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144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Dheyne de Souza

 

Foto: Lu Brito

 

Doroteia

 

Vi Doroteia uma única vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde então, e isso já faz três dias, ela vem me perseguindo a lembrança a ponto de conhecê-la.

Gritei quando a vi. Na verdade, antes de vê-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atrás de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.

Não sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei três passos e pude contemplar seu silêncio indescritível. Era tão fiel sua ausência completa de movimento que era mesmo possível acreditar que não estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que perceptível, sensível. Cometi nossa espécie mais chula de pecado e fingi que cri.

Não sei exato. É possível que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorrência de padrões em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrevê-la.

Busquei metáforas, perdi. Acredito agora também que não emiti som, também não acho que me lembre mais ultimamente o que é isso de a voz ter função externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente – agora é que isto me ocorre –, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o café, vejo o noticiário, abro a janela e volto à cama. Telepatia, acho que é essa a palavra que dizem. Diziam.

Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne moída, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.

Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos há pouco. Foi nessa ocasião, agora é que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia até então sorrateira de tê-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, não tenho tido propensão a exatificar as memórias, enfim, de tê-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos preços. Bodejar à toa.

Dei mais dois passos em direção a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. Nós duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Riríamos da primeira vez à porta. Você me desculpe é que não sabia. Eu que não sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha história de. Como é que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.

Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. Não, não foi. Senão começaria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia não estava mais em lugar algum. Olhei atrás, dentro e debaixo de todos os móveis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a máquina de lavar. Não quis ligar, menos pela energia que já aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo lá fora, mais porque ainda não sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.

Não. Agora eu tenho certeza porque, como já disse antes, embora ninguém confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhecê-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na máquina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela também prefere assim. Nós combinamos tão bem. É uma pena que tenha durado tão pouco. Ou não. Ainda não sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. Não posso recriminar sua apreensão. E eu gritei deveras alto. Doroteia não disse nada. Um silêncio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.

Olhando aqui essa sombra que cai na área de serviço. Quando percebo, já estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, peço milhões de perdões. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.

Digo então, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique à vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. Só não parta. Não me abandone. Não vá pras ruas, é perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fechá-las, para que Doroteia não se exponha. Abandono o ímpeto no ar. Não sei se precisa voltar.

Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma pá de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sofá. Olho o vulto das nuvens atrás dos prédios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efusão acelerante. Qual sua uva preferida, senão shiraz. Peço escusas, Doroteia, hoje não tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de pão.

Já faz tanto que não faço uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Será uma pena sem sálvia. Quem sabe no mês que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um horário mais pela tarde. Conferimos o movimento.

De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra máquina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da prússia. Vou lhe fazer uma máscara, Doroteia, belíssima. Você nem vai acreditar. Não sei se sabe o que está havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.

 

Dheyne de Souza é goiana. Vive atualmente em São Paulo (SP). É doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Recém-publicou “lâminas” (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi “pequenos mundos caóticos” (poemas, PUC/Kelps, 2011). Mantém ainda um blog e um canal de leitura de poemas chamado Pequenos Mundos. É membro do grupo goiano de vocalização de poesia Corpo de Voz.

 

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118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

André Mellagi

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Vestígios

Entrei novamente na casa e investigo o silêncio que retorna após trancar a porta. Derrotado, mais uma vez o vazio preenche cada mobília da sala intocada. Desde que você foi embora, a poltrona permanece mutilada em seu lugar e os corredores já não ecoam mais seus passos descalços. Foi inútil tentar recuperar a petúnia; há dias suas mãos não dosavam a água e a entrada da luz que evitariam uma outra presença sua a se despedir da casa. A sua música, que antes me aborrecia e lhe concentrava sentada na poltrona incompleta, agora eu a suportava como um cubo mágico que desisti de decifrar, mas que insistia em combinar cores e tonalidades avessas. Os copos sem batom, os cinzeiros limpos e os filmes de cinema perdidos no jornal sem as sublinhas de esferográfica, eram assinaturas de giz no asfalto apagadas pela chuva. Sabia que estava próximo à cozinha quando o cheiro de canela misturava-se ao odor de almíscar, mas que agora atravesso despercebido até abrir e fechar a geladeira sem decidir por nada. Nenhuma presilha restava nas gavetas como uma peça arqueológica, e nenhum papel sobre a mesa continha os desenhos rupestres de suas letras escorregando uma anotação pelo telefone. Foi uma explosão que acendeu, um trovão que uivou; agora são sombras que avançam, mudez que cala. Sobrou apenas comigo a antiga fotografia guardada que escondia, entre os cabelos desalinhados entrelaçando dois rostos a sorrir numa praça desfocada, o movimento que se distende antes e depois daquele instante, a lembrança amarelecida de unhas peroladas, sorvete de creme e toalhas molhadas.

