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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Elizabeth Hazin

 

“A insustentável leveza da rosa”: Claudio Parreira

 

MORTE

 

Morte não é quando se morre apenas
quando os dias já não tornam
e a música cessa:

morte é sempre
ou de repente
é vez por outra

morre-se para tantas coisas
não só para a vida que escorre em fios
(por vezes entrelaçáveis)

também morre a palavra
se não diz o novo
se ao atingir a forma cristalizada
não a dissolve.

 

 

 

***

 

 

 

ENIGMA

 

O poema não chega à mão
quando se quer
movido pela fria
aragem do pensamento

mistura de nuvem e armadilha
tampouco nos salta do coração:
as palavras têm seu preço
e muitas vezes só nos resta
o sonho da noite anterior
fragmentado e mudo.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

Noites, a difícil travessia:
são manhãs escuras
compridas de silenciosas
e vazias. Vazias de tudo.
Sobretudo de sonhos
única possível alegria
em tempos de miséria.

De tanto não dormir
começo a discernir no escuro
o cinza das horas
matizes do tempo
e cavalgo a noite de pouca lua
adivinhando a cada instante
a manhã salvadora.

Acompanho no céu o percurso de Júpiter
ou dos resquícios da lua minguando sempre
e sei:
a de hoje não é a de ontem
e a de amanhã será menos
(uma ambulância rasga o espaço da rua).

Como não durmo, descubro:
as noites não são iguais
cada uma tem seu nome
e o traz no dorso
impresso
( por que não o leio?)
Do lado avesso do sono
resta-me apenas meu verso.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Fio de silêncio o meu amor
(só o silêncio é permitido)
e aturdida escuto o eco
do silêncio mesmo – ó castigo –
reabrindo sempre a ferida
– a mesma – em que ponho o meu dedo
ó sangue esse rio corrente
em que – de medo – afogo o medo
de excluir para sempre o silêncio
com que fio o amor e desfio
as cordas que batem no peito
essa canção afogada no rio.

 

 

 

***

 

 

 

EU E BORGES

 

A cada noite
repito o gesto
de abrir os olhos
………………no sono
e – pelo avesso –
olhar e ver
– por dentro da noite –
do outro lado
o descomeço.

 

 

 

***

 

 

 

URGÊNCIA

 

sempre escrevendo
alguma coisa mentalmente
sem coragem de mergulhar a cara no papel
e me perder no emaranhado de linhas
sempre
essa vaga necessidade de escrever
(de dizer algo
terrivelmente essencial à minha vida)
jamais concretizada

preciso anotar
todas as minhas lembranças
todos os meus sonhos
todos os livros que li
todas as brincadeiras da infância
todas as receitas de minha avó
todas as luas que vi
antes que tempo e pó
tornem ilegível a página.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Elizabeth Hazin

 

Ilustração: Joana Velozo

 

CURVA DE SAN MARTINO

 

Para que a pressa
se a vida inteira se tece de acasos?
chove sobre as ruínas do castelo
como outrora terá chovido
sobre as pedras recém-erguidas
para que a pressa
se apenas lento
…………………………..lento
………………………………………….lento
o cinzel do tempo
nivela e repara?
À minha revelia
todo ponto é feito e desfeito:
sou um detalhe que passa
assim como – vista do trem –
toda a paisagem.

Como arrancar das pedras
a verdade que encarnam?
tudo agora é anódino e pálido
(até mesmo o pálio
no centro da praça
que de graça se oferece
a nossos olhos desarmados).
Onde o esplendor medieval
que colorimos de bandeiras e de cavalos?
levianamente
pisamos as pedras há séculos dispostas
e nosso coração nem sabe
dos suspiros e das noites
nem sabe da beleza
nem sabe.

 

 

 

***

 

 

 

Deixa sentar a poeira do tempo
debruça-te sobre mim.
Foi de conviver com a luz e com a água
essa minha lucidez esse lodo
esse gosto amargo demais
esse meu lado avesso e morto.
Não tenho margens nem porto
não possuo uma única ilha
mergulha em mim
não mais que tua mão
e acompanha minha vigília.

Velar é preciso
(é como navegar)
teu rosto impermeável
Não se molhará.

 

 

 

***

 

 

 

INVENÇÃO

 

Para que mais do que já temos?

nossas roupagens humanas
nossa fragilidade
o areal que atravessamos
nossos parcos segredos:

tudo é a vida que vivemos
deveria ser suficiente.

Para que inventarmos
o Amor e seu desassossego?

 

 

 

***

 

 

 

NO ESPELHO (II)

 

Eu te acendo
e me vejo:
sonhos de infinito
esse jeito tosco
meu andar comprido
meu olhar tão fosco
o amor perdido
– não vivi de todo.

Perdi minha ambição
(lembrança antiga)
já não brinco de poemas
algo se desfez
perdi – razão da vida –
o meu canto.
Já não me comovem sonhos
nem sonhos há que me movam.
Sobra a noite
e em teu vidro – aceso –
o meu espanto.

