Com quantas credenciais se faz um escritor? De pronto, a resposta pode apresentar perspectivas das mais variadas e, sem dúvida alguma, o caráter pessoal que cada criador carrega em si é quem dá a melhor tônica. A singularidade das experiências individuais parece mesmo apontar arejadas direções e, por assim dizer, configurar estratégias que derivam dos universos essencialmente particulares. Eis então o ponto de grande relevância: saber que um autor reproduz em sua obra toda a sorte de imagens e sensações que o atravessam de forma pungente.
Apartados das viciosas comparações, seguiremos pensando que aquele que escreve constrói rotas e saídas fundamentais para que seus textos digam respeito a uma espécie de traçado próprio da imaginação. Ainda que sejamos tentados a considerar que não existe nada de novo sob o sol, a matéria criativa sofre um fluxo de transformação capaz de conferir outras possibilidades de se contar a história do mundo. Daí que escrever é cruzar um deserto através do qual muitas imagens se turvam dada a imensa quantidade de referências em que mergulhamos nas nossas fugidias trajetórias de vida. E qual a solução mais adequada para não se perder em meio a esse turbilhão de informações e signos múltiplos?
Suspeito que um autor como Paulo Bono nos dê indicativos consistentes de que é possível erguer pontes e outras dimensões quando o tema é fazer das palavras aliadas de uma obra literária. Ao dizer isso, refiro-me ao fato de que ele encara seu engenho criativo como alguém que se lança para a literatura com o desejo genuíno de não se aprisionar aos ruídos impostos por certas limitações. Pelo contrário, Bono tem sido capaz de desacomodar pudores ao nos mostrar suas investidas literárias repletas de vida. E falar disso é reconhecer que o trunfo aqui está em desencavar e fazer desfilar ante nossos olhos de leitores toda uma sorte de cenários e personagens que encontram correspondência com aquilo que somos.
É esse Paulo Bono que agora entrevisto noutro momento de sua carreira, tempo que remonta aos efeitos do seu mais recente livro, Pepperoni (contos), lançado pela P55 Edição em 2024. Nunca é demais lembrar que a qualidade literária dele já vinha se delineando com os contos de Espalitando (Ed. Cousa, 2023) e o romance Sexy Ugly (Ed. Mondrongo, 2019). De posse de seu novo livro, Bono reafirma o compromisso de fazer de seu ofício de escritor uma representação coerente da vida que já mais podemos esconder, pois é ela que inalienavelmente nos constitui, seja lá quem formos. As provocações estão aqui postas nesta breve conversa, e delas ele não foge.
Paulo Bono / Foto: Vinicius Xavier
DA – Depois de Espalitando e Sexy Ugly, dois livros que são de fundamental importância para termos em conta as suas credenciais de autor, você agora nos oferta Pepperoni. No mais novo rebento, sua escrita está cada vez mais apurada e certeira, cujas narrativas revelam fragmentos instigantes de mundo, o mesmo mundo que às vezes tenta nos impor limites e pudores. Como foi estar nesse lugar de ver um outro livro surgir?
PAULO BONO – Costumo dizer que Espalitando foi um livro de blogueiro. A maioria dos textos já estavam prontos. E Sexy Ugly era uma história antiga que eu já tinha na cabeça. Pepperoni foi diferente. Só havia mato. Me senti um pedreiro a levantar uma obra. Acordava cedo pra trabalhar nas histórias, nem que fosse uma página ou um parágrafo ou uma linha. Digo, antes da labuta que paga as contas, eu tinha esse cartão pra bater. E como hoje leio um pouco mais, acho que eu era um pedreiro com mais ferramentas. Temas, personagens, diálogos, palavras proibidas. Levantei cada parede do jeito que eu queria (ou tentei), mesmo que ninguém quisesse entrar nessa casa. Me diverti escrevendo, mas também suei bastante. Então o bacana é que eu não vi o Pepperoni surgir. Sinto que trabalhei pra isso.
DA – Esse seu processo com o livro novo remete também àquela ideia de que a criação literária é algo que envolve certa labuta e constância, inclusive para além da tão batida inspiração. Escrever, para você, sugere algum tipo de embate consigo mesmo até que as coisas aconteçam de fato?
PAULO BONO – Altos embates. É antes de sentar a bunda pra escrever que a peleja acontece. Quando passo dia e noite pensando pra onde vai a história, o que quero dizer, como dizer e se vale a pena escrever. Será que tenho apenas uma ideia estúpida? Será que sou incapaz de escrever algo que preste? Pra que diabo nasci? Isso pode levar um dia, meses ou anos. A história pode até morrer pelo caminho. Já sofri mais com isso. Hoje, até porque não tenho pressa de publicar, vejo esses embates como parte da maturação da ideia. Numa dessas, levou uns quatro anos pro Pepperoni sair do forno.
DA – Nesse tempo que o livro levou para ficar pronto, como se deu a construção dele em termos de estrutura e escolha das narrativas e suas temáticas?
PAULO BONO – Depois do Sexy Ugly, eu só queria voltar aos contos, às possibilidades das histórias curtas. Não tinha em mente um livro, muito menos um tema que amarrasse tudo. Era só meu bloquinho de notas no celular com rabiscos e ideias de motes e personagens. Aí é interessante que o primeiro conto do livro foi exatamente o primeiro que escrevi – “Dr. Gori, o criador de monstros”. A coisa do garoto não ser o herói que desejava. Achei que a última frase dava pano pra manga. A partir dali, garimpei histórias de personagens que lutavam para ser alguma coisa. Surgiram ideias como o jovem que queria ser escritor, a mulher que não queria ser amada, o olheiro que queria voltar a ser bom, o cara que queria voltar a ser criança, o assassino que queria se sentir pleno e por aí vai. Cada conto com seu desafio de encontrar o próprio norte. Acontece que depois do livro finalizado, das releituras e tempo de maturação, achei que o que saltava daquelas páginas eram as falhas dos personagens. Como se o livrofosse uma timeline de traumas, medos, defeitos, egoísmo, machismo, estupidez, inveja, preconceitos, pecados, inabilidades, fragilidades diante do mundo e falta de sorte. Só que não como uma crítica ou num tom acusatório. Mas como um espelho de quem somos e a turma por aí tenta negar ou proibir de falar. Lembra do garoto que não conseguiu ser herói? Pepperoni é uma homenagem às nossas kriptonitas.
DA – Um dos pontos de relevância de Pepperoni é justamente esse elenco de personagens que de fato compõem nosso tempo. E você não se furta a colocar ali as mazelas derivadas dos comportamentos que atravessam essa gente, mesmo que expor tais feridas seja algo ruidoso nos dias atuais. Como é que se equaciona tudo isso em favor da literatura?
PAULO BONO – O ponto é perceber que essa gente sou eu, você, a vizinha, seu dentista, o padeiro, o presidente, sua cantora favorita ou o peixeiro da esquina. Quem vomita tais mazelas somos nós. Alguns apenas disfarçam mais, nem que seja apontando pro focinho do outro. É muito louco não poder falar sobre quem somos. Chega a ser uma ingenuidade suspeita achar que suprimir palavras e polir personagens vai curar as feridas do mundo. Há uma gincana de virtudes por aí que serve apenas pra ganhar likes e novos contratos. Esquecem que nossa riqueza é feita de luz e sombra. Esquecem que o que torna o super-homem mais próximo do ser humano é a kriptonita. É aí que rola um ponto a favor da literatura. Se o Instagram não faz o serviço sujo, abre-se essa lacuna. A literatura, como outro tipo de arte, está aí pra botar o dedo na ferida e mostrar como somos completos humanos.
DA – É interessante perceber que a figura de Deco Ramone, personagem que também está presente em Sexy Ugly, reaparece agora num dos contos de Pepperoni. Diria que essa escolha envolve a ideia de que sua obra está aberta a uma dinâmica que não se prende ao espaço e ao tempo?
PAULO BONO – O bacana é que o retorno de Deco Ramone era um pedido dos leitores do Sexy Ugly. A turma vinha com a ideia do personagem ser o meu Mandrake, o meu Bandini. Eu achava interessante. E um prequel que mostrasse Ramone no seu auge encarando figuras escrotas e dilemas morais caía como uma luva em Pepperoni. Trazer Ramone de volta é como revisitar a Lapinha ou Feira de Santana nas histórias. Como Gabo e Ubaldo tanto faziam com Macondo e Itaparica. Vai além de uma repetição temática. Ninguém é o mesmo ao longo do tempo. Nem as pessoas nem os lugares. Então abre-se mais uma oportunidade pra literatura. Reencontrar personagens e cenários, enxergar histórias por ângulos diferentes e por aí vai. É uma dinâmica divertida.
DA – Por falar em leitores, o quanto a recepção de sua literatura influencia nos seus processos de escrita?
PAULO BONO – É bacana quando alguém chega e diz que um conto fez rir ou chorar. Funciona como um empurrão pra gente seguir escrevendo. É o tipo de influência que dá um gás. Mas, durante o processo de escrita, tento não me preocupar com a receptividade. Tem uma turma que espera que eu escreva sempre a mesma coisa e outra que jamais lerá minhas histórias. Se eu pensar em qualquer uma delas, não saio do lugar.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Há quem lhe considere como sendo uma espécie de imitador de Bukowski. O que acha disso?
PAULO BONO – É uma impressão acertada. Tem até um conto em Pepperoni que canta essa pedra. O que lamento é a razão de afirmarem isso. A impressão que dá é que pinçam alguns sinais na superfície e pronto. Qualquer texto que tenha pau, xota e bebida recebe o diagnóstico automático de imitação de Bukowski. Uma visão reducionista sobre um autor gigante que escrevia com humor e ternura histórias cheias de humanidade. Quero dizer, eu apenas tento imitá-lo, mas não sou feliz na missão. Porém, conheço escritores de mão cheia que têm Buk como patrono — ou se preferir — imitadores de Bukowski. Imitação pode ser um ponto de partida natural. A gente tem por aí tantos imitadores de Machado, Clarice, Roth, Kerouac e Veríssimo. Imagine quantos Itamares Vieiras pipocaram como gremlins nos últimos anos. Já no meu bolso, vai a carteirinha do clube dos imitadores do Velho. Mas devo dizer que minha pseudo-imitação é promíscua e ordinária. Quando não tem paus e xotas, talvez seja difícil perceber. Mas em Pepperoni, tentei imitar também Vonnegut, Bradbury, Salinger e Rubão. Como obviamente não consegui, o resultado é Paulo Bono.
DA – A Literatura pode realmente tudo, inclusive não se deixar afetar por tentativas de controle ideológico ou toda sorte de censuras?
PAULO BONO – Não acho que ela esteja acima do bem e do mal. Mas, assim como qualquer tipo de arte, a literatura está aí pra controverter o que é o mal e o bem, subverter a ordem das coisas e chutar as fuças de qualquer tipo de controle ou censura.
DA – Nossa contemporaneidade tem mostrado uma atenção maior a temas que antes normalizavam desrespeitos e invisibilidades, sobretudo com relação a minorias. E isso parece ter ecoado também de forma significativa no terreno literário. Acredita que estamos um pouco melhores?
PAULO BONO – Estou com Chico Science. “Um passo à frente e não estamos mais no mesmo lugar”. O aumento da representatividade nas artes, mesmo quando a fórceps, ajuda bastante. Uma turma que estava fora do jogo ganhando a vez, ganhando voz, ganhando as páginas. Não sei, talvez o passo seguinte seja vencer as mesas nichadas. Que tenhamos essas minorias escrevendo mais humor, noir, romance, terror, ficção científica, imitando Bukowski ou quem quiser. É bom pra todo mundo e a literatura agradece.
DA – Trazer Pepperoni ao mundo simboliza qual momento de sua jornada como escritor?
PAULO BONO – Primeiro, acho que simboliza um amadurecimento como leitor. Li bastante durante a escrita. Não foi um lance de quantidade, mas de constância, releituras e descobertas de autores. Pepperoni é consequência dessa ingestão de nutrientes, de um tesão pelas possibilidades literárias. É também um livro que configura um senso de liberdade como autor. Não tenho rabo preso com temas nem curtidas. Não tenho uma caralhada de seguidores, nem quero ter. Não corro atrás de prêmios nem convites. Não vivo disso e nem vou ganhar dinheiro com isso. Só sobra a vontade de escrever. Escrever o que eu quiser. E isso é uma puta sensação de liberdade.
DA – Já lhe ocorreu a ideia do que de fato buscamos com a Literatura, sejamos leitores ou vestindo a pele de escritores?
PAULO BONO – Acho que é muito pessoal. Alguns buscam na literatura o que outros encontram na música, no surf, no bar, numa mesa de pôquer ou num pagode todo fim de semana. Uma espécie de preenchimento, alívio, sei lá. Aquela coisa de não viver sem isso. E talvez mais foda do que o que a gente busca é o que a literatura entrega. De repente, você abre um livro pra se divertir e leva um soco na cara. Você busca mistério e ele diz o que o jornal vai falar mais tarde ou por que toda reunião de condomínio é um inferno ou joga na cara que o problema é você. Nunca se sabe. Acho que a tal busca também varia na pele do escritor. Tem gente que escreve pra ganhar dinheiro, outros pra botar pra fora, outros pra matar o tempo e outros pra não enlouquecer. E estão todos certos.
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
O meu entrevistado é sabidamente uma figura prolífica no campo literário. E dizer isso não se alinha a uma ideia de que há em seu modus operandi uma busca desenfreada pelo volume das coisas, ou seja, por uma maquinação que, a qualquer custo, grafe palavras no corpo dos livros. Há nele o interesse aguçado na matéria que emana da vida, vislumbrando cenários, objetos e personagens diluídos naquilo que tanto denominamos de realidade. Acima de tudo, é um alguém confessadamente imbuído de confeccionar seus escritos através de um engenho esmeradamente arquitetado, mesclando estudo e pesquisa, dentre outros importantes atributos.
Falar de Marcus Vinícius Rodrigues, a quem já entrevistei noutras oportunidades, é também pensar o quanto sua obra, largamente situada no terreno da prosa, reflete uma predileção criativa que trata a própria Literatura como uma entidade organizadora de tudo, quiçá o que ele mesmo chama de mistério da criação, esse algo que provavelmente convoca autores a lidarem com os chamados do mundo que os abraça e constitui. É assim que esse autor vai nos envolvendo em livros como 3 vestidos e meu corpo nu (2009),Cada dia sobre a terra (2010), Café molotov (2018), A eternidade da maçã (2016), O mar que nos abraça (2019), dentre outros que engendram sinais de nossas humanas idades.
Mas a conversa que travamos agora para a Diversos Afins, em meio a uma entusiasmada troca epistolar de e-mails, coloca no centro o mais recente rebento de Marcus, o instigante Motel Mustang (2024), livro de contos que elabora, a seu modo, narrativas marcadas pelos efeitos de uma tragédia ocorrida em Salvador no fim da década de 1980. Nesta entrevista, é possível perceber o quão compromissado está o escritor em estruturar o seu ofício a partir de um projeto literário consciente e maduro, revelando pormenorizadamente ao leitor algumas estratégias que mobilizam e formulam suas criações. Mostra-se, pois, um alguém profunda e gentilmente disposto a compartilhar o universo que o faz seguir adiante, cultivando não somente palavras, mas também inquietudes.
Foto: Danilo Alves
DA – Partindo de uma tragédia real, você constrói o seu Motel Mustang. E é interessante perceber ali que a ficção ocupa um espaço privilegiado quando oferta aos leitores visões sobre personagens que perfeitamente poderiam ter existido, todas elas com trajetórias singulares, mas entrelaçadas pelo destino comum e fatídico. Na sua perspectiva de autor, a realidade também clama por alguma espécie de reinvenção?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Você inicia sua pergunta assumindo que eu parti de uma tragédia real para produzir um livro que privilegia a ficção. Na verdade, o processo foi o inverso e talvez eu possa dizer que tenha sido um acidente, um acaso, ou, quem sabe, um sopro de uma musa em meus ouvidos. Espíritos? Apenas o mistério da criação. Em maio de 2023, eu me dirigia à sede da Editora P55 para uma reunião. Já há algum tempo eu dizia a André Portugal e Marcelo Portugal, os editores, que eles deveriam fazer um livro coletivo (antologia ou coletânea). Vários escritores. Propus um livro erótico, que acabou sendo lançado e se chama Eros sobre os abismos, com Clarissa Macedo, Dênisson Padilha Filho, Kátia Borges, Rita Santana, Suênio Campos de Lucena, Victor Mascarenhas e eu. No caminho, no carro, me veio a ideia de fazer um livro sobre o Motel Mustang. Cada autor escreveria um conto que se passasse na noite da tragédia. Imediatamente, achei a ideia muito boa e resolvi escrever. Na reunião, apresentei os dois projetos. Na semana seguinte eu estava no centro de documentação do Jornal A tarde fazendo pesquisa.
Eu lembrava da tragédia ocorrida em 1989. É uma lembrança de ouvir dizer, de conversas das pessoas. Não lembro de ter visto as matérias nos telejornais. Devo ter visto, mas não lembro. Era uma lembrança sem imagens. A partir de 1991, eu passei a trabalhar na Avenida Suburbana. No trajeto, eu sempre lembrava do motel. Eu não sabia onde exatamente tinha sido e ficava imaginando onde ele ficava. Outra lembrança marcante foi que uma professora minha do ensino médio tinha perdido o marido na tragédia. Evidentemente, ele estava com uma amante. Essa é uma lembrança que também ficou enevoada. Não lembro se foi ela mesma quem falou ou se alguém falou dela. Com o tempo, eu passei a duvidar da história porque outras histórias semelhantes surgiram. Se todo mundo que dizem ter morrido no motel em situação de adultério tivesse mesmo morrido, teria sido muito mais que nove vítimas. Essa história de minha professora inspirou o último conto do livro (“O que se vê do alto”), primeira história pensada, já com a ideia de ir limpar a igreja para vender. Enfim, respondendo a sua pergunta: desde o começo eu pensei em usar a ficção para me aproximar dos acontecimentos. A minha pergunta íntima era: como as pessoas se sentiram. Eu quis entender o que é viver uma tragédia dessas; como é descobrir uma traição nessas circunstâncias; como é ver gente morrendo, como é morrer… e o que buscavam os clientes, quais suas histórias. Ao longo do processo de escrita e pesquisa, eu fui me aproximando mais e mais da realidade. Falo escrita e pesquisa, e não pesquisa e escrita porque, sim, comecei com ficção e fui adentrando aos poucos na realidade. Eu só consegui achar o inquérito policial no meio do processo. Mas eu já tinha o livro planejado e já sabia que a realidade, a tragédia em si, seria retratada no conto “O peso de tudo”. O livro foi escrito na ordem em que foi publicado, embora as duas histórias finais tenham sido as primeiras a serem pensadas. Na primeira pesquisa em jornal, eu li a frase “toalhas foram encontradas nas casas da vizinhança”, e essa notícia gerou o penúltimo conto, “A maciez da vida”.
DA – Interessante saber desses detalhes do processo de criação de Motel Mustang, pois eu já ia lhe indagar sobre como foi exatamente a pesquisa histórica que ele evoca, ainda mais em razão da obra apresentar trecho do inquérito policial, bem como o recorte de jornal que noticiava, em matéria de capa, a tragédia. Isso confere também certo reforço documental ao livro, uma sinalização ao leitor do seu embasamento na realidade. Ao mesmo tempo, é libertador saber que a Literatura não precisa ter compromisso com uma ideia de verdade comprovável?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Como você pôde ver, minha aproximação com o fato real foi quase por acaso. Ela não começa com uma pretensão de lidar com a realidade. Apenas aconteceu. Eu estava vasculhando na minha cabeça uma ideia sobre erotismo. A lembrança do motel foi um acidente. Uma pedra no meio do caminho. Peguei a pedra e transformei em uma direção a seguir. A escrita deste livro foi um processo único. Lá estava eu diante de um material real a ser trabalhado com minhas próprias realidades internas. Eu digo na orelha que é um livro escrito sob o signo da compaixão. É verdade. Aos poucos, eu fui me aproximando das pessoas reais que morreram, dos sobreviventes, das histórias íntimas vislumbradas nos depoimentos. Isso me fez olhar para minhas personagens com compaixão porque elas representam aquelas pessoas reais e todos sabemos o final trágico. É isso: eu tinha uma moldura trágica, ou seja, um destino inexorável, o desabamento. Quem entra no livro sabe disso. Então, coube a mim ficcionalizar, não a tragédia, mas os dramas particulares de cada um. Trabalhei muitos anos naquela região de Salvador, o Subúrbio ferroviário, como advogado de empresas de transporte coletivo. Naqueles anos, aprendi que, quando a tragédia chega, ela é obrigada a dividir espaço com dramas anteriores. Uma pessoa atropelada não é uma pessoa que vivia feliz e foi atropelada, é uma pessoa que antes já tinha seus dramas e suas infelicidades. Eu queria, no Motel Mustang, mostrar esses vários universos particulares que foram atingidos por aquele soterramento: o jovem e sua primeira vez; a mulher insegura do amor de seu namorado; o homem que quer ser aceito no trabalho; o casal gay que enfrenta a homofobia e o medo da AIDS; a mulher com seus conflitos religiosos; o menino que deseja se impor aos colegas; a mulher que redescobre sua libido; a mulher que descobre a hipocrisia da religião. Em meio a tudo isso, vislumbres da realidade: o garçom que ia se casar; o motorista e seu desamparo; o heroísmo do faz tudo; a camareira que não consegue salvar os hóspedes; o gerente que se sente impotente para resistir à opressão econômica. Até mesmo a dona do motel e sua crença em seres extraterrestres me interessa.
