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125ª Leva - 03/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É relevante considerar que o trabalho de um artista ganha sentido mais vigoroso quando aparece conectado às questões de seu tempo. Na verdade, estamos a falar aqui da percepção que a arte evoca quando, imbuídos da consciência de seu lugar no mundo, aqueles que labutam com a cultura conseguem comunicar o conteúdo de seu ofício de modo a refletir aspectos comuns a toda uma coletividade. De toda sorte, falar ao mundo não pode ser uma mera atitude retórica, um jogo de cena a representar algo apenas em sua superfície e aparência. Requer propriedade para além de um discurso que reflita a vivência de quem o profere.

Mas dizer as coisas todas relatadas acima é apenas um indicativo para chegar a um ponto desejado, ou seja, abrir caminho para apresentar um projeto artístico que se converte em música da melhor qualidade. É dessa forma que a trajetória de uma banda como OQuadro pode ser referenciada. Para quem ainda não conhece, importa mencionar que estamos diante de um grupo com mais de 20 anos de estrada marcados, sobretudo, pelas vias do rap. E não é apenas isso. Esse rap praticado pelo grupo surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo dentro de um contínuo processo de diálogo com outros ritmos, principalmente os de influência africana e latina.

A junção de Jef Rodriguez, Ricô, Victor Santana, Freeza, Jahgga, Rans, Dalua e Mangaio foi capaz de produzir um todo orgânico que hoje melhor define os caminhos do grupo. Com dois discos na bagagem, os baianos de OQuadro parecem ter encontrado um equilíbrio que, na verdade, demonstra ser um misto de independência, maturidade e engajamento. Some-se a isso o fato de que suas produções, além de expressarem o resultado de um cuidadoso e coletivo processo de criação, derivam de um amplo diálogo com parceiros valiosos na estrada musical.

Na entrevista que agora segue, Jef Rodriguez, Victor Santana e Ricô falam um pouco sobre os percursos da banda em meio a uma jornada que mescla raízes, pesquisa musical, identidade e visões de mundo. Também por aqui o foco está nos desdobramentos trazidos pelo segundo disco do grupo, Nêgo Roque, lançado em 2017. O álbum, que já foi alvo de uma matéria aqui na revista, representa todo um momento de escolhas, influências e percepções dos músicos em torno daquilo que hoje melhor define sua trajetória. Por essas e outras vias, nada mais apropriado do que conferir atenção às falas de tais artistas.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

DA – Nêgo Roque é um trabalho que mantém aceso todo um potencial discursivo que já se tornou uma marca forte de OQuadro. Suas letras são janelas de lucidez abertas para o mundo. O olhar que não acomoda coisas é o que faz permanecer vivos os caminhos da banda?

JEF RODRIGUEZ – Sim. Existe um filtro, um processo seletivo na confecção das letras e das músicas que vêm marcando nossa caminhada até então. Não queremos que essa seleção pareça um limite, pelo contrário, é uma escolha. A pretensão é ampliar ainda mais esse raio temático para além das questões sociais. Afinal, existem muitas coisas a serem ditas. Mas existe um fio condutor, um nível de relevância que não queremos perder de vista, tanto na forma quanto no conteúdo.

 

DA – Uma das características principais da banda é o modo como as criações são pensadas e executadas coletivamente. Isso é perceptível, sobretudo no novo álbum. Qual é o maior desafio de se chegar a um resultado orgânico quando há uma pluralidade de mentes convivendo?

VICTOR SANTANA – Na verdade, não tem muito desafio. Podemos até demorar para chegar no resultado que seja bom para todo mundo, que todos concordem, mas é fácil. Uns chegam com um rif, um arranjo de guitarra, baixo, teclado, bateria ou percussão e isso vai se juntando a letras ou à ideia de algum refrão já cantado; outros chegam com um tema ou ideia de letra. Vai se juntando tudo. Todo mundo muito atento à musicalidade tanto moderna quanto do próprio grupo. E chega a um resultado fácil. O maior desafio é compor. O rif pronto, o beat pronto, a letra pronta, é só juntar. Agradar a todos também não é muito difícil. Esse disco novo foi fácil de ser feito. A gente ficou só dez dias juntos, sendo que compomos dezessete músicas nesse período. Nunca tínhamos ficado reunidos antes para poder criar essas músicas. Compomos tudo quase que do zero.

 

DA – O novo disco traz um mergulho numa perspectiva, digamos assim, mais voltada para o experimental. De que modo a escolha dos arranjos refletiu essa aposta criativa? 

RICÔ – Acho que OQuadro sempre foi experimental. Teve um momento em que criamos até um subtítulo pra gente, que era o “clube de música experimental”, pois já flertávamos com muitas outras coisas em termos de sonoridades, referências de artes plásticas, cinema etc. Então, estávamos sempre antenados com muita coisa, com estilos musicais que não fossem apenas o rap, até pra poder fazer um rap diferente. Ao mesmo tempo, tudo fluía muito natural e espontâneo. Às vezes, eu chegava com uma base pronta, daí outro complementava. Nesse último disco, acabei chegando com mais força no sentido de preparar bem as coisas antes, de vir com arranjos mais prontos, mas apontando pra questão da tecnologia que a gente não teve no primeiro. Na verdade, a gente já queria ter, mas, por algum motivo, escolhas e recursos, naquele momento ficamos mais no artesanal. Depois decidimos flertar mesmo com o eletrônico de forma mais sincera do que acreditamos, ter essas texturas, buscar essa coisa dos sintetizadores, das frequências ultra graves, enfim, e usar o rock como atitude mais do que distorção. Tem distorção no disco, mas também há várias frequências que pra gente são rock. E a postura, o nome do disco, são várias coisas que levam pra essa transgressão. Ao mesmo tempo, eu mirei muito, junto com o coletivo, a ideia de tentar um pop com conceito, inteligência. Dá pra fazer coisas sem precisar ser apelativo, fazer a galera, do mesmo jeito, entender e cantar melhor. Tivemos mais cuidado com as frases também no sentido de não ter muitos excessos, mas sim falar o que é preciso ser dito, pois às vezes falamos muito e não dizemos muita coisa, como vemos por aí. A gente tentou ficar focado na escrita e numa linguagem bem simples para que todo mundo pudesse entender o que estávamos falando. O primeiro disco tinha coisas assim, mas era muito mais complexo, mais denso, outras vivências também. Então, os arranjos refletiram justamente essa nova fase de outros contatos, outras experiências com outras músicas e pessoas. Eu, aqui mesmo no Rio, com Marcelo Yuka, vi que outros horizontes se abriram pra mim. Comecei a produzir coisas com ele e isso me deu uma abertura muito maior de música, melodia. O próprio Yuka me orientou muito pra gente, no trabalho com a banda, ir no caminho da melodia, das harmonias, da música, enfim, e não se preocupar se é rap ou se não é, sabe? Acho que vem muito daí.

 

DA – É perceptível nesse segundo disco da banda uma ampliação dos laços que remetem à matriz africana. Num tempo em que a temática identitária do povo negro vem sendo ressignificada e intensamente debatida, o que é relevante destacar?

JEF RODRIGUEZ – Em relação aos ritmos, posso dizer que sempre esteve presente desde o primeiro álbum em 2012. Em Nêgo Roque isso se reacendeu numa perspectiva mais contemporânea pelo acréscimo de elementos eletrônicos, além da conexão com outras células que agora tivemos a oportunidade de expandir. Mas o que gostaríamos de destacar como referência em relação à matriz africana é a questão humana. Existe um genocídio da juventude negra acontecendo nas periferias do Brasil e do mundo. Questões históricas que ainda não foram resolvidas e parecem distantes de uma resolução razoável. Estamos tocando no assunto de maneira direta sem medo de soar clichê.

 

OQuadro em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Roncca

 

DA – O rap tem algum compromisso?

VICTOR SANTANA – O rap já teve algum compromisso consigo mesmo. Na verdade, o rap começa ali no Bronx, em Nova Iorque, sendo a voz daquele povo esquecido. Num lugar que era um super gueto, quase uma zona de guerra, com assassinatos e muitos incêndios. Se não me engano, em um ano aconteceram mais de doze mil incêndios no Bronx. Sabe o que é isso? Um bairro inteiro queimando, vários focos e essas pessoas pobres lá se lascando. Então, o rap começa primeiro como uma festa daquelas pessoas e, na sequência, torna-se um jeito de se falar sobre o assunto, já que eles tinham discotecagens e também o microfone na mão. Faziam rimas falando sobre a coisa. Aí começa o rap. Surge um compromisso de resgate das origens com artistas como Afrika Bambaataa, que começa a falar mais sobre África através da Zulu Nation. No Brasil, já se começa ali a falar sobre Zumbi, nosso herói nacional negro. Inicia aí esse caráter político. Um compromisso que fala sobre nós, pretos, o modo como vivemos e tal. Esse compromisso vem com certas regras. Todo mundo quer trabalhar, ganhar dinheiro, viver disso. No Brasil, tem uma máxima de que as coisas que fazem sucesso não dão certo, pois entraram na mídia. Nos Estados Unidos, o pessoal quer fazer sucesso e ganhar dinheiro. O compromisso passa a ser a questão de se ter dinheiro e poder sustentar a família. São vários compromissos e eles são: sobreviver, ganhar dinheiro, fazer a coisa pelo certo e protestar sobre coisas ruins que acontecem ao negro (a politização, o crime policial). O compromisso talvez seja o jornalismo em torno dessas coisas ruins e boas que acontecem no gueto contra o povo negro, chamar atenção sobre estereótipos. É abrir os olhos da população sobre as mazelas que existem. Agora, compromisso em manter-se pobre, em não fazer sucesso, não é compromisso. Os Racionais MC’s, por exemplo, tiveram como pauta nunca aparecer na Rede Globo e até hoje eles não apareceram lá enquanto Racionais MC’s, nunca tiveram música na novela, nem se apresentaram no Caldeirão do Huck e no Faustão. Muita gente entrou nessa coisa de imitar os Racionais, dizendo que quem entra na Globo é vendido, é ruim, mau, playboy etc. Então, confunde-se muito a coisa toda. O Edi Rock, que é um dos integrantes dos Racionais, foi ao Faustão mostrar um trabalho solo certa vez, teve até uma reportagem e tal. Isso não impede deles serem amigos e estarem juntos apresentando o trabalho do grupo. Você vê que Criolo vai à Globo, Gabriel Pensador também (contemporâneo dos Racionais MC’s), e nem por isso tira o mérito do conteúdo de contestação. Enfim, o compromisso é consigo mesmo, fazer seu trabalho, ganhar seu dinheiro e falar sobre as coisas que incomodam. O rap tem algum compromisso, claro, mas é mais uma condição hedonista coletiva, se é que é possível dizer assim (risos), do que um conjunto de regras que te impedem. Não, elas não te impedem, te motivam.

 

DA – Como fazer arte num país que parece cada vez mais desintegrado politicamente?

JEF RODRIGUEZ – Penso que essa desintegração sempre existiu, a novidade em relação a isso é a consciência da mesma. Em momentos de crise econômica, o primeiro corte que o cidadão brasileiro faz é no consumo de cultura. Não fomos educados a entender as manifestações artísticas/culturais como elemento fundamental no processo educativo, no exercício intelectual, na construção de referências para um jovem em formação. A retirada das disciplinas como sociologia e filosofia da grade curricular obrigatória só confirma o tipo de cidadão que se espera formar no modelo educacional vigente. No caso específico do OQuadro, fazer a música que fazemos e como a fazemos já é uma luta política por natureza. Por não ser um rap convencional, por ser do sul da Bahia, por não fazer parte de nenhum grupo de amigos do meio. É um caminho árduo, mas o resultado tem sido sincero.

 

DA – Vocês têm ideia de qual lugar ocupam no cenário contemporâneo da música independente?

RICÔ – Acho que a gente ocupa um espaço interessante na música, e flerta com muita coisa moderna que vemos não só no Brasil, mas no mundo mesmo, sendo modesto. Pelo que já andamos pelo mundo, em alguns festivais, pequenos e grandes, estávamos sempre sendo colocados num lance mais moderno, experimental. E sempre as pessoas descrevem nosso trabalho, pelo menos no olhar de fora, como uma coisa de vanguarda. Uns acham que é um rock de vanguarda; outros acham que é um rap de vanguarda. Isso é bom porque mostra várias facetas nossas. No Brasil, tem muita gente interessante, mas, misturando o som do jeito que fazemos, na base do rap com várias outras coisas, não há muitos artistas. Infelizmente, o reconhecimento ainda não aparece em números, palpável, em termos de público Brasil afora também. Temos a consciência da importância daquilo que estamos fazendo. Não sei se agora, mas, de repente, num futuro próximo seremos mais reconhecidos, enfim. Mas é isso, estamos trabalhando e seguindo esse mesmo objetivo.

 

DA – As plataformas digitais modificaram profundamente o comportamento da indústria fonográfica. Para os artistas independentes, isso representou a necessidade de uma consolidação de espaços próprios, dando-lhes certa autonomia na produção e divulgação de conteúdos. Como prosseguir nesses verdadeiros lugares de resistência?

VICTOR SANTANA – As gravadoras perderam o poder, inclusive sobre os artistas. O trabalho para o artista fica mais pessoal mesmo. Na verdade, tem que procurar divulgar seu trabalho usando as plataformas digitais, que são uma facilidade para uns e extremamente difíceis para outros. Acho que você tem que ter assunto para ser atual ou uma relevância artística muito peculiar, algo que chame atenção de todo mundo. Na época das gravadoras, eles meio que empurravam isso, pagavam o tal do jabá, botavam para tocar nas rádios, no Faustão etc. Ainda tem isso dos produtores que pegam a grana e pagam rádios para fazerem divulgação, mas, em termos de plataforma digital, ou você tem um conteúdo muito foda ou tem que estar ligado nas tendências e tal. Tem uma coisa que acontece, uma pauta justa, muito séria, que é a dos músicos LGBT, e esses músicos, hoje em dia, estão em ascensão, não necessariamente pela qualidade extrema do seu som, mas pela pauta, pelo assunto. Então, às vezes, o cara não é um bom músico, cantor ou rapper, mas a pauta está em voga. Tem a coisa do feminismo mesmo, que é necessária, mas tá acontecendo uma, não sei se posso dizer, supervalorização, algo que está além da qualidade artística. Os youtubers, por exemplo, têm textos engraçados, pessoas que falam coisas legais, de acordo com certa juventude, e aí já funcionam, ganham dinheiro logo no próprio Youtube. Um super vídeo de um rapper da moda já faz dinheiro logo no Youtube antes mesmo do artista sair pra fazer show. Então, as pessoas estão se preocupando com esses conteúdos e, de repente, esquecendo o conteúdo real de sua arte. Para quem está preocupado só com a arte é difícil se adequar a umas coisas assim, apenas pela “modinha”. É uma faca de dois gumes. Por um lado, é independência; por outro, é estar atento às novas plataformas. Não dá para ter certeza sobre nada. Você pode fazer um clipe bobo e virar uma coisa assistida por quinhentos milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, outras pessoas nem atingem essa visualização, sendo que fazem um trabalho com a qualidade bem boa.

 

OQuadro em show na Concha Acústica de Salvador / Foto: André Fofano

 

DA – Desde o primeiro disco, vocês sempre se aproximaram de parceiros importantes, principalmente no processo de produção. Que tipo de buscas marcam esses diálogos com outros artistas?

VICTOR SANTANA – No primeiro disco, a gente procurou Buguinha Dub porque era um cara mais acessível e que tinha trabalhado com bandas que eram referência pra gente, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A. Tinha a proposta do dub, que é um estilo de som jamaicano, psicodélico e tal, que nem ficou tão presente assim no disco como eu, por exemplo, imaginava, mas ficou o peso do dub com os baixos e bateria pra frente, fortes. Gravamos ele num estúdio que era bom e que atendia a nossas necessidades através do projeto da Vivo. Por acaso, foi o estúdio de Guilherme Arantes e a gente não contava com esse artista lá, mas aí ele apareceu e participou do disco. Ainda nesse álbum, tivemos Lurdez da Luz, que é uma rapper de São Paulo, e que trouxe ideias para fazer um refrão ou parte de música. No primeiro disco, não houve uma busca, as coisas foram acontecendo naturalmente. A mix foi de Buguinha Dub e a master de Gustavo Lenza, que foi quem trabalhou com Chico Science e Nação Zumbi, no Afrociberdelia, um disco de bastante referência pra gente. Para o Nêgo Roque chamamos Basa para produzir porque ele é o produtor de um grande disco de rap do Brasil, que é o Babylon By Gus, de Black Alien. Já tínhamos trabalhado juntos com esse produtor num evento em Itacaré, o Conexão Vivo. A gente pensa qual artista pode contribuir com o trabalho. Nunca é pelo nome, mas pelo que pode ser aproveitado. É dizer “nessa música caberia uma rima de Snoopy Dogg” sem que se tivesse acesso a Snoopy Dogg naquele momento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Indee Styla, que se tornou nossa amiga, com os caras do Attoxxá, que também estiveram junto conosco. A gente pensou em nomes pra atingir certas necessidades nossas. Poderia ter sido Pablo Vittar para um agudo, Baco e Vandall numa música y, porque o beat é um trap que combina com esses dois caras. Poderia ter sido Pitty em Nêgo Roque para fazer o refrão, ou seja, uma mulher que dá uma outra tônica, BNegão, ou Yuka falando alguma coisa. E a gente sempre pensando na música e não no artista. Com quem temos acesso, obviamente entra com mais facilidade. Pensamos em muita gente pra produzir até chegar em Rafa Dias, que era quem estava mais próximo da gente e entendia nosso conceito muito mais facilmente.

 

DA – De que modo uma banda que se originou em Ilhéus, no interior da Bahia, hoje, tendo alcançado alguma projeção, olha para suas raízes?

JEF RODRIGUEZ – Ilhéus é e sempre será o berço d’OQuadro, temos um cordão umbilical com vínculo eterno. Mas não me identifico com a cidade enquanto instituição, ela não foi feita para pessoas como nós. Vivemos aí tempos de um amor não correspondido. Testemunhamos desde sempre gestões que se apropriam de uma cidade que é projetada pela cultura, mas não devolvem a esse setor o mínimo de investimento que possa fomentar o nascimento de novos Jorges. Quem faz arte em Ilhéus, faz por amor, sem contar com incentivos ou iniciativas que projetem trabalhos autorais com o mínimo de dignidade. Pelo contrário, desenvolvem em nós um complexo de vira-lata, onde sentimos a obrigação de ser menor diante de qualquer manifestação artística que venha da capital ou de outro estado, o que é um exercício prático de autoestima baixa, de autodestruição. Nesse sentido, prefiro olhar para Ilhéus pelos vínculos com nossa família e amigos que nos incentivam sempre.

 

DA – Hoje, com mais de 20 anos de estrada, é possível dizer que a banda atingiu uma maturidade musical desejada?

RICÔ – Acho que a gente atingiu uma maturidade enquanto também pessoas, seres humanos, e nas questões das vivências, tanto pessoais quanto profissionais, pois a gente fica em lugares diferentes, vivendo coisas diferentes, e quando junta isso tudo, vem essa maturidade também da relação com outras pessoas, outros músicos e artistas. Isso influi totalmente na produção do som, do disco. Então, Nêgo Roque mesmo teve muita coisa das vivências que eu tive aqui no Rio com outros artistas, outras experiências de som, de imagem, de tudo, assim como a galera também teve. Quando nos juntamos, estávamos cheios de referências. Nesse disco, conseguimos expressar melhor o que queríamos, coisas tecnológicas. Então, tivemos todo o acesso possível pra construir isso. Não tivemos tanta limitação pra conseguir as coisas, pois contamos com pessoas trabalhando conosco para que conseguíssemos tirar o som da melhor maneira. Construímos coisas do jeito que a gente pensava, com bem mais facilidade, experimentalismo, direcionamento. Então, esse é um disco com certeza bem maduro. Claro que a arte sempre te dá a possibilidade de fazer mais, depois você reflete sobre o que poderia ter feito, mas têm sempre ene possibilidades, pois a gente não termina um disco, a gente desiste dele, senão a coisa vai se transformando e não tem fim. Partindo desse princípio, foi uma desistência madura (risos).

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias?  De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.

Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.

 

JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes

 

DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.

JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.

 

DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?

JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.  De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.

 

DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação,  o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.

JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado!  O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.

 

DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?

JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.

Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!

 

DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer.  O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?

JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.

Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2  fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.

 

JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez

 

DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?

JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.

 

DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na  coletânea Profundanças 2,  que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?  

JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre  “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.

 

DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.

JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.

 

DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?  

JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.

 

DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?

JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes.  Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Palavras parecem domar o tempo com a astúcia de suas investidas. Talvez por tal razão não sejam menos importantes que a sina dos seus criadores. Elas, as palavras, ousam mais do que representar o mundo de quem as profere, imersas que estão nas profundezas do humano. Revelam-se a complexa ponte entre o íntimo e aquilo que está exposto cotidianamente nas travessias mundanas, bem ali na face desnuda da vida.

Quem engendra o verbo tem a consciência de que sua expressão criadora não se encerra dentro de um único domínio exclusivamente pessoal. Pelo contrário, intenta o encontro com o outro, trajeto comunicativo que, podemos desconfiar, não cessa jamais. Desse modo, levar a cabo uma obra é crer que na outra ponta outros sujeitos poderão consolidar sua permanência, conferindo-lhe uma gama de sentidos multifacetados. Por certo, um escritor fica exultante quando seus leitores mantêm vivo o seu legado dadas as mais distintas possibilidades de vivência, interpretação e apropriação do conteúdo concebido.

Assim como não se passa impunemente pela vida, com a literatura ocorre o mesmo. É salutar pensar um autor como alguém que mergulha nas questões de seu tempo e delas retira elementos construtivos para seu ofício. Quem se depara com a obra de um escritor como Itamar Vieira Junior, percebe um criador de olhares atentos aos fenômenos que constituem e demarcam sua condição de estar no mundo. Mas eis que tal característica tanto se baseia num fluxo de criticidade quanto no de uma vivência que permeia uma perspectiva de fruição estética. Assim, vemos um Itamar a construir sua obra com os requintes da lucidez, mas também sem negligenciar as possibilidades de criação inerentes a um viés de assunção das coisas intangíveis.

Com dois livros de contos na sua trajetória, Dias (Caramurê, 2012) e A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017), além do romance Paraíso (Câmara Brasileira do Livro, 2008), Itamar Vieira Junior pode ser considerado um dos nomes relevantes do atual cenário literário brasileiro. Grande parte disso se justifica em razão de que sua escrita madura e bem construída assinala um valioso lugar de reflexão, sobretudo quando se trata de atentar para o território das alteridades.

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Itamar revela-se um escritor profundamente envolvido com as temáticas que denunciam a invisibilidade do povo negro. Na entrevista que agora segue, o escritor toca em certos lugares de incômodo social, reflete sobre a representação do racismo na literatura, o papel dos novos escritores, além de lançar luz sobre o panorama editorial brasileiro contemporâneo. O resultado do diálogo mostra-nos não somente um intelectual a expor seus consistentes pontos de vista, mas um indivíduo intensamente marcado pela necessidade de mergulhar fundo na dimensão humanista da existência.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há tantos grilhões na condição humana e certamente aqueles que se referem à opressão do homem pelo homem são dos mais cruéis. Em “A Oração do Carrasco” você traz um deles à tona, qual seja a marca histórica do racismo, fantasma que nos ronda incessantemente. Diante de um contexto de tal natureza, como você concebe a literatura enquanto instrumento de exposição e debate desse tipo de incômoda temática?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A literatura como expressão artística acomoda, involuntariamente, a narrativa da experiência humana. Atravessando os séculos – de Dom Quixote ao romance contemporâneo – ela sempre trouxe como sua razão de existir o descortinar de nossa condição. Hannah Arendt em sua obra “A condição humana” diz que a política é um dos três pilares da vita activa do homem. Tanto o trabalho quanto a obra – os outros dois pilares – são executados pelo homem em sua solidão, a partir das acepções que Arendt apresenta sobre trabalho e obra. Mas a política só se dá através do homem e entre os homens. Ou seja, somos seres essencialmente políticos e a literatura carrega, invariavelmente, a exposição do que um escritor é e pensa sobre o mundo a sua volta. Sem a política seríamos amebas vagando no mar do nada.

Vamos lembrar que a literatura abriga a diversidade do pensamento humano. Que há obras como “Escola de cadáveres”, de Louis-Ferdinand Céline, ou “O presidente negro”, de Monteiro Lobato, com um teor racista inquestionável. E que muitas outras, da mesma forma, vão se debruçar sobre as nossas mais primevas questões existenciais, dentre elas o preconceito baseado na diferença de origem ou de cor. “Amada”, de Toni Morrison, ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, abordam o racismo pelo viés histórico e social do colonialismo. É incômodo perceber que são obras que tratam o preconceito numa perspectiva histórica e que, ao se confrontar essas narrativas com o mundo contemporâneo, percebe-se que as mudanças são sutis e as formas de discriminação resistem apesar dos avanços.

Há algo incômodo na literatura contemporânea – e digo especialmente sobre a literatura produzida no Brasil. Como é uma atividade de uma classe privilegiada, ou pelo menos os autores que estão em evidência fazem parte dessa classe, os temas são majoritariamente afeitos aos dramas da classe média branca. Proporcionalmente, há um número menor de obras com personagens que representem a imensa diversidade da nossa sociedade. O racismo também existe no próprio fazer literário, não poderia ser diferente. Isso revela que há algo brutal em nossa história se repetindo, quando vemos persistir a discriminação ao senegalês ou haitiano que chega ao Brasil contemporâneo. Ou quando as relações entre patroas e domésticas nos fazem lembrar as relações de subalternidade mais vis do Brasil escravocrata. Ou quando abrimos um livro e não encontramos representações de nossa diversidade. Esse incômodo é que me fez conceber “A oração” como um painel, não de simples histórias distintas, mas capaz de apresentar um encadeamento de narrativas que nos lembrasse de que a história se repete. Não é por acaso que “Alma” abre o livro e é impossível pensar sua história desconexa das histórias de “Foi” e “Dominique” do conto “Meu mar (Fé)”, ou de Doramar. A imigração empreendida pelos ancestrais de Alma se repete da mesma África para o Brasil do nosso tempo. Esses imigrantes estão fadados a uma história de subserviência não muito diferente dos imigrantes do século XVII, XVIII. O papel de submissão dado pelo mundo a Alma se repete com Doramar, uma empregada doméstica que vive nos dias atuais, ou com “Foi”, a imigrante que vive deslocada em um país que não consegue acolher a diferença.

 

DA – No conto “Alma”, apesar das agruras vividas pela protagonista, notamos que paira nela um ímpeto que a encoraja a crer numa perspectiva de que algum dia sua existência cumprirá um sentido, digamos assim, mais pleno de liberdade. Há na narrativa a presença viva dos contrastes entre o pensamento colonizador e o colonizado. Diria que essa construção textual evoca uma necessária provocação, sobretudo para o que ainda testemunhamos em sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o sentido a que você se refere é uma premissa humana. Ou talvez seja uma premissa dos seres sencientes, se estendermos o desejo de liberdade aos animais. Há muitos anos trabalho com as histórias de comunidades negras rurais que estão passando por processos de regularização das terras que habitam. Em um desses lugares, encontrei a história de uma mulher escravizada que caminhou de Salvador até o Sertão Baiano – quatrocentos quilômetros de distância. Ela se tornou matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por quase duzentos anos. Só se sabe isso sobre ela. Não há registros além da história oral. Uma narrativa fabulosa, a princípio, e a ficção entra para preencher o que não se sabe sobre essa mulher: as motivações de sua peregrinação e o que encontrou pelo caminho. O que faria uma mulher cativa caminhar por um ambiente hostil, desconhecido, com possíveis perigos? A revisão da história social de nosso lugar indica as circunstâncias dessa migração. E a minha experiência humana, aquilo que nos une, incluindo a personagem Alma, permite emular esse sentimento supostamente universal de não estar subjugado e ser livre. É uma narrativa em primeira pessoa que opta pelo fluxo de consciência. Alma é a voz que narra personagens, episódios históricos e ações que marcaram sua trajetória. Essa foi a forma que encontrei de trazer à literatura a contundência da oralidade, do que pode ser narrado por gerações, resistindo e se transformando, quando as circunstâncias sociais e econômicas não permitem que haja registros documentais. A oralidade é uma forma de comunicação que antecede à escrita. Transmutada, é capaz de denunciar os incômodos que a humanidade, em seu processo civilizatório, não conseguiu transpor. Recentemente, fotografias de um mercado de escravos na Líbia se propagaram nas redes sociais. Em pleno século XXI nos deparamos com imagens que poderiam ser quadros de Rugendas representando a aflição de algo que talvez julgássemos ter acabado. Pelo contrário, os fantasmas continuam a nos atormentar. Escrever sobre uma mulher que precisou interromper o ciclo de violência que sofria, devolvendo a violência àqueles que a subjugavam, reflete essa provocação. Desmistifica, inclusive, que essa subserviência foi pacífica. No Arquivo Público do Estado da Bahia há importantes referências sobre crimes cometidos por trabalhadores escravizados.

