Categorias
137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Galvanda Galvão

 

“Muita fumaça na cabeça”: Claudio Parreira

 

3la

 

ela acendia todos os cigarros
adorava a memória dos dias
a pressa e as caixas
globos de fogo nas mãos, a corrosão

no burburinho do barco ouvia-se toda a família
a mãe o irmão da mãe o pai numa fotografia obscurecida
não se falava ali
ela insistia numa cantilena
não a conheço e a amo
inventava sinais pra abrir labirintos
vozes nos corredores
a indeterminação
a sombra
a repetição  –  fica
demoro-me numa obra aberta
espero o mar

 

 

 

***

 

 

 

se você me encontrar? atravessa-me

 

ela sob a muralha da China
instinto de liberdade diz
a companhia presente de solidão
mão pé um corpo nas manhãs
a noite não tem cor
grafava as linhas caídas do papel
abstraía vendaval com barbitúricos
a massa gritada no comercial atrás da porta
a raiz quadrada
o fazer
havia um nome no indeterminável
não ser ela resquício de existência
meudeus
triturava as correntes o sal
a barbárie no giro do relógio
quebrar a cabeça
soprar as minhocas

estamos e não estamos
num mundo voluntariamente sibilino
precisão de certeza

 

 

 

***

 

 

 

protocolo clinico e diretrizes terapêuticas
essas palavras ecoaram quando desenhava o risco
Michaux num alfabeto não nomeado
todas as letras escapavam
davam-nos sinuosas sombras
fechava os olhos
círculos birutas prolegômenos ou introdução
o feminino são dois
pedras adensavam a ventania
meu suor e medo estáticos
raízes em doses homeopáticas

um bárbaro pinta Beatriz vermelha
performance erótica de um anjo
contra uma identidade trágica a violência da serpente
rasgava a bula
não acentuava palavra

 

 

 

***

 

 

 

ela pensava as trilhas com K
no Egito o sol tem os braços peludos

nos mínimos detalhes
o pertencimento
a realidade no caos reverbera

perto desarranjava
a língua os objetos
fora de lugar
único e multiplicado
pele transparente
pulsa ante a força aquática
o que está junto se mistura

palavra-mão
o infinito
pergunta insistente

sem pressa continuar

o vão o silêncio a montanha
na pedra o deserto
superfície, abismo
memória instantânea
o corpo extraviado
o que fica da aparência
vigor destilado
cadente morte
…………………………………………. [outra

 

 

 

***

 

 

 

o peixe elétrico
saltava Sodoma
em verso Dionísio
havia de beber
uma precisa liberdade
cogitava montanha
era rio
singular obsceno
tocava estrelas
viragem
explodia num corpo seu outro
guelra sangue coadunado
na pedra penetrava
lusco fusco burburinho
memórias acendiam o presente com cara de homens
a rede a morte
estendia olhos e dentes
ele sabia voar guardava um desassossego

 

 

 

***

 

 

 

Ela n.2

 

as mitologias nas prateleiras
num não lugar, diz-se, virtual
ela observava catálogos
páginas abertas para uma expressão singular
uma repetição contínua
a obsessão e o jogo
amianto na cidade, sufoca e protege

pulmões, árvores condicionados
o destino não enxerga correspondência
uma cartomante entrega muiraquitã numa piscadela
lembro de Levi Strauss
as palavras dela são as primeiras apagadas
vício de linguagem, sobrevivência
esta carta deve ser enterrada
afirma
já nem sei quem fala
os funâmbulos em páginas
mensuraram questões pontuaram
voltava às prateleiras

não lembrava o nome do deus

 

 

 

***

 

 

 

eu era Ana
avesso Cesar
cigarros e bombas
pensei
imaginava estrelas
queria enxergar longe
tocar estações
galo e sol enredados
cartografar continentes
carregar questões
ruminar o vazio na barriga do rei
varar geleiras
adentrar a pele
colar a sombra
descabelada voar

 

Galvanda Galvão, videoartista, colagista, fotógrafa, professora e escritora do livro UMLANCEDEDENTES da Edições Do Escriba & uxi.cão, 2017, reedição, 2019 e AMENINAANOLIMOC da editora uxi. Cão, 2013. Sou pesquisadora do PPGARTES-UFPA em Cinema sob orientação do Prof. Dr. Orlando Maneschy.  Participo do Projeto plataforma Kaquiado do Preamar de Cultura e Arte da Fundação Cultural do Pará coordenado por Felipe Pamplona 2020.

 

 

Categorias
103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Geraldo Lima

 

Ilustração: Caroline Pires

 

MULHER NA CADEIRA DE VIME

 

O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.

Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.  Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.

Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.  Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.

Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.  Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.

 

 

 

***

 

 

 

DOIS

 

Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.

 

 

 

 ***

 

 

ELA

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).

Categorias
84ª Leva - 10/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lima

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Ela

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

 

***

 

Sinais

 

Douglas levantou cedo, ignorou o café da manhã e se pôs a esperar. Estava convicto: logo, logo aconteceria. Seria como estava profetizado. Assim como lera no livro sagrado. Tudo o que tinha a fazer era esperar. Crer e esperar.

