Categorias
112ª Leva - 06/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

O ano, 1998. O espírito que paira na atmosfera de ações traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, há que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que são ligados à arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genuíno desejo de transformação. Evidenciar os sentimentos humanos é, sem dúvida alguma, um diferencial de qualquer investida artística. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Griô.

Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz Tânia Soares, o também ator Rafael Morais demarca os primeiros passos do que é hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente também do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e Tânia voltaram suas atenções para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abraçando fundamentalmente o viés da narração de histórias, o Grupo Teatro Griô assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudanças no ser pensante e pulsante.

Sobretudo depois de testemunhar alguns espetáculos do grupo, os quais mostram o quão viva está a nossa memória diante dos caminhos da expressão oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que espécie de sustentáculo mantém acesos tais caminhos da arte. Com suas feições de ator, diretor, professor, Mestre em Artes Cênicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e também seus abismos.

Na conversa de agora, fica registrado um breve balanço desses 18 anos de atividade do grupo, através do qual Rafael Morais confessa que ali está também a dinâmica real de sua expressão enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, é marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.

 

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O Teatro Griô surge como resposta a alguma necessidade em especial?

RAFAEL MORAIS – O surgimento do Teatro Griô não foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa própria cultura. Na época, estávamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na Itália e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e também da área de palhaço. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresentação que falasse das nossas histórias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich, me convidou para ir a um terreiro de Candomblé em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do Núcleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e Tânia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valorização da cultura oral, das histórias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir daí, esse universo da tradição foi nos arrebatando. Isso em 1998. Começamos a desenvolver uma metodologia própria para levar essas histórias para as crianças da escola, os professores e também para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposição dessas narrativas de tradição oral para a cena. Então, encenamos algumas histórias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que não fosse o teatro tradicional. Vimos que o que fazíamos naquele momento em termos de teatro não contemplava aquele universo. À medida que íamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas histórias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o público, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de histórias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo não artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas histórias e pensou que tinham tudo a ver com o que estávamos querendo, mas nem sabíamos direito o que desejávamos encontrar. Foi a arte de contar histórias.  Percebi que ela contemplava tudo o que buscávamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa própria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espaços. Queria fazer algo que não fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do público, nos barracões, escolas, terreiros, praças.

DA – Qual a importância do viés da matriz africana no trabalho de vocês?

RAFAEL MORAIS – Foi desde o início uma grande inspiração. No entanto, o Teatro Griô não se limita às narrativas de tradição oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradição oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Então, narramos histórias da Península Ibérica, da Rússia, Índia, do Oriente, dos árabes. Com a cultura afro-brasileira não poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas histórias, cantigas e narrativas como um todo são predominantes. Ela tem uma importância muito grande por conta até desse contato com o público. A gente trata de histórias do mundo inteiro e temos diversos espetáculos inspirados em histórias de vários lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, já éramos muito ligados a histórias da mitologia grega, nossa formação ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orixás, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas histórias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a junção da palavra cantada, essa ligação entre o sagrado, o mítico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de histórias de matriz africana, não somente dos Orixás, mas histórias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar histórias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Também temos histórias fascinantes em todos os povos, como é o caso dos árabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as histórias dos irmãos Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fantástico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para nós nesse universo da tradição oral.

DA – Há um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente exótico, como se não houvesse um reflexo possível na realidade. O que você acha dessa redução?

RAFAEL MORAIS – Esse não é nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. Não tem nada dessa questão do exótico, do que as pessoas chamam de folclórico, de buscar esses elementos que sejam mais histriônicos. A importância dessa cultura é muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura é nosso berço de civilização, de humanização e formação. Acho que isso também está muito relacionado à tradição oral, à questão de uma certa importância maior que se dá à palavra escrita como se a oralidade não fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma questão cultural, política, ideológica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da África não presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o quão equivocada é essa visão de mundo que coloca a tradição oral, as referências africanas como algo menor. Temos alguns avanços acontecendo, algumas leis, como é o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas às vezes não sabem como fazer. Alguns professores não têm a formação adequada, não sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma formação que privilegia o eurocêntrico, desprestigiando tudo o que vem da África. Mas sinto que isso está mudando. No Teatro Griô, fugimos esteticamente desse campo do exótico. Inclusive, fazemos questão de não levar para a cena essa visão de mundo, tanto que não representamos, por exemplo, Orixás em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das canções, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das histórias em evidência. Essa dramaturgia é construída não para reforçar o exótico. Temos, por exemplo, o espetáculo “Histórias de Mãe Beata” que é bem simples, mas que é uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas vão contando histórias, mas em nenhum momento representamos os Orixás em cena. Não vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. É uma atitude também de respeito e de aprofundar essas questões. Acho que é um perigo muito grande você tratar um universo tão rico como algo simplesmente exótico. É um desserviço e um desrespeito, até uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional você se apropriar dela e não devolvê-la como se deveria. Buscamos valorizar a vivência, que é tão rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, não apenas os griôs, mas os akpalôs, que significam fazedores de histórias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em São Paulo cinco espetáculos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do Céu, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas histórias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram não porque acharam engraçado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a questão das cantigas, com essa coisa do feitiço das palavras, do sagrado com uma condição de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, vão para o prazer no sentido do corpo que dança, está vivo e ligado à magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela está em todos os povos. Se você for ver as histórias dos nórdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia está presente nelas. As histórias afro-brasileiras encantam porque mantêm ainda viva essa sabedoria que está muitas vezes mais generalista do que específica, valorizando a vivência, a experiência, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. É muito lindo esse universo. Não tem como reduzir ao exótico. Tratamos essas histórias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas referências. As histórias que o Teatro Griô acaba levando para pessoas de diferentes lugares têm um papel muito importante de ser mais uma referência. É muito bacana percebermos as crianças afrodescendentes assistindo o espetáculo e se reconhecendo nele a partir das histórias e não da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. É a história que passa adiante, o universo do imaginário. Então, é uma riqueza e um poder muito maior do que a própria imagem que está se vendo ali. Uma importância muito grande nesse sentido de formação e de educação. A narração de histórias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizatória, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os heróis e anti-heróis. As histórias aproximam as pessoas, não as excluem. É a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Além de uma importância grande de formação e educação, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas histórias e que às vezes está por baixo de um véu de exotismo e de ridicularização do outro. A arte de narrar histórias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa vivência cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que são importantes enquanto reconhecimento das diferenças, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

DA – O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da memória?

RAFAEL MORAIS – Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contrário, que aquilo que não escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, não conseguimos registrar. A tradição oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a memória é viva, o tempo inteiro a gente está reinventando, revendo tudo. A tradição oral tem muitas funções e estratégias mnemotécnicas de fazer permanecer essa memória a partir das suas transformações. Temos muito material de tradição oral que se manteve vivo além da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, estão aí nas coletâneas de recontos, histórias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o próprio povo conhecer essas histórias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradição oral mantém essa palavra viva, que não está ali só cristalizada, mantém a magia. A magia você encontra no conto que está escrito, mas é bem diverso de você poder ouvir uma história de boca para ouvido. Essa dinâmica da tradição oral tem sua própria força porque é flexível, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente já construiu há muitos séculos. É como se fosse uma espiral nesse movimento de memória e de passagem dessa tradição. A própria arte de narrar histórias sempre foi essa mantenedora, a trama da história sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gerações. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de histórias nas vivências de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de interação, mas esse mecanismo de memória continua vivo o tempo inteiro no ser humano. Nós todos somos seres épicos, narrativos, além de lúdicos e pensantes. Por que será que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que é que hoje em diversos ambientes que chegamos há o interesse de pessoas de todas as idades com as histórias de tradição oral? É algo inexplicável. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televisão, nos joguinhos, mas quando eles estão diante de uma história que está sendo contada é como se reacendesse um mistério na memória dessas crianças. Essas crianças são de todas as idades, pois em alguns espetáculos nossos, às vezes, vêm adultos sozinhos. Nosso público é bem heterogêneo e é bem bacana perceber esse jogo de memória que há na gente, essa necessidade de ouvir essas histórias e depois sair espalhando elas por aí. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular está viva nas cantigas, não somente naquelas de infância, mas também nas cantigas de trabalho, nos mutirões, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo país. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. É uma maneira de se preservar através da música. É interessante que as histórias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na África por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da história. No Teatro Griô, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra lírica.

DA – A contação de histórias pode ser melhor abrigada no seio da educação formal?

RAFAEL MORAIS – Com certeza. E não apenas com objetivo explícito de ensinar, pois a história, a narrativa de tradição oral transcende a informação e educação, vai além, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, você está o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sessão de histórias é difícil de descrever no sentido mais amplo porque é muito profundo. Além de tudo o que está sendo ensinado a partir da narrativa, a história ensina por si só nessa experiência de arte. As escolas muitas vezes estão preocupadas apenas com um depósito de informações para uma resolução prática que é fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que está ali para aprender. Aprender não somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A história vem para esse campo da convivência, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a você perceber o universo do imaginário, que é tão rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narração de histórias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento até nossa despedida aqui dessa experiência de vida. O tempo inteiro estamos contando histórias. O bom professor conta histórias a todo tempo, mesmo quando não acha. Um tema bem narrado é o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que não está acessível ao outro ser. Os excelentes professores têm esse domínio da narrativa, da comunicação. Muitas vezes a gente vê a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de apreciação estética nas escolas, pois senão ficamos colocando a arte a serviço de determinados conteúdos. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imaginário. Precisamos descobrir isso com urgência para dar um pouco mais de frescor à educação. A arte de contar histórias vai num ponto crucial da educação, que é o pensamento crítico, a formação desse ser que é capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar histórias não entrega tudo de bandeja, ela convida você a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que não está ensinando, está ali aprendendo junto. É nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que é a arte de narrar histórias. É muito bonito você perceber o aprendizado que surge daí. E, claro, não tem nada a ver com as lições de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a criança. Na arte de contar, a história passa à frente e as pessoas vão conseguindo fazer suas próprias interpretações sem que alguém precise impor algo, dizendo que é isso ou aquilo.  É um momento de liberdade artística, no qual as histórias podem ser aliadas da educação com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor está no próprio encontro da narração, momentos das pessoas poderem ouvir e contar histórias sem se preocupar com os mecanismos didáticos.

DA – Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Griô é a multiplicidade de atuações, ou seja, não apenas a encenação dos espetáculos é o foco, mas também desdobramentos variados sob o ponto de vista da formação, das rodas de conversa, intercâmbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, música, dança. Como é atuar dentro dessa intenção multifacetada?

RAFAEL MORAIS – É um presente para o artista. Uma oportunidade de não separar as possibilidades criativas de expressão. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Você está ali contando a história, mas de forma plena, com movimento. No sentido da formação, ela é muito ampla, de elementos do cômico, do palhaço, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com relação ao espaço cênico da rua é fantástico. Essa possibilidade de ter esses elementos técnicos da voz, da interação com o público, da disposição do espaço. O Teatro Griô é realmente um presente para nós que o integramos porque é nossa morada artística, digamos assim. É a possibilidade de você conviver com tudo aquilo que acredita. É uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. É uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o público. Ao mesmo tempo em que é um presente, é também um desafio você lidar com essa metodologia do Teatro Griô, tanto que vira e mexe a gente faz audição, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira própria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que você falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que é esse mundo do espetáculo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de convivência do público com os narradores, as histórias. E, claro, tem todo um aprimoramento técnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. É um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana é que os atores não sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente já tem os narradores tocando percussão, rabeca, acordeom. É um trabalho que não para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. É muito instigante fazer parte como artista desse núcleo.  Mas a tradição oral, a palavra viva, é o que dá unidade a todo esse trabalho.

DA – O que dizer da resposta do público nesses diferentes ambientes por onde vocês circulam?

RAFAEL MORAIS – Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e às vezes quer atingir um público distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da Música, no Abaeté, em Itapuã, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o público tem acompanhado a gente. As pessoas vão percebendo o grupo como uma grande família e criam um certo vínculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das histórias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as histórias, que não é teatro convencional, um caminho artístico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade é ótima. Em São Paulo, por exemplo, a recepção foi fantástica. As pessoas lotavam as apresentações, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas histórias. Engraçado que tem gente que pergunta se as histórias são reais. Então, o vínculo que criamos com o público acaba sendo de cumplicidade. Acho que é o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas estão se importando. Em São Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do país, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar três espetáculos nossos num festival internacional de narração oral porque o público assistiu. É um envolvimento que não é frio. A gente acaba de alguma forma passando para o público um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa relação de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o público percebe.

O Grupo Teatro Griô - Foto - divulgação
O Grupo Teatro Griô / Foto: divulgação

DA – Salvador é uma cidade que abraça verdadeiramente o teatro?

RAFAEL MORAIS – Pergunta complexa (risos), porque há vários públicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia é muito paradoxal mesmo. Você não tem um único jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com relação a essa recepção. O teatro pode ser melhor abraçado. Tem um amigo que diz que se amanhã fecharem todos os teatros de Salvador, ninguém vai sentir falta (risos). É uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas não vão protestar. O teatro também é algo muito amplo. A Bahia tem uma tradição de teatro muito grande, não só pela primeira faculdade da América Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas também pelo histórico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador é muito forte. Quando cheguei em Salvador há quase 20 anos, senti que a pulsação de espetáculos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atração do público, de constância do público buscando os espetáculos. Porém, quando acontecem determinados espetáculos, o público vem. Então, não é algo estático. Tem a coisa do mercado também, não é só questão do público abraçar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o público ama teatro, a gente percebe que ele poderia abraçar mais. No entanto, quando acontecem os espetáculos de rua, alguns atingem um público imenso. O que tem acontecido com o Teatro Griô é o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estratégias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia é muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O público que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afeição das pessoas com espetáculos realizados na rua, não há um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espetáculos quando eles acontecem. Fizemos um espetáculo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recepção era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com relação a isso, o público abraça mesmo. Você conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim não fazem com aquela constância porque se acredita que não tem tradição, mas tem sim. O público quer abraçar, mas como vai fazer isso se não tem muitas vezes algo que se aproxima dele?

DA – O que o faz continuar naquilo que você definiu como a arte de sonhar acordado?

RAFAEL MORAIS – Essa pergunta é muito difícil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, não só na Bahia, mas no Brasil, não é fácil, pois além das dificuldades do ofício, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que não era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para trás, percebo que realmente é meu caminho. Não dá pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo há um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte é pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espetáculos, do processo criativo que por si só já é algo efêmero. Aí, a gente seguindo adiante com isso é muita coragem. Agora, não me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma segurança no sentido material. Mas acho que é a arte que me mantém vivo, pois abraço um caminho de crescimento e vida, um ofício. É meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso é muito profundo. É ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica você fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que não é fácil para ninguém, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se dá ao pessoal que segue esse ofício das histórias é Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em você. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas funções ditas artísticas, mas não vive ele. Você não consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. É também a ideia da missão. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo é maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e você não tem saída. E também você acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem vários artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Então, você acaba entrelaçando sua missão com as de outros parceiros cúmplices. Eu e Tânia, que fundamos o Teatro Griô, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha também, que desde pequenininha está envolvida no universo artístico do teatro. A gente virou uma grande família que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas também com muita alegria. As dificuldades não são a tônica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que não sabemos dizer o que é.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. 

 

Categorias
111ª Leva - 05/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

Há duas maneiras de um escritor revisitar o passado: por meio da autobiografia ou através da ficção. Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, o mineiro Ronaldo Cagiano se posiciona diante do cruzamento entre essas duas vias, acessando os fatos que constituem sua obra ao converter matéria autobiográfica em matéria literária.

O resultado é um diálogo permanente entre invenção e memória, no qual os personagens são agentes de suas próprias histórias, mas também a consciência latente do autor observando a própria vida a uma devida distância. A infância na pequena cidade de Cataguases, a descoberta da leitura, a poesia como faísca elementar para a escrita, as mudanças para Brasília e, anos depois, para São Paulo.

Uma formação humana permeada pela literatura e por uma galeria de autores cujas influências apontam um norte e explicam a própria carreira. “Creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura”, conclui.

Em entrevista exclusiva, Cagiano esclarece as circunstâncias por trás de alguns dos contos, partindo de assuntos específicos para fazer uma ampla reflexão sobre o ofício da escrita. Com mais de uma dezena de livros publicados, entre novelas, antologias poéticas e infantojuvenis, o autor ainda debate os (des)caminhos do mercado literário, o surgimento de novos autores e editoras, a parceria com a escritora Eltânia André, cujo primeiro romance já está no prelo, e sua atuação como crítico de livros, pelo qual é um dos mais respeitados do país. “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, justifica o empenho em prol de um fazer literário que vai além do seu.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, você utiliza como matéria ficcional a memória, as lembranças de lugares e de pessoas da cidade mineira de Cataguases, onde nasceu. Acredita que todo escritor, em algum momento, invariavelmente volta para casa?

RONALDO CAGIANO – Creio que a literatura é uma ponte entre o passado (com sua carga de memória ancestral: afetiva, geográfica, familiar, psicológica, histórica) e o presente. Estamos sempre dialogando com nossas raízes e experiências remotas. Penso que tanto na prosa quanto na poesia não há escrita puro-sangue, ou seja, tudo que escrevemos é um diálogo entre a invenção e a memória, pois, como dizia Cyro dos Anjos, “a literatura se nutre do real”. Assim, vejo Cataguases como o Capiberibe de “Cão sem plumas”, de João Cabral, pois minha cidade é como aquele rio: “Está na memória; como um cão vivo/ dentro de uma sala”. Vivi até os 18 anos em Cataguases, passei 28 anos em Brasília. Se esta me deu régua e compasso, como na música de Gil, foi Cataguases quem me (in)formou como ser, como leitor e como escritor. A mitologia da cidade é (o) que me alimenta ficcional e poeticamente, pois quando volto os olhos para o vazio ou do escuro do passado, é de lá que retiro matéria e circunstâncias para minha prosa e minha poesia. E a barbearia do meu pai foi a grande escola desse aprendizado de ver e ler o mundo, em seu salão, onde fui engraxate dos 8 aos 14 anos, (re)colhi as histórias da cidade, capt(ur)ei o seu imaginário e chafurdei no seu inconsciente,  uma espécie de vitrine crítica da vida individual, coletiva, social e política. A cidade povoa minha experiência criativa a partir dali, onde circulavam multifários seres, de onde eu mirava, como um promontório, os acontecimentos do dia a dia, as figuras folclóricas e pitorescas, a gente miúda em sua coreografia diária pelas ruas, esses tecelões de mistérios que tanto invocaram nossa imaginação. “Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”, disse Walter Benjamin, assim a cada conto, a cada história, a cada poema, tendo desvelar a face de uma cidade que a cada dia, apesar da distância dos anos e do meu asilo em outras plagas, é a mesma e é outra.

DA – O poema de João Cabral, a que se refere, está no conto “Sombras”, possivelmente o mais emotivo da coletânea, um tipo de relato inflexivo no qual você transporta, para o contexto imaginário, o luto que, mesmo com o escorrer dos anos, não se dissolve por completo. Livros, como “Carta a D.”, de André Gorz, e “Altos voos e quedas livres”, de Julian Barnes, tratam igualmente desse sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém muito querido. Você acredita que a literatura, de alguma forma, é um canal pelo que esse vazio possa ser confrontado ou, ao menos, compreendido?

RONALDO CAGIANO – Nesse conto, particularmente, (es)corre uma espécie de hidrografia sentimental: no fluxo das lembranças de um acontecimento real, migrei para a ficção a experiência de um luto sofrido por uma família, que teve de purgar a dor de uma perda tão precoce. Creio também na literatura como instância para certas catarses, em que a vivência pessoal (ou a alheia que, muitas vezes também nos servem como fonte literária) nos possibilita um mergulho e uma reflexão sobre as imponderáveis contingências de nosso percurso ou de nosso tempo. Estamos sempre fazendo literatura além das expansões oníricas, transcendendo a realidade por meio de uma (in)tensa tentativa de compreender (ou superar) os vazios, silêncios, perdas e outras dores que vivemos ao longo de nossa fugaz e precária existência. Dessa forma, escrever como exercício permanente de confronto com realidades distintas, é a maneira que encontramos de dialogar com aquilo que nos perturba, desconforta e de, certa forma, nos desestabiliza e nos modifica.

DA – Outro aspecto que salta aos olhos, na coletânea, é um diálogo constante com inúmeros escritores, que se cristaliza no conto “Esboços para a (de)composição do naufrágio”, em que o narrador se lança numa incursão pelo território literário, encontrando-se com nomes como Machado de Assis, Cervantes, Kafka e Plínio Marcos. O quanto desse espelhamento há na sua formação e, por consequência, em seu processo literário? De uma maneira representativa, acredita que o autor, por mais completo que seja, nunca escreve sozinho, que todos os textos decorrem de um impulso de influências e recortes acumulados durante a leitura?

RONALDO CAGIANO – Entendo a escritura como sendo uma experiência-rio: ela carrega (ou transporta) as recolhas de nossa caminhada, seja como ser, leitor ou escritor. Dessa forma, no que escrevo, tudo flui impregnado de outras referências. Aquilo que li, o que vi, ou o que vivências alheias me serviram como exemplo, farol ou lição. Sempre incorporo algo da garimpagem que realizo ao mergulhar no aluvião estético de outros autores. Certa vez, um amigo escritor dizia que, embora gostasse muito de ler meus contos (e até poemas), sentia-se incomodado na maioria das vezes, por ter que pagar pedágio às epígrafes. Argumentei que o uso desse recurso (Murilo Rubião foi um dos que mais o utilizaram em seus contos; da mesma forma o mineiro João Batista Melo), mais que intertextualidade, ou além da homenagem a autores e livros que me marcaram, vejo também como um diálogo temático e afetivo, uma ponte dialética entre o que escrevi e o que li, no sentido não de plágio ou carona, mas com a função análoga e simbiótica de espelhar sentimentos e expressões que, de outra forma, e melhor, disseram a respeito do mesmo tema. No fundo, creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura.

DA – A poesia, que se faz substância de alguns contos do seu livro mais recente, foi também seu ponto de partida na carreira literária, com o lançamento de “Palavra engajada”, de 1989. Essa predileção de gênero seguiu por alguns anos, até finalmente você se encontrar com a prosa. A que atribui esse movimento? Sua primeira experiência com a leitura parte da poesia? Há com ela uma ligação de cumplicidade afetiva ou foram os versos a maneira pela qual primeiramente compreendeu seu impulso artístico?

