa tiragem. A culpa não é do autor, da autora ou da editora, temos um problema gravíssimo de falta de leitores e descaso pela literatura. O escritor, a escritora, eles escrevem. A editora publica. Ambos trabalham para que o livro chegue ao leitor. Se o livro é bom, se o autor, se a autora, trabalham sua literatura e levam isso a sério, uma hora a literatura se sobrepõe ao que não é literatura. Mercado editorial não é literatura. O que eu faço, editar livros, não é literatura. Literatura é o que está escrito e que nós damos suporte, um bom suporte, que pode ajudar que a literatura chegue ao leitor, mas quem escreve é o escritor e lançar um livro para poucos leitores, embora seja triste, não é apenas um capricho. Os sites, blogs etc são muito importantes. Excelente literatura está sendo produzida e publicada diretamente nessas plataformas. Autores e autoras mais jovens, que ainda nem conhecemos, estão se formando, lendo, comentando, refletindo, a partir de literatura divulgada pela internet.

 

DA – Falando em digital, li uma entrevista sua, faz alguns anos, em que defendia apaixonadamente o livro físico. Ainda tem a mesma opinião sobre a relevância da obra em papel? Não há, num plano futuro, a intenção de lançar os livros da Patuá também em formato digital?

EDUARDO LACERDA – Eu ainda sou apaixonado pelo livro impresso, acho que nunca deixarei de ser, mas não sou contra ou avesso ao livro digital. Pelo contrário, acho incrível a possibilidade de termos milhões de livros acessíveis, o que pode ajudar a democratizar o acesso ao livro (pode, talvez ainda não esteja, porque formação de cultura e hábito de leitura não estão relacionados apenas com a disponibilidade de livros).  Futuramente também a Patuá terá livros digitais, mas ainda não é um plano. Editar um livro pode ir além da plataforma ou suporte escolhido para ele existir, se impresso ou se digital. Eu ainda me importo muito com a possibilidade do encontro que o livro impresso permite, a festa de lançamento, as leituras públicas (embora muitos poetas leiam hoje em dia em seus celulares), as trocas de livros, as feiras, o livro impresso permite ainda um encontro entre pessoas que eu gosto muito. É um romantismo meu, ao qual me permito. Talvez esse encontro exista no livro digital também, talvez um dia passe a existir para mim.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ao contrário de muitos editores, que preferem trabalhar nos bastidores, você é um editor ativo, que participa de eventos e está sempre divulgando seus autores. A Patuscada, um misto de livraria e bar, é possivelmente a melhor representação desse tipo de atitude, cuja intenção maior é congregar autores e leitores. Essa é também uma maneira de ter uma contrapartida às livrarias, de projetar os livros que não estão nas vitrines dos shoppings literários? E já houve a intenção de levar os livros da Patuá para essas prateleiras?

EDUARDO LACERDA – Eu adoro livrarias, não detesto a forma como elas trabalham com as editoras, é simples. Acho que o Brasil tem pouquíssimas livrarias e que precisamos incentivar e criar milhares de outras, através de leis que promovam a isenção de alguns impostos para as pequenas livrarias (não para as grandes) e de outras ações. Aliás, eu costumo dizer que mesmo São Paulo não tem livrarias, temos algumas megastores e algumas boas livrarias em regiões ricas da cidade, como a Paulista, Jardins, Pinheiros, Vila Madalena etc e em alguns shoppings, essas mais para livros de alta vendagem, os chamados best-sellers. Não estou fazendo um julgamento de qualidade, apenas apontando como e o que trabalham. Será raro, nessas livrarias de shopping, encontrarmos livros até de autores conhecidos, reconhecidos e consagrados, como, por exemplo, Clarice Lispector ou Mário de Andrade. Poesia, talvez, aquela utilizada no vestibular do momento ou a lançada pelo último BBB poeta ou pelo Gregório Duvivier (novamente, não é um julgamento de valor, mesmo porque gosto de alguma poesia dele). Mas se pensarmos nas regiões de classe média, nas mais pobres ou nas periferias da cidade de São Paulo, não temos mesmo livrarias. Precisamos discutir o modelo como trabalham as livrarias. É impossível pensar que uma empresa (a livraria) pega produtos (o livro) em consignação, com frete de ida e volta por conta dos fornecedores (o editor), pede 50% de desconto no preço final do livro, depois de efetivar a venda ainda pede mais 120 dias para pagamento, se o livro for danificado o exemplar é devolvido da mesma forma, com prejuízo à editora. Até pouco tempo atrás esse sistema ainda garantia que nossos livros seriam expostos nas livrarias, mas atualmente a situação é ainda mais absurda, porque a maior parte das livrarias apenas cadastram os livros em seus sites e só nos pedem o exemplar se for vendido. Cuidar de um bar e livraria é uma experiência incrível, ainda assim com suas (minhas) frustrações. Vendemos pouquíssimos livros, muitos escritores aparecem por lá para beber, mas nunca levaram um livro. Enfim, não vou ganhar no grito, meu trabalho continua e, se fosse fácil, muita gente estaria fazendo.