Cerrou os olhos para que os ruídos mais inaudíveis pudessem penetrar-lhe os ouvidos. Era pela audição que toda a verdade lhe seria revelada. Acreditava que, anulando um dos sentidos, no caso a visão, aguçaria o outro.  Não lhe vinha à cabeça a necessidade de um tempo maior para que a ausência de um sentido fizesse o outro aflorar com uma eficácia quase divina.

Os sons que lhe chegavam da rua ou mesmo do interior da casa ou ainda do seu próprio corpo eram bastante comuns. Por mais que tentasse ouvir neles notas dissonantes, carregadas de sentidos místicos ou de sinais não revelados, nada, absolutamente nada, ultrapassava o banal e o cotidiano. A vida, para seu desespero, transcorria opaca e sem mistério.

***

 

 

Ombro

 

Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o “Ação! gravando!” de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de “perder o rumo”, “ficar sem norte”, “andar à deriva”, fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.

 

 

(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles “Baque” (contos, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista do Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

 

Categorias
83ª Leva - 09/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

José Pedro de Carvalho

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Ela

 

Uma porta se fecha quase que solenemente atrás da mulher, que se despede do cômodo como quem abandona um passado. Àquela altura, o quarto atrás do seu calcanhar escapara definitivamente de alcance. Do lado de fora, na rua, caía uma chuva, indômita, gris, que frutificava as propriedades sinistras do lusco-fusco. Num rompante, atravessou de uma calçada a outra se desviando dos carros congestionados e caminhou precipitada sob as marquises.

O café, atabalhoado de gente, parecia não se incomodar com a imagem da mulher revirando sua bolsa, arrancando lá de dentro um maço de cigarros amassado e molhado. Trêmula – de frio ou por consequência da decisão tomada há poucos instantes –, com a carranca pálida, manchada de maquiagem, mal sustentava o cigarro. A boca, miúda e fina – um traço, borrada da cor que deveria ser dona, tragava e lançava lufadas mortiças. Pediu e serviu-se de café com uísque. A luz, débil, que pendia sobre sua cabeça, estampava no cenho, mais acentuada, as expressões dolentes.

A noite rompeu imperiosa em sombras e néons. A calçada, molhada e suja, refletindo os faróis, era ferida com o pisar do salto trôpego, escarlate, envernizado. Os pedestres se esbarravam inevitavelmente. A mulher passava alheia a isso, heterogênea à massa. Sua dor não vestia seu corpo e ela cambaleava rua adiante. Seu trote, pasmódico, mole, não escondia – pelo contrário, alarmava a curva desenhada em seu dorso, arquejado, inflexível. Que mulher doente! Pensaria qualquer um se a notassem.

Uma mão se estende e prontamente pára o ônibus. Sobe. Parte saculejante o transporte carregando os conflitos e alegrias dos corpos de seus usuários. Para ela, o ônibus parece se arrastar. A criança, debruçada no banco da frente, exibe um sorriso que não pode ser para mais ninguém senão ela. O ônibus desce vertiginosamente a ladeira. Ela sente um gelo na barriga e chora.

 

 

 

***

 

 

Insônia

 

Havia apenas os sons das coisas não vivas a quebrar o silêncio da noite – a reverberação de um rugido mortífero em toda a casa. O banheiro tinha um vazamento que nunca cessava – tic, tic, tic, tic. O estômago da geladeira ronquejava de uma fome insaciável. O chiado de um rádio dessintonizado estava presentemente no ar, mesmo quando desligado. A TV, que projetava as realidades e as fantasias de toda a gente de todo o mundo, estalava-se – tac, tac, tac. O chão de madeira estalava – tac! O teto berrava como se fosse desabar, embora jamais o fizesse. O microondas apitava, continuadamente, contando as horas.

Um som inusitado sobressaltou-se da permanência eterna daquele rugido e chamou a atenção de Peter Harvey. Não era exatamente um miado, mas um ronronar sardônico. Harvey esbugalhou as insones órbitas de seus olhos ao máximo que pôde e escrutinou toda a grandeza de seu kitnet até que encontrou um gato, com o rabo em riste, a encará-lo. Um gato?, ele se questionou intrigado, ainda que seguro da impossibilidade da presença de tal animal em sua casa. Balançou a cabeça em desaprovação do seu próprio pensamento ou como se tentasse ofuscar a imagem do gato ronronante da sua mente. De fato, a imagem desapareceu, mas ainda rondava naquele apartamentozinho de um só vivente o ronrom do felino.

Bip, bip, bip… o microondas anunciava as horas ecoando uma onda de som eletrônico – passara-se mais uma hora e agora já eram três horas da antemanhã. Peter Harvey reacomodou-se no sofá-cama, endireitou a coluna na tentativa de evitar pensamentos que considerava tolos. Zap, zap, zap! Zapeava, meio que por mania de insone, meio que por angústia. Em cada canal havia algum tipo de referência felina, um som, uma imagem, uma citação. Sensatamente, Harvey chegou à conclusão de que estava cansado e que não mais enganaria o próprio sono. Desenrolou o sofá em cama e deitou-se.

