Categorias
80ª Leva - 06/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Ergue-se um caminho especial quando um autor abraça as questões de seu tempo. A impressão que fica é a de que sua obra ganha uma dimensão algo mais ampla, pois amarra os dotes da subjetividade ao testemunho vivo e prático de um processo histórico que se constrói no dia a dia. Essa capacidade de observação da realidade a serviço dum exercício literário adquire corpo novo a partir do momento em que seus porta-vozes não se deixam levar pelas armadilhas de um discurso vazio e demagógico.

Entre nós, é verdadeiro achado descobrir quem o faça com habilidade e, sobretudo, sensibilidade. Ao percorrermos a obra de uma escritora como Rita Santana, temos a convicção de que o ato de maquinar palavras rompe barreiras meramente estéticas e assinala olhares bem lúcidos em lugares tidos como viciosamente preestabelecidos. Na construção de seus versos, Rita, ao mesmo tempo em que entoa seu lírico canto por sobre o novelo delicado da existência, sabe como poucos bolinar feridas tradicionalmente marcadas a ferro e fogo em nós. Sem levantar bandeiras despropositadas ou qualquer tipo de comportamento panfletário que o valha, a poeta, atriz e também professora ambienta seus cenários tendo como guia uma precisa e afirmativa veia feminina.

A condição de mulher aliada à de escritora fez com que Rita Santana ousasse acertadamente transpor barreiras de toda a ordem. Desde muito jovem, essa baiana, nascida nas paragens de Ilhéus, devotou atenções às questões que permeavam o entendimento de seu papel no mundo. Nomes como Rachel de Queiroz, Simone de Beauvoir e Clarice Lispector, dentre outros, serviram-lhe de guias na formação de uma consciência representativa do universo feminino. E a passagem do tempo mostrou que a autora de livros de poemas como “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e “Alforrias” (Editus – 2012) vem ocupando um lugar cada vez mais consistente no universo literário. Sua estreia em livro se deu com os contos de “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado), pelo qual recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura, em 2004.  Nessa entrevista, Rita dá um verdadeiro testemunho dos processos que lhe tornaram escritora, reflete sobre o papel da mulher na atualidade, enfatizando a força que sua visão feminina de mundo empresta à gestação de suas palavras. É ler para crer.

 

Rita Santana / Foto: Edgard Navarro

DA – Seu caminhar poético, tanto em “Alforrias” quanto em “Tratado das Veias”, assinala um olhar carregado pelas marcas da existência. Ao mesmo tempo em que evoca delicadezas e traços sensíveis, promove embates entre carne e alma. O que dizer desses percursos que nos atiçam os sentidos?

RITA SANTANA – A existência atravessa as minhas preocupações desde os primórdios. Adolescente, ainda, decorei Essa Negra Fulô de Jorge de Lima e recitava aqueles versos sempre. A denúncia e o teor de resistência já mexiam com a consciência precoce da minha identidade. Fernando Pessoa estava por lá e me afetou muito cedo com o seu questionamento sobre Deus em O Guardador de Rebanhos. No mesmo período, Neruda – eu tinha 12 anos – estava comigo. Cem Sonetos de Amor foi o primeiro livro de poesia que tive e que me deixou marcas líricas muito profundas. Ainda nesse período, Dôra Doralina, de Rachel de Queiroz, fez uma revolução grande em todas as minhas certezas, pois trazia uma representação feminina muito vigorosa, ousada, cheia de desejos e de subversões. Lá, encontrei uma mulher dona de si, senhora do seu corpo, da sua vida, além da demolição completa da família. Tudo muito revolucionário para uma menina e tudo aquilo dinamitou o mundo pronto e formatado em que eu existia.  Mais tarde, Clarice Lispector me ajudaria a descobrir que a inadequação, medos, angústias e preocupações, pertinentes ao universo feminino e humano, poderiam ser a matéria-prima da minha literatura. O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, já estava em minhas mãos desde 1989, quando eu era uma jovem de 20 anos, e já manifestava minhas insatisfações em relação ao existir como mulher nesse mundo, posto que já havia em mim a revolta contra os lugares preestabelecidos para serem ocupados pelo gênero feminino. Os dramas de ser mulher e negra numa sociedade racista e machista também já se debatiam dentro de mim em todas as relações sociais, acadêmicas, amorosas, artísticas, familiares. É impossível não ser afetada por essas questões. A minha casa foi o primeiro espaço de constatações e de contestações. A escrita veio, portanto, como arma, como contradiscurso necessário para que eu assumisse o meu posicionamento político e poético no mundo.

Há repressão também na linguagem da mulher e sempre me rebelei contra essa violência. Em Tratado das Veias, por conseguinte, por ser um livro que obedece – principalmente nos primeiros momentos do processo criativo – ao fluxo de consciência, esses questionamentos existenciais são mais contundentes e o erotismo mais agressivo, mais urgente. A literatura que faço tem um compromisso fundamental com a beleza. Acredito que haja nas páginas do Tratado um lirismo abundante, permeado pelo erótico e pela mulher política em que me transformei. Otávio Paz, em Amor e Erotismo, diz que “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda, uma erótica verbal”. A minha linguagem poética busca exatamente esse diálogo entre um corpo e uma língua completamente libertos, cujos símbolos são transmutados em favor da sonoridade, da imagem, do belo, da delicadeza e do inusitado dessas combinações. O prazer sexual sempre foi uma forma de resistência, alvo de perseguições e ele está atrelado ao grande tema dos meus poemas que é o Amor. O Amor é imprescindível a minha escrita porque também sou romântica e, num processo consciente, o desconstruo porque o questiono e sei da sua natureza perversa na construção da independência e da libertação feminina – muitas vezes.

A poesia é o espaço da rebelião da linguagem, onde ela se nega a servir simplesmente ao convencional, ao lógico da língua, das regras. Sou muito simbolista, pois tocada pela sonoridade, pelos sentidos sinestésicos da existência. Sou aquela que vê no símbolo o exercício de uma experiência onírica, musical. Essa marca herdei também de Cruz e Souza: vozes veladas veludosas vozes, cuja impressão sempre me perseguiu. Sou – também eu – uma Emparedada. A poesia é o espaço da libertação dos sentidos e as aliterações, cores, odores e os processos metafóricos me perseguem. Quando atrelo o poético ao erótico, a feitiçaria inunda o espaço do poema e da existência. Em O Arco e a Lira, Otávio Paz já tocava na experiência da litania. Esse ebó, essa hóstia, essa festa onde o profano e o sagrado comungam da mesma linguagem, do mesmo rito, do mesmo banquete, da mesma oferenda, num único cântico. O poema é o lugar onde carnes e êxtases, palavras adormecidas e imagens se confundem. E o amor pode ser libertação e a poesia, alforria. Alforrias é o resultado dessa busca, dessa tentativa de ser liberta e atrair palavras e sons alforriados.