 

 

 

***

 

 

 

HOMO LUDENS

 

Lúdico animal o homem
e esse ludismo o transforma
em carta marcada embora
ele nunca saiba a hora
certa xequemate (o rei
morreu? outro rei é posto)
nada se mostra em seu rosto
que não esse jogo vário
de mil nomes – estuário
de todos os seus desejos.
Que mar, que mar os espera?
Não há. O que existe é mera
ilusão – regra do jogo:
pensa-se tirar a sorte
porém morre-se no fogo.

 

 

 

***

 

 

 

Uma
duas
três taças
e o poema se derrama
– vermelho e ácido –
queimando minha garganta

toda palavra é um pássaro escarlate
que voa sempre
(ainda quando me calo)
no tempo escasso da tarde

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos.  Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Elizabeth Hazin

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

PRINCÍPIO DO FIM

 
Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça

nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa

por que não se estende eterno,
se é tão fino?

por que não dura a inteireza?

 

 

 
***

 

 

 

FELICIDADE

 
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade
………………………de ser
esse ser não sendo

alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)

nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule

é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga

é esse fio de navalha em que me equilibro
……..sem asa que me suspenda
……..ou mão que me segure

é essa trama em ouro e cobre
…….que na solidão do quarto se urde.

 

 

 

***

 

 

 

MAR DA CHINA

 

a minha mãe

 

 

Por sobre as ondas da China

onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)

 

 
***

 

 
POUR CAMILLE

A Camille Claudel

 

Quem modela a vida

(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?

Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.

Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?

Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.

Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos
………………………..em asilos
………………………………..exílios
…………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.

Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)

Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.

 

 
***

 

 
LUX DELENDA EST

 

 

LUX DELENDA EST, alguém disse

e houve a escuridão

……………………..esse apocalipse –

manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso
…………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã
……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim
………………………………………. (como começo).

(Fosse um domingo talvez?)

Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!

Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos
………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes
………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos
………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.

Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas
…………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos
………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente,
…………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares
………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.

Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

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81ª Leva - 07/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Mario Baratta

 

Passadas as celebrações de 7 anos da revista, um questionamento se faz presente: quais expectativas nutrimos em relação ao que está por vir? Por mais que projetemos o futuro de nossas ações da forma mais positiva possível, nada terá mais sentido do que valorarmos o que nos acontece por agora. Mesmo sabendo que uma boa espera governa os objetivos dum amanhã, estamos certos de que a poética dos bons encontros e descobertas atua a cada instante. É, por exemplo, o que vislumbramos quando organizamos uma nova edição em meio às perspectivas criadas pela exposição dos trabalhos de Mario Baratta, artista que nos cativa pela singularidade e simplicidade de seus registros. Suas ilustrações, por sua vez, estruturam pontes de diálogo com os versos de Iolanda Costa, Elizabeth Hazin, Alberto Lins Caldas, Mônica Mello e João Urubu. Noutro ponto dessa jornada, há também a interação das imagens com as prosas de Lizziane Negromonte Azevedo, Rosa Pena e Tere Tavares. Para falar um pouco sobre outras especiais e poéticas dimensões propiciadas pela fotografia, entrevistamos Peterson Azevedo. Sob os olhares atentos de Guilherme Preger, testemunhamos as complexas reflexões do filme francês “Augustine”. O livro de poemas “Memórias de um hiperbóreo”, de Oleg Almeida, é objeto das sensíveis observações de Rejane Machado. Dentro do novo panorama da música brasileira, Larissa Mendes destaca os predicados de Vazio Tropical, mais recente disco do cantor e compositor Wado. A resenha de Luciana Oliveira percorre as vias obscuras de “Os encantos do sol”, segundo romance de Mayrant Gallo. E assim surge a 81ª Leva, marcada pelo ritual das esperas que se fazem algo concreto e palpável quando você, caro leitor, deitar olhos sobre tudo e conduzir as leituras a partir de seu lugar no mundo, condição esta que nos impulsiona adiante, rumo a uma saborosa sensação de misterioso devir. Evoé!

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Elizabeth Hazin

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Prometeu

Ouvi, porém, as tribulações dos mortais; ouvi como,
de parvos que eram, os tornei racionais e dotados de inteligência.
(…) Inventei para eles o número, a suprema ciência,
bem como a escrita que tudo recorda, arte mãe de toda cultura.
(Fala de Prometeu, em Prometeu Acorrentado, de Ésquilo)

 

 

I

Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.

Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.

Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).

Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.

Desde o fogo
a tristeza nos consome.

 

II

Só há um fogo
– um fogo único –
capaz de arder no poço
mais fundo
em mil chamas:
é a alma
que se derrama
do corpo.

Tudo vem do fogo
e a palidez da face
contra a água escura
acende a chama
em que arde
essa alma.

Curvada sob a luz
e a  mágoa de ter alma
persigo símbolos
na água
que se transmuta.