 

DA – Dando uma olhada nas listas dos mais vendidos, fica evidente a hegemonia dos grandes selos, sobretudos aqueles que trazem, em seus catálogos, traduções de best-sellers internacionais. Como fazer uma editora independente ganhar expressividade nesse cenário em que a literatura contemporânea brasileira, sobretudo a composta majoritariamente por autores desconhecidos, está longe de representar a preferência dos leitores?

EDUARDO LACERDA – Como disse, a literatura, o que é literatura, não se mede pelo número de leitores; a literatura existe, resiste e será sempre assim. Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores. Eu acredito nisso ou já teria abandonado a edição independente.

 

DA – O brasileiro é um leitor ruim?

EDUARDO LACERDA – Não podemos culpar o indivíduo pelo sistema. O Brasil, como país, tem um projeto político de não formação de leitores. É um projeto mesmo, político, social, cultural e econômico de um não interesse para formação de leitores. Começa com o descaso com a educação, mas somente a educação não garante que teremos leitores, passamos também por diversos períodos de proibição da circulação de livros e literatura. Nossa história é uma história de descaso com o livro, com a literatura e com o leitor.  E não podemos chamar de leitor ruim quem não lê e quem lê aquilo que consideramos literatura ruim. Sim, acho que existe uma boa literatura, mas, como já disse, acredito que a leitura e a literatura são direitos, direito de ler, direito de escrever, direito de publicar. Experiências em saraus de periferia, por exemplo, que dão a palavra para a pessoa comum, de todas as profissões e de todas as cores, de todas as classes sociais, como chamar essas pessoas de leitores ruins? São leitores, talvez alguns ainda em formação, mas leitores. Estão se apaixonando pela literatura, pela poesia, estão escrevendo. O que poderá explodir e acontecer a partir disso até mesmo de boa literatura em nossa visão tão limitada do que pode ser boa literatura? Por outro lado, temos – eu tenho, eu pelo menos quero ter – o dever de ajudar a mudar esse país, de pensar um país que ame sua literatura, que ame o livro, seja ele impresso ou digital, que ame seus escritores, que ame seus leitores, sejam eles bons ou ruins.

 

DA – Olhando para o Eduardo Lacerda que, em 2013, criou a Patuá, consegue enxergar uma certa inocência na maneira como ele enxergava o mercado literário? E, passado esse tempo, qual a melhor coisa que ser dono de uma editora lhe proporcionou?

EDUARDO LACERDA – O Nelson Rodrigues que disse que sem paixão não dá nem pra chupar um picolé, também não se faz muita coisa sem inocência, nem mesmo amar é possível sem inocência. O grande desafio é continuar um pouco inocente e apaixonado. Eu descobri um caminho seguro nesse mercado literário e editorial, recebo os livros, leio, consigo, de alguma maneira, escolher alguns bons títulos, envio para um grande artista fazer a concepção de capa e projeto gráfico, mando pra gráfica, faço o lançamento, envio para jornalistas e críticos, vendo um pouco, pago os custos, faço o próximo livro, eventualmente ganhamos algum prêmio. Certo, não é só isso, isso é um resumo, mas é um caminho seguro. Como ser inocente e apaixonado e pensar que, sabendo disso, de algo que já dá bons resultados, posso pensar em algo diferente, que me contradiga, que me oponha ao meu trabalho e me renove? A melhor coisa de ser dono de uma editora é fazer os amigos que eu faço. Escritores e escritoras, sim, mas também pessoas admiráveis. Não sei se meu trabalho pode mudar o mercado editorial ou literário, não sei se estamos fazendo alguma história. Mas eu sei que estou fazendo a história da minha vida e de alguns/algumas escritores e escritores. E fazer sua própria história, de forma apaixonada, já me parece bem importante.