RONALDO CAGIANO – Considero-me essencialmente poeta, embora tenha me incursionado pela ficção com mais vigor nos últimos anos. Mas, desde os primeiros livros, leitores e amigos identificaram uma certa predisposição à prosa, por perceberem um fôlego discursivo em meus poemas. Embora, paralelamente, à escrita e publicação de livros de poesia tenha sempre produzido prosa, seja em jornais (desde a adolescência colaborava para um hebdomadário tradicional de minha cidade, com crônicas, pequenos contos e artigos de opinião), seja por meio de histórias que deixava na gaveta, foi somente depois de alguns títulos de poesia que optei por dar à luz meus primeiros textos ficcionais, na esteira da sugestão desses amigos, que insistiam para que eu investisse no gênero. Assim surgiu “Dezembro indigesto”, volume em que reuni alguns contos inéditos, tendo com ele vencido o Concurso Bolsa Brasília de Produção Literária de 2001, com a publicação pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. A partir dessa feliz estreia, dediquei-me mais à confecção ficcional, sem abandonar a paixão pela poesia, para a qual fui despertado aos 11 anos, quando li os versos candentes de “Eu”, de Augusto dos Anjos, livro que representou um divisor de águas na minha vida de leitor, instigando-me a escrever os primeiros poemas. Creio que essa ligação visceral e umbilical com a poesia delineia minha prosa, porque essa ligação afetiva e sensorial com ela pode ser sentida no que escrevo, porque sempre persigo a prosa poética como êmulo a meus projetos ficcionais.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Há dois pontos, em sua resposta, que eu gostaria de me aprofundar. O primeiro é o que chamou de perseguição da prosa poética, cujo ápice, no meu entendimento, está no conto “Mar de dentro”, que se passa em Teerã. É notável, na sua escrita, essa relação com a cidade, o espaço geográfico, muitas vezes em tom de diálogo, como se este servisse de cenário e, ao mesmo tempo, de interlocutor. Você nasceu em Minas, mas viveu em Brasília por muito tempo e, agora, em São Paulo. Consegue notar uma influência latente de cada um desses lugares em sua literatura, ou acredita que o escritor ocupa um território expatriado, tão vasto dentro de si?

RONALDO CAGIANO – Compartilho uma expressão de Baudelaire para reafirmar isso: “Seja poeta, mesmo em prosa”. Quando li isso, certa vez, percebi que pertencia à família dos que, ao fazerem ficção, não se preocupam apenas – e de forma descarnada – em contar uma história. Penso que o amálgama para uma história, no conto ou romance, é a própria linguagem e ela, muitas vezes, é tão forte e determinante quanto a trama ou a psicologia dos personagens. Essa talvez seja uma peculiaridade no que escrevo, uma espécie de relação íntima com minha gênese literária, a origem primordial do que crio está na poesia que procuro retirar dos pequenos dramas e tragédias, dos conflitos e dilemas individuais ou coletivos, da banalidade ou transitoriedade das coisas. Por outro lado ressalto, ainda, o fato de trabalhar na minha literatura os espaços em que vivi e que me influenciaram, como forja do homem e do escritor: o geográfico, o psicológico, o afetivo, que delineiam meu arcabouço existencial. São pilares que sustentam o meu processo criativo, mergulho no território da infância, nas experiências afetivas, nos apelos históricos, nas invocações sensoriais para compor o painel de minha leitura pessoal e crítica desses universos e atmosferas que me forjaram e me inspiram tantas revisitas. Essa ancestralidade tão referencial nos habita e nos chacoalha, nela estão as fontes de nossa relação com o agora, nas quais a literatura é instância de expansão, catapulta. Certa vez li no livro “Manual Prático de Levitação”, de Agualusa, a fala de um personagem que me parece espelho do que ocorre quando revolvo essas reminiscências: “O passado é como o mar: nunca sossega”. Então, essas águas vivem redemoinhando dentro de mim, as águas do rio Pomba, tão mí(s)tico em minha infância e adolescência, com suas cheias alarmantes nos expulsando de casa; as águas do Lago Paranoá, em Brasília, cidade onde vivi 28 anos e que me deu “régua e compasso”, como diz a música de Gil; e agora nessas novas (c)(t)orrentes, em São Paulo, onde estou há nove anos, levando-me a outros fluxos nesse eterno e imponderável mistério que é o destino. Essa interlocução com o passado remoto ou recente (Cataguases, Brasília), esse diálogo com o presente (São Paulo) é uma maneira de me situar em meio ao cipoal caleidoscópico de realidades distintas (e suas contradições), que vivi e vou experienciando. E a literatura abriga cada um desses pedaços (sentimentais e físicos). Em “Interpretação de dezembro”, Drummond me ajuda reconhecer que “É o menino em nós/ ou fora de nós/recolhendo o mito”.  Esse menino que f(l)ui, pega na minha mão e escreve sobre o que hoje em mim é fluência e desatino. Portanto, não consigo separar o que escrevo do que vivi, tudo se manifesta como uma sinergia de sensações acumuladas, que se atualizam cada vez que a ficção se embebeda do real.  Cada viagem a Minas é um manancial de recorrências afetivas tão fortes e esse caudal sentimental se transformará em matéria literária ou apreensão poética nalguma oportunidade. A cidade que (re)vejo (ou visito) hoje não é aquela cidade que me transformou ou transtornou, a que está intacta na minha percepção, pois hoje sou estrangeiro nesse mundo que lá está transplantado e, para fugir desse exílio compulsório, me asilo no “inexílio” da memória e nela afugento os fantasmas do presente. Como no conto “Da próxima vez”, de Carrascoza, “A cidade da infância, tão outra nos meus olhos se comparada à memória.” Ou algo similar num poema de Ascânio Lopes, poeta modernista da minha cidade, morto precocemente na década de 20, que fala: “Cataguases! Cataguases!/ Vale a pena viver em ti./ Nem inquietude./ Nem peso inútil/ de recordações./ Mas a certeza que nasce/ das coisas/ que não mudam bruscas./ Nem ficam eternas.” No mais, tomando emprestado de Ortega y Gasset a ideia da influência, para o qual “eu sou eu e minhas circunstâncias”, eu diria que eu sou eu e minhas leituras, eu e minhas viagens e relações com o que me cerca.

DA – Bela resposta. Passou-me a frase de Borges que diz que todo autor sempre escreve o mesmo livro. Há uma memória basilar para todos os enredos, e isso que se configura a literatura. Agora voltando ao segundo ponto, você menciona a bolsa de criação literária e, complementando a ideia, alguns dos contos de “Eles não moram mais aqui” foram previamente premiados. Com a extensa carreira que tem, o quanto considera importante para um autor esses dois recursos? Como um financiamento ou uma premiação pode ser producente ou prejudicial?

RONALDO CAGIANO – Sem dúvida, acredito que essas alternativas são a saída, sobretudo num país como o Brasil, em que o sistema editorial é extremamente hegemônico e monopolizado, sem critérios definidos para a recepção, avaliação e publicação de autores, prevalecendo, na maioria das vezes, as relações, as panelinhas, os guetos, as igrejinhas, as amizades e outros sistemas perversos de vasos comunicantes, em detrimento da qualidade da obra, perpetrando-se históricas e abomináveis injustiças (autores de qualidade negligenciados sem pudor, enquanto mediocridades são incensadas sem nenhum constrangimento). Nesse ambiente literário dominado por interesses, percebo também o total descaso de grande parte da crítica que milita na grande mídia impressa e seus cadernos de cultura, salvo raríssimas e honrosas exceções, pois só reconhecem vida inteligente na literatura publicada por grandes editoras. São pernosticamente indiferentes a um bom autor que tenha sido editado por um selo desconhecido, principalmente se fora do eixo Rio-São Paulo.  Então, o que resta aos autores sem “pedigree” são os concursos literários, as bolsas de publicações e outros programas de incentivo e apoio municipais e estaduais, que funcionam como estimulantes para os novos e até mesmo para veteranos sem oportunidades nas grandes casas editoriais. São alternativas concretas para tornar menos injusta a partilha de espaço nesse cenário tão dominado pelos ditames do deus mercado, e na maioria das vezes, esses certames sinalizam uma maior visibilidade, chamando atenção da crítica e proporcionando acesso a edições e distribuição mais amplas. Ressalto que, em meio a esse deserto de possibilidades, um oásis se mostra como interdição desse processo: é o papel das pequenas editoras que, a meu ver, de forma hercúlea e quixotesca, com seus editores matando um leão por dia e nadando contra a maré do mercado editorial, vêm publicando autores e obras de inegável qualidade, inclusive nada devendo às grandes editoras quanto ao esmero gráfico, sendo que muitas delas vêm conquistando prêmios em importantes concursos de nível nacional, entre as quais destaco Patuá, Dobra, Confraria do Vento, LetraSelvagem, Penalux, Oito e Meio, Reformatório, Kazuá, Casarão do Verbo etc.

DA – Essa é uma situação complicada e, em muitos casos, desleal. Há algum tempo, conversava com um escritor superpremiado, com livros traduzidos fora do país, que se encontra sem editora, desmotivado. Um vexame, uma vergonha para o meio literário. Mas gostaria também que enxergasse esse contexto por um outro ângulo. Você não percebe que, com o surgimento de muitas editoras e a escancarada democratização da publicação, temos também autores estreando sem a devida bagagem, com livros que, amadurecidos mais um pouco, teriam muito mais a oferecer em termos de qualidade literária?

RONALDO CAGIANO – Concordo plenamente quanto ao fato de que essa facilidade de acesso aos meios editoriais mais disponíveis (pequenas editoras, plataformas e suportes na internet, como blogs e revistas eletrônicas etc), ainda que possibilite a livre publicação, também impõe o risco do nivelamento por baixo, ao despejarem muitos títulos sofríveis, autores de duvidosa qualidade e obras sem a devida maturidade. Acabam por entupir o mercado, empurrados pelas águas da avidez, açodamento e desespero de escritores que pretendem publicar a qualquer custo e são seduzidos ou cooptados por algumas editores sem escrúpulos, empresas caça-níqueis que se aproveitam da g(r)ana dos incautos. Vale para isso um antigo aforismo popular: “Nem tudo que cai na rede é peixe”. Assim, entendo, ser preci(o)so também ter o discernimento necessário, tanto de editores quanto de leitores, para se separar o joio do trigo, pois as pequenas editoras sérias acabam sofrendo o estigma pela falta de critérios de outras tantas.

DA – Por outro lado, temos os escritores que se colocam num patamar superior, que só participam de coletâneas, eventos e demais expressões artísticas mediante pagamento. Embora renomado, com prêmios e publicações fora do país, você é muito ativo em colaborações em jornais, revistas, sites, além de participar e organizar antologias. O quanto considera essencial, para sua carreira, continuar desbravando novos territórios para sua literatura? E, desdobrando a pergunta, não acredita que, para um jovem autor, o melhor caminho não seria iniciar com colaborações para adquirir um pouco de “casca” e, enfim, publicar o primeiro livro?

RONALDO CAGIANO – Evidentemente, há certos escritores convertidos em sumidades, cuja literatura e nome alçam o patamar de uma grife, que impõem certas condições financeiras para suas participações (entrevistas, colaborações em jornais, seminários, palestras, feiras literárias, resenhas, orelhas, prefácios), gente que não sai de casa sem pagamento, sob o pálio da profissionalização de suas carreiras. Creio que o escritor exerce uma atividade que em nada difere de qualquer outra, portanto deve ser remunerado pelo que produz. No entanto, vivemos num país que, histórica e culturalmente, só acredita naquilo que culmina em produtividade material, aferível sob o ponto de vista da produtividade. Portanto, atividade intelectual e artística, sobretudo a literária, sempre foi vista com menoscabo e indigna de pagamento, porque alcança uma minoria, ainda mais que somos uma nação sem leitores e livro não faz parte da cesta básica. Muitas vezes somos forçados a nos prostituir para ter o mínimo de espaço, ao emprestar o talento e a força de trabalho mental e intelectual sem a devida contraprestação, pois, na maioria dos casos, jornais e revistas já não pagam mais pelas colaborações, assim também alguns convites para palestras em escolas e eventos menos suntuosos ou concorridos em que o autor não pode deixar de comparecer, sob pena de receber a pecha de esnobismo. Lembro-me de que, quando organizei três antologias (“Poetas Mineiros em Brasília”, “Antologia do conto brasiliense” e “Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo”) tive dificuldades em convencer dois ou três escritores para o projeto, porque exigiram remuneração e direitos autorais, o que não acho de todo ilegítimo, não obstante a realidade em que vivemos. Ainda que eu ponderasse que as edições não tinham cunho comercial, mas funcionariam como registro da produção poética e ficcional brasiliense, e o organizador não receberia nada por isso, tendo cada autor, na edição de 1.000 exemplares de cada, a uma quota de 10 livros, mesmo assim esses não aceitaram participar. Entendo que nem sempre devemos atuar de graça, porque em muitos casos há instâncias e organizações que podem e devem remunerar pelo trabalho produzido. Nos países desenvolvidos, a atividade de escritor é devidamente valorizada e qualquer atividade não prescinde do devido pagamento, até mesmo uma modesta aparição com foto numa matéria de jornal é motivo suficiente para pagamento. Enquanto não atingirmos esse estágio ou consciência do valor e a necessidade de se dar a justa contraprestação financeira ao trabalhador literário, é necessário tentar harmonizar os interesses, não fugindo à raia quando determinados espaços nos solicitam ou convocam, justificada a impossibilidade, pela própria precariedade desses meios, de pagamento ao autor, até porque já são tão exíguos os espaços e muitas vezes são estes que nos oferecem alguma janela ou visibilidade, abrindo possibilidades para circulação de textos, poemas, artigos, resenhas, crítica etc, o que, de certa forma, credencia o autor, sobretudo em início de carreira.

DA – Por falar em resenha, um outro ofício que você se firmou como um dos mais respeitados do país é o de crítico literário. Eu, inclusive, já tive a alegria de ter a sua precisa análise de um dos meus livros. Hoje temos centenas de blogs, sites e os chamados booktubers que, de maneira geral, enquadram suas impressões literárias entre o gosto pessoal e a superfície analítica. Como é, para você, atuar como leitor crítico? Como começou esse trabalho? Recorda-se da primeira resenha? Algum crítico o inspirou? Quais as ferramentas fundamentais para se escrever um boa resenha?

RONALDO CAGIANO – Primeiramente, não me considero crítico nem ensaísta, porque minha formação é em Direito (advoguei durante muitos anos, até 2002, paralelamente à minha vida de bancário) e não tenho formação acadêmica em Letras, muito menos, pós ou doutorado, portanto, careço do embasamento teórico-científico, não sou versado em linguística nem em teoria literária, como soi acontecer com os especialistas. Dessa forma, vejo-me exercendo essa atividade apenas de modo intuitivo, emulando minhas impressões mais como um colega de ofício e leitor apaixonado, que só escreve sobre os livros de que gosta, pois não tenho predisposição para a crítica iconoclasta, hepática e demolidora, porque entendo que um livro ruim não merece atenção e ele sucumbirá pelo próprio demérito no desgosto dos leitores ou mesmo da crítica. No máximo, quando percebo que a obra mereça qualquer amparo ou reparo crítico, se tenho alguma intimidade com o escritor, procuro abordá-lo e comentar pontos que parecem relevantes no sentido de dar toques, pistas ou oferecer sugestões ou indicar parâmetros (principalmente leituras) para qualificar melhor seu trabalho. Seria uma crítica pessoal e sincera, sem o espírito desmantelador que uma crítica pública desencadearia, pois entendo que ela poderia abortar uma carreira ou desestimular um escritor ainda em gestação.  Essa necessidade de expressar-me à margem das leituras ao longo da vida surgiu ainda na adolescência, quando comecei a escrever os primeiros textos para um jornal dominical de Cataguases, atividade que foi crescendo ao mudar-me para Brasília, quando tomei contato com a obra de críticos antigos e contemporâneos, cujo mergulho estético, filosófico, exegético, hermenêutico e ensaístico me despertou interesse, principalmente pela forma como incursionavam seus olhares nos diversos meandros de uma construção literária. Entre essas primícias, cito José Guilherme Merquior, Álvaro Lins, Antonio Olinto, Otto Maria Carpeaux, Alceu Amoroso Lima, Antonio Houaiss, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Wilson Martins, Aurélio Buarque de Holanda, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, Antonio Carlos Secchin, exemplos marcantes de críticos literários, independente de suas vinculações ideológicas, mas pela lucidez e coerência de suas postulações. Minhas primeiras opiniões sobre livros recaíram sobre autores do círculo literário de Brasília, quando comecei a publicar no Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Revista Literatura, Jornal da ANE e DF Letras, depois ampliando minha participação em outros veículos regionais e nacionais, como o Opção e o Diário da Manhã (Goiânia), O Dia (Teresina), O Estado (Florianópolis), Correio das Artes (PB), Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo (BH), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (SP), Jornal do Brasil e O Globo (RJ), Guia de Livros da Folha, Rascunho, dentre outros, além de incursionar por alguns blogs com frequência, atividade que se viu reduzida há alguns meses, por absoluta falta de tempo. Para mim é uma atividade esteticamente prazerosa, porque além de me proporcionar o contato com novos autores de diversas regiões do país, com inegáveis surpresas, ajuda-me a penetrar no insondável do processo criativo individual e na gênese de cada obra. Para mim, o resenhista tem o dever de ir fundo, ser sincero, fazer crítica não como caridade, não apenas homologatória, para agradar a quem quer que seja, mas com o dever de apontar no trabalho sua qualidade, sem ceder às paixões pessoais ou amizades, mas sempre com uma inflexão dialética, de modo que tenha uma ampla visão da obra e não da vida do autor, permitindo-lhe um percurso capaz de penetrar as filigranas e retirar os palimpsestos de uma arte que está sob seu olhar e bisturi, como se fosse um cirurgião a penetrar as vísceras de um corpo com suas engrenagens e fluxos, como considero ser um texto de ficção ou de poesia. Sempre tive em conta uma lição de Graciliano (que recolhi de uma entrevista sua de 1948) quando vou analisar um livro e tentar perceber se o autor andou nessas águas ou bebeu nessas fontes: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Seguindo, então, com as palavras do Graciliano, como analisa o que é “dito” pelos novos autores? Escapando do saudosismo, percebe uma geração detentora de uma literatura inferior a de outros tempos, ou uma apenas distinta, que se comunica com outros meios e, por conseguinte, constitui uma tendência em evolução?

RONALDO CAGIANO – Em termos comparativos, é inegável a profusão de autores e obras atualmente em relação ao que se produzia antigamente, razão pela qual em meio a uma variedade de títulos, a prevalência de literatura ruim é também bem maior, na mesma proporção em que há bons autores em todos os gêneros. Esse fenômeno vem a reboque das facilidades para veiculação de material literário não apenas nos meios tradicionais (livros, revistas, jornais, suplementos), mas também nas plataformas e suportes eletrônicos. Estes, particularmente, exercem um papel preponderante na disseminação desse acervo de criação ficcional e poética que a cada minuto a internet disponibiliza, democratizando o acesso tanto de quem escreve quanto a quem lê.  Acredito que a literatura, como qualquer arte ou ofício, sofre suas metamorfoses, seguindo a ordem natural do próprio processo evolutivo, humano e social, como dos meios que os legitimam. Assim como o mundo mudou, a tecnologia e as facilidades da comunicação trouxeram inexoravelmente suas vantagens em todos os campos, assim também a escritura deu seus saltos (éticos, estéticos, dialéticos) e essa transformação se dá primordialmente pela linguagem, que considero a instância em que essas mudanças se operam e são assimiladas com mais vigor. O leitor e o escritor de hoje não são os mesmos dos tempos de Bilac, Alencar, Machado, Graciliano ou Rosa, nem por isso uma e outra geração se anulam. Antes, se comunicam de forma sinergética.  Hoje, outros são os influxos, referenciais estéticos e culturais. Outras também são as influências do meio, da cultura de massas, da dita civilização movida pela informatização, uma realidade permeabilizada por trocas intensas e profundas, não só internamente como com outras culturas e realidades, e tudo sob o império da velocidade e do rápido escalonamento de valores. A língua e a literatura caminharam nas águas dessa corrente, impregnando a dicção dos novos autores, os quais foram apreendendo novos cenários, realidades, emulações e influências não apenas físicas e geográficas, mas também psicológicas e históricas. Isso é tangível e aferido nos aspectos formais e temáticos de cada autor contemporâneo, cuja literatura é irrigada por novos sentimentos e sentidos, sem, contudo, perder o liame com o passado remoto ou mais recente da nossa história bibliográfica. O mundo e as pessoas que escreviam, liam e se comunicavam na era do telégrafo não são os mesmos que escrevem, leem e se comunicam on time e online, com outros recursos e possibilidades de expressão. E literatura é fruto desses novos tempos, autores e obras antenados com essa emergência inexorável.  Então, não se trata de mensurar ou menoscabar o que se produz hoje em relação aos cânones ou mestres do passado. O mundo que a obra de um autor moldura e modula hoje não é diferente daquele, porém as sensações e olhares diferem no modo de perceber e deslindar questões, conflitos, dramas e situações, sob a perspectiva de uma linguagem que é especular dessa contemporaneidade exigente e avassaladora, atualizando a dicção com que aquela geração distante – com os recursos e limitações da época – dispunha para falar e incursionar pelos universos e atmosferas distintos, o que torna defeso impor a pecha de anacronismo ou supremacia de uma época sobre a outra.

DA – Outro aspecto marcante de sua carreira são as parcerias. Em 2012, por exemplo, você lançou a novela “Moenda de silêncios”, em parceria com Whisner Fraga. Uma outra parceria de longa data é com a escritora Eltânia André, com quem é casado. Como funciona esse relacionamento, que é margeado pela literatura? Vocês compartilham ideias, sugestões e leituras? Há a influência de um no processo criativo do outro?

RONALDO CAGIANO – Foram experiências partilhadas com outros escritores numa interessante simbiose, um exercício de escrita colaborativa, de coautoria ou de obra a quatro mãos. E o primeiro convite surgiu no final dos anos 1990, quando o amigo e escritor alagoano (radicado em Brasília) Joilson Portocalvo, que na época realizava oficinas literárias no Presídio da Papuda, propôs o desafio para que escrevêssemos um livro juntos. Então, nasceu a novela juvenil “Espelho, espelho meu”, projeto encampado e publicado pela Editora Thesaurus, em que tratamos de temas ligados aos conflitos da adolescência, mapeando as tensões dentro de uma família de classe média com a abordagem de situações relacionadas ao relacionamento pais-filhos, ao sexo, à gravidez precoce, drogas etc, numa linguagem que postulasse uma discussão, sem caricaturas ou dissimulações, desses conflitos tão comuns na realidade familiar. Depois, outro convite do escritor Whisner Fraga, que culminou na novela juvenil “Moenda de silêncios” (contemplada com o prêmio de publicação do ProAC/Secretaria de Cultura do Estado de SP), que faz um percurso em outra vertente,  tratando dos encontros e desencantos, dos sonhos e frustrações de dois jovens do interior mineiro perdidos no cipoal de suas expectativas e nas engrenagens da cidade grande, para onde foram em busca de um futuro ou de um sentido para suas vidas, obra que recolheu um pouco dos vestígios de nossas experiências em Cataguases e Ituiutaba. E a mais recente incursão pela escrita conjunta é o romance “Diolindas”, escrito com Eltânia André, minha esposa, obra que estava hibernada há uns seis anos, porém sairá do anonimato em breve, quando será publicada pela Editora Penalux, história que mergulha na vida e revezes e litígios de uma família. Nesse particular, tem sido proveitosa, instigante e complementar à vida afetiva a relação literária do casal, não apenas gerando o fruto de um livro, mas em razão da peculiar e mútua cumplicidade, sintonia e empatia no campo da criação, pois dividimos e comunicamos nossos espaços, nosso modus operandi, idiossincrasias, inquietações e outros aspectos ligados ao ato de “escreviver”. E, não obstante as diferenças de estilo e linguagem, as motivações e interesses distintos, há um canal permanente, um fluxo intenso entre nossos processos e experiências passadas e recentes, tanto da própria escritura individual quanto relativamente ao histórico de leituras, de modo que um torna-se, naturalmente, leitor crítico do outro (e de si) e esse trânsito tem sido extremamente profícuo ao nosso amadurecimento como seres e como autores. De certa forma, a intensidade dessa participação ativa de um na vida do outro, nos afetos e na criação, tem contribuído para uma influência que valoriza e estimula o que vimos construindo.