 

III

A alma do homem é tudo que
– não sendo –
é chama ardendo
sobre o verde
insondável
do oceano.

A alma do homem tem seu encanto
mas é nada
e sobre esse nada
não flutua a esperança.

A alma do homem veio tarde
quando o  corpo já aprendera a ser sem ela
e já não era possível desaprender.

 

IV

Condenam-me ao silêncio mais cruel:
o silêncio da alma
enquanto a pegada do corpo
fica impressa no chão.
Não falar é a pior tortura.

Falo dessa fala
própria da alma
que os deuses temem
pois jamais se cala
e continua
queimando o corpo
lentamente com sua chama.

A toda palavra que sai de minha boca
longe longe
responde o vento
com a mesma fria palavra
que me devolve
a sombra apenas
do que penso.

 

V

A alma é tão-somente um fogo
vívido e chamejante
crestando a pele do corpo
– veste
de  que ela própria se reveste.

Mas esse fogo é tudo
pois sem ele
o corpo se estiola:
folha vermelha que torna
inevitável o outono.

 

VI

Há algo de mais belo sobre o fogo
e primitivo
como presságios dardos e correntes.
Não há cadeias
em  torno de meus pulsos e dos pés
– belos mortais –
se arrastais vossos vultos sobre a areia.

 

VII

O quê receiam os deuses
de quê têm medo?
O poder é negro
…………………………………….negro
águia cruel
que mergulhando em meu corpo
sangra o rochedo.

O quê receiam os deuses
o quê receiam?

Do pico dessa montanha
me  arremesso:
sou o espaço
sou o pássaro
sou o rochedo.

 

VIII

É turva ou cristalina
a água que não bebo?
Meu corpo é o rochedo
……………………………………..é o rochedo
………………………………………………….é o rochedo.
Trinta séculos de tortura não são
trinta manhãs com suas tardes:
outras águias nascerão de toda água
mais escura.

O quê receiam os deuses?

 

IX

Só o mar me desvia desse monte
em  que não durmo
se ao menos o dia amanhecesse
por sobre meu corpo escuro.

Mas sei que de manhã
o sol se espraiará todo em meu corpo
– pássaro a me devorar inteiro –
e eu desejarei a noite.

 

X

É de sol
o pássaro dos  deuses
e suas asas me cobrem
asas de sol.

O pássaro dos deuses
chega com a manhã
e me faz jorrar o sangue
das entranhas.

O pássaro dos deuses é puro fogo
e renasce a cada manhã
das cinzas da véspera:
de meu próprio corpo.

 

XI

Há, sim, quem se lance ao fogo
pra morrer de todo
e nascer de novo.

 

XII

Sou o sol
sol de fogo
todo dia
sempre novo

sou o fogo
todo sol
novo dia
sempre sou

sou o dia
sol de novo
todo sou
sempre fogo

 

XIII

Há mais dor nos olhos dessa águia
que em meu corpo
estilhaçado:
os deuses não cessam de vingar-se
– todo poder recente é implacável.

Há mais fogo nas asas dessa águia
que em meu corpo
incendiado:
ígneas criaturas
vossa tolice é suprema.

Quem romperá de vez essas cadeias?

 

XIV

O tempo que passa me alucina
– às vezes penso –
sombra que escurece a minha face
esse veneno
é a própria água em que debruço
a minha sina.

Só existo enquanto acendo o sonho:
o sonho infindo
que o bico de uma águia estilhaça
toda manhã
em vão. Recomeço pois não receio
ira ou  destino.

Que se vinguem os deuses (ó deuses)
nesse meu corpo
que não morre pois conhece o fogo
e sua chama:
sou pássaro a renascer das cinzas
ou salamandra?

 

XV

Ó misterioso ato de criar:
como fluem as palavras
as palavras que tudo recordam?
Não me podeis matar
eis a  verdade
a grande verdade
que cinde essas correntes todos os dias.
Minha ousadia
é bem  maior que meu suplício.

 

(Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado  Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)

 

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67ª Leva - 05/2012 Ciceroneando Outras Levas

Ciceroneando

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas.  Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços.  O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!

Os Leveiros

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética II

Desenho: Felipe Stefani

 

ONDA

Elizabeth Hazin

 

o desejo é como água:
flui
circunda
onda mais alta
(de cor profunda)

o desejo é como água
(de mar ?):
sempre distante do porto
e o que fazer do corpo
apenas invólucro
– breve,
finito –
e, portanto, sequioso
do próprio desejo
em que se afunda ?

sobre o cetim da pele
desliza a veste que escolho
ou nenhuma veste

o desejo é como água:
flui  reflui
escorre   inunda
o corpo
(quem bebe ?)

 

 

***

 

 

DESDE O FOGO

 

Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.

Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.

Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).

Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.

Desde o fogo
a tristeza nos consome.

 

(Elizabeth Hazin publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e a Editora 7Letras publicou o livro escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Em 2010, foi re-publicado pela Vieira & Lent o Arco-Íris, poemas para crianças. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)