 

DA – Há toda uma literatura dedicada às questões da negritude e que, no entanto, permanece ainda desconhecida por muita gente. Destacaria aqui, sobretudo, obras que se enquadram na perspectiva pós-colonial, cujos autores nos falam de mundos com suas narrativas e ambientações próprias, com o vigor que demonstra que não podemos olhar a África de modo homogeneizante. Na sua visão, que universos são esses que precisam ser vistos e lidos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Os universos autóctones e da diáspora. Porque não basta ler a vasta literatura produzida no continente africano, é preciso compreender o seu legado para o mundo, principalmente para o continente americano e, mais recentemente, para a Europa Ocidental. A literatura pode ser um caminho para alcançar a história e o pensamento humanos a partir da perspectiva de nossa diversidade étnica. Tanto a literatura pós-colonial com seus mais diversos temas, desde o nefasto poder do colonialismo que vislumbramos na obra de Chinua Achebe e Chimamanda Adichie Ngozi até o trágico apartheid, tema recorrente nos romances de Coetzee e Nadine Gordimer, quanto a literatura diaspórica que pulsa de norte a sul do continente americano, são narrativas que confrontam o passado com o presente e nos despertam para a crise e o fracasso, em termos, de nossa civilização. Principalmente quando permitimos que as diferenças se tornem os mobilizadores das relações de poder que estabelecemos com nosso entorno. Nesse contexto a ficção pode comunicar a universalidade da experiência humana pela simples possibilidade de nos envolver numa trama de afetos onde somos convidados a todo o momento a ler o mundo a partir da perspectiva das personagens. Sem dúvidas é um interessante exercício de se transferir para o lugar do outro e conhecer suas vivências e experiências.

 

DA – Nesse conjunto de representações de mundos que precisam vir à tona através de uma arte como a literária, surge um componente de alta relevância, que é o das afirmações identitárias. Como tais sujeitos podem vir a se tornar efetivamente seres de ação no quesito que amplia uma via marcantemente humanista?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A identidade é e sempre será relevante em contextos onde seja preciso realçar a alteridade. Já estive em comunidades negras rurais em que o racismo não era um problema aparente em suas vidas, a não ser quando precisavam resolver algum problema na cidade. Não fazia sentido um debate entre eles sobre a negritude, a não ser quando precisaram se confrontar com o Estado ou com outros grupos. Eu prefiro não tratar a identidade como um constructo fixo e imutável. Gosto mais do conceito de identificação que coaduna com a perspectiva do devir humano. Não somos seres imutáveis. Somos devires porque existe um movimento vital no homem, no mundo e no homem através do mundo. Esse movimento é fonte de transformações constantes. A identificação está baseada na diferença, e afirmar essa diferença como legítima e parte da diversidade humana é o que mobiliza as performances identitárias. Nenhum ser humano é composto de uma única identificação, nós somos muitas identificações sobrepostas, e algumas delas certamente se relacionarão com a de alguém a sua volta. Somos mulheres, homens, homossexuais, negros, índios, ateus, católicos, candomblecistas, e na trilha de nossa existência através do mundo nos reconheceremos. Agora, imagine que na trilha da vida, sem os artifícios que dispomos para o conhecimento, isso possa levar bastante tempo. Às vezes um longo tempo se pensarmos que nossos problemas são urgentes. Imagine também o poder da literatura, da música – e enfatizo o hip hop, o funk, o samba, ritmos que têm um forte apelo popular – da televisão, do cinema, das séries estrangeiras, que chegam com uma velocidade incrível na era da informação. A arte pode ser um valioso instrumento, não o único, mas certamente o que nos envolve com mais afeto e é capaz de comunicar nossa humanidade com grandes chances de êxito. Já que falamos de literatura, imagine o poder de “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, para comunicar a existência queer, ou “A pianista”, de Elfriede Jelinek, sobre a violência que cerca a existência da mulher. Ou o maravilhoso The Underground Railroad, de Colson Whitehead, que acabo de ler, para expor as agruras do racismo no continente americano. São obras ficcionais capazes de gerar empatia por nos permitir interagir no campo da imaginação com essas personagens. Ninguém sai delas indiferente ou ileso.

 

DA – É insuficiente considerar o papel da literatura por um viés de mera fruição estética?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Gosto muito do Milan Kundera ensaísta, além de ser um ficcionista excepcional, justamente porque seus ensaios estão despidos de um viés analítico e acadêmico. Precisamos dos artigos e pesquisas acadêmicas para o conhecimento. Mas seu alcance é limitado.  Diferente dos ensaios de Kundera que primam por uma abordagem estética e humanista da literatura. Em “A cortina”, Kundera apresenta a literatura (romance) como a arte do conhecimento que existe e sobrevive por se debruçar sobre a experiência humana. Parte dessa existência e sobrevivência deve-se à fruição, uma característica que diferencia a arte literária de outros gêneros de escrita. A fruição estética abre um leque de possibilidades que permitem interpretações e reinterpretações sobre um mesmo texto. O leitor é peça-chave nessa engrenagem por ser afetado, na experiência pessoal e intransferível da leitura, de maneira distinta. Por ser fruição estética, sem nenhum demérito, é que a literatura tem seu alcance expandido e se torna um instrumento de conhecimento do mundo-tempo que vivemos.

 

DA – Diria que a sua escrita reflete um processo consciente e permanente de engajamento com as questões de seu tempo?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho inevitável que quem se debruça sobre qualquer atividade intelectual, sem a arrogância ou o peso que o termo intelectual possa evocar, está refletindo de alguma forma sobre seu tempo. Desde os primórdios tem sido assim. Não escrevemos para nós mesmos e muito menos sem a esperança de que o que escrevemos altere qualquer coisa. Escrevemos porque desejamos comunicar algo. Desejamos provocar emoções. A comunicação parece ser um atributo muito caro à espécie humana, desde a pré-história com a arte rupestre até a era da informação e a revolução digital. O que não cessou durante nossa história foi a nossa urgente necessidade de nos comunicarmos. Tenho uma visão muito dessacralizada do ato de escrever e, mesmo nutrindo um profundo interesse pela literatura e por quem a faz, não creio que seja diferente, na essência, das muitas formas de comunicação que o homem elaborou ao longo de sua história. Sei também que nem todo escritor terá algo relevante para comunicar, mas ainda assim sua obra será acolhida ou não a partir dos valores que os leitores e estudiosos irão lhe atribuir. Acho que quem se debruça sobre a escrita, ou qualquer construção artística que tenha a possibilidade de resistir ao tempo, deseja no fundo comunicar e provocar a reflexão, seja da mais íntima questão humana aos problemas mais complexos de nossa civilização. Uns superficialmente, outros detidos de forma mais profunda sobre essa experiência. Não vejo a minha escrita dissociada da minha própria experiência. Pretendo-a consciente, talvez por isso engajada. Mas há arte inconsciente e que não seja engajada em seus próprios parâmetros? Essa é uma questão, não tenho a resposta. Atribuí a mim, como creio que fizeram os meus pares do passado e do presente, a intenção de dar um testemunho pessoal sobre o meu tempo. Um testemunho pequeno, mínimo, da história em face à nossa grande diversidade enquanto espécie. O que seria minha vida, e a de qualquer escritor, dentro do grande tempo da história humana? Talvez possamos narrar um átimo dessa longa jornada. Fiz essa escolha por circunstâncias que não seria capaz de explicar. Ao mesmo tempo pode parecer uma presunção considerar que somos capazes de aprisionar em uma narrativa uma versão de nosso tempo. Pode parecer soberba assumirmos esse lugar de narrar uma história. É e sempre será uma posição delicada, ainda que estejamos autorizados por nossas convicções a escrever.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O grande afluxo de novos escritores parece instaurar um outro momento para a literatura brasileira. Nesse percurso, as plataformas digitais assumem um papel fundamental como viabilizadoras de espaços dotados de considerável autonomia criativa. As produções não cessam e se avolumam num ritmo até certo ponto frenético, algo que pode comprometer a qualidade do que é escrito, pois, em alguns casos, o desejo urgente de ser publicado ignora todo um processo de maturação e profundidade necessários a uma obra. São tempos de pressa estes em que vivemos?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – São tempos urgentes, não só para a escrita. Talvez seja cedo para esboçar uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A princípio vejo a democratização do acesso à publicação como um avanço por permitir que obras que não seriam acolhidas pelas grandes editoras cheguem ao público, ainda que essa circulação seja restrita. São livros que, graças às plataformas digitais e às pequenas editoras, têm tornado possível a construção de uma bibliografia que é ainda um pequeno panorama da nossa diversidade enquanto sociedade. Sobre isso não há dúvidas: obras de qualidade têm encontrado espaço no segmento das pequenas editoras. Basta observar as últimas premiações. Em contrapartida, vivemos um tempo de exposição de ideias e imagens de forma instantânea nas redes sociais. Somos a imagem que projetamos para essas janelas de comunicação. Há, sem dúvidas, uma glamorização da atividade do escritor e isso faz com que qualquer um, tendo habilidade ou não, se proponha a exercê-la. Mas isso não chega a preocupar porque se forem muito ruins não resistirão ao crivo das primeiras críticas de leitores e especialistas. O que persiste é que estamos num país com baixos índices de leitura comparado a outras nações em desenvolvimento. Dentre os possíveis leitores há ainda um grande caminho a percorrer. É preciso construir uma política pública que fomente a formação de leitores.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Somos um país em que a educação, até o presente momento, não foi encarada como um propulsor de desenvolvimento humano. Fôssemos um país que levasse a sério a educação, teríamos certamente mais leitores. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, quase metade da população não tem o hábito de ler. Um terço nunca comprou um livro. Mas quase todos carregam um smartphone, correto? Estão conectados às redes sociais e à internet. E como dispõem do tempo e da tecnologia? Certamente essas “escolhas” explicam em parte nosso retrocesso em questões de direitos humanos e nossos persistentes problemas sociais. Uma população não educada tem menos chance de participar e colaborar ativamente das instâncias de decisões. Tem menos chance de refletir criticamente sobre o mundo e seu tempo. Pode ser facilmente manipulada. Vamos lembrar, para não perdermos o hábito de falar de literatura, de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Onde foram parar os livros na República de Gilead? Para onde a supressão da circulação de conhecimento pode levar a humanidade? Além dos nossos problemas estruturais de educação, há um particular desinteresse do poder público em investir em políticas de formação de leitores. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, onde quase metade da população não tem o hábito de ler, o que poderíamos ser se compartilhássemos leitura, interesse e conhecimento de forma democrática?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas ao qual chamamos de pós-modernidade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou um espectador, com participação mínima na vida ativa de meu país. Pior, sou um espectador desatento, alterno horas de pretensa atenção e horas de devaneios. Não é um lamento, digo isso conformado. Sou um leitor em primeiro lugar. Para cada mil livros que leio deverei contribuir de forma tímida com um que escrevo. E observo nosso tempo com muita confusão e poucas conclusões. Reflito diariamente, mas sem exigir de mim mesmo uma definição sobre as coisas. Sabe como vejo o mundo? Como observo nossa jornada através da história? Como se lesse algo que acabo de escrever e que vou modificando, entendendo de uma nova forma, percebendo as movimentações de palavras e sentidos numa frase, num parágrafo. Mesmo depois de ter revisado doze vezes e receber o livro da editora, se não quiser sofrer, não o lerei para não querer reescrever depois de impresso. É como leio traduções ou um livro qualquer: começo a arrumar as sentenças como se fossem minhas. Quando percebo minhas divagações retorno para meu papel de leitor novamente. Observo essa fluidez e velocidade próprias de nosso tempo com espanto. As transformações são vertiginosas e na vertigem perdemos momentaneamente o autocontrole. É como um livro novo que faz você ler e subverter todas as coisas que aprendeu até aqui sobre escrita e leitura. Mas penso que esse estranhamento deve ter existido durante toda a jornada humana com intensidades diferentes. Quando leio Lima Barreto, penso nas inquietações de seu tempo, que transparecem em sua obra, e o que remanesce até o nosso tempo de tudo que ele possa ter refletido ou não. Estar no presente, engolido pelo caleidoscópio da história e do tempo, não garante o distanciamento necessário à reflexão.

 

DA – Quando poderemos dizer que um autor obteve sucesso com seu ofício?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Quando um único leitor vier até ele para dizer que um parágrafo do que escreveu lhe provocou alguma reflexão. Isso é o que espera quem publica, quem compartilha pensamentos e escritas com o público. Quando publicamos algo, por qualquer meio, não sabemos em que mãos irá parar. Mas se alguém que lhe desconhece escreve um e-mail ou indica a leitura de seu trabalho é porque algo pode ter ocorrido na experiência entre narrativa e leitor. A vida de uma obra só se ilumina nesse espaço “entre”. Uma obra não tem vida ao ser escrita ou enquanto está na imaginação de um único homem ou mulher. Ela ganha vida a partir do contato. É um espaço mágico onde a paixão pela experiência humana irá ocorrer. Imagino o que diria se encontrasse os escritores que me incendiaram de paixão pela leitura e escrita. O que diria sobre suas obras que não me abandonam mesmo passado tanto tempo. Como elas contribuíram para o que sou. Sei também que virão muitos autores, talvez alguns ainda por nascer, que me trarão essa mesma paixão. Um autor só obtém êxito com seu ofício quando consegue iluminar esse espaço entre a obra e o leitor.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

A boa literatura também se faz com o não dito. O que o autor guarda entre as dobras da tessitura narrativa, o algo inexplícito que se torna uma voz secreta modulando além dos limites da história, na apreensão do leitor. São as lacunas acortinadas em mistério, as sombras do enredo que concentram, nos silêncios, seu maior impacto.

Ninguém detém a noite explora os cantos de obscuridade que tem lugar na natureza humana. Em seu segundo livro de contos, o escritor pernambucano Nivaldo Tenório compõe uma galeria de personagens mobilizados por desejos e terrores interiorizados e, portanto, muitas vezes inauditos. Ainda que situado no espaço das cidades pequenas, dos povoados distantes, o palco das verdadeiras ações está dentro desses indivíduos incapazes de se desatarem de conflitos e de atos cruéis para significar suas próprias existências. Um ambiente de reconhecimento onde é sempre escuridão adentro, ou uma escuridão que vive dentro de outra escuridão.

Diante dessas tétricas experiências da vida, a força simbólica reside na morte e em suas representações. O autor promove as relações entre animais noturnos e objetos umbrosos sob o signo da finitude, transformando o universo abstrato, de crises e surtos mentais, numa atmosfera de devaneio através da qual se desvela o passado de perdas e de impura formação. A prosa de ficção vagueia pelas rachaduras da realidade, com naturalidade e consciência imaginativa, revelando um autor pronto, habilidoso e maduro, detentor de todas as chaves que permite a imersão do leitor e nunca os deixa sair, mesmo ao alcançar, transformado, o ponto final.

Em entrevista exclusiva, Nivaldo Tenório mergulha em seu recente trabalho e examina sua atração pela subjetividade temática, apontando os caminhos que percorre da ideia de ignição até a conclusão de um conto. Além disso, explica a sua preferência pelas narrativas breves, a estreia tardia na escrita, suas influências e angústias criativas. Natural de um estado-celeiro de grandes escritores, o autor analisa a presença do regionalismo no cenário atual da literatura brasileira, a nova cena de autores nordestinos, a proliferação das editoras pequenas e seus efeitos, e a importância dos prêmios literários e da crítica especializada. Um olhar apurado e franco sobre o meio literário, que reflete as intermitências do próprio ofício da escrita. “Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo”, observa.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ainda que tenham uma construção geográfica bem concreta, os contos de “Ninguém detém a noite” são frequentados por personagens que lidam majoritariamente com questões relacionadas ao plano subjetivo, no qual se impõem signos e metáforas como representações da finitude. Essa é uma característica muito marcante do seu trabalho, que vem de sua coletânea de estreia, “Dias de febre na cabeça”. O que lhe motiva nessa exploração interna? Acredita que transitar pelo secreto de seus personagens é uma forma de consistir verdade ao seu fazer literário?

NIVALDO TENÓRIO – Grato pela análise, Sérgio. Acho que foi O’Connor quem disse que a ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se alguém despreza o fato de ser pó, é melhor não tentar escrever ficção. Ela tem razão. Somos pó e parece que não há nada o que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melancólico desconsolo com a nossa finitude. Lembro-me que era comum, nos momentos mais felizes ele de repente nos chamar a atenção para o fato de existir a morte, que estamos sujeitos a este fato inelutável: um dia simplesmente deixaremos de existir. Isto roubava-lhe metade da alegria. Falo no passado, mas ele continua vivo, embora com a idade sobreveio o avanço inescrupuloso de uma doença demencial que, pelo menos, deixou-lhe o saldo de não pensar mais na morte. Então herdei dele esse desconsolo e com o tempo, acho, se transformou em obsessão e tema de meus contos, pois o que vejo é a dimensão trágica do mundo muito além do alcance de nossas ações. Nossas escolhas não são sempre deliberadas, pensadas e, mesmo que fossem, são elas que definem fatalmente nossas vidas ou é a força das circunstâncias? Duvido do livre arbítrio. E é essa dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero, que é o objeto de minha literatura. Alguém poderia dizer que disso já tratou exaustivamente Faulkner, Philip Roth – dois autores que continuo lendo depois de muitos anos – eu poderia citar outros, são muitos, mas o fato é que é isso o que sempre me fascinou na boa literatura – não posso esquecer de Machado – a capacidade de sondar o humano. E tudo isso, claro, não é nada se não se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, como você tão bem colocou, foi o modo que encontrei de transformar minha obsessão – que divido com tantos outros – em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por trás das ações de personagens, e não estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, é ali que encontramos o humano.

 

DA – Essa humanidade cotidiana tem um apelo muito forte no histórico da literatura pernambucana, seu estado de origem. Só para citar dois grandes autores, João Cabral de Melo Neto e Osman Lins alimentavam seus fazeres literários com uma matéria oriunda de um plano subjetivo, mas que ao mesmo tempo refletia características particulares do lugar em que nasceram e estavam inseridos. Outro aspecto era trazer para a ficção momentos de suas vivências. Partindo da menção ao seu pai, o quanto o fato de ser pernambucano, de ser nordestino, influencia na escolha de seus temas? A sua literatura é também alimentada por experiências pessoais?

NIVALDO TENÓRIO – Quando eu era só um garoto e morava numa periferia pobre de minha cidade não havia muita coisa bonita do que se orgulhar, a família sofria os reveses da pobreza, mas meu pai conservava certo orgulho tão anacrônico quanto suas lembranças da fazenda onde nasceu, e de seu velho pai, um modesto e próspero plantador de café que também ostentava fama de valentia. Vovô e a fazenda desapareceram, a herança dividida entre tantos irmãos não deu pra nada. Então, papai, que não conheceu a pobreza quando era menino, fazia das tripas coração para que não sofrêssemos tanto com a nossa. Por exemplo, não queria que os filhos trabalhassem, nós devíamos nos dedicar aos estudos enquanto ele se matava como pequeno negociante do ramo de confecções. A primeira vez que trabalhei de verdade – se é que podemos chamar de trabalho – foi quando me alistei para o serviço militar. Mas a pobreza estava ali, nem eu nem meu irmão desfrutávamos de coisas que meninos da nossa idade e de famílias mais remediadas podiam dispor. Por volta dos 13 anos me interessei por livros. Sentia-me seduzido pelo objeto, sonhava poder comprar os livros da Bibliex – biblioteca do Exército – que eram anunciados na TV preto e branco. Eu não sabia o que aqueles livros continham. Eram livros, isso parecia bastar. Veja, Sérgio – agora você vai entender por que precisei recorrer a esses dados biográficos – eu acho que vivi numa bolha, construída com o esforço de papai e mamãe, fui um menino quieto, solitário, mal saía de casa e, quando descobri o prazer da leitura, os livros eram os únicos endereços possíveis. Lembro-me de passar um período das férias escolares inteiro lendo Anna Karenina. As coisas lá fora eram o resultado do esforço de meu pai, e não era muito, apenas o suficiente para sobreviver. Um sobrevivente não se sente especial, mas ler Tolstói me fazia sentir especial. O livro de Tolstói eu consegui na Biblioteca Pública Municipal, a bibliotecária me deixava levar emprestado os livros, e assim li Victor Hugo, Dumas, Rabelais, Balzac, e não foi nada programado, os livros mais bonitos eram os clássicos universais, eram os que mais me atraíam. Também tinha Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros, mas naquela época só me interessava pelos autores estrangeiros. Talvez eu buscasse neles geografias diferentes da minha. Aqueles livros com histórias que se passavam tão longe, no tempo e no espaço, me garantiam uma distância maior da pobreza e daquele lugar que as circunstâncias me fizeram meu. E agora que falo isso, penso no que diz o José Luís Passos na apresentação do livro, de que os contos ambientados em cidades pequenas aspiram a uma maior largueza espiritual através da viagem ou alusão à cultura estrangeira. Então, respondendo à pergunta, acho que quanto ao tema – deste livro pelo menos – ser filho de meu pai e herdar algumas de suas idiossincrasias foi mais forte que ser pernambucano ou nordestino e quanto à experiência pessoal, acho que algumas estão nos contos sim, mas transformadas de tal jeito, que ninguém que tenha partilhado comigo tais experiências será capaz de reconhecê-las.

 

DA – É curioso você citar esse seu interesse inicial apenas por autores estrangeiros, pois me coloca diante de uma característica marcante da sua prosa; ou talvez a falta dessa característica marcante. Embora seja um autor nordestino, seus contos, ao contrário de uma lista imensa de novos e velhos autores, não trazem uma linguagem regional ou são ambientados num cenário expressivamente nordestino ou historicamente nordestino. Desde que começou a escrever, você se preocupou em não se enquadrar no que foi rotulado de “literatura regionalista”? Ou você acredita que é um processo natural da nova literatura brasileira ter um aspecto mais globalizado, independente da região onde é feita?

NIVALDO TENÓRIO – Não há dúvida de que um dos melhores – senão o melhor – capítulo da produção da literatura brasileira se deu a partir de 1930 com o Regionalismo de Gilberto Freyre – certamente um de nossos gênios – e falar de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e outros dessa geração é falar do cânone da Literatura Brasileira do Século XX. Guimarães Rosa também é regionalista como Faulkner, é o escritor regionalista do Sul dos EUA. Mas, quando hoje se taxa um escritor de regionalista, parece que por trás há uma clara intenção de segregação. E eu não sei se você já notou, Sérgio, mas a mim parece que esse rótulo só serve para o escritor nascido no Nordeste, talvez a culpa seja das novelas das oito da Rede Globo, e todos os coronéis, mocinhos e mocinhas que carregavam no sotaque baiano. Não sei. Conheço escritores no meu estado que não gostam de ser chamados de regionalistas só porque suas histórias são ambientadas no Nordeste. Ronaldo Correia de Brito não gosta, Raimundo Carrero tampouco, e eles têm toda razão. Quanto a mim, posso garantir, não houve intenção nenhuma de querer evitar o rótulo, nunca me vi pensando na questão, os contos eram escritos e só me dava conta da ambientação deles não evocar o Nordeste quando alguém me chamava a atenção para o fato. Confesso que acho algo desnecessário, principalmente num conto, o autor se preocupar em dizer que sua personagem parou pra descansar no trecho tal da Conde da Boa Vista, no Recife, ou que seu carro foi guinchado da BR Luís Gonzaga, em São Caetano, até Caruaru. Ao mesmo tempo, acho que não é isso de descrever o ambiente ou não que vai determinar se o conto presta. Apenas não acho necessário. Nunca estive interessado no homem ou mulher de Recife ou de São Paulo ou da pequena cidade onde moro, minha Garanhuns de clima ameno, localizada mil metros acima do mar e seus 130 mil habitantes, que há anos nem sobe nem desce no censo, pois lá impera a imobilidade. Estou interessado sim nos homens e mulheres e no que eles possuem de humano, não importa se transitam na Avenida Santo Antônio ou Quinta Avenida. Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, desses que andam na moda. Ele dizia que não acredita nessa coisa de “ser brasileiro”.  Não sei o que pensaria José de Alencar se um vidente lhe dissesse que mais de cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declaração. Alencar e seu projeto de construção da identidade cultural do Brasil, ele e seu romance ambicioso em conter toda geografia. A mesma reação teria o Mário de Andrade, que, ao modo dos artistas de sua geração e seu caráter anárquico, também ambicionou dar continuidade – de um modo diferente, claro, crítico e coisa e tal – ao tal projeto de construção da identidade cultural. Macunaíma é sem dúvida o romance tese dessa empreitada. Mas o fato é que o tal escritor da entrevista talvez não esteja enganado. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de São Paulo, ainda estamos em formação e a única conclusão que chegamos é que não somos negros nem brancos nem índios. Mas teve um tempo, Sérgio, que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da década de 20, por exemplo, ambientados na França e que falam de homens e mulheres – de quem uma escritora se referiu como geração perdida – vivendo o entre guerras e a frustração de ser humano e o quanto isso representa de impotência e fragilidade. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha no meu caráter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que “Kind of blue” me encanta mais do que Samarica Parteira? Não estou dizendo que nossos escritores e músicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atrás e milhares de quilômetros longe de meu país me encanta e me causa felicidade. De algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil, me encontro ali. Vislumbro meu reflexo. E como minha literatura primeiramente nasceu do reflexo de meu gosto de leitor, isso talvez responda tua pergunta.

 

DA – Aproveitando que falou de rótulos e da criação de estereótipos, queria me aprofundar nesse assunto e perguntar sobre a relação dos autores que não estão nas chamadas rotas Sul-Sudeste do mercado literário. Durante muito tempo (e ouso dizer que a imagem permanece fora do Brasil) os livros dessa região eram consumidos em função de seus aspectos exóticos, sertanistas. Hoje, a impressão que tenho é que melhorou, baseado no reconhecimento de autores citados, como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carreiro e José Luiz Passos, além da grande Maria Valéria Rezende e de novos autores, a exemplo de Débora Ferraz e Franklin Carvalho. No entanto, você, que vive a realidade dessa região, como enxerga o interesse das editores e dos leitores (e, por que não, também dos críticos) para com os autores fora desses centros? Você acredita que há, ou já sofreu, algum tipo de discriminação pelo fato de não fazer parte de um círculo específico, de não socializar com o editor X ou com o autor Y?

NIVALDO TENÓRIO – Acho que o problema da dificuldade de ser lido ou editado não está no fato de viver, de fazer literatura no Nordeste. Acredito que problemas similares encontram escritores espalhados no Brasil, mesmo no Sul e no Sudeste. A questão é de outra ordem e tem a ver com leitores. Poetas e contistas – com raras exceções – não estão exatamente na ordem do dia. Fazer o tipo de literatura que eu faço significa escrever quase exclusivamente para outros escritores. Às vezes, tenho a impressão de que estamos presos numa espécie de autofagia. Nos eventos de literatura escritores falam para escritores, enquanto o resto do mundo está lendo o último livro do Dan Brown, do Paulo Coelho ou do Stephen King etc. Uma amiga minha, também escritora e que mora em Portugal, me diz que lá é a mesma coisa. Acho que vivemos a crise do leitor. Thomas Mann, num ensaio sobre Tchekhov faz a sua mea culpa e reconhece que não levava a sério a forma breve do conto, estava interessado nas grandes catedrais dos romances de fôlego. Não é o caso do leitor de hoje, este só está interessado no livro da moda, em bruxos e vampiros, e necessita, mais do que ninguém, de muita autoajuda para suportar a existência. É o que aquece o mercado. Outro dia vi, no Globo News Literatura, a Luciana Villas-Boas, a antiga editora da Record, hoje agente literária, que costumava aconselhar escritores a não escrever conto ou poesia porque não vende, falar de uma dessas novas autoras, surgidas na internet e que escreve excelentes livros, inspirada no “Cinquenta tons de cinza”. A Luciana garantia que não se tratava de mero pastiche da E.L. James, como se isso fosse uma garantia do talento literário da moça. Essa autora, de quem nos fala a Luciana, provavelmente não vai ser resenhada por você, Sérgio, mas, num tempo incrivelmente curto, já vendeu mais de 100 mil exemplares. Não quero parecer pessimista ou despeitado, mas é a realidade. Também sei que você não estava se referindo a esse tipo de livro, quando me fez a pergunta, mas é preciso entender que primeiro o problema é de leitores. Não há leitores interessados em literatura, falo de alguém que vai a uma livraria para comprar a nova tradução do Gombrowicz porque está a fim de ler um bom livro, um livro instigante. E não vale se for da área, nada de jornalista cultural, crítico ou escritor, falo de um cara comum, que dirige um táxi ou é médico ou estudante de engenharia. Então, Sérgio, não é morar longe do centro – embora isso atrapalhe um pouco, sem dúvida – o maior problema. Já foi por isso que Osman Lins pediu demissão, juntou os trapos e trocou Vitória de Santo Antão por São Paulo, mas isso foi na década de 60, quando não existia internet.