DA – Você trabalha a questão do feminino de um modo deveras especial, sobretudo como objeto de contestação a certos valores negativamente arraigados em nossa sociedade. Chama atenção mesmo é o fato de seus versos não reverenciarem o amor servil. Como conceber o amor num tempo em que parecemos tão carregados de contradições e alguns retrocessos?

RITA SANTANA – O amor é uma grande armadilha! A nossa formação folhetinesca é deformadora. O amor romântico – cujas raízes estão no amor cortês do século XII – ainda hoje ronda o nosso imaginário. Há um bombardeio social de fórmulas e idealizações amorosas dificilmente praticáveis na vida real, mas, muitas de nós, alimentamos essa ilusão, mesmo reconditamente. Entretanto, a vida é muito severa e cobra posturas da mulher para que ela resista e imponha – já que a negociação nem sempre é possível – o seu pensamento e as suas decisões diante do Outro. A primeira imposição que se estabelece é a da liberdade e ela nem sempre é azul. A liberdade é vermelha, feita com lágrimas, sangue, suor, trabalho, estudo e muitas rupturas. No relacionamento amoroso essas cisões são inevitáveis, visto que a liberdade financeira e o olhar para os nossos próprios desejos são incompatíveis – em alguns relacionamentos – com as expectativas masculinas em relação à mulher.

A nossa sociedade é profundamente machista. Até num barzinho, observa-se a insistência de alguns homens em dominarem a conversa, monopolizando o discurso e ignorando as tentativas de interlocução das mulheres. Nas ruas da Bahia, a grosseria e as ofensas com cunho pornográfico são tão frequentes que já fazem parte da paisagem. Propaga-se a cada dia o sintoma patológico de agredir – verbal e fisicamente – mulheres sem quaisquer cerimônias. Nas nossas ruas, homens dirigem olhando traseiros e nos lançando palavras obscenas, atrapalhando o trânsito e também o transitar do respeito e da liberdade. Daí a importância real da Educação, da introdução dos Estudos de Gênero na formação das educadoras, da sua valorização salarial que, ainda hoje, é prática discursiva circunstancial e eleitoreira. Políticas públicas mais efetivas para a libertação financeira da mulher colaborariam efetivamente para a redução da violência física e verbal contra elas, principalmente nos seus santos lares.

A mulher que ocupa os espaços públicos enfrenta, no território amoroso, a difícil arte do convencimento, da lógica, da dialética constante, do ciúme e das negociações. No terreno privado, o controle é muitas vezes masculino, principalmente quando há domínio financeiro. O amor não é uma instituição neutra, onde prepondera o sentimento e o desejo de estar com o Outro. É um terreno onde vivenciamos todas as mazelas sociais.  É uma construção social que lentamente desmorona para muitas pessoas, principalmente as muito ávidas, sequiosas de liberdade, de espaço, de reflexão e de felicidade. O homem ainda não consegue encarar o discurso da mulher, pois – segundo Maria Rita Kell – a fala representa simbolicamente o falo e isso apavora. Algumas pessoas conseguem vivenciar o amor romântico, encontram seus pares e, ainda que enfrentem uma série de dificuldades e obstáculos na convivência, estão determinadas a seguirem o projeto romântico de felicidade. Essas são as consideradas felizes, plenas. Só suas consciências o saberão.

A janela era o espaço – no século XIX – do único diálogo entre o mundo privado e o público para a mulher. À mulher era destinado o espaço privado. Já pulamos a janela, invadimos as ruas, principalmente as mulheres negras que anteciparam essa invasão há séculos, devido à sua livre penetração em espaços proibidos às brancas. O trabalho nas ruas do Brasil escravocrata foi também uma espécie de alforria.  Novas janelas são abertas hoje, mas desmontar, no nosso imaginário, essas construções que já viraram ruínas é muito difícil, e não apenas para o homem, que precisa repensar o seu lugar no mundo e na vida da mulher de hoje. É também complexo para nós – mulheres – que observamos com lucidez o fenômeno amoroso. Raciocinar o amor é necessariamente desconstruí-lo, destituí-lo da sua edificação romântica e começar a reinventar uma vida longe dos velhos clichês. O Amor está ruindo para muitos. Restará o desejo de realização com o Outro, mas não no outro, certamente.

Meus versos devem perturbar alguns homens, pois a estratégia de resistência da minha escrita é provocar reflexões e expor que também somos absolutamente humanas, sexuais, eróticas, livres, possuidoras do Verbo e desejosas de felicidade. Meus versos buscam esse amor idealizado, mas o desnudamento faz-se necessário. É preciso denunciar a covardia de homens diante de mulheres que tomam o verbo como instrumento de reflexão, de análise do cotidiano e da sociedade. Acredito que muitos amores tenham se perdido diante do medo masculino em ceder a alguns dogmas, convicções, pressupostos, por isso abdicam de mulheres poderosas ao seu lado. Vê-se em estatísticas o índice de divórcios entre casais em que as mulheres galgam níveis acadêmicos mais elevados. O estabelecido é que a mulher ocupe o papel passivo daquela que está em casa para apoiar a ausência do marido, enquanto ele cresce. Apoiá-lo na volta ao lar diante da sua traição, apoiá-lo durante suas crises existenciais que abalam o relacionamento. O oposto não é aceito! A mulher que trai ainda hoje tem que viver inquisições medievais.

Não há retrocessos! Estamos buscando, aprendendo, e a experiência amorosa é muito pessoal e cheia de conflitos, contradições, paradoxos de toda ordem. O amor é diverso e o difícil é encontrar alguém que queira experimentá-lo da mesma forma que você, afinal cada um de nós é tão cheio de especificidades, idiossincrasias. É preciso viver cada um a sua forma, a sua descoberta – e isso às vezes leva décadas e requer muita coragem! Adorei ler algumas cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, pois desfiz a ideia de que Sartre fosse o seu grande amor. Amei ver Simone absolutamente humana, insegura, mulher amorosa, amante, e absolutamente apaixonada por outro homem. Devo retomar essas cartas algum dia. O fato é que nos apaixonamos! E a armadilha também pode ser maravilhosa, se houver cumplicidade, respeito e parceria. Caso contrário: “Aos demônios o cacete dos homens demasiadamente homens!”. (Alforrias, 57)

DA – Sua verve poética está impregnada do que você chama, em Tratado das Veias, de “eu sáfico”. É impossível dissociar sua voz dessa marcante simbologia?