 

DA – Vale a pena trabalhar com livro no Brasil?

EDUARDO LACERDA – Vale, vale muito! Acho que se tivesse seguido uma carreira de professor, que é a minha formação, se tivesse terminado a graduação, feito um mestrado, um doutorado, talvez eu tivesse uma estabilidade financeira um pouco maior. Mas nunca teria me divertido tanto, feito tantos amigos, lido tantos ótimos livros.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff.  A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

As opiniões se dividem quando o assunto é delimitar as implicações da poesia. Se para alguns o gênero representa uma vasta possibilidade de experimentos e usos da linguagem, outros defendem uma perspectiva que opera no sentido duma transformação do olhar. Especificidades à parte, o fato é que, ainda assim, parece haver uma coexistência tácita entre esses dois modos de pensar o fazer poético. Ao passo que descortinamos leituras das mais diversas, percebemos autores a privilegiar, sobretudo, aspectos formais da criação, construindo uma obra que também congrega elementos dotados de subjetividade. Definitivamente, uma via não anula a outra.

Embora o ato de criar possa conferir uma condição especial a quem escreve, alavancando proezas e notoriedades, há quem renegue tal atributo não por um mero capricho, mas sim pela percepção de que estar no mundo e decodificá-lo de algum modo representa algo mais valioso. Nesse trajeto, imbricada está a noção mais pura de um exercício do olhar, e para gente como Eduardo Lacerda isso significa muito. Gaúcho por nascimento e residindo em São Paulo desde a infância, o moço rejeita ser chamado de poeta. Prefere, ao levar adiante sua feição de editor, ser visto como um alguém que faz nascer livros e autores. Em parceria com Aline Rocha, conduz a Editora Patuá, iniciativa que acaba de completar dois anos de existência e cujo lema confere aos livros um status de verdadeiros amuletos.

Mesmo se considerando um não-poeta, Eduardo ousa com palavras e versos. A prova disso é a reunião de poemas presente em sua cria de estreia, “Outro dia de folia” (Editora Patuá), obra que encerra imagens e tantos outros signos bem típicos de um ser/estar no mundo. Ao mesmo tempo em que apresenta deslocamentos em torno de temas caros à existência, o livro também sugere impulsos pela via da transgressão. Lê-lo é sentir-se um pouco menos confortável diante da parca quantidade de certezas que nos habitam. Assim, um ritual de provocações desfila por cada verso, desafiando os leitores a celebrarem epifanias que nem sempre soam como boas novas. Tendo como companhias inseparáveis o espanto e o estranhamento, Eduardo Lacerda compartilha conosco suas impressões sobre a vida e a literatura, perfazendo um diálogo movido por uma paixão notória: os livros.

 

 

Eduardo Lacerda / Foto: Stefanni Marion

 

DA – “Outro dia de folia”, sua obra de estreia, evoca, de modo especial, uma poesia de imagens, reminiscências e louvores dispersos numa travessia pela vida. Na construção desse caminho, o que lhe parece mais emblemático?

EDUARDO LACERDA – Você tem razão em afirmar que é e há uma poesia de imagens no meu livro ‘Outro dia de folia’. Tento construir em meus poemas aproximações com a prosa, criando cenas, espaços, personagens – embora não explícitos – falas sobrepostas, que podem simular outros planos de discurso e diálogos dentro do poema. A imagem é um dos recursos para a montagem desses pequenos contos em forma de poesia. Então, se há algo emblemático, é que o poema precisa acionar – criar uma ação – no momento da leitura. Precisa criar um impacto de uma história. Não busco exatamente, com estes poemas do livro, despertar sentimentos ou mesmo emoções sentimentais, mas inserir o leitor dentro de uma ação.

Em nem todos os poemas consegui isso de forma efetiva, mas acho que com a maior parte isso foi possível, até mesmo pela ligação temática entre eles, que é, principalmente, a imagem do deslocamento e melancolia do eu-lírico em relação a uma necessidade cada vez maior de felicidade, quase como uma obrigação de se comemorar, festejar.