Peter não conseguia dormir.

Indubitavelmente estava intrigado com o gato, mas a razão pela qual não dormia era a peleja diária para adormecer.

Luzes: desligadas. Sons das coisas não vivas: ligados. Ronrom: ainda lá. Peter Harvey: acordado. Peter brigava com o sono como se uma tempestade em formação estivesse em seu rumo, lutou contra seu cobertor até conseguir cobrir-se e proteger-se. Contorceu-se e rolou tanto em agonia na cama que esta rangeu – nhenc! Seus braços se abraçaram ao travesseiro dobrado como se este fosse uma rocha, uma âncora onde ele podia se agarrar. Peter estava acordado. Tic, tic, tic, tic – a torneira pingava ritmadamente. Tac, tac, tac, tac – o chão rangia. O microondas, insistentemente – bip! – anunciava mais uma hora que se passava. Um chilrear a estuprar o silêncio das coisas não vivas e o cômodo a se invadir pelos raios do dia que já se anuncia, e também pelas milhares de formas de sons das mais vibrantes coisas que vivem. Àquela altura, Peter, exaurido, deixou se vencer pelo cansaço e finalmente caiu nos braços de Morfeu. Já era um pouco mais das seis horas e ele tinha pela frente pouco mais de três horas de sono antes de banhar-se, tomar um café, fumar um cigarro e sair para o trabalho. Peter estava petrificado e tinha-se para a cama mais como um cadáver do que como alguém que descansa.

Trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim… tocava o alarme programado para as nove horas e quinze minutos de todos os dias, excetuando-se aos domingos. O alarme tocava – trim, trim, trim, trim – mas Peter não se movia.

O rugido que habita a casa com Peter está agora abafado pelos sons externos da manhã. Confortável, ele acorda, os matizes amarelo-alaranjados do dia atravessam os vidros da janela e se juntam ao aroma de café fresco que toma todo o apartamento. Ele se espreguiça sem abrir os olhos, os braços abertos, amplos em sua envergadura, estão prontos para receber um novo dia. Ele boceja e abre os olhos e lá está um gato escancarando o focinho e caminhando o preguiçoso e elegante caminhar dos gatos sobre todo o cobertor em direção ao seu colo.

Por um instante, Peter estatela-se em assombramento, o gato, mímico de seu assombro, imita-o em congelante comportamento. O gelo só é quebrado quando o gato espertamente resbuna e começa a roçar seu bigode nas mãos de Peter, que seguram o cobertor na tentativa de racionalizar a situação que se manifesta.

Amedrontrado, o homem – desacreditando no que vê – salta da cama num supetão. A pequena mesa de forma ovalada está posta para o café da manhã: pão recém-assado, bolo, muffin, biscoitos, ovos e bacon, manteiga, geleias, café fresco, chá e leite.

De um lado, está sentado o gato lendo o jornal; do outro, uma cadeira aguarda-o. Peter está emudecido.

– Bonjour, monsieur Harvey. Le petit déjeuner est servi, fala o gato num tom bem natural, asseyez vous.

Peter esbugalha os olhos o máximo que pode.

Quel chat stupide que je suis, pourquoi suis-je en train de parler en français avec vous?

Excusez-moi! Oh, novamente! Me desculpe. O que eu quis dizer foi: o café da manhã está servido, sente-se!

Je… je… je vous ai entendu, gagueja. Espere, je ne parle pas français.

Ah, agora você fala! Você é tão esparto, mon ami, o bichano dobra o jornal e se serve de uma xícara de chá.

Você vai ficar parado aí a manhã inteira? Le petit déjeuner est superbe!

Peter Harvey, desconfiadamente, aceita o convite, não por curiosidade, mas pela incapacidade de controlar sua atitude.

“Ma chambre a la forme d’une cage…” o gato começa a cantarolar uma canção em francês.

Peter paralisa-se na cadeira. Desesperadamente tenta gritar, mas de seu verbo só sai francês e então se cala.

Ele tenta se mover, mas seus braços estão amarrados à cadeira, seus olhos estão presos com fita adesiva e seus ouvidos parecem explodir por conta dos sons ensurdecedores do despertador.

Peter Harvey arregalou os olhos, mas não conseguiu se mover. Seu corpo desprovia-se da capacidade do movimento. Ele também não podia respirar e então se engasgou. Quando recuperou o fôlego, saltou da cama como para terminar algo que não poderia esperar e mergulhou num dia que tinha acabado de ser deflorado pelas possibilidades da noite.

 

 (José Pedro de Carvalho Neto nasceu no sertão baiano, mas sempre viveu em cidade portuária. É, com todos os clichês da expressão, cidadão do mundo. Publicitário, estudou escrita criativa na Austrália, onde teve contos, poemas e trechos de um livro que nunca se acabou publicados, além de freelancer de todas as coisas)