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151ª Leva - 01/2023 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Mohamed Mbougar Sarr: o gênio senegalês e o novo compasso literário

Por Viviane de Santana Paulo

 

 

Mohamed Mbougar Sarr é um escritor nascido no Senegal, ganhador do Prêmio Goucourt de 2021, o mais prestigiado prêmio literário francês, com a obra A mais secreta memória dos homens (se bem que, nos dias de hoje a palavra homem para definir toda a humanidade deveria ser substituída por humanidade, ou seja, A mais secreta memória da humanidade). O romance trata do racismo no meio literário e da paixão pela criação literária, além de aspectos sobre a imigração e o colonialismo africano, e é uma crítica ferrenha contra o meio literário francês. Mas sendo este meio nada diferente de outros, nos quais rege a classe dominante de homens brancos provenientes de países ricos, a crítica de Mbougar Sarr é válida para a maioria dos meios literários mais influentes do planeta Terra.

O enredo é complexo, narra a Odisseia do protagonista, estudante senegalês de filosofia em Paris, chamado Diégane Latyr Faye, e a sua obsessão em torno do romance fascinante intitulado O labirinto do inumano, publicado há setenta anos, que conta a história de um rei sanguinário que através do Mal absoluto pretende alcançar o poder. Com a ajuda da polêmica escritora senegalesa, sexagenária, Maréme Siga D, o protagonista inicia uma pesquisa sobre T. C. Elimane, o autor do livro, que foi acusado de plágio nos anos trinta, em Paris, e sua obra retirada de circulação. Por consequência, o escritor desaparece, transformando-se em numa lenda. Mbougar Sarr inspirou-se na verdadeira história do escritor maliano Yambo Ouologuem, que em 1968 publicou o romance Le Devoir de violence (O Mandamento da Violência), com o qual ganhou o Prix Renaudot.

As referências a Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, são óbvias em vista das muitas reflexões. Aliás, o enrendo é repleto de diversas referências culturais. Como, por exemplo, T.C. Elimane procura o assassino de seu editor Charles Ellenstein, na América do Sul. Ellenstein morreu em um campo de concentração denunciado e torturado pelo literata nazista Joseph Engelmann. Neste trecho, Sarr menciona autores como Ernesto Sábato e o exilado Witold Gombrowicz. A busca pelo misterioso autor da fantástica obra dá-se em vilarejo senegalês, na Paris contemporânea e na Argentina pós-guerra.

No decorrer do enredo, Mbougar Sarr levanta questões controversas sobre o meio literário e seus vícios e limitações, como, por exemplo, na voz da personagem Siga D., ao indagar se alguma coisa mudou no meio literário: Fala-se sobre literatura, sobre valores estéticos, ou fala-se sobre a pessoa do escritor, sua cor da pele, sua voz, sua idade, seu cabelo, seu cachorro, sobre o pelo do cachorro, sobre a decoração do apartamento, da cor de suas meias? Fala-se sobre a escrita ou sobre a identidade, sobre o estilo ou sobre a imagem midiática do/a autor/a? Fala-se sobre criação ou sobre sensacionalismo e culto ao/a autor/a? Mbougar Sarr confronta-nos com a dúvida: deve a literatura estar imprescindivelmente encarcerada na nacionalidade, na cor da pele, na idade, no meio social, no gênero do/a autor/a? Ou devemos interpretar estas características como um aspecto adicional?

 

Mohamed Mbougar Sarr / Foto: Bertrand Guay 

 

Segundo o crítico literário alemão Tilman Krause, no jornal Die Welt: “Sarr refere-se inteligentemente aos discursos mais atuais sobre identidades e políticas de identidade, por exemplo, transformando um romance fictício de 1938, escrito por um senegalês fictício, em um “campo de batalha ideológico” onde, ao invés de questões sobre qualidade, são negociadas ou discutidas questões sobre a identidade do autor. Sarr não está preocupado com qualidades particulares, mas com o que significa ser humano.”

Igualmente, o escritor argentino Juan Jose Saer trata sobre este tema em seu ensaio La selva espesa de lo real, no qual ele menciona: la narración no es un documento etnográfico ni un documento sociológico, ni tampoco el narrador es un término médio individual cuya finalidad sería la de representar a la totalidad de una nacionalidad. Saer repudia a tendência dos críticos europeus em interpretar as obras de autores latino-americanos exclusivamente através do olhar folclórico e colonialista e indiretamente esperar que autores latino-americanos escrevam estritamente sobre temas relacionados à cultura e política de seus países, ou seja, escritores de nacionalidades e procedência não europeia, não branca, estariam condenados a escrever somente sobre questões sociais, culturais e políticas de seus países de origem. Caso contrário, a autenticidade desta obra estaria prejudicada.

Em A mais secreta memória dos homens o personagem Stanislas, tradutor do polonês trabalhando na nova tradução de Gombrowicz Ferdydurke, está convencido que os autores devam ter permissão para escrever o que quiserem, independentemente de onde moram, de onde venham ou da cor de sua pele, e que a única coisa que você tem a exigir dos autores é talento.

Mbougar Sarr, como escritor negro, africano, imigrante, denuncia esteticamente esta falha no meio literário. O fato de a crítica trazer à tona termos generalizados como emigração e exílio sempre que se trata de autores não brancos e não nacionais é um de seus equívocos, como aponta o protagonista Diégane. Sarr antecipa e responde a muitas destas críticas no próprio romance. Além disso, parte da obra é sobre ativistas políticos e a manifestação pela democracia no Senegal.

A mais secreta memória dos homens possui gêneros e temáticas diferentes, e é uma reflexão poética e metafísica sobre a escrita e a literatura em geral – a literatura em geral.

 

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007).  Seus poemas têm sido publicados em várias revistas e jornais na América Latina e Europa. Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Formas de Cair: Um Projeto de Não Ser!

Por Rita Santana

 

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,/Monstro de escuridão e rutilância.” Eis a epígrafe do livro Formas de Cair & outros poemas (Letra Capital), do escritor Sandro Ornellas, cujo paradoxo final guiará, sobremaneira, o livro e o sujeito de enunciação, ambos imersos em jogos de luz e sombra. É preciso demolir os velhos paradigmas – quando opressivos – e Sandro os conhece de muito perto, com profundidade porque sabe das suas fundações e dos seus pilares estruturais. Ao trazer Augusto dos Anjos, o maldito, prepara os espíritos leitores para as estranhezas capturadas pela vida afora e trazidas à luz para que nós as vejamos sem filtro, sem maquiagem; na crueza e no malabarismo das desventuras existenciais suspensas aqui. Tudo ornado com apuro e requinte lírico. O leitor, que tenha certa proximidade com o escritor, não ficará imune aos conflitos e dilemas criados para este projeto que temos em mãos. Porém, o precipício será lançado, inescapavelmente, a qualquer leitora ou leitor que o abra: estaremos em plena queda!

 O livro é dividido em três partes: 1. ROMANCE DEFORMAÇÃO, 2. URBI ET ORBI e 3. FORMAS DE CAIR.  Na primeira seção, o Poeta ironiza, questiona, ludibria conceitos e a seriedade do universo em que vive, em que tece existência e criação, o universo acadêmico. Temos expostos alguns procedimentos de desconstrução do próprio cânone e descontração pândega de pilares caros à tradição. O autor já nos lança uma provocação inicial, ao intitular o primeiro movimento do livro, onde aciona um desconcerto entre os gêneros e indica denúncias de “deformidades” ou “deformações” primordiais, de origem, que formam o sujeito do enunciado. O humor é, certamente, um dos pilares da sua obra: o riso, o desconcerto, o sarcasmo e a ironia. Constam desse momento poemas que demarcam o território da Identidade. O sujeito poético está em busca de um eu que se funde em tantos outros e que, juntos, engendram uma unidade absolutamente tosca, culminando em um processo de construção de um autorretrato cubista. Talvez o autorretrato tecido seja um caleidoscópio absolutamente revelador de assimetrias e incertezas. Um Pablo Picasso, demolindo as expectativas em torno do que seria um autorretrato. Diante de uma sociedade cada vez mais ávida por definições identitárias, exigindo que o indivíduo assuma uma identidade definitiva, torna-se um transtorno não ter ou não ser uma resposta. Uma sociedade capaz de reger processos excludentes aos que não estiverem de acordo, aos que não se encontram dentro de um pacote fechado do que seja considerado um modelo identitário, dentro dos padrões, das nomenclaturas possíveis e aceitáveis, em determinado tempo e contexto social específico.  O eu poético, enfático, desilude-nos, de cara, ao negar tais possibilidades, ainda no poema 1. (inquietante rosto):

……………………………  inquietante rosto
……………………………………….que não sabem
……………………………………….nunca saberão

……………………………………..ex-crer-ver

Ao dissecar e expor o ato da escrita, no desnudamento da palavra, ele tenta nos persuadir à desistência: é inútil tentar decifrar palavra e rosto. Enquanto tantas identidades convivem, contaminam-se, flertam com outras, num intercâmbio cada vez mais violento, veloz, fluido ou líquido, pois mediado pelos processos tecnológicos, transcendentais, ancestrais, inauditos e geográficos que seguem o fluxo complexo e mutável da própria existência. Processos que sempre estiveram em nosso/seu âmago e perpetuar-se-ão até a morte do Ser.

O dialogismo ainda nos atravessa, durante a leitura do primeiro poema.  A Terceira Margem do Rio de Guimarães Rosa nos chega, através da primeira estrofe: “terceira via/terceiro homem/terceiro olho”. Aqui, já temos uma condição existencial que transpõe a lógica regente do universo dos homens. Transitaremos numa terceira margem, alargando nossos limitados horizontes, nossa visão, nosso olhar, num sentido holístico sugerido pelo próprio Poeta. O eu da escritura deixa-nos com o indecifrável que é: “inquietante rosto/que não sabem/nunca saberão.” O tom profético já aniquila qualquer esperança de compreensão futura. Mais que um rosto, uma identidade impenetrável. Descrever, “ex-crer-ver”, virar o avesso da palavra, separar-se dela, da crença, apartar-se para, enfim, compreendê-la, ampliá-la. Descrença, abandono, desistência, ceticismo, estamos diante do inescrutável que habita a busca do que somos. Quanto de significados ele nos impõe na ludicidade com a palavra refeita, numa anatomia que esmiúça e refaz sentidos contidos no ato de escrever? A partícula ex atribui um caráter pretérito à crença, à visão e à escrita, pois desarticula, desestabiliza e põe tudo em estado de evidência e questionamento. Tudo foi ou terá sido. O campo semântico ainda nos liga ao que foi separado, apartado. Ornellas nos traz a ludicidade como uma de suas características. Bella Josef assinala o caráter lúdico da escrita:

 “O jogo da linguagem é o da busca do sentido, não encontrado no objeto, mas armado na própria linguagem que o constrói. A arte literária passa a ser o espaço privilegiado da “doação de sentido”, através do inter-relacionamento de todos os elementos do texto.”                     

E completa:

“A linguagem lúdica é a mais significativa, no sentido da expressão do homem como ser simbólico, e, portanto, criativo, e a mais adequada à construção do pensamento autônomo. A comicidade e o humorismo atuam como catalisadores numa tentativa de diminuir a separação entre objeto e sujeito, recuperando a natureza lógica da arte. Se o humor matiza, o jogo liberta”.

Em 2. (arte do autorretrato), vemo-nos diante da representação de um rosto, num autorretrato que poderia elucidar uma identidade, já anteriormente negada e anunciada como inviável. A busca frustra-se novamente, ao percebermos que o sujeito do enunciado deixa pistas de que não há vestígios. Antes, o que há é: “uma montagem adúltera de tudo/ uma mistura muito funda/muito bruta muito puta”.  Percebemos uma revolta, forjada no emaranhado de origens, além de misturas e etnias que convergem para o projeto de não-ser que se monta diante dos nossos olhos: “monturo que dá em nada/em noves fora/projeto sem forma/projeto de não ser/face mestiça/etnia postiça/massa de tudo.“  Uma confusão descomunal com um suposto pertencimento que não se realiza e não se realizará. Lembro do entre-lugar do discurso, hibridismos e uma série de estudos identitários que se fundem diante de um eu em vertigem, turbulento, entre as buscas ou desistências do ser. Diante de tamanha liquidez, trago Bauman:

“Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e  a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para  a “identidade”. Em outras palavras, a ideia de “ter uma identidade”, não vai ocorrer às pessoas enquanto  o “pertencimento” continuar sendo o seu destino,  uma condição sem alternativa.” 

Estamos diante de um autorretrato com a orelha cortada, um Van Gogh que se procura e denuncia desilusões, imperfeições, perdas. Ou uma Frida Kahlo, que também se expõe em dores, aflições e pensamentos, através dos seus autorretratos. Ornellas, que assina o livro utilizando um pseudônimo, Sandro So, destitui-se, despe-se de tudo e nada lhe pertence. Um ser poético que busca formas de cair. Um sujeito desalojado, desencontrado: “Em todo e qualquer lugar eu estava – algumas vezes ligeiramente, outras ostensivamente – “deslocado””. Aqui, o nosso eu lírico também se mutila em exposições, desnudamentos, em cortes profundos diante de todos nós, seus leitores, suas leitoras, e nos entrega – em nossas mãos – reflexões que geram perplexidades.