 

DA – A sua resposta é muito pertinente e me conduz a duas reflexões. A primeira é relacionada ao que chamou de crise de leitor, diante da qual estou completamente de acordo. O caso é que, na contramão dessa situação preocupante, temos um cenário literário onde nunca se publicou tanto quanto hoje. Isso tem a ver, óbvio, com o surgimento de inúmeras editoras pequenas e com a possibilidade cada vez mais acessível da autopublicação. Qual, na sua opinião, será o efeito dessa equação que não fecha e que se torna gradualmente mais complexa? Acredita que a facilidade com que se publica neutralizou um filtro editorial e, atualmente, a quantidade alimenta um catálogo contumaz de livros não lidos?

NIVALDO TENÓRIO – Você tem toda razão quando usa o termo contramão. De fato é muito fácil publicar um livro hoje, as editoras pequenas surgem como resistência, mas também como negócio, uma vez que na maioria delas é o autor o responsável em pagar a gráfica. Além do livro, temos a internet, mas apesar dela e sua facilidade e sedução, a publicação em papel continua o sonho de consumo e o fetiche da maioria de quem escreve um livro e deseja vê-lo publicado. É uma equação mesmo, e para mim esquizofrênica, uma vez que me confirma a suspeita de que no Brasil – não sei lá fora – existem mesmo mais escritores do que leitores. E a maior parcela dela é de um tipo estranho de escritor, a parcela de escritores que não compram livros, logo não leem. Conheço alguns do tipo, quase sempre se consideram injustiçados e quando a gente pergunta o que estão lendo respondem que não leem porque temem a famigerada influência. Algo em que notamos um grande zelo pela própria escrita. Fico imaginando como seria aquecido nosso mercado livreiro se todos os escritores comprassem livros. E não sei, Sérgio, confesso que não consigo explicar esse fenômeno de tanta gente escrevendo e publicando, sempre achei que o escritor surgia por causa de amor e obsessão pelos livros – acho que foi meu caso – ou como resultado de uma grande experiência, do tipo que é preciso registrar no papel para alertar a todos de um grande mal ou de uma grande injustiça, o genocídio de um povo, por exemplo ou por algo – e vou citar Augusto dos Anjos – como uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar-se pela humanidade, mas acho que é sentimentalismo da minha parte. Tantos escritores talvez seja só uma forma – para muitos deles, pelo menos – de querer aparecer na foto. O homem nunca gostou tanto da própria imagem como nos nossos dias. Mas nem tudo é ruim; contrariando o tal filtro editorial, fico muito feliz quando é incluído, entre os finalistas de grandes prêmios, autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais. Já faz muito tempo que lamentamos não existir mais crítica literária nos jornais, lamentamos a morte de cadernos de literatura etc, isso talvez seja o que mais atrapalha, mas apesar de toda dificuldade – em razão dessa quantidade absurda de livros publicados todos os dias – é possível sim reconhecer um bom livro. Talvez o reconhecimento não venha na hora, talvez demore ou só ocorra postumamente, mas vem. E quanto à enorme quantidade de lixo publicado, a boa notícia é que o papel é biodegradável.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sinceramente, considero o reconhecimento póstumo a circunstância mais desleal que possa ocorrer com um escritor. Mas voltando a segunda reflexão, seus dois livros foram publicados por uma editora pequena. Foi uma decisão deliberada ou chegou a mandar o original para uma editora grande e não houve o interesse? Você mencionou o lado comercial das editoras pequenas e, na minha opinião, a qualidade gráfica da maioria desses selos pequenos nada deixa a desejar quando comparada a de uma grande editora. Os problemas são justamente a divulgação e a distribuição. A partir de sua experiência, quais são os prós e os contras que um autor lançado por uma editora pequena acaba por se deparar?

NIVALDO TENÓRIO – Eu nunca mandei meus livros para editoras grandes. De antemão, já intuía o resultado, na melhor das hipóteses uma carta educada dizendo que a editora não trabalha com meu perfil de escrita. O dinheiro movimenta o mundo. Quando mencionei o lado comercial das editoras pequenas quis dizer que elas utilizam estratégias de sobrevivência e, entre essas estratégias, a parceria com o autor é uma alternativa viável se se deseja algum lucro, no final. Imagino que uma editora pequena que publica 500 exemplares de um autor ainda desconhecido, embora bom contista, poeta ou mesmo romancista, corre sério risco de não conseguir só com a venda dos livros tirar os gastos da gráfica. As distribuidoras ficam com a porção maior do bolo e algumas livrarias cobram caro, algumas chegam a exigir 50 por cento. Também concordo com você, é excelente a qualidade gráfica de algumas editoras pequenas. Imagino que fazer o livro bonito acaba sendo uma estratégia comercial já que o público dessa editora, embora pequeno, é exigente. Tem bom gosto. Divulgação e distribuição são problemas sérios enfrentados até por médias editoras. Não é em toda livraria que você encontra um livro da Iluminuras ou Editora 34, só pra citar duas que gosto. E se publicaram autor brasileiro, contemporâneo, pior. Para o autor que se autopublica é um problema irreversível, apenas minimizado pelos selos pequenos. Acho que as livrarias também não ajudam e talvez a culpa não seja delas, afinal há tantas publicações de vampiros, bruxos e pastiches de 50 tons de cinza no mercado que as prateleiras simplesmente não cabem. Por isso, algumas ainda concordam em disponibilizar o livro no catálogo virtual. O Brasil é enorme e tal, mas o problema, insisto, é mesmo a falta de leitor. Outro dia ouvi que um autor – não me lembro quem – que ganhou o prêmio São Paulo verificou, um ano depois do anúncio do prêmio, ter vendido 100 livros. Parece mentira, mas não entendo porque alguém mentiria sobre isso. O livro fôra publicado por um grande selo, parece que também ganhara o prêmio Sesc e, com toda mídia e prestígio do prêmio, aumentou suas vendas em apenas 100 livros. Gosto da editora pequena. Algumas alcançaram respeito e isso, no fundo, é o que importa. Fazem um livro bonito e, sem muita pretensão, encontram o leitor especial, interessado em boa literatura. Se o mercado não é milionário, a culpa não é dela. Faz seu papel e o autor encontra seu lugar. Pequenas tiragens e distribuição – mesmo longe do ideal – possibilitam que o livro circule, concorra a prêmios e seja resenhado.

 

DA – Essa história do autor premiado é verídica, eu o conheço pessoalmente. Mas o final da sua resposta me instigou uma provocação: diante do que chamamos de crise de leitor, você acredita que o autor que lança uma edição de 500 exemplares, por uma editora pequena, tem muito mais uma preocupação em colocar um crachá de escritor e entrar para um clube do que ser realmente lido? Neste caso, o livro não seria mais um dispositivo para uma satisfação pessoal do que um meio pelo qual ele possa alcançar o objetivo final de toda obra literária, a atenção do leitor?

NIVALDO TENÓRIO – Falei em 500 exemplares porque é o número que muitas editoras que trabalham com gráfica offset sugerem, 300 ou 500 exemplares. Quanto mais diminui o número de exemplares, mais caro o livro fica. Meu “Dias de febre na cabeça”, edição do autor, a primeira edição, foram 500 exemplares. Na época eu sugeri 300, mas a diferença que a gráfica fazia no preço era ridícula. Então fiz os 500 mesmo sabendo que se livrar deles seria tão difícil quanto se livrar de um corpo. Sim, tem a história do crachá de escritor, concordo com você, mas no meu caso foi só essa lógica de gráfica offset. Algumas editoras estão trabalhando com tiragens bem pequenas, 70, 100 exemplares. Acho o ideal, se houver procura do livro é só imprimir mais exemplares.

 

DA – Você há pouco citou rapidamente os prêmios literários. Com o mercado editorial cada vez mais fechado, acredito que é senso comum de que vencer um prêmio literário é a maneira mais meteórica de se projetar um escritor. Quando se é uma estreia, pode ser até perigoso, pois o autor carrega consigo a responsabilidade de entregar um segundo livro, pelo menos, à altura do anterior. O que pensa sobre os prêmios literários? E, ultimamente, os prêmios no Brasil têm agraciado muitos autores nordestinos. O prêmio Sesc, por exemplo, teve suas últimas edições dominadas por novos autores do Nordeste, tanto na categoria Romance quando na categoria Conto. Como explicar isso? Você consegue identificar uma geração de jovens autores ganhando corpo na região?

NIVALDO TENÓRIO – Devo dizer que pra mim não é surpreendente que prêmios literários agraciem autores do Nordeste. Acho que o Nordeste tem uma sólida tradição de excelentes escritores. Por acaso me lembro do polêmico Bruno Tolentino, ele que era do Rio, poeta erudito que não gostava do Modernismo nem da Cultura Popular, disse uma vez: tirem a Literatura do Nordeste do Brasil, restaria o quê? Sem bairrismo, de fato o Nordeste é rico em escritores, Pernambuco então nem se fala. Manuel Bandeira, Osman Lins, João Cabral de Melo Neto – um dos poucos autores brasileiros que já foi citado para ganhar o Nobel – e Gilberto Freyre, reconhecido no mundo como um gênio. Uma boa representação da literatura contemporânea também é de Pernambuco. Apenas citando os escritores que residem aqui penso em Raimundo Carrero e Fernando Monteiro, só pra mencionar dois. E se falamos em escritores que adotaram Pernambuco, temos o grande Ariano Suassuna da Paraíba (hoje um clássico da Literatura Brasileira), Ronaldo Correia de Brito e Sidney Rocha, do Ceará, autores com uma sólida literatura, todos premiados. Autores que nunca deixaram o Recife. Já faz alguns anos o estado criou um prêmio que só premia autores que residem em Pernambuco, o Prêmio Pernambuco – que recentemente alguém teve a infeliz ideia de mudar o nome para Hermilo Borba Filho, também ele um intelectual de destaque e excelente dramaturgo pernambucano. O prêmio tem revelado autores até então inéditos e de notável qualidade literária, espalhados na região metropolitana e interior do estado. De fato, o prêmio tem poder de revelar o autor, embora isto não queira dizer que todo autor premiado é um grande autor. São muitas circunstâncias e pesa o fator sorte. Mas ajuda, principalmente quando democrático e livre de preconceitos. Por isso, gosto quando encontro, entre os finalistas de grandes prêmios, livros de autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais, isso denota honestidade. Acho que a gente vai precisar de mais tempo e o olhar a uma certa distância para perceber se aqui, na região, houve de fato uma nova geração de escritores fazendo literatura de verdade. Nesse momento, pelo menos, só posso dizer que há muita gente escrevendo e o que se vê publicado aqui não é de jeito nenhum inferior ao que se vê publicado no Sul-Sudeste.

 

DA – Falando em distância, durante seu ofício criativo há uma preocupação com o leitor, quem a sua história poderá atingir e o que pode despertar nela? Certa vez, fiz uma pergunta parecida para um autor, que respondeu não pensar no leitor, pois escrevia para ele mesmo. Achei a resposta arrogante e narcisista. O que pensa sobre isso? O leitor não deveria fazer parte, em algum momento, do processo de construção de um livro?

NIVALDO TENÓRIO – O leitor é fundamental. Preocupa-me muito o leitor. Morro de medo do leitor pouco generoso, o leitor que lê em metrôs, olhando para o relógio, hiperativo, que manipula o celular, que consulta as redes sociais enquanto lê. Tenho medo que minha literatura, para este leitor, assuma algum tipo de hermetismo do qual não me sinto culpado. O conto é irmão da poesia, requer mais de uma leitura. Ninguém lê um poema uma só vez. Quantas vezes eu já não li “Opiário”?, Decerto muitas. Sem o leitor minha literatura fica incompleta. Você poderia dizer, com toda razão, que sem o leitor nenhuma literatura acontece. De fato. O próprio processo de escrita se completa com o leitor. Por isso, necessito de um leitor que me dê a mão, necessito de sua paciência e disposição para amarrar as pontas, quando se fizer necessário, de um leitor que saiba ler os silêncios, que se interesse pela outra história que todo conto conta e sinta prazer em despender toda energia que a leitura lhe exige. O leitor que idealizo é um leitor especial e por ele sinto enorme apreço. A gente se esforça para escrever um livro melhor que outro. Acho que este livro que acabei de escrever é mais maduro que o anterior, mas só quem pode de fato julgar isto é o leitor. Por outro lado, não perco o sono por causa do leitor de gosto médio, o leitor dos livros da moda, o leitor apenas interessado em puro entretenimento. É claro que todos os dias eu o espero de braços abertos, mas não vou perder o dia se ele me ignorar.

 

DA – Seguindo nessa linha do leitor, ultimamente surgiu um movimento do leitor sensível, que tem feito inclusive universidades retirarem de seus catálogos obras com conteúdo considerado controverso. Seus contos, por outro lado, trazem para seus enredos temas pesados, envolvendo fortemente a miséria humana. Como enxerga essa pressão que existe hoje para limar da literatura temas polêmicos que possam ferir certos grupos? Isso lhe faz repensar a ideia de um conto?

NIVALDO TENÓRIO – O primeiro réu desse caso, se não me engano, foi Monteiro Lobato. Queriam censurar e cortar trechos de sua obra por causa do tratamento que Tia Nastácia – por ser negra – recebia. E aí me lembro do Oscar Wilde: um livro não é moral ou imoral, é bem ou mal escrito; eis tudo. Ele tem razão. No caso do Lobato, principalmente, tem a questão do contexto histórico. Eu não acredito numa obra literária que se constitua num panfleto mesmo que as razões sejam as melhores, imagine quando as razões são as de promover discriminação racial ou de qualquer natureza. A obra de Monteiro Lobato não me parece um panfleto, aquilo que Narizinho diz sobre a negritude de Tia Nastácia é corroborado pelo espírito de época. E quem fala é a personagem. Não existe boa arte pautada em normas de conduta, etiquetas e outras frescuras. É só olhar para o passado, o que é que hoje todos acham do processo por imoralidade que sofreu Madame Bovary? Veja, durante essas discussões eu esperei que alguém se manifestasse sobre a Bíblia, pois é difícil encontrar um livro tão politicamente incorreto. Ali há desde discriminação contra a mulher a genocídios determinados pelo próprio Deus. No Decálogo, exatamente no décimo mandamento, Ele determina que o homem não deve cobiçar o servo de seu próximo, e aí não precisa recorrer a exegese para intuir que para Deus a escravidão era perfeitamente aceitável. Natural. E diferentemente de Monteiro Lobato, um homem do final do século XIX início do XX, Deus não é um reles mortal, sujeito ao condicionamento cultural. Então é uma grande besteira esse negócio, começa-se mal porque começa-se descriminando umas obras e deixando outras de lado em nome da mais pura e genuína hipocrisia. Mas acho que quem deve se encarregar de julgar é o leitor. O leitor faz a leitura que quiser. Estabelecer uma censura em nome do politicamente correto é no mínimo ridículo. Não me interessa se Celine era antissemita e simpatizante do nazismo, a mim só interessa o assombro que me causou Viagem ao fim da noite, além do mais ali não há nada que promova as ideias infelizes do autor. A propósito disso, reconheço um bom autor pela sua capacidade de fazer a clara distinção entre suas ideias, ideologias e a literatura. Conheço escritores que também são meus amigos e são, na vida privada, pessoas de forte ardor religioso, e não são poucos, pessoas capazes de uma fé que eu não consigo entender que raios de improbidade intelectual os fazem acreditar nos disparates e contos de fadas de suas religiões, pessoas com uma visão que eu só consigo atribuir ao intelecto mais simplório, mas que no caso deles não é, pois não são ignorantes, alguns têm mais cultura e leram mais do que eu. Então, são questões que eu nem procuro inquirir – tenho mais com que me ocupar – no fundo o que me interessa é que em seus livros não há nada disso e até os invejo por conseguirem tal distanciamento. Mas acho que acabei fugindo um pouco da pergunta. E não, essa pressão e sensibilidade de tais grupos jamais me fariam repensar a ideia de um conto.

 

DA – Por outro lado, você consegue identificar determinados escritores que se colocam por detrás de uma causa, da bandeira de uma minoria, de uma ideologia, e se utilizam desse expediente para chamar atenção para seus escritos? Percebe que a mídia especializada foca, em muitos casos, na condição social desse tipo de escritor e se esquece de avaliar o valor literário, se o livro é, no mínimo, bom?

NIVALDO TENÓRIO – Num mundo que não lê, talvez não seja tão ruim chamar a atenção para um livro em razão de seu apelo social. Sem dúvida, há tais escritores e acho até que são muitos, e suas bandeiras chamam sim a atenção da mídia e de leitores que se veem ali representados. Imagino que deve existir escritores bons e ruins fazendo isso. A mim só interessa a literatura. Literatura pela literatura. Se alguém consegue fazer os dois, se consegue que o carro-chefe seja a força do texto e não o apelo social, tem a minha atenção. E não é de se admirar que a mídia se interesse e promova livros medianos, como você coloca, mas que levantam bandeiras de grande apelo social. A mídia está interessada em notícia. Por literatura se interessa um número bem menor de pessoas e isso não vende jornais, não dá ibope.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Mas ainda, por mais estranho que pareça, são justamente os cadernos e os suplementes literários que permanecem valorizados pelos autores, quando buscam uma resenha ou a divulgação de seus livros. No Brasil, ainda resiste uma cultura de associar projeção aos grandes jornais impressos, de não dar o valor devido ao espaço virtual, à atenção dada aos livros nos sites, blogues e afins. Como analisa essa transição? Os espaços virtuais reservados à literatura são uma maneira de compensar a falta de espaço na mídia impressa ou estamos diante de uma nova geração de críticos, que lidam com a literatura segundo a realidade de seu tempo?

NIVALDO TENÓRIO – Acho que são os dois, Sérgio. Sem dúvida, há uma nova geração de críticos mais antenados com as novas tecnologias e a literatura perdeu espaço na mídia impressa. Talvez o crescimento de uma esteja atrelado ao desaparecimento da outra. Aqui em Pernambuco, noto uma resistência. Há bons jornalistas interessados em escrever sobre literatura. Temos um suplemento cultural, o Pernambuco, que é um dos melhores cadernos de literatura publicados no Brasil. Quanto à preferência dos autores em verem suas obras divulgadas por cadernos e grandes jornais, deve ser um reflexo do próprio desejo de se ver publicado em papel. O cara publicou um livro nas redes sociais e tem milhares de seguidores, mas só se sente publicado de verdade quando seu livro está à venda nas livrarias. É o fetiche, é a tradição. Mesmo os escritores comerciais se sentem assim. Parece que o papel tem o poder de tornar oficial. É verdade que quando sai em jornal uma resenha aquilo só é lido por meia dúzia de pessoas. Todos só tomam conhecimento quando o link da matéria é divulgado nas redes sociais. Acho que essa crítica em blogues e sites vai crescer e vai ganhar mais prestígio à medida que as publicações em jornais ficarem mais raras e, se não desaparecerem dos grandes jornais, existirão apenas em jornais como Rascunho ou publicações artesanais para um número pequeno de assinantes. As facilidades que a internet oferece impediriam que hoje o Osman Lins desistisse de tudo, no Recife e Vitória de Santo Antão, e fizesse a mesma viagem que os sertanejos faziam para São Paulo.

 

DA – E no seu caso? Incomoda-lhe ou, de alguma forma, desanima adentrar uma dessas mega livrarias e não encontrar os seus livros? Qual a extensão que você almeja para sua carreira, para sua escrita?

NIVALDO TENÓRIO – Tudo o que almejo para minha carreira de escritor começa e termina no texto, quanto ao resto não é de meu controle. O meu livro não se encontra em mega livrarias – pelo menos o livro físico – não por ser de péssima qualidade. É exatamente o contrário. Quando entrei pela primeira vez na Livraria Cultura, da Avenida Paulista, não pude acreditar no que via. Mais da metade da livraria era dedicada aos livros da moda. É fácil reconhecer pelo colorido das capas. Não bastou que alguém tivesse escrito um livro tão ruim como “Crepúsculo”, era preciso que aparecesse um monte de imitadores com novos Crepúsculos que ganhariam as prateleiras de tais livrarias. Então, eu não tenho culpa se impera um gosto ruim ou mediano, se todo mundo parece tão carente de autoajuda e entretenimento que só aspira a mais bruxos e lobisomens em aventuras sensacionais. Mas eu estaria mentido se não dissesse que todo escritor deseja sim encontrar seu livro nas vitrines de livrarias. Alguns, quando encontram, chegam até a fotografar e exibir no Facebook, coitados, como um acontecimento realmente fabuloso. E talvez seja mesmo. Então, Sérgio, não me preocupo com isso. Interessa-me fazer um livro melhor do que o último. Este livro, acredito, é melhor do que o anterior, pois minha maior motivação é escrever cada vez melhor, embora isso, claro, quem julga é o leitor, seja lá onde ele estiver.

 

DA – Talvez seja uma heresia perguntar isso para um contista por excelência, mas você já pensou em escrever um romance? Caso não, o que o afasta do gênero? Caso sim, esse seria um próximo livro? Aliás, já tem um novo projeto literário?

NIVALDO TENÓRIO – Nunca tentei escrever um romance – apesar de ser um leitor de romances – mas já pensei sim, embora nunca tenha levado a termo, sequer começado. Encontro no conto o gênero necessário para minha criação. Há as pressões do mercado (que, é claro, eu não levo a sério) e dos amigos (que não sabem apreciar o conto), pois é comum coisas do tipo: e quando vai sair o romance?, como se todo esforço para escrever o conto fosse balela, um talento desperdiçado. Não por tais razões, o mercado que se dane e os amigos que aprendam a ler. Mas vou escrever. Não digo que já tenho um projeto, é só uma ideia que vem me assombrando ultimamente, de transformar um dos contos – porque me sugere uma narrativa de fôlego maior, o caso da tartaruga – em romance. Vou escrever, mas não tenho pressa. Sempre admirei os escritores obcecados por sua obra, que nos dão a ideia de que viveram apenas para escrever, como os russos e Balzac, por exemplo, mas tenho uma natureza infelizmente indolente, depois de um livro preciso de um tempo, mais do que razoável, para de novo me sentar e escrever. Tenho fôlego de contista, nunca estive interessado em quantidade.

 

DA – Diante de todas as frustrações e contratempos que trouxemos à tona, por que então continuar a escrever? Vale a pena ser escritor no Brasil?

NIVALDO TENÓRIO – Publiquei a primeira vez com mais de 30 anos. Escrever sempre foi mais importante do que publicar. A gente não escreve porque isso vai mudar nossa vida. Não vamos ficar ricos e nunca acreditei no exercício da escrita como terapia. Escrever, então, nunca representou obter algum tipo de vantagem. Acho que todo escritor tem dificuldade de responder esta pergunta. Hoje, mais do que nunca, quando para tudo que se faz, logo se espera obter resultados, lucros, vantagens. É isso ou você está perdendo tempo, dizem os pragmáticos. Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo. Não há garantias. Se escrevo e, se continuo escrevendo, faço porque sentiria muito se algo acontecesse que me impedisse de escrever. Não acho que seja mais fácil ser escritor em outro país. Quando a gente pensa no século XX, uma parcela significativa da grande literatura que aparece foi escrita na América Latina do Terceiro Mundo, com problemas de ditaduras e analfabetismo. Faulkner, Carson McCullers e Flannery O’ Connor escreveram no Sul dos EUA de pobreza, Ku Klux Klan e fanatismo religioso. Então, não é num país com problemas sociais resolvidos e índice zero de analfabetismo o lugar ideal para escrever e ser lido. Não há lugar ideal para escrever. Ouvi de uma editora francesa que, em Paris, o escritor ou escritora lança seu livro nas livrarias pequenas, lugares aconchegantes, cheias de histórias, com fotos de Hemingway penduradas nas paredes. Os lançamentos contam sempre com um público de 30 pessoas, no máximo, entre as quais se contam esposa, filhos, pais, parentes e amigos do escritor. O problema é maior, vai além das fronteiras, e tem a ver com a perda de certa noção da subjetividade. Mas uma coisa eu posso garantir, em todo tempo e em todos os lugares houve e há dificuldades, nenhuma delas, entretanto, é páreo para o desejo de escrever.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O quanto pode encerrar a potência e os caminhos de uma voz que se quer dedicada à poesia? Por certo, há mais do que uma vontade de dizer coisas ao mundo, de vociferar intenções discursivas advindas da mecânica do pensamento. Não basta intentar criações como se estas fossem um mero jogo de representação dos sintomas pulsantes da vida e seus entornos. Desconfiamos, pois, que há muito mais por trás daquele que se mostra em palavras e versos ao mundo.

O poeta a quem dedicamos atenção agora abarca uma peculiar condição de estar no mundo, qual seja a de mostrar-se inquieto e desperto diante de questões que marcam sobremaneira a seara humana no quesito das identidades. É Jorge Augusto, intelectual baiano, educador, artífice do verso, editor e, principalmente, ativista cultural quem nos oferta possibilidades de diálogo a partir de um tão complexo território que é a literatura.

O Jorge com quem conversamos está envolto nas transformações que o tempo impôs a seus escritos. Desde os primeiros poemas, cobertos pela égide do desejo, até o momento presente, o autor tem revelado uma maturidade estética que é consequência natural de um processo pessoal de busca. Um de seus mais importantes projetos aponta para a condução da Organismo Editora, coordenando a Coleção de poetas baianos inéditos, bem como a Revista Organismo. É doutorando em Literatura e crítica da cultura pela UFBA. Na área de Literatura Brasileira, o cerne de suas pesquisas está voltado para temas como decolonialidade, modernismo brasileiro e literatura negra. Hoje, integra o corpo docente do IFMA.

Com poemas publicados na Antilogia – organização de coletânea entre poetas de Bahia e São Paulo (2011), no livro de poemas do Sarau da Onça, e na antologia Enegrescência (Ed. Ogum’s Toques), dentre colaborações para sites e revistas variadas, Jorge vai deixando entre nós os indícios de uma expressão que contempla uma percepção aguçada sobre a existência. Decerto, são revelações de uma alma que tenciona desarranjar acomodações e cujo alicerce do pensamento aponta para o ato frequente de vislumbrar a crítica salutar sobre o que está posto em matéria cultural.

O Jorge Augusto que nos confessa certo e atroz desengano diante do presente não repousa seus arremates no solo estático da desilusão. Pelo contrário, evidencia uma provocação que, em última instância, sugere uma mudança de rumos situada nalguma via de renovação. Como esta se dará só o futuro pode nos asseverar.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Parte de sua produção poética possui uma atmosfera marcada por elementos sensoriais que sugerem instigantes percursos através dos sentidos, sobretudo no que se refere à construção do desejo. Em que medida essa característica é constituinte do poeta que você é hoje? 

JORGE AUGUSTO – Acredito que em pouca medida hoje. Confesso que quando li/ouvi sua pergunta, fiquei pensando com o que nos meus poemas ela dialogava. Porque nenhum dos poemas publicados nas antologias, que foram as últimas publicações, têm essa presença dos elementos sensoriais, pelo menos não deliberadamente, não por vontade, e consciência. Mas logo lembrei das revistas e dos poemas que publiquei, mais ou menos  em 2007 (período que comecei a publicar), na Germina Literatura e na Diversos Afins, no projeto Uníssono, por exemplo. E sua pergunta fez sentido para mim. Então, tive que respondê-la primeiro para mim, escutar a resposta, para depois dizê-la. Mas, sobre a construção do desejo, eu acredito que, assim como a fala na psicanálise, muitas vezes na escrita, mesmo e, sobretudo, à revelia do sujeito, há um exercício infinito, talvez, de elaboração do desejo ou da consciência dele. E desejo, aqui, no sentido amplo, desejo de revolução, de mudança, de foda, desejo de estar vivo. Enfim, acho que dos primeiros poemas para cá, e creio ainda está nos primeiros (e talvez já últimos), esse lugar, esse objeto do desejo, tenha mudado, ou melhor, expandido, alargado. Deixou de estar fixo no reduto do corpo e elasteceu-se a outros muitos corpus.

 

DA – Nesse processo de expansão de sua consciência poética, há uma preocupação intencional de se fazer ouvir por uma postura ideológica diante do mundo?