Eu fiz uma pesquisa extensa. Há muitos fatos reais interessantes e há, também, muitos fatos ficcionais. Eu lidei com aqueles que se me apresentaram inteiros, aqueles que acenderam primeiro, as primeiras cintilações de ideias. Ah! Se eu tivesse tendência à mistificação, diria que as personagens me escolheram. Muitas histórias reais e inventadas ficaram de fora. O fato de serem seis contos naturalmente exercia uma pressão para mais um, o sétimo, o tal número cabalístico. Resisti porque, desde o começo, tinha um desenho claro, uma partitura: a chegada ao motel, sua apresentação; os casais nos quartos na busca do amor no sexo; o momento do desabamento com todos os seus problemas reais e todos os sentimentos de morrer ou ver a morte; os saques do dia seguinte e o luto dos que perderam alguém. Não caberia mais nada além disso.
DA – Qual foi a sua maior sensação depois do livro ficar pronto?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Nossa! Deixa eu pensar. Vou elaborando enquanto escrevo. Sabe, tem uma coisa que estão falando ultimamente. As pessoas criticam quem diz que o filme ou o livro é baseado em fatos reais porque todo fato é real. Eu discordo e já mencionei isso acima. Existem fatos ficcionais, eventos inventados que são tão fortes que jamais poderão ser mudados em uma adaptação. Capitu tinha olhos de ressaca. Isso é um fato. Quando eu terminei o livro, eu tive essa sensação. Tudo que estava ali inventado era fato. Ou seja, eram pessoas e acontecimentos imutáveis. Alguns morreram outros sobreviveram. Eu sei quem são, embora não conte. E isso é um fato.
Essas personagens eu as vou descobrindo durante a escrita. Esta semana eu estava numa oficina de escrita para romance de Davi Boaventura e o exercício era dizer tudo da personagem, criar a personagem. Eu me dei conta que a personagem vai me aparecendo com o tempo de escrita. O próprio ato de narrar é quem me faz entender a personagem. Quando tudo dá certo, a personagem fica completa e viva. Elói, Iranice, Marta, Torres, Jackson, Terêncio, Luciane, Dinho, os pais de Dinho, Dona Mira, o pastor, Janaína… todos são reais para mim. As pessoas reais também se cristalizaram. Eu tive muito cuidado em retratá-las. Omiti os nomes e as mencionei pela função. Ao mesmo tempo, fiz um tratamento ficcional. Eu queria que o leitor sentisse a dor que eu senti com a morte do motorista e do garçom, por exemplo. Eu queria que houvesse uma conexão com eles. A dona do motel era uma personagem pronta. Sua crença em ETs declarada à imprensa jamais poderia ser inventada. Soaria inverossímil, mas a realidade é assim, não é?
As pessoas reais: sei que familiares do motorista compraram o livro. Foram à editora pessoalmente para isso. Não tive contato. Localizei um filho de minha professora. Ele não quis falar sobre. Foi educado e distante. Ouvi muitas histórias de pessoas que frequentaram o motel, tive notícias dos donos. Até meu irmão conhecia o dono porque as contas do motel eram da agência bancária em que trabalhava. É um evento conhecido pela cidade. Muita gente lembra. É estranho lidar com um material tão sensível, uma responsabilidade ainda maior.
Do ponto de vista literário, Motel Mustang é um livro que resume minha escrita. Estão lá todos os temas, todas as preocupações, os meus modos de fazer e algumas descobertas. É um livro com tantos assuntos: sexo, amor, morte, descobertas da juventude, a pobreza de Salvador, as crianças, o homoerotismo, a AIDS dos anos 1980. Há um olhar a respeito da mulher; há a crítica à religião, assunto que me interessa. E há os assuntos que interessam às caixinhas das pautas atuais. O livro já foi resenhado a partir do ponto de vista da catástrofe ambiental. As pessoas falam da crítica social. Enfim, tem de tudo. Mas para mim são pessoas.
Foto: Danilo Alves
DA – Essa sua última resposta é de uma profundidade significativa, pois trata dos seus mergulhos genuínos no engenho criativo. E não há como deixar de falar do modo como as suas personagens ganham vida ali no livro especialmente pela construção dos diálogos, pois você poderia apenas escolher ter narrado as histórias. Qual a dimensão do potencial que essas interações produzem na sua escrita na medida em que os protagonistas falam?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É tão bom falar de literatura assim: os modos de fazer, os truques de escrita. Gosto de falar truques e não técnicas, concepções, poéticas. Apenas truques. Hoje em dia as falas de escritores ou são o marketing do livro ou são os grandes temas da pauta contemporânea: a emergência climática, o racismo, a violência contra as mulheres, os lugares para as mulheres pretas, a visibilidade trans, a visibilidade lésbica (homens gays estão fora de moda), a periferia, “O tal Brasil profundo”, a discussão se existe “O tal Brasil profundo”. Dei muitas entrevistas no lançamento do Motel Mustang. O soterramento é um evento que desperta a atenção. Um bom marketing. Mas eu não pensei nisso quando tive a ideia. Já disse acima que eu estava vasculhando a cabeça atrás de uma ideia para livro erótico e acabei tropeçando na lembrança da tragédia.
Depois do lançamento, o livro encontrou a caixinha da tragédia climática e está ali perto da onda de histórias reais que vem junto com a autoficção. As histórias particulares reais. Toda a indústria da narrativa está voltada para histórias com um tempero de real. Eu chamo isso de “Literatura Gourmet”. Explico. Cozinha gourmet é assim: o cozinheiro (ou chef) diz no cardápio que aquela é a receita de sua avó italiana, que está na família há gerações, ou que aprendeu com sei lá quem. O caderno de receitas de minha mãe tem isso: umas receitas que levam o nome da amiga que lhe passou. Aí eu aprendi que tinha a Torta de Dona Nereida e sei lá mais o quê. Um dia a gente descobre que aquela receita é só um pavê igual a tantos e que não tem nada de especial. Mas ser de Dona Nereida, ser da avó italiana do cozinheiro “agrega valor”. A avó italiana é um clichê clássico e, claro, ser descendente de italiano nesse país parece ser alguma coisa. Ai, meu Deus, estou aqui arrumando inimigos. Deixa eu arrumar mais alguns: pra competir com a avó italiana, temos agora a avó filha de escravizados ou ela mesma escravizada. É importante uma memória mais palpável da escravidão. Acho justíssimo. Se os italianos e os judeus podem, por que não os descendentes de povos africanos? E são histórias nunca contadas.
Um parêntesis: acho que toda essa onda de literatura não urbana está ligada, também, a essa reconstrução da história perdida das pessoas descendentes de africanos. São histórias apagadas. Dou um exemplo da minha família: minha mãe, negra, sabe muito pouco de sua família biológica; sobre a família de meu pai branco tem um livro caseiro de um primo que recupera a história a partir do final século XIX. Acho muito estranho ser a partir do final, já depois da abolição. Como há muita lacuna, as narrativas de escritores negros e negras acabam se voltando para gêneros que estavam esquecidos. Não é por acaso os romances de sagas e de formação que passam por histórias rurais com ar de romance de 30. São essas narrativas construtoras que são necessárias agora. No futuro, os escritores negros também vão entrar na desconstrução. Antes que alguém me aponte o dedo, eu sei que há literatura desconstruída agora. O tempo todo tem de tudo acontecendo. Estou falando do que está em evidência. Só para que não me acusem de coisas, repito que são literaturas necessárias e de excelente qualidade. O que estou falando é outra coisa. Estou falando da recepção dessa literatura que leva em conta elementos externos ao livro. É isso que chamo de “literatura gourmet”.
O Motel Mustang caiu nessa. Ele interessa por fatos externos ao livro. A tragédia real agrega valor. Ainda são poucas as pessoas que querem conversar comigo sobre literatura, sobre a linguagem que eu usei… essas coisas que escritores gostam de falar, mas que pouco falam em público porque nas festas literárias querem que a gente fale das pautas do dia, com o agravante de falarmos — nós os escritores não tão conhecidos — para pessoas que não nos leram e jamais lerão. Eu quero falar das personagens falando. Os diálogos. Eu tinha narradores mais distantes, mais neutros, e acho que minhas personagens também eram mais introspectivas. Falavam pouco. Com o tempo, fomos ficando mais extrovertidos, eu, os narradores e as personagens. Se antes o jeito lacônico dos narradores contaminava as personagens, acho que agora são as personagens que, extrovertidas, contaminam o narrador.
O livro tem narradores em terceira pessoa. Ou melhor, tem um narrador em terceira pessoa que vai se contaminado pelas personagens. No primeiro conto, “O sol no meio da noite”, o narrador Elói e Miguel se misturam, às vezes na mesma linha de texto. Tudo muito coloquial. Há um vai e vem no tempo. Elói e Iranice, estão no presente, na entrada do motel. Miguel está com Elói no passado e em sua cabeça o tempo todo. Há quem diga que são três pessoas naquele casal. Enfim, tudo misturado e nervoso como é próprio da juventude das personagens. No lado oposto do livro, no final, o conto “O que se vê do alto”, tem personagens evangélicas. A linguagem, do meio para o final, é muito contaminada por isso. Quem cita trechos inteiros da Bíblia? O narrador, Dona Mira ou Dona Neide? É um conto com um final melodramático. Sofri muito para escrever a cena da vassoura. Na primeira versão ela batia no pastor com o cabo. Achei demais. Estava muito Walcyr Carrasco. Limpei, limpei, mas ela precisava varrer a cara do homem. Ainda acho muito melodramático, mas Dona Mira é assim. Esse é outro momento em que o escritor diz que a personagem tomou as rédeas. Na verdade, é a constatação de uma lógica interna da personagem. Dona Antônia, personagem do conto “A fresta”, que eu escrevi para a Diversos Afins, também é evangélica, cita a Bíblia, mas não faria esse gesto tão largo de varrer a cara de alguém. Bem, ela não perdeu o marido no soterramento de um motel. Ele está dormindo em sua cama com a barriga ocupando todo o espaço.
Outro conto que merece destaque é “O peso de tudo”, em que o narrador está próximo a Luciene, uma funcionária do motel muito católica e que tem aversão ao pecado do lugar. É a partir do ponto de vista dela que vemos a tragédia. Quando é preciso mostrar a encosta desabando, o conto é interrompido e entram alguns minicontos que mostram o desabamento por um ponto de vista objetivo, além de detalhes que aconteceram com as pessoas reais. Depois, o conto retorna de onde parou. Neste momento, o livro assume que não é um mero livro de contos, mas, sim, uma grande narrativa fragmentada em que o motel é o protagonista. Ainda sobre diálogos: o terceiro conto, “A face encoberta”, com o casal de homens, é todo em diálogos com um narrador quase inexistente para que o leitor descanse. Ele vem de dois contos de estilo muito enrodilhado e vai, depois, ler o conto sobre o desabamento, o mais pesado. Então, um conto em estilo simples dá um descanso. E ainda tem humor, apesar do tema ser homofobia, AIDS, morte. Pensei o livro como uma unidade. Por isso o terceiro e o quinto conto são mais suaves; o terceiro, suave na forma; o quinto, suave no tema. “A maciez da vida” é um conto esperançoso, um amortecedor entre “O peso de tudo”, com sua tragédia, seu horror, e “O que se vê do alto”, que é sobre luto e decepção.
DA – Bem sabemos que um motel é também um lugar de vivências clandestinas, tanto na questão do adultério quanto no explorar de horizontes libertários do desejo sexual, dentre outras possibilidades. Como é que você lidou com essa perspectiva na sua criação?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Neste momento em que escrevo, Salvador acaba de passar por três dias de chuvas muito fortes. Ontem uma pessoa morreu num deslizamento de encosta. Imediatamente, algumas pessoas próximas lembraram do Motel Mustang. Um repórter da TV lembrou do episódio ao vivo. Digo isso como quem prova que a camada de tragédia climática e social é bem evidente no livro. Mas, como já dito, é um livro de muitos temas, dentre eles, também como já dito, o sexo. O sexo é aquela centelha, aquele grão de areia que entrou na ostra e em torno do qual, camada por camada, se formou a pérola. Afinal, trata-se de um motel. Motel leva a sexo; ou melhor, sexo leva a motel, literalmente e do campo das ideias. Eu investigava sexo e a memória do motel se acendeu na minha cabeça.
Você falou de vivências clandestinas, do adultério e de outras. Sim. Há um adultério no livro e na história real. Ele não chega a ser encenado na página. O leitor é exposto apenas às suas consequências. Há um casal de homens gays que evidentemente se encontram às escondidas. Um deles, pelo menos, tem uma vida sexual hétero. Mas há outras dimensões de clandestinidade ligadas ao sexo. Escondemos nossos reais desejos dos parceiros e de nós mesmos. O sexo é soterrado pela religião, pelo moralismo, pelos traumas particulares da infância, pelo descompasso do que se é e do que se pensa ser… e, às vezes, apenas a clandestinidade objetiva do motel é que é capaz de revelar a real forma de uma pessoa viver sua sexualidade. Motel Mustang é sobre sexo e talvez seja o aquilo que ele mais é. Vamos por partes.
A primeira personagem masculina que que me ocorreu foi Torres, do conto “O amor movediço”. Vi no jornal que, no sábado posterior ao acidente, haveria uma Corrida da Infantaria. Foi assim que me ocorreu a personagem. Um homem que vai correr e não quer transar antes, mas precisa ir para o motel com a namorada. E o que ele faz? Aquilo que nunca fez. Dedica-se a dar prazer à mulher até que ela fique satisfeita. E quem é essa mulher? Marta está acostumada a não sentir tanto prazer, está acostumada à frustração, acha que a transa acaba quando o homem goza. Quando ela se vê recebendo sexo oral de uma maneira tão intensa, todas as suas inseguranças afloram. Eu queria que o momento de perplexidade e insegurança de Marta fosse durante o sexo. Eu queria uma cena de sexo absolutamente necessária. Normalmente, as cenas de sexo aparecem simplesmente por seu apelo. Os conflitos que as envolvem geralmente ocorrem antes ou depois. A maioria das cenas de sexo podem ser uma mera elipse. Mas a verdade é que, quando a gente está transando, a gente pensa em mil coisas, outros problemas, os sentimentos contraditórios sobre o parceiro. Acontece muita coisa durante. Eu queria Marta assim, conflituada enquanto tem prazer.
Outras mulheres do livro vivem seus conflitos. Luciene, de “O peso de tudo”, é muito católica e se incomoda de trabalhar em um motel, que considera um antro de pecado. Ela está dividida entre, na semana seguinte, assistir missa de Corpus Christi celebrada pelo Cardeal Primaz ou viajar com o namorado para Pojuca. Ela sabe que o namorado pretende transar com ela na viagem. O que decidir?
Em “O que se vê do alto”, Dona Mira, viúva do marido adúltero, relembra como ele a reprimiu quando ousou revelar desejo. “Ele disse que não gostava de mulher oferecida”. Submissa ao marido pastor, Dona Mira se recolheu. Na cama, esperava a iniciativa dele. Agradar o homem, sentir-se aceita por ele, esses são conflitos que as mulheres ainda vivem.
A mãe de Dinho, no conto “A maciez da vida”, tem um momento mais feliz. A chegada de uma toalha resgatada dos escombros do motel reacende sua libido. É ela quem toma a iniciativa de seduzir o marido novamente. Ele se deixa conduzir.
Em “O sol no meio da noite”, Elói é o jovem inexperiente que leva a namorada pela primeira vez ao motel. O conto não foca nela, mas é possível perceber como Iranice está mais segura que o namorado. Os leitores veem alguma atmosfera homoafetiva entre Elói e o amigo Miguel, principalmente na cena do carro. Eu acho que, se houver algo, isso aparece mais forte no fato de a voz de Miguel estar o tempo todo na cabeça de Elói.
Por fim, Jackson e Terêncio, em “A face encoberta”. O casal vive os problemas dos homens gays da década de 1980, o que não é muito deferente do que é hoje, a não ser por um aspecto. A Aids acabara de surgir e, exatamente naqueles dias, a Revista Veja publicou a famigerada capa com Cazuza: “CAZUZA, uma vítima da Aids agoniza em praça pública”. A presença da doença é o que provoca o afastamento do casal. O medo. O zíper emperrado é o símbolo óbvio. Há muita reflexão sobre sexo em Motel Mustang, sexo e morte, Eros e Tanatos. Pulsão de vida e pulsão de morte. No meio, toda a experiência humana. O livro se faz nessa tensão.
DA – Diria que, observando o conjunto da sua obra, você é uma espécie de “cronista” do cotidiano, escavador dessas minúcias que nos tornam demasiadamente humanos. É sempre desafiadora essa perspectiva?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Já algumas vezes, nos últimos anos, quiseram me relacionar com escritores cronistas da Bahia. Menções vagas. Isso ocorreu por causa de O mar que nos abraça. As pessoas se contentam em ver o que está mais aparente. No caso desse livro, havia uma Bahia na superfície. Para mim, entretanto, um aspecto menos importante que as pessoas retratadas. Serem baianas para mim foi um acaso. Aliás, no caso desse livro, a encomenda exigia que as histórias se passassem em bairros de Salvador. Acontece que, vencido esse requisito, eu quis mergulhar no íntimo daqueles adolescentes. Eu me aproximo das histórias a partir do que entendo que as pessoas estão sentindo. Foi assim que, em A eternidade da maçã, cheguei ao tema da ditadura. Ouvindo a música In the Hot Sun of a Christmas Day, de Caetano Veloso, eu me deparei com um eu poético que dizia que estava sendo perseguido, que eles já tinham matado outra pessoa. Foi essa sensação que me fez entrar neste universo. Aí eu fui tratar da ditadura, pesquisei, puxei pela minha memória, mas sempre para retratar aquelas pessoas que eu vislumbrei nas músicas de Caetano. Esse é meu método.
Eu tenho muita dificuldade de me explicar para as pessoas (ou de ser entendido por elas). Esses grandes temas sociais, políticos (que aparecem muito nos meus textos), eu não entre neles pela porta da frente, mas pela dos fundos, pelas janelas, pelas frestas. Eu não sou um escritor que se diz: oh, precisamos falar da ditadura, precisamos falar da violência, precisamos atacar a homofobia! Não. Eu miro na pessoa, na história íntima, no potencial romanesco do tal grande tema. Eu procuro a boa história e a boa personagem. Os grandes temas aparecem naturalmente, afinal não sou nenhum cretino. Mas — olha só que legal — os cretinos dão personagens incríveis. Eu não sou óbvio.
Me cobraram em Motel Mustang uma menção ao Candomblé. Eu respondi que não era o caso porque não é uma religião que tem problemas com sexo. Falei de cristianismos católico e neopentecostal. Sobre o Candomblé, acho que o nome da filha de Dona Mira foi suficiente. É um nome que aparece e se torna o estopim de uma cena forte no final do conto. Dona Mira não teria reagido como reagiu se o pastor não tivesse feito uma insinuação racista religiosa contra o nome da menina Janaína. É um livro inteiro com várias personagens negras e pretas e em apenas um ponto há um comentário sobre racismo, no caso, racismo religioso. Quem poderá saber por que um pastor chamaria sua filha de Janaína e não por um nome da Bíblia? Eu até sei, mas o leitor não precisa saber. É uma história íntima de Dona Mira.
Mais uma vez parece que não respondo sua pergunta. Respondo. Você fala de “cronista” do cotidiano, eu concordo. Cronista do particular e não da cidade. Eu olho para os pequenos acontecimentos, os pequenos gestos. Outro dia, falando na FLICA sobre algo próximo disso, dei um exemplo: “aqui desta cena, os escritores no palco e a plateia de estudantes, se eu fosse criar uma história, eu escolheria a intérprete de Libras, que está ali no canto fazendo a tradução. O que ela pensa? O que ela sente? Os braços doem? Ela tem alguém esperando? Ela acha essa conversa chata? Será que ela se atrapalhou em um gesto e disse para si mesma que não importa porque não tem nenhum surdo aqui? Ela certamente fala deficiente auditivo, mas nos próprios pensamentos deve dizer surdo, ‘os meus surdinhos’, ela dirá.” É claro que não usei essas palavras, contar uma história já é inventar. Mas que personagem rica pode ser uma intérprete de Libras, melhor que escolher um escritor. Escritores como personagens para mim são chatos. Cronista do cotidiano? Sim, talvez. Cronista do sentimento, quem sabe. Eu quero saber o que as pessoas pensam e sentem sobre o que vivem. Cronista de mentalidades.
Foto: Danilo Alves
DA – A Literatura pode ser o engenho em que o autor está para além dos domínios de certas especialidades, ou seja, ele pode discorrer sobre campos diversos do conhecimento, até mesmo inventando uma teoria a ser defendida por seus personagens. Tal prerrogativa lhe soa atraente em alguma medida?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – No meu livro Cada dia sobre a terra, no conto “Segunda-feira”, a personagem protagonista, uma jornalista branca já com alguma idade, tem um discurso em que se pode perceber o seu racismo; em “A alma do diabo”, do livro A eternidade da maçã, o Major Andrade fala da necessidade de torturar subversivos e de como entregou sua alma a Deus. São personagens com pontos de vista bem definidos. Eles defendem suas posições racistas e ditatoriais, enquanto os contos existem justamente para criticar seus comportamentos. Não aparece ninguém com uma fala antirracista ou com um discurso contra a ditadura militar. São as histórias e os jeitos como são contadas que permitem que o leitor, no processo de interpretação, perceba o quanto aquelas condutas e formas de pensar são deploráveis.