RITA SANTANA – É impossível! Sapho é uma mulher impressionante e fundamental na minha escrita e na história da humanidade. A sua imagem acompanha muitos dos meus versos, principalmente em Tratado das Veias. No poema Ciúme, eu digo: “O que me resta é entrar na roda e tergiversar/Ou só versar, tocar minha lira/E virar Safo de mármore na praça de Ilhéus,/ Minha Lesbos abandonada.”  Declaro-me sua filha no poema Anjos Negros: “são anjos cultos, sarcásticos, sacros somente nos altares. Nas minhas asas são libertinos, vorazes. E eu, filha de Safo, gosto muito.” Eu sou uma ilhoa, ilheense e na minha cidade natal – Ilhéus – há, na praça J.J. Seabra, uma belíssima estátua de Sapho que está lá desde 1924, portanto, a sua imagem é um ícone misterioso que sempre esteve a olhar para mim e a proteger os meus versos. Os meus poemas são sáficos porque sempre tive a necessidade de ter a lira para acompanhar o ritmo dos textos – inclusive da minha prosa – nessa busca por uma música invisível, insondável que tento buscar quando escrevo. Mesmo quando ausente em citações, a sua lira me acompanha. É óbvio que é a minha lira! Lira negra, não aristocrática – mas com tons clássicos – que se mescla à herança dos meus ancestrais, às suas cordas, às suas danças, às chiuhumbas de quatro cordas que meus parentes negros trouxeram da cultura africana com a diáspora, e que está no meu sangue.

Ela é a décima Musa proclamada por Platão. A sua insurgência em tempos tão remotos sempre me impressionou, apesar de não me sentir – em muitos aspectos da minha prática cotidiana – uma transgressora. De vez em quando, olho-me ao espelho e reconheço ser uma grande guerreira, mas, muitas vezes, sinto-me fraca, covarde, pequena, indigna. E Sapho simboliza essa mulher cuja obra resistirá ao fogo, ao tempo e à incineração católica que a sua poesia sofreu no século XI. Há um lirismo dramático em meus versos que vem da atriz, mas que também herdei dela, da sua ira. Assim como observo um desespero amoroso, uma insanidade passional terrível, um enfrentamento agônico diante de amores frustrados, impossíveis que estão presentes na minha escrita e na dela. Ela é dramática, suave, intensa e o ritmo dos seus versos é sedutor. A sua métrica admirável está a serviço da expressão e não o oposto, isso me encanta. Arrebata-me.

DA – Em que medida a sua porção de escritora converge com a de educadora?

RITA SANTANA – O conhecimento é imprescindível! Adoro aprender e conhecer coisas novas. Sou apaixonada por descobertas e a professora me proporciona essa experiência contínua. Os livros didáticos – escolhidos pelo corpo docente – já são mais interessantes, atualmente, com informações sofisticadas sobre arte, literatura, teoria, e isso me motiva bastante a divulgar e dividir tais conteúdos com os meus alunos, ampliando nossos horizontes.  A leitura de mundo é marca indelével a minha prática. Eles – os livros – dialogam com o mundo inteiro e trazem informações que me seduzem, além de promoverem uma cumplicidade apaixonada entre os alunos – afinal um novo mundo é descortinado. Sou a mediadora desse processo mágico, perturbador, revolucionário. É prazeroso testemunharmos essa transformação – lenta – da escola pública brasileira. É uma verdadeira conquista o direito ao livro. Além disso, a minha cosmovisão, minhas leituras, experiências como atriz e paixões intelectuais oportunizam grandes encontros na nossa convivência pedagógico-passional. Pois, sem tesão, não há!

Estar em contato com os adolescentes traz também uma atualização permanente do português falado, recriado e reinventado a cada dia. Surpreendo-me com a criatividade linguística da juventude, sorrio muito e valorizo esse falar gostoso dos jovens. A escritora observa atentamente tais fenômenos. Às vezes, na sala de aula, surpreendo-me diante de algum texto, alguma referência desconhecida, alguma observação de um aluno. Vejo que a atriz, a escritora e a professora constroem uma harmonia com outras tantas Ritas que há em mim. Elas criam – juntas – um universo muito peculiar e criativo. O que escrevo é fruto dessas coexistências, desses desdobramentos.

Tive professoras de Português absolutamente indiferentes ao prazer da leitura, ao encontro com escritores e seus textos, aprisionadas que eram a uma gramática sem relação alguma com a descoberta da nossa Língua. Uma ortodoxia asfixiante e improdutiva que distanciava – e ainda distancia – o encontro do estudante com a Beleza. Precisamos da literatura em sala de aula para tornar o nosso aluno mais humanizado, mais sensível.  Sinto, à medida que esse elo se estabelece, que temos cidadãos melhores, mais delicados no tratamento social, mais conscientes e mais gentis. A arte educa, informa, modifica. Por isso a responsabilidade de um país com a Educação é muito grande, afinal, somente ela poderá provocar fundamentais mudanças na sociedade. Vejo o potencial dessa transformação todos os dias. E o que vejo é um verdadeiro milagre, um pasmo essencial. Negligenciam o óbvio, enquanto isso, a violência nos atinge em todos os espaços. O professor Raimundão no meu universo adolescente foi capaz de promover o encantamento pela poesia em muitos de nós jovens, rebeldes e sequiosos de libertações, em Ilhéus. É um professor que tatuou o seu nome – através da poesia – em nossas almas, por isso é eterno.

Rita Santana / Foto: Edgard Navarro

DA – Não é difícil encontrar mulheres que incorporaram visões machistas, reproduzidas no comportamento ou nas ideias. O que, de fato, isso pode representar?