DA – Uma notícia fantástica essa do novo livro! Contudo, essa não é a primeira parceria de vocês. Em seu recente romance, o formidável ‘Para fugir dos vivos’, Eltânia se apropria de experiências vividas para criar uma ficção particular, não?

RONALDO CAGIANO – Trata-se de um livro de ficção em que Eltânia  recolheu apenas alguns detalhes de nossas experiências pessoais, para esboçar o perfil dos personagens, no entanto a história é outra, não a que vivemos. Fomos criados na mesma rua e durante nossa infância compartilhamos amizade, histórias comuns e relações familiares. Nesse sentido a sua ficção se apropriou de características físicas, de pessoas e ambientes comuns à nossa convivência, para a construção de personagens híbridos, porém, nem a trama nem os protagonistas são recriação de episódios vividos ou acontecimentos presenciados, mas uma realidade inventada a partir de flashes ou flagrantes de realidades distintas, enfim, a autora, na minha ótica de primeiro leitor de seus textos, teve autonomia para juntar os cacos de experiências de terceiros e esboçar um outro painel puramente ficcional. Portanto, não houve, de minha parte, qualquer participação ou intromissão nesse processo criativo, apenas um ou outro detalhe sobre alguma circunstância histórica ou social que nos eram comuns e que pude aclarar.

DA – Agora o personagem real, o menino que se descobriu poeta em Cataguases e atuou, com afinco, em prol da literatura e da própria literatura, qual o saldo que faz da carreira? A literatura lhe proporcionou mais alegrias ou decepções? Atribuindo a você uma das frases mais emblemáticas do novo livro, conseguiu sair de Cataguases para não ficar menor que ela?

RONALDO CAGIANO – Num rápido encontro de contas, o saldo é positivo, no que eu considero literatura para mim não como profissão, mas empenho que se recicla a cada dia, como tentativa de me comunicar, expressar-me diante dos dilemas e inquietações pessoais e coletivos, de vencer o tempo para exorcizar fantasmas ou enganar a morte. E tentar compreender o nosso (des)lugar nesse mundo. Vivo para a literatura – para um ler e “escreviver” em constante renovação – e não da literatura, porque é impossível sobreviver material ou financeiramente tendo-a como atividade principal, sobretudo num país sem leitores, em que o escritor precisa da segurança, da estabilidade e do conforto de uma profissão para ordenar a vida prática, em que essa atividade tão estigmatizada sofre menoscabo e nos faz sentir que o escritor parece mover-se num grande camelódromo, tendo que ser mascate da própria obra. Então, nesse balanço, posso dizer que a literatura deu-me alegrias e encontros. A vida, o sistema e o convívio literários, incontáveis decepções e frustrações. Mas, como literatura não é agitação nem o falso verniz das flips e quejandos, dos holofotes e das re(l)ações oportunistas tão comuns a esse  meio viciado e viciante; nem a busca obsessiva e arrivista das vitrines e da figuração, o que me interessa é o texto e não o contexto, por isso não crio expectativas nem sofro. O que tiver de ser será, fruto da própria peneira do tempo, dos leitores e da crítica honesta. Tomo emprestado de Northrop Frye para amalgamar o que penso sobre o papel da escritura em minha vida: “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, reconhecendo, ainda, outro papel fundamental, pois, segundo Borges, “A literatura é revanche de ordem mental contra o caos do mundo”.  E foi ela que me antecipou que existir era bem maior e sempre um movimento contínuo de transformações, permitindo-me sair do isolamento, do provincianismo, da mediocridade e da alienação parasitária que nos afetam na vida interiorana, para que não fiquemos menores que ela.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

Categorias
110ª Leva - 04/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.

Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.

Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.

De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.

Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.

Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.

 

Alex por Ricardo Prado
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado

 

DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?

ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.

DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?

ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.

DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?

ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.

DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?

ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas.  Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.

Alex por Laura Castro
Alex Simões / Foto: Laura Castro

DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?

ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.

DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?  

ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry.  Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada.  É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.

Alex Simões na performance A Capella de Waly - Foto - Daniel Guerra M
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra

DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?

ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é  “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.

DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?

ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.

Alex por Eric Jenkins-Sahlin
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin

DA – O que é o seu país hoje?

ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.

DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?

ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia.  Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.

DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?

ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

Categorias
109ª Leva - 03/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Por trás dum universo de cenários a compor as tramas da literatura, um criador maquina suas investidas. E o faz com o desejo da permanência, urdindo estratégias, escolhendo caminhos, atirando-se no labirinto da palavra. Quem escreve intenta ser alvejado pela percepção do leitor, este ser capaz de reorientar certos roteiros antes traçados. Quem escreve deixa sua marca no mundo na medida em que suas letras efetivamente saiam ao encontro do outro.

No jogo sugerido pela alteridade, o tácito pacto entre emissor e receptor aponta para além de uma suposta cumplicidade quando as coisas orbitam pelo complexo terreno da interpretação. Nesse ínterim, há revoluções internas, guerras contidas, alguns lampejos de êxtase e, sobremaneira, visões postas à prova. Então, seria o leitor uma espécie de destemido desbravador a quem é dado um status de total autonomia?

Acharemos estranho se alguém puder responder a isso com absoluta margem de certeza. Afinal, uma obra não é tão aberta assim na medida em que necessita pontuar rotas que fazem parte naturalmente do contexto estrutural da criação. E é bom poder ouvir escritores, saber deles o motor fundamental de seus ímpetos.

No caso do autor baiano Marcus Vinícius Rodrigues, que transita com preciosa fluidez entre as zonas da poesia e da prosa, as motivações criativas evidenciam uma tentativa de estabelecer um laço com o mundo. Também é, como o próprio escritor confessa, construir a ilusão do eterno.

Autor de obras como “Pequeno inventário das ausências” (poemas – 2001), “3 vestidos e meu corpo nu” (contos – 2009), “Eros Resoluto” (contos – 2010), Cada dia sobre a terra (contos – 2010), e tendo participado de várias antologias, Marcus Vinícius utiliza a memória como valiosa ferramenta de criação. É, na verdade, uma instigante manipulação das lembranças, espécie de distanciamento do real, através da qual o esquecimento protagoniza a elaboração da palavra. Um curioso fluxo de esquecer para escrever.

Na entrevista de agora, testemunhamos um Marcus Vinícius cada vez mais comprometido com o curso natural de seu caminhar literário, algo que se apoia marcantemente por um sentido especial de perenidade. O momento requer que falemos de seu mais novo livro de poemas, “Arquivos de um corpo em viagem” (2015), obra que enaltece a capacidade do autor em demarcar esse verdadeiro receptáculo de epifanias que é o corpo. Também na ótica da dinâmica do corpo, é de sua autoria uma série de poemas criados para o espetáculo de dança “Vous Doux”, cuja plaquete será lançada em Salvador, na Bahia, brevemente. O diálogo presente também visitou outras paisagens, a exemplo da ótica do desejo humano, das inquietudes contemporâneas e das estratégias criativas. Quem divide conosco um pouco de si é um alguém na plena percepção de que sua obra está sendo construída no processar das horas. Tudo isso sem a pretensão das certezas.

 

marcusvinicius
Marcus Vinícius Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Tanto na prosa quanto na poesia, seus escritos têm um apelo muito ligado aos percursos do corpo. “Arquivos de um corpo em viagem”, seu mais recente livro de poemas, evidencia tais trajetos. O que dizer do nosso corpo enquanto receptáculo de memórias?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Essa história do corpo começa meio que por acaso mesmo. Olhando pra trás é que dá pra ver que tem essa unidade toda, mas não foi algo pensado. Quando eu comecei a montar o livro “Arquivos de um corpo em viagem”, foi que vi realmente a recorrência e aí organizei a obra toda em cima disso. Eliminei os poemas que não tinham a ver. Acho que o corpo é o lugar de todas as coisas. É onde nós estamos. Então, tudo acontece dentro do corpo, mesmo que seja a experiência mais metafísica. Até a experiência de sair do corpo é uma experiência em relação ao corpo, se você quiser ser místico. Eu continuo fazendo isso. Vou lançar agora um livro, inspirado no espetáculo de dança do meu irmão, “Vous Doux”, e, novamente, há a experiência do corpo, ou seja, os corpos se relacionando com os outros. É uma recorrência, mas não é pensada.

DA – É sedutor pensar que os idiomas do corpo são infinitos?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não existe isso de infinito tanto em relação às experiências humanas quanto em relação à literatura. Talvez infinitas sejam as formas de fazer sempre as mesmas coisas. O tempo todo encontramos formas de fazer a mesma coisa, de irmos para o mesmo lugar, de conseguirmos as mesmas sensações. O infinito está nos caminhos, pois os lugares aonde chegamos são sempre os mesmos.  Não tenho certeza de nada.

DA – Você acredita que a memória é algo que pode nos trair?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eu escrevo na esperança desta traição. Escrevo tentando lembrar e já participando dessa noção de que vai haver uma invenção. Isso é um aprendizado com a Lygia Fagundes Telles, com Maria da Conceição Paranhos. Acho muito importante viver, deixar passar o tempo, esquecer, e relembrar para poder inventar. Esse processo, tenho consciente na minha literatura. Eu vivo primeiro as coisas e vou escrever muito depois. Tenho coisas anotadas de 2008, 2009, de uma viagem que fiz, e ainda quero fazer o diário de viagem, mas aí quero esquecer para depois escrever. Não quero fazer um registro real do que aconteceu. Isso para mim é um método. Esqueço para reinventar. E não é nenhuma originalidade. Já aprendi com as duas mestras que mencionei. O que eu escrevo, principalmente na prosa, tem todo um processo de apagamento. Tem uma experiência real, biográfica, lá no fundo, numa das camadas. Na prosa há pelo menos duas camadas obrigatórias: o fundo biográfico e a intertextualidade. Por cima disso, faço todo um processo de apagamento, vou eliminando todas as pistas de biografia e de intertextualidade. Claro que quando a gente apaga uma coisa, outra aparece, muitas delas que a gente nem tem noção, pois entram inconscientemente. O divertido é isso. Apago as pistas do que de fato aconteceu, seja de leitura de outros textos, seja de aspectos biográficos meus.

DA – Diante de um mundo que nos oferta confrontos em abundância, os arremessos são necessários?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não. Acho o contrário. Penso que temos de mirar um caminho e seguir exatamente ele. O confronto é muito perigoso porque quando você entra em qualquer conflito você se desvia. Tudo bem que as pessoas entrem em conflito com você. O perigoso é quando você quer entrar em conflito com as pessoas, pois terá de ir até onde elas estão e talvez elas não estejam no seu caminho. Caso elas estejam no seu caminho, aí, sim, é possível ter conflitos ideológicos, estéticos, é possível se confrontar. Mas quando as pessoas não estão no seu caminho, o importante é você construir o seu próprio e fazê-lo alargar e alargar. Quando você estiver com o caminho bastante estruturado, certamente surgirá algum conflito, mas é bom que seja o conflito do outro com você e não de você com o outro. As estéticas, políticas e os movimentos afirmativos têm que fazer mais isso: seguir em frente, e não buscar confrontar o outro diretamente. Naturalmente, o outro que se por acaso está nos atravancando o caminho é que se vai confrontar com a gente. Mas aí nós não nos desviamos, porque o perigo do conflito é a gente se perder nesse desvio e viver as ideologias dos outros, sermos reativos a eles. Ser reativo ao outro não é bom nem em arte, nem em estética. Não é mais tempo da gente reagir à forma do outro fazer. Eu faço as minhas coisas, exatamente o que sei, posso e gosto de fazer. E realmente não me interessa como os outros fazem, se fazem bem, se fazem mal. Mas não pretendo discordar, ir contra o outro, porque senão eu paro de fazer o que tenho de fazer, que é de fato o que sei fazer: as minhas coisas, minha escrita, minha vida.

DA – Não te assusta o patrulhamento ideológico ao qual estamos submetidos atualmente?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Estou em relação a isso absolutamente recolhido. Eu me espanto com as opiniões tanto de um lado quanto do outro. E não consigo me sentir parte de nenhum dos dois grupos. É possível conviver muito bem com quem é diferente de você. Tudo isso me assusta. Não me envolvo e não tomo partido porque acho que há coisas ruins dos dois lados, e é preciso refletir muito. Tenho muito medo de pessoas que têm certezas, talvez porque eu não tenha realmente certeza de nada. Já há muito tempo que não tenho certeza de muitas coisas e também não tenho certeza de que devíamos estar todos aqui no planeta, vivendo. Acho tudo muito estranho. Penso tentando encontrar uma solução, mas não há. E há muitas coisas que não sabemos. Aos poucos, fui me acostumando a não saber as coisas, a não ter curiosidade. Por exemplo, em religião, já procurei muitas coisas, quis saber muitas coisas, e hoje em dia me contento em não saber. Aceitei o mistério.

DA – Vez por outra, vem à tona um debate sobre a divisão da literatura em nichos de gênero. É como se as vozes ficassem reduzidas a guetos. O que pensa sobre isso?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É uma questão que sempre retorna. A má literatura é que fica em guetos. A boa literatura ultrapassa tudo. Tem os guetos óbvios (gays, mulheres, negros), mas tem um gueto muito menos óbvio, que se impõe por causa de uma força política, mas não pela qualidade literária, que é o gueto masculino, macho, heterossexual e branco. Há um tipo de literatura que só interessa a esse tipo de gente e que não escapa disso. A gente não percebe porque esse macho, adulto, branco, como diria Caetano, está no comando. E quem está no comando é quem decide o que é o certo, o standard, o padrão. Mas, se você for reparar, há mesmo uma literatura que não interessa às outras pessoas, que é muito particular porque é má literatura. Quando escapa desse gueto, não interessa a ninguém. As pessoas discutem, veneram porque este gueto é o gueto que está no poder, mas não deixa de ser um gueto. A boa literatura pode discutir questões raciais e interessar a todo mundo. Pode discutir questões gays e interessar a todo mundo. Pode discutir questões femininas e interessar a todo mundo. Pode discutir questões do machão, hétero, branco e também interessar a todo mundo.  Tudo isso porque é boa literatura e se preocupa muito com a estética. A má literatura não interessa a ninguém. Só interessa àquele grupinho e serve para um gozo imediato daquelas pessoas, para uma função fisiológica rápida. Fisiológica não somente nos sentidos básicos, normais, mas também no sentido de servir como uma aceitação, um reforço do que determinada pessoa sente ou quer sentir. São literaturas que lidam com emoções básicas. Veja, por exemplo, a saga “Crepúsculo”, a qual não li, apenas vi os filmes. Ela tem um apelo muito grande com os adolescentes porque mostra a depressão que eles vivem naquela época. É muito chato para quem não está mais naquele período de depressão, de se pensar no que é, no existencialismo, de se viver uma vida sem grandes aventuras sexuais. É tudo tão casto ali porque é isso. Já “Harry Potter” é infantil, mas o tempo todo está lidando com outras questões e há várias camadas de leituras que se pode fazer além de um mero divertimento. Interessa a mais gente do que um “Crepúsculo”, que vai desaparecer em breve. Ninguém mais vai falar sobre isso. “Harry Potter” tem chance de sobreviver por muito tempo e interessar muito mais gente.

DA – No território da prosa, seus trânsitos criativos deixam um legado especial, sobretudo em se tratando de obras como “Eros resoluto” e “Três vestidos e meu corpo nu”. A ótica do desejo humano é uma trincheira de despertar para o mundo?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – O “3 vestidos e meu corpo nu” e o “Eros Resoluto” são livros tirados de um mesmo livro. Era um livro ainda incompleto, que até não tinha alguma unidade. No “3 vestidos”, eu coloquei três contos que têm uma visão feminina, são endereçados na questão feminina e em escritoras e têm uma intertextualidade expressa, flagrante e franca. E o “Eros resoluto” é mais específico de contos homoeróticos. Eles, a princípio, estavam todos num livro. Claro que os contos com a questão feminina não entrarão nesse livro futuro que um dia eu vou reunir, pelo menos com os contos homoeróticos. Talvez eu faça um livro só com os vestidos porque há mais uns três contos esparsos com visões femininas também. Essa vontade de organizar eu tenho muito. E tem, sim, sempre o desejo. Eu sempre estou prestando atenção no desejo que está por se realizar, porque é o momento que realmente importa. Uma vez que se realize, acabou, morreu. Até na minha pesquisa de mestrado o meu interesse era com o surgimento do desejo. Acho que o momento em que surge é o momento em que a gente tem mais plenitude de vida. Depois é ladeira abaixo, degradação, as coisas vão se acabando. É a pulsão de vida. O erotismo mesmo como pulsão de vida. É isso que me interessa tratar. Então, esses dois livros que vão se separar, e vão se chamar “Café Molotov”, trarão contos homoeróticos que tiverem unidade. E o “Três vestidos” também vai se formando aos poucos. Estou o tempo todo escrevendo uns três ou quatro livros temáticos e vou espalhando pelos livrinhos que tenho conseguido publicar. Às vezes, me pedem histórias específicas e vou tentado adequar aqui, ali, vendo onde se encaixa no projeto. Tenho uma planilha com as coisas que pretendo fazer. E vou recebendo os estímulos, produzindo e tentando encaixar. Eventualmente, alguma coisa é descartada ou outra acaba abrindo o caminho para novas possibilidades de livro que vou organizar no futuro. Mas a questão do desejo certamente perpassará todos os livros. Sempre é algo que aparece. Quando vou produzir um conto, eu trabalho sempre com várias unidades para que ele possa se encaixar num livro, em outro, e esses livros ideais estão sendo montados aos poucos. Quanto tiver a oportunidade de lançar um livro inteiro com isso, eu lançarei. Não tenho pressa porque é aos poucos que a gente vai fazendo. Assim que eu tiver oportunidade, sai essa antologia de contos chamada “Café Molotov”. Tenho o blog justamente com esse nome para assegurar o título como meu. Há um conto já escrito que trata disso, o qual permanece inédito para nomear o livro. Então, o meu desejo é de ordem, mais do que qualquer outra coisa. Meu desejo é apolíneo, e não o dionisíaco, que todo mundo busca. Eu quero ser apolíneo porque no caos eu já estou. Quero caminhar até a ordem.

DA – O caos também pode ser uma rota para a libertação assim como o desejo?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Para mim, não. A libertação está na ordem. Eu acho que já estamos no caos, e penso que a tendência da natureza é a ordem. Qualquer desarrumação que você faça na natureza em qualquer nível, seja nos moleculares ou sociais, a tendência depois é as coisas se organizarem, encontrarem um lugar, uma ordem. A pacificação está, para mim, na ordem e não no caos. O caos pode vir para explodir alguma estrutura e depois se buscar uma nova ordem, mas o caminho é a ordem. O fim é a ordem. O caos é uma desorganização momentânea. E ele é efêmero. As pessoas que falam do dionisíaco estão querendo trabalhar no registro do efêmero. Mas isso pode até servir para outras artes, teatro, performance, mas a literatura, stricto sensu, busca a perenidade. Então, você vai produzir alguma coisa que fique. Essa deve ser a intenção, pois o que não fica não é literatura. Literatura é o que vai acontecer depois, na leitura lá no futuro. Se você depende da presença das pessoas para o contato imediato, já não é mais a literatura stricto sensu, é arte cênica, música, performance, qualquer outra coisa. Depois surgiu a palavra escrita que vai comunicar para o futuro, para o distante. E aí você precisa de mais ordem. Hoje, as pessoas com todas as possibilidades de comunicação audiovisual estão dando muita ênfase ao momento da performance, ao contato próximo, ao texto que é dito em voz alta. Mas tudo isso é efêmero. É literatura dramática? É drama? É performance? Ok, mas não é aquela literatura que vai comunicar com o futuro, o distante, aquilo que nós não sabemos o que é ainda. Para essa literatura, precisamos de alguma ordem, de algum parâmetro para que a comunicação possa se estabelecer no futuro. Estou interessado no fato de que uma pessoa que não saiba quem eu sou, pegue um texto meu, até com a autoria apagada, e até se comunique de alguma forma com o que eu disse, sem depender de mim pessoalmente para que isso aconteça. E isso só se faz com ordem. Você não vai conseguir fazer isso com o caos. O caos é um caminho, um processo, uma etapa, mas não é o fim em si das coisas.

voudoux
Espetáculo “Vous Doux” / Foto: Aldren Lincoln

DA – Ao longo do tempo, suas estratégias de criação mudaram muito?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Na poesia, eu acho que mudou alguma coisa. Tem um momento em que eu ganho mais consciência da forma. Depois também quero esquecer essas consciências, voltar a ser intuitivo. Na verdade, poesia eu comecei imitando. Em algum momento vou fazendo intuitivamente, aí publico o primeiro livro. Depois não consigo fazer mais nada que acho que seja interessante, paro um tempo e vou para a prosa. Mais adiante, volto a fazer poesia e aí ganho mais consciência. Até estudo métrica, forma, e depois esqueço. O que achei realmente após lançar o primeiro livro foi que, embora não tivesse uma preocupação formal, eu tinha estruturas que se repetiam. Depois, cansei, parei, e comecei a pensar nisso melhor. Acho que hoje em dia eu tenho mais consciência da forma, de como lidar com algumas estruturas. Umas se repetem, mas vejo que ninguém repara e então vou deixando. Tem alguns truques que se repetem, mas ainda está funcionando. Poesia é preciso descansar para depois fazer de novo. Recuperar, esquecer e depois aprender de novo.