Talvez dois versos possam ser emblemáticos para a definição desse deslocamento, o primeiro é o desfecho do poema “A Última Ceia”: “já não me encaixo / depois que aprendi / a olhar de lado / e sair por baixo”. O personagem do poema, uma criança, é colocado sentado à esquerda dos pais no meio da mesa, essa marcação espacial ‘à esquerda’ (uma referência bíblica alterada, que é a de Jesus sentado à direita de Deus) e ‘no meio’ já revelam um deslocamento, uma não adequação do personagem, que como um ‘prato que se enche’ vai procurar ‘lugar entre as pessoas’. O personagem não encontra esse lugar, ele não aceita esse lugar imposto, ele aprende a olhar de lado. O ‘sair por baixo’, que poderia remeter a uma inferioridade desse ‘pequeno’, como chamo o personagem, na verdade pode significar que é possível uma fuga. Que sair por baixo, quando estamos cercados por todos os lados, pode ser uma fuga.

O outro verso é do poema ‘Outro dia de folia’, que dá título ao livro (embora escrito após o título do livro já estar definido há muitos anos). Nesse poema eu questiono: “quanto há / de / penetra / no dono / de sua / própria / festa?”. É uma provocação. E é um deslocamento, mas é também, talvez, uma forma de transgredir nossas certezas de espaço no mundo.

DA – É interessante você pontuar essa noção de transgressão a serviço da poesia. Nesse sentido, percebe a existência como um misto de espanto e estranhamento?

EDUARDO LACERDA – O poeta Ferreira Gullar afirmou exatamente isso sobre sua poesia: “A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida”. Gosto disso, do espanto, do estranhamento, mas também da descoberta. Descobrir algo, conhecer e, principalmente, reconhecer são passos além do estranhamento. É entrar em contato com aquilo, mesmo sem um entendimento completo. Podemos estranhar algo a vida toda e aquilo não e nunca significar absolutamente nada, não é? Um estranhamento só terá valor se me revelar algo. Então é também uma revelação. Fazer um poema é também encher de significados o que queremos dizer. E será um bom poema aquele que conseguir criar outros espantos e novos significados a partir disso. Um bom poema precisa ter uma eternidade (e não infinidade) de interpretações, eu acho.

Mas acho que existem muitas interpretações para a minha percepção de existência. A minha existência, como pessoa, é uma coisa muito simples. Gosto de livros, amigos e cerveja. E é diferente da minha existência como poeta, da minha existência como editor de livros. Aliás, sempre afirmei que eu não sou um poeta. Eu não romantizo a figura do poeta. Eu não existo como poeta. Publicar foi uma consequência de mais de onze anos escrevendo alguns poemas que acabaram premiados para a publicação em livro. Publicar se tornou uma obrigação, acho.

Mas eu romantizo a minha importância de editor. Eu existo como editor. Talvez isso seja estranho e espantoso. Espero que seja. Mas não estou dando um sentido de uma importância para os outros, não sei se tem essa importância. É importante para mim. O que eu sinto com a edição é exatamente o que deve sentir um escritor. E que o Rilke definiu tão bem: “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ”Sou mesmo forçado a escrever?”. Eu só morreria se não pudesse mais, de alguma maneira, trabalhar com os livros.

DA – Ao declarar-se um não-poeta, você abre margem para algumas reflexões ligadas ao ofício, sobretudo se formos levar em conta a multiplicidade de escritos que eclodem cotidiana e freneticamente em nosso tempo. Guardadas as devidas proporções daquilo que pode ser considerado como de efetiva qualidade, acredita que a criação literária anda um tanto banalizada?

EDUARDO LACERDA – Entramos em um campo onde tenho feito muitas inimizades. E, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Tenho defendido, nos últimos anos, a ideia de que existem mais poetas do que leitores. Um paradoxo, no mínimo. Um absurdo, para dizer a verdade. Todo poeta deveria ser um leitor. Eles não são, infelizmente. Claro, não quero generalizar. Alguns ainda são leitores, mas é uma parte muito ínfima. Mas se realmente todo poeta fosse leitor de poesia, poesia venderia muito.

Então, sim, a criação literária está banalizada.

Gostaria de dizer, entretanto, que acredito que todos têm o direito de exercer a criação literária. A banalização da literatura não está no fato da popularização da escrita. Poesia não é para as elites, assim como não é para as massas. Ela é para todos. A poesia deve estar acessível para todas as pessoas. Algumas das manifestações mais interessantes de criação e divulgação literária estão ocorrendo nas periferias de São Paulo, por exemplo.