JORGE AUGUSTO – A postura ideológica diante do mundo vai, em qualquer expressão de linguagem, mais ou menos camuflada, mais ou menos exposta. Mas está sempre lá, na palavra, no silêncio, ou no silêncio da palavra. Acho, por exemplo, que o que você chamou de “preocupação intencional” em demonstrar uma ideologia pode estar, muitas vezes, melhor relacionada a uma escolha formal do que conteudística. Embora, para mim, o bom poema seja aquele em que essa separação forma-fundo é o menos visível possível, ou melhor, aquele em que essa divisão nem exista. E de resto não acho que foi uma “expansão de consciência poética”, mas uma mudança de opção, uma escolha estética, porque o tema, também, compõe a forma.

 

DA – O poeta deve ter um compromisso com o seu tempo?

JORGE AUGUSTO – Eu não acredito numa função trans-histórica do poeta. Não acredito que o poeta, ou a poesia, tenham uma função. Estas perspectivas acionam uma espécie de metafísica que não agencia nenhuma potência humana. Porém, acredito no papel histórico do (a) poeta. E são duas coisas completamente diferentes. O papel que o poeta deve desempenhar em seu tempo não tem nada a ver com uma função da poesia em si, transcendental e atemporal.  Pelo contrário, diz respeito ao uso que o poeta empresta à poesia em determinado contexto histórico. Esse papel não tem necessariamente nada a ver com o desejo do poeta, nem do seu tempo, mas com o que é necessário a esse tempo. Por isso, a poesia deve ser pensada numa relação ético-estética. A forma não é meramente uma construção estética, mas ética.  Nesse sentido, inverte-se aquela equação famosa em que o “grande” (assim entre aspas) poeta é aquele que ultrapassa sua época e está além do seu tempo, o bom poeta passa a ser aquele que entende que tipo de poesia o seu tempo precisa propor, que tipo de violência sobre a linguagem é necessária àquele tempo. Tanto a revista Noigandres quanto os cadernos negros foram, como projetos literários, igualmente importantes à literatura brasileira, em suas dimensões éticas e estéticas. É por causa disso, desse papel histórico que a poesia pode ter, que hoje é tão complicado pensarmos numa vanguarda ou numa estética que represente uma coletividade grande, de forma hegemônica, porque a sociedade globalizada é multitemporal e, consequentemente, com diversas necessidades diferentes, mesmo dentro de um único território político, como é o caso do Brasil. Assim, a poesia ganha vários, múltiplos papeis, num mesmo espaço-tempo.

 

DA – Há quem defina que a literatura não precisa ser dividida em frentes de atuação, sobretudo no que se refere às vozes pertencentes às minorias, tais como negros, gays, mulheres etc. Qual olhar você lança sobre esse tema, tendo em vista que a literatura é um importante instrumento de expressão identitária?

JORGE AUGUSTO – Essa questão carrega para mim uma série de falsas tensões. Por exemplo, é comum ouvir algum crítico ou “estudioso” da literatura perguntar: “por que chamar de “literatura negra”, ou de “literatura feminina” se a literatura é universal? Adjetivar a literatura é restringi-la e diminuí-la”. Essa fala, mil vezes dita e repetida nos mais diferentes círculos de conversa sobre literatura, é exaustivamente cansativa. Esse tipo de argumento mostra, ou uma ignorância do tema, ou um mau-caratismo, porque se tem algo óbvio na literatura, é que ela sempre foi adjetivada. Chamar uma literatura de inglesa, francesa ou alemã não é adjetivá-la? Chamar uma literatura de ocidental, não é adjetivá-la? Quantos livros de história da literatura ocidental (Europa, claro) nós víamos pelas prateleiras das livrarias? O que é necessário compreender é que essa adjetivação era também identitária, pois remetia, em grande parte, a relações entre os textos e a nação, ou língua e nação, ou texto e língua. É nesse sentido que alguns críticos chamam (ou chamavam) de literatura inglesa tudo que foi escrito em inglês, e que cada nação tomava para si um conjunto de textos e adjetivava. Ora, o que aconteceu nas últimas décadas foi uma reorganização, uma reorientação das construções discursivas sobre a identidade. Uma série de formações discursivas que viviam obliteradas sob as metanarrativas nacionalistas e marxistas ganharam novo protagonismo com o fim da esperança (pelo menos por agora) em uma sociedade não capitalista. Uma nova série de sociabilidades vai ganhando fôlego e politizando suas demandas e subjetividades, e, claro, essas sociabilidades engolidas historicamente pelas narrativas nacionais totalizantes precisam agora construir-se histórica e discursivamente como as nações se construíram. E para isso usam a literatura, porque, como todos sabemos, identidade é construção de linguagem. Portanto, não há absolutamente nada que diferencie, metodologicamente, chamar uma literatura de chilena, ou de negro-brasileira, os mecanismos discursivos de construção dessas adjetivações são os mesmos.

Outro argumento, um pouco mais respeitoso, mas ainda assim muito frágil, é a ideia de que, para chamarmos uma literatura de “feminina”, por exemplo, ela teria que ter necessariamente uma inovação formal que a diferenciasse das demais literaturas que a rodeiam com outros adjetivos pátrios. Essa proposição tem equívocos. Um deles é o de que não foi uma característica estética determinante quem fez com que as literaturas nacionais ganhassem seus adjetivos. Se não, poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Castro Alves e tantos outros não seriam considerados literatura brasileira. Mesmo nosso modernismo assinalava no plano formal vários diálogos com as vanguardas europeias, como qualquer estudante sabe. É preciso compreender coisas muito simples, como o fato de que as revoluções formais que ocorrem na literatura, como Modernismo, Concretismo, Romantismo, agenciam conjuntos de textos. Já as adjetivações literárias como literatura brasileira, literatura feminina, literatura russa, literatura homoafetiva, agenciam coletividades de sujeitos. São coisas bem diferentes, mesmo podendo eventualmente misturar-se, num determinado contexto histórico, mas que são independentes umas das outras, pois uma diz respeito a como se produz, e a outra, a quem produz.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Como você observa a dinâmica da construção das identidades no contexto digital, mais precisamente no que diz respeito às novas vozes autorais que publicam seus escritos em revistas digitais?

JORGE AUGUSTO – Acho que não sei responder esta pergunta, mas gosto de especular. Primeiro, acho que quando pensamos na produção de identidades no contexto digital, partindo da escrita, e aí acho quase impossível limitar a noção de escrita a texto, não temos como restringir esses autores ao contexto de publicação em revistas digitais. Antes, a ideia, para mim, seria pensar esse autor desde o post no facebook até o poema que sai no livro, que em muitos casos é o mesmo. Nesse sentido, não consigo pensar em outra possibilidade senão de chamar performance isso que você chamou de “construção identitária”. Essa performance diz respeito diretamente à relação entre autor e leitor, pois a internet e suas possibilidades de conexão e publicação possibilitaram um circuito de afetos novos ao poeta. O poeta e a poesia, como sabemos, são os patinhos feios das linguagens artísticas na indústria cultural de massa. O poeta é o mais barato, o que põe em circuito menor circulação de capital, e, por isso, não goza das mesmas projeções de publicidade que outros artistas. O poeta e sua obra estão quase sempre restritos ao próprio campo literário. Porém, as possibilidades de interação propiciadas pela internet abrem um novo circuito de circulação dessas obras e poetas que independe de acesso direto aos grandes veículos de divulgação massiva. E o mais perto que o poeta chega de ser pop é ter uma grande quantidade de seguidores nas redes sociais. O ápice é virar letrista de músicos famosos. Até aí o que há nessa presença do poeta no contexto digital são aspectos positivos: divulgação de sua obra e interação com o público, facilidade de acesso aos poemas e poetas, construção de uma rede de contatos e discussão entre autores, público e crítica etc.

Mas, a partir daí, o que nos interessa pensar é: que efeitos esse contato íntimo com o leitor causa na identidade, na performance do poeta enquanto poeta? E estamos diante de um fato: poeta nenhum escreve um poema por dia. Entramos aí talvez num jogo meio esquizofrênico, mas muito comum nas redes sociais, que é um trabalho de manutenção dos leitores, que só pode ser feito para além do texto literário. Assim, piadas, fotos, opiniões sobre tudo e qualquer coisa, interação contínua, etc., compõem o quadro de uma performance que não é mais, em muitos casos, de um poeta, ou escritor, mas simplesmente de uma pessoa pública.  A poesia, em alguns casos, vai, pouco a pouco, ficando em segundo plano. Isso é muito mais comum do que parece. Um poeta muito pop não é necessariamente um poeta lido, embora isso possa tranquilamente acontecer.  Em suma, o perigo nessa relação performática que atravessa a visibilidade do escritor e sua obra, expondo-os ao contato direto e cotidiano com o leitor, é tudo acabar num jogo de espelho narcísico. O que a nossa época menos precisa.

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

JORGE AUGUSTO – O que eu não endosso na pós-modernidade é seu funcionamento como sinônimo de contemporâneo, como se o “pós-moderno fosse o contemporâneo”, isso é visto muito em um senso comum, mas também em discussões acadêmicas com pouco esforço de pesquisa. A pós-modernidade é uma nomenclatura que remete a uma proposta epistemológica, comumente filiada ao pós-estruturalismo francês, mas não apenas, que traz no campo da teoria um questionamento e uma ruptura com uma série de propostas epistêmicas que marcaram o pensamento científico até metade do século passado. Mas é apenas uma das propostas vigentes, pois temos a pós-colonialidade, a decolonialidade, o feminismo-negro, entre outras, todas propostas epistêmicas de grande fôlego e que compõem o cenário contemporâneo na produção de conhecimento. Portanto, me incomoda, primeiro, o uso do termo pós-moderno como sinônimo de contemporâneo, o que oblitera, esconde, todas as outras propostas de debate. Segundo, o pós-moderno é marcado por uma “politização da subjetividade”, de uma maneira tal que a individuação de grupos e sujeitos, suas demandas e projetos, passam a ser construídas a partir de pontos de vista específicos no plano histórico, social e político, o que me parece correto, e o é, até a página três. Há nisso, nessa arquitetura que se criou para combater a desigualdade, que é a justa luta pela autorrepresentação e pelo poder, uma esquina que em certa medida a reforça. E essa afirmação é um tanto polêmica, e é justo que seja, mas tentarei explicar. À medida que a micropolítica ocupa o lugar da metanarrativa marxista e os grupos minoritários agenciam suas próprias demandas, a política ganha uma nova potência transformadora que, vimos, deu muitos frutos positivos, nos planos políticos, epistêmicos e subjetivos. Mas eu acredito que esses frutos positivos podem ser, agora, potencializados, se restituirmos a esses discursos minoritários o desejo pela emancipação social, num plano coletivo. E não, isso não pede, em nenhuma instância, a volta da metanarrativa marxista, nem o império da superestrutura, nem o determinismo de classe. Era impossível continuar pensando a partir do marxismo, e tudo o que se fez depois disso mostra que foi uma mudança necessária, porém, igualmente acredito que pensar com o marxismo ainda pode ser útil. Então, pensar a partir de, e pensar com, é muito diferente. Creio que nossa apatia no cenário político contemporâneo, no Brasil, tem como um dos motivos, a falta de conexão, de costura entre as demandas políticas que os grupos minoritários agenciam. Temos, enquanto minorias, muita coisa incomum, mas também, em comum, todos sabemos. A fase de ruptura radical de construção discursiva da singularidade foi e tem sido fundamental. Agora creio que tecer uma rede de demandas comuns é, também, estratégico e potente no nosso atual cenário. A luta contra a violência cometida contra a mulher negra, contra sua solidão, não é apartada da luta contra o genocídio dos jovens negros nas periferias brasileiras, e ambas estão ligadas de forma mais ampla ao completo abandono da educação pública nas periferias do Brasil. O que precisamos hoje é aprender a costurar as demandas sem tirar força e singularidade de nenhuma delas. Esse é o desafio do intelectual hoje. Portanto, paradoxalmente, há uma pretensa universalização do plano epistêmico, operada pela sigla pós-moderno, que me desagrada, e uma fragmentação no plano político, da qual tenho ressalvas.

 

DA – Pensando na sua atuação à frente de uma editora como a Organismo, quais desafios surgem com mais evidência quando se trata de disseminar a produção literária no contexto de uma iniciativa independente?  

JORGE AUGUSTO – As dificuldades são muitas. Uma editora pequena tem muitos desafios. Publicar é caro, distribuir também. Os serviços, se você quiser fazer um trabalho de destaque, também são caros. Enfim, do ponto de vista financeiro, às vezes parece inexequível. No caso da Organismo Editora, o desafio é ainda maior, pois, em nossa primeira coleção “novos autores”, publicamos apenas autores inéditos, ou seja, que teoricamente ainda estão construindo um público, portanto, sem grandes promessas de vendas; e também, essa coleção publica apenas poetas e, em sua grande parte, os poetas não vendem muitos livros; por fim,  trabalhamos com uma proposta estética muito específica, pois o projeto da Organismo é pensar o livro como um objeto que produza signos e sentidos, que dialogue com os poemas, o livro como agenciamento de sentidos. Assim, nessa coleção tudo está relacionado no livro, fonte, cor, corte, poemas etc. Buscamos mitigar no maior grau possível a dicotomia forma-fundo. A proposta é pensar o livro, enquanto objeto, como organismo vivo, que não é apenas um repositório de sentidos, como uma caixa de guardar poemas, mas que está sempre em interação com o leitor e os poemas, produzindo esses sentidos. Essa característica nos isola no mercado, além de encarecer, muitas vezes, o preço de publicação do livro. A maior distribuidora de livros da Bahia se negou a distribuir nossos livros com o seguinte argumento: “da próxima vez, faça algo mais simples, essas coisas não vendem”. E olhe que eles cobram de 50 a 60 por cento pela distribuição.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Temos experimentado no Brasil um crescente número de editoras pequenas que preferem elas mesmas distribuírem seus livros e, assim, cuidarem de todo o processo de comercialização. Há alguma outra saída nessa tentativa de sobrevivência editorial? 

JORGE AUGUSTO – Tenho pouca experiência nisso, quase nenhuma, mas penso que temos algumas poucas alternativas, como intensificar cada vez mais as vendas pela internet, coisa que já acontece, essas editoras alternativas produzirem feiras em conjunto (também já é feito, mas pode ser intensificado). As editoras podem visibilizar catálogos em parceria, em seus sites, e cada vez mais os lançamentos terem uma importância maior, pois é o momento no qual as pequenas editoras conseguem escoar as publicações. Uma coisa que eu acho que deve ser feita é abrir nos grandes eventos espaço para as editoras menores. Sem esse espaço para publicização dos livros, fica muito difícil que eles sejam vendidos. Esse estado de coisas cria um fenômeno que me desagrada, e que remete a uma questão anterior que você colocou, pois, somam-se dois fatores: a histórica venda comedida dos poetas, a dificuldade de distribuição das pequenas editoras, junto com a exclusão dos grandes eventos. Com tudo isso somado, os poetas acabam tendo que virar promoters de sua própria obra, o que às vezes até funciona bem, outras nos lega uma série de constrangimentos horríveis, como a onda de autoelogio e autopublicação que vemos em redes sociais.

 

DA – No quesito da criação, como você avalia o novo panorama literário nacional?

JORGE AUGUSTO – O panorama atual da literatura brasileira tem uma peculiaridade histórica. Ele é, pela primeira vez, rizomático. E acho que a palavra é justamente essa, mesmo caindo num risco de parecer muito teórico. Acho que a ideia de múltiplo, por exemplo, não resolve. É rizomático no sentido de que são muitas linhas de fuga se cruzando e seguindo. Nessas quase duas décadas de século XXI, vimos a literatura brasileira ganhar diversas revistas importantes na internet, vimos as publicações de poesia assumirem uma crescente, sobretudo a partir das novas editoras. Mas alguns eventos se destacam, como a coleção de poetas lançados pelo selo Sete Letras, o grupo de poetas (até onde sei) majoritariamente do eixo Rio-SP que se formou em torno da revista Inimigo Rumor. Concomitantemente, tivemos um movimento que se forjou no contorno da revista Zunái, de Claudio Daniel, salvo engano chamava Neobarroco. E até aí o que tínhamos ainda era uma geração que buscava se debater na sombra do concretismo que, de algum modo, buscava dar o fantasmagórico passo à frente, tão inscrito na teoria da poesia concreta. Quem se livrou relativamente dessa questão, sobretudo na sequência das publicações, foi o grupo da Modo de Usar, inclusive com produção crítica. Mas até aí havia ainda uma multiplicidade que se irradiava a partir de uma linha de fuga do rizoma mais ligada à tradição. Há nesses grupos, na minha modesta opinião, um diálogo com essa tradição da literatura brasileira oficial, seja para negar ou buscar o passo à frente. Nas outras linhas de fuga do rizoma, acho que as expressões produzidas pelas estéticas minoritárias vêm gerar desde o século passado um conjunto de fortes cenas. Podemos tomar os Cadernos Negros como marco, chegando hoje à fortíssima e consistente literatura negra feminina, mas passando por uma literatura feminina, indígena, periférica, homoafetiva, ou seja, uma série de linhas de fuga vão se criando como tema diverso e como forma. Outros núcleos vão se formando como a editora Organismo e a Ogum’s Toques, na Bahia, as Edições Cartoneiras, em Recife. As diferenças se multiplicam e seguem em linhas de fuga. Nesse cenário, a criação é diversa, e aí vem a grande questão: a diversidade é uma qualidade ética nem sempre acompanhada de força estética. Portanto, não basta ser um poema filiado às minorias, ou um poema que seja contra-hegemônico em relação à literatura oficial, nem muito menos um poema que se enquadre na tradição para que seja tomado como um “bom poema”. Haver uma ampliação gigante de formas e temas possíveis como literatura nos permite dizer que há muitos projetos estéticos diferentes, mas não implica dizer que tudo que se faz dentro dessa diferença tem a mesma potência ético-estética.  Isso parece óbvio, eu sei, mas não tem sido. Há todo um investimento teórico, de certa parte da academia e de parcela da crítica literária, para pensar esses novos corpus, e o próprio conceito de literatura, em seu sentido clássico, tem sido rasurado em muitas frentes. Desse modo, vejo o panorama da literatura nacional produtivo, diverso e muito positivo, em relação às obras produzidas, mas ainda em gestação em relação à crítica desse mesmo cenário, sobretudo em relação ao que é produzido fora do eixo Rio-SP. E ressalvamos que não se trata de uma cena acabada, na qual o múltiplo é dado como construído, há processos de mitose e meiose ainda em curso, há propostas de escritas se costurando, enquanto outras se bifurcam e seguem por si. Daí, a cena ser rizomática e não apenas múltipla, pois as multiplicidades ainda estão em pleno acontecimento.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

JORGE AUGUSTO – Creio que somos um país de subleitores, e que os leitores que temos são, em boa medida, subestimados. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Eu acredito que a equação normalmente acionada para falar de leitores no Brasil é essa: “os leitores são subestimados porque são subleitores, ou seja, leem mal, ou não gostam de ler”. Primeiro, é fundamental identificarmos o que essas pesquisas que apontam a não leitura consideram como leitura.

Um livro chamado Cultura Letrada, de Márcia Abreu, nos fornece insights valiosos sobre isso. Mostra, por exemplo, que nem todo tipo de livro é valorizado como leitura, nos processos educacionais.  Portanto, há um tipo de leitura que é cobrada, obviamente aquela que redunda ao cânone e suas adjacências. É inegável como a indústria do livro cresceu no Brasil nos últimos anos. Alguém lê os best sellers, lê os livros que são adaptados pelo cinema, porque eles vendem muito. As pessoas não compram para colocar na estante. Quando nós, nos processos educacionais mais básicos, desconsideramos uma série de leituras, de diversas vertentes (do quadrinho ao clássico) que os meninos fazem, estamos subestimando não apenas essas obras, mas, sobretudo, os leitores e, consequentemente, produzindo subleitores. E subleitores aqui está empregado no sentido de sujeitos que leem apenas o necessário para o desenrolar da vida cotidiana mais prática, que não acionam a leitura em suas potências construtivas, inventivas e subjetivas. Porque, se lá no início, no ensino básico e fundamental, tudo que você lê é desqualificado pelo projeto pedagógico, pelo livro didático e pelo professor, o que está sendo posto em xeque, mesmo que “involuntariamente”, não é a obra que você gosta de ler, é a própria prática de leitura.

 

DA – Quem é Jorge Augusto?

JORGE AUGUSTO – Dizer quem sou é um estorvo e um teatro. Digo quem estou, é o máximo que posso tentar. Estou há algum tempo um homem pesado, sinto como se carregasse meu próprio peso como um escombro. Como se arrastasse, passo a passo, meu corpo como um trambolho. Desesperançado, desiludido. Eu disse em versos: “minha mãe morreu hoje /todo esse tempo, sem por que nem pecado / sem deus ou diabo, sigo só:/ homem sem fé, mas culpado”. E não mudou ainda, isso resume esse hoje que sou.  Talvez haja certo momento, certa lucidez em que a solidão é inevitável e saber vivê-la é decisivo entre o choro e o riso. Eu devo estar, agora, nesse exercício. Acho que é um exercício de morrer para nascer de novo, como metáfora, como símbolo, acredito que tem potência nisso. O ruim é que nada quer morrer, nem a esperança, nem o passado, nem o amor, nem o cachorro, nem o corpo, tudo fica se arrastando, insistindo. O sofrimento vem muito dessa insistência em não acatar as mortes, das ordinárias às mais contundentes. O luto é tão necessário, para o sujeito quanto a luta. Mas é importante dizer que essa desilusão não é harmônica, nem apática, pois é esse homem consciente das mortes e da perenidade, justamente aquele que pode arriscar. Enfim, hoje sou um homem negro, sem esperança nem no amor, nem no país, nem no homem. Amanhã me pergunte de novo e, provavelmente, te direi outros poemas. Por enquanto, estou naquele um minuto de silêncio.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A carreira literária de Claudia Nina se ramifica em gênero e categoria. Desde sua estreia com o trabalho acadêmico sobre a ficção de Clarice Lispector, a jornalista e escritora carioca dá forma a uma obra heterogênea, composta por crônicas, contos, ensaios, perfis e romances, destinados tanto ao público adulto quanto ao infantil. “Amor de longe” marca, agora, seu debute na literatura para jovens. A trama é protagonizada por Clarice, uma menina com 13 anos que, por conta do trabalho do pai, tem de abandonar a vida no Rio de Janeiro e se mudar para Porto Alegre. Do não pertencimento à cidade fria, ela vai ter de se adaptar às novas amizades e aprender a lidar com o primeiro amor.

Em sua essência, é um romance de formação; porém, acima de tudo, um livro “pé no chão”. Num tempo em que o leitor infantojuvenil se mostra cada vez interessado num universo habitado por seres fantásticos e sobrenaturais, Claudia Nina trata dos dramas reais: das transformações físicas e emocionais que moldam a adolescência.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, a autora fala sobre o processo de construção do novo livro, suas referências, a ligação entre a personagem Clarice e a escritora Clarice Lispector, o mercado do livro infantojuvenil, e em como “Amor de longe” se encaixa num projeto mais amplo voltado para os jovens.

Além disso, comenta sobre a cena contemporânea brasileira, os eventos literários, o crescimento das pequenas editoras, e, na condição de crítica literária, dá opiniões firmes e interessantes sobre a ascensão de jovens autores e a participação das mulheres no meio literário. “Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo”, defende.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Seu livro mais recente, “Amor de longe”, é um romance adolescente. No mapa da literatura brasileira, autores clássicos já se aventuraram no gênero juvenil, contudo a impressão que fica é que tais livros não recebem o mesmo nível de consideração que os classificados como literatura adulta. Você percebe que há algum tipo de menosprezo, por parte da crítica especializada, para com os livros feitos para adolescentes? Que são vistos, invariavelmente, como um trunfo mercadológico?

CLAUDIA NINA – Temos que entender o que seja hoje “crítica especializada”. Não tenho visto espaço crítico no país, apenas a persistência de alguns leitores mais atentos que se debruçam sobre os títulos, são curiosos, querem conhecer de fato a produção contemporânea. E só. Algumas clareiras nos jornais se abrem, é verdade. Temos o Rascunho. Mas é tudo tão rarefeito no cenário geral… Não vejo onde uma literatura de formação possa se inserir neste contexto “crítico”. E, claro, tudo é colocado na mesma fornada. O que se escreve para o adolescente não é avaliado de maneira alguma. Me diz: qual crítico se propõe a abrir os parcos espaços críticos para falar do juvenil? Não vejo nenhum! “Amor de longe” é um trabalho de intertextualidade com Clarice Lispector, que dialoga abertamente com “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”. De certa forma, é um livro de formação. Isso acontece tanto do ponto de vista da formação emocional de uma menina dos 13 aos 14 anos, e todo o processo de transformação aí envolvido, como também de formação da leitura/escrita como aprendizagem. Sem abrir mão da linguagem envolvente, que precisa capturar esse leitor em busca de si mesmo. Repetir fórmulas de sucesso não é um erro. Apenas eu acho que o caminho não precisa excluir a necessidade de uma escuta mais atenta ao literário e às engrenagens da língua. É o que eu proponho. Espero que mais leitores como você, em sua luta tão bonita pelo literário, surjam com interesse e curiosidade por um trabalho como este.

DA – Diante disso, em algum momento do contato com a editora, você pensou em tirar esse rótulo de “juvenil” da obra? A leitura de o “Amor de longe” revela justamente o que disse: um romance de formação, como há muitos na literatura contemporânea, sem que estejam localizados numa categoria. Nesse caso, penso, é papel do leitor conviver com a história e, independente da idade, absorvê-la segundo o tempo concentrado no livro. Seja uma linguagem mais ou menos culta. E, por falar nisso, uma das coisas que me chamaram mais atenção no texto foi a linguagem. É uma narrativa em terceira pessoa, bastante informal, mas que, em nenhum momento, apela para um tom infantilizado. Durante o preparo, houve uma preocupação sua em falar com o adolescente, sem que soasse excessivamente como um texto escrito por um adolescente?

CLAUDIA NINA – Eu busquei uma voz interna para compor a Clarice capaz de dialogar com minha adolescência e ao mesmo tempo com os dias de hoje. Não queria parecer fora do tempo contemporâneo nem do meu próprio tempo. Foi bem difícil encontrar esta conciliação, pois venho de uma época sem celular nem tablets. As conquistas, as conversas e os medos eram confrontados olho no olho, palavra viva. “Amor de longe” não tem rótulo na capa. Tem a catalogação de juvenil imprescindível. É uma história para todas as idades. Para a família. Para qualquer tempo. Eu não conseguiria escrever um texto exclusivamente voltado para o adolescente assim como não conseguiria escrever um exclusivamente voltado para a criança. Não temos que limitar o vocabulário, embora às vezes seja necessário dosar o teor de complexidade da linguagem para não obscurecer nem afastar. Por isso é tão difícil escrever, são várias preocupações e detalhes que se deve ter em mente. Eu queria escrever um texto que pudesse me fazer lembrar da adolescente que eu fui diante das perplexidades que fizeram parte da minha vida em um tempo marcado pelas mudanças geográficas e emocionais. Acho que consegui! Gostei bastante do resultado.

DA – É muito interessante você abordar esse contraste de geração, pois também sou de uma época na qual o que fazia a cabeça dos adolescentes eram coisas como “Confissões de adolescente”, “Armação ilimitada”, entre outros. De uns tempos para cá, tudo se transformou de uma maneira radical. Os jovens preferem a distopia ao invés da utopia; o universo sobrenatural, fantasioso, ao invés dos problemas ordinários. E é exatamente nisso que seu livro toca: nas pequenas descobertas, nas mudanças, na confusão de sentimentos. Como então trabalhar com esses temas tão reais, para um público-leitor que prefere o escapismo das histórias de vampiros, de um mundo pós-apocalíptico?

CLAUDIA NINA – Eu não posso me limitar às limitações do tempo e de um suposto público-leitor como se este fosse uma entidade. Eu simplesmente escrevo. É claro que me preocupo em ter leitores. Mas não posso criar pensando em que tipo de leitor eu terei, pois não se faz boa literatura assim. Do contrário, eu repetiria fórmulas. Nada contra quem repita fórmulas. Mas eu não trabalho assim. Acho que todo bom livro encontra naturalmente seus leitores. Veja um exemplo. Meu primeiro romance, “Esquecer-te de mim”, publicado em 2011 pela Babel. A editora sumiu e fez os livros sumirem. Isso depois de eu ter tido um ótimo lançamento e excelentes resenhas. O tempo passou. E não é que agora recebo várias mensagens de leitores que acharam meu romance na Estante Virtual, compraram e me escreveram lindos recados! Um deles me dizia para eu nunca parar de escrever. Ora, quer alegria maior do que essa? Acho que a roda gira; ah, gira sim! Mas é preciso ter calma, paciência. Os leitores que eu quero não virão até mim como mágica. Eles virão um a um, e se acercarão de mim e da minha escrita. Tenho certeza disso. Já estão vindo. São leituras intensas, de gente que mergulha na palavra. É dessa gente que minha escrita se alimenta.