A palavra tem um poder muito interessante. A gente consegue colocar uma imagem dentro da cabeça de uma pessoa. A fotografia mostra e o observador tem de aceitar aquela imagem. A palavra faz diferente. Ela inocula uma semente na cabeça do leitor, que criará a imagem a partir de seu repertório. O mesmo acontece com a ideia, a teoria, a ideologia. A história semeia e o leitor cultiva seu pensamento. É preciso repertório. É preciso confiar no leitor. Aqueles livros de ficção que produzem discurso pronto entregam para o leitor a árvore inteira sem opção de um pensamento a ser cultivado. Ok, a pessoa aprende. Pode funcionar. Mas é como se deslocar levado por um carro. Você chega ao ponto final, mas não desenvolve músculos. Melhor é que a história faça o leitor refletir. É como andar de bicicleta. Você chega ao ponto final com mais dificuldade, mas ganha musculatura.
Na maior parte das vezes, minhas personagens são incapazes de produzir um discurso organizado sobre qualquer coisa. Elas estão experimentando a perplexidade de viver. Estão perdidas. Elas não poderiam ajudar ninguém. Não sabem as respostas e, às vezes, nem a pergunta. Eu até quero dizer certas coisas, mas entre mim e o leitor tem um narrador e suas personagens. E meu processo de escrita é um processo de sedimentação. Eu vou colocando camadas em cima da ideia inicial. É um meticuloso processo de recalque. Eu vou empurrando as coisas para baixo e amassando com os pés. Tem de cavar muito para chegar àquilo que era antes de o conto ser o que se tornou.
DA – A quantas anda o Marcus Vinícius poeta?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eita, uma reviravolta na trama. A resposta é: não sei. Deve estar adormecido. A última vez que escrevi poemas foi há alguns anos. Era uma encomenda para uma antologia. Escrevi e gosto muito do que fiz, mas, na hora de publicar, me mandaram um contrato em que, praticamente, eu cedia os direitos dos poemas definitivamente. Me tiraram da antologia, amizades se desfizeram e eu escrevi um poema chamado “Quiseram roubar o poema”. Alguns desses poemas foram publicados na revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional. Há um livrinho pronto. Um dia lanço. Meu último livro de poesia foi o Manual para composição de vitrais, que foi escolhido para sair pelo Selo João Ubaldo Ribeiro. Eu não penso muito sobre poesia. Ela não me ocorre do nada como acontece com a prosa. O tempo todo eu tenho ideias de livros de contos e romances. Poesia, não. Se me encomendarem alguma coisa, eu acho que sai. Em algum momento vou me debruçar novamente sobre a poesia. Ou não. Ou talvez. Quem sabe?
DA – Nos últimos anos, você tem experimentado a faceta de entrevistador, conversando com autores de diferentes estilos, e parece estar bem à vontade com isso. Essa escuta e troca de ideias lhe ajuda a pensar também sobre sua própria trajetória?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Quem me levou à função de entrevistador foi minha amiga roteirista Carollini Assis. Ela me convidou para mediar algumas mesas do Festival SSA-ADAPTA e as pessoas gostaram muito, e eu gostei muito. Não fiz meras mediações, fiz entrevistas. O formato do festival ajudou porque era um evento sobre adaptação literária para o audiovisual. Então, estavam ali, por exemplo, dois entrevistados falando da mesma obra: o escritor e o adaptador. Entrevistei Milton Hatoum e Maria Camargo sobre o livro e a série Dois Irmãos; Marcelo Quintanilha e Heitor Dhalia sobre o quadrinho e o filme Tungstênio, entre outras entrevistas com escritores. Depois dessa experiência, peguei gosto. Fiz e faço o programa Palavra & ponto, no YouTube da Academia de Letras da Bahia; o programa Letras da Bahia, na Rádio Excelsior. Atualmente, além do Palavra & ponto, apresento o programa Livros à mão cheia, na TV ALBA.
Sobre pensar a minha trajetória a partir das entrevistas com outros escritores, a resposta é: não pensei. São posturas muito diferentes. Opostas. O escritor acaba se voltando para si mesmo. Não porque fale de si, nada disso, ainda que ocorra bastante. Vou dizer melhor. O escritor acaba se isolando na própria literatura. Ainda não está claro. É que o escritor, aos poucos, vai criando um espaço em torno de si. A cada livro, um mundo de coisas. Um mundo de mundos. Mitologias particulares, recorrências, autorreferências, estilo… essas coisas terminam por isolar o escritor. Ele vive lá dentro da própria loucura e nós, leitores e entrevistadores, os visitamos.
O entrevistador, já adiantei, é aquele que deixa o próprio mundo para olhar o do outro. Ele quer entender as leis daquele novo lugar. Claro que o entrevistador tem uma história, um repertório, mas sua postura é antinarcísica. Ele quer ver o outro, e não um reflexo. É só assim que funciona. Entrevistar é ouvir, ouvir ativamente, ajudando o entrevistado a se organizar na fala. A gente procura entender e embarca na loucura do outro. Eu estou falando de entrevistar escritores, não políticos. Com políticos a gente não pode embarcar na loucura, é preciso denunciar as incoerências. Do escritor o que se quer são justamente as incoerências e os atos falhos, senão como é que os teóricos da literatura vão ganhar pontos no Lattes? Tem de dar trabalho pra esse povo.
Eu gosto muito de ouvir. Não por acaso, no começo da vida, dos 20 aos 28 anos, fui voluntário do CVV, Centro de valorização da vida, uma instituição de prevenção ao suicídio, que se baseia na escuta. A pessoa liga e fala. O plantonista escuta sem julgar, sem aconselhar, apenas se fixando na emoção da pessoa. É um trabalho de apoio emocional. Já faço a propaganda. O número nacional é 188. Basta ligar. Minhas entrevistas têm um pouquinho desse jeito de voluntário do CVV. Só um pouquinho porque eu provoco, brinco, direciono a conversa aqui e ali, mas sempre ouço atentamente. Uma vez, um entrevistado usou uma palavra típica de uma religião e, depois que ele acabou o raciocínio, eu voltei à palavra de maneira bem discreta para ver se ele queria falar daquilo. Ele falou e isso ajudou muito a entendê-lo. Ele não falaria se eu não tivesse percebido o tipo de discurso.
Minhas entrevistas não têm um roteiro exato, fechado. É como faço na minha escrita. Eu chamo de estrutura de corrida de rally. Eu tenho uns pontos de controle, locais por onde quero passar, mas o caminho até eles é incerto, depende de muitas variáveis. Hoje, no Livros à mão cheia, esses pontos são os livros do entrevistado. O programa pretende passar por todos os livros para entender obra e autor. Às vezes, há desvios enormes e alguns livros não são tão explorados. É um programa de televisão com tempo certo. No Palavra & ponto, a conversa pode ser mais verticalizada. É isso: O Livros à mão cheia, panorâmico, visa o horizonte; o Palavra & ponto é um mergulho. Eu os concebi assim desde o título.
O que essa experiência contribui para eu pensar minha literatura? Acho que conheço ainda mais o que se produz hoje porque li livros que eu não teria lido se não fossem as entrevistas. Deve haver consequências, mas não sei dizer quais.
Foto: Danilo Alves
DA – De todo o seu tempo com a carreira literária, qual percepção você tem hoje de como ela se construiu? O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Agora vou ter de cair no clichê e dizer que é um processo de aprendizado. Eu queria ser escritor e não sabia nada. Não estou dizendo “hoje eu olho para trás e vejo que não sabia nada”. Não é isso. Eu sabia que não sabia. Na poesia, talvez não. Talvez eu tivesse essa sensação de saber. Poesia é tão abstrato. Quando eu escrevia poemas eu tinha certeza do que estava fazendo. Talvez não seja um acaso minha poesia ser irregular. Foi o que me fez estrear, é verdade, mas, olhando retroativamente, aquele não é um grande livro. Ingênuo. Na prosa é diferente. Eu sempre tive dificuldade de escrever. Escrevi poucos contos antes dos trinta. Nenhum foi publicado. Escrevi pouco porque era difícil — uma dificuldade de não saber como e uma dificuldade física, é cansativo. Eu brinco que, se não tivessem inventado o computador, eu não seria prosador. Continuaria nos poemas curtos.
O fato é que efetivamente eu estudei para ser escritor. Fiz todo tipo de oficina. Hoje noto que, embora eu seja fascinado por Lygia Fagundes Telles, meus primeiros contos publicados — e os anteriores — pareciam mais influenciados por Clarice Lispector. E falo isso no mau sentido da expressão. Sabe essas pessoas que não sabem contar uma história e ficam emulando Clarice com filosofices? Contos curtos. Eu não tinha uma noção de como fabular, inventar histórias e personagens. Acho que, aos poucos, fui melhorando. Eu não sabia fazer diálogos e não fazia porque tinha medo de fazer diálogos ruins. O conto “A omoplata”, todo em diálogos, surgiu de um exercício a que me obriguei. Eu me disse: vou fazer um conto só com diálogos. E deu certo. O conto ganhou um prêmio nacional e fez as pessoas me notarem. Outro grande momento para mim foi o conto se tua mão te ofende, que foi publicado como uma novela. Em arquivo word tem apenas trinta e três páginas. Levei quatro anos para escrever. Eu queria que ele tivesse uma extensão suficiente para figurar sozinho num livro da Coleção Cartas Bahianas (livrinhos de 48 páginas em forma de envelope). Foram quatro anos tentando ampliar a história e construir as motivações da personagem para a cena final melodramática. Tenho voltado para esta cena ultimamente porque Dona Mira, de Motel Mustang, age de maneira melodramática contra o pastor do mesmo modo que Lúcio agiu contra a imagem de Jesus. Não é por acaso que tema e forma reapareçam juntos. Deve ter algo aí que não me cabe investigar. Os contos, as personagens, eu, estamos todos nos abrindo mais.
A um contista sempre fazem a pergunta: e o romance? Aliás, não. As pessoas não perguntam assim de maneira sintética. Só um contista pergunta assim. Quem dá mais valor ao romance pergunta: quando você vai escrever um romance?
A eternidade da maçã e Motel Mustang são livros de contos que cumprem a função de romance. Eles estabelecem um painel social como os romances fazem. E numa época em que os romances estão sendo desconstruídos até virarem fragmentos, eu posso ser confundido com romancistas descontruídos. Talvez estejamos no mesmo lugar, mas os movimentos são no sentido inverso. Eu estou caminhando para um romance e os outros estão se afastando. Mas eu acho que meu romance, se vier, vai ser um romance de contista. A narrativa longa de quem só escreve romances é diferente de quem escreve contos. Eu não sei explicar com muitos exemplos, nem quero me comprometer. Mas há livros de contos que a gente lê e pensa: isso devia ser ampliado para um romance. E há romances que têm uns detalhes e umas estratégias que só o conto nos ensina. Não estou fazendo juízo de valor (qual o melhor). São características que eu percebo. Posso estar enganado, mas é esse engano que está na base da minha escrita.
O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? Mudei, estou mudando, tentando me parecer cada vez mais com o que sou.
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
O roteirista e escritor Victor Mascarenhas costuma dizer que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Autor de vários livros, com destaque para “Cafeína”, ganhador do Prêmio Braskem Cultura e Arte, da Fundação Casa de Jorge Amado, livro prefaciado por ninguém menos que Fausto Fawcett, esse feirense nos surpreendeu ano passado com o lançamento de um romance histórico em que, baseado em pesquisas criteriosas, ele criou uma história envolvente, tendo como escolha principal a visão de dois protagonistas quase anônimos – Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro; o primeiro, oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo, major.
Lançado pela P55 edições, em parceria com o selo do próprio autor, a Cafeína – Produção de Conteúdo, “Sete dias em setembro” parece trazer uma nova abordagem quanto aos fatos ocorridos há 200 anos. Fatos que culminaram com a Independência do Brasil. No livro, além de optar por uma bem elaborada ficção para preencher “lacunas”, Mascarenhas nos conduz por uma viagem em que, além das pesquisas, da preocupação histórica e da vontade de se publicar um bom livro, o que prevalece é o gosto pela literatura e por uma ficção de qualidade.
Abaixo, segue uma breve, mas enriquecedora conversa que tivemos sobre o seu romance.
Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela
DA – Duas coisas me chamaram a atenção em seu livro: a forma escolhida para se contar a história, em que o narrador se utiliza de uma “oralidade”, tal como Cervantes em Quixote, e o fato de que a Independência do Brasil foi um processo mais lento do que o ensinado nas escolas. Você concorda que essa forma “oral” serviu para nos mostrar de maneira mais ampla esse momento histórico, já que ela permitiu que fossem relatados outros fatos que extrapolam, em tese, o enredo, mas que são fundamentais para o desenvolvimento do livro, incluindo aí seu viés ficcional?
VICTOR MASCARENHAS – A gente tende a minimizar nossa história quando não enxerga a Independência como resultado de um processo complexo e de muita luta dos brasileiros. É um desserviço reduzir tudo a um arroubo de D. Pedro, ignorando o cenário internacional, onde o liberalismo estava derrubando o velho absolutismo, ou minimizando a luta do povo brasileiro que se uniu para vencer o exército português e na defesa do então príncipe regente contra os desmandos de Lisboa. Um exemplo que traduz bem a mobilização popular e o papel do futuro imperador está no nome do batalhão onde Maria Quitéria lutou durante a guerra na Bahia: Batalhão de Voluntários do Príncipe D. Pedro. Diante de tudo isso, o desafio era levar o leitor para esse cenário sem ser didático ou redundante e eu queria fazer isso num livro de aventura a la Alexandre Dumas, com o humor e a coloquialidade do “Memórias de um sargento de milícias”. A oralidade que você apontou, que tem como ancestral infinitamente superior o “Dom Quixote” de Cervantes, vem dessa escolha e permeia o livro através do seu narrador, que tem como tarefa principal relatar a viagem dos protagonistas – os dois mensageiros que levam as cartas do Rio até Pedro nas margens do Ipiranga – mas que vai traçando o panorama de um país convulsionado através da história de vários outros personagens, passando por cidades diferentes, comentando os fatos, conversando com o leitor e fazendo paralelos da época com o presente. Mas o que era mais importante era fazer tudo isso mantendo o rigor histórico, enquanto operava com personagens reais em situações fictícias. Por isso, tratei logo de avisar na epígrafe: “Esta é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com nomes, pessoas ou acontecimentos reais não terá sido mera coincidência”.
DA – Além dos acontecimentos reais que lastreiam o enredo, temos aí um delicioso rol de histórias também reais e no mínimo curiosas, envolvendo D. Pedro e outras figuras, conforme você vem divulgando em entrevistas. Conte-nos um pouco sobre elas. E de como foi escolher algumas, dentre tantas, visando dar um direcionamento ao livro.
VICTOR MASCARENHAS – D. Pedro é um personagem tão extraordinário que parece até inventado. Era um tipo complexo e com um humor absolutamente instável, dividido entre suas responsabilidades políticas e uma compulsão pela vida mundana que rendeu muitas histórias, digamos assim, inusitadas. O critério para seleção de algumas dessas histórias e personagens foi ter ligação direta ou indireta com o processo e o período da Independência. O curioso é que mesmo usando apenas fatos documentados, tem coisas que estão no livro que parecem ficção, como no trecho em que os protagonistas se hospedam em um puteiro em Taubaté e são informados que D. Pedro havia dormido lá. Parece mentira, mas a estadia do futuro imperador no bordel realmente aconteceu. Outro exemplo: Pedro, quando criança, costumava se entediar durante a cerimônia do beija-mão no palácio e se divertia dando petelecos no nariz das pessoas. Usei essa informação para explicar a razão do ódio de um dos personagens por ele. Outra informação real que parece mentira é a história da dívida de 12 contos de D. Pedro com um bodegueiro chamado Pilotinho, que surge no livro num encontro entre o agiota e Plácido, um amigo picareta do príncipe, que renegocia o débito e revela que sua origem está nos gastos de Pedro com uma amante francesa, a atriz Noely. Todos os personagens envolvidos nessa história são reais, assim como a dívida, mas a situação que vemos no livro é totalmente fictícia. Esse processo se repete em toda a obra, até na célebre diarreia que acomete Pedro às margens do Ipiranga, quando o leitor descobre que ele parou oito vezes para se aliviar e que tomou um chá de goiabeira numa estalagem em Cubatão para tentar conter a dor de barriga. Tanto as oito paradas quanto o chá estão documentados em relatos da época, mas é algo tão inusitado para um vulto histórico que até parece invenção.
DA –Daí que você pareceu se apegar a alguns outros acontecimentos marcantes, fartamente documentados, menos pitorescos e, até então, incontestáveis – a participação popular e heroica de alguns personagens, por exemplo, além da grandeza dos quase anônimos, habilmente convertida em ficção de qualidade em suas mãos. Em algum momento, você temeu ser tachado de ufanista, considerando que a Independência também está sujeita aos tais revisionismos?
VICTOR MASCARENHAS – Apesar de ser o recorte de um período histórico e ter como motor da ação os atos de vários personagens reais, o livro é uma obra de ficção. Meu trabalho como escritor foi atuar nas lacunas deixadas pelos documentos históricos, mantendo a coerência com os fatos. Os personagens e acontecimentos são narrados sob o ponto de vista mais humano possível, o que afasta qualquer leitura ufanista ou heroica ao apresentar razões bem pouco nobres para atos que sempre nos foram apresentados como algo grandioso. O que melhor exemplifica como o livro foi construído é a história da viagem dos mensageiros, que é o eixo central da trama. O único registro sobre ela é que durou cinco dias, que era menos da metade do tempo usual. Esse dado, somado ao fato deles irem sozinhos e sem uma escolta, já mostra que havia uma urgência e uma tentativa de passar despercebidos, o que já remete a uma missão secreta. O clima belicoso entre defensores de Portugal e da Independência adiciona perigo à receita e os relatos da mesma viagem, feita por D. Pedro semanas antes e que foi fartamente documentada, serviu de roteiro para a jornada dos mensageiros, assim como o impacto da passagem do príncipe por várias cidades forneceu as histórias que eles foram ouvindo pelo caminho. Esse mecanismo que cria situações fictícias a partir de fatos e personagens reais está presente no livro todo.
DA – Em algumas entrevistas, você já falou que recorreu a outros livros para trabalhar a linguagem dos personagens. E essa pesquisa pareceu extrapolar um pouco a linguagem em si, influenciando também a técnica usada na sua escrita. Dessa forma, podemos dizer que seu livro possui também algumas características clássicas do folhetim, sem, contudo, perder a complexidade comum ao romance, ainda mais sendo o seu um romance histórico e fiel ao rigor dos fatos ocorridos?
VICTOR MASCARENHAS – A questão da linguagem dos personagens foi um grande desafio. Não podia construir os diálogos com o português contemporâneo e nem escrever como se falava 200 anos atrás, sob o risco de tornar o livro chato ou até incompreensível para o leitor. A solução que encontrei foi recorrer à literatura do século XIX em busca de expressões, palavras, gestos e comportamentos que ajudassem a criar uma linguagem estilizada para os personagens, que fosse crível como o português falado há 200 anos e compreensível hoje. Nessa pesquisa, acabei por revisitar vários clássicos da literatura brasileira que foram publicados em formato de folhetim, um formato que casaria perfeitamente com a estrutura do “Sete dias em setembro”, que é dividido em sete partes, uma para cada dia entre 2 e 8 de setembro de 1822. Então, esse ritmo de folhetim foi algo que a estrutura do livro já impunha de certa forma e que utilizei de forma estilizada, como fiz com a linguagem, para que o leitor tivesse a experiência de curtir a leitura como se estivesse na época dos eventos do livro, participando daquilo tudo.
DA – Essa pesquisa deve ter ajudado também na construção dos protagonistas, Bregaro e Cordeiro, imagino. Já que sobre eles pouquíssimos registros foram encontrados por você em suas investigações.
VICTOR MASCARENHAS – Tudo que encontrei na pesquisa sobre os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro foi que o primeiro era oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo era major. Ou seja: eram personagens reais, mas suas biografias eram páginas em branco, o que abria espaço para a ficção. Como o ambiente da época estava polarizado entre liberais defensores da independência de um lado e absolutistas defensores de Portugal do outro, tive a ideia de colocá-los em lados ideológicos opostos. Bregaro, por ter um emprego no palácio e ser mais próximo da corte, pendia para o lado liberal e, como o exército era majoritariamente leal a Portugal, o militar Cordeiro seria um absolutista contra a Independência e um moralista que não gostava de D. Pedro pelo seu comportamento que desrespeitava a “moral e a família”. Essas diferenças entre eles criaram um conflito que permitiu dar maior profundidade aos personagens e também abriram espaço para estabelecer um paralelo com a polarização que vivemos no presente, dando um tom contemporâneo ao livro. A viagem da dupla, que vai descobrindo mais sobre o Brasil, sendo impactada pelas notícias e vendo o cenário se alterando ao redor deles, também se assemelha à clássica Jornada do Herói e serve de metáfora para a própria formação do nosso país que, aos trancos e barrancos, vai se entendendo e se ajeitando como pode para seguir em frente.
DA –Aliás, isso fica bem evidente no decorrer do livro: os personagens vão mudando diante dos conflitos e das descobertas ao longo dessa “jornada de heróis” (já pedindo perdão ao espírito do Campbell pelo trocadilho). Outra coisa é a aparição de alguns personagens, como o Baltazar por exemplo. Creio que sua aparição carrega um forte significado.