RITA SANTANA – Os Estudos Feministas sobre as Relações de Gênero são ricos em análises que elucidam as conexões de poder na sociedade. O desconhecimento desses processos históricos gera a naturalização do estabelecido. Precisamos divulgar nomes, biografias e a produção intelectual das mulheres que sofreram inquisições ao longo dos séculos. Estudar a colaboração perniciosa das ciências na difusão de mitos sobre a mulher, onde a própria loucura e a histeria eram atribuídas insistentemente ao gênero feminino, faz-se urgente para a transformação não apenas da ideologia dos homens e das mulheres, mas de toda a sociedade. Tudo passa necessariamente pelo investimento em Educação. Se fôssemos formados sabendo de mulheres como Nísia Floresta, que manteve uma relação afetiva e intelectual com Augusto Comte no século XIX, devido à sua extrema competência como pensadora e revolucionária, talvez tivéssemos mais respeito às mulheres que atuam nos espaços públicos, mulheres que produzem conhecimento. A omissão desses fatos nos livros didáticos fortalece o equívoco de que tais posições eram apenas ocupadas por homens. Gerações são formadas ignorando a luta e a presença de mulheres na história do País e da sua formação. As escolas deveriam divulgar a produção feminina do século XIX em paralelo com os estudos dos romances masculinos. Li Lésbia de Maria Benedita Bormann e aprendi com ela aspectos sociais do Brasil do século XIX nunca abordados pelos autores clássicos do período. A Editora Mulheres faz um trabalho de divulgação importante de muitas dessas personalidades que fizeram a História. Aqui na Bahia, é imprescindível conhecermos figuras como Jacinta Passos, divulgada inicialmente no livro da escritora Dalila Machado, A História Esquecida de Jacinta Passos, e Elvira Foeppel, estudada pela pesquisadora Vanilda Salignac S. Mazzoni no livro A Violeta Grapiúna Vida e Obra de Elvira Foeppel; Bárbara de Alencar, no Ceará. Publiquei alguns desses estudos e publico muitas escritoras no meu blog Barcaças exatamente para contribuir, minimamente, com essa transformação. É um trabalho de formiga! Mas conhecimento e estudo não são suficientes, é preciso revolucionar a nossa forma de educar! Muita gente ilustrada resiste a admitir a necessidade de uma transformação nas mentalidades e no cotidiano das relações e nos acusam de machistas ou de mulheres-machos. As fogueiras ainda ardem e queimam a nossa carne! Entanto, Resistimos, Escrevemos!

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

RITA SANTANA – A leitura não é a única prioridade em minha vida. Adoraria que fosse, mas preciso trabalhar 40 horas para sobreviver. Eu me sinto exausta quando cumpro essa carga horária estúpida. Logo, preciso dedicar algumas horas ao vazio, ao nada para me recuperar e começar tudo de novo. Assim deve ser a rotina de muita gente trabalhadora no mundo. Leio quando há tempo, quando estou disposta e leve. Quando a leitura assim acontece, ela é plena e provoca desejos e projetos de escrita, desejos de outras leituras. Não sou uma obcecada por números de livros lidos durante o ano – como se estivesse em uma competição invisível – mas estou sempre atenta, iniciando leituras que às vezes demoro meses para concluir. Enquanto não leio livros, leio a realidade, ouço falas, músicas, discursos, paisagens, cores, movimentos, pessoas. O meu trabalho envolve livros e leituras diárias. Estive em Amargosa, na Bahia, para o lançamento do livro da professora Ana Rita Santiago Vozes Literárias de Escritoras Negras e, além do evento em si, que foi uma oportunidade de muitas aprendizagens e leituras, li muito a paisagem montanhosa do lugar e fiquei realmente deslumbrada. Não sai da minha cabeça a redondez daquelas montanhas.

Sempre que penso nas minhas leituras, incluo os filmes e as músicas, os compositores que formaram a minha personalidade, o meu estilo. Os livros são possibilidades – entre tantas – de leitura. Adoro cinema e também gostaria de ter mais tempo para assistir aos filmes do meu desejo. Adoro ir a exposições e museus e não encontro muito tempo para esses prazeres. Aguardo o metrô chegar até a Lauro de Freitas. Sou louca por fotografia. Tudo isso me tortura bastante, portanto, ler é um universo muito mais amplo. Ler o mundo, disse Paulo Freire. Ele esteve na UESC, a minha Universidade que fica em Ilhéus, e foi um verdadeiro acontecimento! O auditório foi incapaz de abrigar os seus leitores e ele teve que falar para uma multidão que se estendia infinitamente pelo Campus. Foi uma multidão de leitores apaixonados. Uma cena marcante, cinematográfica, maravilhosa. Lemos ali, os seus olhos, a sua postura, o seu magnetismo e a concretização do seu pensamento.

Quando estive na França, fiquei deslumbrada com o número imenso de pessoas que liam no metrô, nas ruas, em todos os lugares. Mas essa é uma construção cultural, uma conquista histórica. Quando – a cada ano letivo – trabalho com os meus alunos a ciranda de leitura, onde disponibilizo livros escolhidos por eles para que os levem para casa, o resultado é sempre um mundo de meninos e meninas envoltos em leituras durante as aulas vagas, as férias, os intervalos. A paixão é acesa e não se apagará. Oportunizar a leitura é essencial e ser um professor leitor, pesquisador é indispensável para a proliferação da leitura entre os jovens.

A Educação é que – de fato – precisa ser revista em sua completude, e muitos caminhos são abertos, mas tudo ainda é insuficiente porque há urgências seculares esperando políticas mais sérias. Muitas bibliotecas das escolas públicas estaduais e municipais na Bahia são tratadas com descaso: profissionais com problemas de saúde são jogados lá, como traças, sem quaisquer envolvimentos com a leitura, sem qualquer afinidade com o espaço. As nossas bibliotecas são depósitos em todos os sentidos. A biblioteca do colégio em que trabalho passa grande parte do ano letivo fechada, e isso há anos. Os problemas um dia serão resolvidos. Quando? Muitos já deixaram o colégio sem terem vivenciado esse momento, essa felicidade que não chega nunca em toda a vida.  A nossa cobertura da quadra esportiva desabou devido a uma tempestade, há muitos anos. Agora a reforma está sendo feita – sem cobertura! Copa do Mundo, Olimpíadas e as atividades esportivas, e os espaços de leitura são um verdadeiro descaso no Brasil. As drogas, os traficantes e a violência invadem esses espaços vazios, essas lacunas e as vítimas somos todos nós. Eu leio muita coisa que me foi ensinada – também – pelos livros. Ler Gil, Caetano, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joyce, Fátima Guedes, Elomar Figueira de Mello, Dércio Marques, Elizete Cardoso, Dolores Duran, Legião, Titãs, Cartola, Chiquinha, Chico, Cazuza, dentre tantos outros, foram grandes aprendizados, grandes leituras.

DA – Há quem reduza o fazer poético a uma obstinada busca pela matemática dos versos, espécie de sustentáculo do algo puramente formal. Na outra ponta, existem os que defendem a utilização do verso livre de amarras mais tradicionais. Enquanto isso, grupos se formam e os debates se tornam acalorados e conflitivos. Não estaria a vaidade desmedida ocupando o lugar da boa discussão literária?