Há uma constatação, em Formas de Cair, sobre a impossibilidade de conseguirmos atingir esse retrato indefinível. Ele prossegue: “projeto de não ser/face mestiça etnia postiça/massa de tudo/rebarba caliça resto rebite/que não existe/bricolagem de branco com-banto/neto-de-filha-de santo/linhagem de negro e galego”. Um sujeito inautêntico, um terceiro homem indefinido, exposto à terceira margem. Eis o fio condutor deste livro: um sem-lugar, um sem-jeito. Desfazer-se de si mesmo ou assumir a sua especificidade de ser, que carrega em si tantos outros seres, além de também habitar uma canoa que segue o curso da água, sem aportar em margem alguma, sempre em trânsito. O não ser é a loucura. É não ter digitais, nem face. E o ex-eu declara: “falsa persona do próprio rosto”.

Um homem imerso em teorias, pelo ofício que exerce, tem pleno conhecimento das distorções e indefinições de uma identidade e, por isso, a persegue, não em busca, mas em caça, em perseguição acusatória, persecutória; em denúncia de si mesmo e de suas farsas ou revelação do que em sua história fictícia pode sugerir farsa ou inautenticidade, quando, na realidade, é o que é e é o que não é. O desconcerto e o desassossego estão instalados. Detetive e criminoso ou inocente, Javert e Jean Valjean. Enquanto nós, leitoras, talvez sejamos testemunhas do seu processo de anunciar a ausência de digitais autênticas para a carteira de identidade. Nós, leitoras, estamos a acompanhar o indigitado nesse descampado solitário; desnudo campo do corpo, da cidade. Ele, o eu, descreve e revira o avesso da palavra. O terceiro olho e a terceira via atuam em todo o percurso do desconcerto, enquanto outros caminhos apontados pelo Poeta surgem. Uma terceira margem da imagem, da representação semiótica do rosto; uma persona que não se decifra e que se torna a obsessão do eu- lírico desiludido, nesse escrutínio por uma decifração da identidade. Há, em quase todo o livro, uma dramaticidade niilista, um olhar agudo para a sociedade; a escrita busca uma identidade que ele percorre apenas para, ao final, desmascará-la.

Ouço ecos de João Cabral de Melo Neto na cadência do poema 3. (dialética negativa), onde, além do ritmo marcado, de uma métrica permanente, versos talhados, aqui, em redondilha maior, observamos a musicalidade, o ritmo dos versos que percorrerá todo o livro. O poema é a pontuação musical dos desencontros cravados nas identidades dissolvidas em nossa sociedade brasileira, baiana. Assim, prossegue em poemas como 4. (mito) e 5. (clandestino), onde podemos vislumbrar origens, causas do desconforto étnico que perseguirá o eu lírico, durante toda a queda.  O vocabulário transita entre palavras do universo afro-brasileiro, como forma de encontro, semelhança, familiaridade, pertencimento: “ela é meu horóscopo/meu ouro meu ori/ meu faro/ meu anjo…”. O eu do poema prossegue em processos antitéticos luminosos e obscuros, que são suas pérolas barrocas perenes. Há ritmo, dança de sons, aliterações, métrica na seleção e organização das palavras, primor no artefato poético. O rosto, o autorretrato busca por si mesmo e pela definição do outro: personas em busca. Desconstrução, desnudamento arqueológico da palavra e das identidades. Há uma exposição de não seres que nos jogam em questionamentos sobre as exigências sociais por definição, pertencimento.  A mestiçagem está na roda das suas preocupações e de suas consequências na existência; danos, dores, medidas, questionamentos em “suas funduras suas fissuras/as origens duplas/do atravessador”.

Confessa-se clandestino e atravessa fronteiras, ainda fixado em seu rosto com e sem barba, partido em dualidades, num jogo de desconfiança, de quebra de ilusões, ilusionismos; como se não fosse possível mantermos expectativas em torno de um apátrida, um pária, um aventureiro clandestino, em constantes migrações, além fronteiras. A própria convivência é redimensionada diante das flutuações, viagens, inconstâncias do ser cujo trajeto e travessia acompanhamos. Um ser transitório. Um sujeito sem teto, sem lar, sem casa, sem porto. Incapaz de se fixar em qualquer parte e que insiste em reafirmar sua natureza peculiar de homem em constante trânsito, em constante queda e que nos apresenta suas formas de cair. Talvez assim, possamos nos aproximar dos seus descaminhos:

“Estar total ou parcialmente “deslocado” em toda parte, não estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem restrições e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa “se sobressaiam” e sejam vistos por outras como estranhos), pode ser uma experiência desconfortável, por vezes, perturbadora. Sempre há alguma coisa a explicar, desculpar, esconder, ou, pelo contrário, corajosamente ostentar, negociar, oferecer e barganhar.” (Bauman).

O amor perde-se em lapsos barrocos que se jogam em versos modernos rapidamente, como se fosse preciso estar no aqui e escapar da linguagem rebuscada, elaborada com certa sofisticação e exasperação dos rococós. Mas ela está presente: a arquitetura que propicia à linguagem um tratamento envelhecido, como uma pátina capaz de cobrir com camadas de tempo o verbo e dourar – ainda que em gotas – as páginas que escapam às permanências e ao conforto do íntimo, ao conforto do que vigora e persiste. O sujeito do enunciado nega-nos qualquer acomodação ou facilidade: escapa, foge, nega-se a nós! Aventura-se em mil rostos para dissolver, definitivamente, qualquer esperança de encontro, de busca. E percorremos o suaveduro de suas histórias de desistência, enquanto paroxismos nos atravessam.

Parece que estamos numa ficção, narração das origens. Perambulamos por esses cobogós sem encontrarmos o todo, pois o sujeito está perdido no princípio e nos precipita em sua própria queda vertiginosa e dura. A desconstrução e o desnudamento da palavra, a fragmentação da ideia causam um efeito de transe, como se o Poeta  nos desse um quebra-cabeça, faltando peças para decifrarmos sua angústia existencial, seu olhar agônico diante da consciência do que somos, sua náusea. Orpheu e Heuterbise de Jean Cocteau percorrendo os labirintos de Hades em busca de Eurídice, mas também em busca da Morte sedutora, intensa, bela, a sua princesa. A vertigem da caminhada, a vertigem do atravessamento dos espelhos, calçando luvas que são o passaporte para a viagem, o atravessamento do Tempo. Assim, também o nosso Poeta desfila suas inquietações existenciais.

A dimensão da beleza das imagens apresenta-se corajosa e intensa no poema 10. (corpo sem pouso) que desenlaça no trágico, afinal, não há pouso, repouso nem refresco na queda em que estamos imersos, num gerúndio que se reafirma a cada página aberta, durante o processo de leitura. Vejamos o desfecho do poema: “na hora das coisas cruéis/decisivo é ultrapassar/ a planta carnívora da história/para flertar/ com a beleza do mundo/em fulgurante desaparecimento.” Sem dúvida, um dos poemas mais belos do livro, composto de uma tragicidade final, pois, agora, todo o mundo desaba. A queda sobrevoa todas as espécies, como se estivéssemos atravessando um longo plano sequência que, velozmente, percorre o planeta. E nos atinge: “um zangão à beira do gozo/à beira da abelha-rainha/agoniza em seu amor à morte.” Mesmo trágico, encanta e arrebata por sua beleza, por sua construção imagética, capaz de provocar suspiros estéticos. Mas a leitura nunca está imune a desdobramentos, ela sempre nos suscita lembranças, complementos e elos com o que estamos vivendo ou lendo, num dialogismo inesgotável. Assim, surge Simone de Beauvoir, no início do Segundo Sexo, capítulo Biologia, onde a autora discorre, com o seu estilo vigoroso e belo de filósofa e escritora, um pouco sobre o quanto a abelha e o zangão estão atados à espécie.

“O mesmo ocorre entre as abelhas: o zangão que se une à rainha no voo nupcial, onde levam uma existência ociosa e embaraçante. No início do inverno são executados. Mas as fêmeas abortadas, as operárias, pagam seu direito à vida com um trabalho incessante; a rainha é, de fato, escrava da colmeia: desova incessantemente. E, quando da morte da velha rainha, várias larvas são alimentadas de maneira a poderem disputar a sucessão; a que nasce primeiro assassina imediatamente as outras.”

Assim, descortina-se esse aspecto de sacrifício do zangão, como se fosse ele o único a sacrificar-se pela espécie. Mais adiante, ao abordar a espécie humana, ela dirá: “… ao passo que a humanidade está em permanente vir a ser”.

Ou ainda:

“É somente dentro de uma perspectiva humana que se podem comparar o macho e a fêmea dentro da espécie humana. Mas a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, e sim um vir a ser; é no seu vir a ser que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveria definir suas possibilidades.”

O fio que tento estabelecer aqui é exatamente o olhar existencialista para a transcendência, ”este ultrapassar de uma situação presente por um projeto futuro”, segundo Sartre. Trago para estas reflexões o vir a ser que é constante e que toca também uma identidade que não é estática e talvez nunca tenha sido tão velozmente mutável, influenciável: líquida!

O poema 11. (travessias) irrompe cruzamentos inúmeros com dores e confissões cotidianas, de quem se perde em ressacas, em portas, numa convulsão de desencontros, situações sem saída. Mas ali, há a quimera e isto restitui o caráter onírico do nosso sujeito de enunciação, que sofre o desterro em que vive, em que delira em estado bruto de consciência; um eu cortado por desencantos, empurrões do destino. Um ser tortuoso de onde conflitos abundam. Com o poema 12. (inverso), fecha-se a primeira parte com uma tentativa metalinguística de organizar o caos.

Temos, então, o segundo momento do livro, intitulado URBI ET ORBI, em que os poemas tocarão a cidade, o corpo inserido no mundo, nas ruas, em outros continentes, na órbita universal.  Em 1. (carteira de identidade), vemo-nos às voltas com os complexos psicanalíticos que trazem a presença do Pai e da Mãe, em seus arquétipos, para a cena: “esta cidade não me salva/nasci fora de suas fronteiras/pai e mãe são meu medo/dupla derrota/tatuada em meu corpo/como cicatriz da história.” Mais uma vez, a origem umbilical dos dramas ou dos traumas; a busca por seu território ou a constatação de estar ausente do seu lugar e a circunstância de não ter lugar: “esta cidade não me basta/sou bastardo em sua memória/tenho um não-lugar além/sou estranho a toda estória/irredutível ao que se exprime/em seu fado/em suas horas”. Um inadequado, um inadaptado numa cidade, onde ele se sente – como tantos de nós – um estrangeiro, um estranho, um forasteiro, em situação incômoda de bastaria. A única forma de subverter o estranhamento é pular seus muros e desafiar suas fronteiras, como um clandestino em travessia, em fuga. Assim, o livro trafega entre o abandono em que nos encontramos na cidade que nos vigia, a nós, estrangeiros, e entre o sentimento de nomadismo muito presente no livro. Temos ainda as especulações sobre o tempo, que chegam através de rugas sobrecarregadas de significados. O eu do poema critica a oligarquia que preside o ritmo da cidade. Sutilmente, aponta a cartografia do lugar dividido em andares, elevadores e elevados. Entre arrastares de pés que caminham e percorrem a cidade, vemo-nos atravessados também de amores frustrados. Há desilusão e pessimismo nestes versos que caem. Marcas de uma cidade bem distinta daquela encontrada pelos turistas. Há uma desconstrução ou exibição e desnudamento de mazelas e odores de uma cidade que não acolhe. É o que pontua o olhar e as idiossincrasias do eu poético desencantado, devido ao abandono em que nos encontramos na cidade, devido à solidão e à estranheza que sentimos.  O poema 4. (Casa corpo cidade) traz, em seu título, invólucros que nos resguardam e nos massacram aos olhos do Poeta, que sente ímpetos terroristas: “a sanha por penhascos/o desejo de explodir /o centro em pedaços/ a convivência com o tráfico de afetos e fracassos/e vício compartilhado”.  O Poeta revela-se personagem que vive a crueza da cidade; alguém que a sofre porque está nela e não apenas assiste, distante, aos acontecimentos. Ele, transeunte, vive a cidade. Seguimos em encontros remotos com Gregório de Matos, num diálogo de denúncias comuns das mazelas da cidade, enquanto o próprio leitor é convidado a entrar em sua festa de desencantos, cúmplice, seguindo memórias machadianas: “Estranha virtude nos une/ hipócrita leitor/ meu igual meu irmão”. Assim nos sentimos atravessados pelo mesmo desencanto e amargura, diante dessa fera que nos devora, também a nós que, hipócritas, fingimos que tais dramas não são nossos! Fingimos ler o outro! No entanto, o Poeta nos convoca à Consciência, à Cumplicidade irmanada.

A partir daqui, invade-nos uma atmosfera de sensações, onde a solidão e a estranheza permeiam as páginas do livro. A queda intensifica-se vertiginosamente, pois a insatisfação e a crítica invadem todos os espaços, poros, pele do papel. O tempo e a constatação da impotência diante da vida. A presença do corpo. Lugares. O lugar da Poesia. O contato, a proximidade, os contratos sociais, as redes familiares, o país: “Algo de podre parece viver nesse país de fácil sorriso”. O que um livro traz, o que ele nos ensina. Migrar, migrações transmigram, identidade em vertigem: o lar, a família, o corpo, a cidade, o país, o mundo. A cidade personificada urra e todas as suas imundícies são compartilhadas conosco: família, amor, tesão, fracassos, tudo se mistura e é observado pelo Poeta, em delírio, em vertigem, em queda. Há a presença do corpo que sente e cheira todas as sensações, numa atmosfera sinestésica, apocalíptica, feroz, mortal. Todas as memórias estão impregnadas de fracassos e, mesmo quando vislumbramos um oásis de amor, a penumbra cerca aquela paisagem onírica, permeada de beleza, como acontece no poema 8. (memórias dos carnavais): “o Jardim que você prometeu matou meu serafim.” Ouço bandas de rock de Brasília presentes no poema, consigo ouvir toda uma geração 80, entremeada nesses versos tristes. Em outros momentos, sentiremos ecos de Augusto de Campos em tentativas do Poeta  de explorar imagens, linguagens, sons, experimentos.