Eu demorei muito a escrever prosa. Já tinha um primeiro livro publicado e nunca tinha escrito um conto e queria escrever. Os primeiros são muito intuitivos, muito poéticos e com pouca ação e história. Depois é que acho que fui aprendendo a fazer contos. O romance ainda estou aprendendo a fazer. Qualquer dia sai um, não sei. Mas o conto eu fui aprendendo e o meu modelo de escrever é com muita estrutura por debaixo. Tem sempre muita coisa por debaixo de um conto. Um monte de histórias que não são contadas, de truques. Há estratégias, às vezes até bobas, tipo “eu vou escrever e só vai acontecer a história em determinado lugar ou hora do dia”. Vou criando alguns obstáculos que depois acabam não aparecendo.  Por exemplo, o conto “A omoplata” era um mero exercício, pois o objetivo era fazer um texto apenas com diálogos porque tenho uma repulsa em fazer diálogos. Sempre escolho não fazer. Então, me obriguei a fazer um conto só com diálogos. Agora já faço contos só com diálogos, alterno melhor. Posso eventualmente não escolher fazer diálogo algum ou não deixar as pessoas conversarem. Todas essas estratégias, algumas muito bobas, circunstanciais, tipo escrever sob encomenda, dentro de um determinado tema, são interessantes porque criam camadas de histórias, narrativas e temáticas. Acho que isso melhora um pouco a minha prosa. Isso eu fui aprendendo depois e cada vez faço mais. Vou construindo subtextos, subtramas, coisas escondidas para construir um conto curtinho às vezes. E sempre fazendo com que de alguma forma se relacione com outro conto que eu escrevi para montar uma malha, uma rede em que haja um diálogo entre eles. Toda vez que escrevo um conto, ou penso que ele vai se relacionar com algo que já escrevi ou ele abre um caminho para uma outra vertente, alguma coisa que devo fazer depois. Aí eu prevejo e deixo lá. Vai se montando uma teia. Quero que tudo se relacione de alguma forma. Isso acaba sendo uma estratégia, coisa que eu não fazia antes. Foi acontecendo aos poucos.

DA – O trabalho de resistência das editoras independentes inaugura uma nova era para as publicações?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Acho que todo mundo quer entrar nas garras do mercado tradicional. Ser um produto tão bom que possa ser consumido, circular bem, todo mundo quer isso. Mas isso não vai acontecer mais com todos. Não existe mais esse mercado para a literatura, a não ser aquela de entretenimento. A grande literatura não vai ter esse mercado todo e vai ser mesmo uma coisa pequena. Não vai ter mercado, vai ser arte simplesmente. Uma arte de alcance no momento reduzido, que depois vai esperar um alcance maior no tempo. No momento em que você publica, acho que cada vez menos vai haver circulação, pois mesmo quando circula, a boa literatura, essa literatura preocupada mais com a estética, circula num subterrâneo, num gueto. Não é uma coisa acessível a todo mundo. Por quê? Porque, claro, as pessoas não precisam mais da literatura para se divertirem, a não ser da literatura de entretenimento simplesmente.  As pessoas vão assistir cinema, televisão, internet e não precisam ler. Não precisam gastar quinze, vinte anos aprendendo a ler bem, a interpretar um texto. Então, esse vai sendo um interesse de um número cada vez menor de pessoas. Mesmo que circule, sempre será uma circulação subterrânea, clandestina, que não chega ao grande público. As editoras pequenas, como as da Bahia agora, dão um fôlego. Isso é bom porque essa tribo das pessoas que leem, gostam de literatura e, na maioria, também escrevem acaba consumindo. Vai ser uma coisa pouca. Acho que não tem mais porque ter ansiedade. Todo mundo sonha, algumas pessoas até produzem obras com essa finalidade do grande público, mas você tem que fazer algo específico para esse grande público. E talvez não seja o caso nem de escrever um romance, mas sim um roteiro para cinema, televisão, que também é uma coisa muito interessante. Mas não é pra todo mundo e alguns escritos são para poucos mesmo, pois não há hoje em dia mais tantas pessoas com capacidade para ler e interpretar um texto literário. É um público muito reduzido. Com pouco dinheiro, você publica um livro. A questão das pequenas tiragens é uma saída, um respiro, um tipo de sobrevivência. Mas é só isso, mera sobrevivência. Não vai além.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pós-modernidade pode ser tudo. Se pode ser tudo, o que faço também é pós-moderno. O que eu não admito é que queiram que pós-moderno seja alguma coisa que ainda continue o Modernismo, as vanguardas lá do começo do século vinte. Isso não me interessa, essa agonia com o novo, essa vontade da novidade. Eventualmente, há coisas muito boas, mas há muitas que já nascem datadas, velhas, e que não se sustentam. Como o que eu acredito, penso e quero é algo que dure, o experimentalismo não me interessa. Claro que faço exercícios, mas não publico querendo que seja algo que vai ficar. Sei que é um exercício, é efêmero e não vai se sustentar. Mas alguma coisa da vontade de novidade fica. Não será tudo. Não tenho ansiedade do novo. Não me preocupo com isso. Quem quer fazer, que faça. A característica da pós-modernidade é a diversidade, a fragmentação. Então, cada um pode fazer o que quer. Eu faço o que eu quero, simplesmente, e pronto. E quem quiser fazer o que se diz como pós-moderno em oposição ao que faço, tranquilo. Não tenho ansiedade pela novidade pura e simplesmente. Tenho ansiedade pelo texto que fique tão bem acabado que não se possa dizer aquilo de outro jeito, a não ser daquele que foi dito. Não estou interessado no efêmero e no que vai se acabar a qualquer tempo. Claro que eu sei que tudo pode se acabar daqui a pouco, mas não trabalho com isso. Sei que tudo é assim, que tudo se acabará, mas o meu movimento de produzir é no sentido da perenidade. É um método. É o meu método.

DA – Por que escrever?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pelo mesmo motivo que as pessoas bebem, fazem sexo, amam. Não tem motivo, pois ou é isso ou nada. E o que vem depois do nada a gente não sabe. É gostar de se expressar, de criar histórias, de construir um mundo particular, de construir a ilusão do eterno. É pra isso. Se a gente começa a pensar o porquê das coisas, todas elas não têm muita razão de ser, não têm muita necessidade. Nem viver, não é? Mas a gente vive porque não sabe o que vem depois, vamos aproveitando o que se tem. Eu comecei a escrever porque gostava de ler o clássico, o clichê do clichê, e gostava de estar nesse lugar. E tem uma hora que você tem que criar esse próprio lugar. Tem gente que bebe e vive para isso. Tem gente que gosta de futebol. Há pessoas que fazem outras coisas e apenas preenchem o tempo. Acho que pelo menos a literatura ou a arte de um modo geral têm essa sensação de que está se construindo alguma coisa. Esse é o grande lance. É isso que aproxima talvez as artes da religião. A religião também é isso. Ela é a aposta num depois, aposta no que a gente não vê, no sobrenatural. A arte também é uma aposta no sobrenatural. A aposta na comunicação com uma pessoa que você não sabe quem seja é uma esperança. Escrevemos por esperança, simplesmente. Em quê é que é o problema. O bom da esperança é que ela não é em nada. Esperar nesse sentido é intransitivo. Simplesmente, esperamos uma coisa, uma transcendência, um além. Claro que você pode escrever poesia, prosa para objetivos mais específicos, mais circunstanciais, mas quando a gente começa a se perguntar o porquê das coisas, vai dar em nada, que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, como se diz na música do Gil. Mas é isso. Se você começa a pensar, a gente vai acabar no nada. Então, eu escrevo porque me preenche de alguma forma. Se não escrevesse, talvez eu bebesse.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

 

Categorias
108ª Leva - 02/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Nathan Sousa (Teresina, 1973), é poeta, escritor, professor, tecnólogo em Marketing e letrista. E poeta, mais que qualquer outra coisa, já que é da costura lírica de seu verbo de onde nascem poesia, prosa e música – esta, aliás, que já lhe rendeu mais de 30 composições gravadas em parceria, dentre outros, com o maestro Beetholven Cunha, e que já foram interpretadas em Portugal e na Inglaterra. Radicado em São Gonçalo do Piauí, ele é autor dos livros O percurso das horas (Edições do Autor, 2012), No limiar do absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (Prêmio LiteraCidade 2013), Um esboço de nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e um romance: Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). Mais que títulos exuberantes, que já revelam um pouco do perfume que exala de suas linhas, os livros do autor referido são fortes e bem regados; pois ele tem o cuidado que a palavra exige para os que dela bebem. É Ivan Junqueira quem nos alerta: “Não sou eu que escrevo o meu poema: / ele é que se escreve e que se pensa, / como um polvo a distender-se, lento, / no fundo das águas, entre anêmonas / que nos abismos do mar despencam.”. E é esta a sensação que desabrocha durante a leitura de um livro como Mosteiros, por exemplo: uma autonomia, porque, depois de sentirmos, instância primeira que se despe durante a contemplação de um artefato artístico, mesmo com os protestos da arte conceitual, notamos a palavra erguida de sua própria matéria, sem aquele zelo excessivo que deixa o verso raquítico e o poema sem corpo de tão insosso. O que se desvela é uma literatura sem arestas, mas proeminente de golpes e pétalas:

 

Destilado

 

não mais poderia aquela imagem
flagrar o espanto em que meus olhos
armou suas persianas de água.
e agora que correr é um exercício
de luz e córnea (um desentranhar
de sonho e acervo) aparo as gotas
de meu precipício para destilar
a sede de outras intempéries,
burladas entre o vermelho e o lenço.

 

A identidade de sua escrita é a beleza, em seu sentido mais vivo e carnal; é o lírico destilado, fecundado, cheio de imagens que pescam o leitor de um só arranque.

Integrando 20 antologias e sendo vencedor de 23 prêmios literários, dentre eles o Assis Brasil 2013, o II Prêmio de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, o Prêmio Machado de Assis 2015, da Confraria Brasil-Portugal, e o Prêmio José de Alencar 2015, da União Brasileira de Escritores – UBE, Nathan tem poemas publicados em algumas das principais revistas de literatura do Brasil, é membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba e membro-correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Seus livros estão em 36 bibliotecas espalhadas por 12 países. Mosteiros está na lista do projeto de tradução da Universidade de Santiago, no Chile.

Mais que um vasto currículo para um escritor que vem publicando há pouco tempo, Nathan Sousa é poeta. E sua obra sussurra plenitudes e coerências, com o espírito daqueles que elegem a literatura como o percurso das horas.

nathan
Nathan Souza / Foto: arquivo pessoal

                                     

DA – Nathan, iniciando por uma pergunta clichê: como começou isso de escrever literatura?

NATHAN SOUSA – Fiquei realmente encantado com a literatura ainda na adolescência, com os livros de uma tia (Tia Nileide). Depois, aos 14 anos, em Teresina, eu conheci a Biblioteca Desembargador Cronwell de Carvalho e fiquei encantado com todo aquele universo. Acabei me tornando, e digo sem modéstia, um leitor compulsivo. Mas, decidir escrever, alimentando a ideia de um dia ter um livro publicado, isso só me ocorreu em 2010, quando eu já tinha 36 anos.

DA – De onde parte o que você escreve?

NATHAN SOUSA – Parte da combinação entre a minha experiência de vida (meu contato com o mundo real, minhas perspectivas, meus anseios, minhas perdas e ganhos), o acúmulo verbal que eu consegui ao longo de todos esses anos dedicados aos encantos da literatura, somando-se a isso o olhar automatizador que sempre me perseguiu e que está sempre muito afeito ao meu processo de maturidade. Este ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.

DA – A literatura é, por excelência, criadora de uma zona discursiva marginal, que trabalha com sentidos mais amplos e imaginários. Como você mencionou, somado a isso, a criação e a própria literatura são um “ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.”. Em que medida é possível “utilizar” a literatura? O que ela vale numa sociedade como a que vivemos?

NATHAN SOUSA – Há um “modo continuum” na natureza humana que direciona nossas ações para a satisfação das necessidades em seus avançados graus. Mas, pegando de empréstimo um termo do genial João Cabral de Melo Neto “isso ainda diz pouco.”. A literatura serve, antes de tudo, para nos fazer compreender melhor essa complexidade desenfreada de relações a que chamamos de sociedade. Impulsiona o homem para o mergulho na subjetividade e, de lá, abre seu campo de visão. Há centenas ou talvez milhares de livros, por exemplo, a respeito do sul dos EUA. No entanto, quando o leitor se depara com os romances de Faulkner, passa a ter uma compreensão maior desse amálgama de vidas, de relações econômicas, enfim…. do conjunto que formou aquela região.

DA – E você acha que ela á apontada como “difícil”, “cansativa” por um público por ser um mergulho tão intenso na subjetividade? Por perfurar mais que acolher?

NATHAN SOUSA – Literatura é, antes de tudo, uma devoção. É subir ladeiras sem se importar com as dores. E esse ato, para os verdadeiros escritores e poetas, traz sensações que passam despercebidas, tendo em vista que a leitura e escrita sempre serão atos da mais pura existência. Depois é que vêm a mídia, os holofotes, os prêmios, as badalações… mas se não vierem, a devoção continuará a mesma.

DA – O que significa, em seu íntimo, chegar aos lugares por onde a literatura tem te levado?

NATHAN SOUSA – Significa um reencontro. Sim, eu me reencontro de forma consciente nos momentos de experiências de leitura, de releitura, quando vou aos saraus, quando sou homenageado, quando lanço livros, quando falo, incansavelmente, de literatura, desta necessidade inexplicável de ler, de escrever, de revelar e se deixar levar pelos mistérios que a própria literatura arrasta consigo.

 

DA – O que é para Nathan Sousa ser premiado pela UBE e finalista do Jabuti?

NATHAN SOUSA – Os prêmios ajudam, principalmente, a divulgar a obra. Sabemos que a literatura não recebe um tratamento caloroso aqui no Brasil. Ser premiado, e em romance, pela UBE, seguido de estar entre os finalistas (em poesia) do mais destacado prêmio das nossas letras, o Jabuti, é afirmar que tudo o que eu fiz até aqui, em matéria de arte literária, valeu a pena. Já valeria sem os prêmios. Dá-me também a sensação de que as minhas escolhas (mergulhar nos clássicos e me refrescar com o que há de mais significativo na produção contemporânea) estão me levando para onde eu verdadeiramente quero, ou seja, para aprender a escrever melhor, sempre melhor.

 

DA – E além de escrever melhor, até onde você quer ir com/na literatura?

NATHAN SOUSA – Até onde minhas últimas forças puderem me permitir pensar, debater, ler e escrever, mergulhar nesse universo. Eu não conseguiria fazer outra coisa na vida. Portanto, ainda penso no mundo, na minha razão de viver, no sentido dessa caminhada, como uma grande biblioteca. Sou, assumidamente, borgiano, nesse aspecto. Ainda tenho muitas aspirações como poeta e escritor (a de continuar buscando novas experiências de linguagem com a poesia; a de escrever um grande romance (uma grande novela), a de ler muito, mas muito mais).

Nathan Sousa
Nathan Sousa / Foto: arquivo pessoal

DA – Você fala sobre escrever um grande romance. O romancista e o poeta se encontram em algum momento?

NATHAN SOUSA – Sim, a todo momento. Eu costumo dizer que o que enriquece a minha poesia é a suposta afinação com a prosa de ficção e vice-versa (risos).

DA – Você saberia definir sua obra? Elegeria algum tema central?

NATHAN SOUSA – Certa vez, Garcia Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. Ele disse que o dele era o livro da solidão. Seguindo essa concepção do mestre do realismo mágico, eu diria que a minha escrita tem enveredado pela estrada da transcendência e do silêncio. Não sei definir com clareza a minha literatura, mas sei muito bem que eu realizo o ato de escrever para alargar a minha identidade, e não somente para me reconhecer existencialmente.

DA – Conte-nos sobre sua experiência como mais novo membro da Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA.  

NATHAN SOUSA – Fui indicado à Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA, por dois membros de lá. A instituição tem sede em Araraquara-SP. As academias são clube e não seleção, como quer a maioria. Eu sou membro e atual secretário geral da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Entrei aos 39, mais para representar o orgulho de minha mãe, que faleceu um mês antes da minha posse, no começo de 2013. Pelo menos no meu caso, a academia me aproximou de outros escritores e poetas de uma forma mais intensa e harmoniosa. Eu ainda acredito que muito pode e deve ser feio por essas instituições, principalmente no que diz respeito à divulgação da literatura de seus membros e da comunidade que cada uma delas representa. Ainda não vimos isso, mas eu não me sentiria bem em negar o convite e ficar do lado de cá, resmungando. Ainda sou membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG.

Eu digo sempre o seguinte: Assis Brasil, O G Rêgo de Carvalho, H Dobal e Da Costa e Silva, quatro dos mais destacados nomes da literatura piauiense, fazem e faziam parte da Academia Piauiense de Letras. Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado faziam parte da ABL. Por que, então, eu me recusaria a ser membro de uma instituição literária que deseja ter meu humilde nome entre os seus?

DA – A respeito disso, é interessante pontuar a postura de alguns escritores que alegam não sentirem desejo de publicação, mas publicam, ou afirmam sua obra como irrelevante, embora aceitem convites para eventos literários. Como você vê este tipo de postura? Como é a sua relação com a “fama literária”?

NATHAN SOUSA – Com relação aos que se posicionam dessa maneira, a meu ver, querem conservar uma posição de elegância pela ausência, pela despretensão, por uma simplicidade que é típica dos que querem ser lembrados, mas não querem ser vistos. Tenho convivido com certa projeção literária em tempo muito curto de carreira, não nego. Eu tenho procurado aproveitar essa projeção para tentar realizar dupla função: promover a minha escrita/despertar o gosto pela leitura e a coragem para publicar. Tenho me deparado, ao longo dos últimos três anos, com poetas de boa qualidade, enclausurados na redoma do receio. Eu digo a que vim no meu primeiro poema (Combate, vide O percurso das horas – 2012): “Escrever poemas / é como rasgar a camisa / mostrar o peito / se armar com uma faca cega / olhar no olho do mundo / e autorizar: / pode vir”.

DA – Rasgar a camisa exige coragem. E além de coragem, como uma espécie de mensagem, o que mais você gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins? (desde já registro o meu muito obrigada pela sua disposição em responder essas perguntas).

NATHAN SOUSA – Eu agradeço imensamente por essa entrevista tão rica e tão amigável, o que não poderia ser diferente, em se tratando de uma entrevistadora/poeta com a sua competência e afinação com as palavras, e gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins que intensifiquem cada vez mais o gosto pela leitura. Ninguém sairá perdendo com isso.

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014) e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).

Categorias
107ª Leva - 01/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

O escritor visita o museu da memória. Transita, a princípio, por um corredor de paredes nuas e escuras. Segue um mapa involuntário, aquele que condiciona um caminho, ainda que não exista seta ou placa referencial. Vai a passos firmes, até que se depara com a entrada de uma sala. O escritor estaciona na soleira e vasculha o interior aparentemente vazio, tomado pela mesma textura de desclaridade que cobre os limites exteriores. Reluta, mas decide entrar. Palmeia no ar a distância à frente, imitando um cego, um perdido.

De repente, um facho de luz perfura o breu e projeta, no concreto liso, uma imagem que dá partida a uma sucessão de velhas fotos, retratos em branco e preto. Cenas de outros tempos que irradiam uma familiaridade, um pertencimento latente, sobretudo porque o escritor em estágios preliminares da vida figura em inúmeras delas. Superado o espanto, o escritor se aproveita dos intervalos do flash para divisar uma saída. Junto à porta, há uma caixa de madeira, semelhante a uma caixa de sugestões, com um bilhete ao lado que demanda que o escritor reconte aquela história, a sua história, e a deposite no receptáculo. Ele pondera, mas percebe que qualquer tentativa irá resultar em fracasso, pois as imagens não dispõem de uma integridade sequencial, de uma cola entre si. O escritor irá fracassar, pois toda incursão pela memória é falha.

O escritor Julián Fuks escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a memória. Seu romance recente, “A resistência”, intenta examinar o próprio enredo familiar, a partir da reconciliação com a infância, com o fato de ter um irmão adotivo. Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da perseguição política do regime militar, o autor paulista cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas épocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que é um eco da história devassada de um país, dos atos de combate à repressão e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.

Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esforço de resgatar, no movediço da consciência, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e não pelo da invenção, que a verdade, ao menos, prevaleça na maior parte. Não é tarefa das mais simples, todavia, pois a memória é também um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dará conta de que observar este irmão é também observar a si mesmo, é desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter à lógica da família que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente à lógica do regime ditatorial.

Da conversão da matéria autobiográfica para matéria literária, Fuks constrói um relato labiríntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma dúvida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um espírito do tempo, que compõe uma obra-prima da nossa geração.

Em entrevista exclusiva, Fuks fala sobre o ponto de partida e a construção do romance, a relação entre ficção e realidade, e o processo de lapidação da linguagem, que classifica como “quase obsessivo”. Além disso, o escritor comenta o abismo entre a produção brasileira e a de outros países latino-americanos, o depauperamento da crítica literária, a extinção dos cadernos culturais e o desafio de ser escritor no Brasil. “A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido”, observa.

Foto: Fernanda Sucupira
Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – Seu novo romance tem endereço num território muito frequentado atualmente pelos escritores brasileiros, que é o da autoficção. Porém, como o mesmo denuncia a certa altura, toda memória está suscetível à falha. Sendo assim, o quanto de liberdade inventiva coube na realidade trazida para “A resistência”? Revisar o passado é converter inescapavelmente o relato memorialista em ficção?

JULIÁN FUKS – De fato, enquanto escrevia o livro me via nessa estranha situação que têm vivido muitos dos escritores contemporâneos, me via apegado à realidade, incapaz de tomar distância, infenso à invenção. Há quem encare o fenômeno como uma opção oportunista, mercadológica, uma estratégia escusa dos escritores para atrair o interesse do leitor. Para mim está cada vez mais claro que é uma questão de sensibilidade, uma sensibilidade do tempo, uma certa predisposição a buscar o que há de relevante e verdadeiro nas circunstâncias reais. Em certa medida é um retorno do romance às suas origens, uma busca mais literal da vida comum, da cotidianidade – sem que seja permitido, porém, um retorno àquela crença na representação, àquela ingenuidade.

E está cada vez mais claro, também, que a busca pelo real não exclui em nada a ficção, que a ficção se dá muito mais na seleção dos fatos e em suas interpretações, na construção arbitrária das frases, no transporte sempre falho da memória ao papel. Não vou ser o primeiro a dizer que realidade e ficção não são polos opostos. “Falso”, “inventado”, “falacioso”, esses podem ser antônimos de “real”. Ficcional e real não são antônimos, travam uma relação muito mais íntima do que essa que se quer alegar.

DA – Falando em relação mais íntima, você relata que o livro é sobre seu irmão, mas também sobre seus pais. Inclusive que, durante o processo de composição, seu pai considerou lhe encaminhar um documento que trazia o nome dele relacionado à Operação Condor. O que acaba parecendo que a decisão de escrever o livro, de alguma forma, foi coletiva. Você tinha em mãos o poder de revelar uma história não sua, que, durante anos, por razões de segurança, foi mantida sob sombras. Até que ponto você se permitiu tatear nesse universo impessoal? Quais cuidados tomou no escavar desse terreno denso e movediço da memória alheia?