RITA SANTANA – O universo dos escritores é cercado realmente de muitas vaidades e competições. É um mundo excludente e áspero quando vivido muito intensamente. Os bastidores são cobertos de acusações contra aqueles considerados ruins, incompetentes, não escritores. Não acredito na solidez desses julgamentos, como não acredito no caráter de muitos desses escritores. Deixei de ler alguns deles devido à sua ideologia conservadora, declarada em entrevistas e em prefácios dos seus eleitos. Tudo isso é uma fraude. É uma grande tolice! Há espaço para todas as correntes no mundo e as tribos elegem-nas pela paixão, pela identidade, pelo pertencimento, pelo estilo que cada escritor apresenta. Ainda é preciso dizer: Abaixo os puristas?

Quando me sinto diretamente atingida em suas falácias classificatórias, aproprio-me do seu discurso e o transformo num poema metalinguístico. Transformo em verso suas maledicências estéticas prepotentes e afirmo a minha poesia desprovida dos sentidos esperados por alguns canonizados, consagrados, monstros sagrados da Literatura. Há ideologia em todos os julgamentos, portanto, nada é puro e nenhuma verdade é única, absoluta. O talento ou a competência não são os únicos fatores que determinam a sorte de um escritor. Os mecanismos da crítica e do cânone já foram denunciados, revelados e não é mistério para ninguém a rede de articulações e interesses que envolvem o reconhecimento ou a legitimação de um escritor, como também a sua invisibilidade. Por isso, é primordial para quem escreve não sofrer por ser preterido aqui ou acolá. É uma aprendizagem difícil, mas eu não escrevo para escritores, eu escrevo para me curar de mim mesma e dos meus males, das minhas dores e dos conflitos que me atordoam. Escrever é uma necessidade de aproximação com o Belo (e quantas facetas essa entidade possui) e é uma necessidade física de expressão.

Vivemos um momento tão rico da Literatura, onde muitos escrevem, publicam, divulgam seus textos e há sempre uma tribo que os queira, que os leia, que os legitime. Qual a importância dos rótulos? O movimento é muito rico e como é prazeroso trocar figurinhas com escritores que não ocupam o seu tempo com classificações ordinárias. O problema que atinge os escritores é o mesmo problema social das elites brasileiras, ou seja, não suportam dividir o título de escritor e seus lugares sagrados com pobres mortais desconhecidos, negros, mulheres, oriundos das classes populares, com seus erotismos exacerbados. Entretanto, as políticas afirmativas estão aí, os mecanismos de escrita e divulgação também tomam espaços cada vez maiores e a convivência entre estilos só pode ser festejada. Métrica? Não métrica? Como leitora, aprecio um poema quando ele me atinge pelo que julgo e sinto poético. Os velhos sapos não conseguirão impedir a construção social mais igualitária e menos discriminatória da sociedade brasileira, inclusive na Literatura! Tornam-se, dessa forma, anacrônicos parnasianos que fazem do seu julgamento estético – que é pessoal, subjetivo, ideológico – uma sentença inquestionável!

Percorrendo estantes de uma livraria outro dia, ouvi duas senhoras distintas conversando, e uma delas disse: também… todo mundo agora é escritor! Pois é! Escrever não é mais um ato destinado aos deuses e privilégio de uma elite intelectual e econômica ou de uma etnia! Essa constatação perturba muita gente. E é justamente isso que possibilita podermos entender e conhecer o universo de Maria Carolina de Jesus, afinal, Clarice Lispector não me daria a amarelidão da sua fome, as estratégias da sua sobrevivência, a poesia negra, lírica e política dos seus cadernos. Clarice me deu muitas outras coisas. Como é bom perceber o fôlego religioso e lírico de Lívia Natália ou os arroubos dialógicos e eróticos elaborados por Daniela Galdino. A poesia cotidianamente existencial de Martha Galrão ou ainda as sinestesias telúricas e límpidas de Lita Passos. O leitor está aí para fazer suas escolhas. E ele o faz e surpreende. Aos demônios as penas absolutistas também!

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

RITA SANTANA – Na verdade, considero muito esdrúxulo classificarmo-nos de pós-modernos diante de um quadro de intolerância tão grande no mundo e na literatura. Acabo de participar de um encontro numa Universidade da Bahia, onde um grande e reconhecido escritor fez questão de desqualificar a literatura atual e chamar de bocó qualquer literatura que se denominasse negra. Isso ocorre na Bahia, mas no plano nacional acabamos de testemunhar – atônitos – o texto de Ferreira Gullar sobre a inexistência de literatura negra e a resposta fabulosa que Cuti lhe dera. Como admitir o pós-moderno, se o sentimento de pertencimento ainda é ignorado ou desprezado pela sociedade e esse tipo de postura é aplaudida por jovens universitários e seus professores? É bizarro! Posicionamentos étnicos e de gênero continuam sendo desprezados por intolerantes legitimados, canonizados.

O sistema de transporte público coletivo – mesmo em tempos de Copas – persiste em sua condição de inexistência ou de precariedade e sujeira. A estação da Lapa, em Salvador, continua o mesmo horror de insalubridade e abandono. O formato das escolas, presídios, hospitais: tudo permanece. O ponto de ônibus do Aeroporto Internacional de Salvador – que deveria ser Dorival Caymmi, Jorge Amado ou Dois de Julho – tem o mesmo tratamento imundo que qualquer estação rodoviária recebe dos poderes públicos na Bahia. É duro ser cidadão pobre no mundo inteiro, mas na Bahia é duríssimo! Só há tratamento estatal, preocupação com a higiene e o belo nos locais onde circulará a elite.

Penso em Gregório de Matos, que viveu um período de profundas transformações e expressou esses paradoxos em sua obra lírica, satírica e religiosa. Também vivemos em tempos paradoxais, barrocos numa Bahia que já principiava a viver sua globalização desde lá, entretanto, assistimos ao nosso patrimônio desmoronar cotidianamente. Igrejas abandonadas, artistas esquecidos, abandono da memória, sobrados queimados que desaparecem todos os dias. O que pode haver de pós-moderno em tudo isso? A Jornada de Cinema da Bahia – idealizada por Guido Araújo – que deveria ser tombada como patrimônio imaterial da Bahia ou do Brasil – ou qualquer coisa que o valha – vive o seu fim sem que haja interesse dos poderes públicos para a sua permanência.