Viajamos por lugares especiais, enquanto experimentamos o abandono. De que trata o poema? Memórias de amores, de outros carnavais? Memórias literárias que atravessam oceanos e deixam marcas na pele do Poeta? Do que se trata? A atmosfera nos penetra em interrogações e nos perdemos em devaneios; nos movemos em dúvidas, desejos que já são nossos e perdas que também são nossas. Uma viagem de ônibus é matéria de reflexões tão filosóficas e tão amplamente profundas que mergulhamos com nossas bagagens na viagem, com o eu do poema, sem que ele o saiba. O amor está presente nas páginas deste livro com ares de melancolia. Entanto, há prazeres pelo instante vivido, pela alegria de viver o cotidiano simples e grandioso de conversar, durante o trajeto do ônibus, ao lado de quem nos ama: “íamos no ônibus e falávamos e o ônibus ia em nós/e viajávamos acompanhados de quem nos ama/na solidão do grande rio que margeamos” (11. (intermunicipal)). Aqui, um momento lírico-amoroso, pleno de beleza, de amor e de juventude, onde uma outra margem surge, sinto desejo de permanecer no poema!

O Poeta, que confessa viver, estar num supersonho, trafega por outros continentes e traz aspectos dos povos que frequenta, traz o outro e suas influências; modifica-se com o outro, torna-se outro, numa geopolítica íntima que traz leveza à leitura: “carrego comigo/ muitas outras viagens/ do atlântico sul” (13. (geopolítica íntima)). Viagens como busca de possíveis identidades perdidas, que trazem histórias inscritas na própria pele, em suas origens, mas também trazem as marcas de outros povos, outras culturas que permanecem. A África faz-se presente, assim como Lisboa e Brasília também delimitam influências.  Quando dialoga com Drummond, deixa na página a ausência da cidade; ausência espacial, que, no entanto, está lá, marcada pelo vazio. Tal dispositivo estético-semântico pontua a importância do signo cidade, corpo, cidade-eu no livro. Busca por uma identidade atmosfera de desencanto, de ausência, desesperança; um olhar que perscruta o mundo. Migrações internas e externas, identidade em vertigem. Encerramos a segunda parte do livro com uma sensação de encontro, movimento e busca de possibilidades dentro das linguagens urbanas de expressar e imprimir a si mesmo em seus muros, suas paredes, numa queda mais branda.

Iniciamos o movimento final do livro com tons de metalinguagem e questionamentos acerca do lugar do poeta no mundo, onde a “tradição” entra na mira do eu lírico. Em Formas de Cair, terceira parte do livro, encontramos uma epígrafe que simboliza e sintetiza todo o projeto, pois é o título de um texto da Poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, “O poema ensina a cair”, que será  imediatamente mencionado no segundo poema, indicando que,  apesar da queda, o poema cumpre uma função  importante  em nossas vidas e é uma Poeta quem nos sinaliza, como nos informa o nosso sujeito de enunciação: “É é bom saber que se/ocorrer de nós cairmos/e não  nos ferirmos é/porque o poema ensina/ a cair – conforme Luiza/ categórica explicou/ e que humilde subscrevo/ ciente de que neste jogo/erro, vertigem e queda/são as verdadeiras vitórias/que o poema pode pode ter”. Permanecerão os dilemas cotidianos, mas serão iluminados pela máxima deixada pela Poeta e o poema guiará o eu vertiginoso que acompanhamos até aqui. No poema 5, teremos uma exposição  mais íntima do eu lírico, pois o contato social, o estar com outras pessoas na sociedade será tratado com extrema delicadeza e profundidade, dando-nos um retrato mais nítido do ser que enfrenta a sociabilidade, como tantos de nós, com extrema dificuldade, quase sempre disfarçada. Ele traz no desfecho ao poema: “As convenções são o trono/ das perversões mais severas“. Os embates permanecem, mas há uma outra respiração  musical nos textos; momentos onde o arrebatamento poético nos toma e sentimos vontade de dançar, como no poema 7. O Poeta segue desenhando desejos, sonhos, paixões com mais suavidade. O cinema se apresenta como uma força que move o eu lírico. Estamos aprendendo a cair com seus textos, com suas perdas. O Poeta nos deixa uma interrogação, antes do seu posfácio aos pedaços:

“Mas afinal quem juntou os cacos
dessas histórias de erros e quedas
que tanto lemos?”

 

Rita Santana nasceu em Ilhéus, Bahia, a 22 de agosto de 1969. É graduada em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz. É atriz com trabalhos em teatro, cinema e televisão; escritora e professora. Em 2004 ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Em 2006, Tratado das Veias (poesia) é publicado pelo selo Letras da Bahia. Publica Alforrias (poesia) em 2012, pela Editus. Em 2019 publica Cortesanias (poesia), pela Caramurê, e participa do Festival Internacional de Buenos Aires.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Olhares

Olhares

A descoberta do mundo segundo Cristiano Xavier

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Em nossas mais remotas e pueris fantasias, a Terra parece ser uma reunião de lugares relativamente infinitos. Sustentamos a vivos olhos que mares, desertos e florestas não encontram limites em ponto algum. Encantados com belas, imponentes e enigmáticas paisagens, nos rendemos à magnitude da natureza, pois somos apenas parte de um colossal cenário de imagens e manifestações que estão acima do nosso controle e compreensão mais imediatos.

Tantos séculos se passaram e continuamos achando que temos o domínio sobre a natureza e os demais seres que nela fazem morada. Nossa tão exortada racionalidade mais parece um permanente estado de soberba quando nos julgamos superiores aos outros reinos que também habitam nosso planeta. Por outro lado, ainda bem que não somos páreo para desafiar muitos fenômenos da natureza. Estes últimos têm o poder de nos mostrar que andamos bem se nos contentarmos em levar a cabo o gesto de não intervenção em mecanismos que jamais poderemos alterar.

Talvez as paisagens e todos os seus seres dispersos pelo globo estejam a pedir de nós mais contemplação e pouca ou nenhuma interferência nos seus destinos. Dito assim, até parece um clamor utópico, mas o fato é que já vilipendiamos por demais esse vasto mundo em que vivemos, quer no aspecto físico, quando fracassamos nas questões ambientais, quer no humano, quando nos comportamos como canibais de nós mesmos.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Quantas vezes precisamos de uma pausa para desacelerar os tropeços de nossa espécie? Penso que todos os dias. E ter a arte como instrumento dessa reflexão é algo revelador e grandioso. É justamente tal sensação que parece permear o trabalho de alguém como o fotógrafo Cristiano Xavier.

As imagens de Cristiano dão conta dum verdadeiro percurso pelo mundo em seus mais distantes rincões. Ao deitar seu olhar para lugares como Madagascar, Namíbia, Irã, Mongólia, Indonésia, Patagônia, entre outros, inclusive conduzindo pessoas através de expedições, o artista nos apresenta uma diversidade de cenários que reforçam uma atenção especial à natureza. Nesse quesito, o fotógrafo tem percorrido o planeta buscando registrar árvores, tendo como foco espécimes raros e isolados. O resultado de tal investida é algo que encanta pelas descobertas inusitadas e também pelo universo de formas e texturas que nos remetem a paisagens exóticas. O próprio fotógrafo confessa que seu objetivo é despertar a atenção das pessoas para a beleza que se abriga nas árvores marcadas pela raridade. Para cobrir esse intento, ele lança mão das técnicas de fotografia noturna e light painting, transitando entre o digital e o analógico.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Mas o mundo em Cristiano Xavier também é aquele que abriga recortes possíveis para o humano. Nesse sentido, o artista retrata pessoas em rituais cotidianos que expressam as particularidades de suas existências. Aonde quer que passe com suas lentes, o fotógrafo se posiciona como alguém que preserva o protagonismo das mais diferentes culturas dispersas pelo mundo. Somem-se a isso ingredientes como a contemplação e o silêncio, os quais tanto marcam as posições de observador e observado.

Com tamanho apuro no olhar e nos recursos técnicos empregados, Cristiano logrou relevantes êxitos em sua trajetória profissional, dentre os quais o primeiro lugar no concurso mundial International Landscape Photographer of the Year 2017 – Abstract Aerial Award e a melhor colocação de um brasileiro no Epson Pano Awards 2017 – Nature/Landscape. Além disso, sua obra está exposta em galerias do Brasil, França e Estados Unidos.

Cristiano Xavier trava o bom combate quando nos conclama a apreciar a beleza que se espraia no mundo. E o faz evidenciando o poder sensível e transformador que emana do silêncio e da contemplação. Estas são duas ferramentas que instrumentalizam a fotografia para que ela adentre um verdadeiro estado de poesia. A predileção por cenários diferentes, inusitados e impactantes é uma acertada provocação para enxergamos além.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

* As fotografias de Cristiano Xavier são parte integrante da galeria e dos textos da 140ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O olhar atento do escritor 

Por Gustavo Rios

 

 

Acredito na ideia do escritor que trabalha com o que observa. E pouco me importa se esse argumento já foi repetido aos milhões ou bilhões, das mais variadas formas. Para mim, tal atributo costuma render bons livros, independente de ser um lance nato ou inato – sendo o “não nascido” aquele que aprende no caminho, sob o desejo de lastrear a imaginação e enriquecer a própria narrativa.

O conceito acima é simples, mas não simplório: o escritor deve olhar tudo atentamente. E deve gostar do jogo. Sem titubear, o “escriba” tem de ser aquele tipo de artista que passeia, capta, dando um novo significado ao seu entorno. Talvez algo bem próximo do que Walter Benjamim descreveu em seu livro, A modernidade e os modernos, ao citar G. K. Chesterton que, por sua vez, falava sobre Dickens: “(…) Dickens não absorvia no seu espírito a cópia das coisas; antes era ele que imprimia seu espírito nas coisas”.

Ney Anderson, escritor e crítico literário pernambucano, é um cara jovem e tarimbado que gosta realmente de livros. Em seu site Angústia Criadora, desde 2011 ele vem nos mostrando isso através de resenhas lúcidas e cuidadosas e de entrevistas. Como se não bastasse, Ney parece não ter grilos com essa coisa de participar de oficinas literárias, apesar dos riscos (uma oficina deve ampliar as escolhas do aluno, não formatá-lo; mas esse papo fica pra depois). O que me leva a crer que ele é do time dos que trabalham e retrabalham a escrita. Encarando sua arte com esmero.

O Espetáculo da Ausência, lançado pela editora Patuá em meados de março, é um livro de contos com uma belíssima capa (precisamos falar sobre essas pequenas obras de arte, o excelente trabalho do artista gráfico Leonardo Mathias). Surpreendido em meio ao estrago que a pandemia nos causou e ainda vem causando, O Espetáculo da Ausência bem que anda merecendo um maior destaque fora do metiê, lugar onde teve boa repercussão entre os pares. O Ney tarimbado que apontei acima foi referendado por gente de renome. E ele bem que merece, diante do seu já extenso currículo que inclui resenhas para a imprensa, participações em diversas coletâneas e o seu trabalho como colunista de literatura na rádio CBN de Recife.

Pegando carona na apresentação de Raimundo Carrero, e roubando um de seus adjetivos, posso afirmar também que Anderson é um cara sofisticado – e parece que isso vai além do trabalho literário. Em seu livro, cada detalhe, fala e cada gesto nunca surge à toa. Fruto do bom observador que ele é, suas descrições são exatas, finíssimas (falo do cuidado e do critério, tipo lâmina e corte, não de pedantismo), sejam elas um cigarro aceso ou uma taça de vinho e alguns comprimidos. Ou até mesmo uma viagem de metrô onde um micro universo de vozes se impõe, num dos melhores momentos do livro (vejam o conto “Estação final”).

Com Ney não tem essa de acaso, considerando aqui “acaso” como aquela frase solta, desvinculada, perdida e inútil.

A forma com que as histórias são contadas demonstra em si um profundo respeito pelo humano, sujeito-objeto de sua labuta. E pelo o que esse mesmo sujeito esconde dentro de sua cabeça e de sua alma. O olhar atento do jornalista, aquela coisa do repórter que investiga, parece se misturar ao do escritor, vai o mais fundo possível, enxergando o monstro que habita dentro de nós, parafraseando numa boa outra das ideias do Carrero.

Já de cara a gente percebe o talento. Em “Máscara rasgada”, por exemplo, o primeiro conto, somos convidados a acompanhar bem de perto os passos e as escolhas do personagem, seguindo com ele como voyeurs de ocasião. Os passos que vagueiam por esquinas onde se “guardam segredos que poucos conheciam” são visíveis, palpáveis, mas sugerem e escondem muito. E o protagonista sem nome (recurso que potencializa o mistério) quando age, obediente ao próprio desejo, nos leva junto com ele, num momento que pode parecer ruptura, mas que, ao final, se mostra talvez corriqueiro – a imagem da máscara rasgada no chão de um apartamento dá o tom perfeito à ideia de nos mostrar que, ao menos em algumas noites, nenhuma máscara cabe, esconde ou serve.