DA – Falando em leitores, há um outro público bem exigente, para o qual sua escrita se direciona, que é o infantil. São quatro livros, num período de quatro anos. O último, “A Repolheira”, conta, inclusive, com ilustrações da artista espanhola Raquel Díaz Reguera.  De onde nasceu a ideia de escrever para crianças, e como guiar o processo de criação de modo que o texto se harmonize com a imagem, garantindo relevância às palavras?

CLAUDIA NINA – O primeiro infantil surgiu de uma urgência e de um sonho. Eu cursava o Publishing Management na FGV. Precisava de um trabalho final. A única ideia era escrever – e tentar publicar – um livro. Eu já estava no processo de escrita do meu primeiro romance, mas não daria tempo de finalizá-lo. A solução me ocorreu depois de uma noite em que eu sonhei com a história inteira de “A barca dos feiosos”. Eu só fiz sentar e redigir. Foi um livro feito às pressas, por isso penso em editá-lo novamente. Cada infantil tem seu processo, cada história me acontece de uma forma diferente e inusitada. “Nina e a lamparina” surgiu de outra urgência: eu precisava falar de um problema familiar: o medo do escuro da minha filha menor. Foi muito importante ter abordado o tema que, embora pareça lugar comum, pode ser abordado de diversas formas. Tive grandes alegrias com este livro. A maior delas foi quando descobri que uma escola de Goiás trabalhou com a história em uma matéria de empreendedorismo! Eles focaram no conceito de coragem: se a gente acende o archote interior, capaz de iluminar nossos passos na escuridão, a claridade se agiganta e já não estamos mais no breu. Podemos fazer o que quisermos quando vemos nossos pés tocando o chão. Depois veio “A mansão”. Surgiu de uma viagem à Patagônia. Eu fiquei muito impactada com aquelas paisagens e fiquei imaginando o que poderia roubar aquela paz… Criar um conflito dentro de um cenário perfeito foi minha ideia. Fui abençoada por uma Lua gigante, quando descíamos a montanha de neve. Foi uma das cenas mais lindas da minha vida. Quis transformar tudo isso em livro. “A Repolheira” nasceu também de uma imagem. A personagem do título “me procurou”. Não sei explicar estas aproximações criativas. Mas o fato é que a imagem me veio e com ela toda a história. Escrevi em papel, a lápis, pois estava de férias e não tinha levado o computador. Há ainda várias histórias inéditas, uma delas “A coruja e o mondrongo”, de que gosto muito também. No caso de “A Repolheira”, a escolha mais do que feliz da ilustradora foi um achado do Facebook. Eu mandei a história para a Raquel e ela adorou. A editora abraçou a ideia, a história e a ilustradora. Não consigo imaginar “A Repolheira” (que faz uma brincadeira com A Borralheira) de outra forma. Mas acho que em todos os casos eu tive bons ilustradores. Esse casamento é fundamental. Acho que o autor tem um papel importante no sentido de ajudar a sinalizar um traço que combine com a história. Eu gosto de sugerir porque curto muito desenhos. Aliás, comecei desenhando antes de escrever. Mas depois abandonei por falta absoluta de talento. Minha filha hoje desenha maravilhosamente bem. Eu me vinguei nela.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Fico imaginando que suas filhas, que estão na mesma faixa etária que a de Clarice, a protagonista de “Amor de longe”, também foram fortes influências para o livro. Anteriormente, você mencionou um exercício de intertextualidade, porém, como visto na dedicatória, a realidade é também uma grande fonte de inspiração. A propósito, seu romance anterior “Paisagem de porcelana”, também toma emprestado muito de sua vivência na Holanda, para dar escopo ao seu enredo. Até que ponto, então, seu processo de escrita depende da observação do real, de escavar o terreno das memórias para que possa erguer os pilares da ficção? E, voltando à dedicatória, pode falar um pouco sobre esses amigos que a receberam em Porto Alegre e, como declara, fizeram sua adolescência um tempo mágico?

CLAUDIA NINA – Sempre me lembro de uma frase da Clarice Lispector que dizia que, mesmo se ela falasse sobre a produção de café, ou qualquer outro assunto distante do eu, ainda assim, ao final, ela perceberia que se delatou. Acho que nunca me afasto o suficiente de mim em nada do que escrevo… Porém, acredito que um dos elementos mais importantes da ficção seja o tempo. Sem o filtro do tempo escreveríamos imersos em uma emoção excessiva, daríamos voltas ao redor de nós como um escorpião encalacrado mordendo o próprio rabo. Precisamos da distância espacial e temporal a fim de que o vivido seja filtrado pela percepção de que nem tudo pode ou deve ser escrito. Em “Paisagem de porcelana”, recupero parte de uma experiência que vivi na Holanda, em fins dos anos 1990. Precisei de longos 16 anos até fazer a roda girar a ponto de surtar: torci o giro da ficção para fazer com que a personagem experimentasse situações muito mais complexas e agudas do que as que eu vivi. O tempo também foi igualmente importante para que a emoção não atrapalhasse. A personagem precisaria olhar os estragos de olhos lúcidos e sem autopiedade. Em “Amor de longe”, que de alguma forma dialoga com “Paisagem…”, pois também trabalha a questão da paisagem e da transformação da personagem no espírito dos cenários, eu igualmente me afastei do vivido (foram 30 anos) a fim de que pudesse resgatar a vivência de forma criativa: a ficção precisa ter as rédeas do texto e não o contrário; a vida não pode comandar; é preciso desobedecer ao vivido. Novamente: nem tudo se pode ou deve contar… Quanto às minhas filhas, elas não participaram tanto da escrita deste livro porque hoje elas estão com 11 e 12 anos. Eu demorei dois anos e meio para escrever, elas ainda eram pequenas. Acredito que o tempo de Clarice delas esteja começando a partir de agora.

 

DA – Outra relação muito forte entre “Paisagem de porcelana” e “Amor de longe” é a soberania do olhar feminino; um aspecto, por sinal, muito sensível em sua literatura. Recentemente, entrou em pauta uma discussão sobre a representação da mulher na literatura contemporânea; a maneira pela qual é retratada nos textos, a capacidade de uma autora tornar essa voz mais crível, pertinente. O quanto concorda com essas colocações? E até que ponto a condição de gênero e o fator moral têm relevância em sua escrita?

CLAUDIA NINA – O gênero faz toda a diferença e tem toda a relevância, pois a dor de Helena (protagonista de “Paisagem de porcelana”) é uma dor declinada no feminino. Não que não seja universal a ideia da subjugação, não é isso. Mas, da forma como eu retrato, ou seja, uma vítima massacrada por um amor, acredito que seja uma capacidade muito própria da mulher o de se deixar esfarelar. E isso não pode ser nenhum demérito da obra. Agora, é preciso que se ressalte outro aspecto que não tem a ver com o que estou falando: a linguagem. Eu não escrevo “como mulher”. Isso não. Aliás, a ideia de aproximar o delicado do feminino é pobre demais; aliás, a ideia de que um texto com o título “Paisagem de porcelana” seja obrigatoriamente delicado é também um embuste. Meu texto é muitas vezes cruel. Vivian Wyler dizia que eu escrevo com “raiva”. Se um homem cismar de me etiquetar como “feminino-delicado” antes de me ler – como se isso fosse um erro – eu perco leitores. Penso que os homens poderiam abrir mais a rodinha e tentar conhecer mais de perto os livros das autoras que ainda não são tão conhecidas, mas que estão aí construindo nosso contemporâneo.

DA – Esse é um assunto muito inquietante, portanto quero refleti-lo na história da personagem Helena. Como apontou, ela é refém de um amor que a condiciona a uma série de abusos psicológicos e físicos, contra os quais parece não ter força para lutar. Há poucos dias, tivemos um caso de repercussão nacional, que foi o assédio sexual cometido por um ator de novela contra uma figurinista. Isso expõe o machismo ainda reinante na sociedade brasileira, que certamente influencia no espaço dado às mulheres, repercutindo no mercado literário. Como analisa essa questão? Há machismo na literatura? E você, na sua carreira de jornalista e escritora, passou por algum momento de assédio?

CLAUDIA NINA – Ouso dizer que há machismo sim, embora os homens não aceitem este assunto. Não me diga que os homens leem com o mesmo entusiasmo os livros de mulheres e os livros de seus amigos homens porque isso não é verdade. Muitos – não estou generalizando – sequer abrem um livro de mulher, caso o título soe, digamos, “feminino” demais. Parece um absurdo dizer isso… Mas é absurdo mesmo. Eu sempre digo uma coisa: quando um homem escreve delicada e poeticamente, mesmo em prosa, como é o caso de um João Anzanello Carrascoza, por exemplo, isso é lindo e maravilhoso. O autor é celebrado – eu acendo uma vela para Carrascoza, pois ele é um dos meus favoritos, justamente por ele ter a coragem de escrever do jeito que sente. Porém, quando uma mulher escreve no mesmo diapasão, ela corre o risco de ser rotulada como lacrimejante ou mulherzinha demais… Isso é fato! Quem disser que não é verdade é porque tem culpa. A outra parte da sua pergunta é quanto o assédio. Quase todas as mulheres do mundo já sofreram algum tipo de assédio em suas carreiras. Eu já sofri na minha vida como jornalista. Mas encarei de frente, dizendo um redondo e sonoro “não”. Mesmo colocando o emprego em risco, o que, lamentavelmente, sempre ocorre quando não se aceita o jogo do dominador. O problema é quando o “não” bate e volta. E quando a vítima precisa desesperadamente do emprego e teme perdê-lo. Uma situação tão triste. Precisamos nos fortalecer de fato. Gosto muito do feminismo. Estou nesta luta e quero cada vez mais fazer parte dela.

DA – Mas acho que vale uma observação – ou, melhor, uma reflexão. Hoje, as principais agências literárias do Brasil são comandadas por mulheres. A maioria dos selos literários tem mulheres no cargo de editor principal. Muito se culpa do leitor, o último a ter contato com a obra e, por conseguinte, com a autora. Não seria, então, uma questão de analisar também o mercado por dentro? O quanto as editoras e as agências estão fazendo para projetar as mulheres na literatura? 

CLAUDIA NINA – Mas o machismo não é uma prerrogativa dos homens. Muitas mulheres também são machistas. Acredito que os espaços precisam ser ventilados como um todo. Vejamos os prêmios literários, as festas, os eventos… Será que existe paridade entre o número de homens e de mulheres? Não creio. Por que motivo isso ocorre é um mistério. Não entendo. E não acho que as editoras de um modo geral estejam trabalhando para que as mulheres na literatura tenham mais projeção. Acho que ainda não tomaram frente do assunto.

DA – Aproveitando que mencionou os eventos literários, há cerca de um mês você integrou a delegação de autores brasileiros que participaram do Printemps Littéraire Brésilien, festival literário que, em sua quarta edição, passou pela França, Bélgica, Espanha e Portugal. Da impressão das mesas, qual o interesse do estrangeiro pela nossa literatura? E como acontecimentos dessa natureza podem trazer benefícios para o mercado literário brasileiro de maneira geral?

CLAUDIA NINA – É um trabalho lento, de ativismo, como gosta de dizer o professor Leonardo Tonus, idealizador e organizador do Printemps. Há que se ter paciência e persistência. Nada se faz do dia para noite. Eu vejo alguns autores subirem do dia para a noite, mas logo depois, ao longo dos anos, desaparecerem. Geralmente por não conseguirem continuar escrevendo tão bem como prometiam. Prefiro uma caminhada que se faz lenta, mas progressivamente. Os eventos ajudam a espalhar nossa colheita que é a nossa voz, a nossa palavra. E, no confronto com o outro, de diferentes dicções, nossa escrita cresce, transforma-se. Tenho gostado cada vez mais desta movimentação. Ano passado, estive na Feira Internacional da Guatemala. Foi surpreendente. Um resumo de “A Repolheira” foi lido em espanhol, enquanto eu mesma fiz a leitura, em português, de Paisagem de porcelana. Tivemos uma audiência pequena, porém atenta, que, tenho certeza, saiu de alguma forma tocada por nós, pelo diferente que apresentamos, pois o conhecimento de literatura brasileira contemporânea deles é mínimo. Mas este mínimo é uma semente de conhecimento que precisa ser espalhada.

DA – A ascensão repentina de jovens autores é algo que também me incomoda. Muito menos pela literatura que estes privilegiados podem oferecer, mas por um time de outros autores bem melhores que acaba à sombra desse “sucesso”, justamente por não ter o holofote sobre suas cabeças. Numa resposta lá atrás, você mencionou a falta de espaço para a literatura nos veículos de comunicação, absolvendo o trabalho feito pelo Rascunho. Você escreve para o Rascunho e também assina uma coluna na revista Seleções sobre livros. O que tem visto na literatura feita hoje que lhe agrada e o que lhe desagrada?

CLAUDIA NINA – Muita coisa me agrada. Tenho curtido demais os autores contemporâneos, e é uma alegria quando encontro um autor, ainda desconhecido, mas bom. O que ocorre muitas vezes é a edição precária. Explico: na pressa em ser publicado (o que é perfeitamente compreensível), muitos autores publicam de qualquer jeito um texto que poderia ser editado. A figura do editor de verdade está em extinção. Há poucos que realmente trabalham o texto. A maioria apenas publica. O autor acha que está ótimo, já está pronto, que não tem para onde crescer. E sai se repetindo, dando voltas ao redor de suas limitações. Tenho procurado escrever livremente meus textos críticos, quase como se fossem crônicas literárias para expressar minhas impressões de leitura. Tanto no Rascunho como na Seleções, tenho espaço para isso, o que tem sido estimulante. Agora você me fala sobre aqueles que estão sob os holofotes. Bom para eles. Ou não. Espero que saibam continuar trabalhando para que permaneçam sendo cultuados. O que nem sempre ocorre. O que eu penso é que a gente deve seguir sempre. Escrever e escrever, pensar, participar. O que for nosso, será nosso. Eu tenho muito isso em mente. O espaço do outro – merecendo ele ou não, segundo meus critérios – é do outro. O que é meu ainda não tem nome, mas é o que desejo: o que é para mim, o meu espaço conquistado e merecido.

Claudia Nina / Foto: arquivo pessoal

DA – Você tocou na questão das publicações de baixa qualidade, que vai ao encontro de um assunto que gosto de trazer à baila em minhas conversas com autores. Também escrevo sobre livros e acompanho bem de perto o cenário da literatura contemporânea brasileira. O que vejo é uma avalanche de novos livros, muitas estreias, mas uma grande soma de textos que poderiam ser mais lapidados; ou, melhor ainda, que sequer fossem publicados, sendo o papel do editor aconselhar o jovem autor a ter paciência, trabalhar melhor a obra, amadurecer. Isso me remete a uma questão pontual: o aumento das editoras. Muito se fala do quanto é importante para a democratização da literatura, no entanto pode ser também uma forma de jogar no mercado justamente livros sem o devido cuidado de edição, não acha? Qual sua opinião sobre isso?

CLAUDIA NINA – Tenho uma opinião simples quanto a isso. Penso que muitos escritores ávidos em se tornarem escritores se esquecem de que precisam ler. Formar uma bagagem de leitura (o que não tem a ver com a idade, pois muitos jovens são mais leitores do que escritores mais velhos) é fundamental antes de começar. Parece óbvio, e é. Muitos se lançam nas oficinas de escrita (não sou contra nada), mas se esquecem do trabalho individual de carpintaria literária que passa, muito antes, pela leitura. E não só dos clássicos. Acho importante que se conheça o que nossos pares estão fazendo na contemporaneidade – que caminhos percorrem, quais são suas escolhas linguísticas, os temas, as recusas. Do contrário, continuarão achando que inventaram a roda e que escrevem muito bem, quando não é verdade.

DA – Você consegue traçar um paralelo entre esse desmerecimento da leitura e a chegada das plataformas virtuais; a possibilidade de qualquer um escrever o que bem entender, sem qualquer critério, e se autopublicar? Ou é um processo mais complexo, que passa invariavelmente pela educação? Fazendo uma ponte com o público do seu novo livro, sou (e acredito que você também) de uma época em que os escritores eram figuras quase sagradas, mestres das letras, seres inalcançáveis, já velhos ou falecidos. Hoje temos autores tão ou mais jovens que os próprios leitores. Não seria um momento de se (re)pensar o que realmente é literatura?

CLAUDIA NINA – Não sou nostálgica. E gosto muito do contemporâneo. Acho que não precisamos repensar o que seja literatura. Literatura é o que fica, o que permanece. Tudo aquilo que não sobrevive a si mesmo não é literário; é apenas um risco. Um riscado no céu. Passa e depois ninguém ouve falar. Quanto aos novos espaços – não tão novos assim – que sejam bem-vindos. Que mais pessoas escrevam, leiam e falem de literatura. Outro dia, um blogueiro me procurou. Ele faz um trabalho bem bonito, mas estava todo cheio de receio por não ser jornalista. Mas aquele rapaz bem jovem ainda se interessou pelo meu livro, quis saber sobre ele, escreveu sobre ele e multiplicou a minha palavra. Quantas pessoas ele conseguiu alcançar, quantos futuros leitores que começam lendo os blogs e depois vão partir para leituras maiores? Não tenho nenhum preconceito, pelo contrário. O que eu sempre digo: não temos outra alternativa a não ser termos esperança. E mais: adoro a ideia de o escritor não ser mais sagrado. Sagrada é a vida sobre a qual falamos, escrevemos e pensamos.

 

DA – A Claudia Nina, na idade da personagem Clarice, consegue olhar para a Claudia Nina de hoje e se convencer de que valeu a pena se dedicar à escrita?

CLAUDIA NINA – Linda pergunta. Acho que a Clarice gostaria de me conhecer, pois compartilhamos os mesmos sonhos de amor às paisagens e à palavra. Nós nos intertocamos, assim como Macabéa e Rodrigo SM em “A hora da estrela”. Somos muitas vezes uma só, multiplicadas em nossos espelhos, fechadas em nossos quartos ou dedilhando nossos textos. A Claudia Nina de hoje ainda é a Clarice na medida em que o tempo é uma invenção dos relógios. Ao escrever Amor de longe, percebi que as paixões que me moviam aos 14 anos são as mesmas que me movem hoje: tenho sede de mundo, de literatura, de conhecer pessoas e cenários. E também uma certa inocência em acreditar que a vida é linda e que tudo vai sempre dar certo. Um dia. E um dia não é nunca.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Floriano Martins

A imagem que nos aterra a existência, que se torna um testamento usual, um versículo sempre na ponta da língua, cobra hoje uma tarifa existencial que nos limita a própria reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser. Somos viciados em uma demanda reiterativa. Algo nos impede de experimentar um mundo outro sob ou sobre a capa de uma realidade averbada pela crença na imutabilidade da vida. Ora, mas a vida é tudo menos imutável. Mesmo no plano sagaz das religiões a vida é o preço, a súplica, a tormenta, o vislumbre, o apogeu, a dádiva, e não é possível pensar em nenhum desses atributos como um álibi inquestionável que não permite à espécie humana mudar sequer de postura na cadeira em que presta depoimento sobre sua existência. A fotografia é uma das mais complexas faturas da criação artística, a começar pela resistência da arte entendê-la como sua cúmplice. A beleza é outro aspecto frequentemente confrontado pela incredulidade em que o gesto humano seja tudo menos apenas uma reação brutal à diferença. Leila Ferraz é uma poeta que se distingue entre seus pares pela percepção que possui das relações entre o criador e sua obsessão. Alheia às formatações de gênero, é poeta, ensaísta, fotógrafa, desenhista, foi uma das organizadoras da Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, anos 1960. Aqui dialogamos sobre o ambiente da fotografia, ou melhor, sobre o espírito da imagem. E o diálogo se faz ilustrar por algumas de suas fotografias.

Leila Ferraz / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando começaste a fotografar lidavas com o mundo analógico. Tempos depois, quando retomas, já está em curso pleno o mundo digital. Do ponto de vista estético, como tens lidado com a passagem de uma técnica para outra?

LEILA FERRAZ – Sou uma fotógrafa analógica assumida. Esse foi o meu mundo durante toda minha vida. Tudo o que eu queria, tinha que pensar, analisar, testar, me apaixonar e me envolver de tal forma visceral que o mundo digital foi um tapa na cara. Veja abaixo esta foto de 1971 – tudo era feito no olho e nas mãos. Envolvia cheiros, ácidos, estudos e a conquista de um tempo fascinante no qual eu me perdia. Mas era um trabalho meu. Como quem cava fundo cada réstia de luz, penumbra ou escuridão. Um processo de imenso prazer. E buscas e descobertas. Desde criança, este mundo que peguei nas mãos quando as reproduções ainda eram feitas em placas de vidro. Desde quando bem pequena, descobria as minhas origens folheando sem nunca me cansar os álbuns de família. Com fotos de bem mais de 150 anos. Como medir, lidar, conquistar o que nasceu comigo? Eu ainda sou analógica. Atualmente, os recursos digitais nos proporcionam tudo o que queremos. Praticamente na hora. São milhares de opções imediatas. Existe, sim, o fator surpresa. Porque num toque de dedo ou criamos o que desejávamos ou o que nós desejávamos já vem pronto. Eu tinha um estúdio fotográfico completo. Com salas, químicas, bacias, ampliadores, Hasselblad, Leica, Roller, iluminação e tudo o mais. Atualmente, com uma máquina, programas e aplicativos consigo o que conseguia e mais. Em termos estéticos, o método analógico me dava mais prazer porque era eu quem o criava. No digital, posso ir além. Mas nunca sozinha e sim com uma legião de tecnologia me acompanhando. Talvez cheguemos aos mesmos lugares, mas sem os mesmos prazeres. Digitalmente, esses valores são predeterminados. Nossa interferência e interação são calibradas entre o cérebro e o olho – modo único de cada ser olhar e fotografar.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Curiosamente ilustras a tua resposta com duas fotos em preto & branco, o que lembra certa rejeição da cor em muitos fotógrafos. Há uma espécie de resplendor excessivo na cor que impede o olhar de decifrar meandros mais íntimos da imagem?

LEILA FERRAZ – De certa forma, sim. A cor é fascinante, porém ela nos excede, quando apenas cor. Raros são os fotógrafos que sabem dar às cores suas temperaturas exatas. A cor mantém estreita relação com a temperatura, com a hora. O calor de cada cor tem algumas regras áureas que aprendemos e exercemos na medida em que fotografamos analogicamente.

DA – E como o acaso dimensiona o espectro final da imagem fotografada?

LEILA FERRAZ – O acaso é o orgasmo que temos. Quando ele acontece, gozamos. Se vamos ou não repeti-lo e nos tornarmos amantes é a proposta misteriosa inerente ao próprio acaso.

DA – Bom, recordo certo entendimento de que a fotografia aprisiona a alma da gente.

LEILA FERRAZ – A isso Roland Barthes (com quem concordo) chama de noema fotográfica. O momento decisivo, único, raro, de Cartier Bresson, que perpetua toda a essência estética do ser ou da coisa da fotografia. Ou da coisa fotografada. Aquilo que é próprio e unicamente possível naquele instante.

Foto: Leila Ferraz

DA – Salvador Dalí via na fotografia “o veículo mais seguro da poesia e o processo mais ágil para perceber as mais delicadas drenagens entre a realidade e a surrealidade”.

LEILA FERRAZ – Veja a insegurança dessa frase. Sua fragilidade. Ela precisa de um mecanismo que justifique um processo contínuo no tempo. Não concordo.

DA – Talvez venha do fato de que o Dalí, ainda em 1929, quando afirmou tal coisa, pensava na fotografia apenas como o registro de uma cena, o que ele próprio chamava de catálogo “de imagens fragmentárias que dão lugar a um total conhecimento dramático”…

LEILA FERRAZ – Sim, é possível. A fotografia como registro foi e ainda é, infelizmente, entendida dessa forma. Quando, na verdade, essa é apenas uma de suas aptidões enquanto manifestação artística.

DA – Quais os caminhos estéticos que a utilização da fotografia abre para a tua concepção criativa como um todo?

LEILA FERRAZ – Caminhos estéticos são para mim como palavras autológicas ou heterológicas. Para segui-los é preciso estar com os sentidos em uníssono. Suspensos. Minha concepção criativa, tanto no poema quanto na fotografia, por exemplo, é minha expressão de ser. Única. Soma de diversos processos raros. Nasci com essa capacidade de ser intuitiva. Para mim, o domínio da técnica é uma escolha fortuita. Lúdica. Feminina. Inexplicável. É uma sensação de concretude e seus fantasmas invisíveis. Há um momento harmônico que surge instantaneamente quando a coisa da arte se expressa em si mesma.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Como lidas com temas e formas ao definir recortes e justaposições em tua criação fotográfica?

LEILA FERRAZ – Tenho uma paleta de cores naturais e cambiantes que me cercam e me abrangem. Posso dizer que o mundo que me cerca está organizado em matrizes pré-determinadas e que se modificam a cada instante. Criando, assim, uma relação de movimento contínuo. Meu poder de escolha de temas é um processo interior – que pode ser aleatório ou determinado por um desejo. Sem dúvida, aquilo que considero como belo é o meu ponto de partida. Seja uma paisagem, por exemplo, ou algo estático. Contudo, a minha interferência permite que eu simule diversas composições de formas e cromáticas, até que me bastem. Até que eu chegue ao meu noema – no sentido que relatei acima. Nesse sentido a manipulação digital me proporciona a capacidade de transcender à fotografia, recriando cenários, figuras ou abstrações num cenário surpreendente e inédito. Por vezes inesperado em termos de justaposições ou recortes. Atualmente, já consigo controlar ou dominar as possibilidades do mundo digital para obter exatamente o que desejo, como resultado. Porém, a surpresa é sempre instigante e muitas vezes conflitante.

DA – Quando preparas uma cena para fotografar, lidas com os truques de sua figuração. Trata-se, como em toda criação, de atuar no limite de uma falsificação. Nesse tablado, como se relacionam a imaginação e o instinto de imitação? Paul Éluard dizia que “a imaginação não mente nunca, pois ela nunca se equivoca”.

LEILA FERRAZ – Em diversas ocasiões eu preparei a cena que imaginara. Estas duas: a primeira foto é a do meu próprio umbigo. E resolvi utilizar um recurso digital para lhe conferir uma “história feminina”, por assim dizer. Já na segunda imagem, acrescentei vários outros recursos digitais e desarranjos para lhe conferir movimento. O movimento de um veleiro chamado NOTURNO. Com isso vou além de minha intenção original. Passo a acrescentar o elemento de Thalassa – também próprio do universo feminino. E mais – ao deslocar o eixo da imagem, surge o movimento. E a imagem criada torna-se única e poética. Há outro caso em que para obter um resultado imaginado, tive que interferir várias vezes na paisagem. Queria fotografar um homem à noite, com a lua por detrás da Ilha Bela, e que as ondas do mar preenchessem o corpo do modelo. Processo que demorou muito tempo, por se tratar de uma sobreposição sobre uma mesma película que já havia fotografado a paisagem com o modelo. Após alguns minutos, pedi para o modelo sair e então as ondas do mar invadiram, também, o espaço de seu corpo. E fui além. Na gráfica, além das cores básicas, acrescentei a impressão de mais uma cor, o ouro, formado pela passagem de uma bicicleta. Tudo isso foi feito analogicamente, com uma Hasselblad e passagem de luz sobre um papel virgem, em câmara escura. Foram vários fotolitos até chegar ao resultado que eu desejava. Vários dias e um processo caro. Com as facilidades do mundo digital, isso seria feito muito rapidamente. Talvez com um resultado final diferente. Porém controlável. Há mais exemplos. Centenas deles. Nesses casos, a imaginação se transforma em realidade. Isso é possível, sim.

Foto: Leila Ferraz

DA – Entendes que a web permite hoje um instrumento valioso de trabalho para a criação artística?

LEILA FERRAZ – Essa tecnologia, encontrada à disposição de qualquer pessoa, me proporcionou novas formas de expressão, de comunicação e transformação da realidade. É possível interferir em qualquer imagem. Multiplicá-la, replicá-la e movimentá-la através de qualquer espaço ou base. Misturá-la em qualquer meio e adicionar inusitadas linguagens. Através dos meios digitais, o comportamento da imagem fotográfica, às vezes de uma mesma imagem, conquista simbologias inéditas. Crio um novo vocabulário emocional a ser decifrado.

DA – Quando o fotógrafo lida com o modelo vivo, desperta certamente nele um instinto de espetacularização. Sendo o modelo objetual, como se realiza essa teatralização dos sentidos?

LEILA FERRAZ – Creio que lidamos com a metafísica quando falamos de fotografia e todos os casamentos possíveis e impossíveis que se realizam entre tecnologia e processos artesanais.