Como, pois, denominar de pós-moderna uma sociedade em que não há ainda saneamento básico numa cidade como Lauro de Freitas? Vivemos há anos aguardando os serviços de uma verba nacional – que já foi paga – destinada aos esgotos da cidade. Ainda há uma distância tão grande entre o plano teórico, os discursos que conceituam o momento em que vivemos e o cotidiano das gentes. Estava olhando um livro maravilhoso sobre Emanoel Araújo e pensei na completa separação entre a sofisticação espetacular da sua arte – apenas como um exemplo – e o povo. A arquitetura da cidade, com suas engrenagens, confrontada com o total abandono da população pobre e a completa exclusão de acesso aos bens comuns, à Beleza da obra de arte, ao acesso a nomes como Rubem Valentim, Mestre Didi e Emanoel. A Ceilândia confrontada com a arquitetura suntuosa e bela de Brasília. Tantas disparidades. Se há pós-modernidade, eu gostaria de ser apresentada a ela.


DA – O quanto Rita Santana conhece Rita Santana?

RITA SANTANA – Conheço muito e, sinceramente, sempre estou em busca de lapidação. Sou muito honesta, muito bruta, muito antitética, muito delicada.  Estou em permanente busca. Rita Santana é apenas um nome público para a atriz e a escritora. A professora é geralmente chamada de Rita Verônica. Em casa – para a minha família e alguns amigos – sou Ritinha e, nessa condição, outras tantas personas surgem. Observo a capacidade que tenho de pensar em novos deslocamentos, de assumir novas identidades. Gosto desse contínuo devir. Estou em processo.

 

* Alguns poemas da autora podem ser lidos aqui.

 

 

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.

Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada.  Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.

 

 

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva

 

DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim.  Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.

DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando  “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.

DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.

DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?

DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa.  O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo: perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal

DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de  “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que  Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.

DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em  “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.

DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã.  Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.

DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.

DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.

 

 

 

– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –

 

 

 

 PEDINTE

 

A loucura bate à porta

do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água

amanhã virá a consciência
em busca de comida

 

 

A REPÚBLICA & O NEWMONARCA

 

A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica

a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei

a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça

a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem

é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente

é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi

a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício

é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia

– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca

 

 

* Outros poemas do autor podem ser lidos aqui

 

 

 

 

 

Categorias
78ª Leva - 04/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Encadear fatos, construir cenários que os abracem e mover os personagens dentro das narrativas são apenas uma parte da hercúlea tarefa de se contar uma história. Quando um autor possui estes ingredientes em suas mãos, passa a lidar com o desafio de trazê-los à tona diante da presença dos leitores. Levar isso em frente não significa tecer um pacto com uma proposta de sedução gratuita ou, simplesmente, enveredar-se pelo torpe caminho da superficialidade, como se pode deduzir em muitas leituras diluídas no mundo.

Definitivamente, erguer uma história não é ter em conta apenas um arsenal de usos de linguagem e conduzi-los rumo a um ambiente meramente estético. Atrair um leitor para uma narrativa é, também, fazê-lo crer que tudo esteja sob seu controle até o ponto em que ele perceba ser praticamente impossível domar a eclosão dos acontecimentos. E assim, rompendo convicções e deixando leitores desfilarem livres e nada impunes pelo jardim do imprevisível, é que um criador alcança com sua obra resultados substanciais.

Não está longe de nós quem pratica essa espécie de ritual criativo. O escritor e jornalista fluminense Sérgio Tavares é exemplo vivo disso. Detentor de um estilo que penetra delicadamente no universo intimista de pessoas e lugares, Sérgio não é apenas cicerone de quem lê seus escritos. Na verdade, estamos diante de um autor que, de caso pensado, conspira a favor de nossas percepções, ofertando-nos um complexo fluxo de descobertas e revelações. Conceber uma zona de conforto para o leitor não é algo do qual esse autor seja fiel partidário. Importa, para ele, uma literatura que provoca, tira os móveis de lugar e não se encarrega de determinar qualquer perspectiva de salvação.

Vencedor do Prêmio SESC Nacional de Literatura 2009, com o livro de contos “Cavala” (Editora Record), Sérgio Tavares recentemente lançou seu segundo rebento, “Queda da própria altura” (Editora Confraria do Vento), que também trafega pelas veredas contistas. E para falar um pouco sobre o seu denso percurso pelas palavras e outros temas correlatos, o autor nos concede uma entrevista, pontuando aspectos que fazem de sua literatura uma observação marcante sobre o espantado ato de existir.

 

 

Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares

 

 

DA – Em “Queda da própria altura” há uma sensação abismal a atravessar as narrativas, como se existir fosse um arremesso rumo ao limiar das coisas. O que dizer das palavras que evocam o sabor dos precipícios?

SÉRGIO TAVARES – Creio que são as mais intensas. O Nietzsche tem uma frase que diz que se você olhar para o abismo por muito tempo, o abismo acaba também olhando para você. Esse livro é o abismo que olhou para mim num momento terrível da minha vida, viu um homem desmoronado por perda, impotência e dor, e revidou com o único eixo capaz de articular os fragmentos. Talvez isso explique a opção por contar essa história no formato de contos, lançando mão de induções que encadeiam todas as narrativas para um desfecho único e provocam a sensação de unicidade. Isso foi intencional, porém, enquanto escrevia, eu não sabia o quão distante seria preciso enveredar para encontrar a chave capaz de trazer a voz narrativa de volta para o cenário estabelecido: o limiar abismal. Seja de maneira explícita ou tácita, é ali que estão os personagens, era onde eu estava. Foi ali também que percebi que, diante do abismo, ou você pula ou você decide conversar com ele. Eu e a voz narrativa do livro decidimos conversar.

DA – De fato, fica-se com a sensação de que o ambiente do livro também apontaria para a construção de um possível romance. No entanto, a fragmentação da memória e dos próprios sentimentos, aspectos marcantes de nosso tempo, surge bem delineada na narrativa e encontra abrigo nos contos. Essa reflexão norteou sua escolha narrativa de algum modo?

SÉRGIO TAVARES – A memória era o único caminho para que esse livro existisse. Virar o jogo e exercer uma pressão sobre ela foi, naturalmente, entender que, para me reabilitar, eu precisava escrever sobre o que aconteceu, preencher essa ausência com algo que pudesse eternizar o que as circunstâncias da vida (alguns diriam destino, eu não tenho ideia) não me permitiram. Foi a partir dessa percepção que surgiram as muitas páginas de um cruzamento de testemunho e retratação que, mais tarde, seriam editadas no conto “Sono”, o núcleo de todo o livro. O que há de verdadeiro, do que pode se aproximar de mais real do ocorrido está ali. Contudo eu não podia resumir toda a história a isso, eu era atacado por tantos sentimentos que precisava incidi-los em outras narrativas. Essa opção considero a mais acertada em “Queda…”. Ao contrário de “Cavala”, meu livro anterior, onde o binômio loucura e sexo entretecia os contos, havia sentimentos demais, muitos fragmentos para definir dois ou três caminhos para a trama. O que eu não poderia, e sempre soube disso, era perder a mão desses sentimentos e cair na pieguice ou na comoção exacerbada. Portanto, depois de estar por muito tempo apegado a tudo aquilo, a tratar memória feito uma massa de modelar, eu precisa me desprender e ler o livro como um leitor apático. Isso é literatura, afinal.