VICTOR MASCARENHAS – Baltazar é um dos personagens fictícios do livro e tem um papel fundamental na trama. Ele é um ex-escravizado que trabalha como ferreiro e auxilia Bregaro e Cordeiro numa das paradas da viagem em que eles são atacados por militares contrários à Independência. A construção do personagem traz algo de mítico e místico para a história. Baltazar é um trabalhador altivo e um homem de fé, que traz na sua religiosidade uma marca genuinamente brasileira: o sincretismo religioso do candomblé. Baltazar entra na história para simbolizar o papel do povo brasileiro no processo da Independência, que foi para o campo de batalha em vários pontos do país e conseguiu derrotar um exército organizado e profissional, como era o português. O que veio depois disso pode não ter sido grandes coisas, mas o processo da Independência foi uma grande conquista.
Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela
DA – A atitude do Baltazar tem muito de coragem e nobreza, decerto. Mas o fato de ele ter sido libertado a pedido do D. Pedro não tiraria um pouco da beleza dessa metáfora, na medida em que, dessa forma, me pareceu algo concedido e não conquistado? Ou isso também foi intencional. Um tipo de simbolismo a nos mostrar que a liberdade sempre passou pelas decisões e conveniências de um governo ou de um Estado?
VICTOR MASCARENHAS – Há duas abordagens para responder essa questão. A primeira é que o ato de D. Pedro interceder para conceder a alforria a Baltazar entrou no livro para reforçar a informação histórica de que Pedro era contrário à escravidão. Há vários exemplos e citações sobre isso no livro, como a informação que ele concedeu alforria e terras para escravizados que viviam nas propriedades reais ou a transcrição de uma frase em que ele diz: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”, por exemplo. Infelizmente, o fim da escravidão, que também era defendido por José Bonifácio, não veio com a Independência e esperou muitas décadas para ocorrer, mas como o meu livro termina antes mesmo da entronização de D. Pedro, acabo não abordando essa questão, embora deixe pistas sobre o que viria pela frente. A outra abordagem – sobre a liberdade passar por decisões e conveniências de um governo ou de um Estado – é mais pragmática. Há 200 anos, a única maneira de um escravizado ser libertado era se o seu proprietário concedesse a sua liberdade, assim como a única maneira do Brasil se emancipar de Portugal era apostar suas fichas em D. Pedro. A metáfora pode até perder um pouco da sua beleza com essa leitura que você aponta, mas era a realidade que o Brasil vivia naquela época e, mesmo sendo uma obra de ficção, não seria verossímil explicar o fato de Baltazar ser um homem livre de outra maneira.
DA – Seus livros anteriores prezam por temáticas mais, contemporâneas, digamos. E você já disse algumas vezes que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Considerando que o seu primeiro foi no ano de 2008, e que os seguintes mantiveram essa linha “urbana”, pergunto: por que só tanto tempo depois você resolveu trabalhar nesse romance histórico e por que a escolha por esse tema?
VICTOR MASCARENHAS – A ideia do “Sete dias em setembro” é decorrente da minha obsessão por tentar entender o Brasil, o que me faz ser um leitor compulsivo de livros de história, ciência política, sociologia e o que me passar pela frente e possa ajudar. Cheguei a iniciar a pesquisa para o livro por volta de 2010, mas a história era um pouco diferente. O que me fez parar foram as dificuldades do processo, que exigia muito tempo, dedicação, pesquisa e uma maturidade que talvez eu não tivesse naquele momento. Sobre essa pegada mais urbana, acho que isso está mais forte nos meus livros de contos (“Cafeína”, “A insuportável família feliz” e “Um certo mal-estar”) do que nas narrativas mais longas, onde acabei construindo uma trajetória mais heterogênea. Meu primeiro romance, o “Xing ling”, é uma ficção científica distópica e meio farsesca, onde uma empresa chinesa compra o centro histórico de Salvador para fazer um parque temático. O segundo, “O som do tempo passando”, é mais intimista e se passa praticamente todo numa oficina onde uma banda de quarentões se reúne para tocar, alternando com flashbacks da vida dos personagens. Por fim, veio o “Sete dias em setembro”, que teve dois gatilhos fundamentais para ser escrito: o aniversário dos 200 anos da Independência em 2022, que forneceu o prazo, e a pandemia, que me trancou em casa e deu o tempo necessário para a pesquisa e a escrita.
DA –Agora, gostaria que você nos falasse sobre projetos e planos futuros: o que podemos esperar do escritor e/ou do roteirista (incluindo audiovisual e quadrinhos) Victor Mascarenhas?
VICTOR MASCARENHAS – Quero seguir trabalhando o “Sete dias em setembro” para levar o livro para mais pessoas, aproximar a obra dos estudantes e tentar ajudar a pensar mais sobre o Brasil. Outro objetivo é retomar projetos audiovisuais que foram interrompidos pelo governo anterior, que praticamente parou tudo no setor, e também começar a trabalhar em novos. Para a literatura, tenho uns contos na gaveta e muitas ideias rabiscadas que podem virar livro em algum momento nos próximos anos. A ideia é seguir escrevendo sempre.
Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.
“Céu ausente” é o terceiro livro de contos de Gustavo Rios, autor revelado em 2007 na coleção Rocinante, da 7Letras, onde publicou “O Amor é uma coisa feia”, e fez parte de um time de jovens autores, surgido na internet, com o interesse comum em narrativas curtas.
A coleção foi inspirada no selo “Cantadas Literárias”, da Brasiliense, e dava vazão a uma geração com vigor criativo, habituada aos computadores e ao universo dos blogs e revistas virtuais. Clarah Averbuck, Julián Fucks, Carola Saavedra, José Rezende Jr. e Veronica Stigger são alguns dos nomes que, ao lado de Rios, se destacavam neste cenário e continuam fazendo literatura até hoje.
Se uma canção do grupo punk rock paulistana Kleiderman batizaria o seu livro de estreia, o interesse de Gustavo Rio pela música não se resumiria a simples homenagens e citações textuais. Durante os anos de 2008 e 2009, junto com os escritores Wladimir Cazé, Lima Trindade e Sandro Ornellas, ele participou do coletivo C.O.R.T.E., realizando diversos “rockcitais” (algumas dessas apresentações estão disponíveis no YouTube) ao lado da Pastel de Miolos, banda icônica da cena punk e hardcore soteropolitana, e escritores convidados (Kátia Borges, Paulo Scott, Katherine Funke, Nelson Magalhães Filho e Leonardo Panço).
Em seguida, pela Mariposa Cartonera, publicou “Allen mora no térreo” (2015) e, “Rapsódia Bruta – poemas e outras brutalidades” (2016).
Sobre “Céu Ausente”, uma coletânea de 13 impactantes histórias onde Rios aborda temas como casamentos fracassados, solidão, delírios amorosos, medo e tédio, o crítico Maurício Melo Júnior, em uma resenha publicada recentemente no jornal Rascunho, disse: “Enfim, a literatura é a causa primordial de Gustavo Rios. Há denúncias? Sim. Aponta injustiças, também, mas não lamenta a condição inferior de quase todos seus personagens. Descreve a vida, e ponto. Sem beletrismos parnasianos fez literatura. Tudo é literatura em suas narrativas. E certamente aí está sua mais perfeita qualidade como escritor.”
Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão
DA – O título do seu novo livro, “Céu ausente”, sugere uma perspectiva em que o destino humano está imune a soluções transcendentes para os seus problemas e impasses. A que se deve essa visão? Há nela alguma influência do pensamento de filósofos como Camus?
GUSTAVO RIOS – O título surgiu de algo mais simples: um poema de minha autoria. Ao final dele, escrevi “(…) a beleza passa longe / desse céu ausente / de gaivotas.”
O estado de espírito do cara que escreveu o poema era bem semelhante ao do protagonista do conto que intitula o livro: um garoto de bairro tentando se firmar num mundo hostil. Esse cara amava os beatniks, andava lendo Bakunin e sonhava em cair fora num navio. No conto, ele conversa com o pai numa noite de outono, depois de ter levado uns socos na rua sem motivo. E entre cigarros sem filtro, divagações, um livro do Artaud e a janela do seu apartamento, ele percebe que não terá muitas chances.
E aí vem a beleza de sua observação, pois o título diz muito mais do que eu mesmo pensei. Ele vai além da cena do conto; da força contida nele. “Céu ausente” significa, sim, que em alguns momentos nada poderá nos salvar. Que estamos à mercê e que andamos imunes a quaisquer transcendências ou redenções. Por aí.
Gostaria apenas de frisar que todos os outros contos não possuem a mesma intenção. Nem o mesmo estilo. E que os protagonistas que aparecem ao longo das páginas passam longe do tal garoto de bairro. Isso seria maçante para mim e para o leitor.
Temos o filho pródigo, o marido entediado, mulheres que amam acima de tudo e casamentos fracassados; temos um homem que encontra o amor de sua vida num parque e James Brown tentando decifrar um pesadelo. Temos também um sujeito se descobrindo numa noite de chuva e um casal que se reencontra no Japão.
O livro é uma tentativa de enxergar a vida partindo de vários pontos. Com isso, cheguei aos treze textos. Cada um com seu universo, sua estrutura e suas mensagens involuntárias, pois não acho que a literatura deva ter esse tipo de obrigação.
Em resumo, posso afirmar que “Céu ausente” é um belo título e diz tudo isso aí que você bem pontuou. Mas não é o único mote para o conjunto que surgiu.
Quanto ao Camus, creio que suas ideias atravessaram o tempo. E por serem poderosas, contemplam e contaminam parte da literatura feita ainda hoje, a gente goste ou não.
Não foi diferente comigo. Sua filosofia pode ter vindo até mim de forma indireta ou enviesada, e está tudo bem. “O estrangeiro” me marcou profundamente, assim como “O muro”, do Sartre — e ambos meio que jogam no mesmo time, sendo o argelino um excelente goleiro. Contudo, não me recordo de ter ouvido a sua “voz” durante meu trabalho. Não conheço profundamente os seus textos, o que é um grande vacilo de minha parte.
DA – Quando você adota o título do conto para o livro, demonstra o quanto essa imagem é potente, ultrapassando em muito o verso do poema. São novos contextos e significados a partir desses deslocamentos. Penso que, para além das mudanças de estilo, temas e perspectivas das histórias, “Céu ausente” também confere responsabilidade (consciente ou não) às escolhas de suas personagens. Estou errada?
GUSTAVO RIOS – Está certa. Falei sobre algo parecido em outras entrevistas. Sobre os meus personagens se encontrarem em situações limite e tendo de fazer escolhas, incluindo a de desistir. Essa ideia do limite é uma das características em “Céu ausente”. Não a única.
Meus personagens podem optar por nada fazer, pois escolher nem sempre significa agir, ou podem desejar mudar a vida drasticamente. Colocar o ser humano cara a cara com situações extremas é o tipo de recurso que admiro na literatura. Para mim, boas histórias possuem esse atributo.
Fugir de casa usando os olhos do Borges recortados de uma foto, ou colocar uma armadura para encontrar seu grande amor numa manhã de sol? Ficar na praia dos primeiros encontros e aguardar seus ossos virarem pó sob o efeito do salitre, ou se entregar a alguém numa noite de luxúria com “o azul mais puro represado nos olhos”? São escolhas feitas por cada um. Conscientes ou não.
E para cada um, uma falta, uma ausência; até mesmo do céu, das tais gaivotas. Dessa falta vem o deslocamento. Desse movimento para fora, o tal deslocamento, surge a impossibilidade que pode se converter num tipo de liberdade ou numa prisão.
Ao perderem qualquer tipo de esperança, meus protagonistas fazem escolhas. Sempre pungentes e irrevogáveis. Coube a mim trabalhar arduamente a linguagem e mostrar isso ao leitor.
DA – Essa condição limite, que você alude com precisão, também se faz presente nos seus dois livros de contos anteriores, “O amor é uma coisa feia” e “Allen mora no térreo”. Neles, você equilibra o peso dramático com doses de humor e muita ironia. Já em “Céu ausente”, eu sinto que o acerto da balança se dá pelo lirismo, um olhar menos judicioso em relação às vidas ali apresentadas. Você sente uma evolução ou amadurecimento no seu modo de narrar?
GUSTAVO RIOS – Com certeza. Essa maturidade deriva de diversos fatores. Uns óbvios e outros nem tanto. Dos óbvios, listo o mergulho em novos autores. Além das vivências pessoais em geral. Dos nem tão óbvios, acho que, com o passar dos anos, eu perdi a fé na ideia de que escrever é um processo “mediúnico”.
É uma ideia engraçadinha, mas explicável: durante muito tempo, acreditei que a escrita era um processo totalmente baseado em inspiração, nada mais. Acreditava que qualquer tipo de intervenção nesse contato com o “plano astral” arrancaria a carga emocional e vital de meus textos.
Nada disso! A linguagem é o veículo, digamos. É com ela que devemos trabalhar. Tratá-la com dignidade. Entender que o leitor é um outro. Diria até um objetivo, pois queremos ser lidos — algo diferente disso é ser um mentiroso patológico ou um louco; não cola esse papo de escrever para si mesmo. Precisamos encantar essa pessoa sem nome nem rosto. Fazer que ele nos siga e se comova.
Ao acreditar nessa mediunidade, o temor era perder o “caráter intenso e sufocantemente humano” de minhas histórias, usando aqui uma ideia do britânico E. M. Forster quando fala sobre o romance. Entretanto, aprendi que devemos “sacrificar o papagaio” algumas vezes. Coisa que o Poe fez lá atrás, ao trocar o papagaio pelo corvo (imaginem!).
Essa busca, que passa pelo trabalho com a linguagem, não deve nos ferir, todavia. Não aceito qualquer coisa pra agradar essa figura mítica, necessária, cruel e silenciosa. Temos de ter um limite, um acordo. Meus contos têm de estar encharcados de vida. Não negocio nada menos. Fora disso, escreveria coisas e as enfiaria na gaveta, numa boa. É preciso acreditar num tipo de harmonia, manter a vitalidade do conto e da história que é o motivo único dele surgir.
“O amor é uma coisa feia”, por exemplo, é de 2007. É enxuto, franco e menos lírico. Mas foi o meu melhor na ocasião, nada mais. Já o “Allen mora no térreo” tende a ser mais longo. Corri alguns riscos na busca de uma voz lírica adequada. E, bem, nem sei se consegui o que desejei em todos os seus contos, sendo bem franco. Mesmo assim, amo os dois. Assim como o de poesia, “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e as participações nas coletâneas – falo dos contos “Ernest”, presente na coletânea “Tempo bom”, e “A noivinha do Cabula”, da coletânea “As baianas”. Todos eles são etapas de minha busca. Que só está começando.
DA – Acredita na máxima “é fácil escrever difícil e vice-versa”?
GUSTAVO RIOS – Para um escritor, será sempre difícil, ainda que ele deseje facilidades. E não me entenda mal; não se trata de dramatizar a coisa toda. Quero apenas lembrar que, onde há intenção e certo grau de transcendência, há trabalho a ser feito. Dificuldade, portanto.
Todo escritor nasce vocacionado, está sujeito a epifanias e tem seu olhar mais aguçado para o que supostamente é banal. Se ele irá converter esse poder em ofício e se denominar escritor, é outra conversa. Para ele, a literatura deve ser resultado de sua intenção. Sem intenção, nada feito.
Sou filho dos quadrinhos, da coleção “Vaga Lume”, da televisão, dos beats, dos fanzines, da música e do cinema. E tudo isso me levou a buscar a literatura. Em algum momento, entendi que escrever era maior.
Parte dessa escolha foi enxergar o real alcance da minha vocação. Foi quando comecei a escrever poemas, textos, roteiros de HQ nunca publicados e bobagens para, em seguida, tentar vencer alguns cânones, numa tentativa de aprimoramento. Lembro agora de quatro: António Lobo Antunes, Faulkner, Joyce e Cervantes.
O primeiro é fabuloso; parece reinventar a literatura a seu modo. É denso e inigualável. O segundo não foi tão complicado quanto parecia. Precisei, sim, de concentração e de entrega. Levei tempo, mas o admiro demais pela força de sua obra.
O terceiro, Joyce, ainda hoje luto com empenho — no caso do “Ulysses”; os outros foram devidamente lidos e admirados —, mas tento encontrar um caminho para chegar ao real motivo que faz essa obra repercutir até hoje. Já Cervantes, consegui vencer suas mil e tantas páginas, da tradução do Sérgio Molina, sempre curtindo e tentando captar a essência.
E, bem, por que eu lhe falo isso, mesmo correndo o risco de parecer um boçal? Digo pelo fato de que eu desejo enxergar o que cada um deles realmente buscava. Quais eram as suas intenções e como foi que eles conseguiram.
Então, respondendo a sua pergunta, creio que escrever será sempre difícil, no sentido de ser trabalhoso e árduo. Mas não enxergo isso como flagelo.
DA – Outro ponto curioso está no uso que você faz do tempo e do espaço da narrativa. A maioria dos seus contos dispensa a intriga, o enredo mirabolante e um efeito surpresa, concentrando-se na carga dramática das situações limites que já falamos. Há momentos que me remetem ao teatro. Você aprecia o gênero? É leitor de dramaturgia?
GUSTAVO RIOS – Aprecio o gênero e já li algo dos grandes dramaturgos e poucos contemporâneos, como o Artaud, citado no conto que dá nome ao livro, o Nelson Rodrigues, fabulosamente obrigatório para escritores, tudo da Hilda Hilst e o Matei Visniec. Quanto ao tempo e ao espaço da narrativa, fiquei intrigado com sua observação. Pois não me passou pela cabeça que eu poderia estar me aproximando de qualquer técnica de dramaturgia, seja ela clássica ou mais arrojada. Achei curiosa sua observação, por não enxergar muito de teatro no que faço.
DA – Quanto à matéria-prima de seus contos, a maneira como você descreve a vida e o cotidiano pequeno burguês, evoca para mim muito de Nelson Rodrigues. Em sua opinião, o que mais mudou na vida privada brasileira do século 20 para cá?
GUSTAVO RIOS – Na essência, quase nada. Continuamos hipócritas, temerosos, crédulos, esperançosos e egoístas. Traímos, buscamos a felicidade e sonhamos com dias melhores. Parte de nós deseja a Revolução Bolchevique — contanto que não invadam nosso quintal num belo domingo de sol e “churras” —, enquanto a outra espera que Jesus resolva finalmente voltar e, num singelo movimento de mãos, arranque todo o mal desse mundo, menos o praticado por nós.
Em resumo: a vida privada é uma fonte sem fim para escritores. Pode ser para um enredo, uma cena, um personagem. E o Nelson sabia se aproveitar disso. Devo muito a ele, sem dúvida.
O ambiente familiar do menino Cipriano, do conto “O encontro”, foi fácil de construir. Assim como a angústia do esposo em “Margherita”: quantos homens e mulheres não passaram por aquilo, e “ainda, ainda, ainda…” seguem casados? “Céu ausente” é meu pai, obviamente reconstruído para o leitor, enquanto “Cadelinha” poderia ter sido algum vizinho meu. Por sua vez, “Chuva para dois” é um apanhado de amigas e mulheres que conheci. E “O menino dança” tenta falar sobre a morte do garoto João Pedro no ano de 2020, no Rio de Janeiro, o único conto baseado numa notícia.
A vida privada me interessa na medida em que, por ser um tanto secreta, permite que nosso verdadeiro sujeito venha à tona.
Quanto a nossa evolução, acho que do século passado para cá evoluímos. Mas não o suficiente para nos tornarmos seres isentos de brutais contradições. Como falei acima: somos seres humanos. Continuemos!
DA – Como foi a experiência de estrear pela Rocinante, coleção da Sete Letras onde passaram diversos autores hoje badalados como Carola Saavedra, Julián Fuks e Ana Paula Maia, dentre tantos?
GUSTAVO RIOS – Foi minha primeira relação com uma editora. Até então, eu publicava em sites, blogues e em fanzines. E foi uma experiência bacana, um aprendizado. Parte da postura citada na outra pergunta veio desse momento: entender a importância de se editar, de selecionar, do corte, dos tais sacrifícios. Tive uma liberdade imensa no resultado final. Mas era algo discutido e proposto. O “bater do martelo” era meu, incluindo a ideia da capa.
Além do mais, foi um salto; o que chamam “furar a bolha”. O livro saiu nacionalmente, tendo sido divulgado em diversos jornais. Algumas resenhas surgiram, resultando em convites para publicação de outros textos meus. A Rocinante foi um marco. Tanto para mim, quanto para vários escritores, incluindo os que você citou. Tenho certeza que eles concordariam.
Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão
DA – Você (e uma boa parte desses autores) migrou dos blogues, onde reinava total liberdade criativa, para as páginas impressas. Como avalia o papel das redes sociais como incremento para a independência do pensamento artístico na contemporaneidade? A internet foi domesticada aos interesses do capital ou ainda possibilita a rebeldia?
GUSTAVO RIOS – De fato, havia uma grande liberdade ali. Porém, como antes eu publicara fanzines, essa liberdade já me era comum. A gente podia roubar citações do Nietzsche, fotos do Duchamp e do Dali, bem como poemas do Murilo Mendes e do Chacal. Ao lado colocávamos nossos escritos, tirávamos cópias e isso era vendido a um real na Praça da Piedade; ou menos que isso, não lembro. O que o blogue nos deu foi um alcance infinitamente maior.
Quanto às redes sociais, digo que elas são ferramentas importantes. E pelo mesmo motivo dos blogues: alcance para qualquer artista, não só os escritores. No aspecto da independência, creio que as redes ajudam bastante, apesar de serem espaço para todo tipo de baboseira. Mas são meras ferramentas. Nada mais. E assim devem ser tratadas, iguais ao papel, as máquinas Olivetti, os fotocopiadoras, as impressoras offset, o lápis e a caneta. Só acho que não devemos acreditar piamente que esses suportes não sofrem vigilância e censura. Daí essa liberdade pode estar comprometida.
DA – E depois, com a Mariposa Cartonera, como foi? Você já conhecia a proposta do movimento cartonero antes do convite? Alinha-se com as causas verde e ambiental? Nutre algum tipo de filiação política?