A banalização, a meu ver, é o descaso dos poetas com outros poetas, com outros livros, com outras linguagens, com tudo que está ao nosso redor.

Vou dar um exemplo simples: a Editora Patuá, da qual sou coeditor, recebe cerca de 100 originais por mês. Desse total, muitas vezes, nenhum desses autores sequer conhecem um livro da editora. Nunca se interessaram em comprar nenhum livro de nenhum autor, muito menos pedir um e-book de graça (os quais sempre oferecemos). Eu não entendo, então, como alguém pode se interessar por uma editora que não conhece. E talvez isso explique como tantos escritores pelo país são enganados por editoras sem nenhuma qualidade.

A necessidade de publicação se tornou maior que a necessidade de leitura e de diálogo com o outro. Todos só querem falar. E eu acho que é o momento de pararmos para também ouvir o outro.

Então, acho que essa se tornou a banalização da poesia, mas também é a banalização das relações em toda a sociedade. Mas esse é o discurso de um otimista, embora não pareça. O meu otimismo está nas minhas ações, em acreditar nos poetas. Em acreditar ainda na literatura, na poesia.

DA – Talvez uma das causas desse insulamento literário seja a tendência atual de laços de compadrio estabelecidos na internet, principalmente via blogs e sites pessoais. Muitos se visitam e se comentam mantendo uma seara de cordialidade que parece alimentar um círculo vicioso. Daí, essa, digamos assim, frágil aprovação, com seus controvertidos códigos de ética, oferecer um ambiente perigoso para a criação. Vivemos uma era de relativizações?

EDUARDO LACERDA – Sérgio Buarque de Holanda formulou a ideia do homem cordial. Acho que ela explica uma parte do que você chamou de ‘era de relativizações’. Na verdade, essa ‘cordialidade’ não é – sempre – essencialmente ruim. Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque, comenta / resume em um vídeo essa teoria: “Mas a ideia é a do homem cordial como o homem que reage conforme seu coração, né? Capaz pro bem e pro mal, capaz de grandes efusões amorosas, capaz de inimizades até violentas. E o brasileiro tem um pouco, acho que ainda tem, de levar tudo pra esse lado, de ser incapaz às vezes de seguir uma hierarquia, de obedecer uma disciplina muito rígida. A vontade que ele tem de travar contatos amistosos, criar intimidade, encurtar distâncias. Isso continua existindo, essa informalidade, avesso as formalidades, não gosta (…) o brasileiro criou essa informalidade natural. Isso continua existindo. Agora, como eu dizia, é pro bem e pro mal, dependendo da circunstância o brasileiro pode dar numa raça generosa, né? Ou num povo até triste e amargurado.


Como já afirmei anteriormente, minha tendência é para o otimismo. Acredito na literatura, acredito nos livros, acredito na poesia. As relativizações, as cordialidades, eu não poderei mudá-las dentro do sistema. O que podemos fazer é trabalhar seriamente e de forma honesta, com comprometimento. Eu busco muito isso de nossos parceiros – autores, por exemplo – comprometimento.

Evitamos, dentro da Patuá, quem queira estabelecer relações apenas cordiais, de amizade. Eu costumo dizer que não publicamos os amigos, embora todos os autores se tornem nossos amigos. A amizade é fundamental. Mas o texto, o texto é, para a publicação, mais importante. Nem sempre acertamos. É impossível, sem conhecer um autor, saber qual o comprometimento dele com o livro, com a literatura, com a editora. Mas acho que formamos, em menos de dois anos, um grupo de autores que ultrapassam a publicação do próprio livro. Isso é fantástico!

DA – A Editora Patuá completa agora dois anos de existência e vem, pelo que se pode observar, construindo um caminho cada vez mais sólido. O surgimento dela trouxe embutido algum desafio em especial? Vocês vislumbraram uma ruptura de padrões editoriais?

EDUARDO LACERDA – Após dois anos de trabalho, com quase 80 autores publicados e mais 100 títulos que queremos lançar apenas este ano, além de um prêmio de R$ 50.000,00 do Proac – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo – destinado à realização da Coleção Patuscada, que publicará 12 títulos de 12 poetas inéditos, sendo que os livros terão uma tiragem de 1500 exemplares, com 20% destinados à distribuição gratuita nas bibliotecas do estado, acredito que conseguimos romper com alguns padrões, tanto editoriais como de mercado editorial, agora os desafios são outros e muitos.