DA – Suas observações aproximam-se muito com o pensamento do escritor Manoel Ricardo de Lima. Vislumbrando a literatura como uma armadilha a ser construída, ele sustenta que o seu esforço é para não escrever livros ingênuos, pois vivemos num tempo em que não podemos pactuar com esse tipo de coisa.  Seria esse o maior desafio da criação?

SÉRGIO TAVARES – É curioso você citar o Manoel Ricardo de Lima, pois ouvi comentários que traziam a mesma impressão, porém a primeira obra dele que li ocorreu depois de o novo livro já estar encerrado. Considero um tanto desconcertante, para um autor, fazer analogias entre sua escrita e a de outros escritores, mas há sim semelhanças e diferenças, sobretudo no conceito empreendido especificamente em “Queda…”. Por conta de partir de um momento tão íntimo, acredito que a prosa acabou por incorporar naturalmente um verniz poético. Comparando com o meu primeiro livro, eletrificado por cargas fortíssimas de violência e despudor, a tessitura dos novos contos acontece de maneira calculada, silenciosa, introvertida. Essa é uma irmandade que percebo com o trabalho do Manoel, mais especificamente com o livro “As Mãos”, onde a poesia é utilizada como elo para encadear as cenas que transcorrem em tempos mutáveis. Outra semelhança, e essa é a mais viva, é justamente o uso da literatura como armadilha, o que gosto de chamar de a construção do nocaute.  É não ser ingênuo (ou relapso) em acreditar que a ideia, o escopo, basta para que a história funcione, para que a estrutura prevista tenha solidez suficiente para sustentar a trama. Penso que é exatamente o contrário, que o leitor deve ser posto no estado de refém, que deve ser enganado até o derradeiro ponto final. Essa intenção é muito clara no conto “Cerimônia”, onde uma mulher se prende em reminiscências enquanto separa a roupa do filho para um importante evento, até encontrar um desfecho arrebatador, que não cabe aqui revelar para não estragar a surpresa. Conquistar o leitor aos poucos e colocá-lo numa zona de conforto, para em seguida atacá-lo com um golpe fulminante, sempre foi o que persegui, na edição do novo livro. O maior desafio da criação é não tratar o leitor com carinho.

DA – Logo em sua estreia em livro, os contos de “Cavala” conferiram a você o Prêmio SESC Nacional de Literatura. Em qual contexto você situa esse momento de reconhecimento? 

SÉRGIO TAVARES – No mais dos inesperados. Os contos que compõem “Cavala” são, em suas origens, acidentais. Durante o processo de criação do novo livro (que, até então, era previsto para ser o meu primeiro), escrevi alguns contos cuja natureza era exatamente a antítese de como estava tratando a memória em “Queda…”. Se as motivações ali eram os sentimentos íntimos, as lembranças dolorosas e o vazio, nesses contos guardados não havia tempo para o luto ou para a autocomiseração. “Cavala” é constituído por personagens que, impelidos por desejos irrefreáveis, gozos desmedidos e transtornos mentais, são pressionados até situações-limite, onde a possibilidade de redenção está condicionada ao cometimento de atos hediondos.  E isso também se reflete na prosa mais acelerada e fragmentada, sem espaço para poesia ou onirismo. Mas, como disse, eram contos de gaveta e continuei com o projeto inicial. Foi então que, certa manhã, eu li sobre as inscrições do Prêmio SESC; melhor dizendo, sobre o fim das inscrições. Era apenas o tempo de transformar esses contos num volume, revisar e despachar pelos correios. Assim o fiz e a vida seguiu, até o dia em que um telefonema mudou tudo. Eu vivia um outro momento, minha esposa estava grávida novamente, engatinhávamos novos planos e, de repente, o sonho de muito tempo. Lembro claramente que estava na balsa, indo para o trabalho, e não sabia se voltava para casa, mantinha a normalidade ou tentava achar salmão no fundo da Baía de Guanabara.

DA – A condição de premiado impôs a você alguma mudança de paradigma ou ruptura em especial? Viu-se imbuído de uma, digamos assim, maior responsabilidade criativa?

SÉRGIO TAVARES – Certamente houve uma ruptura, mas longe de qualquer aspecto negativo. Não há dúvida de que o Prêmio Sesc me avalizou como escritor, mas a conquista não se resume ao carimbo na capa do livro. Existe toda uma programação robusta (participações em feiras literárias, palestras, debates) que ocorre paralela ao lançamento, contribuindo para o enriquecimento literário do autor, bem como para a divulgação da obra. O acúmulo dessas experiências, diante da condição de ter sido revelado por um prêmio, pesou muito mais nas minhas escolhas do que qualquer tentativa de superar o primeiro livro. Aliás, o que seria uma tremenda estupidez, pois competir comigo mesmo só me valeria a derrota, de todo o modo. Fazer parte desse universo foi determinante para apagar todo o traço de deslumbramento, o que é vital para um autor que planeja continuar publicando. O mercado editorial tem suas regras. É isso. Se você pretende se estabelecer como escritor, escreva. Escreva, revise e reescreva. Não há nada de encantado nesse processo. O carpinteiro não faz a mesa com o manuseio da madeira. Acreditar que o fato de o meu nome estar associado a um dos principais prêmios literários do país abriria todas as portas, nunca foi uma possibilidade. O que foi ótimo, já que a verdade está bem longe disso. Eu não posso me comprometer com o que criei ou com o que estou criando, mas com o que ainda preciso criar. Tem um trecho do conto “Quebranto” em que o narrador diz que quando deixamos de chamar ou de ser chamados, perdemos nossos nomes. É exatamente assim que funciona.

DA – O caminho por seguir, encerrando os desafios que lhe são peculiares, remonta algumas vezes à  chamada “angústia da criação”.  A questão de se desejar erguer uma obra com status de notoriedade não lhe parece um desvio de nosso tempo?