GUSTAVO RIOS – Filiação política, sim. Nunca a partidária. Aprendi com os anarquistas. Meu conhecimento dos ideais “anarco” me ensinou sobre essa estrutura de poder que muda a cara, mas não a essência. Mesmo assim, não acho que votar nulo seja um caminho. Ainda…
Fui contrário ao antigo governo, uma canalhada sem tamanho. E tenho votado na esquerda há décadas, esperando que ela aja como tal, apesar das evidentes melhoras de uma maneira geral.
No movimento cartonero, cada livro é verdadeiramente único. Pequenas obras de arte. Não só pelo conceito, mas pelo resultado final. “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e “Allen mora no térreo” possuem capas fantásticas. Uma nunca sendo igual à outra; e isso é incrível – fora a encadernação e a proposta. Fiquei realmente lisonjeado com a chance de publicar dessa forma.
Sobre a causa ambiental, obviamente me alinho com suas pautas, por entender que, sem nenhum tipo de atitude, teremos um futuro terrível em todos os aspectos. E gostaria de ser mais atuante nessa luta.
DA – Você sente que seu trabalho tem alguma marca geracional? Identifica-se com alguma vertente da literatura brasileira realizada hoje?
GUSTAVO RIOS – Gostaria muito de dizer que não carrego marca alguma, e isso seria o máximo. Caso fosse verdade, eu seria uma bela exceção, quiçá um gênio – dois ou três degraus acima do restante do mundo, olhando já para o futuro, ou pra um espaço além do tempo.
Os anos, os fatos, a política e a vida em si: como fugir desse poderoso conjunto? Como negar que produzo e me comporto sob, e não sobre, a força dos fatos da história que não para de nos surpreender em seus repetidos erros? Seria prepotente e falso.
Uma geração pode compartilhar angústias, mas a resposta sempre carrega algo de pessoal. Dessa forma, creio que eu possa ter algo comum com outros escritores; não vejo problemas nisso. Contudo, e francamente, não consigo identificar padrões de trabalho com algum grupo. Ao menos na forma, pois as temáticas tendem a se repetir, independente da geração.
Toco no assunto da temática porque suspeito que todas as histórias já foram contadas. Do amor. Das viagens. Das guerras. Porém, pela forma de dizer, eu posso dar uma resposta particular. E com isso pretendo cravar algo meu na literatura. Sei que essa marca também é resultado de influências, de outros antecedentes. Mas não estou inventando a roda. Estou tentando embelezá-la mais um pouco, quem sabe.
DA – No conto “O menino dança”, você faz de James Brown personagem. Já em “Caso você fique”, a música de Jimi Hendrix serve como exemplo para uma vida ideal. Em seus livros, as referências musicais são constantes e nada gratuitas. Qual a importância da música pop na sua formação de escritor?
GUSTAVO RIOS – Em 18 de maio de 2020, o garoto João Pedro foi morto numa operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio. Os familiares só encontraram o corpo 17 horas depois. Por essa época, George Floyd morria asfixiado por um policial que colocou o joelho em seu pescoço, em Minesotta. Certa noite, enquanto eu escutava as duas notícias na televisão, por acaso rolava numa playlist “My Thang”, do James Brown. Assim surgiu a ideia do conto “O menino dança”.
“Caso você fique”, escrito há mais de uma década, foi resultado do término de um relacionamento conturbado. Ela havia acabado de sair de meu apartamento. Resolvi que “Spanish Castel Magic”, do Hendrix, ajudaria a melhorar o meu estado. Sentei e escrevi a primeira versão. Os vizinhos não gostaram daquilo às sete da manhã de um domingo.
“Japão” foi totalmente inspirado numa música chamada “Polaroid”, da banda baiana “A Flauta Vértebra” (por sinal, título de um poema do Maiakovski). Depois do primeiro rascunho, foi só arrumar. “The Day After” surgiu depois de ter assistido “Amacord”; escutei Nino Rota, que não é pop, durante as primeiras versões.
Em resumo: dentre outras fontes de inspiração, a música pop é uma das mais importantes para mim. Mas não só ela: já escrevi poemas ouvindo Piazzolla, já criei contos ao som do Ravel, e o meu primeiro livro tem como título o nome de uma música, “O amor é uma coisa feia”. Uma pancada “roquenrol” de poucos minutos.
DA – E como se deu sua descoberta da arte? Recebeu algum estímulo na infância?
GUSTAVO RIOS – Não sei te dizer, com franqueza. Eu acho realmente que escritores nascem com a vocação. E que a seguem, com maior ou menor intensidade. Ou as ignoram e seguem suas vidas. Plantando tomates ou vendendo seguro de vida. Quanto aos estímulos, poderia citar aqui as revistas em quadrinhos que ganhava sempre de meus pais. Além de um punhado de amigos de infância que adoravam desenhar super-heróis tentando salvar o mundo em ruínas.
DA – Pra finalizar, conte-nos quais são seus projetos futuros. Está trabalhando num novo livro?
GUSTAVO RIOS – Sempre tenho contos para arrumar, além do esboço de uma novela que vai levar bastante tempo para ficar pronta. Preciso rever, cortar, essas coisas. Enquanto isso, continuo trabalhando duro na divulgação de “Céu ausente”, que é, sem sombra de dúvida, o meu melhor livro. Até agora.
Jussara Azevedo é carioca, graduada pela Escola de Belas Artes da UFRJ e cursa mestrado em Letras na USP.
O exercício da literatura é feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita é também marcada pelo gesto espantado que é a existência, esta senhora cujos domínios não cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve não passa impune pelas múltiplas imagens mundanas e seus inalienáveis efeitos, pois é variada a oferta de cenários através dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.
É preciso certa dose de ousadia para enxergar além do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto matéria humana, uma amálgama de saberes e sabores é porque também temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou não, sobretudo quando o tema é cotejar as experiências vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser também o ato de maquinar a matéria intangível da vida. Nesse ponto, complexos serão os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fascínio que determinadas escrituras podem causar.
Vivian Pizzinga é uma autora que sabe percorrer territórios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho literário, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, ímpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contemporâneos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de nós também é a tônica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convicções.
Além de se dedicar ao ofício com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psicanálise. Sua obra abarca os livros de contos “Dias Roucos e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), ambos lançados pela Editora Oito e meio, bem como as coletâneas “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016) e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou “Ruído nos Dentes” pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.
Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, além de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer literário. Atenta às questões do seu tempo, revela-se também alguém desperta para refletir criticamente sobre condições que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos estão abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que não afasta certo ensaio contemplativo da vida.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – “Ruído nos Dentes” traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. São paisagens existenciais visitadas e que não se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se detém na leitura. O que dizer desses mergulhos?
VIVIAN PIZZINGA – É interessante você pontuar esse diálogo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de “Ruído nos Dentes”. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro – uma das leituras possíveis – me fez compreender três conjuntos de textos, e assim separei o livro em três partes: uma delas onde há menos diálogo com o externo; a segunda parte, onde há um contato com o externo em que este é mais íntimo, digamos assim, talvez até mesmo personalizado, ainda que isso não fique tão claro; e uma última parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e também mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma espécie de percurso que parte de algo mais interior – e muito ligado a experiências sensórias também – para um contexto mais exterior.
DA – Nesse trajeto, onde as dimensões interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na construção do seu livro?
VIVIAN PIZZINGA – Na verdade, apesar desses itinerários que mencionei, não acho que haja possibilidade de as dimensões interna e externa não se comunicarem, suponho que elas estão sempre se comunicando e às vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos nítido. Não acho que haja qualquer possibilidade de uma dimensão existir sem a outra, não é possível saber nem mesmo se há uma precedência do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a noção de interseção em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de três partes, é muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensações e vivências, porque é difícil lançar mão de uma linguagem, de um léxico, em que se possa unir essas coisas que não são separadas. Então, quando faço uma leitura dos meus próprios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predominância, mas não uma separação. E por isso mesmo a própria separação nessas partes também foi um desafio, pois essa localização não é tão nítida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organização, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em relação ao próprio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclinação mais poética, uma vez que minha experiência anterior é toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos há alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma dúvida se aquilo que eu reconhecia como poético seria mesmo.
DA – De fato, é possível ver em “Ruído nos Dentes” um flerte seu com a chamada prosa poética. Como é que você vislumbra essa espécie de fronteira que às vezes chega a parecer tão tênue entre os gêneros?
VIVIAN PIZZINGA – No segundo livro de contos que escrevi, “A primavera entra pelos pés”, havia já alguns textos com essa inclinação mais para a prosa poética, então essa fronteira, se muito rígida, ao menos pra mim não funciona. Por outro lado, não sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acadêmico, não tenho leitura sistemática desses debates, venho de outra área, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato é que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o gênero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lançar mão de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscerníveis não dão conta dos múltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribuições (falando de profissões) é possível rearranjar classificações muito prontas, que têm uma historicidade, não são naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, então não teria como eu não achar o mesmo no que se refere à escrita: os textos de “Ruído nos Dentes” talvez não sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da página.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – A segunda parte do livro é introduzida por “diatribe”, texto que parece bem emblemático se pensarmos os diferentes deslizamentos identitários presentes na contemporaneidade. Na sua opinião, o que o atual território das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo?
VIVIAN PIZZINGA – De mais significativo, não saberia dizer, mas algo que me chama a atenção é o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que há dez, quinze anos não tínhamos nesse nível, com discussões importantes referentes às pautas identitárias em seus múltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de vivências e atravessamentos históricos, sociais, econômicos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere à nossa autonomia face àquilo que concorre para a produção de subjetividade hoje, século XXI, 2023, para ser bem específica. Refiro-me a toda a problemática, a meu ver urgente, referente às redes sociais e ao chamado capitalismo de vigilância, temática que inclusive está sendo debatida atualmente no congresso no que se refere à regulamentação de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer é que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos estão sendo direcionados, como nos têm alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e não nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento estão intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia alguém falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas típicas lembranças que acabam direcionando o rumo da memória. Essa pessoa, que não estava pensando em determinada situação, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Será que se essa foto não fosse vista, à revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Será que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associação de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado à produção de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que é sempre bom reforçar que tudo isso avança muito mais velozmente do que os debates e as regulamentações jurídicas voltadas a essas situações. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos “defeitos” do rosto de uma pessoa ou ainda as clássicas comparações que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que é mostrado numa rede social é uma edição de si (isso quando o sabemos). Tudo isso é produção de subjetividade o tempo inteiro, de modo acrítico, o que é uma contradição se pensarmos no que falei no início quanto aos debates que têm nos permitido nos dar conta das forças históricas que nos constituem.
DA – Por falar no universo digital, há algum tempo temos nos deparado com a superexposição do eu nas múltiplas plataformas de produção de conteúdos. Do corpo ao texto, há uma expansão do campo autobiográfico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que também orbitam em torno da vida ordinária, sugerindo que pessoas comuns, e não somente famosos, são protagonistas desse processo no qual as existências parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetacularização e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus próprios dilemas e dores?
VIVIAN PIZZINGA – Pois é, é uma excelente pergunta, porque já não sei mais se há um habituar-se à espetacularização ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a alguém, se é uma necessidade de interlocução que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que também me parece outra contradição, porque, mais uma vez, parece – sempre parece – que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se dê não contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconexão que implique alguma desconexão em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atrás de alguma coisa por esse caminho do espetáculo de si, de nós mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que você aponta na sua pergunta está relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em nós, estamos talvez menos ingênuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto autômata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa não tivesse acontecido caso não a mostrássemos. São muitas as hipóteses, sempre lembrando que, ao falar disso, não estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latifúndio, eu também sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), dá um tom confessional a dizeres abertos a sei lá quem e por aí vai. Não sei se é uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetacularização – e isso não sou nem eu quem fala, sigo outros – está presente.
DA – Em tempos da expansão da chamada inteligência artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a questão da autoria na contemporaneidade. O quão problemático seria admitir uma obra literária produzida inteiramente a partir da máquina?
VIVIAN PIZZINGA – Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda não amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra literária ser produzida inteiramente a partir da máquina, e nem tenho certeza se isso é efetivamente possível. Apesar de já terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a inteligência artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, não tenho certeza se se pode dizer que uma obra literária poderia ser produzida efetivamente a partir daí. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse possível? A questão da autoria já também não é um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coesão de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produção, no caso, escrita. A autoria seria da inteligência artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profissão do/a escritor/a, essas problemáticas antigas, tensas e nunca concluídas, estão também envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, é um grande estranhamento.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – De que maneira a sua vivência com a psicanálise cruza seus caminhos com a literatura?
VIVIAN PIZZINGA – Apesar de eu não deliberar enredos ou textos a partir da minha trajetória na psicanálise, a experiência profissional e os estudos, além da minha vivência pessoal, acabam fazendo parte da minha produção, quando vejo já aconteceu. Na época em que trabalhava em ambulatório de saúde mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psicanálise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi – “Eletroconvulsoterapia”, “A loucura é uma sensação térmica”, “Uma ciência do atraso”, “Haldol Decanoato”, cujos títulos já indicam territórios de interesse do campo da saúde mental e da psicanálise, ou ainda “Término”, cujo título não dá sinal de nada mas que também traz essa influência – são exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas vivências profissionais no campo da saúde mental e nas reflexões que a psicanálise impulsiona. “Haldol Decanoato”, por exemplo, título de um dos contos que integra “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, é o nome de uma medicação psiquiátrica. Medicação psiquiátrica não é psicanálise, mas as coisas vão se entrelaçando em muitos dos textos que escrevi durante vários anos. Como eu estava muito imersa nessas vivências, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiquiátrico de referência na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionalização na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulatório, além de pacientes no consultório, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso está menos urgente no que escrevo, menos à flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, então não deixa de estar presente.
DA – O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais?
VIVIAN PIZZINGA – Difícil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e reforçar os laços coletivos e sociais. A consciência de classe, a preocupação com o comum, o bem comum, a coisa pública. A lembrança ou o aprendizado de que não estamos isolados, de que nossos interesses não podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa não é nem a única nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque aí não nos prendemos tanto em rótulos, diagnósticos, etiquetas, estereótipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando às vezes que a pandemia teve um lado de reforçar um certo individualismo. É difícil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princípio, que abriria outros.
DA – O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga?
VIVIAN PIZZINGA – Eu tenho construído uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto reações de uma Vivian Pizzinga que têm a ver com circunstâncias, porque acho que é isso, a gente só sabe se há uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunstâncias, externas, internas e as que estão no meio de ambas (talvez só essas existam). Ou seja, o que a gente é ou tenta ser e faz ou tenta fazer é algo sempre relacional, é sempre um movimento oscilatório, e não garante nada, tampouco é linear. Há uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que está aí escrevendo é resultado de uma interseção de humores, afetos, coisas variadas de muitas espécies? São muitas, não é nenhuma? Freud já nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um hábito de olhar para si e suas ações/reações/interações e se espantar.
DA – Afinal, por que escrever?
VIVIAN PIZZINGA – Não tenho resposta melhor a dar que não a de Blanchot: Escrever para não morrer.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
A arte de fotografar não se resume a clicar e registrar um momento de uma pessoa ou objeto. Todo e qualquer registro artístico envolve, além do olhar, percepção e sensibilidade. A técnica é importante, mas deve passar despercebida como em qualquer outra arte. Fotografar é uma arte solitária.
Profundo conhecedor do ofício, Edgard é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciona na Graduação e Pós-Graduação e desenvolve pesquisas sobre a imagem. Participou de eventos culturais e expositivos no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Estados Unidos e Portugal, bem como de uma residência artística na Escola Superior de Artes Visuais da Ilha da Reunião (FR) em 2008. Entre 1994 e 2004, trabalhou como instrutor/professor de pintura na Oficina de Artes Visuais do Museu de Arte Moderna da Bahia.
Edgard Oliva é um fotógrafo que incorpora o aparelho fotográfico ao próprio corpo para revelar o oculto. A técnica não é percebida até o observador se dar conta que está envolvido e preso na fruição da imagem. Este é o mistério: saber definir toda uma paisagem que aprisiona num único click. É como olhar um pensamento. E isto é mágico. Fotografar não é apenas clicar. É inspiração. É a arte e a paixão de quem congela o tempo, deixando muito de si no registro da imagem.
Edgard Oliva / Foto: Alex Simões
DA – Qual seu primeiro contato com a fotografia?
EDGARD OLIVA – Desde a minha infância, adolescência. Meu pais gostavam e minha mãe era a fotógrafa da família desde quando meu avô a presenteou com uma câmera fotográfica nos anos 1940, por aí. Nos anos 1970, ela teve uma Kodak Instamatic e foi com esta câmera que eu iniciei os primeiros cliques na adolescência, entrando pela vida universitária, no final do anos 1970.
DA – Nos tempos de hoje, a fotografia ainda é possível como profissão?
EDGARD OLIVA – Sim. A fotografia digital proporcionou que muitos “novos” fotógrafos, e fotógrafas, tivessem a oportunidade de realizar com mais rapidez o aprendizado da fotografia. O autoaprendizado através dos tutoriais facilitou muito o interesse pela profissão de fotógrafo/a, além dos cursos particulares possíveis de serem realizados, pois o custo do material deixou de existir. Contudo, os equipamentos ficaram mais caros, mas o fator custo benefício compensa.
DA – Fotografia: analógica ou digital?
EDGARD OLIVA – Analógica para os apaixonados pela química, a fotografia arte, a imagem manual e mais racional, pensada e que não podemos “deletar”.
A digital para os apaixonados pela imagem, a imagem instantânea, a imagem eletrônica, mas que não perde seu valor estético conquanto imagem e arte, naturalmente. Contudo, penso que, tanto na categoria arte quanto no documentário e no jornalismo, todas as categorias se beneficiam muito bem da tecnologia atual.
DA – Qual o seu maior prazer em relação à fotografia?
EDGARD OLIVA – Alcançar na captura da imagem o que meu olhar consegue perceber e capturar a partir da luz não premeditada, pré-definida, mas a luz que se apresenta para o fotógrafo. São as melhores imagens, pois elas nos dão sensações diferentes, são emoções pós objeto iluminado e capturado pelo olhar mecânico/eletrônico do equipamento.
DA – Possui alguma mania quando fotografa?
EDGARD OLIVA – Não, somente estar só e “escutar” o que a luz me ensina. A qualidade da luz/imagem é o mais importante.
Edgard Oliva / Foto: Alex Simões
DA – O que é imprescindível para se obter uma boa fotografia?
EDGARD OLIVA – O imprescindível: sensações e emoções. Previsão do resultado, dominar a luz a partir do uso correto do equipamento.
DA – Como você avalia a leitura da imagem fotográfica hoje?
EDGARD OLIVA – Se você tem um grupo de aprendizes de fotografia é importante iniciar pela leitura de textos para que o texto te traga à imagem. A imagem, para nós humanos, não existe sem o texto porque, ela própria, a imagem, já é um texto. Se a lemos visualmente é porque ela nos proporcionou interpretá-la. Sendo assim, é importante compreender a imagem para que possamos lê-la corretamente. Ela, a imagem, é o que foi em um passado recente ou outrora existente como sujeito registrado como fotografia.
DA – Em relação ao ensino da fotografia, quais os principais desafios a se enfrentar?
EDGARD OLIVA – Educar o olhar, avaliar qual o equipamento a ser utilizado, entender por que eu quero me aproximar dessa tecnologia tão desejada pelo homem no passado, e somente lembrando que a imagem fixada em um suporte a partir da luz foi pensada por Aristóteles em 350 a. C. Por aí, vejamos, relatando esse início da produção imagética aos alunos ou a aprendizes individuais, o desejo em desfrutar desse poderoso invento aumenta. Nesse sentido, colocar o aluno no laboratório de fotografia e ele perceber, aprender como foi o início de todo o processo, a aluna ou aluno logo quer saber mais sobre o continuum da formação da imagem. Entretanto, seguir adiante na carreira, fica à luz de cada uma/um. Assim, o desafio está como fazer a pessoa se apaixonar e desejar mais.
DA – Qual deveria ser o foco de um fotógrafo iniciante para aprimorar seu trabalho?
EDGARD OLIVA – O próprio ser humano. As expressões, os ambientes que os representam, as identidades pessoais, a busca por uma luz própria. A luz é a assinatura de cada fotógrafo.
DA – Como você vê a produção acadêmica? Ela difere da fotografia do dia a dia?
EDGARD OLIVA – A fotografia acadêmica se fecha dentro de um reduto acadêmico e científico, teórico ou teórico-prático. É preciso ter muito cuidado para não perder o lado pessoal de identidade própria conquanto fotógrafo artista ou documental. A fotografia acadêmica é muito importante do ponto de vista da compreensão e interpretação das imagens. Por isso eu fui por este caminho, a universidade, como pesquisador e professor. Não bastava fotografar, mas entender melhor meu objeto a partir do meu olhar.
A fotografia autoral e independente da estrutura acadêmica proporciona uma outra experiência, a experiência do livre árbitro, de um poder de decisão imenso e importante para a carreira do fotógrafo. O processo dá-se como o voo da águia: é solitário, mas com o olhar preciso.
Edgard Oliva / Foto: arquivo pessoal
DA – A imagem tornou-se banal com o advento dos celulares ou essa tecnologia foi um ganho?