DA – Esquecemos algo?

LEILA FERRAZ – Posso dizer que o processo digital de cores e mesmo de nuances monocromáticas me é muito valioso. Sem dúvida, todo esse processo que atualmente me fascina, é altamente tecnológico, preciso e ao mesmo tempo cambiante, de acordo com o resultado que desejo obter ou que me surpreenda quando atinjo um ponto que para mim é a manifestação da vontade de nominar o incontrolável, porém “ordenado”.

Foto: Leila Ferraz

TRÊS POEMAS INÉDITOS DE LEILA FERRAZ

 

Ossuário de fontes

 

Esgotei minha última saliva.
Minha umidade esvaiu-se em leite de amêndoas.
Não há lágrimas descendo as escadas.
Estou estranha, tão estranha, e não me basto.
Pouco sei desta mulher que nasce e renasce a cada manhã,
e não se põe jamais, porque a ela pertencem as linhas da vida
que unem as artes e os manifestos.
Esta tresloucada fêmea ensandecida capaz de desnortear o mais sério dos eruditos.
Que depoimento é este que tanto queres?
Para mim se assemelha a uma equação da própria física que ainda nem descoberta foi.
Um depoimento afetivo de memórias juradas ao esquecimento.
Sim, reunirei minhas últimas forças e dormirei com os protagonistas de minhas lembranças.
Com ou sem as suas próprias naturezas devastadas.

 

 

 

***

 

 

 
As luvas da raposa

 
Hoje a liberdade se esconde
no cache-sexe de Adão e Eva.
Procuro em mim o Andrógino Primordial.
Meus desejos se tornaram anjos persecutórios.
E enlouqueço enquanto refaço meu corpo na praia da Olaria.
Tenho todos os elementos da loucura.
Agora fotografados.
Quanta beleza na boca de Narciso!
Quanta verdade revela um espelho.
Já não posso te esperar.
Serei do primeiro marinheiro que aportar aos meus pés.

 

 

 

***

 

 

 

Fotografia noturna

 
Uma paranoia engole nossas memórias.
Cada tecla tocada emite um falsete nas nuvens.
Quem colherá as imagens secretas que gerei?
Quem se esconderá na concretude de nossas palavras,
Onde se ocultam meus gestos eternos cor de prata.
Nada sincero ou palpável.
Toda criação espalhada pelo universo.
Planetas adversos pelas avenidas cósmicas.
Encontros extraterrestres acontecem quando recebo um amante em meu lençol.
E a estética amorosa conjuga verbos proscritos.
Filhos da nervosa ruela que dobramos no espaço.
Sonhos cada dia mais impossíveis nos retoques dos retratos.
Garantias no lugar de signos colocam suas máscaras entre as pernas dos mortais.
Estarei sonhando?

 

Floriano Martins é poeta, ensaísta, editor e tradutor.  Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

 

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A relação do escritor Alexandre Staut com a França não tem início com a literatura. Nasce da memória afetiva de “O garoto selvagem”, longa dirigido por François Truffaut, que assistiu, pela primeira vez, numa madrugada dos anos 80, na célebre Sessão Coruja. Na história, um menino achado na floresta é preso e levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um médico. Aparentemente surda-muda, a criança reage à presença alheia com grunhidos, logo sendo tratada, pelos locais, como um animal de entretenimento. A missão do médico é justamente estancar essa bestialidade e incutir no menino o comportamento civilizado, através do exercício repetitivo da comunicação. O que ele resiste, a princípio, em fugas de retorno à natureza, até que a força da razão o domestica para a sociedade.

Foi a lembrança do filme de 1970 a primeira imagem que ocorreu a Staut, ao descer na estação de L’Aber Wrach, um vilarejo francês a oeste do país. Ele se percebeu um selvagem ali, no sentido de desconhecer os costumes, o comportamento e, sobretudo, a língua nativa. Passava o ano de 2002, e o então jornalista tinha viajado à França a convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um período, e passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar bem.

A proposta, então, era usar essa experiência no modesto restaurante na cidade litorânea de Brest. O desdobrar dos fatos é o que movimenta a trama de “Paris-Brest”, publicação recente de Staut. Misto de romance de formação e diário de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o gênero da auto-ficção. O autor manipula, com perícia e envolvimento, as próprias memórias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de expressões artísticas: a música, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso é que muitas iguarias são descritas em seus modos de preparo, revelando outra característica do livro: ser também um volume de receitas.

Acima dessa estrutura compósita, porém, flui um texto coeso, um relato íntimo marcado pela sensação de não pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso. A cozinha do restaurante é seu pináculo particular, de onde enxerga o Brasil através de pratos típicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefectível coxinha, mas também onde orbitam suas frustrações, seus anseios e suas saídas; é onde se dá conta de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culinária não consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.

Em entrevista de opiniões diretas e reveladoras, Staut refaz os passos que o levaram até o romance, partindo da própria literatura para debater sobre o meio e o mercado literário. Criador e editor da conceituada São Paulo Review, seu olhar agudo descortina a realidade brasileira de livros e de autores que, inexplicavelmente, está mais clara para os franceses que para nós mesmos. Educação, literatura de gênero, festivais. Uma ficção que tem o tamanho da própria altura. “Sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz”.

Alexandre Staut / Foto: Giuliana Nogueira

DA – O seu novo livro tem uma concepção, digamos, sui generis. Há momentos em que é um diário de viagem; noutros, um livro de receitas; e, de maneira geral, um romance de formação. Entre a memória e o processo de composição, qual foi o ponto de partida para escrevê-lo? E como fez para trabalhar com esses três gêneros bem distintos num único texto, sem que a narrativa perdesse a coesão?

ALEXANDRE STAUT – Inicialmente, cinco anos após voltar da França para o Brasil, tentei escrever um romance em que um personagem de um país distante e não identificado chega numa pequena comunidade francesa, longe dos grandes centros culturais do país. O mote tinha a ver com minha viagem, mas principalmente com o filme “O garoto selvagem”, de Truffaut, um filme que amo e que assisti a diversas vezes, desde os anos 80, na Sessão Coruja, da TV, em DVD e num cinema obscuro de Paris. Passei uns dois anos com essa história, mas o livro estava emperrado. Quando já estava quase desistindo, meu amigo Yann (que me levou para a experiência na França, e para quem “Paris-Brest” é dedicado), disse que eu devia escrever sobre minha experiência de vida em L’Aber Wrach, cidadela ao lado de Brest, o primeiro lugar onde morei na França. Porém ainda demorei uns anos para começar a escrita do livro. Morei lá entre 2002 e 2006. Parece que precisava esperar a história decantar de alguma maneira, para que eu conseguisse observar o colosso de coisas que vivi como imigrante no país de uma forma pouco sentimental, com olhar crítico, ora engraçado. Às vezes é engraçado e patético ser estrangeiro num lugar. Me lembro que, já há um bom tempo no lugar, numa mesa de refeição, uma senhora me pediu para passar a baguete. Disse que eu tinha “braços longos”. Como em francês, vezenquando, uma palavra se junta a outra, na hora da fala, não entendi o que queria dizer quando falou “bras longs” (pronúncia: “bralon”). Perguntei o que queria e percebi que meu francês não era tão bom quanto achava que era (risos). Mas voltando à criação do livro em si, houve um dia, dez anos após minha volta, em que acordei e percebi que tinha uma história pronta. Ainda não sabia que o livro ia ser uma mistura de romance de formação, livro de receitas e diário de viagem, algo talvez novo na literatura contemporânea brasileira. Quando estava perto dos dez mil caracteres escritos, percebi que tinha um romance para resolver, nas mãos.

DA – É incrível esse tempo de maturação e, sobretudo, como você bem transferiu uma estadia, que durou anos, de maneira condensada para o livro. O que me leva a pensar sobre a integridade dessas memórias. Durante esse período, você teve algum diário onde anotava sobre os dias, e que serviu de fonte para o romance? Ou foi mesmo um esforço de percorrer essas lembranças, revisitar os lugares, rever as pessoas, sentir os cheiros e os gostos dessa época? A mesma pergunta serve para as receitas. As tinha anotado num caderno ou as escreveu de cabeça? Precisou consultar ou falar com algumas das pessoas daquele tempo?

ALEXANDRE STAUT – Quando Anita Deak, editora do livro, preparava os originais, surgiu a questão sobre os possíveis diários. Ela queria lê-los, talvez publicar parte deles com minha caligrafia. Mas nunca os fiz. Adoro ler diários de escritores, mas nunca escrevi uma linha, a não ser diários terapêuticos, que nunca virão a público (risos). Gosto dos diários da Virginia Woolf, do Lúcio Cardoso, são tantos… Acontece que o período em que vivi na França sempre foi muito presente na minha vida. Quase todos os dias, antes da publicação deste livro, lembrava-me de flashes de memórias, histórias truncadas. Para escrever o livro, quando não conseguia seguir adiante, acionava o trabalho do escritor de ficção que sou, sem me importar muito com a fidelidade dos fatos. Há inclusive alguns nomes trocados no livro, para que assim não comprometesse moralmente pessoas que cruzaram meu caminho na França. “Paris-Brest” é um livro de auto-ficção. É um gênero que gosto. Acabo de ler um livro alucinante da Delphine de Vigan, que se chama “Baseado em fatos reais”. Indico! Sou leitor de auto-ficção, gosto dos livros do Ricardo Lísias e do Julián Fuks, que exploram essa literatura. Falando sobre cheiros, sabores, lembranças, algumas pessoas acham que sou um dândi… faço banquetes para os amigos, participo de festas literárias, criei um site de literatura importante no Brasil (São Paulo Review), escrevo ficção, faço críticas gastronômicas, atuo como ator em peças de teatro e no cinema. Talvez Proust seja a inspiração mais real para este livro… a tiazona dândi mais poderosa que já existiu. Falo dele algumas vezes no texto, cito as suas madeleines, dou a receita original do doce. Bem, queria fazer um livro que despertasse sensações. Por isso, exploro bastante as receitas, o cheiro das feiras livres. Sem contar que de uma receitinha todo mundo gosta. Quando resolvi inseri-las no livro, testei cada uma. Mas minhas receitas não têm medidas certas. Uso punhados, faço medidas na concha da mão. Uma coisa meio bruxo… que sou (risos).

DA – Sim. As referências literárias e as musicais são um tempero à parte no livro, se me permite o trocadilho (risos). Mas já falamos sobre isso. Queria voltar a um momento que é descrito meio en passant, logo no começo, que é sua temporada em Londres, a qual precede os anos na França. Como se encaixa esse tempo em território inglês com sua formação de jornalista, já que viajou para Brest depois de trabalhar um tempo em redações no Brasil, escrevendo sobre gastronomia? Foi em Londres que aprendeu a cozinhar, não? E lá também que conheceu o Yann, um personagem sem o qual o romance não existiria. Como se deu esse encontro?

ALEXANDRE STAUT – Cozinho desde criança. Minha tia Lia fazia bolos de festa. Eu ficava vendo aquele capricho todo. Aos 11 anos, quando queria comer bolo, não pedia para minha mãe. Ia para a cozinha e fazia. Meu pai, que morreu quando eu tinha sete anos, era um grande cozinheiro. Todos os domingos ia para a cozinha, eu acordava com a casa cheirando feijoada, dobradinha. Ele gostava de receber parentes e amigos. Era festeiro. Herdei isso dele. Falo sobre minha família paterna, que é mezzo italiano, mezza judia, e sua relação com a cozinha e a música, no meu primeiro romance, “Jazz band na sala da gente”, de 2010. A Inglaterra aconteceu na minha vida em 1998. Trabalhava num jornal de São Paulo e, ao ser demitido, uma amiga jornalista, Ana Paiva, sugeriu que eu fosse para lá me tratar de tanto álcool e balada. Lá, bebi mais ainda (risos). Mas comecei a trabalhar em cozinhas de hotéis bacanas. Conheci Yann Danjou num desses hotéis e foi identificação à primeira vista. Ou paixão. Uma semana depois, morávamos juntos. Yann foi (e é) meu amor, amigo, irmão, pai, namorado, confidente. Uma amizade que resistiu a três países (moramos juntos na Inglaterra, Brasil, França e depois Brasil, mais uma vez) e a muitas cidades. “Paris-Brest” foi escrito de presente para ele, não é só um livro dedicado ao Yann, é um livro escrito para ele, uma forma de agradecer tanta coisa que vivemos juntos. Hoje, ele mora na França e eu no Brasil, mas nos falamos quase todos os dias. Rimos e choramos muitas vezes juntos. Na mesma semana em que o conheci, em Londres, tive a notícia do suicídio do meu irmão, de vinte e poucos anos, no Brasil. Nunca me esqueço da tarde em que liguei para minha mãe, de uma cabine na Bayswater Road, e recebi a notícia. Sentei no chão da cabine e desmontei. Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Yann, que foi me encontrar debaixo de uma árvore no Hyde Park. Chorei até anoitecer e o Yann ficou ao meu lado, calado. Nunca me esqueço dessa árvore. Passava ali depois e via que essa era a árvore da infelicidade. Até hoje essa é a árvore da infelicidade. Achava no suicídio algo chique, via atitude… Ana Cristina Cesar e companhia. Isso até acontecer dentro da minha casa. Enfim, nesse momento, grudei no Yann. Uns meses depois, pedi que me levasse para morar na França. Mas voltando ao livro, ele foi escrito como forma de agradecer ao Yann, pela sua presença nesse momento de dor. E também como forma de levantar seu astral quando o Le Patio Gourmand, restaurante que ganhou dos seus pais, faliu, na França. O livro foi uma coisa pensada como forma de agradecimento. Senti-me um pouco Virgina Woolf ao escrever “Orlando” para Vita Sackville-West. A obra-prima de La Woolf é uma carta de amor, num momento em que a nobre Vita faliu e se viu sem autoestima. Bem, muitos leitores devem conhecer a história da amizade das duas inglesas.

DA – Uma história bonita, afinal, que resiste aos duros golpes da vida. Um fato curioso, que você cita no começo do livro, são os três livros que levou para França. “Como cozinhar um lobo”, da americana M. F. K. Fisher; “O livro das frutas”, da britânica Jane Grigson; e “Jules e Jim”, romance do francês Henri-Pierre Roché. Diante de toda uma bibliografia universal, gostaria que comentasse sobre as escolhas específicas desses livros. E a ausência de uma obra de autor brasileiro deveu-se a uma razão intencional?

ALEXANDRE STAUT – Havia começado a ler livros de gastronomia, e me apaixonei pelo da M. F. K. Fisher. Aliás, este não é só um livro de gastronomia. T.S. Eliot chegou a dizer que Fisher era uma das melhores prosadoras de meado do século XX. E é mesmo. Seu livro mais famoso, “Como cozinhar um lobo”, é sobre guerra e paz, é um manual de sobrevivência em épocas de guerra, é filosofia da mais alta qualidade. O livro de Grigson caiu nas minhas mãos por acaso, dias antes da minha viagem. É de uma beleza sem fim para quem gosta de botânica. Já “Jules e Jim” é um clássico maravilhoso, embora a tradução portuguesa que eu tenha seja lamentável. Único livro de Roché. Adoro autores de obra econômica. E até desconfio daqueles que têm dezenas de livros publicados. Escrever romance é algo muito difícil. Às vezes, o cara escreve um único livro e aquilo é uma obra-prima. Não levei qualquer livro brasileiro para a França. Acho que propositalmente. Mas uns dias antes da viagem lera “Eles eram muitos cavalos”, do Luiz Ruffato, que me deixou transtornado. Ruffato tinha sido meu editor-chefe no Jornal da Tarde. Acompanhei um pouco a criação desse livro que reacendeu em mim a vontade de ser escritor. Ao chegar na França, arrumei um computador e comecei a escrever, a escrever… Tinha um esboço de um romance, nos primeiros tempos lá. Mas era algo muito ruim que joguei no lixo. O mundo está cheio de livros ruins, não queria parir mais um. Falando nisso, não gostaria de ter lançado meu segundo romance, “Um lugar para se perder”. O título é bom, mas, para mim, não é um bom livro. Dois leitores muito especiais gostam dele e o elogiam, Maria Valéria Resende e Leonardo Tonus. Mesmo assim, acho um romance estranho, mal resolvido. Uma vez me encontrei com Sônia Coutinho na Livraria Cultura. Ela tinha lido “Um lugar…” e me disse: “Seu livro é estranhíssimo. Você é escritor” (risos).

DA – Ser estranho também é uma qualidade. Como bem disse, o mundo está cheio de livros ruins que, caso fossem ao menos estranhos, talvez seriam melhores. Mas, à parte a memória e as referências literárias, o livro cede espaço para observações de natureza histórica, a exemplo dos capítulos que se dedicam a desvendar os costumes e os produtos da Idade Média. Como foi o trabalho de pesquisa e por que considerou válido incluir essas informações?

ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Sou apaixonado pela Idade Média, literatura, costumes, alimentação, comércio, comunidades urbanas. Estudo por conta própria o período há muito tempo. Li tudo e vi os filmes sobre Fausto, alquimista, astrólogo e mago, protagonista de uma lenda da Idade Média alemã, que teria feito pacto com o demônio, um arquétipo da alma humana e das nossas aflições. Mas gosto também de livros teóricos sobre o assunto. Na França, há muitos. E é possível sentir a Idade Média bastante presente em diversas cidades do interior. Os cemitérios no centro de alguns vilarejos, na frente da igreja principal do lugar, acho fascinantes.

DA – É marcante também a aparição de canções por todo o livro. Algumas delas, inclusive, apresentam o caráter latente de uma trilha sonora dessa época. Em dado momento, você menciona a participação de Gilberto Gil e Jorge Mautner, num festival em Brest; este último, aliás, de quem você é fã e tentou um encontro, que acabou não acontecendo. Por outro lado, a literatura faz parte de um processo muito mais íntimo que mundano. Há a citação de um encontro com o escritor Humberto Werneck, mas nenhuma outra tentativa de buscar no outro o espírito literário. Nos anos em que passou na França, você mantinha, de alguma forma, contato com a literatura brasileira ou mesmo com jovens autores franceses? Chegou a frequentar feiras literárias, eventos que fossem pautados pela literatura?

ALEXANDRE STAUT – Não tinha pensado nisso. O livro tem, sim, mais música que literatura. Foi um período muito musical da minha vida. Inclusive meu encontro com a música eletrônica. Ia dançar quase semanalmente. Meus encontros com escritores aconteciam por meio de programas de TV e de leituras. Incrível a quantidade de programas de TV na França, com a participação de escritores. Eu assistia a todos. Assim, conheci duas autoras que me acompanham até hoje. Anne F. Garreta, que participa do Oulipo, uma figura bem estranha; e Amelie Nothomb, belga que faz muito sucesso na França com seus romances de títulos esquisitos: “A higiene do assassino”, “Antichrista”, “Cosmética do inimigo”, “Biografia da fome”. Nos três anos e pouco em que estive por lá, basicamente eu li. Li em francês. Ler numa língua estrangeira é uma forma de entrar em contato com as sutilezas de tal língua. Isso requer dedicação. Foram anos em que me dediquei a aprender essa língua que para mim era um tanto desconhecida. Lia autores brasileiros recém-traduzidos lá também. Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu. Já conhecia a obra do Caio inteira. Foi bacana lê-lo em francês.

DA – Interessante você citar essa transposição da língua, pois, salvo eventos esporádicos, a exemplo do Ano do Brasil na França, a literatura brasileira parece algo ainda muito limitado a seu próprio território. Você citou Hilda e Caio F., porém, imagino, que deve ter topado com traduções de outros autores contemporâneos. Qual foi sua percepção do interesse da literatura brasileira entre os franceses? Ainda somos vistos pelo viés do exótico, do tropicalismo que exulta suas belezas naturais, seu calor endêmico?

ALEXANDRE STAUT – Estava lá nos tempos anteriores do Ano do Brasil na França, inclusive no momento da festa. O Brasil estava na moda. Traduziram muita coisa boa. Hilda e Caio estavam nessa leva. Era um orgulho chegar às livrarias e ver bancadas de autores brasileiros. Os programas de TV que discutem literatura (são vários, até em canal popular tem!) falavam sobre a gente. Discutiam Guimarães Rosa, liam trechos. Lembro que, em 2005, Lya Luft estava na onda, no Brasil, com os seus livros de autoajuda. Num programa, me lembro, alguém leu um trecho de um desses livros dela, e a apresentadora cortou o entrevistado: “Isso é uma bosta” (risos). Mas não podemos nos esquecer de que, antes da autoajuda, Lya foi uma grande escritora. Hoje em dia, graças ao professor da Sorbonne Leonardo Tonus, a literatura nacional ficou mais em evidência na França. Tudo trabalho do Leonardo! O que ele fez e faz para a literatura nacional por lá já entrou para a história! Há também o trabalho de formiguinha do livreiro e editor Michel Chandeigne, dono de La Librairie Portugaise et Brésilienne, e da Éditions Chandeigne, que já publicou Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, Mário Chamie, entre tantos outros.

Alexandre Staut/ Foto: Juliana Carrascoza

DA – Realmente o professor Leonardo Tonus tem feito um trabalho irretocável em prol da literatura brasileira. Mas falaremos disso mais adiante. De volta ao livro, um dos momentos que considero mais tocantes é aquele em que você escala umas pedras à beira mar, onde fica sentado por horas, isolado, escrevendo num caderno. Para mim, essas passagens irradiam toda a narrativa com uma luz de melancolia. O que eram esses momentos para você, afinal? Havia ali mais literatura ou mais autorreflexão?

ALEXANDRE STAUT – Era uma mistura de tudo. Sempre gostei de ficar sozinho, de caminhar, tanto na cidade quando no meio da natureza selvagem. Resolvo cenas de livros em caminhadas, ou então sentado em posição de zazen, principalmente em locais silenciosos. No caso dos momentos de meditação, sentado na falésia do lado esquerdo da cidade de Arromanches-les-Bains, eu olhava os destroços do porto construído pelos ingleses na Segunda Guerra. Havia acabado de ler “Un pedigrée”, do Patrick Modiano (romance sobre os momentos em que seus pais viviam escondidos, por lugares obscuros de Paris, para não serem encontrados pelos nazistas – ainda não traduzido no Brasil). Assim, inspirei-me a escrever um livro sobre meu avô Eduardinho, judeu alemão cuja família migrou para o Brasil. Ele era músico de uma pequena orquestra no interior e dono da funerária da cidade, Pinhal. O livro se chama “Jazz band na sala da gente”. É sua biografia romanceada. Interessante você notar que “Paris-Brest” é um livro melancólico. Você percebeu um traço importante do livro, que também é meu traço. Sou um cara triste. Como Orhan Pamuk, sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz.

DA – É também nesse instante em que se dá conta de que a escrita é mais forte, em você, que a gastronomia, que o desejo de se tornar um chef. Consegue traçar um paralelo entre o processo de criação e a elaboração de uma receita? Em que a arte culinária e a literatura se aproximam e em que se divergem?

ALEXANDRE STAUT – A escrita sempre foi mais forte em mim do que qualquer outra coisa. É uma necessidade física, real, acho até que só consigo tomar conta do vácuo que vivemos neste planeta por meio da escrita. Talvez ela me distraia da loucura que é estar girando há mais de 700 km por hora, num planeta, sabe-se lá para onde. Quanto a ser chef, nunca o quis. Trabalhei como cozinheiro por uma necessidade momentânea. De qualquer forma, amo cozinhar. Me distrai bastante. Quando estou de saco cheio do mundo literário, vou pra cozinha. Considero a gastronomia uma arte, assim como a literatura. São artes diversas. A gastronomia também é uma coisa mágica. Uma pena que no Brasil muitos intelectuais e até escritores consideram culinária coisa de fresco. Muita gente pensa assim. A gastronomia é um patrimônio da humanidade. É possível relatar a história do planeta Terra por meio dela. Adoro os países em que a gastronomia é tratada como patrimônio; França, Portugal, Espanha, México. Aqui ainda estamos longe disso.

DA – Em compensação, a gastronomia explodiu com um dos carros-chefes de muitos programas de TV. Há canais a cabo, inclusive, que preenchem toda a programação com chefs nacionais e internacionais (e famosos que se acham chefs de cozinha) esbanjando a arte culinária. Esse “fenômeno” acabou por migrar também para a literatura, fazendo com que todas essas celebridades televisivas entrassem na mira das editoras, que abastecem cada vez mais as prateleiras com livros de culinária, de receitas, de viagens relacionadas à gastronomia. Como encara essa fascinação por esse tipo de programa, por livros dessa natureza? E você acredita que, assim como na literatura, há uma banalização da arte culinária; a consolidação de um pensamento de que qualquer um pode cozinhar, assim como qualquer um pode escrever?

ALEXANDRE STAUT – Acho ótima esta explosão do mundo da gastronomia. Acabo de voltar do Piauí, onde fui fazer uma grande reportagem sobre a culinária local. Antes da gastronomia regional entrar na moda, não se bebia cajuína. Disseram-me que hoje tem em todos os bares, vendinhas, restaurantes, supermercados, aeroportos… É a valorização da cultura alimentar.  Por outro lado, as pessoas ainda conhecem mais Nutella do que, por exemplo, o tucupi (caldo da mandioca usado na região Norte, para se fazer vários pratos), ou então dão mais valor ao risoto do que ao baião de dois. Mas, com a popularização da arte gastronômica, espera-se que isso possa mudar um dia. Acho que qualquer um pode cozinhar, como pode escrever. São duas atividades democráticas. A escrita, por exemplo… para escrever basta um pedaço de papel e um lápis. Você pode escrever se nascer rei na Europa ou numa aldeia perdida no Brasil ou na África. Claro que aqui entra a questão do analfabetismo no Brasil, por exemplo. Mas esta já é outra história.

DA – Sinceramente me desagrada essa ideia generalizada de que qualquer um, com papel e caneta, possa escrever. É claro que escrever, sim, mas não fazer literatura. Penso o mesmo da arte culinária. Minha esposa gosta de programas de gastronomia. Certa vez, ela assistia um de competição que, para entrar, o candidato tinha de fritar um ovo; e a maioria não conseguiu. Eu adoro cozinhar, cozinho todos os dias, contudo sei que estou longe de ser um chef. Por outro lado, considero-me um escritor, pois estudo, leio, pratico, entendo as técnicas, os meandros da escrita, e busco, com isso, aperfeiçoar meu texto. Sendo também um crítico literário (escreve para o Valor Econômico), você não acredita que, a despeito de uma importância incontestável, a democracia na literatura tem seu limite na qualidade da narrativa?

ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Também acredito que com papel e caneta não se escreva literatura. É preciso estudar, ler, treinar. Um bailarino, para dar uma pirueta no ar, treina uma vida inteira. Existe uma faísca inicial, que é a inspiração. Depois, o que tem é o trabalho. É preciso trabalhar duro para escrever literatura. Mas ainda acredito que esta é uma arte democrática. O cara precisa de papel, lápis e tempo… além de ler livros, que ele pode comprar por R$ 5, na banca de jornal da esquina, ler de tudo um pouco.

DA – Alguns anos depois de retornar ao Brasil, você lança dois livros: “Jazz band na sala da gente”, de 2010, e “Um lugar para se perder”, de 2012. O primeiro foi uma edição do autor, e o segundo foi publicado por uma editora de pequeno porte. Na ocasião, chegou a procurar um grande selo editorial, mandou o original para a análise de alguns desses? Como avalia essa relação entre um autor inédito e as editoras, no Brasil?

ALEXANDRE STAUT – Não há relação! (risos). Os grandes editores não leem autores em começo de carreira, salvo algumas exceções. Mas até entendo. Editoras recebem 30, 40 originais por dia. Resolvi publicar “Jazz band…” em edição de autor, pois naquele momento tinha uma necessidade quase física de ter um livro lançado. Quando ficou pronto, percebi a importância de uma editora por trás do trabalho. Eu não sabia o que era “preparação de texto”. Para quem não sabe é uma espécie de “direção de arte”, como se faz no cinema. A preparação é essencial. O meu livro saiu com palavras repetidas na mesma página, sem necessidade. Errinhos que só um preparador iria pegar. Quando ficamos muito tempo com um texto, a leitura se torna oração. A gente lê sem se dar conta de cada palavra, da importância de cada palavra no contexto. De qualquer forma, este é um bom livro e merece uma segunda edição, agora caprichada. A dica que dou para quem quer publicar independente: não deixe de contratar dois profissionais antes de imprimir o seu livro, um preparador e um revisor. São trabalhos diferentes, e que só podem ser feitos por pessoas especializadas, que estudaram para isso.

DA – Excelentes dicas, de fato. Outra coisa que você fez, ao voltar ao Brasil, foi criar a São Paulo Review, um dos portais de literatura mais prestigiados nos dias correntes. Como e por que surgiu a ideia de montar a página? E, nesse tempo de existência, a SPR lhe trouxe mais amizades ou inimizades?