JULIÁN FUKS – Bom, o livro nasceu a partir de um pedido do meu irmão, se valeu de uma série de relatos íntimos que a memória não apagou, se desenvolveu em inúmeras conversas com meus pais e minha irmã, conversas que eu fui incorporando à narrativa. Nesse sentido, já de partida, se trata sem dúvida de uma construção coletiva; uns quantos discursos confluem ali para contar a história dessa família. Mas é uma construção coletiva também por um motivo mais amplo. Tratando dos temas que trato no livro, a repressão da ditadura, a militância, o exílio, é impossível não passar por uma infinidade de testemunhos há muito escritos, de relatos reais ou ficcionais sobre esse passado sombrio do nosso continente. Ao escrever essa história, por vezes sentia que entrava num espaço densamente habitado, me somava a algo que é quase uma tradição na literatura argentina, algo que poderia ter se tornado tradição na literatura brasileira se soubéssemos trabalhar melhor nossa memória política. Percorrendo um espaço já tão percorrido, acho que o cuidado maior estava em alcançar uma pertinência, em encontrar a sensibilidade necessária para abordar esses temas delicados e ao mesmo tempo narrar a história com força e contundência.

DA – Você acabou adiantando uma discussão que deixaria mais para frente, porém não posso perder o momento oportuno. Sempre me incomodou o fato de não lidarmos com a memória política, como bem fazem nossos vizinhos continentais. Sobretudo na literatura de ficção. Temos estupendos registros paginados sobre o período ditatorial; biografias, coletâneas de ensaios, trabalhos de pesquisa e jornalísticos. Entretanto a ficção, para usar um trecho extraído do seu livro, mostra-se refém “de um pudor antigo adiando cada frase”. A que motivo você atribui esse desinteresse? Por que os autores que nasceram ou foram crianças nos anos de chumbo dificilmente conseguem olhar sobre os ombros e encontrar bons personagens, boas histórias?

JULIÁN FUKS – Acho que a dificuldade não se reduz à literatura, não sei se compartilho dessa premissa. Em inúmeros âmbitos o Brasil tem resistido a encarar de frente a dureza de sua história, a compreender o jogo de forças que levou ao descalabro, a reconhecer as vítimas sem de novo culpabilizá-las, a atribuir devidamente as responsabilidades. Há de fato um pudor antigo adiando cada frase, e o pudor nesse caso tem um nome preciso: é o pudor da anistia. A anistia “ampla, geral e irrestrita” tinha seu sentido na época, permitiu que muitos voltassem do exílio, mas acabou definindo no país uma cultura de esquecimento, de ignorância, de impunidade, de incapacidade de lidar com esses traumas antigos. A historiografia faz o que pode, o cinema faz o que pode, a literatura faz o que pode, mas nenhuma dessas atividades consegue preencher esse vácuo de justiça. Há um movimento recente de lidar com essa história, a Comissão da Verdade foi um produto importante desse movimento, mas é claro que não é suficiente – a anistia não foi revogada, afinal, e isso tem um peso simbólico terrível. Na literatura também há uma nova atenção a esses temas, que se dá também pelo embaralhamento entre realidade e ficção: Bernardo Kucinksi, por exemplo, tem feito um trabalho forte e importante que vai nessa direção.

DA – Fato. Escrevi, há algum tempo, que “K.” foi uma das experiências mais potentes que a literatura me proporcionou. E os contos de “Você vai voltar pra mim” não ficam para trás. Agora jogando luz ainda sobre um trecho da sua resposta anterior, é muito evidente, diria até palpável, o trabalho de busca por uma sensibilidade que proporcione uma leitura de força e de contundência. Na verdade, essa é uma técnica pulsante em seu livro anterior, “Procura do romance”, aplicada também em “A resistência”. Você diria que a sua literatura tem uma preocupação maior com a forma que com o conteúdo? Há um exercício incansável de lapidar as frases?

JULIÁN FUKS – A oposição entre forma e conteúdo é mais uma falácia que nosso tempo, afortunadamente, tem conseguido derrubar. Não sinto que o enredo tenha uma função menor nos meus livros, e neste em particular há uma história forte que eu me obrigo a atravessar, uma história que, ao menos para mim, está carregada de intensidade. O caso é que, muito mais do que as cenas aventurescas e grandiloquentes, me agradam os momentos íntimos, a delicadeza das imagens corriqueiras, o que há de expressivo na aparente banalidade, e assim o enredo parece se desmanchar, ou se dispersar na multiplicidade de cenas menores. Mas, sim, para chegar ao cerne da sua pergunta, por vezes me sinto tomado por um cuidado quase obsessivo em encontrar a palavra exata – como se existisse essa única palavra que completasse a frase exata, o parágrafo exato. Tenho me preocupado cada vez mais com elementos de ritmo e sonoridade, com certa musicalidade do texto, e é inevitável que esse exercício transforme a própria história – ou então que a própria história se transforme, até certo ponto, na história desse exercício.

Fotos do autor Julián Fuks, Companhia das Letras, São Paulo, Agosto de 2015
Julián Fuks / Foto: Renato Parada

DA – Curioso você falar em musicalidade, pois há passagens – e destaco aqui a presença/ausência da Marta Brea -, em que a intimidade do relato ressoa feito um réquiem. É assombrosamente lindo. Mas voltando à construção do livro, você resgata constantemente recortes históricos que se aliam e, às vezes, se sobrepõem ao relato memorialista. O mais recorrente, talvez, seja a menção ao grupo Avós da Praça de Maio, cuja determinação na procura pelos bebês sequestrados e desaparecidos durante a ditadura argentina foi contada no documentário “500”, de Alexandre Valenti. Houve um trabalho de pesquisa para recriar essa época na qual se passa a história? Chegou a recorrer a livros, reportagens ou filmes?

JULIÁN FUKS – Acho que esse assunto sempre esteve no meu campo de interesses, por razões afetivas ou biográficas, sempre ouvi com muita atenção tudo o que se dizia sobre aquele país, aquela cidade, aquele tempo, talvez por sentir que minha identidade passava necessariamente por lá. Mas é claro que, quando decidi escrever sobre esse passado, procurei fazer uma imersão mais sistemática no tema da ditadura militar, da tortura e dos desaparecimentos, dos traumas históricos que reverberam inevitavelmente de uma geração a outra. Li muitos dos jovens autores que hoje têm escrito sobre o que viveram seus pais, no que vem sendo chamado, talvez de forma inadequada, de pós-memória: Alejandro Zambra, Andrés Neuman, Laura Alcoba, Patricio Pron. Em todos eles se vê – e talvez em meu livro também seja assim – uma tentativa de reconstrução da história que não se dá através da reconstituição precisa, de uma austera e jornalística averiguação factual, mas sim de uma investigação muito mais íntima, uma exploração do microcosmo da família, de seus relatos inauditos, um périplo pelos caminhos tortuosos da memória, alheia ou própria.

DA – É bacana como suas respostas vão antecipando questões que eu tinha reservado para o nosso papo. Ao mencionar a tendência da pós-memória, você acaba me sugerindo a ideia de que toda tradução de um livro é, de certa forma, uma pós-publicação. No caso do Brasil, essa condição é muito adequada, dado o longo tempo que muitos autores estrangeiros levam para despertar o interesse de nossas editoras, vide os exemplos recentes de Copi e Juan Emar. Por outro lado, vem ocorrendo um interesse espontâneo por jovens autores de língua hispano-americana. Você citou alguns, mas, para ficarmos com os argentinos, elenco Samanta Schweblin, Selva Almada, Diego Vecchio e o próprio Andrés Neuman. No entanto, o movimento contrário não é tão venturoso. Ainda há, digamos, um desinteresse pela nova literatura brasileira nos países sul-americanos. Com a vivência que traz da Argentina, por que imagina que isso aconteça?

JULIÁN FUKS – Sempre houve um abismo entre a nossa produção literária e a de outros países latino-americanos, não tanto pela diferença de idioma, mas pelo que ela simboliza: a noção de que temos aqui um mundo à parte, um “país continental”, diverso, indevassável, incompreensível, descolado de toda a realidade circundante. E, no entanto, basta observar os processos históricos dessas nações vizinhas, atentar para as estranhas sincronias que se criam tanto em cultura como em política, para perceber quanto esse abismo é ilusório, quanto ganharíamos se o transpuséssemos de vez, urgentemente. Algo desse movimento temos feito, uma parte importante da literatura latino-americana é bem conhecida aqui. O movimento correspondente é que apenas se inicia: a Argentina, por exemplo, ainda tem que conhecer melhor inclusive os nossos clássicos, Machado, Guimarães, Clarice, Graciliano.

Quanto à literatura contemporânea, a literatura deste novo século, talvez haja uma razão a mais para essa dificuldade de reconhecimento no exterior. Percebo uma dificuldade grande também em nós mesmos de reconhecer o valor dos nossos próprios autores, de mensurar obras importantes, estimar trajetórias consistentes, construir, enfim, um novo cânone. Penso que hoje a crise está muito mais na crítica do que na produção literária: a crítica que se submete às veleidades do mercado, que só dá atenção aos lançamentos novíssimos, que a cada ano substitui seus objetos cativos por aqueles que reluzem mais forte nas estantes.

DA – Parte da sua resposta me deu uma deixa para um assunto que gerou um tanto de polêmica na época, porém não posso perder a chance. Dentro desse contexto de reconhecer o valor dos novos autores, tivemos a eleição da revista Granta dos melhores jovens escritores brasileiros como um marco, na falta de um termo melhor. Foram vinte autores, dentre os quais você. Como recebeu essa escolha e encarou as controvérsias? E, mais importante, qual o peso que isso teve para a sua carreira literária?

JULIÁN FUKS – Foram debates intensos os que se produziram na época, e hoje suspeito que o valor maior daquela edição da Granta foi ter suscitado essa polêmica: ao menos assim a literatura jovem brasileira se pôs em questão, se fez objeto de um debate vivo. Ainda que as críticas tenham sido, por vezes, irascíveis demais, diante de algo que não era tão relevante assim, não deixaram de ter sua justiça. Foi um momento importante para denunciar a manutenção de alguns privilégios, a atenção excessiva aos homens, aos brancos, aos héteros, aos habitantes dos grandes centros urbanos, quase todos representantes de uma mesma literatura que se quer séria e cosmopolita. Sim, eu participo desse grupo, mas não é com cinismo que o digo: já passa da hora de abrir os olhos para outras literaturas, de compreender a riqueza que há na diversidade, na multiplicidade, nos projetos que fogem a essa hegemonia. Quando falo da necessidade de construir um cânone contemporâneo, é claro que não é com a repetição dos erros do passado, com a reprodução desse olhar míope e distorcido.

Quanto ao peso que a Granta pôde ter na minha carreira, é algo muito difícil de mensurar. A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido. Acho que a Granta não se diferenciou muito disso, foi mais um desses acontecimentos.

DA – Justamente essa diversidade não seria um dos motivos – ou o mais latente deles – para que seja hoje tão difícil concentrar essa gama de novas vozes? E trago a lume aqui um debate mais profundo, que inclui a democratização da literatura, com o advento dos blogs e demais plataformas, com o surgimento e a consolidação das pequenas e médias editoras. A questão não seria a facilidade de se publicar também? Temos atualmente tantos autores, produzindo tipos tão distintos de literatura, que me parece um momento de transição o que vivemos agora. Que estamos em meio a uma enxurrada que, apenas após alguns anos, talvez décadas, poderemos discernir o que era apenas fluxo e o que era matéria. Isso, para dizer a verdade, me preocupa sobremaneira em alguns aspectos. O primeiro é não termos leitores para tantos autores, que a literatura se resuma a um círculo fechado de leitura onde autores leiam autores. No entanto, penso que o mais nocivo é começarmos a nivelar a qualidade por baixo, termos um excessivo número de novos títulos, escritos por autores ainda não prontos, que torne a análise difusa e se comece a acreditar que a literatura brasileira está mudando quando, de fato, está piorando. O que pensa sobre esse disparo de novos autores, de autores muito jovens? As editoras independentes, as de pequeno, médio e grande portes não deveriam ter a responsabilidade de selecionar melhor as suas publicações?

JULIÁN FUKS – Seu diagnóstico me parece preciso, sim, mas eu não consigo conceber como negativa a profusão de autores e publicações que vemos hoje. Penso que há algo de muito produtivo nessa vivacidade, nessa democratização do acesso à escrita, nessa multiplicação de editoras, penso que uma literatura consistente se produz a partir dessa riqueza. Nenhum autor surge pronto, a criação literária tem sempre um desenvolvimento lento, e a publicação é parte fundamental desse processo. Quanto mais publicamos no país, creio, maior tende a ser a maturidade da nossa escrita, ainda que essa qualidade só se revele plenamente em poucos autores. Insisto que o problema parece se situar na crítica, cada vez mais escassa, cada vez mais ínfima. É evidente o depauperamento dos nossos cadernos culturais, a cada ano mais exíguos e superficiais – com exceções importantes, é claro. Nesse contexto, talvez coubesse à crítica acadêmica uma aproximação a estas novas produções, e isso tem sido feito com tremenda qualidade por alguns críticos, mas o movimento como um todo ainda se mostra insuficiente.

DA – O caso do depauperamento dos cadernos culturais é um sintoma da crise implantada nos jornais impressos, que minguam seus formatos, reduzem equipes e extinguem seções inteiras. A morte dos suplementos literários é algo nocivo, triste e grave, porém enxergado, por alguns, como um deslocamento irreversível da mídia de papel para a virtual. Lembro-me que, na mesma semana em que um dos principais jornais do Brasil decretou o fim do seu caderno de literatura, uma revista trouxe na capa a celebração dos chamados booktubers, jovens que gravam vídeos discorrendo sobre seus gostos literários e atraindo milhares, milhões de visualizações. Independente de isso ser bom ou ruim, não lhe parece que, hoje, é dado mais valor ao alcance de uma crítica (e incluo as palmas dos editores, dos autores e dos leitores) que à qualidade do texto?

JULIÁN FUKS – É verdade, esse campo do virtual é todo um mundo à parte ainda difícil de estimar. À primeira vista parece de fato muito mais condicionado pelos gostos pessoais, mais distante de uma avaliação fundada num conhecimento da teoria e da história da literatura, algo essencial à crítica desde tempos imemoriais. Mas confesso que sou ignorante demais nesse aspecto para poder aportar um juízo embasado. O que sim posso notar, em todo caso, é que essa crise da crítica é tão aguda que se impõe até no âmago das discussões literárias. Aqui poderíamos estar discutindo os problemas intrínsecos à construção de uma obra, as decisões difíceis que todo autor tem que tomar diante de sua matéria sempre indevassável, os infinitos desafios inerentes à dura lida com as palavras. Em vez disso nos vemos a discutir, tristemente, as vicissitudes do mercado editorial, suas imposições sobre obras que se queiram autorais, seus obstáculos a um exercício mais livre da escrita literária.

fotofernanda sucupira
Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – O que a literatura argentina – e incluo aqui desde o mercado à produção criativa – pode servir de exemplo para os novos autores brasileiros?

JULIÁN FUKS – O que se costuma chamar de literatura argentina, ainda que caracterize apenas uma parte de tudo o que se produz por lá, é uma ficção feita de jogos cerebrais, ficção engenhosa, autorreflexiva, que se volta sobre si mesma para revelar com inteligência sua maquinaria. É isso, ao menos, o que geralmente se aprecia em Borges, Cortázar, Saer, Piglia. É claro que temos algo disso aqui, mas penso que a literatura brasileira ainda poderia se enriquecer muito com esse exercício, com narrativas que não se limitam à condição de narrativas, que se deixam invadir pela retórica, pela metafísica, pelo ensaio, por formas mais livres. É só uma sugestão, claro, ou um gosto pessoal. Sinto falta em nossa literatura de uma maior liberdade formal, e sinto falta também de um pensamento sobre a própria literatura que não se resuma à crítica usual, crítica jornalística ou acadêmica. Pessoalmente, como leitor, adoraria que os escritores brasileiros se dedicassem também ao ensaísmo, se entregassem mais plenamente ao pensamento sobre o mundo ou sobre a escrita.

DA – Há algo que a literatura brasileira pode oferecer aos novos escritores argentinos?

JULIÁN FUKS – A literatura brasileira, em seus autores principais que já tomamos por clássicos, parece ter um pendor pelo social, uma capacidade de apreender pela ficção algumas das mazelas do país, sua pobreza, sua desigualdade, suas tão evidentes injustiças. Nesse aspecto temos uma tradição consistente e muito consolidada, tanto na ficção quanto numa forte crítica sociológica, aquela que tão bem desenvolveram Antonio Candido, Roberto Schwarz e outros tantos. Arrisco dizer que a literatura argentina, mais marcada por uma postura elitista, poderia se beneficiar muito com esse olhar que se volta para o outro, com essa tentativa de incorporar à narrativa o que nossas sociedades têm de mais abjeto, de mais chocante, de mais nocivo. Podem soar contraditórias estas minhas respostas cruzadas, mas penso que haveria muita potência numa literatura que conciliasse o rigor formal argentino com a relevância social brasileira.

DA – O personagem Sebastián está no seu romance anterior e reaparece em “A resistência”. Quem é Sebastián? Um alter ego, uma encarnação de sentimentos? O quanto de Julián há em Sebastián?

JULIÁN FUKS – Não é disparatado dizer que se trata de um alter ego, o protagonista autoficcional por excelência ainda que não carregue meu nome, mas essas classificações não me parecem muito necessárias. Sebastián foi o personagem que construí minuciosamente, rigorosamente, em “Procura do romance”; ali Sebastián era figura incontornável, onipresente. Quando me pus a escrever “A resistência”, por um longo tempo não me dei conta de que o narrador era ele, pensava um narrador sem nome como todos os outros personagens importantes – ou pensava, por um longo tempo, confesso, que o narrador era eu. Foi só no final do livro que me dei conta da evidência, percebi que aquela voz não podia ser a minha, que escrever distorcia o que eu tinha a dizer, como sempre distorce tudo. Vi que aquele só podia ser um livro que Sebastián encontraria mais tarde, o romance com que se depararia quando já não estivesse tão obcecado com sua procura. Ou brinco, claro, ao falar dessas coisas todas.

DA – Você afirmou que o livro é uma resposta a um pedido do seu irmão, contudo, de maneira prática, qual o futuro que intenciona para ele? Há, em seu farol literário, procura por prêmios, reconhecimento, autoafirmação? A partir de “A resistência”, quais são os seus planos e projetos?

JULIÁN FUKS – Difícil projetar um “futuro prático” para um livro. O livro existe, está lá, é tudo o que eu pude fazer, é tudo o que eu posso fazer com ele. Foi resposta a um pedido do meu irmão, mas foi também uma resposta ainda mais íntima: contar essa história foi algo que exigi de mim, por vezes contra um ímpeto mais imediato, contra uma vontade tangível, contra uma resistência. Costumo sair da escrita de um livro um tanto exaurido, e por um bom tempo me mantenho alheio a outros projetos, deixando que cresçam em mim sub-repticiamente, sem me obrigar a escrever antes da hora. Enquanto isso, vou curtindo as boas conversas que a publicação suscita, vou absorvendo os comentários dos leitores, vou ganhando mais clareza sobre o que eu mesmo fiz, sobre o que ainda tenho a fazer, a dizer. Vagarosamente hão de nascer os novos projetos, ainda incipientes demais para que eu saiba falar sobre eles.

DA – Escrever, no Brasil, é um ato de resistência?

JULIÁN FUKS – Escrever pode ser resistir, pode ser capitular. No Brasil ou onde quer que seja, a mim interessam os escritores que fazem desse ato tão simples, tão corriqueiro, um ato de resistência contra a insignificância da vida, contra a pequenez da existência.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

Categorias
106ª Leva - 09/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, porém não menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 já começa a desferir seus últimos golpes. É uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocução findar suas tarefas profissionais, vislumbro cenários possíveis para nosso diálogo.

Há uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Leôncio da Silva. Estamos na litorânea cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, e nessas paragens ele não é conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome Sabará, é difícil encontrar alguém, sobretudo no meio cultural daquela região, que pelo menos não tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado artífice da música.

Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabará iniciou a vida artística em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percussão, especialmente na bateria, em Ilhéus. Como baterista, acompanhou grandes nomes da música brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante expressão artística, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. Há mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, ofício que sem dúvida alguma ocupa um sentido especial em sua trajetória.

No contexto da música da Bahia, a reverência à expressão de Sabará é algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o alguém notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma feição eminentemente poética.

Nesse diálogo que agora fica aberto aos leitores, Sabará compartilha saberes e sabores de sua trajetória. Entende a música como sua genuína forma de oração pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos traços fundamentais de sua existência. É conversa que emprega um ânimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo dinâmico e espirituoso.

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – Num determinado momento, você identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na região em que vivia. Como se deu esse processo?

SABARÁ – Era realmente uma necessidade fazer. Na época, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um músico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Então, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas não era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer aí a base para se tornar um músico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, não consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da região sobre a importância de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exigências do mundo iriam mudar a maneira de ser dos músicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que fazíamos iriam chegar até nós e precisaríamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi aí que eu instalei um curso de bateria do qual saíram alunos músicos que hoje estão espalhados por diversos cantos do país e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois não se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.

DA – Naquela época, essa mudança de paradigma causou algum estranhamento, uma espécie de resistência entre os músicos?

SABARÁ – Sim. Alguns chegaram a dizer que não era necessário aprender porque julgavam que já tocavam bem e sabiam acompanhar as músicas da época. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opinião, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princípio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.

DA – É uma grande fantasia supor que um músico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma noção teórica ou saber ler uma partitura?

DA- Exatamente. É necessário se informar e formar consciência do conteúdo com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpretação, digo que quando um músico tem uma partitura em mãos ou não, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o músico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da música ganham significado. Aquele que está executando a música tem, antes de tudo, consciência de causa, ou seja, de conteúdo. Juntando isso ao sentimento, o músico cresce. O que está ali escrito é algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo é o músico, o intérprete. Isso é o óbvio ululante (risos). É uma questão de sensibilidade.

DA – Em sua trajetória, você acompanhou diversos músicos, cada um com sua devida importância. O que dizer dessa experiência?

SABARÁ – É justamente nesse ponto que eu ressalto a importância do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experiências, mas cito algumas delas, como é o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.

DA – Sua formação vem do contexto de banda de baile, não é?

SABARÁ – Exato. A banda de baile, para quem não sabe, é uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou rítmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Você toca do maracatu ao axé. Hoje, por exemplo, o axé é um movimento que tem uma interferência muito grande na coisa da dança de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser eclético, pois o baile exige muito, da valsa ao axé, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. Até o hino nacional brasileiro nas comemorações cívicas a banda de baile toca (risos).