Mas existem dois desafios especiais nesse momento. O primeiro é editorial, queremos sempre apresentar livros diferentes e únicos. Então estamos sempre pensando em como inovar de alguma forma. Cada livro na Patuá tem um projeto gráfico especial, ilustrações exclusivas, formatos e acabamentos diferenciados (capa-dura em alguns títulos, por exemplo). Então, esse é um desafio prazeroso: como podemos fazer algo ainda melhor e surpreendente? Como fazer isso mantendo também os preços de nossos títulos abaixo dos praticados pelas outras editoras?

O segundo desafio é o da Patuá como empresa. Em dois anos conseguimos vencer uma série de dificuldades, mas a editora ainda não nos dá lucro. É claro que o lucro não é nosso objetivo principal, mas precisamos dele até para continuar o projeto. É bom ter autonomia financeira para investirmos em novos projetos, em coisas mais ambiciosas (editorialmente). Essencialmente esse desafio nem é financeiro, mas será bom ter mais livros sendo vendidos e distribuídos, isso também pode nos fortalecer editorialmente.

DA – Quando se fala em era digital versus a manutenção do livro impresso, muitos assumem um discurso apocalítico quanto a este último. Na sua visão de editor, de que modo podemos fomentar uma coexistência harmoniosa entre os dois suportes?

EDUARDO LACERDA – Há muitas formas de se entender essa questão, infelizmente muita gente ainda não entendeu nada.

O escritor Umberto Eco deu uma definição muito simples e certeira sobre o que é um livro “O livro é como a roda, depois que foi inventado, não há como melhorar”. E é isso. O livro digital é apenas um suporte (na verdade, o livro digital pede um suporte – os leitores eletrônicos -, enquanto o livro impresso é o próprio suporte do texto: são ambos, texto e suporte, uma única coisa).

Assim, o livro digital não veio substituir o livro impresso, que ainda é infinitamente superior, mas pode ser – nem sempre ele é – uma opção a mais para a leitura e acesso ao conhecimento. Não há nada, porém, no livro digital, que o torne mais atraente do que o livro impresso.

Pensando de forma prática, um bom livro também é um produto, mas é um produto na contramão da lógica capitalista. Um bom livro pode durar uma vida inteira – pode durar dezenas de vidas inteiras e passar vários séculos. Um livro não fica obsoleto. Um livro impresso pode ser emprestado e lido por várias pessoas (pode-se argumentar que o livro digital também permite o compartilhamento, mas não é verdade. Um livro digital comprado legalmente não pode ser revendido, emprestado, compartilhado. Podemos fazer isso apenas ‘pirateando’ o livro digital. O que é diferente, porém, em tudo que é independente no digital). Um livro pode ser revendido, pode ganhar valor, com o passar dos anos.

E pensando de forma subjetiva, um livro pode ter marcas das nossas vivências: impressões digitais, manchas, orelhas, riscos, anotações, dedicatórias. Ele pode nos trazer memórias. Ele pode ser autografado.

Fazer um livro impresso é também mais barato, acredite. O que é caro no livro impresso não é a impressão, mas o que há de humano no processo: revisão, edição, ilustrações, projeto gráfico. E isso deverá continuar no livro digital – deveria continuar, pelo menos. Não sei se vai. Sinto, muitas vezes, que poucas pessoas se importam com essas partes de um livro.

Os entusiastas do livro digital, em geral grandes corporações como a Amazon, querem que o livro entre na roda do jogo capitalista. Querem nos obrigar, com vários discursos estúpidos como o preço (que não é menor) ou como a praticidade (que não é maior), a comprarmos, a cada dois anos, um novo leitor eletrônico e a recomprar, centenas de vezes durante nossas vidas, os mesmos títulos que, de forma impressa, teríamos que comprar uma única vez. É isso o que acontece com a música, por exemplo, e que nunca aconteceu com o livro. Os suportes vão mudando e somos obrigados constantemente a renovar nossas coleções.

Existem outros argumentos ainda, mas recomendo para uma compreensão maior sobre o assunto o texto “O futuro do livro impresso e das editoras”, do professor e editor Plínio Martins Filho.

