Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!
Habitava um ódio sem limites e um rancor de dar veneno ao ar, não havia quem lhe sensibilizasse além do desprezo, era de fel a saliva que expelia para manchar a calçada, na desova diária de seu cuspe. Aliás, tinha um prazer enorme ao imaginar alguma mulher, das que nunca lhe olharia a cara, pisar seu cuspe e levar a sentença de sua escarrada para a casa.
Trabalhava bem em frente a um irritante chafariz, uma grande farmácia e um lugar de servir café. Não gostava de lugar nenhum, gostava mesmo era do ponto de bicho, no beco, onde apostava na sorte de ter alguma sorte para poder se livrar de viver junto aos miseráveis.
Conhecia o ser humano de dentro para fora, de trás para frente, acreditava e assim gostava de dizer quando lhe censuravam os mais chocados pelos seus comentários. Não tinha nada que lhe convencesse da possibilidade de existir gente que prestasse. Chegava mais cedo ao trabalho só para poder ver o movimento de pedestres apressados e ir fazendo as histórias daquelas vidas sujas em sua cabeça. Os que passavam todos os dias eram vítimas de crueldades no julgamento, sem nenhum pudor ou trégua, fosse adulto ou uma simples criança choramingando. Todos eram, no fundo, no fundo, gentinha.
Em um dia inesperado, depois de já haver visto todo o tipo de gente ruim, apareceu o pior ser humano de que ele já teve notícias: Francisca Martins! Dona de um andar glorioso em sensualidade inocente, deixava claro o grande desprezo que ela tinha pelos outros, ao levar os quadris de uma lado a outro, como um pêndulo que faz hipnotizar quem para ele olhou por mais de uns segundos… Vestia-se de roupas humildes para disfarçar alguma coisa, com toda a certeza! Dizem que era solteira e que jamais fora envolvida em nenhum tipo de escândalo ou comportamento mais ousado, quando trabalhou no bairro vizinho. Mas ele, com sua habilidade incomparável para detectar porcaria, percebeu na primeira hora que se tratava de uma farsa! Decidiu que iria dedicar algumas de suas análises mais profundas a ela, a tal Chiquinha…
Ia juntando os fatos à medida que convivia na mesma atmosfera que a moça. Os porteiros dos outros prédios diziam que se tratava de uma moça bonita vinda do Norte e chegaram a demonstrar certa queda pelo sorriso brejeiro na fala arrastada da mulherzinha. Ele não! Manteve-se digno de seus princípios e castigava-a com a língua, sempre que havia oportunidade.
Trabalhava há 25 anos no mesmo edifício e jamais havia sido atingido por uma energia tão maléfica quanto a da moça. Propositalmente, ela adquirira o hábito de ser gentil com toda a população do quarteirão, as velhas beatas achavam que ela era abençoada, os homens a queriam proteger, as crianças sorriam frouxo ao seu toque. Se continuasse assim, em breve ela acabaria levando para a lama a rua inteira… Pensava ele.
Desde cedo ele decidira não se casar, era uma grande bobagem o casamento, jamais dormiria tranquilo ao lado de alguém que poderia queimar-lhe com água fervente ou cortar-lhe o sexo com uma tesoura. Ele sabia do que as mulheres eram capazes, ouvia com atenção a conversa das empregadinhas, sabia das mandingas e pragas que elas distribuíam quando contrariadas. Entretanto, inexplicavelmente, a cobra maldita, Francisca Martins, lhe perturbava o sono com aquele encantamento do maligno, aquele véu de bondade, aquela promessa de prazer, aquilo tudo que faz parte da caixa de truques do maldito, o sibilar da serpente com o qual devemos sempre nos preocupar quando lutamos contra as forças do mal.
Foi em um dia de feriado que ele resolveu dar cabo ao tormento. Acordou um pouco antes do relógio, mas esperou pelo despertador. Detestava quebrar rotina. Barbeou-se e reparou novas marcas pelo rosto. Gostava das rugas. Combinara com um amigo que, se alguém perguntasse, para todos os efeitos, estaria com ele durante aquela manhã.
Morava Francisca em uma espécie de pensão para moças, assim como fazem as prostitutas, obviamente. Não era muito difícil conseguir entrar pela porta da frente, principalmente para alguém com as habilidades de porteiro. Subiu as escadas estreitas e fedorentas do cortiço, deparou-se com uma senhora sem importância. Não tardou a achar a porta da devassa, havia nela uma foto de padre Cícero, uma clara afronta ao padroeiro. Bateu devagar e a moça abriu. Nos olhos de Francisca um evidente espanto por ver aquele homem ali, parado. Para ele, uma inexplicável inércia diante dos olhos da moça. De repente ela sorriu e foi como se o diabo cavasse um abismo em seu peito. A comoção que o gesto lhe causou transformou o dia em noite, a vida em morte, o sangue em gelo. Saiu correndo imensidão afora.
Não tornou a ser visto no trabalho, nem em casa, nem no beco do bicho. Dizem que virou uma espécie de profeta mendigo no centro da cidade, que canta salmos em uma língua estranha e alerta as pessoas sobre a doçura do demônio.
(Eleonora Marino Duarte mora no arquipélago dos Açores, em Portugal. Nasceu na cidade Serrana de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro. Aos 12 anos, mudou-se para a Ilha do Governador e no mesmo ano ingressou como atriz no mais antigo grupo de teatro em atividade da cidade do Rio de Janeiro, o G.A.T.I.G., fazendo parte da companhia por vinte anos. Formou-se em Alta Gastronomia pela UNIRIO. Em 2005, criou o pseudónimo Betina Moraes. Publica seu trabalho como escritora na Internet mantendo o Blog Versos & Ideias e mais outros sete de sua autoria. Participa do Blog coletivo Falsidade Ideológica)