ALEXANDRE STAUT – Pois é, sempre li as “Reviews of Books” e percebi a lacuna. O Brasil não tinha nenhuma. Fui com a cara e a coragem e registrei o nome, em 2013. Chamei Viviane Ka, que é do mundo editorial, para ser minha sócia. Em pouco tempo, escritores e leitores perceberam que havia qualidade no trabalho e começaram a nos passar pautas, sugerir resenhas. Surgiu um time muito bom de colaboradores. Nos últimos tempos, a jornalista Ana Weiss se juntou a mim e à Viviane, para fazermos a revista juntos. Ana é uma das jornalistas culturais mais importantes do país. O time está formado e o projeto caminha muito bem. Estamos agora fazendo um plano de negócios para conseguirmos patrocínios, para que possamos ir mais longe ainda. Nunca se sabe, mas acho que consegui mais amigos. Sou contra detonar livros. Sou um jornalista/editor/crítico ecológico. Acho que não vale a pena gastar celulose e energia elétrica para falar mal de escritores e livros ruins. Melhor deixá-los no limbo.

Alexandre Staut / Foto: Macus Steinmeyer

DA – Há pouco você mencionou a questão do analfabetismo no Brasil como um dos principais adversários da literatura. Do tempo em que passou na França, o que trouxe de experiência da relação entre educação e literatura? O que representa a literatura, na vida comum de um francês? E o que poderíamos transferir para nossa realidade?

ALEXANDRE STAUT – Convivi bastante com crianças e adolescentes na França. Eles leem por toda parte, no metrô, andam pelas ruas com livro aberto, na frente da cara. As escolas incentivam a leitura desde muito cedo. Minha enteada, na época uma adolescente, andava com livros para cima e para baixo. Os seus professores passavam tanto obras clássicas quanto contemporâneas. Lembro-me dela comentar com prazer autores que conversam com nosso momento histórico, como Amelie Nothomb. A leitura por lá parece estar incorporada ao modo de vida francês. Talvez seja o país que mais valoriza a literatura. Aqui, falta o trabalho de base. Falta incentivo do governo. É uma questão um tanto complexa, né, não sei se um dia será resolvida. De qualquer forma, não acredito na frase que dizem por aí de que brasileiros não leem.

DA – Falando em professores, quero trazer à conversa o Leonardo Tonus, professor da Universidade Paris-Sorbonne, que tem feito um trabalho inestimável em prol da literatura brasileira na França, em especial no reconhecimento dos escritores contemporâneos. O grande evento que coordena, “Primavera Literária”, no qual autores brasileiros participam de debates na capital francesa, contou com sua participação numa das edições. Como foi voltar à França, desta vez com status formalizado de escritor?

ALEXANDRE STAUT – Participei da “Primavera Literária” em seu primeiro ano, em 2014, junto do Michel Laub, Julián Fuks, Marcelino Freire e Ana Martins Marques. Íamos à Sorbonne e falávamos com os alunos de estudos lusófonos do Leonardo Tonus sobre nossos livros, discutíamos literatura em língua portuguesa, de forma geral. O trabalho do Leonardo na Sorbonne é uma beleza. Ele valoriza cada um dos seus alunos, no que eles têm de mais genuíno. Conheci alguns que não gostavam de estudar e que depois do Leonardo viraram críticos literários, escritores. Mas antes disso, em 2013, ainda a convite do professor e de passagem pela França, dei uma palestra para sua turma, também nas dependências da Sorbonne. Senti um misto de medo, timidez, vaidade. Chegando à sala, todo mundo me deixou super à vontade. Para minha surpresa, estavam na minha palestra Humberto Werneck, Daniel Antônio, ótimo jornalista cultural brasileiro, entre diversos ex-alunos do Leonardo. Tive a sorte de ficar amigo do Tonus, que me chamou para criar o “Outono Literário” ao seu lado, e ao lado da Mirna Queiróz (Revista Pessoa) e Simone Paulino (editora Nós).

DA – Iria perguntar mesmo sobre o “Outono Literário”, realizado este ano em São Paulo, que surgiu como uma derivação da “Primavera Literária”, de Paris. Como foi pegar um evento de sucesso, com suas próprias características, e transportá-lo com mesma relevância para o Brasil? E quanto ao futuro: vocês têm a intenção de torná-lo regular? Buscar parcerias, replicá-lo em outras cidades, ampliar a programação de debates, inclusive com a presença de autores internacionais?

ALEXANDRE STAUT – O “Outono” nasceu no primeiro semestre deste ano, uma união de forças do Leonardo Tonus, da Mirna Queiróz, Simone Paulino e minha. Fizemos eventos na livraria Blooks, com lançamento de livros; numa escola da Zona Leste, onde acontece o Sarau dos Mesquiteiros; na Unibes Cultural; e no Bistrô Ó Chá. Reunimos mais de 20 escritores de todo o país, para falarmos sobre literatura no Brasil. Houve também um evento no Rio de Janeiro. O “Outono” nasceu como proposta de integrar discussões de norte a sul do País, e como evento a se realizar anualmente. Logo mais divulgamos a agenda para 2017.

DA – Desde o ano passado, têm ganhado relevância debates sobre a literatura de gênero, chamando atenção para uma participação mais ampla de mulheres, de negros e de homossexuais tantos nas editoras quanto em festivais literários. Na condição de curador e de autor, como se relaciona com essa discussão?

ALEXANDRE STAUT – No Brasil, o racismo é endêmico e cultural. Por isso, infelizmente, só nos resta uma solução: as cotas. No mais, basta ver os autores e os livros que fazem sucesso, tanto nos cadernos culturais quanto entre o público. A literatura brasileira é branca, heterossexual e “macha”. Com o perdão do trocadilho, acho um saco isso.

DA – Retornando ao livro, há dois momentos bem simbólicos de transição: a sua saída do Brasil para a então desconhecida cidade de Brest, e depois a sua primeira volta ao Brasil, quando se dá conta de que ainda sua estada na França não tinha chegado ao fim, daí você retorna. Mesmo que não tenha qualquer citação, esses momentos me trouxeram à memória o famoso poema de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”. Consegue traçar um paralelo entre esses anos e os versos de Bandeira?

ALEXANDRE STAUT – Este poema me persegue. Gosto tanto, que incluí um trecho na minha peça de teatro “Marquesa”, encenada pela atriz Paula Cohen, no festival Satyrianas, semanas atrás. Há uma vontade de fugir para encontrar a felicidade, um desejo de percorrer o mundo, como um cigano, ver paisagens. Há também um sarcasmo e uma ternura que são próprios do Bandeira e de muitos autores nacionais. Quando escrevo, tento olhar para o Brasil com essa ternura… mesmo que esteja escrevendo sobre a França, ou qualquer outro lugar do planeta.

DA – Lá, no começo da nossa conversa, falamos sobre os três livros que você levou para França. Se soubesse que algum francês viria passar uma temporada no Brasil, qual dos três livros você recomendaria que ele trouxesse?

ALEXANDRE STAUT – Recomendaria que comprasse três livros aqui… para que entendesse um pouco mais a gente. Para conhecer a vida política brasileira, “Memórias de um sargento de milícias”. Para conhecer a sociedade brasileira, “A hora da estrela”. Para conhecer a alma do brasileiro, “Grande sertão: veredas”.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Lima Trindade

 

Com amplo reconhecimento da crítica especializada, Sidney Rocha é hoje um dos mais expressivos escritores em atividade no Brasil. Ganhou diversos (e importantes) prêmios literários, teve parte de seus livros traduzidos para o espanhol e para o inglês, figurou em uma antologia temática de contos da prestigiada Granta e foi um dos 21 autores que Nelson de Oliveira apostou como os mais representativos surgidos no início deste século em nosso país.

Sua prosa é aguda. O seu campo de interesses não possui limites, restrição de assuntos. É uma prosa que busca representar e apresentar a vida em toda a sua pulsação, toda a sua força. Tornou-se um lugar-comum elogiar o tratamento que ele dá à linguagem. Porém, o seu truque, a sua habilidade maior, como convém aos bons artesãos, está justamente em fazer que a distância entre os signos e os significados seja esquecida. Rocha jamais subestima a inteligência e a capacidade de imaginação de seus leitores. Sua generosidade está na oferta de uma leitura onde prazer e reflexão não precisam vir dissociados.

Às vésperas de lançar Guerra de Ninguém, seu terceiro livro de contos, após os aclamados Matriuska (2009) e O destino das metáforas (2011, vencedor do prêmio Jabuti), o autor faz uma pausa nas comemorações do seu aniversário de 51 anos e, do quarto de um hotel em Maceió, ao lado de sua querida filha, a cineasta Anny Stone, concedeu esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins, onde fala do começo de sua carreira de escritor, do amor pela poesia, de problemas culturais e políticos brasileiros, ambições artísticas e do que se trata o seu novo livro.

 

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

 

DA – Você começou sua trajetória literária com um livro de poemas, Mais que o rei, publicado em 1991. O título é muito provocativo (principalmente ao lembrarmos do “Vou-me embora pra Pasárgada” do Bandeira). Como você avalia esse seu primeiro passo, decorridos mais de 25 anos?

SIDNEY ROCHA – Sua boa pergunta tem uma ótima resposta no Galáxias, de Haroldo de Campos, que escreveu tão bem sobre começos, justo no começo daquele livro: “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso / e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa / não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever / mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para / começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso / recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é / o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoitesmiluma- / páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas / mesmam ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever / é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo / descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e”…

Acho que todos os autores que nasceram depois do advento do modernismo no Brasil começaram a publicar com aquela ambição de escrever mil páginas para acabar com a escritura, e de que sua obra tenha múltiplos significados. É uma meta ambiciosa e, para ser pleonástico, nada modesta, especialmente se tal começo é pela poesia. Acho que na minha trajetória venho cumprindo, com irônica humildade, aquilo que afirmou William Faulkner: “Talvez todos os romancistas queiram primeiro escrever poesia, e depois descubram que não podem e tentam o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E depois de fracassar no conto, só então um romancista se dedica a escrever romances.”.

Tenho tentado e mantido a tentativa nos três gêneros, o que mostra algo óbvio demais: o de que sou menos que o rei Faulkner e outros reis. Mas você me pede para avaliar o primeiro passo, depois de tanto tempo, e respondo: foi um começo válido, ou um dos tantos começos que faz um escritor antes da primeira ousadia de fato, que é publicar. A avaliação deve ser não somente literária, mas editorial. Naquela época era muito mais difícil publicar do que agora, e a autocrítica, embora não tão grande, era maior do que agora para a maioria dos autores. A facilidade de meios praticamente nos converteu a todos em escritores, e muitos e muitos se desobrigam de ler, que é o primeiro dever, o primeiro prazer de um escritor autêntico.

DA – Há uma incidência enorme de grandes contistas e romancistas que começaram publicando poesia e, depois do primeiro livro, nunca mais voltaram a ela. Você ainda cultua o gênero, escreve sistematicamente e pensa em sua publicação?

SIDNEY ROCHA – Sim, continuo a escrever poesia. Aqueles do primeiro livro eram poemas imaturos. Os que agora escrevo tenho a ilusão de que sejam mais maduros, e, como um paradoxo, a poesia somente conserva a força se conseguimos aquele vigor inocente da juventude, e, como você citou Manuel Bandeira, na primeira pergunta, termino com os versos dele esta resposta: “Amor total e falho… Puro e impuro…/ Amor de velho adolescente…/ E tão Sabendo a cinza e a pêssego maduro…”

DA – Acompanha a produção dos poetas contemporâneos? Acha relevante esses trabalhos? Atravessamos um bom momento criativo?

SIDNEY ROCHA – Acompanho mais os romancistas, contistas e ensaístas contemporâneos do que os poetas. Quanto a se atravessamos ou não um bom momento criativo, é uma pergunta muito difícil de ser respondida, pois, como nos falta a perspectiva, não é possível que sejamos justos com os contemporâneos, e por isto mesmo comentamos tantas vezes os nossos colegas de modo leviano. Não quero ser apressado na opinião. Não existe um termômetro para avaliar a criatividade, e ainda menos de todo um tempo. Além do mais, publica-se tanto hoje em dia que seria impraticável, mesmo para o leitor mais voraz de poesia, acompanhar o que sai e opinar com justiça.

DA – Sua prosa, por meio de uma sintaxe e evocação de imagens pouco convencionais, costuma apresentar um alto teor de tensão no trabalho de linguagem, exigindo leitura atenta e reflexiva. Essas características não restringem seu alcance? Ou são os autores que subestimam a capacidade dos leitores?

SIDNEY ROCHA – Nunca escrevo pensando em coisas assim, se o texto é mais tenso ou menos tenso, ou mais ou menos denso, nem sobre o que pensará o leitor. É muito interessante e inteligente o que você diz. Mas refletir sobre o alcance da obra e os seus leitores é tarefa mais dos editores e críticos do que dos escritores.

DA – O predomínio da literatura de entretenimento nas gôndolas das livrarias e listas de “mais vendidos” são indicativos da mudança do perfil do leitor brasileiro em relação ao das últimas décadas do século XX?

SIDNEY ROCHA – A mudança de perfil é mundial, não especial no Brasil. O Brasil, como por sinal em praticamente tudo, faz nada mais que seguir a onda global. Mas pode-se dizer que talvez tenhamos contribuído para o início dessa voga, quando exportamos autores como Paulo Coelho. Na atualidade, dá-se a exacerbação do que já vinha antes como tendência.

DA – A política vigente de “democratização” do fazer artístico, que nega a especialização, a profissionalização, e desqualifica a técnica em nome da simples expressão, defendendo que todos são escritores, que todos podem e devem publicar seus livros, independente da relevância do que tenham a dizer, não acaba por se constituir num grave problema de diluição e enfraquecimento da cultura?

SIDNEY ROCHA – Essa é uma questão muito complexa. Não acho que o problema seja a democratização ou a democracia, e sim justamente o contrário. Do baixo nível da educação, do baixo nível dos meios de comunicação. Nunca houve tantos escritores, nunca houve tão poucos escritores, pode ser a máxima paradoxal e óbvia. O excesso de publicação não representa uma vitalidade, e sim um enfraquecimento. Não é pela superabundância de livros que alcançamos nem a quantidade nem a qualidade de leitores. Por outro lado, a cultura não é feita somente da chamada Alta Cultura, e sim de todos os meios de que dispõe o homem. Não cabe a um escritor ser juiz – por sinal, que profissão detestável a de juiz – do seu tempo nem da sua cultura, nem dizer o que vale a pena ou não ser fruído. Mas não devemos nos rebaixar ao mainstream.

DA – Sofia e Matriuska trazem questões em torno da identidade feminina, seu universo de representação, simbologias, condições existenciais e, sem sombra de dúvida, as relações de poder e violências que a cercam. Você se identifica como feminista? Se enxerga como autor engajado em causas de interesse social?

SIDNEY ROCHA – Sim, mas os meus livros de ficção não são obras de ativista nem panfletos ou manifestos a favor da causa A ou da causa B, por mais justas que sejam. A ambição do escritor é a da beleza, não a da verdade, da emoção humana, não das discussões políticas e sociais. Em Matriuska e Sofia há personagens de ficção, não mulheres de carne. As mulheres de verdade sofrem muito mais injustiças e são muito mais inspiradoras e dignas de amor, admiração e enlevo que as modestas figuras que há nesses e noutros livros.

DA – Acho o título de O destino das metáforas sensacional. A capa também é um feliz achado. Sei que você, sendo igualmente editor, se envolve em todos os processos criativos dos próprios livros. Seria arriscado dizer que esse volume de contos recusa com virulência todo e qualquer realismo?

SIDNEY ROCHA – Obrigado pelo elogio ao título e à capa, devo os dois a meu editor e amigo Samuel Leon. Você acertou em cheio no que diz respeito à recusa virulenta. Quem busca reinventar a vida em palavras tem de ser capaz, ou pelo menos, tentar tocar a Realidade, não o realismo, que continua a ser a doença infantil da literatura brasileira.

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

DA – Ministrar oficinas de escrita criativa e leitura crítica se tornou muito comum entre os escritores. Você abriu um curso recentemente, onde estabelece como um dos objetivos principais o exame da “emoção”. Pode detalhar essa história?

SIDNEY ROCHA – O curso foi uma tentativa mais de estimular leitores que formar escritores. Se a tarefa de um escritor é, por excelência, antiacadêmica, é natural que um curso que se dedique a percorrer os caminhos da escrita se concentre na emoção. Se um arquiteto como Le Corbusier falava de máquinas de morar e mover, um escritor move-se pela emoção, mora na emoção, ela é a sua casa, o seu meio de transporte. Foi isso que tentei despertar nos alunos-escritores-leitores no modesto, rápido e introdutório curso. Um exercício de sensibilização, mais do que a carpintaria da escrita.

DA – Em Fernanflor há a afirmação que “todo retrato é um retrato falado – ou uma imagem que fala”. Nesse jogo, em que o objeto se livra do criador e se torna outro por via da linguagem, é onde se encontra a chave da sua libertação: a experiência direta, sem intermediários?

SIDNEY ROCHA – Que pergunta profunda e, portanto, difícil. Creio até que já contém a resposta, tão rica ela é. O fato é que a linguagem tem muitas dimensões e camadas. Mas não é a própria linguagem um meio? E sendo meio, intermediária? Ainda não chegamos àquele estágio reclamado pelo poeta Rimbaud, de uma linguagem de alma para alma. Talvez não haja chaves nem portas, para prosseguir na metáfora que você usou, e não haja também uma experiência direta e sem intermediários, exceto no misticismo, e literatura não é misticismo, embora, para muitos seja uma forma de mistificação.

DA – Nesse caso, sua afirmação caminha no sentido oposto ao dos estruturalistas, que viam a linguagem como fim e nunca meio. O conteúdo para você é tão importante quanto a forma?

SIDNEY ROCHA – A linguagem é meio, é fim, é princípio. A ambição de todo escritor é que a forma e o conteúdo estejam de tal modo em harmonia que o leitor não note que haja diferença entre uma coisa e outra.

DA – A Lutécia de Cristina e Jeroni Fernanflor evocou em mim a lembrança da estranha e lúgubre cidade de Fernanda, esposa de Aureliano Segundo em Cem anos de solidão. Qual o lugar da literatura hispânica sul-americana na construção do seu imaginário? Crê que o realismo mágico esgotou inteiramente suas possibilidades estéticas?

SIDNEY ROCHA – Todas as cidades podem ser lúgubres e estranhas, e uma das artes das boas leituras, como a que você aponta, é estabelecer correlações que nunca ocorreram ao escritor no momento em que escrevia seu livro, pela simples razão de que ainda não ocorreu a influência desse imaginário da literatura hispânica em mim, a realidade da América, sim; algo diferente do realismo, claro, com magia ou não. Coisas como Realismo Mágico e Autoficção são clichês inventados pelos acadêmicos e a mídia apenas para designar práticas tão comuns na narrativa desde que o primeiro não-escritor contou a primeira história.

DA – Guerra de ninguém será o nome do seu próximo livro de contos? Ele fechará uma trilogia ou não apresentará vínculo com os dois antecessores? O tema central seria o desencanto com a falta de perspectivas para um bem comum coletivo, a falta de horizontes políticos?

SIDNEY ROCHA – Sim, será o terceiro livro de um conjunto publicado pela Iluminuras, mas, como os anteriores, o conteúdo não está necessariamente atrelado a horizontes políticos, nem a regiões ou espaços específicos, e nunca faltarão as viúvas das vidas secas para reclamá-los. É um livro sobre seres humanos de qualquer parte. Os nomes das pessoas e das cidades não são nem simbólicos nem pontos de inflexão ou reflexão, apenas a maneira lúdica que tem um escritor de nominar o que não poucas vezes é inominável.

DA – Mas não há um tema, questão ou ideia comum a atravessar os contos?

SIDNEY ROCHA – Escrevi Guerra de Ninguém sonhando que o livro fosse um imenso campo minado.

DA – Essas indefinições de horizonte político e espaço físico também se estendem ao tempo histórico?

SIDNEY ROCHA – São vários tempos e várias histórias. O modo de tratar tudo isso, e também as vidas dos personagens, está longe de qualquer solenidade ou preocupações com ideologias. Ainda que algumas dessas figuras sejam nomeadas e tenham cenas de suas vidas reais identificadas por algum leitor que conheça suas biografias, vivem mesmo é no espaço literário, este é o seu horizonte.

DA – Pode dar uma pista de qual seria esse conflito sem combatentes insinuado no livro, o que os leitores podem esperar de você?

SIDNEY ROCHA – Os combates são os cotidianos, os dos sonhos de uns, as desilusões de outros, e, como em todas as guerras, os limites, os extremos, as derrotas estão em questão.

 

Lima Trindade é autor de “Todo Sol mais o Espírito Santo” (contos, 2005), “Supermercado da Solidão” (novela, 2007) e, entre outros, “Aceitaria tudo” (contos, 2015). Foi editor da revista eletrônica Verbo21 por mais de quinze anos e é mestre em teoria da literatura pela UFBA.

 

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

John Lennon não teve a mesma sorte que Tadeu Sarmento. Em 8 de dezembro de 1980, o ex-Beatle caminhava pelas ruas de Nova Iorque, quando foi abordado por Mark Chapman, um sujeito gordo, de óculos de lentes grandes e cabelo escorrido, que lhe pediu um autógrafo. Horas depois, Lennon retornava ao hotel onde estava hospedado, e Chapman novamente o aguardava, desta vez armado de uma pistola. Alegando ouvir vozes que lhe mandavam matar, o suposto fã disparou contra o músico inglês, atingindo-o fatalmente quatro vezes nas costas.

Sarmento conheceu Chapman, quando trabalhava numa empresa de Call Center, em Recife. Mas as vozes que este ouvia eram as dos telefonemas dos clientes. Com o tempo, nasceu entre eles uma amizade, contudo persistia em Sarmento a sensação de que já conhecia o colega de trabalho de outro lugar. Certa noite, então, veio a revelação: o amigo era o assassino de John Lennon. Não o legítimo, que estava preso fazia décadas, mas um sósia anônimo de Chapman chamado Gabriel Dourado, que sequer sabia quem era o ex-Beatle.

O inusitado da descoberta foi o ponto de partida para o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, que venceu o Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014. Com tom farsesco e técnica impecável, o autor recifense amalgama registros históricos e referências literárias a uma inventividade burlesca, para estruturar a trama sob duas linhas narrativas que versam sobre a figura do duplo, sendo a primeira a tal associação de sósias cujo desejo é se anularem à imagem de seus originais, num arremedo de seu patrono, o obscuro escritor suíço do título, que escolheu viver seus últimos dias no anonimato.

A outra metade da história se passa numa cidadezinha fictícia, localizada no Paraguai, adotada por fugitivos nazistas como refúgio, em especial pelo país estar sob o punho de um regime ditatorial. Ali, os habitantes, à maneira do comportamento de um rebanho, seguem os imperativos de Immanuel Kant, reprisando os hábitos do filósofo prussiano, inclusive aqueles que dizem respeito à sua vida sexual. Nesse jogo de duplas identidades, o romance rompe sua casca de surrealismo e, por meio de reflexos dos tempos modernos, toca em temas que se referem à apropriação do outro de modo a lograr a relação com o próprio mundo.

Este, de fato, é um dos assuntos recorrentes dessa sabatina: o modo pelo qual a internet, sobretudo com o ingresso das redes sociais, possibilitou a descaracterização do indivíduo em peças de um modo de proceder coletivo, de máscaras que cobrem máscaras numa postura que se tornou aceitável e, por que não?, padrão. Sarmento percebe a literatura neste mesmo contexto, apontando os novos rumos do mercado editorial, com a disseminação das pequenas editoras e dos novos autores, e ainda falando sobre as buscas de seu processo criativo, do novo livro que está por sair, da influência dos autores hispano-americanos e da poesia em sua ficção, da literatura feminina e da importância de ter conquistado um prêmio literário. Uma conversa que revela um escritor maduro, prolífero, atento à qualidade de sua escrita na mesma proporção que preocupado com o leitor. “Não quero me fechar em um mundo particular e escrever histórias ininteligíveis para a adoração de um seleto grupo de jacarés empalhados”, declara.

Tadeu Sarmento
Tadeu Sarmento / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu romance, “Associação Robert Walser de sósias anônimos”, trata de uma maneira distinta do que se costuma abordar a figura do duplo na literatura universal. Seus personagens não carregam em si a ânsia de substituir (ou exterminar) seus originais, porém introjetam essa condição como uma forma de se apagarem, uma espécie de suicídio em vida. Isso acaba por trazer à memória “O mito de Sísifo”, em que Albert Camus argumenta que “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Diante dessa afirmação, você acredita que, no mundo ultramoderno e expositivo, desejar intensamente ser o outro, negar de modo integral a própria identidade, é uma decisão que está mais ligada à patologia ou à filosofia?

TADEU SARMENTO – Está ligada às duas. Aliás, depois que Nietzsche nos revelou que sistemas de conhecimento dependem mais das paixões dos filósofos do que gostaríamos que dependessem, não podemos mais separá-las. Estou pegando a raiz etimológica do substantivo “patologia”, que segundo a Wikipédia (risos) vem de pathos, paixão. É nesse sentido que faço minhas as palavras do narrador do “Associação…”: “a paixão de querer ser outra pessoa só não é maior que a de esquecer quem você é”. Essa é a tese central do romance, que você coloca muito bem na pergunta. Em tempos de redes sociais, esse desejo de apagar (ou esconder) a si mesmo para construir um outro que você não é, tomou proporções de um surto psicótico sem precedentes. Não é à toa que muitos leitores hoje em dia gostem tanto da chamada “autoficção”. É que todos fazem “autoficção” diariamente em suas timelines. Cada um faz da própria vida uma ficção fantasiosa, colocando os demais como coadjuvantes da grande novela do seu EU fantasioso. Posso citar um exemplo prático, da data corrente (a entrevista foi realizada no fim de agosto): quando o golpe contra a presidente Dilma ainda não havia sido consolidado, vi muitos amigos afirmarem em rede que pegariam em armas caso acontecesse, que usariam de violência, e isso e aquilo. Agora que o golpe se consolidou, o discurso já se deslocou para um viés mais brando, de elogio às qualidades da presidente e da afirmação de que “a história fará justiça”, etc. Quer dizer: muda-se o roteiro, mas não se larga o personagem. É patético, é triste, é risível, mas é profundamente… humano. Por isso é tão bonito. A humanidade é constituída menos de grandezas e bem mais dessas pequenas baixezas mesmo. Não somos grande merda e ter consciência disso torna a vida mais suportável.

DA – Aí está um dos subtextos a que se ocupa o livro: a possibilidade de ser outro através do ingresso nas redes sociais. Mais que uma fuga, essa pode ser uma condição de anestesia, de mentir para si que há um meio (ou meios) de se esquivar dos problemas reais, da vida que existe no espaço-tempo até o acesso ao smartphone ou ao computador. Não caminhamos, desse modo, muito mais para ser um sósia de nós mesmos que de um outro a quem se guarda admiração?

TADEU SARMENTO – Faz sentido. Acredito que a premissa secreta que move os sósias que frequentam a Associação Robert Walser é a ideia de que ninguém escolhe seu modelo de admiração por acaso. Isso Hussein talvez tenha percebido antes de nós, o que fica claro durante aquele exercício em que ele manda os sósias escreverem o próprio nome na borda das meias. Talvez sejamos incapazes de nos apagar por completo, por isso escolhemos modelos que guardem alguma identificação conosco. Modelos através dos quais possamos trazer à luz aquilo que temos de mais guardado. Nesse sentido, ser um sósia de si mesmo ou de um outro termina dando na mesma. O sósia do Chapman é tão retraído e paranóico quanto o Chapman original. Ele apenas encontrou um palco sobre o qual atuar. Podemos dizer que esse nosso palco é a rede social. “Você não pode fugir de sua própria sombra”, diz Jack London na epígrafe do livro. Sou tão fascinado com essa questão da teatralidade nas redes sociais que depois do “Associação…” escrevi outro romance mais específico sobre o assunto. Não posso dar detalhes porque o livro está em análise em um prêmio por aí. Mas em breve teremos notícias dele. Boas notícias, espero.

DA – O curioso é que, diante dessa sensação reinante de absurdo, o romance abre uma segunda linha temporal, na qual um outro grupo de sósias, ocupando uma cidade tropical onde também se refugiam nazistas, seguem monasticamente os preceitos filosóficos de Immanuel Kant. Como a razão consegue se estabelecer nesse universo frequentado justamente pela falta de lógica? E mais, é possível existir sósias de Kant nos dias de hoje?