DA – O grande desafio do músico é ser versátil?

SABARÁ – Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, é um país que sempre lança coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplicável. O que é que é isso? Você está aqui hoje, vivendo o axé, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denominação, outra maneira de tocar e dançar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consciência cultural ampla pelo fato de experimentar essas várias estruturas rítmicas.

Sabaraii
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – A gente sabe que vive num país onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E há questionamentos antigos que acabam implicando em juízos de valor sobre o que presta ou não nessa seara. O que você pensa a respeito disso? Não há ritmo ruim?

SABARÁ – Sua pergunta é pertinente. Existem músicas que estão aí fazendo sucesso pela capacidade de observação mal orientada do povo brasileiro. Há músicas de péssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem músicas intelectualmente pobres, com letras vazias e há também aquelas apelativas dizendo coisas que nada têm a ver em relação a um trabalho de arte. A arte é única. Não existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais.  Como dizia um músico, do qual não me recordo agora, não existe música ruim, existe música mal tocada. Não tenho nada contra nenhuma forma de manifestação artística. Qualquer manifestação artística é ótima, válida. Se é bem feita, realizada com inteligência, ou se é algo que se merece gostar e apreciar, é uma questão de gosto, é diferente. Tem gente que fala mal de músicas tocadas em dois tons. Conheço canções tocadas em apenas três tons e que são ótimas. A coisa está na forma, na capacidade de quem produz. Essa que é a realidade.

DA – Na sua vivência com a música, tanto do ponto de vista da escuta, da percepção, quanto da experiência de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?

SABARÁ – Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, até porque ele era também o baixista do Sambalanço Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e César Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na época da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilhéus, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experiência que me marcou demais por poder tocar com um músico como ele. Outros também foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na década de 60. Talvez as pessoas de hoje não lembrem muito bem, mas havia também o Nelson Ned, que era conhecido como o “pequeno gigante”. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilhéus, chamada Banco Central, na fazenda de meu avô, e depois poder conhecer pessoas de relevância musical, evoluir na profissão e testemunhar também o crescimento de músicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, é uma emoção muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).

DA – Você passou um período tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?

SABARÁ – Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresentações a turma saía em direção ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. Não cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei à Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabará, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se dá por reconhecimento e respeito, não por desempenho acadêmico que o possuísse por direito. Tenho consciência disso.

DA – Ali no Rio você teve a possibilidade de acompanhar a efervescência da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?

SABARÁ – Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, não tinha noção da importância daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Leão, com João Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, até porque não se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo só fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o gênero. Nem mesmo o próprio João Gilberto, que saiu lá de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu só lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no país. O próprio Tio Sam, naquela época, ficou com receio daquilo tudo, até mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.

DA – Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo também fincou suas bandeiras. De que modo você acolheu esse movimento?

SABARÁ – O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, além de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou até fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um país tropical é tropicalista sempre (risos).

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

 

DA – Você é saudosista?

SABARÁ – Todos nós somos. Quem disser que não, está mentindo. De uma maneira atávica, você volta ao passado.

DA – Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a mínima ideia de que trilharia um caminho com a música?

SABARÁ – Não. Eu, menino correndo as roças de cacau, subindo em pés de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.

DA – O rádio compôs a sua primeira memória musical naquele período?

SABARÁ – Sem dúvida. E vou dizer uma coisa que marcou e que não é música. Lá na fazenda, ainda garoto, meu avô comprou um rádio que na época era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do rádio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam à bateria. E a minha família se reunia em torno do rádio para ouvir uma novela chamada “O Direito de Nascer”. Olha que coisa! Ficou na minha mente até hoje. Assim como ficou também a paisagem, aquele cheiro de roça, ambientes que nem existem mais. Portanto, não vá em busca do passado porque ele não mais existe. Está dentro de nós.

DA – O nome Sabará vem de onde?

SABARÁ – Ah! Que coisa incrível! Essa é uma das coisas que não entendo porque aconteceu comigo. Eu torço pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilhéus, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, modéstia à parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas começaram a me apelidar de Sabará porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e características de jogo. Ficou esse nome. E na música também pegou.

DA – Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para você criar um método próprio do ensino de bateria?

SABARÁ – Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um músico de formação acadêmica, Phd em música na Alemanha. Fiz também um aprendizado sobre divisões com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarmônica de Ilhéus. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informações. Então, o que eu aprendi nesse contexto, além de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condição de passar exercícios aos meus alunos. Agradeço muito ao professor de música Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma importância na aplicação dos exercícios.

DA – Há um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?

SABARÁ – O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.

DA – O quanto Sabará conhece Sabará?

SABARÁ – É uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, já disse o homem lá. E não é tão simples conhecer a si próprio. Ninguém se conhece inteiramente. Então, eu diria que sou um cão que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

Categorias
105ª Leva - 08/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Uma janela permanentemente aberta para o mundo. Assim podemos entender a Literatura quando ela nos oferece possibilidades variadas de diálogo. Outras tantas epifanias do pensamento, dispersas pelos mais variados campos da arte, servem de combustível para a criação, fazendo com que o ato de escrever represente uma amplitude de sentidos.

Há uma avidez de mundo na obra de um alguém como W. J. Solha. Estamos diante de um autor que tem apetite por conexões quando a atenção se volta para a vida. Toda a sua trajetória está marcada por uma valiosa referência a outros campos do conhecimento, a uma desperta e explícita menção a tudo o que leu e viveu. Trata-se de um escritor com uma marca, qual seja a de deixar registrado em seus livros um verdadeiro mosaico de sensações e observações diante do que o universo da arte foi capaz de lhe ofertar.

Em meio ao que vislumbra da existência, Solha segue os rumos de sua peculiar inquietude, arrematando considerações, louvando o que merece destaque, questionando o que lhe acomete os sentidos. Possui uma extrema capacidade de eleger a memória como um precioso guia de suas incursões criativas.  Tem uma vida dedicada não somente aos livros, mas também às artes plásticas, teatro e cinema. Na sua lida com as palavras, construiu obras memoráveis, como é o caso de livros como “Israel Rêmora” (Romance), “História Universal da Angústia” (Novela) e “Relato de Prócula” (Romance). Com “Trigal com Corvos”, enveredou-se na elaboração de poemas longos, o que se seguiu em “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” e, mais recentemente, “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No cinema, atuou em filmes como “Era Uma Vez Eu, Verônica” e “O Som ao Redor”, dentre outros.

Nascido no interior de São Paulo, em 1941, Solha confessa ter renascido em 1962, quando se mudou para a Paraíba por razões profissionais e lá foi atingido em cheio por descobertas que marcaram profundamente seus caminhos culturais. Na entrevista que agora segue, terceira que fazemos com o autor, há reflexões pungentes sobre eixos não somente literários, mas também filosóficos. Uma conversa que evidencia o espírito invencível de um criador que, mesmo diante das intempéries tão próprias do seu ofício, resiste tanto pela manifestação explícita do seu pensamento quanto na necessidade eventual de se recolher e silenciar.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Seu novo livro sugere uma verdadeira intersecção entre poemas e problemas, entre Deus e o eu. Ao mesmo tempo, operam-se os contrastes. A vida é uma equação que não se resolve?

W. J. SOLHA – Embora mantenha uma linha de trabalhos explicitamente investigativa em meus “brevíssimos ensaios muitíssimo ilustrados”, dez dos quais você pode conferir aqui – , todos os romances, peças de teatro e a poesia que tenho feito tentam equacionar a vida. Sou contra a velha limitação imposta aos criadores dessas áreas, segundo a qual isso seria de domínio exclusivo da ciência e filosofia. Até o final do ano, por exemplo, estreia meu “Édipo no Terceiro Milênio”, em João Pessoa, em que coloco a tragédia original de Sófocles acontecendo hoje, ou um pouco mais pro futuro, acompanhada de perto por uma Equipe Freud, numa nave. Isso porque nunca me conformei com o desastre final do grande personagem grego. Ou seja, pegando carona no final de sua pergunta: tentei resolver uma equação que me parecia mal formulada. Sófocles, absolutamente genial, foi vítima de seu tempo, mas sinto que ele tentou superá-lo. Já em “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” discuto esse binômio eu-Deus, servindo-me do outro, o dos meus poemas/problemas. Expedito Ferraz Jr., no prefácio, diz que se trata de um conjunto de escritos de natureza híbrida (algo entre poesia e ensaio) em que se desenha a espiral de uma reflexão que é, ao mesmo tempo, memória,estéticahistóriateologia. Fui feliz nisso, não fui? É o mesmo que me perguntar se é válida a fórmula que criei pra meus ensaios, que vou desenvolvendo já com uma quantidade enorme de fotos como parte do discurso. Acho extremamente poético – e arriscado, lógico – fazer o que fiz num dos poemas do livro, por exemplo, no qual faço os autores do Novo Testamento “fecharem” o Livro – a Bíblia – até então em aberto, ao contrabalançarem o Gênesis com o respectivo e necessário Apocalipse, ao tempo em que reformulam a lei mosaica, judia, com a novidade platônica, numa montagem cinematográfica. O curioso é que a grande maioria de meus leitores se choca muito mais com a escolha do tema para esses meus versos do que com eles.

DA – Numa das letras da fase solo de sua carreira, John Lennon dizia que Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor. De algum modo, você também comunga desse pensamento?

W. J. SOLHA – É tão estranho ouvir essa frase numa canção, que Lennon diz “I’ll say it again” (espertamente rimando com “our pain”) e a repete. Ao contrário dele, porém, acredito em Kennedy e Elvis, em Hitler e nos Beatles.  “I just believe in me”,  ele afirma cartesianamente, e – freudianamente – se corrige: “Yoko and me”. Em meu primeiro romance – “Israel Rêmora” – faço meu protagonista dizer que “o Penso, logo existo, é de uma lógica extraordinária, mas deixa o resto fora de cogitação”. Quando, no título de meu novo livro, escrevo “DeuS”, inspirado na logo da revista Mother & Child, em que o “&” se insere no “o” de “mother” como um feto, estou com Lennon e Descartes, mas a esse núcleo acrescento “e outros quarenta PrOblEMAS”, implicitamente incluindo Kennedy, Elvis, Hitler, os Beatles, John  e Yoko, ao tempo em que assumo que esse “DeuS” (Não crês que Eu estou no Paie que o Pai está em mim? – Jo 14:20) é, também, PrOblEMA”. E se é problema, dor. Sua pergunta é mais profunda do que imaginei à primeira vista, Fabrício. Lennon realmente disse tudo. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” é um livro que tenta medir a minha – logo nossa – dor,  a partir dessa relação feto-e-útero, feto, no caso, que tenta ser dado à luz, livrando-se do provisório abrigo que, no caso evangélico, é  o deus tribal dos judeus;  no meu, o deus que tomou o lugar dele, por que o considero também absolutamente insatisfatório, como revelo no poema em que digo ao leitor que, felizmente, ele não é cristão, porque – se fosse, mesmo -, estaria perdido.

 

DA – Não sabemos lidar com aquilo que nos transcende?   

W. J. SOLHA – De modo geral, não. Há um fascínio dominante pelo mágico. Porque ele deslumbra e é de fácil assimilação. Certa vez – há muitos anos – um livreiro me mostrou uma das suas estantes, cheia de “Eram os deuses astronautas?”, “O 12o. Planeta” e assemelhados, dizendo-me que era a dos livros que mais vendiam. Taí o Paulo Coelho. As pessoas, sem ter quem lhes diga de maneira concreta quem são, o que são, de onde vieram e para onde vão, fazem como as crianças: ouvem os contos de fadas. O Alcorão é um, a Bíblia é outro, e há os Vedas, Upanhishads, Baghavad Gita, etc, etc, etc. Difícil é convencer que a vida, por si só, com seus prazeres, sofrimentos e mistérios, já é o bastante pra nos apavorar e deslumbrar. Difícil é convencer que nenhuma religião tem coerência. Embora eu tenha ​- além do “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” – ​vários ​outros ​livros explicitamente abordando isso, como os romances “A Verdadeira Estória de Jesus” (Ática, 1979) e “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009)  ou o poema longo “Esse é o Homem” (Ideia, 2013), não discuto religião. Porque não adianta, por exemplo, lembrar aos que veneram São Jorge – patrono de Londres e da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, de Moscou e da Etiópia, além de, extraoficialmente, do Rio – que não existem dragões.

DA – É curioso como homens se sujeitam ao que ditam outros homens quando, por exemplo, o tema é o da espiritualidade. O agravante aqui é que há uma espécie de institucionalização secular do olhar, cujos artefatos prediletos são a culpa e o temor. Estamos piores nesse quesito? 

W. J. SOLHA – Espantam-me as multidões – em que pesa à informação cada vez mais acessível – que comparecem ao Ganges, Aparecida do Norte e em torno da Caaba. Ante elas eu me sinto voz no deserto. Como o Inconsciente é, na verdade, o Consciente, a vontade, frequentemente, é de botar a viola no saco e de me mandar. Mas vou escrevendo meus livros.

 

W.J.Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

 

DA – Em seu “Notas do subsolo”, Dostoiévski discorria sobre o que ele chamava de consciência exagerada (ou amplificada) versus a consciência do homem comum. Com certo tom sarcástico, ele sustentava que seria mais adequado fazermos uso da segunda opção, tendo em vista que a primeira encerrava uma excessiva percepção das sutilezas da vida. Trazendo para o contexto atual, como você pensa tal contraposição?

W. J. SOLHA – Certa vez, nos começos da informatização em massa, vi uma propaganda, numa revista, em que, acima dos retratos de Leonardo, Édson e Einstein, havia uma chamada curiosa: “O que eles têm que v. não tem?” O texto respondia: “Software. Enquanto você e a maioria contam apenas com hardware.” Confirmo isso quando olho pra um dos muitos autorretratos de Rembrandt – como se deu no fim de setembro, agora, no Louvre – e me lembro de algum, meu.  Ou quando leio “el otro poema de los dones”, do Borges, e o comparo com qualquer um que eu tenha feito. Dostoiévski só poderia dizer isso com sarcasmo mesmo. Como eu não poderia querer ser como ele quando criou “Crime e Castigo” e, mais ainda, como Tolstói quando fez “Guerra e Paz”, ou Aristóteles ao escrever a “Poética” e a “Política”? Ou como Shakespeare, Virgílio, Homero, quando produziram “Hamlet”, “A Eneida” e “A Ilíada”? Deve ser uma delícia ter “uma excessiva percepção das sutilezas da vida”. Felizmente a informática – como na propaganda – vem se desenvolvendo e está dotando muita e muita gente desse software, pelo menos no que se refere a uma enorme quantidade de informações que disponibiliza, facilitando-nos as associações de ideias. Mas continua sendo extraordinário ver Santo Agostinho, por exemplo, discorrendo como ninguém antes e muito tempo depois, sobre o Tempo. “Consciência amplificada”. É a maravilha humana em ação.

DA – DeuS e outros quarenta PrOBlEMAS reafirma um traço característico de sua obra, que é o de apresentar o mundo a partir de seu repertório pessoal, utilizando-se de referências artísticas, literárias, filosóficas, dentre outras. Diga-se de passagem, é uma característica inconfundível de seus escritos. Quem é essa ferramenta chamada memória? Conseguimos driblar suas artimanhas?

W. J. SOLHA – Meus romances, poemas, libretos pra balé e ópera, peças de teatro, quadros, são, todos, PrOblEMAS, Fabrício, principalmente esse, o de nenhuma dessas áreas sobreviver sem as outras. Talvez eu tenha escapado disso apenas como ator, pois ao representar deixo de ser eu pra me tornar um camponês abrutalhado em “A Canga”, ou um empresário com obscuras raízes de sua fortuna, em “O Som ao Redor”, o que me custou, sempre, esforço tão desesperado quanto o de uma sessão mediúnica, daí que tive de desistir dessa atividade ou – sem exagero – sucumbiria. Ri muito quando o grande Ivo Barroso me disse, ao assistir ao “Era uma vez eu, Verônica”, que se eu participasse de um “Tropa de Elite”, voltaria pra casa cheio da bala. Pois bem. “Quem é essa ferramenta chamada memória?”, você, me pergunta, curiosamente não dizendo “o que?”, mas “quem?” Claro que ela somos nós, pois sem sua presença – no Alzheimer, por exemplo – deixamos de existir, ficando de nós – tristemente, para os que nos cercam – algo como zumbis. “Conseguimos driblar suas artimanhas?”, você quer saber. No meu caso, parece-me, apenas me tornando um pistoleiro, em “O Salário da Morte”, ou o tenente Maurício, em “Fogo Morto”. No mais, sou o imenso Inconsciente (na verdade, Consciente) produzindo. Ciente disso, sempre usei um processo de criação – descrito em meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos” -, que consiste, primeiramente, em formar um “banco de frases” elaboradas em intensas “leituras” de fotos, de um Cartier-Bresson, Robert Capa ou Sebastião Salgado, ou de livros de Ciência ou Arte. A cada vinte, trinta páginas delas, manuscritas, repasso-as para o computador, já eliminando as descartáveis. Aí vou buscar combinações entre elas. É onde surgem – depois de encontrado o ritmo, introduzidas eventuais rimas – os meus versos. “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, portanto, como “Esse é o Homem”, “Marco do Mundo” e “Trigal com Corvos”, não vem de um tema premeditado. Fiz o que o Inconsciente quis. Mais ou menos como a cidade de Petra, que não foi construída, mas escavada na rocha. Só aceito essas “artimanhas da memória” – como você as chamou – porque elas me dão livros que julgo maiores que eu.

DA – Logo no início do mais novo filme de Godard, “Adeus à linguagem”, há uma passagem que diz: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Resta saber se o não pensamento contamina o pensamento”. O que dizer diante disso?

W. J. SOLHA – Isso já foi muito discutido em artes plásticas. De repente a Grécia clássica passou a perder de longe pra África, que compareceu com força no Demoiselles D´Avignon, quando Picasso tentava pôr a Teoria da Relatividade, então bastante recente e chocante, pra tela. Há um belo livro, Beyond Impressionism – The Naturalist Impulse, de Gabriel P. Weisberg, que mostra como, antes do cubismo, o impressionismo, “o escândalo do impressionismo” já apagara um outro grande movimento artístico de sua mesma época, o naturalismo, que – influenciado pela literatura de Zola – usava e abusava da nascente fotografia pra evidenciar a injustiça social que havia (e há) por toda parte.  Em meu romance “Arkáditch”, transfiro pra meu protagonista Zé Medeiros, professor de filosofia da UFPB, uma experiência que vivi em Madri: ao sair de uma mostra sobre a evolução de Mondrian e Kandinsky até o abstracionismo, entrei noutra, do espanhol Cristóbal Toral, que fizera o caminho inverso, do abstracionismo – na moda em sua juventude – pro hiper-realismo. Como os dois primeiros morreram em 44 e o outro nasceu em 40, aquilo me pareceu uma síntese do trajeto do século XX, centúria vítima de um terremoto cujo epicentro fora Hiroshima, 06 de agosto de 45, afetando tudo que acontecera antes e se daria depois da desintegração nuclear, desintegração que vinha crescentemente se processando nas artes, principalmente na pintura e na literatura (vide Finnegans Wake), desde que se criara a fórmula E=mc2 e se pensara numa arma com tal poder de devastação. Diante disso, parece-me que a realidade não seja um refúgio, um não pensamento. Van Eyck e Velásquez me perturbam tanto quanto Max Ernst ou Pollock. Essa questão me surgiu quando, nos anos 60, em Pombal, no alto sertão da Paraíba, onde eu era o subgerente da agência do BB, recebi pelo ônibus que vinha de João Pessoa (pois a cidade não tinha livrarias nem bancas de jornais) meu primeiro exemplar dos fascículos de Gênios da Pintura, que foi sobre Holbein, com muitos elogios à minúcia de sua reprodução da realidade, seguindo-se a isso o segundo fascículo, com iguais elogios às breves e densas pinceladas com que Cézanne “reproduzira” suas frutas. “Como pode?” Acabei por formular uma teoria a respeito: o gênio está em se sair com brilho de um problema estético, qualquer que seja. As realíssimas naturezas-mortas holandesas do século XVII – que chegaram ao trompe l´oeil – são tão fascinantes quanto as instalações de José Rufino ou os quadros de Beatriz Milhazes.  Daí que é tão bom ver um filme de Almodóvar ou Kleber Mendonça Filho, quanto um Godard. 

DA – Todo escritor é, no fundo, um exibicionista?

W. J. SOLHA – Se é, não sou escritor. O que busca exibição é sua obra, e confesso que nunca colaborei muito para que a minha aparecesse. Sequer faço sessões de lançamentos, com autógrafos e tudo mais. Feiras literárias? Nem pensar. Na verdade, trabalho mais pela obra alheia. Há pouco fiz a resenha do novo livro de Ruy Espinheira Filho; ontem, o prefácio para os haicais de Saulo Mendonça. Um de meus trabalhos publicados é “Sobre os 50 Livros de autores brasileiros contemporâneos que eu gostaria de ter assinado”, que saiu pela Ideia, acho que em 2012, edição paga por mim, coisa que, aliás, vem acontecendo com tudo meu que está por aí, inclusive com este “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”. No final de 2010 participei de dois longas pernambucanos e de dois curtas paraibanos, como ator. Um dos filmes – “O Som ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho – teve forte repercussão, meu trabalho idem, acimentado pelo prêmio de melhor ator coadjuvante que recebi no Festival de Brasília pelo “Era uma vez eu, Verônica” (do Marcelo Gomes). Jamais tive, com meus romances e poemas, evidência semelhante. Nunca fui procurado por editora alguma, porém recebi exatos vinte e dois convites para outros longas e para séries de TV, todos recusados, porque resolvi não mais atuar. Veja isto: certa vez participei de um comercial da televisão local e, no dia seguinte, conversando com um amigo numa rua bastante movimentada de pedestres aqui em João Pessoa, fui tantas vezes cumprimentado por passantes, que o companheiro me gozou: “Solha, você conseguiu, com 30 segundos de TV, o que não conseguiu com 30 anos de literatura.” Exibicionismo, portanto, não é um de meus defeitos, e olhe que tenho muitos.

 

DA – Hoje presenciamos no Brasil pequenas editoras tentando suas investidas. Fazem verdadeiro trabalho de formigas operárias, publicando livros em tiragens limitadas, dando espaço a autores iniciantes e, muitas vezes, atuando de modo artesanal. Como você avalia esse panorama?