EDGARD OLIVA – Ela banalizou. Contudo, ocorre hoje o que ocorreu quando, em 1888, o George Eastman criou a primeira câmera fotográfica em pequeno formato e, com isso, ele permitiu popularizar a fotografia ainda no século XIX. Incrível, mas ele fez isso numa época em que somente quem poderia pagar para um fotógrafo a reprodução de uma cena de família teria chances de ter uma imagem da nova tecnologia à época: a imagem mecânica, não mais a pintura como documento, a luz e a química se complementando através do sistema negativo positivo, elementos os quais ressignificavam os processos de obtenção da “nova imagem”. No presente, os equipamentos eletrônicos dominam nosso cotidiano. A câmera fotográfica digital miniatura, que não existe mais, substituída pelos aparelhos de telefone celulares. Com esse advento, a imagem sim, banalizou, mas a arte e o documental ganharam. A fidelidade ou a abstração da imagem adquiriram valor de Fine Art, valor monetário e cultural no sentido de possibilitar maior acessibilidade em todos os aspectos.
DA – Qual o maior inimigo da fotografia enquanto arte?
EDGARD OLIVA – Como eu disse anteriormente, a fotografia deve ser vista como imagem do cotidiano, aquela em que se registra o dia a dia da/do cidadã/cidadão (Facebook, Instagram e Twitter, etc.), a imagem para a imprensa ou a imagem dedicada à arte. São três níveis de imagens os quais devemos observá-las com cuidado. Elas nos revelam estratos do olhar e do modus operandi do sujeito que a produz. Não podemos nos dissociar mais desses três níveis de produção imagética. Nesse sentido, é preciso estar de olhos abertos para a fotografia arte porque ela nos coloca em outro patamar, nos tira de uma visualidade simples para uma visualidade interna, para uma reflexão da nossa própria existência e como percebemos a presença do outro no nosso contexto social.
DA – Existe uma fotografia baiana?
EDGARD OLIVA – Existe sim, e ela está impregnada em cada um que aqui na Bahia fotografa. Eu diria que mesmo para quem não é baiana/baiano, chegando na Bahia e tomando a nossa paisagem visível, em todos os sentidos, e realizando imagens para o documental ou para o viés artístico, é uma fotografia baiana, pois ela está impregnada de elementos nativos da Bahia. Então, eu acho que a fotografia ganha identidades a partir do local onde elas são capturadas, e não porque tal e tal fotógrafo ou fotógrafa utilizou do equipamento para isso. Há nomes em nosso estado sim, são genuinamente baianos que preservam a identidade cultural da Bahia, uma Bahia de múltiplas facetas, e isso nos garante uma particularidade.
DA – Qual considera o seu trabalho (ou trabalhos) mais icônico?
EDGARD OLIVA – Todos os trabalhos que eu pude realizar até o presente considero icônicos. Contudo, os registros sobre a estética dos presépios na Chapada Diamantina foram os registros mais importantes para minha carreira conquanto fotógrafo artista. Da orientação do olhar para a leitura a partir da semiótica da imagem e compreendê-la não somente como fotografia, mas como objeto de estudo para entender o homem e as história pessoais a partir do contexto de oralidade regional, foi muito importante. Os demais projetos que realizei, e que ainda realizo, estão dentro de uma perspectiva da subjetividade da imagem, a imagem conquanto paisagem interna, as paisagens que nos fazem sofrer ou repensar nosso passado e presente. São paisagens interiores transferidas de modo subjetivo para o olhar do espectador. Daí, necessitamos expô-las e abrir diálogos com o espectador para satisfazê-lo, compreender a partir de um olhar “estrangeiro”. É o olhar de fora para dentro, contrário à percepção do artista fotógrafo que olha de si para o exterior.
Presépio de Maria da Natividade Souza, Iramaia-BA, Brasil, 2002 / Foto: Edgard Oliva
DA – Existe algum tema que jamais abordaria no seu trabalho?
EDGARD OLIVA – Não, nenhum desde que seja possível realizá-lo e mostrar. Cada ideia pode se transformar em um projeto importante, mas nem todo projeto poderá se tornar importante.
DA – Um livro imprescindível para o fotógrafo.
EDGARD OLIVA – Bem, existem vários. Desde os de conteúdo técnico/tecnológico até os livros autorais que tratam da imagem fenomenológica, da fotografia conquanto documento, da fotografia arte, enfim, se você quer saber qual me orientaria melhor no aprendizado sobre como obter uma boa imagem, eu indicaria “A câmera” de Ansel Adams, assim como “O filme” e “O negativo” do mesmo autor, um renomado fotógrafo norte-americano que investiu muito na qualidade da imagem, a imagem em preto e branco e com todas as gamas de cinzas indo do preto total ao branco total, ou seja, luz e não luz. Mas, se você me pergunta sobre a imagem tecnológica e numa linha filosófica, eu indico o título “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser. Mas, se se trata da imagem conceito, da imagem reflexiva, podemos ter autores como Gaston Bachelard, Henrri Bergson, Jacques Rancière, George Didi-Huberman, Boris Kossoy com uma abordagem fundamentada na história da fotografia e sua temporalidade, e o próprio Sebastião Salgado com o título “Da minha terra à terra”, entre outros, pois nos beneficiam com novas reflexões a partir das imagens, pontuando o que somos neste bioma terrestre.
DA – Qual o fotógrafo ou artista, vivo ou morto, gostaria de convidar para um bate-papo ou um café?
EDGARD OLIVA – Pensando bem, o Hiroshi Sugimoto. Na minha opinião, ele consegue nos mostrar o que não conseguimos perceber com nossa sensibilidade tão conturbada e modificada pela modernidade. São olhares sobre o contínuo do processo da existência, e sobre nós mesmos, para com o outro e a natureza das coisas presentes. A partir desse princípio, eu tomaria um café ou um chá com ele, mesmo sem falar nada da língua japonesa.
Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.
O guitarrista, compositor e vocalista da banda Flerte Flamingo, Leonardo Passovi, carrega a objetividade da juventude e a sabedoria de um ancião. O músico de Salvador recentemente trocou a Bahia pela capital paulista na companhia do baterista Igor Quadros, onde atualmente cursa Produção Fonográfica no Conservatório Musical Souza Lima. E como num desfazer de malas, Léo Passovi avalia as transições, assimila mudanças geográficas e estruturais da banda, analisa o mercado fonográfico e sua própria trajetória artística.
Formado no verão de 2015 em Salvador, “com a proposta sonora pautada na espontaneidade das canções compostas por seus integrantes”, o Flerte Flamingo faz um dos sons mais interessantes do atual cenário musical. A mistura de rock e samba com ritmos afro-brasileiros conquista pelo gingado e pelas letras espirituosas e cuidadosamente esculpidas. Hoje com 5 EPs na bagagem, Léo e sua trupe preparam-se para novas aventuras.
As influências musicais do compositor passam por Jorge Benjor, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Arctic Monkeys, Paul McCartney, The Beatles, Papooz, Summer Salt, Stevie Wonder, Kanye West e Peter, Paul & Mary. Além da banda, Léo flerta também com a literatura como colaborador da revista eletrônica Mormaço. “Culpa” esta atribuída ao leitor de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, H.P. Lovecraft, Agatha Christie, Julio Ribeiro, Machado de Assis e Stendhal, para citar alguns autores. Lembram das tais letras cuidadosamente esculpidas? Pois é.
Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Leonardo Passovi aborda os novos rumos da banda (ou do atual duo ao lado de Igor Quadros), suas aspirações artísticas e analisa até mesmo os 15 minutos de Warhol reduzidos a ínfimos 15 segundos de TikTok. Enquanto isso, o Flerte Flamingo prepara-se para o lançamento do EP Truques Velhos Para Cachorros Novos e acaba de divulgar duas novas canções em formato acústico, “Calma, Carolina” e “Ano Que Vem”, para o projeto Sala de Estar. Boa leitura!
Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos
DA – O último EP do Flerte Flamingo,Outras Duas Músicas de Flerte Flamingo,foi lançado há mais de um ano. O que vocês fizeram nesse ínterim e quais os planos da banda para o segundo semestre de 2022?
LEONARDO PASSOVI – De lá pra cá, muita coisa aconteceu e muita coisa mudou. Nós saímos de Salvador e viemos pra São Paulo. É um processo de adaptação que requer uma boa dose de cautela, porque nós somos muito cuidadosos com o som da banda. Mas, neste meio tempo, canções foram gravadas e devem ser lançadas neste semestre. Sem dúvidas, há coisas por vir.
DA – Quais os fatores determinantes para a mudança para a capital paulista?
LEONARDO PASSOVI – Foi muito mais uma questão mercadológica. Estivemos aqui no ano passado e percebemos que, para além da parceria com o Selo Rockambole, há muito terreno a ser explorado e lugares para tocar. É uma terra que pulsa música de todos os lugares, muita gente se encontra aqui. A nossa leitura foi de que esse era o momento.
DA – Você acredita que, mesmo com a era digital, ainda é importante “sair da aldeia” para inserir-se no eixo musical concentrado entre Rio-São Paulo?
LEONARDO PASSOVI – Mesmo na era digital, algumas coisas nunca mudarão. O digital facilita em muitas formas, mas não se pode viver disso. A música ao vivo sempre vai se sobrepor. Pode-se ter o alcance cibernético que for, se não se traduzir em presença, de palco e de público, é telhado de vidro, castelo de cartas. O off-line sempre foi o nosso forte, botar 200, 300 pessoas num inferninho e fazer todo mundo dançar e cantar. Esse é o resultado mais prazeroso da nossa expressão musical: a conexão direta com a energia e o calor de quem gosta do som. Depois da pandemia, muita coisa ficou sucateada em Salvador, e em São Paulo há muito a ser explorado. Apenas há de se fazer as coisas com calma e equilíbrio pra que dê tudo certo.
DA – Por falar nisso, como vem sendo o processo de retorno aos palcos nesse período pós-pandêmico?
LEONARDO PASSOVI – O retorno aos palcos ainda não aconteceu de fato, porque a mudança pra São Paulo implicou também uma mudança na formação da banda.
DA – César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado) e Igor Quadros (bateria) não vieram para São Paulo com você? Aliás, a banda sofreu algumas alterações de integrantes desde sua formação, em 2015. Como você analisa essas transições e quais as influências musicais que cada um trouxe?
LEONARDO PASSOVI – Viemos para São Paulo eu e Igor. As mudanças na formação, de 2017 até 2021, todas tinham sido na bateria, tirando um período de 6 meses em que César esteve fora do país e foi temporariamente substituído. Desde 2019, quando Igor entrou, a formação vinha sendo essencialmente a mesma. Apenas no último trabalho lançado, que Igor estava na França e Gabriel Burgos gravou a bateria das canções. Nosso som, desde os primeiros EPs, teve uma identidade singular, que eu acredito que se manteve, na medida que evoluiu ao longo tempo, seja por ideias novas e melhores, seja por mais intimidade com os processos de produção, gravação e interação entre os músicos. Cada um dos que passaram pelo conjunto contribuiu com sua particularidade e individualidade para o todo, mas a espinha dorsal tem sua linearidade. Esse, na verdade, é o momento em que certamente essas mudanças serão mais sentidas. Estamos medindo bem a temperatura da água antes de entrar.
Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos
DA – Como é a tarefa de manter aceso o espírito da banda em meio a tantas mudanças?
LEONARDO PASSOVI – Enquanto há canções para serem colocadas na rua, o espírito se manterá vivo, não importa o que aconteça. Não é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto se imagina. Mas sem dúvidas é a música que faz tudo isso andar.
DA – Os EPs Postura e Água Fresca (2017) e Espero Que Você Entenda (2020), além de uma sonoridade que remete a uma certa nostalgia, possui a temática voltada para letras “baseadas em fatos reais”. O que inspira o Léo Passovi compositor?
LEONARDO PASSOVI – Do que nós temos até agora pra tirar como amostragem, realmente são sempre situações de relações humanas, relações amorosas, como 98% das músicas no mundo. Só que acaba sendo muito mais sobre como o eu lírico se sente do que contando uma história. Não tem tanto o viés narrativo quanto o viés confessional das emoções. É uma forma de canalizar o que se sente enquanto provoca uma ou outra franzida de sobrancelha em quem sabe o que está por trás daquilo.
DA – Por falar em “viés narrativo”, você é um dos colaboradores da revista eletrônica da Mormaço (editora independente de literatura contemporânea). Como surgiu o convite e qual sua relação com a literatura?
LEONARDO PASSOVI – Entrei na revista quando ela ainda estava muito no começo. Um grande amigo meu faz parte da editora da qual a revista faz parte, e me chamou. À época, eu devia ter escrito um ou dois contos na vida. Mas assumir o compromisso de escrever mensalmente deu um novo gás à expressão criativa. Na infância e adolescência, li menos do que gosto de admitir. Mas tenho tentado tirar o atraso. Sempre gostei de contar história e acessar emoções das pessoas através de fatos. A escrita possibilita uma escolha das palavras certas e definitivas com as quais essas emoções serão provocadas. Além de ter, quase sempre, um toque de terapêutico. Eu recomendo a praticamente todo mundo que pratique a escrita no dia a dia.
DA – Em que medida o Léo Passovi compositor se converge com o Léo Passovi escritor?
LEONARDO PASSOVI – Difícil é saber em que medida eles se separam. É o mesmo jeito coloquial, conversativo de se comunicar com quem consome o material, seja lendo ou ouvindo. Quase sempre focando no que a personagem em questão sentiu. Mas enquanto um é em prosa, o outro é cantado; enquanto um tem começo meio o fim, o outro faz uma miscelânea de sentimentos que aos poucos situam o ouvinte.
DA – Como é seu processo de composição? É um processo solitário como na escrita ou ao contrário, você prefere as parcerias musicais?
LEONARDO PASSOVI – Completamente solitário. Já fiz parcerias, mas meu ritmo é muito particular, não é muito consistente e o processo acaba sendo muito íntimo e individual. Eu costumo precisar me acostumar muito com a escolha de palavras + melodias antes de dividir. Preciso ter certeza que encontrei a melhor junção. Ainda preciso desencanar e desapegar um pouco de certas agruras do processo pra poder fazer em companhia de outras pessoas. Mas já aconteceu, tanto de escrever com outras pessoas, como de escrever canções diante de pessoas.
Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos
DA– Você tem vontade de lançar um projeto solo? Qual a característica do seu trabalho individual que não “caberia” na banda?
LEONARDO PASSOVI – Todo trabalho que eu faço musicalmente é pensando na banda. Muito pontual eu criar algo sem esse propósito. A não ser que seja por pura diversão. Mesmo as coisas que eu componho que não se encaixam com o momento da banda são com o propósito de virar o próximo momento da banda. Flerte Flamingo é o combustível das minhas criações musicais.
DA – Como você avalia esse processo de “tiktokzação” da música e a pressão de selos e gravadoras para que os artistas recorram à plataforma para viralizar seus singles?
LEONARDO PASSOVI – Preocupante. Intensifica o imediatismo para com os resultados, enlata um formato desgastante e desgastado. Obriga pessoas que normalmente não têm costume de se comunicar dessa forma a mendigar atenção de maneira patética. Toda a papagaiada das dancinhas, das trends, da ânsia por viralização faz mal a uma multidão e beneficia um ou outro sem nenhum tipo de critério. É um terreno ainda muito movediço, todos os envolvidos ainda estão tateando. Os responsáveis pela elaboração de estratégias que se voltam pra essas ferramentas tentam encontrar algum padrão, mas isso é muito ilusório, porque a qualquer momento algo completamente despropositado rouba a atenção de todos, virando a “nova fórmula”. Enquanto isso, o mundo da música, como parte do mundo do entretenimento, tenta se espremer por ali, suplicando que 15s de música sejam ouvidos, senão a atenção do usuário já foi embora. Ninguém faz 15 segundos de música. Uma canção tem um propósito, uma proposta estética, uma sequência de momentos de humores que empobrecem muito se o foco for criar 15 segundos viralizáveis. É muito triste ver um universo tão rico se submetendo a essas ferramentas por dificuldade de conseguir atenção e financiamento. Vendem isso como uma parte de ser empreendedor, mas na verdade aquilo é a tecnologia fazendo as pessoas literalmente dançarem pra conseguir um tostão de atenção, pelo pavor do esquecimento e pelo desespero pra alcançar alguma concepção de sucesso. Vez por outra, assopra algum vento contrário, algum eco de reação em nome da salubridade das pessoas e dos processos, que dá uma fagulha de esperança a quem percebe o mal que isso faz. Mas é tão inútil dizer que isso é passageiro quanto é dizer que é duradouro. A gente nunca sabe o que vem depois. Mas, nesse quesito específico, as perspectivas não são animadoras.
DA – É possível conceber a vida sem a arte? Qual sua maior “munição” enquanto artista?
LEONARDO PASSOVI – Nos últimos anos ficou bem claro que a arte é o forro interno que nos mantém sãos. Muito mais do que mero entretenimento, é a vida se olhando em espelhos. A arte joga luz sobre as coisas que a vida prática esfumaça. A função do artista é observar, apontar o dedo é falar “ói”, pra que as pessoas vejam o que elas não estavam prestando atenção. Mas o artista também é gente. Então tem hora que o artista simplesmente vai querer falar sobre como ele se sentiu. E isso toca a pessoa na medida em que ela sentiu aquilo também, ou apenas empatiza com uma forma convincente de expressão. A munição é a capacidade de observação e as experiências alucinantes que a vida propicia. As menores coisas podem virar as maiores presepadas. A beleza tá em saber retratar.
Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por conversas profundas, postura e água fresca.
Árdua tarefa tentar descrever um ser peculiar como Juvenil Silva. Aura despretensiosa de artista, veia de poeta, prosa (boa) de trovador. É alma pernambucana, carne de Carnaval, casca rachada de caranguejo. E por falar em prosa, como é bom debruçar-se sobre as reflexões nada juvenis do “compositor, tocador e cantante”, como define a bio de sua conta no Instagram. É bom ouvi-lo filosofar sobre os efeitos da pandemia em nós mesmos e sobre seus discos, ou melhor, sobre seus “álbuns de fotografias abstratas”.
Juvenil nasceu autodidata e já trocou uma bicicleta por um contrabaixo, quando criança. Iniciou sua trajetória na banda Canivetes, foi agitador cultural por uma década no A Noite do Desbunde Elétrico (conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”, em Recife) e atualmente concilia três projetos paralelos (Avoada, Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens). Além de seu trabalho solo, ainda comanda seu próprio selo musical e é idealizador de projetos como o Discos Offline ou Vende-se Música. É um acumulador de funções artísticas e um aglutinador nato.
Não é fácil também seguir trilhando um caminho musical há mais de duas décadas pela cena independente. E se tem uma coisa que Juvenil sabe, é ser livre, seguir como um pássaro seus próprios fluxos estéticos e não se dobrar a nenhuma tendência migratória. Talvez o artifício sejam as “canções coracionais” desse eterno psicodélico. Por ora, seus próximos voos reservam o lançamento do primeiro disco de seu projeto coletivo Avoada e de seu quinto álbum solo.
Esta conversa sem pressa, “sem relógios”, como o nome de seu single mais recente, reflete algumas considerações da mente criativa e do coração generoso desse sujeito consciente e engajado, amante das plantas, dos gatos e da arte – no sentido mais genuíno da palavra. Um encontro do Juvenil menino com o Juvenil maduro celebrado em nossa Pequena Sabatina ao Artista.
Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova
DA – Praticamente 9 meses (uma gestação inteira) separam o lançamento de Lonjura (2021), seu álbum mais recente, do seu retorno “oficial” aos palcos. Qual o impacto dessa distância (ou dessa “lonjura”) entre o lançamento do disco e a retomada dos shows com público?
JUVENIL SILVA – Pra ser franco, ainda não me sinto de volta. Não sinto esse “retorno oficial aos palcos”. Não como antes, talvez nunca seja como antes, talvez seja melhor algum dia, ou mesmo parecido. Mas no momento ainda me sinto dentro dessa “Lonjura”. Por exemplo, o EP foi lançado, mas nunca executado ao vivo. Nunca houve show de lançamento. De algumas pequenas apresentações que tenho feito, ainda não sinto algo forte, real, presente. Acredito que isso se deve mais a mim mesmo. Às vezes, a gente vai tão longe lá dentro que fica sem saber por onde, nem como voltar. Mas por ora, tô mais interessado em ir, seguir. Só pra ver no que vai dar.
DA – Apesar do isolamento social no qual foi concebido, o Lonjura teve inúmeras parcerias. Você ainda pretende fazer um show/turnê de lançamento? Ou você acredita que este EP em particular funcionou como uma espécie de registro, um recorte desse momento introspectivo pelo qual todos nós passamos (e ainda carregamos sequelas)? Qual o significado desse disco para você?
JUVENIL SILVA – Sim, meus discos são recortes do tempo, álbuns de fotografias abstratas. Espelhos emocionais do subconsciente. Sobre a produção do EP, é mais sobre um mergulho prazeroso nas possibilidades do que um aperreio com as dificuldades que o isolamento trouxe. Explorei ao máximo isso de gravar com vários músicos, cada faixa traz uma galera diferente e de lugares distintos. Algo que antes era mais resumido a ensaiar com uma banda e gravar. No período de isolamento eu me reconectei com pessoas que estavam perdidas nessa “lonjura”, que mais existe dentro de nós mesmos. Pois perdidos ficamos em nosso emaranhado universo de afazeres, demandas e péssima utilização de nosso tempo.
DA – Como você avalia o atual papel da arte e do artista diante dessa “poluição midiática”, calcada em excesso de informação e escassez de conteúdo, e ancorada em algoritmos, militância e inquisição virtual?