Não demora nada para termos outras boas evidências. Na sequência, “Nana neném” nos arrebata diante de um sofrimento inesperado, e de suas consequências, enquanto que em “Neon horizontal” a mudança ágil de vozes e perspectivas, aliada aos cortes temporais feitos com precisão digna de uma navalha das antigas, nos prendem e nos empolgam sob o efeito de frases tais como “Quer algo mais estúpido e sem graça do que o nome morte? Mas para que adiantaria um nome bonito para a morte?”.

Não achem, contudo, que a obra pede convencimento através do uso batido de frases meio, digamos, filosóficas. Ainda que Ney, com sua tarimba, provavelmente conseguisse trabalhar nessa base, sem escorregar praquela coisa chata do “papo cabeça” que desvirtua a voz do personagem, as escolhas que ele fez para conduzir o livro se apóiam na simplicidade (o “papo cabeça” quando surge faz parte do conjunto e das intenções; a voz correta no momento idem). No encaixe exato, porém amplo. No gesto banal descrito abertamente, aquele movimento antes da ruptura ou mesmo da descoberta. Gesto que carrega um mundo de possibilidades, sugerindo algo, tudo contribuindo para que o conto funcione e nos agrade.

 

O diapasão Carver      

 

Outro ponto a ser destacado é a minuciosa forma de narrar esses pequenos momentos e fatos, recurso que sustenta o livro na maioria das páginas. Nessa riqueza de detalhes e na descrição das ações, pude identificar afinidades benquistas com o Raymond Carver, um dos maiores contistas que o mundo conheceu (em minha humilde e reverente opinião). Assim como o Carver, Anderson estica até o limite do possível suas histórias, gerando a tensão necessária para que não o abandonemos em qualquer rua à beira do Capibaribe.

Como bons exemplos, posso listar os contos “Tela em branco”, uma aventura meio pictórica, “A história nunca termina”, “Janela secreta”, “Já não sou o único que encontrou a paz” ou o já citado “Máscara rasgada”. A técnica que Ney usou para construir tais narrativas se parece com a do ficcionista Carver em seus melhores momentos. Contudo, ao afinar a escrita dessa forma, Ney conseguiu trazer para o contexto escolhido por ele (seus personagens, a comovente lembrança de seu pai e o lado mais sombrio e volátil da metrópole Recife) a influência do Raymond, sem, contudo, ser um imitador vulgar do estadudinense: em O Espetáculo da Ausência a influência do Raymond serve como um diapasão, não impedindo que Anderson siga firme na busca de sua própria melodia.

E não é só isso, obviamente. Em outros textos, podemos ver o autor que arrisca na forma e que usa da ironia para criar seu universo (“Contrato exclusivo” e “Todos os corpos”). Vemos também um escritor que constroi a profundidade em suas histórias, sem ser um janota, sendo “A casa vazia” um bom exemplo: a fundura nesse caso aparece de forma natural, como consequência e desdobramento do propósito do escritor, dos caminhos trilhados por ele.

Outro elemento que merece destaque, talvez pela surpresa que me causou, é o jeitão particular e eficiente de utilizar, sem vacilos, um pouco dos macetes comuns às narrativas de suspense e, por que não dizer, de terror. Aqui ele também dá conta do recado (“Um conto possível”).

Típico de quem gosta da literatura e de quem tem domínio sobre ela (ou seria um pacto, um acordo entre amigos?), a gente se depara com trechos marcantes, tais como:

“- A gente deve virar música quando morre.”

“Ambulantes gritam os preços de suas mercadorias, pessoas correm para entrar nos ônibus, outras descem dos coletivos, caminham a passos largos. Os amigos conversando amenidades. A cidade é dele. A agitação, o cheiro, as pessoas. O Recife do extremo calor. E ali, naquele centrão, tudo se encontra. Você sabe, não é, meu filho? Eu estou em cada pedaço dessa cidade.”

Ou então:

“E segue. Não acredito em literatura que não tenha uma base no real. Um real fantástico até, interessante e fora do comum. Preciso sempre que algo de verdade tome conta de mim e me faça querer escrever. Que seja mais forte e violento do que qualquer coisa.”    

Ainda que em alguns casos o Ney tenha, talvez por escolha, evitado riscos maiores – coisa que escondeu um pouco seu talento – temos aqui um grande livro a ser descoberto. E diante de tudo disso, a leitura das 33 histórias me confirmou a ideia de que Ney Anderson respeita demais o fazer literário. E que seus contos, trabalhados com primazia e atenção, são retratos humanos riquíssimos, um mosaico de “gentes” e almas que habita a cidade do Recife. Sempre vivendo no limite do limite de algo. Para o deleite de todos nós, leitores sortudos e, certamente, atentos e felizes voyeurs de ocasião.

 

Gustavo Rios é baiano e autor de Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Necrocidade e poesia brasileira

 Por Gabriel Morais Medeiros

 

“O ovo primordial”: Claudio Parreira

 

I

 

Tenho tentado refletir sobre a cidade enquanto não-lugar, enquanto deserto gentrificado e militarizado, em poetas do Brasil contemporâneo. E, necessariamente, sobre os discursos de resistência que esse estado de cerco engendra, dialeticamente, em algumas vozes do tempo de agora.

Fábio Weintraub é autor de um verso que resume bem a contra-urbanidade que nos atravessa: a de um “país sem ruas” [Treme ainda, 34, 2015].

Rampas antimendigo, sistemas de sirene, a telepatia sibilante das cercas elétricas, drones de vigilância sobrevoando a churrasqueira e as cascatinhas pornográficas; guaritas e catracas cravejadas em canteiros que já foram públicos, num sonambulismo quase necromante; cartões magnéticos para carros blindados, que emergem de vidros elétricos brilhantes como rímel, nas portarias biométricas, à ponta de unhas sedosas (verso de Eugênio Gianetti), sob a carranca de seguranças impassíveis como totens, agentes secretos ou psicopompos. Bolsões residenciais cujo acesso é bloqueado por tonéis gigantes de concreto; rondas noturnas, esparsas ou constantes, camufláveis. Cidade de túneis, simbólicos ou cimentados, corcundas: numa palavra, necrocidades.

Chegou-se há muito ao estágio da arquitetura do medo como espetáculo de si mesma. Nas periferias-condomínios fechados, as clínicas de criogenia guardam em seus bancos de tutano as raízes de uns dentes-de-leite, em prol da des-utopia de futuro genético de alguns rebentos. “Você comeria um hambúrguer de células-tronco?” [Tudo pronto para o fim do mundo, 34, 2019], pergunta Bruno Brum, num verso que podia constar na tabuleta de cada mallzinho à entrada de um residencial de luxo, como a reposição do velho emblema diante da Cidade Dolente. Só que ao contrário: reconquistem toda a esperança, vocês que acessam este lugar.

Aos arredores dos recantos de segurança, minimiamis, vias de trânsito rápido, viadutos, ausências de linhas de ônibus e passarelas espaçadas, de longe a longe, como as pernas longilíneas dos elefantes de Dalí: um território, basicamente, onde é impossível andar a pé, por nele haver muitos campos-de-força que repelem quaisquer alteridades, mendicâncias, laços de fraternidade e/ou presenças alienígenas.

Do outro lado das autopistas, refletindo as gated communities, opondo-se aos macrocamarotes, estão periferias-quebradas, com corpos à mira de remotos helicópteros, que pipocam com sua “hélices de carne”, nas palavras de Bolaño.

 

 

“Hitch”: Claudio Parreira

 

II

 

Nos belíssimos versos de Mar Becker [A mulher submersa, Urutau, 2020] pode-se ver, por outro lado, o que terá ocorrido com a necrocidade. Seu tempo é o da rememoração e, justamente por isso, o da composição profética. Em Becker, a necrocidade é eixo quase abstrato, evanescente, que aguarda a desaparição.

Para a autora, o meio urbano é o sussurro de uma falência, de uma hecatombe anunciada. “Vem, precisamos fugir da cidade/para muito longe”, dizia Lichtenstein, num poema chamado O passeio [Der Ausflug, 1913].

Becker também estoura esse tipo de aclimatação urbana. O mundo vai acabar. E este mundo, no entanto, o atravessamos! Por isso, A mulher submersa cintila como uma barra de transferência fluorescente, bruxuleando no leito de uma cratera oceânica, num enigmático código-morse.

Assim, a linguagem dos mortos, e sobretudo das mortas, dirige-se a nós através desse livro, por meio de uma cartografia doméstico-marítima, e enquanto marítima, imapeável, desolada e insubordinável:

“a mulher da região da serra sem fim lava a calcinha sempre no
banheiro, sob esse outro paradigma náutico – quando no vapor
o espaço-tempo resgata o mar como desolação.”

[serra sem fim]

Paralelamente ao tempo diluvial, A mulher submersa reergue uma cidade de baldios e assombrações, que nos prometem meandros e ressignificações, transmitidas sempre do país desconhecido. Este é um dos motivos que talvez insira a poeta numa categoria de vocalização da transcendência. Na poesia de Becker, as ruínas reemergem das lagunas, e os mortos apontam as saídas:

“na casa fabula-se outra casa. em ruínas”.

[serra sem fim]

A necrocidade, para Becker, é fase-em-devir, e não categoria estanque. É algo que se vasculha no passado, redimível após a catástrofe que a poeta profetiza. As ruas e os dias se apagarão nos azimutais congelados sob o granizo das calotas polares. Cada época sonha a próxima.

Faz-se necessária, por fim, uma palavra sobre a forma de seus textos.

Ela bem reflete essa condição de transitoriedade diluível. De vias-vascularizações diferentes: as ruas de um inferno que pouco a pouco resfolega, inundado, encharcado, rompidas as barragens de Guarapiranga.

Porque os fluxos verbais e compassos da poeta são longas frases rítmicas, aquáticas, cadenciadas, como uma lagoa de neve sombria sob o manto de Desdêmona, lua de Urano; os versos de Mar Becker demoram, aparentam e segredam melancolia e agouro. São um Grande Oceano da Espera, uma paisagem lunar; um golfo de metais pesados, muito tempo após a extinção do Antropoceno.

Só que, pensando em seus dizeres, será que neles não germina, da mesma maneira, uma intensa felicidade? A que nos promete um outro mundo possível, num reino que não é deste mundo?

Não nos injetaria a poesia de Becker, na superação da necrocidade, uma dose cavalar de alegria?

 

 

“Sempre!”: Claudio Parreira

 

III

 

O grande poeta Reuben, com seus falares estranhos e enigmáticos, também atravessa a necrocidade, mas de forma diversa. A temporalidade de seus mundos é mais a do presente, a do acúmulo, a dos lixões, e a do empanturramento.

O mundo-lixo, em Reuben, é zigurate colossal; em Becker, já foi varrido do mapa há 400 milhões de anos, numa inundação mítica. A coordenada de Reuben é a de hoje; a de Becker, o que terá sido hoje.

Cercadas por um labirinto em decomposição, as vozes de Reuben abrem caminho, cavam trincheiras, comungam desejos, mas também enxergam transcendências: emissões pélvicas de luz, amoras glórias da terra, reggaes das bacantes, peixes boi de boa: vê-se que a natureza é que lhe assobia com fulgor, com fins em eternos-retornos. E também as visões espaciais, dimensionais, com ele se comunicam. Estive aqui muitas vezes/ainda acho bonito é um texto que bem o demonstra, com seus lindos heptassílabos.

E o mencionado amontoamento de monturos, entroncamento da necrocidade, e umas caçambas abarrotadas, mas cercadas pela transcendência (a natureza e o espaço sideral), por sua vez, os vemos em:

“d vz em qd a areia me visita
urubus reviram o meio da ilha
boto fogo no corpo a pé na ponte a
astronauta a pé no gargalo do dia
longes lobos guarás assoviam”

[Estrelas brilham, mastigam lixo, Jabuticaba, 2019].

De maneira análoga, o sujeito em Reuben é o das corporalidades múltiplas, que nunca se esvaziam ou desvanecem; ameaçadas, no entanto presentes num território não abandonado, e ainda não varrido pelos paredões aquáticos da hecatombe.

Ameaçados, estão à mira: os caiapós, os kanoés, os ka’apor e os mendigos.

Os drones os caçam – porque toda necrocidade estende-se aos céus, e se fundamenta no domínio dos céus, a fundo. Suas raízes são as nuvens, os limites do globo. Teoria do drone.

/ temporada de caça / ao índio ka’apor / drones tele guiam / kanoés / caiapós / varis vivos / encobrem a cova rasa urubus farejam / temporada de caça / / a navalha / some / na mão do mendigo / noite revirada / corpos d caídos estrelas brilham / mastigam lixo / incorporo a navalha da prosódia dos mendigos / cada narciso / come da / própria sede / a cabeça do justo / / esmagada na parede/ sentenças / vendidas por / juízes / / sentenças vendidas /por juízes / / fazendas maiores que países /

[Escaldante, Livros-fantasma, 2017].

Estrelas brilham/mastigam lixo: os olhos carecas das câmeras dos drones abatedores, por um lado, e a corporeidade dos caçados, por outro. A garra drônica da necrocidade, abstrata e letal como o capital, versus a fuga entocada do catador, térrea e teimosa como a vida. A morte que pode vir do céu ou da canetada jurídica, etérea e abstrata em ambos os casos.

Noutras palavras, agressão versus resistência.