W. J. SOLHA – Tenho trabalhado com pequenas editoras desde que Affonso Romano de Sant´Anna leu os originais de meu primeiro poema longo, “Trigal com Corvos”, elogiou-o imensamente, mas me avisou: “Você não vai encontrar editor pra ele”. E não encontrei. Banquei uma edição de 500 exemplares na Imprell – daqui de João Pessoa -, e os mandei – à minha custa – a quem os pediu. O mesmo se deu com “Marco do Mundo”, “Esse é o Homem” – ambos pela Ideia, também daqui, e, agora, o “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS”, pela Penalux, de São Paulo – este com uma tiragem de apenas 200 exemplares. O drama é que se fica sem a distribuição nacional que as grandes editoras – mesmo com má vontade – empreendem. O pior é que minha ficção já estava enfrentando a mesma barreira. Lancei minha “História Universal da Angústia” pela Bertrand Brasil em 2005, o livro ficou entre os finalistas do Jabuti, ganhou o prêmio da UBE Rio, mas, quando lhe mandei os originais de meu romance Arkáditch, foi-me dito que sua publicação apenas aconteceria quando a História cobrisse suas despesas. Aí ganhei o prêmio da Funarte de incentivo à literatura com o projeto do romance “Relato de Prócula”, mas a obra só saiu pela A Girafa porque paguei por isso.  E,  uma coisa triste: sempre, depois de cada prêmio, uma derrota. Ganhei o Fernando Chinaglia em 74, com meu primeiro romance, “Israel Rêmora”, ele saiu pela Record e teve uma senhora fortuna crítica, mas jamais conseguiu uma segunda edição. Morreu ali. Ganhei o INL, em 88, com “A Batalha de Oliveiros”, que saiu pela Itatiaia, mas o livro nunca foi distribuído. O mesmo se deu com “Shake-up”, lançado pela editora da UFPB. “Zé Américo foi Princeso no Trono da Monarquia” saiu pela Codecri, mas ela faliu em seguida, com a quebra do Pasquim. A Ática me disse ter, por engano, picotado dois mil exemplares de “A Verdadeira Estória de Jesus”, depois que eu fechara negócio com ela pra evitar o desastre resultante, segundo me disse, do encalhe. A Girafa também faliu, logo após o lançamento do “Relato de Prócula”. Daí que ontem – 15 de 10 de 2015, um número bonito – parei, de repente, o livro que estava escrevendo e me disse “Chega”. Parei, Fabrício. Estou com 74 anos e isso torna a decisão definitiva. Sua entrevista veio testemunhar o fim de um processo que envolveu muito trabalho, muito prazer e muito sofrimento. Valeu a pena? Valeu, apenas pra mim, mas valeu.

W. J. Solha
W. J. Solha / Foto: Andréia Solha

DA – Essa tendência maior de ser lido apenas pelos pares causa algum desencanto?

W. J. SOLHA – Comecei a ler por influência de minha mãe, que lia muito, embora desse conta da casa com quatro filhos,  sem qualquer alívio de cozinheira, faxineira, babá, lavadeira  e ainda costurava calças para o escritório e macacões para os operários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde meu pai era carpinteiro. Não há equivalentes àquela dona Ermelinda entre meus leitores. Ô, mas nem ela me lia, por me achar muito difícil. Exclusividade minha? Não. Já no tempo de Cortázar se sabia que os escritores não eram mais os mesmos. Mas ele foi e é muito lido, como Guimarães Rosa e James Joyce. Logo, o problema não está em ser lido apenas pelos pares, mas nem por eles.

DA – Foi a Paraíba quem lhe deu régua e compasso?

W. J. SOLHA – Especificamente Pombal, no alto sertão paraibano, em que vivi de 63 a 70, como funcionário da agência do Banco do Brasil, da qual fui um dos fundadores, chefe da carteira agrícola por quatro anos, subgerente durante dois. Eu tentara a pintura, em Sorocaba, na adolescência. Como trabalhava desde os quinze, estudando arte à noite, um dia, certo de minha mediocridade e por necessidade de autossuficiência, deixei a escola do mestre italiano pela de contabilidade, o que me levou pra dentro do banco. Fui surpreendido pela grande cultura que descobri nos papos em grandes rodas de amigos nas calçadas, em plena caatinga, a quantidade de livros que havia nas casas dessas pessoas. Li todos os grandes clássicos – gregos, romanos, Shakespeare, os russos, franceses, americanos, dos hermanos e brasileiros nesse período, tudo com livro emprestado, pois na cidade não havia nem livraria nem banca de jornais. Isso também aconteceu com os colegas do banco. Por influência do escritor José Bezerra Filho, que trabalhava comigo, comecei a fazer contos. Por influência de outro, Ariosvaldo Coqueijo, fiz minha primeira peça de teatro e trabalhei nela como ator. Com José Bezerra fundei uma empresa de cinema e rodamos, lá na cidade, o primeiro longa paraibano em 35 mm, de ficção, dirigido por Linduarte Noronha, famoso pelo documentário “Aruanda”. Pela primeira vez compareci a uma tela de cinema, no papel de um pistoleiro. Como Zé Bezerra, já em João Pessoa, escreveu e dirigiu a peça “O Mundo Louco do Poeta Zé Limeira”, vi, no chamado Poeta do Absurdo, um tipo de criação sem fronteiras, que acabou sendo também minha marca registrada. Na capital, senti que todo o estado tinha uma vida intelectual e artística muito rica. Tanto, que passei o ano 2000 e metade de 2001 fazendo as capas do segundo caderno do jornal O Norte, só com retratos de página inteira de grandes nomes da Paraíba, como Assis Chateaubriand – fundador do MASP e dos Diários Associados -, José Américo de Almeida – fundador da literatura regional brasileira, o pintor Pedro Américo – o do Grito do Ipiranga e Batalha do Avaí, o genial poeta Augusto dos Anjos, o grande Zé Lins do Rego, etc, etc, além de Marcélia Cartaxo, a primeira atriz brasileira a ganhar o Urso de Ouro de Berlim pelo filme “A Hora da Estrela”, o maestro José Siqueira que, entre outras coisas, fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, o romancista e dramaturgo Ariano Suassuna, o dramaturgo e ator Luiz Carlos de Vasconcelos, os grandes irmãos cineastas Walter e Vladimir Carvalho, os compositores Zé Ramalho, Sivuca e Chico César – a lista não tem fim. Mas foram 70 os retratados por mim para o jornal. Hoje seriam muitos mais: a Paraíba, por exemplo, foi o terceiro estado com mais participantes na XXI Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no Rio, agora, sendo um dos convidados,  o terceiro mais votado pela comissão, na hora de decidir quem receberia os contratos para  apresentação de obras inéditas, o maestro Eli-Eri Moura, para quem fiz o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, apresentada no Recife em 2009. Ainda ontem, por coincidência, como se a coisa permanecesse circulando, fui gravar a narração de um documentário sobre Assis Chateaubriand para uma das emissoras locais de TV.

DA – Enquanto atividade, ainda há espaço para o Cinema e as Artes Plásticas na sua vida?

W. J. SOLHA – No mesmo dia 15 de 10 de 2015 montei maquete para um quadro, que no dia seguinte comecei a pintar. Imaginei, antes, tirar um atraso de minhas leituras, que está grande, mas na primeira tentativa já deu pra ver que não tinha cabeça, por enquanto, para deixar de escrever mas continuar lendo, feito casal que se separa continuando amigo. Houve como um processo de saturação, comigo. Nas primeiras duas horas de pintura, senti enorme cansaço e fui dormir, isso às 10 da manhã. Jamais sentira isso pintando, nem quando passei nove meses fazendo o painel “Homenagem a Shakespeare”, para a UFPB. Pensei no problema da idade, mas vi que não foi isso. É que não estar escrevendo, depois de 40 anos de carreira, foi terrível. Quando você pinta, as palavras somem, você pensa apenas em termos de cor, luz, contraste, volume, contorno. Você funciona… noutro  canal. E isso, caramba, dói. Quanto ao cinema, eu já decidira parar quando fui convidado para “O Som ao Redor”. Fui vencido pela enorme qualidade do roteiro. Aí fui fazer o “Era uma vez eu, Verônica”, levado pela empolgação de trabalhar com o Marcelo Gomes. Aí emendei com dois curtas paraibanos… e fui derrotado pela estafa, de que fui me livrar só uns seis meses depois, quando já decidira parar com o cinema. Não só por não ter estrutura para ser alguém diferente de mim, sem me arrebentar. Também pela vida cigana que levaria nessa atividade. Tive convites para Recife, Brasília, São Paulo, Salvador e até Montevidéu. Sou sedentário – daí a literatura, a pintura. Quem sabe eu não encontre algo novo, um dia destes?

DA – O quanto W. J. Solha conhece W. J. Solha?

W. J. SOLHA – Ao resenhar o último livro de Ruy Espinheira Filho, percebendo a enorme presença, nele, do que ele foi, menino, lembrei o início do “El sentimiento de no estar del todo”, de Cortázar:  

Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez éste lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo. 

Muitas vezes, em minha vida adulta, vi em mim o mesmo comportamento do que fui, por exemplo, aos 11 anos, quando, deslumbrado com a descoberta de uma revista em quadrinhos especial – “Epopeia”, da Ebal – deixei de lanchar, em meu primeiro ano ginasial, para, com os dois cruzeiros que minha mãe me dava todos os dias para isso, comprar, a cada semana, dois números atrasados – como “O Correio do Czar”, ou “Aquila Maris”, cito dois deles – que me custavam cinco cada um. Pois bem: passei os últimos dez anos como funcionário do Banco do Brasil sem almoçar, para ter um pouco mais de tempo para escrever e ler. Sempre fui desesperado por leituras especiais. Pelo conhecimento. E meus livros foram, todos, resultados de algo que não encontrava nisso. Daí meu primeiro romance, “Israel Rêmora” (Record, 1975) ser tão autobiográfico, como também foram “Relato de Prócula” (A Girafa, 2009) e “Arkáditch” (Ideia, 2012) e meu primeiro poema longo – “Trigal com corvos” (Imprell, 2004). Foi o velho “Conhece-te e conhecerás os deuses e o universo” funcionando. Mas Hamlet, Édipo e Cristo me tiraram – personagens enormes – desse egocentrismo. Em 1984 lancei pela Codecri meu “Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, fascinado pela descoberta de que “A Bagaceira” do José Américo de Almeida – que rompia com a influência da literatura inglesa no Brasil – era uma adaptação do Hamlet, o próprio romancista vivendo, dois anos depois de lançar seu famoso romance, o papel do príncipe da Dinamarca, literalmente dentro de um palácio, o da Redenção, na capital paraibana. Já em 1979 eu lançara “A Verdadeira Estória de Jesus”, pela Ática. E até o final do ano deverá estrear, aqui em João Pessoa, meu “Édipo no Terceiro Milênio”, direção de Jorge Bweres. Conheço, inclusive, meus limites. Meu último livro começa com estes versos: “Gênio não tenho. / Me empenho”. Isso sou eu.

 

 

Paixão Judaica
Paixão Judaica (Acrílica sobre tela 80 x 100 cm) / Pintura: W. J. Solha

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

Categorias
104ª Leva - 07/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Na rota de um escritor há muito mais indagações do que respostas. Muito mais dúvidas do que qualquer outra coisa. Carregar na alma um punhado de incertezas é parte integrante da sina de qualquer mortal, mas parece que no caso de criadores as percepções ganham um relevo bastante dimensionado. Afinal, o que busca quem escreve? Reconhecer-se entre os seus iguais? Procurar um sentido para a existência? Libertar-se?

As perguntas predominam. No entanto, cabe questionar se realmente é importante saber das motivações. Atrai mais descobrir que escritores não são seres divinos e, portanto, nem de longe portadores de atributos espetaculares. São gente comum, tão atravessados que estão por suas questões humanamente cotidianas.  O grande aspecto é que tais autores são providos de ferramentas diferenciadas de apreensão da vida e seus fenômenos. Transpiram demasiadamente na direção de uma obra, sem construir caminhos a partir do nada. Por maior que seja a carga de abstração ou subjetividade envolvida numa via de criação literária, estará em curso também um processo consciente e criterioso de escolhas.

Nada melhor do que ter representações concretas daquilo que foi mencionado acima. E é possível captar tal atmosfera na obra de um autor como Thiago Mourão. Seu romance de estreia, “Java Jota”, lançado recentemente pela Editora Patuá, ousa percorrer as intricadas zonas da criação. O livro aborda a trajetória de um escritor na busca obstinada pela construção de sua obra. Com o vigor contido nos intervalos e esperas, o romance vai delineando cenários que demonstram o quão complexa e, por vezes, exasperada é a missão de um escritor em ter materializada a sua pretensão. Nesse ínterim, o personagem central depara-se com suas divagações, arroubos, constatações, mas principalmente com a confirmação de que a sua sina comporta paisagens marcadas por uma cruel inquietude.

Thiago Mourão se define como um baiano nascido no Rio de Janeiro. De forma independente, lançou seu primeiro livro de contos. Formou-se em Biologia, trabalhou com teatro, escreve e produz vídeos institucionais, e está na iminência de cursar um mestrado em literatura criativa na Harvard Extension School. O autor acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre um tudo. Deixou marcadas as impressões sobre seu novo livro, mencionou um pouco da sua concepção criativa, ressaltando a forma como observa os desafios de seu tempo. Pelo diálogo que aqui se faz presente, Thiago traz em si a procura inominada que ofícios como o da literatura sugerem.

 

Thiago Mourão
Thiago Mourão / Foto: divulgação

DA – Java Jota é um ser que personifica a busca de um autor pela construção efetiva de sua obra. Nessa perspectiva, tal representação traduz algo comum a muitos que se dedicam ao ofício literário. O que dizer dessa, digamos assim, angústia da criação?

THIAGO MOURÃO – Me parece algo instintivo, talvez não tenha o nome de angústia, talvez não tenhamos ainda criado um substantivo para nomear a sensação do ato da criação. Angústia parece ser a mais próxima, mas a gente pode descartá-la pelo fato de angústia não ser prazerosa (ao menos para mim) e a sensação do ato de criar, que parece angústia, me dá muito prazer. Fiz teatro. Os três segundos antes de o espetáculo começar ou de entrar em cena, aquele black out infinito depois do terceiro sinal, são os mais emocionantes. Você sabe o que vai fazer, teoricamente há controle do que vai acontecer, mas quando se pisa o pé no palco há prazer e emoção que incluem a angústia, por conta da possibilidade do erro e do desconhecido, mas não se esgota nela, há uma busca muito maior. Vejo como alguém que pula de paraquedas. Há adrenalina, ansiedade, medo, angústia, e tudo isso dá prazer. Acho que o prazer é maior do que a angústia. Por isso digo que é instintivo, a gente busca o prazer o tempo inteiro, até como estratégia evolutiva, mas ninguém busca a angústia. Talvez, a busca pelo prazer gere inquietação, expectativa e, também, angústia. E acho que é a inquietação que faz a alma do criador, seja ele artista, estrategista, arquiteto…  Java foi muito escrito na angústia, como o sentimento mesmo da mulher perdida (algo que Raul Seixas falava muito e já me encantava desde novo), mas principalmente no prazer do sexo e da descoberta; e no risco, de iniciar um texto por apenas uma frase e segurar uma história e uma voz a partir dali. Criar é a palavra de ordem de Gaia e é também a grande busca do humano, por ser filho e ainda viver no útero dela. É tudo instinto, animal mesmo. Nomeá-la angústia é reduzir muito a complexidade desta bomba de prazer e frustrações.

DA – Onde a famigerada inspiração?

THIAGO MOURÃO – Você chegou na pergunta que inicia alguns textos de Java. Onde encontrá-la? Ao mesmo tempo, há um ofício a ser cumprido. Então, aos poucos, a gente percebe que inspiração não baixa nem vem à toa, muito raramente, é preciso buscá-la. Hoje, acredito mais que a inspiração encontra-se na disciplina, nos objetivos, na barriga querendo comer e no fígado precisando de álcool. É claro que a gente se alimenta, observando o dia-a-dia. Eu gosto muito de observar a natureza (me formei em biologia) e sempre me intriga a relação do homem com o espaço de Gaia. A inspiração está nisso, nas perguntas, nas investigações que buscamos fazer. Claro que há dias mais fáceis que outros. Há dias que se escreve vinte páginas e dias que se escreve duas, dolorosamente. Mas qualquer coisa pode despertar a vontade de escrever um texto. Inclusive, outros bons textos.

DA – O modo como se percebe o mundo é certamente algo fundamental para um autor. Outros criadores também são responsáveis por mostrarem dimensões múltiplas de apreensão das coisas. É mais interessante pensar que o que chamamos de novo é fruto de uma transformação daquilo que sempre esteve entre nós?

THIAGO MOURÃO – Muito mais. Arte pode vir de artifício, e o artifício é a técnica. Se você abre o jornal, há um artigo sobre violência, na literatura autores falam da mesma coisa de outra forma, há os textos acadêmicos sobre violência que têm seu estilo próprio e suas ideias. Os temas rondam e cabe a nós abordá-los da nossa forma. E a nossa forma é baseada em tudo que absorvemos. E pensar que tudo se transforma e é aproveitado é um pensamento inteligente ao meu ver.

DA – Em “Java Jota”, os labirintos da mente conduzem o personagem a um ambiente hedonista. Aqui, a figura da musa é algo fugaz, desejo de calmaria numa procela incessante. Seria a memória um componente que nos ajuda a atravessar o caos?

THIAGO MOURÃO – A memória nos leva ao caos. Você faz uma observação que gostei muito na resenha de Java Jota: “molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.” É isso, uma colcha de retalhos. Quando acaba a memória e começa a criação nos nossos pensamentos? Ninguém sabe, nem os médicos e biólogos, mas sabe-se que todos, artistas e não artistas, inventam quando revivem suas memórias. E, normalmente, são caóticas. O que nos tira do caos é a junção disso tudo numa linha intelectual. Extravasamos isso nas profissões, nas conversas, exposições das opiniões e dos fatos. A memória nos faz saber dela o tempo inteiro, é a grande sacada que Joyce tem em Ulysses: a reprodução do fluxo ilógico do pensamento consciente. Um cheiro, um olhar ou uma imagem qualquer pode desencadear pensamentos muito vivos, que desencadeiam sentimentos e sensações e quanto mais sentimentos e as sensações, mais vivos estamos. Nada na natureza para e nós, queiramos ou não, somos parte da natureza. Nossos atos instintivos não podem provar isso? Quem tem total controle do que virá na mente? Me parece que a memória é a base primeira da criação. E é preciso treiná-la.

DA – Há algum sentido de libertação na escrita?

THIAGO MOURÃO – Há, sim. Evidencio isso em Java Jota neste trecho: “Porque eram artifícios naturais, puros e verdadeiros. Porque ali havia Rosa. E porque havia literatura. E Rosa e literatura faziam uma equação diferente, única e peculiar, que resultava em amor. Em calma, em conforto. Resultava em um lugar só dele. E dela. Um lugar fechado, mas livre e libertador do pior da sua alma.” Há sempre libertação na criação, como há o aumento da necessidade de criar mais. Acredito que a boa literatura não deva ter pudor. É a liberdade da hipocrisia social. Também pode ser de outras liberdades mais pessoais, e serão, pois só escrevemos sobre o que nos incomoda, ou intriga, enfim… Aspectos que nos chamem a atenção. Mas se vivemos em sociedade e estamos sempre transitando por ela, nossos anseios, desejos e intrigas estão completamente ligados a estas relações cotidianas. Logo, isso faz com que a libertação da alma e das questões sociais possam e devam andar juntas. Sem pudor.

DA – Em matéria de literatura, você se considera um transgressor?

THIAGO MOURÃO – Literatura deve ser transgressora no sentido das convenções e conveniências sociais, deve expor, pôr o dedo na ferida. Eu tento ser o mais honesto possível quando escrevo. Isso é transgressão? Esteticamente, gosto de experimentar, isso seria a transgressão a que você se refere? Procuro não me censurar e sou muito chato quanto ao tom e a forma de escrever. Se soa estranho, travo ou recomeço, se não tem uma voz própria, acho inválido.

Thiago Mourão
Thiago Mourão / Foto: divulgação

DA – Falemos da transgressão num sentido de rompimento de convenções e lugares comuns, levando em consideração um tempo de patrulhamento ideológico e do politicamente correto. A literatura sobrevive numa sociedade repleta de congratulações e bom mocismo?

THIAGO MOURÃO – Ah! O bom mocismo tem me irritado, confesso. Mas, por enquanto, tenho mais visto isso nas ideias e discussões que nos textos literários contemporâneos que tenho lido. O que há – e é também irritante – é uma necessidade da crítica pela crítica, esquecendo que estão fazendo arte, que é algo que privilegia a estética/linguagem. Quando quero criticar abertamente algo, faço nos meios que são para isso: O Globo, Brasil Post e Gazeta dos Búzios. Minha arte é crítica por trazer um espelho social e um tema, mas não escrevo para que os outros digam: “olha como ele é engajado”, ou para dar lições socialistas, não. Escrevo sobre o que quero falar e me incomoda e quando crio também, mas estou em busca de uma história, uma estética, e que se for para tomar posição, que ela esteja diluída na arte – que está acima de tudo. Outro dia li num edital de concurso de contos: “contos que valorizem o bem-estar social” e até hoje me pergunto o que queriam dizer com isso. Mais de um edital traz isso, seria uma doutrinação do bom mocismo? E fico apavorado por saber que a resposta passa por esse bom mocismo ou por achar que é a literatura somente quem vai nos tirar da mediocridade ululante em nossa terra. Tenho visto alguns escreverem cheios de efeitos e ironias e sem conteúdo ou de conteúdo repetido, isso tem rolado bastante. Mas vejo bons autores da minha geração com crítica, voz própria e escrevendo sem pudor e sem ser panfletário. Mas, sim, devemos estar atentos. Esteticamente, acho que as novas mídias vão nos ajudar a dar um salto na diversidade. Voltando a Ulysses, Joyce brinca com essa diversidade midiática que aparecia (o jornal, a publicidade invadindo outros espaços como a própria rua…). Ulysses é um claro retrato de como a diversidade linguística pode intervir na literatura. Foi escrito em início de século, mais ou menos no período em que estamos. Acho que quando começa um século, muda nossa forma de comunicar, mudam as indústrias e as estruturas sociais. Acho que grande parte das pessoas ainda não entendeu a importância de viver o início de um novo século. E isso contribui muito para a mediocridade e esse bom mocismo.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

THIAGO MOURÃO – Esse estado de coisas nos traz muitas informações e possibilidades, ao mesmo tempo, uma superficialidade doida. Parece que há uma busca, principalmente na minha geração, pela extrema bondade. Todo mundo é bonzinho e qualquer coisa que se discorde você é um direitista (uma coisa cruel – e esquecem as contribuições de pensamento econômico e social que os pensadores liberais trouxeram) terrível. Parece novela antigamente, tem os bons e os maus. Há muito pouca análise de contexto mais aprofundada, a internet, principalmente o Facebook que poderia ser uma ótima ferramenta para análises, se tornou, em grande parte, um local vazio de ideias, apenas com pessoas querendo se mostrar o quão boazinhas são. Ao mesmo tempo, é uma geração – coisa de cultura brasileira – que faz muito pouco pelo social, no sentido de, por exemplo, trabalho voluntário e humanitário. Essa tentativa de canonização, através do discurso, eu não endosso. Não sou bonzinho, sou humano, tenho pensamentos terríveis, egoísmos controláveis, mas incuráveis. Sinto raiva, inveja, desprezo, tudo isso… É inerente à minha condição humana e não faço questão de ser madre Teresa de Calcutá. Antonio Risério me trouxe uma expressão muito boa: são stalinistas chapa-branca. “Muito amor envolvido”, “de boas” e etc são expressões/frases que para mim ilustram muito bem o que digo, irritantes, diga-se de passagem. E aí você escuta coisas esdrúxulas do tipo: Dilma é uma grande presidente porque foi torturada na ditadura, me explique o que o cu tem a ver com as calças! Mas quando faço uma crítica dessas, automaticamente me jogam no colo dos militares, me chamam de insensível. Ou então devo achar lindo que o ex-presidente, aquele mesmo que se orgulha de ter chegado à Presidência da República sem nunca ter lido um livro, esteja colocando estudantes brasileiros na mão de bancos e empresários, numa dívida imensa (um problemão americano que estamos entrando enquanto eles buscam saída) porque agora filho de pobre estuda medicina ou biologia. Educação deve ser universal e pública e quando eu critico os métodos, automaticamente os que almejam a canonização me atacam me chamando de preconceituoso. Precisa falar o estado das universidades públicas brasileiras? É uma curva descendente em contraste à curva ascendente de lucros dos empresários do setor. Mas criticar isso é perigoso. Ou então é comum assim: “ele é ótimo porque pelo menos…” pelo menos… E de pelo menos em pelo menos a quinta maior economia do mundo distribui migalhas ao seu povo e todos ficam extremamente agradecidos, aí político vira pai e mãe, em vez de servidor público. Parece que a pós- modernidade trouxe ótimas ferramentas e nos manteve a cabeça do século XX. O Brasil aposta em petróleo e se você critica a loucura que é o pré-sal ou o risco econômico que o investimento em petróleo é no novo século, vão dizer que você está de conchavo com americanos para vender o petróleo. Ora, os países de primeiro mundo estão abolindo a indústria do carbono. Alunos de Harvard recentemente entraram num processo judicial para que a universidade pare investimentos em pesquisas e empresas de carbono. Stanford cortou esses investimentos faz dois anos. Parece que há muita informação pronta e pouco tempo para contextualizá-las e todos estão ávidos em ser bonzinhos, tão desesperados, que o Brasil foi entregue ao populismo em pleno início de século XXI, como se não houvesse tempo mais para estruturas e investimentos de médio e longo prazo, tudo tem que ser feito imediatamente… É isso, esse pensamento retilíneo eu não endosso. E tem sido difícil não endossá-lo, até porque eu não estou dissociado de ninguém.