***

 

 

O Testamento de Ícaro

 

De volta à mesma esquina por onde Ícaro passou, estava novamente defronte à loja de 1,99 e perdido. As muralhas envidraçadas dos prédios domesticavam sua visão nas ruas estreitas da cidade, que perfurava cartazes e olhares desviantes. Às vezes, estes olhares irrompiam em desejo e violência, depois se esqueciam. Os carros seguiam a correnteza arterial dos viadutos e avenidas, sem encontrar um escoadouro que levasse a uma saída do labirinto. Ícaro olhou para o prédio mais alto. A maior lembrança de sua infância, quando subiu pela primeira vez sozinho a copa de uma oliveira em Creta, foi a alegria ainda maior na face de seu pai. Mais uma vez, queria mostrar a Dédalo que saberia decifrar aquele labirinto. De nada adiantavam os mapas que abstraíam os quiosques de garapa e os bueiros entupidos, em quadrados indiferenciados sem indicar qualquer escapatória. Queria ter a visão de Urano, que do alto tudo enxergava, com prazer quase científico, sua colônia de formigas amontoadas que se espremiam entre as casas de cobertura de telhas escamadas. Ícaro subiu o elevador do prédio mais alto, e do último andar olhou ao redor o continente de titãs de concreto. Mas ainda faltava muito para arranhar o céu; era preciso dar um salto decisivo para o alto. Apenas se afastando do turbilhão urbano teria a percepção daquela imensa mancha viva de cimento, metal e plástico, cujo vai-e-vem se harmonizava numa homeostase compreensível. Precisaria içar sua jangada para atravessar oceanos; levantar o braço para apanhar estrelas; subir degraus para escalar montanhas; lançar o olhar em direção aos limites do infinito. Implante-me asas, meu pai! Veja-me voar na morada dos deuses! Dê-me a oportunidade de vislumbrar daqui de cima, o quão pequeno é seu labirinto! Nada mais precioso que a vertigem! Venha, vento, levar-me acima das nuvens! Não se preocupe, pai, voo alto para não ouvir mais as vozes emaranhadas. O mundo se silencia e enfim ouço dizer-me sua extensão. Mais alto, vento! Que a iminente queda ainda conserve a imagem derradeira de que um dia fui livre!

 

 

 

***

O Jardim do Éden

Entre o Tigre e o Eufrates, encontrava-se um anjo morto com napalm. As asas mutiladas e a espada flamejante ao chão já não mais guardavam os resquícios de um antigo jardim cujos portais foram arrombados com tiros de morteiro. Dos destroços da cúpula de uma mesquita, o crescente refletia as labaredas que calcinavam os querubins abatidos por uma bateria antiaérea. No jardim, apenas a extensão do deserto que enfim invadiu as velhas cercanias, oásis que subitamente foi envolvido pelo deserto à marcha das cargas deflagradas. Uma árvore seca restava no meio daquele jardim esquecido, exalando a gás mostarda e rodeada de ossos espalhados ao chão como folhas secas. A tempestade de areia e pólvora devastou a paisagem onde já não mais importavam os nomes que batizaram plantas e animais; tudo era um amontoado de cinzas revolvidas com petróleo. Pois se a vida ainda estava lá, empreendeu-se com a razão e o conhecimento os meios de se apoderar dela; “haja luz”, disseram no princípio os criadores que manejavam o bastão, o arco, a espada e o fogo. Assim, da escuridão abriam caminhos passando por cima de si próprios até alcançar o fruto que faltava. Os anjos já não tinham mais como defender aquele jardim; os deuses mortais já sabiam voar, mergulhar, entrincheirar. Disputavam o que achavam o que era a vida em mútuas decapitações. Estava para começar o inverno mais quente do ano.

***

 

 

Encontro

De manhã ele acordou e silenciou o despertador, que deixou o dia murmurar. Ela se levantou e foi escovar os dentes, enquanto tentava juntar as peças de um sonho. Ele tomou o café sem açúcar e amargou as notícias de ontem. Ela olhou um vaso de flores e compadeceu-se diante de pétalas murchas. Ele deu partida e misturou-se resignado à massa de carros congestionados. Ela emudeceu as buzinas ouvindo sua música na bicicleta. Ele queria dois processos protocolados até o meio-dia e uma sequência de três ace na quadra de tênis à noite. Ela queria a notícia do pai de Gisela e um bom capuccino à tarde. Ele entrou no escritório, ligou o computador e coçou a testa. Ela chegou no consultório, vestiu o avental e estalou os dedos. Ele tamborilava teclas e ela organizava espátulas. Ele sacramentava resmas de papéis e ela vasculhava bocas. Parágrafo único do incisivo inferior lateral; bruxismo em desacordo com disposição legal; inventários ortodônticos.

Pausa para o almoço. Só um processo protocolado e Gisela ainda não chegou. Saem do escritório e do consultório, encontram-se na fila do restaurante por quilo. Ele deixa a pasta cair; ela apanha a pasta do chão e devolve a ele. Ele agradece e volta a decidir sobre o grão-de-bico. Ela verifica as unhas e pensa em adotar uma criança. Sentam em mesas separadas. Chove hoje à noite e chegarão tarde em casa.

André Mellagi, nascido em São Paulo, é formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de coletâneas de contos, tais como a primeira edição da revista Pulp Fiction do site Homo Literatus, além de publicar em blogs de literatura. Teve coletânea de contos que recebeu Menção Honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP, e foi obra pré-selecionada ao Prêmio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela editora Patuá em 2017.