Não à toa, o poema, ao denunciar a caçada humana, bate de frente com o latifúndio, o hectare produtor de covas: o latifúndio, metáfora última da necrocidade e de sua contra-utopia, projeto necropolítico de um país sem ruas.

 

Gabriel Morais Medeiros (Campinas-SP, 1988) é autor de ‘Pornografia em extinção’ (2019) e de ‘Andrômaca, quarenta semestres’ (2016), livros de poesia publicados pela Patuá. Tem trabalhado como professor de literatura no ensino médio, desde 2007, em diversas cidades do interior paulista. É responsável pela Ofícios Terrestres Edições, micro-editora voltada a humanidades e literatura, criada em 2019. 

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Olhares

Olhares

Rupturas no silêncio

Por Fabrício Brandão

 

“Sem cara”: Claudio Parreira

 

Quem de nós é capaz de juntar os cacos do tal velho mundo? Essa pergunta ecoa há alguns bons anos em minha cabeça desde que escutei pela primeira vez “Pra começar”, canção composta por Marina Lima e seu emblemático parceiro e irmão, o poeta Antonio Cicero. À época, já sabíamos sobre qual contexto aquela música fincava suas bases de inspiração, principalmente a ideia de se pensar o mundo como algo passível de reinvenção a nosso modo. E a energia ali presente apontava para a cíclica dinâmica de um ir e vir, ou seja, desconstruir para reconstruir, respeitadas as devidas maneiras de compreensão pessoal das coisas, repertórios da individualidade.

Passadas algumas décadas, o hoje cada vez mais nos desafia a prestarmos atenção ao fluxo constante de transformações as quais estamos submetidos até mesmo inconscientemente. A própria ideia de não sermos produto acabado põe em xeque a tentativa de se cristalizar convicções. E estar em processo, num incessante devir, pode não ser questão de escolha, mas sim de como a torrente dos fenômenos que nos cercam demonstra nos afetar. Haveria, então, uma linha tênue entre desejar algo e mudar a rota pessoal pela interferência dos fatores externos a nós?

De toda forma, nosso mundo é um imenso mosaico de sentimentos e ruídos. E há de se desconfiar de quem apregoa linearidade absoluta em seu trajeto pela vida. Perpassada por idas e vindas, nossa existência dentro de uma complexa teia social cada vez mais não nos parece permitir uma passagem despretensiosa ou desavisada pelos fatos.

Dentro da lógica que reinventa as paisagens da nossa tenra humanidade, testemunhamos a expressão artística de um alguém como Claudio Parreira. Ao observarmos as colagens digitais feitas pelo artista, não há como o impacto não ser imediato se considerarmos muito do que foi abordado nos trajetos iniciais deste texto. Ora, vejamos: Parreira faz saltar diante de nossos olhos o rearranjo desse fragmentado mundo em que vivemos. E o faz com a habilidade de nos comunicar que os tais cacos de nossas experiências podem ser ajuntados sob outras formas de ser e sentir.

 

“Casal”: Claudio Parreira

 

Volta e meia, o pensamento de que não há nada de novo debaixo do sol insiste em nos rondar. No entanto, falar disso não simplifica e nem reduz as experiências tidas em matéria de criação. Pelo contrário, virtude maior é ressignificar os sintomas mais pungentes da vida. E é isso que Claudio Parreira faz com seu trabalho quando nos apresenta sua própria maneira de configurar as paisagens humanas e seus enleios.

As colagens de Parreira não são uma mera reconfiguração de formas e contornos. Elas nos mostram o rico vocabulário que advém de outros modos de se pensar a experiência dos mortais no planeta cada vez mais esquálido em que vivemos. É patente a verborragia que se abriga na arte dele, sobretudo por trazer à tona o poderoso efeito discursivo de suas imagens. E assim vamos sendo guiados por um imenso cenário no qual as inquietações afloram. Num mix que agrega provocação, crítica, memória, espanto, ironia e indignação, dentre outros atributos também possíveis, a expressão do artista em questão parece em muitos momentos representar um clamor. Diante de tamanhos ímpetos, caberia indagar ao que ou a quem tal demanda estaria direcionada.

Na confissão do próprio Parreira, quiçá uma revelação ou resposta: “gritos ao silêncio que querem nos impor”. Suas colagens digitais flertam com a ideia de manusear o absurdo e o incomum, ele ainda sustenta. Muitos conhecem o Claudio Parreira autor de contos e romances, contribuições literárias que já assinalaram alguns caminhos de reconhecimento pela palavra. Mas o que se agiganta agora, com a perspectiva visual, é saber que outras narrativas assumem seu protagonismo na trajetória do criador, aquelas engendradas a partir do gesto imagético que ousa desafiar apagamentos. A recusa ao silêncio é, em grande medida, um ato de rebeldia diante do avanço obscurantista que insiste em turvar o pensamento e as ações contemporâneas no quesito sócio-político, para não dizer em outros mais.

Na profusão de cores, caracteres e tipos, Parreira lança mão do diálogo entre o velho e o novo, da harmonização do clássico com o moderno, da coexistência entre seriedade e irreverência. E seu êxito maior é nos ofertar outros modos de abordar as nossas humanidades, deixando entrever a pulsação permanente da lucidez, espírito incomodado e atento, mas que não deixa perdidas pelo caminho fatias necessárias de bom humor, leveza e esperança.

 

“Contabilidade”: Claudio Parreira

 

* As colagens digitais de Claudio Parreira são parte integrante da galeria e dos textos da 137ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

ACERCA DO LIVRO CURSIVO MENOR DE ANTÓNIO VERA*

Por Maria Lúcia Lepecki 

 

 

É um caso raro de acontecer. Eu considero ser um privilégio meu estar aqui a apresentar uma pessoa que durante cinquenta anos escreveu para si mesmo, para a gaveta, e eventualmente, de vez em quando, para aqueles que, como o que está lá ao fundo [o editor], o quiseram publicar, não é verdade? É uma vida dedicada a uma fé. O autor acredita na poesia, acredita na palavra. Eu me sinto de facto comovida de poder estar aqui com ele hoje e gostaria de vos explicar com palavras muito simples, e não vou ser longa, o que é a poesia lírica. A poesia lírica é aquela poesia que mais de perto nos fala ao coração. Aquela que nós gostamos de recitar, aquela de que nos lembramos quando estamos a conversar com os amigos: olha, os sonetos de Camões; olha um poema da Natércia Freire… É aquele que se nos entranha por dentro.

A poesia lírica é uma espécie de conversa de uma pessoa com o mundo, é uma conversa quase secreta. Disse um teórico canadiano da literatura, Northrop Frye, que a poesia lírica é feita do eu para o eu, mas ela é feita também para ser dita ao outro, porque é evidente que ela é uma forma de comunicação. Disse o teórico Northrop Frye que, quando lemos a poesia lírica é como se fosse um ato de indiscrição, é como se a gente “tresouvisse” a privacidade absoluta do outro e é como se esse outro generosamente nos deixasse entrar naquilo que nós costumamos chamar, e bem, de “alma”; entramos na alma do outro pela poesia lírica.

Uma coisa que a poesia lírica tem de muito bonito e que nos faz gostar dela, é o aspeto ritualizado: ela tem um ritual, um jeito de dizer as palavras, um jeito de organizar as ideias que faz com que tudo fique musical e não é à toa que ela é chamada de “lírica”. É porque no início ela era acompanhada pela lira, acompanhava-se ao som da lira. Aquilo fazia uma junção da palavra com a pura melopeia que acompanhava essa palavra. O nosso amigo António Vera nos seus cinquenta anos de escrita secreta acompanhado pela esposa, com certeza que era a sua musa, já se sabe. Não é verdade, ou talvez até tocasse mesmo lira. Às vezes, no convívio de um casal, fazem-se muitas coisas ao longo da vida.

O nosso amigo António Vera tem no meu entender uma grande noção daquilo que faz a substância da poesia ocidental e da lírica ocidental. Essa noção é, em primeiro lugar, a da musicalidade. Ele tem música nos poemas, ele trabalha muito bem nas retomadas dos mesmos sons dentro do mesmo verso ou entre versos. Ele trabalha muito bem no ritmo, como é que ele quer que o leitor leia, com que pausas, com que forças, com que subtilezas de voz. Ele precisa disso, ele sabe fazer isso e, sabendo disso e precisando disso, ele se enquadra de pleno direito na tradição da poesia em que nós vivemos. Aliás, ele se enquadra também porque revisita formas da poesia. Ele faz, por exemplo, uma linda cantiga de amor, neste livro, como faz também sonetos, que são formas particularmente difíceis. O Couto Viana** e o Nogueira*** dirão: “mas o soneto é uma forma exigente”, o soneto pede uma disciplina mental muito grande para você construir uma ideia e chegar àquilo que se chama “chave de ouro” e, portanto, não é qualquer um que faz um soneto. António Vera tem preciosos sonetos e, daqui a pouco, lerei um deles.

Queria falar ainda um bocadinho, que eu não quero tomar muito tempo. Nós temos que pedir ao Papai Noel para trazer ao Fernando**** umas cadeiras de presente para o Natal para os próximos lançamentos, para podermos explicar melhor as obras literárias. Temos que explicar depressa [pois] com o pessoal de pé, não dá. Mas eu queria dizer uma coisa para vocês que é o seguinte: eu, no começo, disse que o lírico é aquele que se encanta perante a variedade do mundo. O mundo é variado, o mundo é diferente, o mundo é bonito, o mundo nunca é igual. O mundo é sempre uma provocação e o lírico sabe disso, e ele dialoga com o mundo e dialoga através de determinados temas que são também revisitados em toda a tradição cultural europeia e talvez mesmo universal, e que são os temas revisitados também pelo António Vera. Por exemplo, um tema fundamental é o tema do tempo. O tempo passa. Ele tem imensas poesias sobre o tempo que passa. E aquele tempo que passa e que ele retrata nos poemas é um tempo que simultaneamente dá a vida, porque evidentemente nós vivemos no tempo, mas traz a morte também. Porque o tempo é aquilo que nós vamos caminhando através de, não é verdade? E vamos chegar ao outro lado. Então nesse tipo de temática vocês encontrarão laivos de melancolia muito bonita, uma melancolia por vezes muito discreta, muito subtil; ele é muito discreto, ele não é um homem do dizer com muitas palavras, ele não é um homem de muitos adjetivos, ele é um homem do pudor do sentimento.

Um outo tema que ele tem, é o tema da morte e outro tema é o tema da natureza. São todos três temas privilegiados na nossa tradição. Quando ele trabalha esses temas, obcessivamente ele fala uma vez naquilo, depois ele torna a falar, depois no poema seguinte toca noutro assunto, depois retorna ao primeiro, vai revisitando a mesma preocupação, que é uma preocupação humana. O que é que ele está fazendo? Ele está fazendo aquilo que todo o poeta faz e que se não se faz isso não se é poeta. Ele está a estabelecer um lugar da sua reflexão sobre as coisas, ele pensa sobre as coisas, ele vai refletindo e quando nós refletimos sobre as coisas, é evidente que nós não pensamos nelas uma vez só. Para a nossa medida precisamos voltar ao mesmo lugar, tornar a pensar, ver como é que é, contar de novo. E quando ele estabelece esse espaço de reflexão e o revisita, ele então inocula na sua poesia aquilo que eu gostaria de chamar, António Vera, de dimensão filosófica. É a dimensão do pensamento que se constrói sistematicamente, retornando aos mesmos temas e tentando ver até que ponto aqueles temas pesam ou não pesam dentro do imaginário do ser e dos seus livros. Eu vou dar para vocês alguns exemplos, vou ler para vocês alguns poemas do António Vera:

 

4

da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.

quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?

responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.

 

17

crepita um vento fraco
na crista lúcida da onda.
colada à sombra do barco
desliza na água minha sombra.
planície, verde várzea,
móvel e falso espelho de deus,
retém a quilha, gela a água!
que vento, quilha, mar e sombra
sou eu.

 

38

verde o reflexo na folha iluminada.
sobre ele adeja a minha nostalgia.

agora lembro aquele antigo dia
feito de som e água.

e um quase nada
daquela cor
aflora aqui a relembrar a minha vida
que se esbate no ar
como o vapor da madrugada.

 

68

a solidão alonga pelo rio,
direita à barra, seu ventre de metal.
presa a estibordo, a dor, que vai partir,
tenta ficar soldada àquele pontal.
manhã nascente, é noite noutro rio.

passos nus, vacilantes, de um arrais,
timbram o silêncio de um som mole e cavo,
e um grito de sereia põe um travo
de acre certeza num manar de ais.
os sinais amarelos das vigias
abriram rumo sobre o rio plano,
enquanto em nós se abre um oceano,
em que naufragam terras e alegrias.

 

Ele tem espírito de humor também. De vez em quando os poemas dele são poemas de espírito de humor:

 

75

à mulher que mais amei
levou-me o vento um recado:
— perdoaste?
— perdoei!
ó vento, muito obrigado!