DA – Definitivamente, somos seres incorrigíveis?

THIAGO MOURÃO – Somos seres complexos com questões incorrigíveis e instintivas. Sim, somos animais, e com muitas questões adaptáveis. Apesar de seres novatos neste planeta, nossa adaptabilidade ampla nos permite viver do norte ao sul da Terra, criando diferentes estruturas sociais e econômicas. Mas a nossa obsessão com esta alta capacidade de mudar o ambiente a nosso favor – chamada progresso – me parece incorrigível e já nos mostrou que tem afetado não só as outras espécies como a nossa. E mesmo isto estando claro, com fatos e números, insistimos nos erros. A dissociação homem-natureza nos cobra um preço alto. A nós e aos que nos cercam e pelo andar da carruagem parecemos incorrigíveis. Me referi ao humano como espécie, como indivíduo acredito que temos pequenas soluções – o que me faz ser completamente crítico ao nosso sistema carcerário e bastante crente do embelezamento e transformação da alma humana através da boa educação (não esta que nos apresentam, de maneira geral aqui no Brasil) e da arte/cultura.

DA – Sob o manto da criação, está cada vez mais difícil distinguir realidade de ficção? 

THIAGO MOURÃO – Bom, tenho tido a impressão de viver em uma peça de Ionesco o tempo inteiro. Isso falando da realidade, principalmente política, que o Brasil vive. Mas ando bastante caçando ficção e acho que o escritor deve sempre olhar para a realidade com essa visão criativa. Diálogos reais se transpõem facilmente para a ficção e vice versa. Quanto mais se cria, mais isso acontece. É bom e, às vezes, meio louco.

DA – Acossado pelo abismo, o que enxerga Thiago Mourão?

THIAGO MOURÃO – Uma bipolaridade incrível. Tem horas que parece que eu vou abraçar o mundo e tem horas que tenho certeza de estar sendo engolido pelo mundo. É estranho e desafiador, mas a linearidade em excesso é entediante. A beira do abismo e o balanço dele dão a impressão de vida. Sem isso, é só respirar.

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

Categorias
103ª Leva - 06/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Graccho Braz Peixoto

 

O uso do “e-mail”, no âmbito da imprensa, trouxe uma alteração na forma de se fazer entrevista. Se antes era feita no calor da hora, no encontro pessoal entre o jornalista e seu alvo, onde pergunta e resposta eram um bate-bola que proporcionava outras colocações inusitadas, muitas vezes surpreendentes, hoje é realizada por e-mail, fato que vai das publicações culturais mais à margem da mídia a revistas como a Veja. Porém, se perde no ritmo da fala, do fraseado mais espontâneo e circunstancial, ganha na cadência do pensamento, da articulação construída para uma resposta mais substancial. No caso do compositor Mário Montaut, a resposta escrita resvala facilmente para digressões e reticências, sugestões, o que, naturalmente, dá à “conversa” um sabor mais incomum. Formado pela Escola de Comunicação e Arte – ECA, da USP, Montaut está divulgando seu quarto CD, “De Viés”, em que põe a rodar a sonoridade própria de suas 16 canções. Neste espaço generoso, Mário fala da morte da canção, de sinestesia, de ídolos, infância, parceiros…  É nosso convite para leitura e audição de uma voz singular nesse território que costumamos chamar de MPB.

 

Mário Montaut
Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Vê-se, claramente, em suas letras, uma afinidade com o Surrealismo. Talvez seja algo tão forte que já soa como um processo inconsciente. Refiro-me em especial aos cenários oníricos que emanam das canções, você escrevendo no âmbito das sugestões, o que deixa sempre uma margem virgem para outras fruições. Pode comentar um pouco sobre isso?

MÁRIO MONTAUT – Isso que você chama de Surrealismo é para mim, com as mais loucas sinestesias, o espaço-síntese de todos os conflitos, de todos os paradoxos, e quando crio a coisa não é apenas emotiva, pensamenteira, sensorial.  Dessa enigmática instância acolhedora de tudo o que foi tocado pelo desejo, a inspiração, é que pode se abrir uma margem virgem para outras fruições, como você diz. Impossível a criação se não estiver ativada essa região. Agora, o Surrealismo, que para mim é essencialmente isso, realiza-se ganhando forma musical em tempos, velocidades bem diversas, quando vira música, em princípio. Uma música que já prevê, aguarda palavras, e que composta ao violão e voz, piano e voz, só ao instrumento ou a cappella, pode chegar música pura, ou com palavras, sonoridades que inspirem o verbo, e neologismos que mesmo desafiando a razão se impõem com seus sentidos misteriosos. Então, quando inicio a letra já existe todo esse processo, toda essa explosão, e a ela ouvindo, reouvindo, faço a letra. É um Caos. E natural que dessa complexidade às vezes surjam versos absurdos. Natural e inevitável (risos). Existe nessas composições algo de sugestivo, como você coloca, e de imperioso, inexplicável também para mim. Se pudesse explicar, não sei se faria.

 

DA – No novo filme do Jean-Luc Godard, “Adeus à Linguagem”, há a seguinte frase logo na abertura: ” A realidade é o refúgio dos que não têm imaginação”. O que você acha de tamanho aforismo, vindo de quem vem?

MÁRIO MONTAUT – Você sabe que não acompanho tanto assim o Godard? Retenho imagens belíssimas dele, de alguns filmes, e de certos filmes que nem vi inteiros, mas fico sedento por imagens novas dele, e esse aí é em 3D, não é? Um homem, uma mulher, um cão… e você lembra de “Je vous salue Marie”? Aquela menina recitando Baudelaire. E o bigodudo do Sarney censurando o filme logo após o término da censura? A pedido de Marly Sarney, a primeira dama que virou tema de carnaval daqueles jornalistas que criaram o bloco “Je vous salue Marly”? É um convite de passeio pelo tema, o aforismo. Oscar Wilde tinha outro: “A ação é o último recurso dos que não sabem sonhar”. Sarney, Antonio Carlos Magalhães: homens de ação, de atitude. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”. Surrealismo de Dorival Caymmi. Borges: “As pessoas aceitam facilmente a realidade talvez por suspeitarem que ela não exista”. Lorca: “Não é sonho a vida. Alerta! Alerta! Alerta!” Novalis: “A vida não é um sonho, mas pode chegar a ser um sonho”. Décio Pignatari achava que o Surrealismo não pegou tanto por aqui porque o Brasil já é surrealista. “Em qual mentira vou acreditar?”, entoavam os Racionais em “Sobrevivendo no inferno”, e esse é um título dantesco! Caetano Veloso: “Antonio Carlos Magalhães é quentinho, sexy e carinhoso”. O aforismo de Godard após um telejornal da Globo em ritmo de golpe produz essas digressões: “Bela Humana Raça!” (risos). “Dali de Salvador”, cantava a Blitz. “Um homem que para se referir a uma enxada precisa dizer enxada merece mais é pegar nela” (Wilde). Gabriel García Márquez quando sentia medo da realidade procurava fazer trabalhos manuais. Para tudo isso deve haver uma solução de continuidade. Lula e Dilma sabiam de tudo, mesmo?

 

DA – Geralmente, com nossas influências, vamos encontrando compositores que nos inspiram de diferentes formas. Alguns, se podemos colocar desta forma, se enquadrariam sob aspecto mais cerebral, informativo; outros já repousariam perto do coração, por conta de vivências, emoções que eu diria quase míticas. Você concorda? Pode dar exemplos?

MÁRIO MONTAUT – O Paul McCartney certa vez falou algo assim: “Here, there and everywhere era pra ser supostamente uma canção dos Beach Boys, porém, você não sabe disso, nada disso está na música, o que me influenciou está na minha cabeça, você não precisa saber, e é assim que vejo a diferença entre influência e cópia”. Algo aproximado, com o qual me identifiquei. Posso lhe garantir que no processo de determinada composição sei onde se dá um toque de Benjor, de Debussy, Kandinsky, Keith Richards, de Heidegger, e claro, você não precisa saber disso (risos). Dito assim, parece até niilismo, inexistência quase total de evidências (risos). Fico parecendo um personagem de Borges. A artista plástica Fayga Ostrower, em seu livro “Criatividade e processos de criação”, repete em estilo acadêmico o que o Paul disse com mais clareza e contundência: que a influência mais elaborada se torna reconhecível praticamente só pelo artista. Creio que a influência vem dessa quarta região inspirada, da qual emana o fogo-síntese, e onde ocorrem as transfigurações de tantas linguagens, onde um parágrafo de Heidegger, uma tela de Kandinsky, não me instigam menos do que uma canção de Chico Buarque ou dos Beatles. Como exemplo, vou mencionar o sonho em que Jimi Hendrix faz um solo de guitarra que se projeta no céu de Vulcânia  (ilha onde foi construído o Náutilus, do 20.000 Léguas Submarinas, de Julio Verne) num arco-íris com muito mais de sete cores, e que pode me lembrar tons do Kandinsky que revi na recente exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo,  sonho que resultou numa obra puramente musical, “Brincando em Vulcânia”. Será que lembra Hendrix (risos)?

 

DA – Uma deixa para você fazer duas consagrações: fale de Beatles e de Dorival Caymmi.

MÁRIO MONTAUT – Infância, proximidade da origem, arquétipo. Quantas canções dos Beatles vêm de arquétipos. “The fool on the hill’, “Eleanor Rigby”, “I’m the walrus”, “Hello Goodbye”, “The Long and winding road”, “For no one”, “Help”, “I’ve got a feeling”, “Let it be” (em que muita gente, até o John Lennon, vê a Virgem Maria, mas que Paul jura ser a mãe dele)… E  esse mar de ondas arquetípicas quando quebra na praia é bonito, é bonito, como diz Caymmi, que como os Beatles, tem nas letras uma coloquialidade genial. Caymmi é infância puramente marota, sensual, com aquela malemolência, aquele violão das canções praieiras. Debussy compôs “La Mer”, mas é Caymmi quem o desvela pelas praias em que também pescam e se banham os Beatles.

 

DA – Um comentário recorrente entre autores e músicos diz que a MPB perdeu sua força, sua representatividade, seu alcance. Concorda com isso? Sei que é uma questão complexa, que não se esgota numa entrevista, mas queria sua opinião.

MÁRIO MONTAUT – “O vento que faz cantiga nas folhas do alto do coqueiral, o vento que ondula as águas, eu nunca tive saudade igual, me traga boas notícias daquela terra toda manhã, e jogue uma flor no colo de uma morena em Itapoã”… Se vejo as coisas dessa praia, que é sonho onde brincam Chico, Beatles, Dalí, Breton, Alberto Caeiro, todo o resto é brincadeira de mau-gosto. Isso do Chico dizer que a canção morreu é apenas a revelação teórica de algo que ele já prenunciou em “Olé Olá”, em que vaticinava o futuro do canto, do samba: “o sol chegou antes do samba chegar, quem passa nem liga, já vai trabalhar, e você minha amiga já pode chorar”.  Na globalização da Ditadura Econômica, da Tecnologia Totalitária não sobra espaço para se brincar, pensar, cantar. Henfil já dizia que a tecnologia é a morte do sonho, e a morte do Sonho, parece, é a morte da canção. Paul McCartney, em “Jenny Wren”, acredita que a canção irá renascer. Eu apenas sei que por enquanto há muita singularidade possível e compartilhável.

 

DA – Talvez a mesma pergunta feita de outro modo. Tivemos movimentos e movimentações de uma criatividade muito forte, uma produção hoje consolidada. Ao longo do tempo, grandes cantores e compositores que surgiram com a Era do Rádio, os craques da Bossa Nova, que fundaram uma nova linguagem, com repercussão internacional; a Tropicália, alguns grupos e artistas com tanta coesão que ficaram conhecidos como o Clube da Esquina, o Pessoal do Ceará, Geração Nordeste, o pessoal do Lira Paulistana, o rock da década de ’80. Que visão tem do cenário atual?

MÁRIO MONTAUT – Delícia lembrar 1980, quando a canção que eu mais ouvia nas rádios de São Paulo era “Noturno (Coração Alado)”, a de maior sucesso e uma das mais emblemáticas dos compositores do Ceará. Bem na época do “Lira Paulistana”, e curiosamente também em 1980, um debate na Faculdade de Música da ECA-USP, com a presença de Arrigo Barnabé, Mário Manga, Hélio Ziskind e uma diversidade enorme de compositores, na qual os movimentos que você menciona estavam mais ou menos representados. Ainda não haviam decretado sua morte, mas quase todos ali concordavam que a canção se encontrava em profunda atonia. O Arrigo se mostrava até meio indignado dizendo que tinha tocado na questão com o Valter Franco, e que este via aquela leva de canções com muito bons olhos. Mas eis que com a lembrança de “Noturno”, sua e do Caio, e esses fatos instigantes você traz de novo o tema que tanto nos seduz pelo mistério: a morte da canção. Por certa crítica que vê em Chico Buarque De Hollanda um sinônimo da canção, e também de certa esquerda no Brasil, ele foi eleito o grande ícone do fenômeno. Quando em julho de 2011 lançou “Francisco”, um crítico da revista Veja afirmou que “seu último espasmo criativo” se deu em 1993, em “Paratodos”. Chico estava então sem gravar desde 1989, ano em que lançou “Morro Dois Irmãos”. Logo após o lançamento de “Paratodos”, ele declarou numa entrevista que se a crise criativa pela qual vinha passando crescesse em termos geométricos, o próximo disco sairia só dali a dezesseis anos. Na realidade isso ocorreu em 1998, com “As cidades”, que deu ensejo a uma matéria da Veja intitulada: “A crise criativa de Chico Buarque”. Os críticos que participaram da reportagem nem falaram tão mal assim da obra, só tentaram aprofundar o assunto que o próprio Chico propusera. Sinto, Graccho, que este é o cerne da pergunta, e já que não dá mesmo para responder apenas prossigo nessa perspectiva que vou achando cada vez mais atraente. “Carioca”, “Sonhos Sonhos São”, “Subúrbio” e “Querido Diário” são para mim as mais significativas composições de Chico nos três últimos discos, e cuja riqueza é maior a cada audição. Com algumas faixas de “Chaos and creation in the backyard”, de Paul McCartney, essas certamente estão entre as músicas que mais ouço nos últimos anos, e sobre as quais gostaria de conversar com outros músicos, que para minha surpresa revelam um desconhecimento quase total desses trabalhos. Parece que resta em nossa contemporaneidade a graça singular, e ela pode ser partilhada, mas em outro nível. Dificilmente você diz: “Essa é a nossa canção”, relembrando Joyce, que já brincou com a ideia da morte da canção na revista “Bundas”, do Ziraldo, ano 2000.

 

Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Fale um pouco do processo de gravação de seu disco “De Viés”. Sei que várias músicas ficaram fora, apesar das 16 faixas. É doído definir o repertório?

MÁRIO MONTAUT – Sim, é mais que doído. Agora, eu me lembro de Noé. Quando Deus lhe disse que iria mandar o dilúvio, ele salvou um casal de cada espécie na arca. Bem, sem tamanhos avisos e sem aquele aguçado faro de escolha, mas a meu jeito, quando sinto que vou acabar perdendo a maior parte das muitas coisas que crio, seleciono algo que represente um pouco de cada etapa, de certos ângulos de minha criação pelo tempo, e coloco na arca de Montaut (risos), e nem sei se são as melhores músicas, mas são escolhas possíveis, que representam possibilidades que me habitam, e mesmo que muita coisa fique de fora, sinto-me aliviado antes que o temporal leve embora, e você sabe que na condição precária dessa existência de artista que não vive de sua arte, a questão se torna ainda mais delicada. Tento trazer para cada disco exemplares de várias épocas e composições realizadas numa proximidade relativa à feitura do disco. É quase impossível lançar um álbum em menores intervalos de tempo, então, tem sido assim até agora. Trabalhei essas composições desde 2010 com o Roberto Gava (produtor, arranjador e instrumentista no álbum), com a Ana Lee (cantora, minha mulher e musa), com o Ricardo Stuani (percussionista em várias faixas do álbum), Vicente Thiné e Ozias Stafuzza (queridos parceiros). E durante esse tempo gravei muita coisa nova, material para iniciativas futuras.

 

DA – Como se deu sua aproximação com a música?

MÁRIO MONTAUT –  A banda no coreto de Serra Negra, perto dos três anos de idade. O rádio tocando “A Canção do Marinheiro” (“qual Cisne Branco”) e “Hava Nagila”, entre outros cantos e vozes de  Serra Negra, e já de volta a São Paulo, aos quatro anos, uma canção no rádio que nunca mais ouvi, e que me chegou com o tempero fabuloso de uma das tantas histórias que minha avó Alice contava, enquanto eu ouvia e olhava pela janela um navio sumindo. Um mapa infinito de tantas ruas.  Aos oito anos, de férias em Serra Negra, ouvi melodias dos Beatles, sem saber que eram elas, executadas por orquestra nos alto-falantes de um cinema.  Aos onze anos o violão, e logo as primeiras composições, Caymmi, Chico Buarque, Tchaikowsky, Chopin, Beethoven, Roberto Carlos, Beatles. Mais tarde o piano, e as namoradas, as turmas no colégio e em casa. Coisas bem antes do que conto e que não vão acabar.

 

DA – Sabemos que algumas experiências com as artes, como pura fruição ou mesmo no ato da criação podem ser algo de elevação espiritual. Você teve algo assim com a música?

MÁRIO MONTAUT – Você fala em elevação espiritual, e eu atento para o termo. Espiritual. Tão desprezado na atualidade, como se nossa consciência fosse resultado unicamente de neurônios, de redes neurotransmissoras. Kandinsky, que sempre teve o Espiritual em grande apreço, “procurou na alma dos objetos as manifestações espontâneas de seus sons interiores”. Participou de movimentos xamanistas na Mongólia, também nome de um filme de Salvador Dalí.  Você me faz  pensar ainda em Christian Dunker (psicanalista amigo de Vladimir Safatle e de Maria Rita Kehl), que em dezembro de 2012 escreveu para a revista Cult um belíssimo texto sobre a Alma. Música é Alma, leva-me ao êxtase, para mim, a forma maior de conhecimento, que para muitos pode ser “irrealidade”, mas esse universo musical se insere na realidade de modo mais determinante que certos padrões aceitariam (risos).  A audição de uma música, ou a lembrança dela (que com o tempo costuma ser um tipo mais frequente de experiência, aquela audição interna), pode ser arrebatadora, e produzir essa “elevação espiritual”. Quanto ao ato de criar, é também um êxtase diferente, na região em que se processam as alquimias e sínteses que geram a forma. Ali, esta pessoa que agora fala se apresenta em proporções mais adequadas.

 

DA – O que é uma canção?

MÁRIO MONTAUT – A forma concomitantemente rítmica, melódica, harmônica, verbal… Você foi ao ponto.  Algo que se cante entoando palavras, talvez. Ocorre que tradicionalmente a canção é o que Noel, Chico, Caymmi, os Beatles fizeram, com muita comunicabilidade a guiar outros impulsos. De um bom tempo pra cá, repetimos essa forma à exaustão, hoje coisa diluída, profunda atonia, ou então a inovamos um pouco e ela já não é  amplamente entendida. No meu caso penso que faço algumas canções, poucas, e muitos objetos sonoros não identificáveis como você uma vez bem os chamou. Sinto nelas algo que requer uma partilha bem diversa. A música me exige um tipo de letra não muito fácil de ser assimilado, e, portanto, de ser cantado facilmente por aqueles que as ouvem de imediato. Ao mesmo tempo em que são marcantes que já às primeiras audições. Bela Humana Raça, Castelo, Álven Jérra, De Tua Lembrança, Ondíssima Visão, Satã De Boi, Cadáver Delicado, Quando eu canto pro meu bem… Curioso o conjunto desses dezesseis títulos em “De Viés”, e sua pergunta me põe mais em desejos de refletir do que em condições de responder.

 

DA – Pra terminar nossa conversa, uma provocação: quem é Mário Montaut?

MÁRIO MONTAUT –   O que me inspira, como a Manoel De Barros, é mais aquilo que ignoro, que essencialmente desconheço e desconhecerei. Por mais instigante que seja o que de nós conhecemos, é mais aterrador e divino o que ignoramos, o que pode nos dar medo e ímpeto vital, como esta nossa conversa, de dois parceiros musicais pela trama cósmica.

 

Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.