Agora, se entendermos o livro digital como maneira de disseminação independente do conhecimento, como forma de compartilhamento de informações, cultura, textos, literatura, então eu acho que ele vem para somar. A Diversos Afins, e centenas de novas revistas, por exemplo, são digitais. Tenho lido muitos livros digitais, mas a maneira como essas publicações são feitas vêm para renovar a antilógica capitalista do livro que mencionei. E isso é incrível.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

DA – Certa feita, o poeta Manoel de Barros afirmou que a gente escreve para se descobrir e, lembrando o dito de alguém, ressaltou que nossas maiores verdades são inventadas. O que acha disso? Escrever seria também um truque para o existir?

EDUARDO LACERDA – Gullar também diz que “a arte existe porque a vida não basta”. Mas discordo, para mim a vida só existe porque a própria vida não basta.

E, como já disse, escrevo muito pouco. Então não posso dizer que isto, que escrever, é o meu truque para existir. Realizar coisas é o meu truque para existir. Mas eu não estou dizendo que são coisas importantes, são importantes para mim. Eu gosto muito de falar com poesia, então isso de realizar coisas, de dizer que eu realizo para existir, posso expressar com esse poema do Leminski: “das coisas / que eu fiz a metro / todos saberão / quantos quilômetros / são / / aquelas / em centímetros / sentimentos mínimos / ímpetos infinitos / não?”. Acho que é isso. Eu tenho ímpetos infinitos, mas são tão importantes. E acredito que se há um truque para existir, ele está nisso. Mas está também, concordo, nas verdades inventadas. Toda realização é também uma verdade inventada. Gosto de pensar, qual Itamar, “Que tal o impossível?”. Mas o impossível pode ser mínimo, pode ser só meu. É isso.

DA – A poesia está a serviço de quê?

EDUARDO LACERDA – Vou citar o Leminski novamente: “A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê”. Mas estou citando para discordar um pouco, só um pouco. A poesia realmente não está a serviço – ela não é máquina – de nada e de ninguém, ela não existe sem os poetas, sem os leitores, e não existe mesmo sem os críticos. E todos estes estão a serviço de algo. Veja, estar a serviço não significa que estamos servis, que estamos escravos, que estamos qualquer coisa que nos desumanize na relação de um trabalho. Mas escrever, mas editar, mas criticar… mas ler, afinal, é um trabalho. É uma forma de transformar a realidade, de transformar as percepções.

Poesia serve para transformar a minha percepção. Ela serve, para mim, para transformar a realidade. Ela é útil.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

EDUARDO LACERDA – Vamos brincar com uma pergunta anterior? A pós-modernidade é uma verdade inventada. É apenas uma necessidade, e até muito carregada de romantismo, de se delinear percepções sobre a realidade histórica que vivemos, mas todas essas tentativas são bem falhas ainda. Essa construção, e essa percepção, da nossa condição atual, não estão bem claras. Não estão para mim. E o que eu não endosso no que chamam de pós-modernidade é o que eu não endossaria nos entendimentos de realidades anteriores: a exploração, a injustiça, a desumanização, a falta de perspectiva para que a nossa vida possa ser mais do que o trabalho e as obrigações. Isso eu não posso endossar.

 

 

***

 

 

CONDICIONADOR

Eduardo Lacerda

 

Agora

que meus cabelos

cresceram

(e parecem femininos)

tenho menos

medo

que pareça

desespero

minhas duas mãos cravadas

no centro

da

cabeça

:

agora que meus cabelos cresceram

(e constantemente cobrem meus olhos)

penso

que parece o tempo

o tempo todo

que estou negando

algo

(assim, quando os balanço

para o lado).

Mas também

que afirmo

(como se

cisco

para alimento)

quando

insisto

(reticente) em

ir com eles,

para trás e

para frente.

E

embora

agora que meus cabelos

cresceram

e esses gestos

(e minhas mãos ali no centro)

não

pareçam

desesperos

(muitos pensam até que parece um carinho).