 

E agora é a revisitação, noutro poema, da poesia medieval da cantiga de amigo:

 

94

ai flores, ai flores do rosmaninho,
se sabeis novas de outro olor amigo,
trazei-mo de volta, de sândalo ou trigo,
trazei-mo de volta, que de respirar vivo,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

trazei-mo de volta, fazei-mo vizinho,
trazei-me um amigo, que não um cativo,
livre como o vento, vivaz como um vinho,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

ai flores, ai flores do rosmaninho,
partiram as barcas, eu fiquei sozinho,
salsugens, madeiras de pinho e de azinho
zarparam pelos ares, foram-se os amigos,
fiquei no azul, suspenso, sozinho…
trazei-mos de volta,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

 

* Texto que serviu de apresentação da obra quando do seu lançamento em Lisboa a 17 de dezembro de 1998, na Livraria Colibri da Universidade Nova de Lisboa.
** Referência a António Manuel Couto Viana (1923-2010), notável poeta português, dramaturgo, ensaísta, ator e encenador.
*** Referência irónica a um dos apelidos de Fernando Pessoa: Fernando António Nogueira Pessoa.
**** Referência a Fernando Mão de Ferro, primeiro editor deste livro.

 

 

ONZE POEMAS DE ANTÓNIO VERA

 

[sem título]

 

da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.

quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?

responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.

in cursivo menor, 2000, pág. 20.

 

 

[sem título]

 

a morte é um planeta inabitado,
donde partiram quantos ali foram
ou voluntariamente ou enganados,
buscando alojamento, paz, alfombra,
descanso para a alma, ou magoados
por não haver onde esconder a sombra.

tal planeta lá para oeste fica,
bem para trás do sol posto, onde se expande
o raio verde, com o fim do dia,

sarcástica mansão dos desenganos
dum mundo atafulhado só de vida,
mas que à vida responde só com vida
e aos desenganos só com desenganos;

onde o tempo-matéria se desfaz
com presteza contrária à da luz
e os calendários giram só pra trás

 

in palavras com rosto, 2000, pág. 75.

 

 

roleta

 

uma fonte, dois cântaros:
em um deles, veneno;
de um só tu beberás.

a tua sede aperta.

alguém te diz “és livre”;
alguém te diz “és cego”.

a tua sede é muda.

acerta ou desacerta,
mas beberás com pressa.

e, certo, serás livre,
nesse momento eterno,
que tu decidirás.

 

in as pestanas de Afrodite, 2001, pág. 29.

 

 

torre do bugio, pau de água

 

à beira de um tejo azul,
grosso pau de água soluça
verdes folhas enlaçadas
em forma de coração.

chora a tepidez dos trópicos,
chora por chica da silva
que lhe afagava o formato
de pau-brasil em ereção,

e os quindins de sinhá-moça,
ao passar por ele as mãos,
duas mil léguas pra lá
dum meridiano a oeste
deste que o ata por cá.

ai! porque as mãos de sinhá,
palmas de leite de coco,
levam-no ao bugio mirar
como se ele fosse um sinal:

a torre sendo um pau de água,
prantado à barra do tejo,
pelas águas enlaçado…
e as dobras das ondas fossem

as lamas das mãos de iá-iá.

 

in escrito na margem, 2003, pág. 43.

 

 

Esta apagada e vil tristeza
(agosto, 2003)

 

entre a piedade e o desalento
revejo monte e vale:
queimado quase tudo
sujos rios
pobres
desempregados
traficantes
bêbados de poder
e de arrogância
ou de mau vinho.

e indigno-me sozinho
comigo e o nosso mal:
terem-nos roubado
o gesto e a sanha
o número e a vontade
as luzes do saber
sequer a manha
de dar sentido e nome
a Portugal.

 

in sons que falam, 2004, pág. 100.

 

 

Flor de sangue

 

caem sonhos no poço onde cai sangue
arterial, contigo misturado,
como um pastor no meio do seu gado
segue o expirar da tarde estreme e langue.

e no poço flutua a flor do mangue
que no líquido vive – é o seu fado –
e no líquido morre: lado a lado,
vida e morte excessivas, força exangue.

é nesse espaço rubro, em quatro quartos,
que a terna flor, vivendo as estações,
dá sustento a nós dois, tornados plasma,

a circular no corpo, em sonhos fartos
de posse, de avidez de sensações,
ébrios da fina dor que entusiasma.

 

in de amor e desengano, 2005, pág. 108.

 

 

O Lacrimensor

 

chora-me ainda hoje
a minha morte breve
para eu saber
se ainda me memoras

medir-te as lágrimas
no rosto
bebê-las a correrem
plo teu corpo

tocar a minha vida e morte
em trasladado gozo

e evaporada a alma
dessas lágrimas
tomá-la dos teus olhos
tão bem vivos

in estrofes elementares, 2007, pág. 102.

 

Esconjurando o inverno

 

desde a raiz da minha vida
uma seiva de fé e de certeza
me sobe ao coração
e a tenho presa
no estame desta flor
que a ti entrego

põem-na entre os teus seios
…………esses meus amores
…………como os teus olhos
…………boca
…………quanto és

porque dessa união
nos nascerá um filho
primaveril e doce
a esconjurar invernos

 

in amor sempre e a seguir, 2009, pág. 31.

 

Português meu amor e língua minha

 

minha língua-mãe
confusa e linda
relampejas de luz
e crias trevas

onde flutua a tua omnisciência
que é dos nossos sonhos

o mar onde nos levas
a descobrir o mundo
o mundo avassalado
por capitães do lucro
e da ganância

esfarrapada e bela
velha e jovem
que outros irmãos te vistam
e alimentem
onde eu falhei vestir-te
de rainha

e te peço perdão
por esta minha torpe
insanável e tola
inconfidência

 

in folha a folha os dias, 2010, pág. 73.

 

Os pólos sensíveis

 

coração foi-me guitarra
quando coração havia
e o céu enchia e vazava
de meu amor e alegria

por isso eu pra ele olhava
e a melodia nascia

e havia uma pedra rara
que dentro de mim caía
e com ela me arrastava
a dias sem sol de luto
onde ninguém habitava
senão a mágoa sem fruto

mas sempre havia a guitarra

pra quem a tocava havia
dois mundos que se fechavam
mas que alternados se abriam
agora sonho o meu nada
cordas guitarra partidas

 

in o frio das metáforas, 2011, pág. 84.

 

Veleiro

 

qual a vela
salgada de um veleiro
enfuno e vou direto aos horizontes
sem escolher nenhum

eles que me escolham
extinto o raio verde da memória
a estrela da manhã
e a sua história

tanto que o vento sopra
sopra hinos
todos sacros de adeus

não voltarei

voltar é renegar o tempo ido
e isso eu não farei

 

in apostila (2015, edição póstuma), pág. 55.

 

 

BIOGRAFIA BREVE DO POETA ANTÓNIO VERA

 

Antonio Vera / Foto: divulgação

 

[José] António Vera [de Azevedo] nasceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 22 de junho de 1923, e faleceu na mesma cidade a 26 de dezembro de 2012.

Trabalhou desde muito novo: foi empregado no comércio, agente de seguros, funcionário da Contabilidade Pública. De 1958 a 1987 trabalhou nos Serviços da Emigração como representante do governo português para os assuntos da emigração nos países de acolhimento e, já no final da sua carreira, como técnico superior, veio a aposentar-se da ex-Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas. Ao serviço da Emigração fez inúmeras viagens, tanto por Portugal como pelo estrangeiro, entre os quais se contam a maioria dos países americanos, vários da Europa, assim como no Irã, tendo-lhe sido necessário dominar fluentemente o Francês, o Inglês, o Castelhano e o Italiano. Completou diversos cursos, entre os quais o Curso Complementar dos Liceus (secção de Letras), o Curso Complementar de Comércio, o Curso do British Council, o da Alliance Française e o Instituto de Estudos Sociais, tendo‑lhe sido conferido o diploma de Política Social pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Também frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde não concluiu estudos devido ao facto de não lhe ser permitido faltar ao trabalho para frequentar as aulas e por não existir ensino noturno. Entre 1947 e 1951 colaborou em várias publicações literárias, nomeadamente na Távola Redonda, fundada por António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, nas revistas Seara Nova e Atlântico, e fez parte dos amigos da Árvore. Exemplos de alguns textos publicados nas revistas citadas acima: Seara Nova: 13/9/47; 1/11/47; 24/2/49; Távola Redonda: 5.º e 7.º fascículos; Atlântico: n.º 5; e revista de Outono de 1951. Foi citado como um dos seus amigos no número da revista Árvore – Primavera e Verão de 1952.

Inscreveu-se como sócio na Sociedade Portuguesa de Autores sob o n.º 4824. Conviva e amigo dos poetas Daniel Filipe e Raul de Carvalho, confraternizou também com José Osório de Oliveira e José Terra. Mas, por dever de ofício e contínuas viagens, não lhe foi possível manter contactos estreitos com estes amigos e outros cultivadores das letras portuguesas. De 1972 a 1974 foi o principal compilador e redator de uma revista informativa editada pelo então Secretariado Nacional da Emigração, o Correio do Secretariado, e de uma revista para jovens filhos de emigrantes, o Boletim da Amizade. Em fins de novembro de 1975, numa viagem de serviço no navio Eugénio C, que fez escala por Génova, e em consequência de uma atribulada mudança de camarote, perdeu uma volumosa coletânea de poesias que tencionava publicar no ano seguinte. Ao empenho extremadamente dedicado de sua filha, Maria José de Azevedo, se deve a publicação da sua obra poética, a qual compreende onze volumes: dez publicados em vida e um volume póstumo. António Vera é também contista e publicou um grande número de artigos ao longo de toda a sua vida.

Da bibliografia ativa do autor contam-se os seguintes volumes: cursivo menor (1998); palavas com rosto (2000); as pestanas de Afrodite (2001); escrito na margem (2003); sons que falam (2004); de amor e desengano (2005); estrofes elementares (2007); amor sempre e a seguir (2009); folha a folha os dias (2010); o frio das metáforas (2011); apostila (2015, edição póstuma). Está em perspetiva a publicação da obra do autor nos países de língua portuguesa.

 

Maria Lúcia Torres Lepecki nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1940. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de Minas Gerais. Foi docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1970 (Professora catedrática em 1981). Membro do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), membro da Associação Portuguesa de Escritores (1975-1977), vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (1984-1986), conferencista e professora visitante em várias universidades (Salamanca, Oxford, Budapeste, Varsóvia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brown). Investigadora, crítica literária, ensaísta e infatigável divulgadora das literaturas e culturas de expressão portuguesa.

 

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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Fatos extraordinários e cenas do cotidiano na poética de Jorge Elias Neto

Por Shirlene Rohr de Souza

Dimensões
As palavras estão lá,
Com seus olhos atentos
A me observar do silêncio
(Jorge Elias Neto)
Jorge Elias Neto
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

Entre as vozes da poesia que se erguem neste tempo de tantas novidades e inquietações, este texto trata especificamente da lírica de Jorge Elias Neto, cuja poética se funda em uma linguagem que alterna violência e ternura, ou potência e fragilidade, e que revela, de uma forma ou de outra, uma convicção niilista. O ceticismo do poeta, contudo, não o paralisa frente aos dilemas humanos: a poesia é a sua ação que nasce de combinações de diferentes perspectivas, tais como impressões do seu entorno (“Nada menos humano, menos carnal que o verde”), observações da vida em cena (“A vida não é um jogo de baralho. Não poderei simplesmente dizer “passo”),  personagens (“Vó Bela! / O homem é assim”) e de imagens surreais (“Não me importo / com numerar as penas do cisne”).  Este ensaio trata das temáticas que se destacam na poética de Jorge Elias, cuja linguagem está plasmada em testemunhos do cotidiano e em convicções pessoais. Os temas, na poética de Jorge Elias, podem ser, em uma determinada perspectiva, colocados em duas esferas de interesses e situações: fatos extraordinários e cenas e ocorrências do cotidiano. Os fatos extraordinários, pela sua condição de eventualidade, ocorrem com menos frequência, mas são profundamente marcantes na escrita do poeta.

Os fatos extraordinários

Os fatos extraordinários se elevam acima dos fatos rotineiros. Alguns poemas de Jorge Elias Neto surgem de uma condição ou de acontecimento extraordinário; esses temas podem sair dos noticiários, mas também podem surgir de vivências de eventos marcantes. No primeiro caso, destaque para “Caligrafia do Bruto”, que revela o assombro do poeta com uma notícia de jornal; no segundo caso, destaca-se “Discurso para o cadáver”, marcado pelo evento da morte.

“Caligrafia do Bruto” surge de uma notícia chocante: sob as referências das matrizes greco-latinas e judaico-cristãs, o mundo ocidental ficou assombrado com a notícia de que uma mulher seria apedrejada até a morte, acusada de adultério e de ter conspirado pela morte de seu marido; o assombro provinha das inconsistências da acusação e da truculência do veredito dos juízes.

A jovem senhora comoveu o mundo quando a mídia deu visibilidade à sua história e, graças à estrondosa repercussão do caso, houve uma reação em cadeia mundial em seu favor: vários organismos internacionais emitiram pedidos de clemência, apelando para os Direitos Humanos e pedindo sua absolvição. Por fim, a pena de morte de Sakineh foi revertida em anos de reclusão.  Mas o que, de fato, aconteceu a essa mulher? Qual seu verdadeiro destino? Quantas sakinehs sucumbiram no anonimato sombrio das tradições religiosas, no oriente e no ocidente?

Se o corpo de Sakineh não foi apedrejado – sua pena foi revertida em chibatadas e reclusão – sua alma de mulher foi despedaçada, irreversivelmente ferida e machucada. Essa é a imagem capturada pelo poeta: a lapidação moral de uma mulher. Corrompida e maculada pelas leis dos homens, Sakineh, a mulher proscrita, nunca passou de mais uma das centenas de milhares de histórias que se encontram em mídias e redes sociais, fadadas ao esquecimento. Mas a violência da narrativa tornou-se perene na poesia de Jorge Elias Neto, para quem essa história representa mais uma escrita da barbárie nas letras dos homens, na caligrafia dos brutos. A barbárie não é o contrário da civilização, é apenas sua outra face, sua irmã siamesa.