TADEU SARMENTO – Essa segunda linha temporal é interessante. Ela não existia na primeira versão do “Associação…”. Tive a ideia de incluí-la depois de me lembrar desse obscuro livro que li na época da faculdade de filosofia. “A vida sexual de Immanuel Kant”, de Frederic Pàges, existe. O livro trata dessa colônia de kantianos e na época do seu lançamento causou um escândalo moderado, relativo a questões de autoria. Resolvi colocá-lo no livro, em uma espécie de exercício metaliterário no estilo Vila-Matas, depois que percebi que para por em xeque a questão da identidade, precisava colocar também em xeque a questão da autoria. A pergunta que o escândalo Pàges/Botul suscitou foi a seguinte: até que ponto um texto perde sua validade quando se descobre que seu autor é também uma invenção ficcional? Pois foi essa a acusação que fizeram a Pàges na época, a de ele ter inventado o filósofo Jean-Baptiste Botul. A partir daí, alguns jornais tentaram desmerecer a obra. Só que essa tentativa de desmerecimento ocorreu, em parte, do fato de Pàges ter enganado muitos com a brincadeira. Isso está bem tratado no “Associação…” e a ligação dessa história com a história da associação de sósias é tão orgânica quanto contrapontual. A ideia dos criminosos nazistas veio depois. Não tem nada a ver com o livro de Pàges. Quanto à pergunta em si, creio que a razão consegue se estabelecer bem em um universo, como você disse, frequentado justamente pela falta de lógica, uma vez que o que consideramos “ilógico” é na verdade um outro tipo de lógica ainda não desvendada. Hoje em dia não só é possível haver sósias de Kant como eles existem de fato. Somos todos nós. O homem moderno, que assassinou Deus para colocar em seu altar vazio a própria consciência como único tribunal e único juiz, é uma invenção kantiana. Somos todos sósias de Kant.

DA – Falando em Deus, recordo-me de ter lido que seu próximo romance, que sai em breve pela Confraria do Vento, chama-se justamente “E se Deus for um de nós?”. Não sei a que ponto pode adiantar a trama, mas há também o uso dessa carga filosófica para expor e problematizar comportamentos e valores sociais modernos, a exemplo do que foi feito em “Associação…”?

TADEU SARMENTO – O “E se Deus for um de nós?” é um romance sobre um assassino em série de ruivas virgens que se envolve com uma irlandesa que muitos acreditam ser uma espécie de Joana D’Arc do IRA. Escrevi o “Associação…” em 2013. De lá para cá, escrevi mais três romances, um deles é o “E se Deus for um de nós?”. Os outros dois estão submetidos a prêmios literários de inéditos. Todos os três que vieram depois diferem em tudo do “Associação…”. Gosto bastante do “Associação…”, mas não pretendo ser um escritor para pares, críticos literários e afins. Quero chegar ao leitor comum (leia-se: leitores não especialistas), enquanto eles existirem. De modo que a resposta é não. Meu romance que sai esse ano pela Confraria é enxuto de referências nem tem jogos filosóficos ou literários metalinguísticos. Seu grande trunfo é o enredo, e a maneira como consegui que esse enredo fluísse bem até o final. Mas continuo com o mesmo senso de humor. E os personagens que surgem com a trama são impagáveis, mas absolutamente verossímeis: operadores de Call Center com distúrbios nervosos, gays homofóbicos, policiais canastrões, adeptos de seitas religiosas malucas, metaleiros nazistas, surfistas com pernas amputadas, traficantes de filmes pornôs ilegais, virgens sodomitas, etc. É também um dos livros mais politicamente incorretos que eu já li (risos). Terei sorte se não for preso depois de lançá-lo. Do jeito que as coisas andam…

DA – Mas já há no “Associação…” a ocorrência desse humor cáustico, de uma ironia cortante que, em certos momentos, pode ser gatilho para o desagrado dos mais obtusos, dos patrulheiros mal-humorados ou mal-intencionados. Pela sua resposta anterior, parece-me que isso não lhe tira o sono nem um pouco. Sendo assim, sua intenção, enquanto escritor, é provocar o leitor, testar sempre seus limites? O politicamente correto é mais um estímulo que uma trava ou, menos ainda, uma constante aporrinhação?

TADEU SARMENTO – Não apenas minha intenção, mas acredito que o que caracteriza a boa literatura é justamente sua capacidade de colocar o leitor em contato com sentimentos e pontos de vistas conflitantes ao seu, e não apenas conflitantes, mas em alguns casos até indigestos. O politicamente correto não deve ser empecilho para escritor nenhum. Muitas vezes é tarefa do escritor dizer como a realidade é, e não como ele, enquanto cidadão, gostaria que fosse. Se num romance há um personagem misógino, homofóbico, racista, etc., como construí-lo sem lançar mão de passagens misóginas, homofóbicas ou racistas? Tudo depende se tais passagens funcionam e/ou são essenciais à narrativa. Note que esta é uma pergunta técnica, não moral. Uma literatura que responda a perguntas morais deixa de ser literatura e vira panfleto de igreja. E caso essas passagens sejam necessárias, o escritor deve estar preparado para negociá-las diante de um possível linchamento público. Claro que, como você coloca muito bem na pergunta, sempre haverá algum mal-intencionado pronto a retirar uma citação de contexto para pilhar um escritor nas redes sociais. É que depois que a fogueira está acesa, qualquer um arruma motivos para levar seu graveto seco para alimentar as chamas. Mas é só isso o que eles têm: um graveto seco. A rede social é como Deus: deu voz a muitas jumentas de Balaão.

DA – Voltando ao romance, uma outra leitura que pode ser feita é a respeito da própria literatura contemporânea. Você parece lançar mão de inúmeras referências literárias como uma maneira de trazer à luz a literatura que é feita e consumida hoje em dia, como se nós, novos autores, fôssemos uma cópia mal-acabada do que nos precedeu. Acredita que os escritores de hoje são sósias que estão longe de respeitar o legado de seus originais?

TADEU SARMENTO – Bem, quem usou a expressão “cópia mal-acabada” foi você (risos). Mas acredito que todo escritor, no início, comece sempre como um sósia, no sentido de escolher um modelo (um “original”) para copiar e dar os primeiros passos na escrita. A fase seguinte é a da negação dessa influência, em um esforço de tentar criar um estilo de escrita. Isso é muito natural, e tem mais a ver com o “desrespeito” do legado da tradição que elegeu como sua, que com o “respeito” (como você colocou na pergunta). Todo escritor passa por esse “assassinato simbólico” do pai, numa tentativa de adquirir autonomia como autor. No fundo, o estilo de um escritor vem a reboque, e depois de muitos anos de escrita. Nasce do exercício diário, da fraude bem ensaiada sobre a soma do estilo de tantos escritores que leu. Só que há também o risco de isso nunca acontecer, de o escritor nunca criar um estilo, e não há problema algum nisso. Temos ótimos escritores que nunca desenvolveram um estilo, mas que executam bem suas ideias e conseguem compor um romance que vale a pena ser lido. Falo de romances porque é a minha praia, mas isso serve para poetas ou contistas também (acho). O “E se Deus for um de nós?” é a minha tentativa de superar, por exemplo, a influência de Roberto Bolaño e de Enrique Vila-Matas na minha escrita e criar um estilo. Terei conseguido? Bem, isso cabe ao leitor dizer. O adjetivo deve sempre partir da boca do outro. Elogiar a si mesmo é falta de decoro.

DA – Você citou um chileno e um espanhol, mas, durante a leitura do “Associação…”, senti uma frequência constante da literatura argentina em sua ficção. Autores como Antonio di Benedetto, Mario Levrero e J. Rodolfo Wilcock (sobretudo nas biografias que ocupam o fim) parecem lhe emprestar traços de seus estilos, de seus teores narrativos, de suas predileções temáticas. De maneira geral, a literatura hispano-americana é uma forte referência para você, enquanto autor e também enquanto leitor? E qual é a sedução dos hermanos, que a literatura brasileira não tem?

TADEU SARMENTO – Minhas referências são sazonais. Já tive meu “ano Bolaño”, onde li tudo o que saiu do escritor chileno pela Companhia das Letras. Tentei acompanhar com frequência a coleção Otra Língua, que saiu pela Rocco e foi capitaneada pelo mestre Joca Reiners Terron. A principal sedução da literatura argentina, para mim, é essa desenvoltura que tem em passear pelos gêneros (alguns ditos “menores”, como o romance policial) e sua capacidade para digerir a própria tradição literária. Nossa literatura ainda é um pouco conservadora nesse sentido e está mais ligada a certa tradição realista. Claro, falo de um modo geral, excetuando-se o próprio Terron, Karam, Nelson Oliveira, Rosário Fusco, Campos de Carvalho, Daniel Pellizzari e tantos outros. Mas sobre as biografias inventadas, o pai de todos nós é o francês Marcel Schwob, autor do genial “Vidas imaginárias”. O Wilcock e o Benedetto que você cita, por exemplo, eu ainda não li. O fato de você perceber traços deles no “Associação…” só prova que bebemos na mesma fonte, que é a fonte ocidental da literatura de invenção.

Tadeu Sarmento
Tadeu Sarmento / Foto: arquivo pessoal

DA – Fonte, aliás, com a qual o “Associação…” inunda suas páginas. Faz tempo que não leio um romance que prioriza, mais que o estilo ou a linguagem, sua potência inventiva. De onde nasceu a inusitada (e fantástica) ideia sobre essa associação de sósias? Como foi o processo de composição do livro? Chegou a recorrer a algum trabalho de pesquisa?

TADEU SARMENTO – Fico feliz que tenha gostado, mas apesar de ser um romance inventivo, como você bem colocou, o gatilho para sua ideia partiu de um acontecimento prosaico: em 2012, eu trabalhava como supervisor em uma empresa de Call Center e conheci um colega de trabalho (Gabriel Dourado, que depois se tornou um grande amigo) que é um sósia anônimo do Mark Chapman. O romance, aliás, é dedicado a ele. Quando o vi pela primeira vez, fiquei intrigado, com aquela impressão que temos quando conhecemos alguém que nos lembra outra pessoa, sem que saibamos qual. Fiquei uns bons dias assim, até que certa noite acordei assustado e gritei: “Meu Deus, Gabriel Dourado é o assassino de John Lennon”(risos). Tive que alertá-lo, sobretudo porque ele andava querendo passar férias nos EUA e precisei dissuadi-lo da ideia, alegando que poderia ter problemas por lá, caso cruzasse com algum beatlemaníaco que, ao vê-lo, poderia acreditar que Chapman houvesse saído da cadeia. Esse foi o pontapé inicial para a ideia do romance. Quanto à associação de sósias, em 2010, tive uma crise de depressão que me levou a passar sete dias em uma clínica para doidinhos moderados. Depois que saí, fiz tratamento por um ano e estou bem desde então. O fato é que tanto na clínica quanto na terapia fora dela, participei de grupos de autoajuda para pessoas na mesma condição em que eu estava. Todas as reuniões da Associação Robert Walser são baseadas nessas reuniões. O próprio prédio da Associação, descrito no romance, lembra muito o prédio da clínica. O bacana foi que, apesar de estar sofrendo na época, consegui enxergar algo de muito cômico e de muito teatral naqueles encontros. Essa marca d’água humorística sobre um desespero terrível perpassa todo o meu romance. Basicamente foi essa minha pesquisa.

DA – O resultado foi a conquista do Prêmio Pernambuco de Literatura, em 2015. Na ocasião, você já tinha dois livros lançados, portanto como esse prêmio refletiu na sua carreira literária? Há uma ideia de que uma distinção literária de repercussão nacional, quando não envolve uma boa recompensa financeira, serve para projetar o autor para um público maior, para uma grande editora. Qual foi a sua experiência, nesse caso? Qual o valor real de um prêmio literário? 

TADEU SARMENTO – Refletiu no sentido de que tive oportunidades que não teria se não ganhasse o Prêmio. Conheci pessoas. Fui chamado para lugares. Costumo dizer que o II Prêmio Pernambuco de Literatura me salvou. Já havia disponibilizado 11 livros inéditos na internet e estava prestes a pendurar as chuteiras (leia-se: não querer mais publicar e seguir escrevendo para sempre no anonimato), mas o Prêmio Pernambuco mudou tudo isso. Ganhei um bom dinheiro também, com o qual pude comprar um computador de ponta e um software original do Word. Mas você sabe melhor do que eu, Sérgio, que essa glória dura pouco tempo. Logo vem a próxima edição do prêmio e somos esquecidos tão rápido quanto. O dinheiro acaba também. É assim que a coisa funciona e é bom que funcione assim, pois 99% do principal trabalho do escritor acontece no anonimato e na solidão. Algo que digo em favor do Prêmio Pernambuco de Literatura é que é um prêmio sério. Quando o ganhei, não conhecia ninguém no meio literário, estava enfurnado há quatro anos em uma empresa de Call Center, comendo o pão que o Diabo amassou, cagou e cuspiu em cima. Ganhei pelo texto mesmo, com uso de pseudônimo. Eu e mais meus três (hoje) amigos Helder Herik, Rômulo César e Wander Shirukaya (que levou o prêmio principal)… taí, acho que a amizade desses três caras foi a melhor coisa que o Prêmio me deu. Se for medir o valor real do Prêmio pela amizade deles, eu diria que é um valor inestimável.

DA – Pois é, isso é algo que eu desconhecia e realmente me impressionou: o fato de você ter publicado 11 livros na internet, num espaço de tempo tão curto. Tem autores consagrados que, durante toda a carreira literária, não chegaram a esse número. O que o levou a essa iniciativa: falta de oportunidade por parte das editoras, vontade de ter o controle de todo o processo, ímpeto? E hoje, olhando para trás, faria o mesmo? Não acha que, se tivesse um pouco de paciência, esse material poderia ser mais batalhado e, quem sabe, chegar ao papel, por um selo editorial?

TADEU SARMENTO – Na verdade, são livros incompletos ou mal finalizados, romances em sua maioria, cujas ideias não consegui levar adiante. Na época, pus lá a título de curiosidade mesmo, aproveitando o fato de que estava desencantado com tudo e duvidando até mesmo da minha capacidade de escrever. As únicas exceções foram o livro de contos “Breves Fraturas Portáteis” e o romance “Lautréamont Press”. Destes, eu gosto bastante. O primeiro chegou a ser publicado em 2004. O segundo perdeu merecidamente um Prêmio SESC para o grande André de Leones, cujo romance de estreia, “Hoje está um dia morto”, é infinitamente melhor conduzido que ele. Mas houve um livro que não disponibilizei, uma novela chamada “Matadouro”. Foi escrita na mesma época que os outros, mas é muito bem acabada. O argumento gira em torno de um homem que decide abrir um puteiro só com travestis para juntar grana e fazer uma operação de sexo na mulher que ele ama, que também é travesti. Esse está guardado. O fato é que não me arrependo. Hoje olho para eles e vejo exercícios de estilo que me trouxeram até onde estou. Todos foram escritos entre 1997 e 2007, mais ou menos. E vou te contar: tenho um ritmo de produção acelerado, além de muita disciplina para escrever e quase zero de vida social. Depois do “Associação…”, por exemplo, escrevi o “E se Deus for um de nós?” (que sai pela Confraria esse ano) e tenho mais sete livros inéditos (um romance longo e mais seis novelas de cem páginas, em média). A maioria está pendurada em algum prêmio literário. Não sofro dessa pressa para publicar. Tenho uma primeira leitora exigentíssima (a poeta Adriane Garcia) que supre em parte essa necessidade de comunicação que tenho, que todos os escritores têm, e que é o que nos leva a querer publicar depressa. Acho a pressa a inimiga não da perfeição, mas do escritor. A profusão de gráficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situação. Mas graças a Adriane, posso ficar meses, até mesmo anos, com um livro na gaveta. Enxugando e reescrevendo…

DA – Você está corretíssimo: a Adriane é uma grande escritora, vide a antologia poética “Só, com peixes”. Aliás, você também escreve poesia, mas logo falamos sobre isso. O que gostaria de destacar é o surgimento de uma nova geração de escritores nordestinos que, nos últimos anos, vem abocanhando um tanto de prêmios literários. Para se ter uma ideia, o último Prêmio São Paulo de Literatura teve as suas três categorias vencidas por autores nascidos no Nordeste. O mesmo tem ocorrido com o Prêmio Sesc de Literatura e outros mais. Natural de Recife, como observa esse momento? Há algo realmente de inovador ocorrendo na região? E, para além dos limites territoriais, nota que existe uma resistência dos chamados grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos? 

TADEU SARMENTO – Pergunta difícil, não sei se tenho conhecimento nem segurança suficiente para responder. No meu ponto de vista não se pode mais medir a literatura por essa régua regionalista. De modo que à pergunta sobre se há algo de inovador acontecendo no nordeste em termos literários eu respondo pensando no Brasil como um todo. Há algo de inovador acontecendo com a literatura brasileira contemporânea? Resposta: sim. O quê? A participação das mulheres. O futuro da literatura é das mulheres. Não é à toa que em 2016 elas levaram a quase totalidade dos prêmios literários. E veja bem: não sou um homem feminista, isso não existe. Digo até que sou um machista na condicional. Para nós seria mais cômodo se elas quisessem permanecer na cozinha. Mas elas não quiseram; mérito delas, sorte nossa. O fato é que leitor nenhum aguenta mais o modelo clássico-masculino Bukowski: putinha, álcool, sexo, mimimi. Leitor nenhum aguenta mais a figura do outsider que passou fome e venceu como artista. Leitor nenhum se interessa mais pela vida sexual dos escritores. Isso é coisa de retardado mental, e o escritor que fugir desse modelo poderá dividir espaço com as mulheres. Escritoras como Betzaida Mata, Martha Batalha, Cinthia Kriemler, Carol Bensimon; poetas como Adriane Garcia, Carla Diacov, trazem experiências novas e visões de mundo diversas, até então pouco ou nunca tratadas literariamente. Saindo um pouco do Brasil, a mexicana Valeria Luiselli, por exemplo, com “Rostos na multidão” escreveu um grande romance sobre a difícil relação entre a maternidade e a vida de escritora. Um livro surpreendente. Que escritora fará o próximo? Tenho até um palpite, mas não quero estragar a surpresa. Quanto à outra pergunta, não acredito que exista essa resistência dos grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos. Grandes grupos editoriais querem vender livros e lucrar. Duvido que se importem se seus autores são nordestinos, índios, marcianos ou sacis-pererês.

DA – O que achou de toda aquela polêmica envolvendo o termo “literatura feminina”?

TADEU SARMENTO – Uma bobagem. Voltamos às redes sociais: elas são lentes de aumento que, de um traque de massa, esperam gerar uma grande explosão. É uma espécie de histeria coletiva que se alimenta de polêmicas fabricadas. A sorte (ou má sorte, depende) é que essas discussões “infindáveis” raramente duram mais de vinte e quatro horas. Logo o enxame se agarra ao rabo de cometa de outra polêmica e segue seu caminho rumo ao inevitável nada. Isso que se chama “literatura feminina” não existe. Existe a Literatura. É válida a discussão de uma maior participação das escritoras em espaços públicos antes só ocupados por escritores? Claro que é. Mas para isso não precisamos criar mais um rótulo. Os que já têm já bastam.

DA – Queria voltar, então, a uma observação que você fez lá atrás. Quando colocou que “a profusão de gráficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situação”, você tocou num ponto que sempre trago para minhas discussões com autores e editores, que é a proliferação das oportunidades de publicação. Sei que tem um lado positivo, sobretudo para os autores que não conseguem acesso aos grandes selos, porém me preocupa o fato de termos uma leva de títulos de escritores ainda imaturos, que poderiam ter estreado de uma forma muito mais consistente e na hora certa. O que pensa sobre essas pequenas editoras que, de fato, são fábricas de publicações? Acredita que isso, a longo prazo, terá um efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira?

TADEU SARMENTO – Tem uma frase do Kierkegaard que gosto muito: “Há uma impaciência que quer colher antes de semear; deixemos que a ironia a discipline”. As pequenas editoras têm um papel essencial: apostar em novos autores que, por N motivos, não teriam acesso aos grandes selos (como você os chamou). Apresentar esse autor ao mercado de leitores. Fazê-lo circular. Dar visibilidade à sua voz. A única coisa que está faltando, de um modo geral, às pequenas editoras é justamente a figura de um editor (ou editora) que freie essa impaciência supracitada e trabalhe as arestas do manuscrito junto com o escritor até que fique pronto. Precisa ser um editor ou editora comprometido com a Literatura; e que conheça a melhor maneira de fazer com que esse texto chegue aos seus leitores. É isso que está faltando. Editoras como Karla Melo (da Confraria do Vento), que trabalham nesse sentido, são uma raridade. Mas para se chegar nesse nível é preciso ter critérios de qualidade. É preciso ter disposição. Seriedade. Fazer livros não é só meter uma capa, colar as páginas e mandar imprimir. Existe todo um trabalho prévio. Esse trabalho prévio é o que distingue editores de donos de gráfica. Imprimir livros não tem nada a ver com Literatura. Construir um livro, sim. O bom editor ou editora é aquele que redescobre o texto do autor para ele mesmo. Mas não acredito que isso tenha efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira de um modo geral. O que tem esse efeito incisivo (e negativo) é a péssima qualidade da educação do nosso país. Se nosso agonizante ex-governo de esquerda tivesse investido maciçamente em educação de base desde 2003, teríamos hoje a primeira geração de adolescentes bem formados. Em vez disso temos… bem, temos o que temos. “Mas a educação de base não é obrigação do governo federal”, dizem alguns. Isso é verdade, mas E DAÍ? Eu quero os CIEPs de Darcy Ribeiro implantados em todo o país. Não aceito nada menos que isso. Dinheiro temos. O que não temos é a educação como prioridade. Daí a fórmula é fácil: sem educação, sem leitores – e uma Bienal do Livro cuja principal atração são os youtubers. Então, diante da escassez de leitores, escritores e escritoras fazem o diabo para chamar a atenção: poetas tiram a roupa na rede; escritores forjam a própria morte ou inventam papinhos de miséria. E a Literatura vai ficando cada vez mais em segundo plano até virar um apêndice, uma nota de rodapé.

DA – Não faz muito tempo, ouvi de uma pessoa do mercado editorial que o escritor, hoje em dia, tem de ter muito mais que talento literário. O seu valor seria determinado pelo quanto de curtidas têm suas postagens no Facebook, o quanto de seguidores atraem suas redes sociais, pelo tanto de pessoas que enchem auditórios para ouvi-lo falar de qualquer coisa, mais a literatura. O escritor, afinal, teria mais importância pelo que é, do que pelo que escreve. O que pensa dessa colocação?

TADEU SARMENTO – É uma colocação realista, de alguém preocupado mais com venda de livros que com a qualidade do texto em si. Acho algo natural. As grandes editoras, afinal de contas, têm um corpo de funcionários considerável e precisam sobreviver e sobrevivem vendendo livros. Mas isso não deve ser preocupação do escritor. Já na própria fonte do texto o escritor submete a palavra, ao mesmo tempo, a um princípio de exclusão e desigualdade. O escritor procura seus iguais, excluindo todos os outros. A linguagem que escolhe e as imagens que utiliza restringem o acesso ao seu estilo de pensamento. Querer ser lido por todos é uma carência de neuróticos. Claro que todo escritor quer vender o máximo de livros possível, a questão é saber até que ponto está disposto a ir para conseguir isso. Só que acrescentar mais água para alimentar a todos é correr o risco de deixar a sopa mais rala. E isso não dá garantia nenhuma. Porque o público que curte e segue um escritor nas redes não é necessariamente um público leitor em potencial. Quase tudo nas redes é fugaz, superficial, volátil e fútil. Mas enxergo a questão sem romantismos. Acho até bom que uma editora mantenha esse tipo de bucha de canhão na linha de frente, para vender milhões de livros durante um surto de pieguices. É uma maneira de capitalizar a editora. Capitalizada, ela pode decidir apostar em outro autor que não venda tanto, mas que tenha um trabalho consistente. Bons autores dão prestígio a uma editora. Editoras não vivem só de dinheiro.

DA – Numa resposta lá atrás, referente ao seu novo livro, você declara que seu objetivo é “chegar ao leitor comum, enquanto eles existirem”. E agora coloca uma fórmula de que “sem educação, sem leitores”. Parece-me, desse modo, uma equação complexa cujo resultado, se não for igual a zero, é potencialmente negativo. O quadro é, de fato, irreversível ou ainda há solução?

TADEU SARMENTO – A única coisa irreversível é a morte. No fundo sou um otimista envergonhado. Também não posso confirmar se, com um nível educacional melhor, teremos mais leitores. Tudo o que eu disse foram conjecturas. É difícil pensar em uma massa de leitores num país como o nosso, que foi inserido na era da cultura das imagens sem cumprir antes seu ciclo de alfabetização. Não sei se a Literatura será capaz de competir com todo o resto (redes sociais, etc.) quando esse nível educacional supostamente subir. Quando digo que meu objetivo é chegar ao leitor comum é por acreditar que o escritor tem um papel individual nisso, que é o de construir histórias cada vez mais bem contadas, que prendam a atenção do leitor até o fim. Não quero me fechar em um mundo particular e escrever histórias ininteligíveis para a adoração de um seleto grupo de jacarés empalhados. Quero escrever um texto cada vez mais fluido e mais simples, com histórias cada vez melhor arquitetadas. Temos (nós, escritores) na ponta da língua várias desculpas para o reduzido número de leitores atuais: desde a não formação de hábitos de leitura até nossos problemas educacionais – e todos estão corretíssimos em apontá-los e querer debatê-los. Só que se não fizermos nosso mea culpa não sairemos do raio de reclamação. O escritor deve pretender se dirigir, tanto quanto possível, para uma plateia cada vez mais ampla, em vez de querer desancá-la com esnobismos. Somos parcialmente culpados por esse êxodo de leitores, afinal, nós os espantamos, depois de anos e anos de hermetismos pós-modernos. Conheço escritores que ficam de fato emburrados quando o leitor compreende seu texto, pois no fundo acreditam que a ininteligibilidade é o mais alto padrão qualitativo. Mas se um escritor não trabalha para ser lido com clareza é para quê então?

DA – Há pouco, falamos rapidamente sobre poesia e agora quero retornar ao assunto. Embora sua ficção se dedique mais à prosa, na forma de contos, novelas e romances, você também escreve poemas. Como se relaciona com a poesia? De que maneira e a que ponto o gênero lhe motiva, em seus encontros com a literatura, em seus processos criativos?

TADEU SARMENTO – Minha relação com a poesia é bissexta. Não sou um grande leitor de poesia também. É uma deficiência cognitiva que tenho e que a Adriane agora está tentando corrigir (me indicando bons poetas para ler, lendo bons poemas para mim). E sempre que escrevo um poema nunca estou seguro de sua qualidade. Não me sinto à vontade no gênero, para ser honesto. Sempre acho meus poemas muito formais, empostados e anacrônicos. E tinha muita birra com poetas antigamente. Agora levo na brincadeira a mania que eles têm de sempre achar uma brecha para recitar poemas em tudo que é canto, lugar ou hora imprópria. Parece até que poetas vêm com um “timing” interno que os avisa quando aquela é a hora mais imprópria para recitar. Então eles se levantam e recitam. Parecem pastores no púlpito. Claro que estou exagerando um pouco. Tenho grandes amigos com esse defeito absolutamente perdoável. A Adriane vai bater em mim quando ler isso. Mas no fundo admiro muito os poetas. Os grandes. Os loucos. Os Papasquiaros da vida. Bolaño diz, em “2666”, que poetas são os únicos que estão fora do jogo. Que não se vendem. E estão mesmo. E não se vendem mesmo. São artistas. Pelo menos os maiores são.

DA – O que é essa necessidade de escrever?

TADEU SARMENTO – É uma vocação. Só de encontrar minha vocação já me sinto um privilegiado. Isso soa até piegas e talvez seja mesmo, mas não há definição mais acertada. É também uma maneira de me relacionar com o mundo, de digerir a realidade pelo viés da imaginação. No fundo sou um moralista que quer dar sentido àquilo que não tem sentido. Escrever um romance é uma forma de reordenar os fatos. Talvez por isso que, com o tempo, eu tenha optado por escrever narrativas longas. Escrever é uma maneira de me manter coeso, funcional, e escrever narrativas longas me mantém assim por mais tempo. Mas, sobretudo, escrever é uma maneira de conquistar um lugar no mundo. Trabalhei em um Call Center por quatro anos e todos sabem que Call Centers são considerados um dos piores lugares para se trabalhar. Suportei toda sorte de cansaço e humilhações porque sabia quem eu era, porque tinha à mão algo pelo que abandonar todas as demais minoridades da vida e me concentrar em um único foco. Quem se livra de bagagens pesadas para seguir um declive deve sentir-se assim como me sinto quando escrevo.

DA – Se você pudesse escolher ser um sósia, de quem seria?

TADEU SARMENTO – De Philip K Dick. Algumas pessoas até me acham parecido com ele.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.