Carinho, carinho, carinho, carinho

ninho:

de coceiras

 

 

 

 

 

Categorias
76ª Leva - 02/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Silvio Crisóstomo

O que dizer dos vestígios que deixamos em vida? Na profusão dos seres, cada acesso percorrido sugere um arremesso. A medida inexata das profundidades flerta constantemente com os mergulhos a que nos propomos. Assim, vamos tentando alguma pista sobre nós mesmos, quiçá um entendimento sobre o que reter da jornada errante. O expelir das palavras pode nos auxiliar nesse exercício de transitar pelos lugares todos. Talvez a capacidade de abstração seja a possível cura para alguns cruciais desfoques do olhar. Enquanto somos impelidos à busca, a leitura dos sinais aparece multifacetada em toda a sorte de trajetos. Ao mesmo tempo em que viver é se deparar com as manifestações ululantes daquilo que temos em conta como sendo o real, o emaranhado de nossa subjetividade enreda laços para o fugidio descompasso dos instantes. Então, nos é dado o abrigo do sonho, não como um refúgio premeditado, mas como vias de reinvenção da existência. Daí, encontrar artesãos da palavra que sabem o gosto que tal missão encerra. Na Leva que apresentamos agora, a entrevista com o escritor paraense Vicente Franz Cecim dá-nos um pouco da dimensão disso tudo. Tendo como cenário de sua obra a mítica Andara, Vicente descortina outras camadas dessa complexa e misteriosa experiência que é o estar-se vivo. Entre textos e seus múltiplos signos, somos levados pela exposição das fotografias de Silvio Crisóstomo, cujo trabalho confere um denso e especial olhar sobre a cidade de São Paulo. Os ventos poéticos de então sussurram marcantes sinais nas escrituras de Joelma Bittencourt, Heitor Brasileiro Filho, Eduardo Lacerda, Karinne Santiago, João Urubu e Sandrio Cândido. Enlaces do cotidiano, os quais nos marcam a ferro e fogo, estão presentes nos contos de Carla Diacov e Rodrigo Melo. Nesse terreno, ainda há espaço para a veia fabular do argentino Fernando Sorrentino. Num convite à leitura, a escritora Márcia Barbieri propõe um percurso pelo romance de estreia de Halley Margon. Larissa Mendes desfila impressões sobre o mais novo disco do cantor e compositor Otto. A produção americana Moonrise Kingdom é tema da resenha cinéfila de Bolívar Landi.  A 76ª Leva prenuncia seus novos mergulhos. Sejam bem-vindos, caros leitores!

 

Os Leveiros


 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Eduardo Lacerda

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Pomba-gira. ou do Apocalipse

Para Alessandra Cantero
Um pouco a dormir, um pouco a cochilar;
outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir.
(Provérbios 24:33)

Não me lembro bem

quando cruzei

as pernas

pela primeira

vez.

/Talvez os corpos

aprendam

com

os seus extremos:

É impossível

(pedindo)

cerrar os punhos

cruzando os dedos./

Sei que sempre, e
antes, já cruzava
os braços com
alguma

habilidade.

Cruzar.

O corpo é indeciso
com seus vários

defeitos.

O corpo, e seus
muitos medos

contraindo-
se sobre
-si

mesmo.

Este é o momento final

(apocalipse

do corpo)

a que chegamos

em pecado:

cruzar o amor

ao corpo

do ser

amado.

 

 

***

 

 

A Última Ceia

 

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi

a olhar de lado
e sair por baixo.

 

 

***

 

 

Desistência

 

Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se, em paralelos.

Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro

: o ódio

, encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre

ossos

que a vida é quem nos indaga:

– Ainda haverá sangue?

/ a tristeza

é que

na vida não se

pode,

como no jogo

o roque /

 

 

***

 

 

Por um Fio

Para Aline Rocha

 

Esta pálpebra revela,
quando se fecha, que se
ajoelha ao que deseja
e se curva ao que espera.

Ela não vê, está cega.

E ainda que esfregue
os olhos, ela mesma

não se enxerga.

ela esconde, de sua retina
que se arregala,

e brilha (como cortina
que uma festa encerra)

tudo aquilo

ao que se destina.

O seu destino.

(ela está presa, pele
cárcere que se repete

Sísifo.)

/ Carrega em sua cabeça
cada peça do que pede:

tímida como quem reza. /

Cruza os dedos, arranca os cílios.

Ela realizará à força

o que é pedido,

mas parece promessa

Chora?

É um cisco.

 

 

(Eduardo Lacerda, autor do livro de poemas “Outro dia de folia” (Editora Patuá), nasceu em Porto Alegre, mas vive em São Paulo, cidade que ama, desde os dois anos de idade. Cursou Letras na Universidade de São Paulo, mas não concluiu o curso. Como um legítimo geminiano, também não conseguiu concluir nada até hoje. Atualmente, é coeditor da Editora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas. Não se considera poeta. Sua paixão, editando, é fazer nascerem livros e poetas)