Em contraposição à brutalidade da história de Sakineh, que circulava nas redes de internet, os versos do poeta também circularam nas redes sociais, constituindo assim uma resistência em rede contra a violência, de uma curiosidade perversa, da mídia: a poesia fez medrar a ternura de alguém que, como uma multidão de outros anônimos, não se conforma com brutalidade que se exerce sobre as pessoas em nome de uma religião, em nome do poder. Ao colocar o poema “Caligrafia do bruto” em circulação, de alguma forma lança luz sobre um problema universal: a condição feminina nas culturas do mundo cristão, islão ou pagão; a condição da mulher no Brasil ou em países da África, da Ásia, de todas as cidades, de todas as vilas, de todo o mundo. As mulheres são vítimas potenciais de uma intolerância social que impõe um jugo pesado sobre sua alma, seu corpo e seu destino. Silenciadas por um código moral violento, às mulheres cabe um lugar de desvantagem nas culturas do oriente e do ocidente.

Ao falar das damas do Século XII, Duby (2013, p. 110) parece se referir à realidade de muitas sociedades contemporâneas: “Existe assim um espaço fechado reservado às mulheres, estritamente controlado pelo poder masculino”. E não se trata de exceções: tacitamente, não se aceita a presença da mulher em posição de comando, e isso ocorre em todas as sociedades, ainda que em algumas as conquistas e o reconhecimento da mulher sejam mais evidentes. A vida pública é reservada a poucas personalidades femininas, pois insidiosamente grupos de forças tradicionais tramam contra a emancipação da mulher, contra seu sucesso e ascensão, sob o entendimento de que o lugar das mulheres é o recato do mundo privado, onde podem ser vigiadas e punidas, se ousarem tentar romper essa barreira. As conquistas femininas, com notável força a partir do Século XX, são evidentes e importantes, mas ainda pequenas, frágeis e restritas. A pena capital é uma realidade no mundo inteiro, seja pelas leis religiosas, seja pelos códigos masculinos: mulheres são humilhadas, violentadas, espancadas e assassinadas a todo instante. A poesia é impotente frente ao drama das mulheres, impotente frente aos males do mundo, mas ela não se cala e não se esconde frente ao que é extraordinariamente humano: a poesia revela os paradoxos e as dores desses tempos. O poema sublima histórias de horror. A poesia é o afeto do poeta.

“Discurso para o cadáver” trata de um dilema da humanidade: a morte. Ainda que a morte seja um fato corriqueiro do cotidiano, afinal todos os dias morrem pessoas, ela torna-se um evento extraordinário na privacidade dos lares, na intimidade de uma família, na organização de um grupo; a morte arranca as pessoas de sua rotina, fazendo-as pensar, cada uma delas, na própria morte. Assim, a morte constitui um fato extraordinário, sobre o qual o poeta tem muitas coisas a dizer.

“Discurso para o cadáver”, pois, é um pequeno monólogo dirigido a um cadáver. E apenas no título Jorge Elias Neto usa a palavra “cadáver” que, por sua natureza semântica ligada à morte, soa como matéria, puro objeto. A escolha dessa palavra reforça o posicionamento do poeta ante a morte: tudo está acabado. Segundo Houaiss, a etimologia da palavra “cadáver” é de origem latina, significando “corpo morto”; mas a intervenção popular vai além e associa “cadáver” a uma expressão latina: CArne DAta VERmem (Carne Dada aos Vermes). Seria a palavra cadáver, assim, uma sigla. A pessoa reduzida à carne. Na cultura popular, outra palavra contempla o significado de “cadáver”: a palavra “corpo”. Essas palavras traduzem com exatidão semântica aquilo que a morte representa: ausência de alma, ausência de espírito. Falta a vida.

Nos versos do poeta: “Do ponto / em que se parte / ― se esquece ― / o espectro / da carne / ― do irremediável”, outra escolha emblemática: “espectro”. Esta palavra, popularmente, é associada a fantasma. Contudo, a existência de fantasmas pressupõe uma continuidade da vida após a morte, em uma dimensão misteriosa e inexplicável. Ora, uma convicção niilista não permite tal interpretação, restando à palavra um sentido semântico muito diferente: “espectro” como “coisa”: “coisa vazia, falsa; ilusão”. A vida é uma ilusão. A morte é o fim da ilusão.

Em alguns versos o poeta reforça seu ceticismo categórico, carregado de lirismo telúrico: “A você, o privilégio / da dimensão / onde se plantam flores”. A terra, o fim de tudo, onde o “cadáver” encontra seu destino final, o sossego da extinção da alma. Ou talvez não: na dimensão da vida, alimentando os vermes, o cadáver inicia um novo ciclo de vida, adubando raízes de flores de todas as cores. Nas palavras de Arendt (2001, p. 57): “É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. Mas, enquanto o corpo está presente, acima da terra, o profundo respeito do poeta pelo cadáver, o qual faz lembrar que a vida é breve: “Teus olhos / não mentem / essa simplicidade / em dizer: / tão breve, a vida, enquanto saturamos / o ar”.

Os fatos extraordinários eventuais – uma notícia, uma morte ou acontecimento marcante – projetam-se em meio aos acontecimentos de rotina; chamam a atenção por algum motivo, por algum aspecto. A eventualidade é uma força esporádica que atrai o poeta, mas é, certamente, do cotidiano que Jorge Elias Neto pinça seus temas: nas cenas e ocorrências do dia-a-dia.

Jorge Elias Neto
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

Cenas e ocorrências do cotidiano

As cenas e as ocorrências do cotidiano fornecem os temas mais frequentes à poética de Jorge Elias Neto. O cotidiano, como substantivo, corresponde às ações que se realizam todos os dias, continuamente, ações que se repetem todos os dias, na vida de todos os indivíduos. Hannah Arendt (2001, p. 221) lembra que: “O único atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade é o fato de ser comum a todos nós”. Apesar de o mundo social ser comum a todos, pois, em sua rotina diária, todos o compartilham, as percepções são estritamente pessoais: o mesmo acontecimento pode ser aplaudido por uns e rejeitado por outros. Qualquer ruptura da rotina torna-se um fato extraordinário. Assim, todos os dias, as pessoas se movem em um mundo comum, ainda que, pelos seus sentidos particulares, esse mundo seja compreendido singularmente, por cada indivíduo. Hannah Arendt (2001, p. 221) desenvolve essa ideia e infere:

se o senso comum tem posição tão alta na hierarquia das qualidades políticas, é que é o único fator que ajusta à realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registram. Graças ao senso comum, é possível saber que as outras percepções sensoriais mostram a realidade, e não meras irritações de nossos nervos nem sensações de reação de nosso corpo.

 

Pelo cotidiano, o poeta, em sua singularidade, depara-se com ocorrências percebidas por todas as pessoas, mas sentidas singularmente por ele mesmo. Pelo caminho da singularidade, o poeta questiona certezas e verdades: as convicções estão instaladas em um ponto de vista, o qual apresenta uma versão possível, nunca uma versão absoluta. A poesia é sempre um outro ponto de vista possível. No cotidiano, a rotina se constitui de ternura, violência, dor, risos, expectativas e, no cotidiano do poeta, mesclam-se muitos elementos da vida sensível: saudade, lembranças, amor, família, morte, dor, frango com farofa, passeios, olhares perdidos no nada. Tudo isso, cenas e ocorrências do cotidiano, alimenta os temas da poesia de Jorge Elias. Tudo pode ser o início da poesia, como ocorre com “A poesia começa assim”, cujo segundo verso, demonstra que o poeta está mergulhado no cotidiano: “deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros”. Todavia, a palavra é a força capaz de desmembrar ou de desprender alguma ação, algum gesto ou algum objeto da realidade cotidiana, mas contra a qual ele se rebela: “jogar-se nos trilhos / para salvar a flor”.

É também pela expressão poética que Jorge Elias Neto demonstra sua profunda descrença em alguns grandes pilares da civilização, como a religião, há muito tempo tragada pela linguagem científica, pela lógica da economia e pela exatidão dos resultados apresentados por laboratórios renomados. O poema “Agora é tarde, pintei o muro” dá grande mostra do espírito cético do poeta que, em tom lacônico, afirma: “Comer todas as hóstias / na infância – de uma só vez – / só me serviu para matar a fome de Deus”. Contidos e serenos, esses versos confirmam a tese de T. S. Eliot (1989, p. 44): “o que conta não é a “grandeza”, a intensidade das emoções, dos componentes, mas a intensidade do processo artístico, a pressão, por assim dizer, sob a qual ocorre a fusão”. Dessa maneira, o poeta expressa a condição solitária do homem, sem amparo divino.

Adorno e Horkheimer (1985) advertem que a perda do apoio da religião na reconfiguração moral dos homens contemporâneos não levou as sociedades ao caos cultural, mas ao contrário, não há caos, tudo se movimenta em torno de um ordenamento pragmático do mundo: o arrefecimento da fé integrou um conjunto de forças que redirecionaram o mundo para um novo modelo cultural, submetido a uma prática econômica perversa e imperturbável. Para Adorno e Horkheimer (1985, p. 113), esse novo modelo “confere a tudo um ar de semelhança”. Dominadas pela racionalidade calculista e destruidora, as religiões não se prestam mais ao consolo: “O alento da cristandade / não sei se volta”. Todavia, se obsoletas como campo sagrado, elas ressurgem como uma grande feira de milagres. O vínculo entre o homem e as religiões não se rompe, apenas se corrompe: as religiões sucumbiram às leis do mercado.

Ainda como cenas e ocorrências do cotidiano, uma imagem chama a atenção do poeta: uma árvore morta, uma ingazeira. Na pressa, poucas pessoas reparam as árvores vivas ou agonizantes. Só reparam nelas quando são arrancadas por ventos e interrompem a passagem de carros e pessoas. Reparam e reclamam. O cotidiano exige pressa e emite imprecações. Mas o poeta faz uma reverência, afetuosa em “Poema à morte da ingazeira”, que também reforça o traço de visão niilista do poeta no verso “partir para o esquecimento”.

As cenas e as ocorrências do cotidiano constituem traços de uma poética que se consolida forte, coerente e vigorosa. Os versos de Jorge Elias Neto, de uma maneira geral, expressam diferentes sentimentos, de forma alternada: revolta, rebeldia, ternura, saudade, nostalgia, indignação, contemplação. Alguns poemas são notavelmente especulares, tais como “Seu Jorge” e “Nomear poemas”.  O uso do próprio nome indica um mergulho na própria alma, na própria atividade poética que realiza. O primeiro verso do poema “Nomear poemas” torna-se muito revelador e emblemático, considerando o conjunto de uma poética fortemente marcada pelas próprias experiências, lembranças e reminiscências: “No fundo, os poemas chamam-se Jorge”.

À sensibilidade do olhar do poeta para pessoas, objetos, cenas e acontecimentos de seu tempo, agrega-se ainda um importante diálogo com o sistema filosófico. Com uma linguagem intimista, serena, até mesmo melancólica, Jorge Elias Neto dialoga com questões universais, com muitas referências à vida e à morte, à dor e à alegria. A condição humana e os paradoxos da existência estão em sua poesia.

 

A caligrafia do poeta

 

“Os artistas são as antenas da raça”, afirma Pound (1997, p. 71). A afirmação do poeta-crítico-ensaísta é, com toda justiça, repetida em ensaios de crítica literária. Não seria tão frequente se não fosse verdade. A atividade do artista está relacionada a uma faculdade excepcional de ser sensível às ocorrências que a grande massa ignora ou não percebe. O artista se inclina para um detalhe, nuanças de um evento banal, mas indicativo de algo novo. Artista da palavra, o poeta se esgueira para um pequeno vão, de onde se lança com coragem ao mais profundo precipício, para um abismo onde se vê as raízes da humanidade; ou se lança ao voo mais alto, plainando sobre as paisagens gerais. O poeta capta o que é indizível e traduz seus sentidos em versos, revelando ao mundo seus significados. No registro das paixões, Jorge Elias Neto coloca o juízo da poesia no corpo frágil do verso. O poeta tem algo a dizer sobre as metamorfoses da vida e, no labirinto de palavras enigmáticas e enérgicas, sobre sua própria metamorfose: “(só sei transformar sapato em borboleta)”.  Na escrita potente e sensível de Jorge Elias Neto, a caligrafia registra cenas do cotidiano, bem como os fatos extraordinários. Mas não fala o poeta de si mesmo, para si mesmo: fala para outros. Escuta o poeta.

 

 

Referências:

 

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. De Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
DICIONÁRIO Etimológico. Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br/cadaver/. Última consulta em 14.set.2016.
DUBY, Georges. As damas do século XII. Tradução de Paulo Neves e Maria Lúcia Machado. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ELIOT. T. S. Tradição e Talento Individual. In: _____. Ensaios. Tradução de Ivan Junqueira. São Paulo: ArtEditora, 1989.
ESPECTRO. In: HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
ELIAS NETO, Jorge. Verdes Versos. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2007.
____. Rascunhos do Absurdo. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2010.
____. Os Ossos da Baleia. Vitória-ES: Secult, 2013.
____. Glacial. São Paulo: Patuá, 2014.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

Shirlene Rohr de Souza é professora Mestre da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, Campus de Alto Araguaia. O presente ensaio é vinculado ao Projeto de Pesquisa Poetas Críticos, coordenado pelo Prof. Dr. Isaac de Almeida Ramos (UNEMAT).