JUVENIL SILVA – Em relação ao papel da arte, acredito que é algo que deve ser livre de qualquer coisa. Por mais que na mídia a gente tem visto ela sendo explorada de modo tão engessado. É triste, o capitalismo sempre fez esse joguinho sujo. Se apropria de culturas, discursos, bandeiras… A qualquer custo. Mas a arte em si, (r)existe para além disso. Eu não tenho muita paciência para seguir tendências, só sigo um próprio fluxo de ciclos estéticos que vão deslanchando naturalmente. Por mais que, na maioria das vezes, aparentemente, eu esteja de ré na contra mão (risos). Sinto que vivemos numa espécie de saturação dos sentidos em relação à arte. Um tedioso fast food cultural. A gente come tão rápido que nem sente o gosto e depois vem outra coisa e depois outra, não se degusta e nem se absorve direito. Essa entrevista, por exemplo, a maioria das pessoas vai ler apenas a chamada da matéria, algumas vão até compartilhar mesmo sem ler, outras vão ler pelo menos o começo… (Oi pra você que leu até aqui!). Infelizmente, toda essa avalanche de informação não nos torna mais sábios e sim pelo contrário, é tudo tão ligeiro que nem temos tempo pra pensar direito. E a festa continua, seja lá como a coisa esteja.
Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova
DA – O que nos reserva o próximo fluxo de Juvenil Silva? Um novo álbum, uma nova produção?
JUVENIL SILVA – Faz tempo que não lanço um álbum cheio, né? O “Suspenso” é de 2018. Talvez eu ande meio desacreditado desse formato. Não por ele em si, pois amo ouvir álbuns, mas pelo modo que as pessoas vêm consumindo música. Bem, tenho um disco guardado e pode ser lançado a qualquer momento. Em janeiro lancei um single dele, a faixa “Sem Relógios”. Na verdade, são 7 canções, daí existe uma dúvida em deixar como EP ou pôr mais músicas e fechar um álbum completo. Também estou imerso nas gravações do primeiro álbum do projeto coletivo “Avoada”. Ambas as produções serão lançadas ainda este ano. Acredito que o meu sai ainda este semestre e se chamará “Um Belo Dia Nesse Inferno”. Nome que seria do meu primeiro disco, lá em 2013. Não só o nome, mas também a estética. Pois desde o início eu queria lançar um disco de folk psicodélico, acabou que fiz algo mais rock psicodélico, folk rock… Mas agora vai. Recomeçando da maneira que eu iria começar.
DA – Por falar em Avoada, esse não é o único projeto coletivo que você participa. Você ainda integra o Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens. Quais as peculiaridades de cada projeto e como você consegue conciliá-los com sua carreira solo?
JUVENIL SILVA – Esses projetos coletivos requerem um pouco mais de disciplina e compromisso do que meu trabalho solo, pois envolvem outras pessoas. São vários fluxos alinhados para que se possa fazer algo. Mas também é onde posso aproveitar minha versatilidade no exercício de compor. Na Dunas do Barato, eu trago um material mais voltado pra música brasileira, a banda tem bastante influência dos Tropicalistas. Na Avoada, usamos a canção como veículo de luta. O coletivo foi praticamente formado pra meter o pau nesse desgoverno e fazer isso usando a canção numa estética mais rural, regional, folk. Além desses projetos, que são autorais, tem A Banda dos Corações Selvagens, que faz uma releitura ácida e psicodélica da obra do Belchior, e também o trabalho com o selo Plurivox, com Tonho Nolasco, onde além de gravar e produzir nossas coisas, estamos fazendo a produção fonográfica de outros artistas. De alguma forma, minha carreira solo permeia tranquilamente entre tudo isso e mais um pouco.
DA – Como surgiu a ideia do selo Plurivox? Como funciona a captação de novos artistas para a gravadora? O estúdio já está finalizado?
JUVENIL SILVA – A Plurivox surgiu quando na pandemia comecei a aprender a gravar para fazer meus “Discos off line”, álbuns que gravei e não lancei, apenas vendi. Com a construção do estúdio, que ainda não terminou, e com a troca constante e experimentos com o músico e produtor Tonho Nolasco e a designer Natália Amorim, a coisa foi surgindo naturalmente. Além de gravar nossas coisas, começamos a produzir artistas próximos que admiramos. Até então lançamos alguns singles da Flor de Jacinto e Marcionílio. Outros artistas e propostas estão sendo avaliadas. Ainda esse ano teremos vários lançamentos.
Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova
DA – Seu projeto Discos Off-line funciona como um chapéu virtual enquanto o artista toca na rua e já rendeu 8 EPs. Como tem sido a receptividade do público ao projeto? Você pretende continuar com esses lançamentos ou, de repente, lançá-los em outra plataforma?
JUVENIL SILVA – Os Discos Off-line foram 8 ao todo, “Isolamento Acústico”, “Isolamento Acústico Vol 2”, “Não Amolem os Canivetes”, “Cinzas de um Ano Morto”, esses de 2020. Em 2021, teve “Calendário dos Sonhos”, “Farol das Esperanças”, “Coracionalismo” e uma versão diferente do “Lonjura”, com arte diferente e mais músicas do que o EP lançado. Esse projeto foi algo de guerrilha mesmo, algo emergencial e cumpriu bem o seu papel. Teve uma ótima recepção da mídia e do público. Saíram várias matérias sobre e muita gente comprou. O valor era espontâneo, às vezes compravam um disco por 10, 20 reais, mas, às vezes, 50, 100 ou até mais. Não penso em seguir com esse projeto, pois foi algo estratégico para esse período de isolamento em que não havia possibilidade para shows e outros trabalhos mais. Os Discos Off-line e editais, como o Aldir Blanc, me ajudaram a segurar a barra financeira desses dias impossíveis. Agora, mesmo ainda sentindo que não voltamos por completo com os shows, pelo menos existem possibilidades. Vamos a elas. Saudade da estrada… Cheguei até a fazer alguns shows em São Paulo, mas tenho tocado mais pelo Nordeste. Mas vamos em frente, seguindo e passando de acordo com abrir das porteiras.
DA – Qual a diferença do Juvenil do A Noite do Desbunde Elétrico (festival de rock underground de Recife) para o Juvenil de hoje?
JUVENIL SILVA – O Desbunde Elétrico era um festival que eu e uma turma de outras bandas fazíamos, começou em 2007 e foi até 2016, se não me engano… Ao passar dos anos, ficou sendo produzido mais por mim mesmo. Naquela época, eu tocava com a Canivetes, banda de rock sessentista e psicodélico, com a Dunas do Barato, que fazia um som mais tropicalista e, depois, meu trampo solo. A diferença de hoje em dia, além de mais de uma década de juventude (risos), é que eu era ainda mais maluco e despreocupado, com o tempo a gente vai ficando mais sério mesmo, percebendo o tanto de coisa que acontece ao nosso redor e dentro de nós mesmos. Isso dá pra ver bem nas letras que escrevo. Se comparar as de hoje em dia com as primeiras composições gravadas nas bandas e na carreira solo… Depois do golpe, Bolsonaro, pandemia, términos de relacionamentos e outros tantos traumas, ninguém é mais o mesmo.
DA – Entre lonjuras e avoadas, suspenso ou no meio de lugar algum, o que mais o estimula a seguir trilhando sua estrada musical?
JUVENIL SILVA – Desde que me entendo por gente, me sinto artista, desde os rabiscos mais bobos nos caderninhos… Depois do primeiro violão, pronto. Não tenho, nem quero saída. É o que amo e sei fazer… Esse foi o caminho que escolhi, mesmo com todos e tudo na vida tentando me afunilar para um outro caminho. Àquele que dizem ser o correto: estudar, ter um emprego fixo, casar, ter filhos e morrer temente a Deus. Pois é, fui criado em família evangélica. Temores, hipocrisia e promessas de um paraíso pós-vida, no qual toquei o foda-se e fui atrás do meu próprio paraíso, no aqui e no agora. E não existe outra forma de viver isso, sem o tesão e amor naquilo que se faz. Sejamos plenos, triunfantes e nada menos que isso.
Larissa Mendes já viveu dias impossíveis, mas hoje, na medida do possível, se considera feliz.
Ser um criador é sentir-se atravessado pelos movimentos do mundo. É percorrer a condição humana retendo dela os estímulos necessários para o olhar crítico sobre a realidade. Pode ser também o gesto de compreender as mudanças pelas quais somos incessantemente desafiados. É potência manifesta. Ato de insubmissão. Ser e não ser no território das palavras e imagens.
Talvez as ideias evocadas no parágrafo acima sirvam para situar um pouco a presença de um alguém como Alex Simões entre nós. Suas feições de poeta e performer dizem muito sobre esse ato espantado que é o estar no mundo, colossal ambiente onde reconhecer-se humano é colocar-se o tempo todo à prova. E o poeta em comento não nos entrega versos de mão beijada, posto que nos convida a extrair do caminho poético ímpetos de diálogo constante com esse Outro que, ao fim e ao cabo, somos todos nós, leitores.
Aceitar o diálogo com Alex significa também acolher a partilha sensível de todo o assombro que está no mundo, como nos revela aqui o próprio autor. Tal gesto propositivo denota um movimento que chama atenção não pelo ato em si, mas pela perspectiva que este encerra, qual seja a de que o artista, despindo-se de qualquer afetação pela aura que o ofício supostamente poderia sugerir, opta por caminhar com simplicidade no meio de seus iguais: eu, você, todos nós.
Para ficar nos exemplos mais recentes, as vias poéticas de Alex foram capazes de nos ofertar obras do quilate de “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo, 2015) e “trans formas são” (Ed. Organismo, 2018), todas elas a demarcar a importância desse autor na cena literária brasileira dos últimos anos. Conhecedor da tradição, o poeta sabe transgredir as formas a favor de um engenho criativo que, sem negar referências de outrora, aponta para o reconhecimento da presença de outros modos canônicos no horizonte da poesia.
A partir de reflexões sobre seu novo livro, “assim na terra como no selfie” (paraLeLo13S, 2021), lançado em pleno contexto pandêmico que nos assola, Alex Simões acolhe a Diversos Afins para mais uma entrevista, pontuando impressões sobre o turbilhão contemporâneo em que vivemos, além de descortinar trajetos ligados à literatura e à arte. E é preciso ressaltar o quanto o artista está imerso nas questões de seu tempo, não se furtando a abordar também os matizes políticos e sociais sobre os quais a atualidade de nossos dias orbita.
Alex Simões / Foto: Edgard Oliva
DA – “Assim na terra como no selfie”, seu mais recente livro, traz algo que é uma marca registrada de sua produção poética, qual seja a capacidade de olhar para nossa contemporaneidade com movimentos de inquietude e provocação. É importante para você ser um poeta que desacomoda as coisas diante do confronto com o seu tempo?
ALEX SIMÕES – “assim na terra como no selfie” é um livro que tem também outra marca registrada de minha produção poética: o trabalho artístico relacional, dialógico. É o resultado de uma conversa com as editoras Milena Britto e Sarah Kersley, que fizeram uma seleção de poemas com o objetivo de mostrar as muitas facetas dessa produção. Eu tendo a reconhecer mais a inquietude do que a provocação no que faço. Creio que provoco, sim, mas menos no sentido de desacomodar do que no de demandar retornos, leituras, respostas, resultantes de estratégias que ao fim e ao cabo querem estabelecer diálogo. Diálogo explicitado nas muitas dedicatórias e referências nos poemas/paródias/pastiches. Esse olhar para a nossa contemporaneidade é inquieto porque parte da constatação de como as coisas são e estão desacomodadas e quer compartilhar esse assombro diante do mundo, diante deste tempo, que é o nosso tempo. É um olhar que, lembrando Agamben, adere a, e ao mesmo tempo toma distância deste tempo. Quando tomo distância não por nostalgia senão para entender melhor este tempo em que vivo, vejo as coisas desacomodadas e passeio por elas escrevendo poemas, fazendo poemas visuais e performances.
DA – O nosso presente traz todo um contexto pandêmico que nos atravessa. E seu livro também está marcado por esse estado de coisas. Enquanto poeta e artista, como tem sido a experiência de lidar com uma atmosfera que impacta nossa condição humana de forma tão avassaladora?
ALEX SIMÕES – Sim, uma parte significativa do livro foi produzida em plena pandemia e em contexto de isolamento bem restrito, o que inevitavelmente aparece em alguns poemas. Tive o privilégio de poder ficar em casa, trabalhar e receber delivery sem precisar sair, sem precisar usar transporte público. Mesmo Uber eu levei um ano para usar, porque nas poucas vezes que me desloquei no primeiro ano foi de bicicleta. O impacto foi muito forte porque perdi alguns amigos queridos e a sensação de que a morte estava me rondando era muito nítida, embora seja uma rara exceção de quem não teve perda na família por causa da COVID. Pessoalmente, foi um momento em que me vi com mais privilégios do que supunha e me redescobri menos sociável do que supunha. Tive a sorte de ter remuneração como artista/agente de cultura, em boa parte por meio de editais financiados pela Lei Aldir Blanc, resultado de mobilização nacional nossa, apesar desse horror de desgoverno que espero esteja no fim do mandato. Além das atividades como profissional de Letras, que revisa textos, dá aulas particulares e atua em projetos que permitiram que eu tivesse alguma tranquilidade para seguir. Faço todas essas ressalvas para dizer que, apesar de tudo isso, não foi nada fácil, não está sendo fácil. O luto não cessa e a sensação de viver à deriva, sob um governo que performa o descontrole e a incompetência enquanto deixa passar a boiada de agenda neoliberal, genocida e ecocida não cessa. Continuo sem saber como lidar, mas muito desconfiado que precisamos reaprender formas de fazer junto, de dialogar e tornar nossos discursos e ações mais acessíveis e factíveis. Ou aprendemos a saber distinguir com quem de fato podemos contar e a flutuar no bote salva-vidas nos acomodando de modo a não desequilibrar ou mesmo rasgar a embarcação, ou afundamos todas, todos e todes.
DA – Em 2016, quando você nos concedeu outraentrevista, estávamos vivendo os efeitos de um golpe, consequências estas que nos arrastaram até o cenário de destruição atual. E vimos muita gente saindo do armário e mostrando sua face truculenta, reacionária e fascista em praça pública. O Brasil sempre foi isso e nós que fingíamos não ver?
ALEX SIMÕES – O Brasil foi sempre isso, aquilo e aquilo outro. Somos um país fundado no genocídio e na exploração dos povos originários e dos povos forçosamente transplantados de África para cá. E que desde que virou República, não num passe de mágica, mas em um golpe militar, tem tido alguns intervalos de (re)democratização em um moto contínuo de um devir que nos prometem desde sempre: Brasil, o país do futuro. Mas somos um país de resistência desses povos, de seus descendentes e de contradições nesses processos que intercalam ditadura e acenos para a democracia, para processos radicais de transformação social também. E tem beleza nessas contradições, tem possibilidades. De fato, para alguns de nós nunca foi possível não ver o fascismo que nos circunda, que nos habita, que nos funda. Não foi no golpe contra Dilma Roussef nem no governo Bolsonaro que o racismo, a lgbtfobia, o machismo e o classismo apareceram para nos assustar. Mullheres, lgbtqiap+, pessoas em situação de rua, negros, ciganos, pessoas com deficiência e alguns de nós que trazemos mais de uma dessas marcas identitárias sabemos bem que se o gigante acordou, alguns de nós nunca pudemos nem sequer dormir sossegados. Mas de fato houve um empoderamento dos que trazem marcas identitárias hegemônicas, e fingem não ter, para se afirmar, para reagir a qualquer possibilidade de mudança. E é muito sintomático que reajam atribuindo aos outros o que são e o que fazem. Houve uma quebra do pacto do silenciamento e isso não tem mais como voltar. O mito da democracia racial teve que se reinventar e chamar os negros de racistas. Os defensores da ditadura militar justificam a lgbtfobia como reação à ditadura gay. Os machistas justificam suas falhas trágicas com o poder que atribuem à mulher de lhes provocar. Os extremistas religiosos usam sua fé para justificar o ódio que precisam externar. E o politicamente correto é um problema maior que o fato de 84,9 milhões de pessoas no Brasil não terem comida e/ou não saberem se vão comer amanhã. Esse empoderamento foi uma reação a alguns tímidos avanços que não tem como segurar. Você mencionou 2016 e eu preciso lembrar que em 2013 foram gestados alguns incômodos que ainda não fomos capazes de entender e que resultaram em parte no golpe de 2016. As contradições nos constituem e precisamos conversar com/sobre elas. E decidir que projeto de país queremos, se é que queremos um país. Eu quero, com as contradições e com as possibilidades de conversar com sobre elas. E é importante lembrar: o nosso país não está sozinho nessa, o planeta está precisando fazer DR.
DA – Há um quê de memória afetiva permeando “assim na terra como no selfie”. Na sua visão, qual o papel que os afetos têm diante de um mundo que parece não se importar muito com a singularidade das experiências de vida?
ALEX SIMÕES – Sim, tem muito de memória afetiva nesse livro. E mesmo em alguns poemas em que lanço mão de recursos da escrita não-criativa, buscando povoar a lírica com polifonia, com outras vozes que não a minha, tem afeto e tem memória envolvidos. Por exemplo, no poema ready-made “sessão de poesia para a tropa”, em que transcrevo uma parte do depoimento à Comissão da Verdade por Gilberto Natalini, que foi barbaramente torturado pelo Comandante Ustra na ditadura militar, eu trago a memória de um outro permeada de dores para um poema porque é o meu modo de agir no mundo, de demonstrar empatia e me posicionar sobre o horror. T.S. Eliot, no ensaio “A função social da poesia”, defende que o poeta tem um compromisso radical com a língua, porque a poesia trata de nossa capacidade de sentir numa língua, que é mais do que expressar sentimentos numa língua. Se temos afeto, afeição, se afetamos e nos sentimos afetados por coisas e pessoas, é porque temos um repertório que nos foi ofertado pela poesia. E claro que quando me refiro à poesia, estou tratando da mãe das artes. As artes nos ensinam a sentir. Quanto mais limitado for o nosso repertório artístico, menos capazes somos de nos sentir afetados e de sentir numa língua. E não pense alguém que não me conhece e esteja lendo esta entrevista que falo de um repertório canônico, da alta cultura, para os eleitos. A amplitude de repertório artístico passa pelo popular e pelo erudito, pelas linguagens artísticas e por tudo aquilo que estiver fora da minha bolha. Um país que dá as costas para a sua riqueza cultural, o faz porque esse gesto acompanha um desdém para tudo o que promove essa riqueza, que é a pluralidade. O papel dos afetos diante desse mundo insensibilizado me remete ao Padre Julio Lancelotti pegando uma marreta e quebrando as pedras que colocaram embaixo do viaduto para impedir que as pessoas em situação de rua pudessem se deitar. Ele, que não é um artista, mas um sacerdote, performou um gesto de quem se sente afetado e afeta na ação. Uma parte do país que não percebe a importância e a urgência desse gesto não tem repertório artístico que lhe permita acessar essa grandeza. Este país precisa ouvir mais Rap, mais pontos de candomblé e umbanda, precisa voltar a escutar os provérbios (lembro aqui do conceito de literatura-terreiro, de Henrique Freitas), ler mais autoras negras e LGBTQIAP+, frequentar mais museus como quem anda nas ruas e aprender a olhar as ruas como quem visita um museu, transitar pelas diferenças, tendo as artes como bússola.
DA – Numa resenha publicada aqui na Diversos Afins, Sandro Ornellas vislumbra seu livro também como um labirinto de hesitações. No seu engenho com as palavras, lhe soa atraente a ideia de um se deixar ir, mergulhar fundo, estar perdido, voltar ou até mesmo desdizer o ontem?
ALEX SIMÕES – O autor do fabuloso “dói-me este mundo de violentas esperanças” é um grande poeta e conhecedor de poesia e, para a minha sorte, conhecedor também das coisas que eu escrevo-faço. Sandro Ornellas vem fazendo, entre muitas outras coisas lindas, um trabalho de leitura crítica de seus conterrâneos-contemporâneos, que é digno de nota. E quando ele evoca a ideia de Valery da hesitação entre som e sentido, ele aponta numa direção que cai muito bem para definir o que tenho tentado fazer. Ter o controle para perdê-lo, cartografar por não saber ler mapas, apoiar-me em formas fixas para implodi-las, ter como estilo a falta de estilo, “ser superficial, no fundo”. Eu cada vez menos sei escrever poemas e fazer livros. E vou fazendo, porque “é mais difícil do que não fazer”. Por um lado, tem a síndrome de impostor envolvida porque, de fato, tem muita poesia incrível já feita e que está se fazendo e eu leio sempre muito menos do que deveria e estou sempre me perguntando se vale mesmo a pena escrever e gastar papel e tinta para publicar o que escrevo. Por outro lado, tem uma alegria em abandonar o desejo de abandonar o barco e seguir navegando à deriva, sem remos. Tem um gosto pelo fazer sem saber aonde vai dar, que com muita frequência não dá em nada mesmo, mas que de vez em quando vira poema, livro, performance, poema-objeto, derivas. No poema “a mulher de Lot é um artista”, falo um pouco de um dos meus fascínios, que é observar a relação do músico com o seu instrumento, uma relação concreta entre o corpo e um objeto, que se amalgamam a ponto de nos parecer sem esforço, intuitivo. Eu não sei se consigo, mas tento me relacionar com a vida, com a arte-vida, assim. Assim como? Do que mesmo eu estava falando?
Alex Simões / Foto: Edgard Oliva
DA – Autores escrevem para os outros ou para si mesmos?
ALEX SIMÕES – Não saberia dizer para quem as autoras e os autores escrevem. Mas desconfio que os textos que são escritos por elas e eles e ilus se comunicam entre si e não se bastam porque demandam que outras pessoas os leiam para que existam, para que façam sentido. João Cabral vai aparecer de novo nessa conversa porque ele escreveu para o leitor Ninguém, com quem me identifico. As autoras e os autores que me interessam costumam escrever com muitos outros e consigo mesmos. Por exemplo, Luciany Aparecida e Itamar Vieira Júnior, cada um(a) a seu modo, trazem muitos outros e outras em seus textos sem se perder.
DA – Sobretudo nos últimos anos, com o avanço do digital, mais e mais autores se lançaram ao desafio de expor seus textos. Ao lado disso, vimos também o surgimento de editoras independentes por todos os cantos do país, oportunizando vozes das mais diversas. Está todo mundo certo no desejo voraz de ser publicado ou, na sua visão, a maturação das obras é algo que anda se dissolvendo no meio da pressa contemporânea?
ALEX SIMÕES – A Internet sem dúvida promoveu o “escribicionismo”, sobretudo com o advento dos blogs, que um pouco antes das redes sociais deram voz e vez a pessoas que queriam expor seus textos para o mundo. Bastava ter computador e ideias para compartilhar em forma de textos. Claro está que vivemos no Brasil e que o acesso às tecnologias digitais e mesmo às tecnologias da escrita ainda são muito restritas. Dentro dessa bolha que vivemos, os blogs e as redes sociais possibilitaram novas formas de divulgar e distribuir seus textos, o que por si é incrível. Eu confesso que ainda hoje tenho um certo deslumbramento diante da web, no que ela significa em termos de acesso às e compartilhamento das informações. Milton Santos já havia apontado, por exemplo, sobre o impacto que as lan houses provocaram nas comunidades periféricas. A internet mudou nosso modo de olhar o mundo e por consequência nosso modo de olhar e ler os livros. Esse boom de editoras independentes está relacionado com este tempo. Neste país que historicamente sempre teve uma faixa muito restrita da população com amplo acesso ao livro e à leitura, as possibilidades que a internet e as editoras independentes oferecem são motivos de celebração por si só. As pessoas estão mais expostas a situações de letramento e mais expostas aos livros, que não podem mais ser entendidos apenas em sua configuração física. Mas esse acesso à internet também impactou o modo como nos relacionamos com os livros. A experiência da leitura, do contato com os autores e com o objeto-livro tem sido mais que nunca valorizada, especialmente no contexto da pandemia. Ninguém fala mais em morte do livro físico e isso se deve em boa parte ao trabalho incrível promovido por editoras independentes em todo o Brasil, que não só através de redes sociais e sites, como também em feiras e eventos de publicação. Temos círculos de leituras e redes de leitores em diversas ações que valorizam escritoras, literatura negra e periférica, literatura lgbtqiap+, há uma revalorização da literatura de cordel ao mesmo tempo que há uma intensa produção de poesia/literatura contemporânea. E temos também uma rede de bibliotecas comunitárias que vêm fazendo uma revolução silenciosa no processo de formação de leitores. Eu prefiro olhar pra essas cenas que despontam e que parecem estar mais vinculadas a esforços coletivos e de formação do que pensar na maturação necessária das obras. O tempo urge e mais que nunca precisamos pensar em formar leitores desde a tenra infância, preparando-os para ler livros e telas, aprendendo a filtrar informações para desenvolver senso crítico. Aliás, essa deveria ser a tônica de políticas públicas para o livro e o leitor, mas no momento não temos governo federal. O que as editoras e os círculos de formação e todas as iniciativas de promoção do livro e da leitura vêm fazendo é muito e precisa ser valorizado.
DA – Salvador lhe deu régua e compasso?
ALEX SIMÕES – A Cidade da Bahia me deu régua e compasso, sim. Não por acaso meu novo livro se chama “minha terra tem ladeiras” (Caramurê, no prelo), que é uma referência explícita a essa cidade. Nesse livro e no penúltimo (no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas) a cidade de Salvador é mais que tema, é moldura dos poemas discursivos e visuais. Para o bem e para o mal, meu modo de ser está sempre georreferenciado nessa origem. É a cidade que me pôs no mundo, que me ensinou um modo de circular pelas ruas, de relacionar com as pessoas e que passa muito pelas artes. A minha criança cresceu ouvindo os tropicalistas e foi apresentado aos modernistas, aos pós-modernistas, a uma miríade de poetas com Caetano, Gil, Bethânia e Gal, que se escutava muito na minha casa. Quando li Gregório de Matos na escola, eu já sabia “Triste Bahia” de cor. Ter nascido e criado em um bairro de periferia, de configuração urbana, foi definitivo também para entender desde muito cedo que eu precisava me mover naquele folclore que tentavam me vender como Bahia terra da alegria. É um habitat de contradições que odeio amar e amo odiar. Dá muita raiva de viver numa cidade racista, classista, misógina, mas eu olho a Baía de Todos os Santos e passa. A imagem que projeto de Salvador quando estou fora e tenho saudades diz muito dessa contradição: é vista da Bahia com a Ilha de Itaparica ao fundo. Quando nado na baía, me sinto em casa.
DA – Apesar das coisas que lhe afetam e incomodam, Alex Simões olha para a vida hoje com mais serenidade e esperança?
ALEX SIMÕES – Há uma paciência revolucionária que estou aprendendo a cultivar. Tenho tido mais consciência do que não sei, do que não posso e principalmente do que não quero fazer. A paciência revolucionária já traz em si a esperança, que nunca deixei de ter. Acho que o que tem mudado é que estou mais paciente comigo mesmo e mais atento para ler os nãos, os silêncios, os desvios de rota, as rupturas, as derivas. E eu adoro derivas, o que também traz embutida uma esperança. As muitas coisas horríveis que acontecem neste país e neste mundo não são novas. Talvez a novidade esteja no modo como alguns de nós as estamos vendo e como estamos nos vendo em relação a essas coisas.
DA – Afinal, por que escrever?
ALEX SIMÕES – Esta resposta está no poema “O artista inconfessável”, de João Cabral. Todos os dias me faço esta pergunta e escrevo, mesmo quando não escrevo, porque nos dias “não” me pergunto por que não estou escrevendo e me sinto mais desconfortável do que quando leio com algum desconforto o que escrevo e penso que poderia ser muito melhor daquilo que pude escrever. Porque tem um ritmo, uma imagem, uma ideia que eu persigo e que eventualmente consigo dar uma forma, uma possibilidade de existência, e porque sou atravessado por ritmos, imagens e ideias que muitas outras e outres e outros criaram e criam e me provocam a seguir atravessado e atravessando. Porque ainda não sei escrever e, por isso, escrevo.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.
A trajetória de um artista não se mede apenas pela quantidade de feitos construídos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audiência que lhe interessa. Ao longo dos anos, as vivências pela arte vão engendrando saberes e sabores, moldando os ímpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a força que se estabelece na relação entre obras e o público.
A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as atenções do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes é ofertado. Seu efeito é instantâneo, um gozo do efêmero em quem está experimentando a recepção da mescla entre texto e encenação. Assim, o legado maior desse múltiplo território de sensações busca abrigo na memória, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no período pandêmico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espetáculo teatral.
Não são poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um território rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensações das mais diversas. No contexto baiano, é impossível falar de teatro sem lembrar de alguém como Paulo Atto. E falar desse dramaturgo é reverberar sua potência criativa para além dos espaços regionais e brasileiros, posto que sua contribuição para a arte cênica encontra também abrigo em paragens internacionais.
Mas o teatro a que Paulo Atto se propõe fazer perpassa a reflexão pungente sobre a condição humana em suas variadas formas de acepção. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a visão multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filosófico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais dúvidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu ofício o traçado da sofisticação textual, a agilidade e inteligência dos diálogos de seus personagens.
Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribuições, Paulo trilha seu caminho na seara artística há quase 40 anos. Em sua trajetória, dirigiu mais de 30 espetáculos, muitos deles também apresentados nos Estados Unidos, América Latina e Europa, além de ter participado de inúmeros festivais, seminários e programas em vários países. São de sua autoria os livros “Até Delirar”, “Desmontando Shakespeare” e, mais recentemente, “Atto em 3 atos & memórias da censura”, este último assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dramático “A Travessia do Grão Profundo”, foi agraciado com o Prêmio Selo João Ubaldo Ribeiro – Ano III. Seu engajamento como diretor artístico do Núcleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um espírito incansável em seus propósitos. E é este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sensível e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse artífice que, principalmente a partir das exposições contidas no seu mais recente livro, fala de suas experiências, percepções do presente, além de dar sentido renovado ao ato de resistir através da arte.
Foto: Waldson Alves
DA – Para além de uma nuance autobiográfica, “Atto em 3 atos & memórias da censura” é um verdadeiro recorte histórico do teatro baiano. Ali estão relatos pessoais, matérias jornalísticas e três peças fundamentais de sua carreira. A predileção pelo registro dessa memória vem também marcada por um impulso de sobrevivência da arte?
PAULO ATTO – O teatro é uma arte milenar, que já sobreviveu a revoluções tecnológicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu caráter eminentemente fugaz e efêmero. Em parte, pela força do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dramáticos gregos são um grande exemplo disso; também pelos registros e memórias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro num país que despreza a memória em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignorância ganha espaço. É um projeto ambicioso de, nos próximos anos, quando completarei 40 de ofício, poder deixar registrada toda a memória do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do possível. No Brasil estamos passando por um momento terrível para os artistas. Em geral, é necessário primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permaneça. Então, nesse sentido, sim, é também um impulso para a permanência da arte.
DA – Um aspecto importante do seu livro é a reprodução integral do texto de algumas de suas peças, produções naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um estímulo à produção de sentidos por parte do leitor de hoje?
PAULO ATTO – Totalmente. E esse é o meu desejo como autor, que o leitor desempenhe um papel ativo com suas inferências e percepções, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na ampliação de seus significados, gerando novos sentidos no momento desta interação leitor/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si só já representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gráfico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde também se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre “A Confissão”, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anotações sobre minhas ideias e vivências sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais entre a obra literária, a montagem produzida naquele tempo/lugar e a memória que trago através de todos estes registros. Além de oferecer a minha contribuição para a construção de uma memória do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produções no seu tempo e a imaginá-las com todos estes estímulos e registros, produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje através do registro sobre a nossa vivência naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo/diretor, com meus atores e equipes de criação.
DA – Por falar em produção de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de “A Confissão”, sentimos que o eixo temático da peça não se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles é perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no nível do corpo e dos desejos. O fato é que nossa sociedade não deixou de efetuar tais controles e não tem como não pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabeça remontar esse espetáculo e ofertá-lo ao público dos dias atuais?
PAULO ATTO – Acredito que “A Confissão” seja um texto atemporal pois toca exatamente na questão do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigilância e punição, afinal a última fronteira que o poder quer chegar é ao nível dos corpos, do controle da relação dos corpos na interação social, cultural, biológica, com uma profunda carga de sexualidade e religião. “A Confissão” é o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem dúvida, de fundamental importância, fizemos também uma leitura psicanalítica do texto norteada pelas ideias e visões de Freud e Lacan. Há uma influência, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espetáculo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da retórica dos discursos de dominação, a tortura como estratégia da verdade a qualquer preço, a desumanização das relações e a morte como destino inescapável para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, às vezes penso: “O que se passava na cabeça deste jovem?” (risos). É um texto muito forte com um traço clássico, o que inclusive foi apontado na época pelo jornalista e crítico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remontá-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma série de razões de produção e recursos o projeto não avançou apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D’Ávila à noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto é atual, ele não envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retrógada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercussão imensa. Acho que “A Confissão” hoje causaria muito mais incômodo porque tocaria fundo na essência do nosso engano.
Foto: Waldson Alves
DA – Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em “A Confissão” também era reconhecido num determinado momento como alguém dedicado à poesia. Diga-se de passagem, o texto de “Até Delirar” e “O Banquete” evidencia esse caráter poético de sua escrita. Há ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em matéria de versos?
PAULO ATTO – Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora não os venha publicando. Digo que o dramaturgo é um poeta ao avesso. A poesia exige síntese e a dramaturgia o excesso. Mas o dramaturgo não deixa de ser um construtor de poéticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na construção de poemas sempre. Acredito que avançando nesse projeto editorial de lançar toda a minha obra dramática, que já é um esforço imenso, haverá espaço para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe até mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado “Até delirar” que originou um roteiro cênico que veio a se constituir no espetáculo “Até delirar” e também na obra teatral “O Banquete”, como está apresentado no livro.
DA – Um outro ponto importante de seu novo livro são os relatos das suas experiências com a censura. Na sua impressão, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma espécie de cinismo ideológico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?
PAULO ATTO – A censura de que eu falo no livro é uma censura institucional onde funcionários públicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de expressão, impedir a realização de qualquer atividade artística ou cultural que, na cabeça dos censores, fosse uma ameaça ao regime, à ordem instituída ou a algum valor moral. Os critérios eram muito nebulosos porque, quando você tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando você examina as razões dessas ações de censura verifica que são muito difusas, que não são critérios objetivos, ao contrário, depende muito da impressão daquele indivíduo, então são as razões mais disparatadas e absurdas. De um lado, você tem uma falta de critérios objetivos e do outro tem a extrema ignorância desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram às vezes funcionários de carreira colocados naquela função ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, você tinha a união de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paranóico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes à incapacidade de interpretação de texto. O que de outro modo às vezes era positivo, porque como eles não conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofisticação da construção poética ou da linguagem empregada na cena, eles não conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma crítica direta ao regime ou à situação política daquele momento. Acho que para as novas gerações de artistas do teatro essa seja uma experiência que eles não consigam nem mensurar, embora nós vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que não seja totalmente institucional, digo claramente institucional, mas uma censura velada com orientações sobre programações. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espetáculos de teatro que haviam sido programados para espaços geridos por órgãos ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma temática. Isso é censura. Vemos também o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidadãos que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso é um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alegações dos censores daquele período. Sem dúvida, nós temos aí um retrocesso imenso.
Foi quase impossível para mim falar desse período de início da minha trajetória teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As peças eram submetidas à Polícia Federal, pois existia dentro do ministério da justiça uma divisão de censura de diversões públicas, o famigerado DCDP, e nós tínhamos que enviar com muita antecedência o texto que era lido por algum censor, que já poderia determinar cortes ou mesmo a proibição do texto.
Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibição daquela peça em todo território nacional. É uma coisa inconcebível para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que você teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui não vai poder ser apresentado ou que você tem que cortar uma cena inteira. Eu não cheguei a ter peças proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no período de redemocratização. Em 1988, foi promulgada uma nova constituição onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu há mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situação de obscurantismo imenso que a gente está vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunicação e a expressão artística. Então, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atrás. O que é lamentável e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anuência de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignorância, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento histórico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando também da nossa realidade hoje.
DA – Nosso teatro também carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?
PAULO ATTO – Aí está uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma vivência, de ser experienciado. Há gente que diz que não gosta de teatro sem jamais ter visto uma peça (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crianças, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espetáculos infantis que dirigi, não foram muitos, acredito que uns sete espetáculos. Escrevi três textos para crianças: Colombo, A incrível viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crianças naturalmente se expressam através da mimesis, constroem muito de sua expressividade através de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, deveríamos pensar que o teatro teria um público imenso. Entretanto, isso não acontece. Acredito mesmo que nas últimas décadas houve uma perda substantiva deste público que incluía o teatro naturalmente em seu cardápio cultural, devido a uma série de fatores: a violência nos centros urbanos gerou uma insegurança, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal veículo de nossa divulgação e diálogo com o público; por outro lado, a perda de espaço para divulgação nas redes de televisão, os serviços de streaming cada vez mais sofisticados e disponíveis a preços baixos, o fechamento de vários teatros, a migração de artistas para fora do estado, que é um fenômeno que, acredito, ainda não foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um tripé perverso que vem do distanciamento do teatro do público, a qualidade do que é apresentado, o amadorismo de diversas produções e os editais públicos em que houve e há um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho está muito aquém do discurso e da proposta do projeto. São espetáculos de qualidade bem questionável com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissociação do espetáculo teatral com o seu público. Tudo isso como introdução para responder a sua pergunta “Nosso teatro carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?” A resposta é sim. Mas não podemos imaginar que um programa de formação de plateia, ainda que seja amplo e bem construído, será suficiente para fazer o público retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que ficávamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, tínhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espetáculo baiano com cambistas, a direção do TCA chegou a limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos três anos em cartaz, realizamos uma turnê nacional por Belém do Pará, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, Recife, Maceió e ainda uma temporada de um mês em São Paulo com casa cheia todos os dias, na última semana foram duas sessões por noite para dar conta do público. Não tínhamos edital e nem financiamento público, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espetáculos com propostas para um público mais restrito como KAO, mas o espetáculo nos levou para o mundo em sucessivas turnês e apresentações em festivais em mais de 10 países por 16 anos. Foram muitas outras questões que deixaram esta relação teatro x público extremamente complexa.
Nós temos uma experiência incrível de formação de plateia com a realização, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irecê, sertão baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que não possui teatros, e está distante da capital (500 km). Nosso festival é realizado através do edital setorial de Teatro da Funceb há seis edições e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irecê. Em 2018, tornou-se internacional e tem um público cativo, que foi sendo construído ao longo dos anos. É uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlotação todos os dias com imensas filas na porta do Auditório do Colégio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercussão é tão grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a construção de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de serviço para construção e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado é o investimento na formação e qualificação profissional dos atores e técnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de formação do festival buscaram se aprimorar em cursos acadêmicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de formação de plateia está consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas vêm acontecendo neste sentido em outras regiões da Bahia. Formar o público é fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade também.
Foto: Waldson Alves
DA – Agora nesse período de pandemia, testemunhamos experiências de espetáculos online, sem público nos espaços. Até certo ponto esse gesto é compreensível, pois estamos falando também de formas de sobrevivência para artistas e suas companhias. Há quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo após as restrições pandêmicas. Não seria nocivo ao fazer teatral, em condições de normalidade, ter isso como alternativa já que a arte é feita muito fortemente da proximidade com sua audiência?
PAULO ATTO – O chamado teatro online, telepresença, web encenação, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa importância de um rótulo na nossa “desmodernidade”, não é Teatro. Não foi uma opção que nós, realizadores, tivemos dentre outras, foi a única possível. Não havia outra saída. Há quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que é Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produções pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, porém há uma câmera por intermédio, direcionando nosso olhar, temos as edições, a seleção de cenas, os cortes, algo que não existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a iluminação possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador. E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro é total para estabelecer os focos e os centros de sua atenção. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem no palco, sem mediação nenhuma a não ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presença e o encontro de dois seres humanos, máquina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade. Aqueles que defendem o tal “teatro digital” estão sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua essência. Pode ser que esta “defesa” seja por interesse próprio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompetência em realizar o teatro de fato. Já ouvi com muita arrogância a frase: “é teatro porque eu estou dizendo”. Sim, mas quem é o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de história? Ignorando o que é a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por séculos, possui cânones, possui memória e técnica especifica. No final é muito barulho por nada. Eles serão superados pelo próprio Teatro, que não sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem às guerras, e nem sucumbirá à tecnologia. Se não se encaixam em nada disso, é apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles não sabem nem o que fazem, e fazem mal. Não pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Porém, é certo que ganhamos uma ferramenta de divulgação, de interação com o público, de novas possibilidades de reunião, de estudo, de comunicação. Devemos aproveitar isso ao máximo, mas o que mais fez falta neste período pandêmico é justamente a ausência do humano, do contato entre as pessoas, e é sobre isso, em sua essência, que trata o Teatro.
DA – Voltando a seu livro, o texto de “As Máquinas” parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa era de excesso de informações e também de reprodução padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do “eu” espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como é que você observa esse sujeito contemporâneo?
PAULO ATTO – Quando eu escrevi o texto de As Máquinas ou A Tragédia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados à Lógica da linguagem. Meu professor João Salles, atual reitor da Universidade, além de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais também participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebouças e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessantíssimos regados à cerveja num boteco ali da Federação. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dramáticas da Escola de Teatro da UFBA, o Contexto Cênico, escrevi o texto muito rápido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influência foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excelência um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, é atualíssimo. Muitos leitores do livro já apontaram isso para mim. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflexões, fala de uma “náusea da informação” e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas “fake news”, o grau de desinformação com o paradoxo de tanta informação disponível, o obscurantismo, os retrocessos políticos, talvez tenham como raiz essa náusea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante está presente no livro de Bauman “Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”. É incrível como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em que a principal mercadoria, diria até a mais comum disponível no mercado agora, são as pessoas. Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, até as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal, utópica, irreal. Fonte de angústia e de frustração. A cultura das artes também sofre muito com isso. Tudo é cultura, há uma vulgarização das artes, Arte e indústria cultural de massas estão perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias vão se desenhando a partir da falência da comunicação, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das convenções mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissociação entre a vida e a sociedade.
DA – O fazer teatral em que você acredita tem algum compromisso?
PAULO ATTO – O Teatro, sempre digo, é a vida mesma, é um ensaio vivo sobre o humano por excelência. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me dá prazer em fazer e justifica a existência dele nas minhas trajetórias pessoal e profissional, é aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento histórico e social. Nada para mim está dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espetáculos “A Tempestade”, logo depois “A Terra de Caliban” (inspirado na mesma peça), “A Herança de Macbeth” (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar, e ainda “Antônio e Cleópatra: o desencontro do olhar”, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Astúrias, em todos esses espetáculos estava dialogando com meu tempo através das histórias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museológico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi “A Travessia do Grão Profundo”, meu último espetáculo, mergulhei no sertão e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imaginário, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta história de perda do pai, também ainda presente nessa dimensão sertaneja. Apresentar o humano em suas múltiplas faces é o que me interessa, e é com isso que estou comprometido.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.