 

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102ª Leva - 05/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Da empatia ao conto – uma leitura de três grandes obras

Por Anderson Fonseca

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Existem escritores que são mais do que essenciais na construção do intelecto e da sensibilidade, são artistas plenos em sua vocação, cientes de sua natureza bizarra – inapropriada para o meio em que nasceram. Acidentes da natureza; o mais belo milagre. É preciso uma visão além da realidade, ser dominado por uma ótica que desvenda a verdade oculta sob o véu da aparência.  Raros são os escritores que nos despertam este olhar, por isso são essenciais numa leitura. Logo após tê-los lido, nos vemos a nós mesmos diferentes e tudo o que nos cerca. Alguns nomes fazem parte do rol dos grandes contadores de histórias, os quais com sua incrível imaginação moldaram o imaginário de milhares espalhados pelo mundo. Entre tantos nomes, escolhi três, cujas obras impactam quem as lê. Livros divertidos, inteligentes, bem construídos e singulares na sua produção, pois refletem a alma de quem os criou. É claro que, para sentir como também entender a ideia que cerceia uma obra, é necessário estar dotado de uma natureza empática capaz de compreender com aproximação sutil o espírito do outro. É um ato de amor a leitura e exige renúncia.

Desses três escritores que nos ensinam a arte de contar histórias, um deles é o autor tcheco Franz Kafka. No tomo Parábolas e Fragmentos, Kafka reescreve parábolas judaico-cristãs e elabora contos que não chegam a serem concluídos, mas nem por isso, percebe-se na fragmentação da narrativa uma incompletude, ao contrário, o fragmento torna-se uma nova narrativa, cujo significado é aberto e circular, isto é, há uma infinidade de leituras e desleituras da mesma estória. Nesta pequena obra encontramos clássicos da literatura kafkiana como O silêncio das sereias e Diante da Lei, assim como Poseidon e Da Justiça, etc. São pedaços de textos, todavia, não transparecem essa fragmentação. O que se nota é o trabalho de construção narrativa de Franz Kafka, uma linguagem bem trabalhada, ocultando em cada elemento articulatório um novo significado a ser descoberto.

 

 

Franz Kafka / Foto : Reprodução

 

Outro autor que vale a leitura é o escritor francês Pascal Bruckner e seu livro Bichos-Papões Anônimos. O livro é uma reunião de duas fábulas sobre a natureza das emoções humanas. O primeiro conto Bichões-Papões Anônimos narra a história do bicho-papão Balthus Zaminski que após 25 anos de atividades em comer criancinhas, promete a seu criado Carciofi “que nunca mais comeria crianças”. Apesar de resistir, seu instinto lhe fala mais alto. Ele que vem de uma família de bichos-papões, é tratado, após a morte de seu pai, pelo criado como um viciado, um doente, que precisa de tratamento clínico para abandonar o vício natural de comer crianças. Com muita insistência e esforço de Carciofi, Balthus abandona sua condição, não antes sem sacrificar-se em nome daquelas criaturas pelas quais, desde jovem, tinha uma nobre feição. O ato é cometido como um grande espetáculo no circo. Balthus morre lançando-se num grande caldeirão e seu corpo é devorado depois pelas crianças que assistiram ao espetáculo e que desconheciam o círculo natural da vida, aquele que come um bicho-papão torna-se também um. O segundo conto, O apagador, narra a história de Falcone, um velho triste e ranzinza, que cria uma fórmula química capaz de apagar os seres e os objetos. Mas sua intenção é apagar o rosto das crianças felizes que ele diariamente avistava. Falcone consegue afastar de si aquela felicidade, mas não completamente, havia uma criança cujo sorriso o afetava profundamente e por mais que lutasse a imagem de seu sorriso persistia em sua memória. São dois contos belíssimos, escritos com mestria, possuídos de uma ironia refinada, um humor suave e uma linguagem simples que se aproxima da ingenuidade ou naturalidade de narrar. Você lê as histórias e se envolve tanto com elas que esquece tratar-se de uma narrativa escrita; a sensação é de estar ouvindo-as.

 

 

Pascal Bruckner por Simon Tanner
Pascal Bruckner / Foto: Simon Tanner

 

 

O terceiro autor é Augusto Monterroso e seu pequeno livro de contos O eclipse. Monterroso, dono de uma linguagem que reproduz a narrativa oral com enredos fabulosos, o escritor gualtemalteco nos oferece três histórias exemplares de sua mestria na arte da narração. A primeira é o conto-título da obra. Em O Eclipse lemos a história de frei Bartolomeu Arrazola, que após ser capturado por indígenas na selva da Guatemala, planeja surpreendê-los com seu conhecimento científico e relata para os índios que sua morte provocaria um eclipse solar. No entanto, quem é surpreendido é o próprio frei, pois os indígenas maias já tinham conhecimento do eclipse. Assim, o frei que acreditava sair vivo da situação, é sacrificado para agradar ao deus sol. Outra história é o microconto Dinossauro, cuja narrativa, embora breve, nos proporciona inúmeras interpretações do evento. O conto Um de cada três é sobre um homem que recebe uma carta com a proposta de confidenciar seus prazeres e dores à milhares de ouvintes através de uma rádio. Ao ler a carta pensamos conosco quantos gostariam que apenas um dentre muitos ouvisse sua história, vida, sentimentos e recebesse de seu ouvinte a compaixão.

 

Augusto Monterroso/ Foto: reprodução

 

Três autores que juntos formam o pensamento de um contista. A leitura de cada construção narrativa acaba criando um modelo ideal para a elaboração de outros contos.  Por isso, vale a leitura. Mas de nada adiantará a leitura destas obras se não se permitir um sentimento empático pelo conto e seus personagens. Isso é mais do que necessário, é vital para o escritor que se deseja tornar.

 

Anderson Fonseca (Rio de Janeiro/Ceará) é autor do livro de contos “O que eu disse ao General” (ed. oitava Rima, 2014), considerado pela revista Eels um dos melhores de 2014, e da obra “Sr. Bergier & outras histórias”  (ed. Rubra Cartoneira, 2013).

 

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93ª Leva - 07/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Jorge Elias Neto: breve panorama

Por Marcos Pasche

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

Em A ideia de Brasil moderno (1992), o sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) diagnosticou com rara acuidade um dilema central do País: o todo é desarticulado de suas partes. Passadas duas décadas, a observação do sociólogo paulista permanece atual, tornando-se até mais expressiva, pois há pouco o Brasil alcançou o patamar de sexta economia do mundo e agora assiste à pior seca das últimas seis décadas que mumifica a região Nordeste.

Diferentemente do que se possa imaginar a partir do exemplo, a desarticulação vai além das vetustas antíteses de riqueza e miséria, centro e periferia, sul e norte. Mesmo no Brasil metropolitano há distâncias simbólicas inimagináveis para a contiguidade geográfica. Essas considerações me ocorrem ao pensar no Espírito Santo, uma das quatro unidades da região mais rica do Brasil (a Sudeste), que parece pagar pelo pecado onomástico de integrar um Estado laico. Para se ter ideia de sua dissonância em meio à região, basta verificar que o Espírito Santo é desprovido de universidade estadual, e que foi o único dos “sudestinos” a não receber jogos da Copa do Mundo. Pelo vínculo com Minas, Rio e São Paulo, o Espírito Santo está no Centro, sem, com isso, possuir centralidade.

O efeito disso para a cena literária é bem conhecido: uma nuvem encobre escritores de real interesse, os quais precisam fazer malabarismos diários para ter vez mesmo em sua região, quase sempre condenados ao apressado carimbo de provincianos. Só que autores como o ficcionista Reinaldo dos Santos Neves, o poeta Waldo Motta e o ensaísta (também poeta) Wilberth Salgueiro (nascido no Rio e radicado em Vitória há mais de vinte anos), dentre outros, demonstram que a produção literária local em nada deve ao que de mais representativo se publica no País, e isso se aplica igualmente ao poeta Jorge Elias Neto.

Capixaba, médico cardiologista e membro da Academia Espírito-Santense de Letras, Jorge Elias é autor de três livros: Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010) e Os ossos da baleia (2013). Conjuntando variação formal e temática, o poeta vem desenvolvendo um trabalho que requer atenção, seja por aquilo que o associa a significativas linhas de força da contemporaneidade, seja pelo que o coloca em certo afastamento, quando as linhas da mesma contemporaneidade revelam fraqueza e desinteresse.

Já em Verdes versos, o volume de estreia que agrupa quatro livros (Versos verdes, Viajante lunar, Vegetariano e Querença), esse movimento de pertença e refração se torna visível quando, por exemplo, alguns poemas fazem referência à verdade, essa palavra-conceito tornada tão espinhosa com a emergência do pensamento moderno. Tomado pelo caráter problematizador próprio do discurso poético, o poema “Desejo” não dá à ideia de verdade qualquer chancela de firmeza, o que corrobora um princípio intelectual contemporâneo: “Grito enlouquecido as minhas trôpegas verdades,/ para que se faça cruel o teu destino.// Imagino e sorrio como o falso profeta,/ para te ensandecer com verdades distorcidas”. Entretanto, noutros momentos não haverá titubeio para afirmações convictas, como se nota em “Pau a pique”: “Na alucinação de minhas necessidades,/ encontra-se a verdade”.

E qual será a verdade do poeta? Ele não o declara abertamente, o que induz à procura de pistas. Arrisco-me a dizer que a verdade de Jorge Elias Neto é a poesia, o que em tese é algo óbvio demais ao se falar de um poeta. Mas o que destaco na ideia da poesia como verdade é que, diferentemente do que se banalizou na pós-modernidade, a poesia de e para Jorge Elias Neto não se afigura um amontoado de palavras inócuas e inúteis, e por isso os poemas carregam o verdor consciente do que pode e deve significar o verbo para o mundo. Assim, o poeta aposta no sonho alvissareiro de estrato familiar e artístico em “Vó Bela” –

Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.
Recitando os versos de seus heróis sertanejos,
embalaste o sono do pequeno ávido,
e plantaste o sonho que agora luto
para não se esvair.

 

–, e, mesmo que desapegado de ícones tradicionais, reitera sua crença no afeto: “Cérebro ateu,/ em minhas mãos já/ não cabe uma cruz./ Mas em meu coração/ insisto em manter uma rosa” (“Oração de um urbanoide”).

Um olhar unilateral e incauto poderia apontar nos destaques exemplos de pieguice, derivados “naturalmente” de um poeta provinciano. Mas os olhares unilaterais e incautos não enxergam nos outros senão aquilo que caracteriza sua estreiteza de visão. Dito isso, verifica-se em Rascunhos do absurdo a confirmação da tônica dual da obra em análise, obra essa construída pelo olhar crítico que não prescinde da candura, pelo tom fagueiro avizinhado à abordagem do que fere e destrói. Assim, se “Régua quebrada” traduz uma arte poética singela e crente – “Insisto na ingenuidade da metamorfose/ (só sei transformar sapato em borboleta)” –, “Céu de bombas” evoca a realidade terrivelmente atual da Faixa de Gaza: “Em cada criança morta, sacrificada,/ um objetivo insano.// Despeço-me do dia/ sob flashs e bombas”.

Em nenhum momento a escrita de Jorge Elias Neto privilegia o formalismo, mas em Os ossos da baleia é evidente a meditação constante acerca da estrutura dos poemas, pois todos, embora nem sempre concisos, são grafados em discurso enxuto (Cf. “Uma carteira e seus sentidos”). O objetivo é dizer apenas com “O liso da casca”, para “despertar do torpor…/ A linguagem” e, além, “Revolver o leitor/ no espaço-tempo” (“Poema justo”). Como estamos procurando destacar, em Jorge Elias a afirmação de algo não ocorre sem que também se afirme um “outro algo”, até mesmo contrário ao afirmado anteriormente. Assim, se a economia verbal é a intenção do discurso preciso, não deixa de ser também a constatação de um impasse aflitivo para os poetas, isto é, o referente aos limites da linguagem e à impossibilidade de dizer: “Trago interrompidas/ as melhores frases” (“XXIV”, 2ª parte).

Como estamos traçando um breve panorama da poesia de Jorge Elias Neto, percorrendo a bibliografia que, até o momento, simboliza começo, meio e fim, convém rematar com um dos mais interessantes textos do último livro, justamente aquele que o encerra: “Dispo-me dos pés./ A liberdade essencial/ se aproxima…/ Finalmente,/ me chamarei:/ ninguém” (“XIV”, 3ª parte). Só que, dessa forma unitária, poderíamos incorrer em inconveniência, obstruindo o diálogo de crítica e poesia. Portanto, o espaço do fim faz-se o do começo e o do recomeço, e é por essa razão que retorno a Verdes versos – livro primeiro – e ao início desta intervenção – com seus comentários sobre o Espírito Santo – para evocar o alto canto de comunhão entre o poeta e sua terra – canto que, menino, denuncia a dissonância no presente e, maduro, faz coro com a fé no futuro:

 

Ilha, tua essência é verde;
teu maciço é verde;
a maioria de teus séculos foram verdes.
Verde é a esperança de teu ressurgimento.

 

Marcos Pasche nasceu e vive no Rio de Janeiro. É professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e crítico literário, autor de “De pedra e de carne” (Confraria do Vento).