SÉRGIO TAVARES – De maneira nenhuma. Todo artista que se propõe a publicar e divulgar uma obra está naturalmente em busca de notoriedade, principalmente aqueles que insistem que não, pois a negação em si já é a intenção do holofote. O que não se deve confundir é a chance de notoriedade com a busca vazia pela fama. São motivações diferentes, cuja explicação aqui iria pesar muito no tamanho da resposta. Sugiro a leitura dos ótimos “A Experiência da Fama”, da Maria Cláudia Coelho, e “O Show do Eu”, da Paula Sibilia, para um melhor entendimento. De volta à questão, tem se tornado claro, cada vez mais para mim, que os dois fatores principais para o bem-estar de um livro publicado é a divulgação e a distribuição. Hoje é possível facilmente lançar um livro por conta própria; e talvez esse seja o verdadeiro desvio do nosso tempo. Tomar uma atitude como essa deve estar condicionada à extensão da estrada que esse livro planeja percorrer. É claro que há a internet e as redes sociais, mas o aporte de uma editora bem estruturada e a comercialização nas livrarias de renome ainda têm um peso incomparável. Além disso, essas são engrenagens de uma máquina cuja esteira conduz com mais facilidade aos suplementos literários e às revistas especializadas. Isso não é crítica ou resignação, mas uma percepção particular. Eu sei que existem exceções, que não há nada mais angustiante do que aguardar a resposta de uma editora, que a qualidade pode intervir na verticalização da informação. O meu primeiro livro teve qualidade para conquistar o Prêmio Sesc, porém será que teria qualidade para ser francamente aprovado por uma editora do porte da que o publicou? O marcado literário é tão repleto de incertezas, que o autor deve contar com menos passos falsos possíveis. Entender que é necessário ampliar o campo de projeção de uma obra é, atualmente, uma atitude capital.

DA – O que você considera ser o traço marcante da literatura feita hoje no Brasil? Com toda a complexidade que a questão demanda, estamos ainda muito longe de consolidar uma nova geração de escritores?

SÉRGIO TAVARES – A nova geração está em pleno curso. Temos uma safra de talentosos autores entecendo uma literatura que transcende as fronteiras estabelecidas, que dialoga com o mundo sem se destituir do caráter particular, que se arrisca a incorporar gêneros com habilidade para não repetir o cânone. É um conjunto constituído por inúmeras correntes que, sem precisar aqui citar um ou outro nome, traz um traço cosmopolita bem marcante, com fulgente predileção por narrativas autocentradas, donde se sobressai a condição do “eu” nas relações interpessoais. É um tipo de literatura que já foi chamada de “literatura psicológica”; enredos centrados na (des)construção emocional, onde os embates e os impulsos têm mais impacto que a estrutura e a caracterização dos personagens, ao ponto de influenciar diretamente nas reviravoltas e no desfecho das tramas. Com isso, acredito que se estabelece um cenário forte, capaz de produzir clássicos para novas épocas; é claro, levando-se em conta o momento único em que a literatura brasileira se desvenda diante dos olhos do mundo. Há, no entanto, duas coisas que me incomodam. A primeira é o esforço descomunal de se instituir a supremacia do romance, sufocando as incursões em outros gêneros. Já a segunda é o manejo com que giram o holofote, na tentativa insensata de imputar a grandeza do momento a um grupo de escolhidos. Os nomes que perdurarão somente o filtro do tempo irá dizer. Mas certamente aqueles que caminham agora não são apenas vinte.

Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares

DA – Andamos bem em matéria de crítica literária? 

SÉRGIO TAVARES – Gosto, de maneira geral, do que é feito por aqui. A crítica brasileira tem um aporte mais incisivo, mais direto, seja para elogiar ou para meter o pau. Não somos afeitos a tergiversações, ao contrário dos norte-americanos que fazem das resenhas um misto de resumão com pontuais impressões. O que falta por aqui, na minha opinião, são mais publicações voltadas exclusivamente para literatura. E não digo apenas um robustecimento dos suplementos literários, mas revistas e outros periódicos especializados. Tirando o Sul (com louvor para o que é feito no Paraná) e São Paulo, percebo que os espaços acanhados acabam sendo relegados aos principais jornais do determinado estado. Aqui no Rio, por exemplo, é uma vergonha, uma falta de interesse medonho. Eu mesmo tenho impressões dos meus livros espalhadas pelo país, com gloriosa exceção para o Rio. É claro que pode valer a máxima de que santo de casa não faz milagre. Mas para ter santo, antes tem de ter altar.

DA – Há sempre um discurso pronto quando se busca a razão para a “tradicional” falta de interesse pela leitura.  Será também que não vivemos num país onde potenciais leitores são subestimados?

SÉRGIO TAVARES – Não há dúvida quanto a isso. Tornou-se lamentavelmente cômodo, para aqueles que passam pelos canais institucionais com o dever de mudar essa realidade, aceitar a constatação com a leviandade de uma máxima. “O Brasil é um país onde pouco se lê”, fica dito e pronto! Quase um lema distorcido, um eco que se propagava há séculos. Mas por que é assim? A resposta é bem complexa e encadeada por diversos fatores, mas gosto de um argumento transformado em crônica pelo jornalista Zuenir Ventura, colunista d’O Globo. Nesse texto, Ventura, um professor universitário já com 80 estações, sintetizou, em poucos parágrafos, essa infinita discussão do porquê do exercício da leitura ter se tornado, geração a geração, uma maratona com cada vez menos participantes. Ao contrário dos que culpam a decadência cultural, os novos caminhos tecnológicos e a hegemonia da televisão, o jornalista defende que a culpa não é de quem deveria ler, mas de quem deveria tornar essa atividade atraente.

Por que os europeus e os americanos leem oito vezes mais livros que os brasileiros? Por que cerca de 70 milhões de pessoas no Brasil não leem? Falta de hábito, poder aquisitivo? É claro que ambas as circunstâncias têm influência direta na resposta, sobretudo quando associadas ao fato de termos 21 milhões de analfabetos. Contudo, há um outro fator determinante que, no texto, o jornalista aponta com precisão: parte da culpa, sim, está nas escolas, num comodismo intelectual que refaz um tempo já, há muito, incinerado.

O mote da crônica, explica Ventura, veio do pedido de um amigo, pai de um aluno no segundo ano escolar, que lhe passou a lista de livros na tentativa do empréstimo de alguns títulos. O jornalista conta que ficou abismado ao se deparar com indicações como “Senhora” e “Iracema”, de José de Alencar; “O Cortiço”, de Aluisio de Azevedo; “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manoel de Antonio de Almeida; e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Obras que estão além do tempo daqueles que são obrigados a lê-las, assim como eu mesmo fui e como aquele menino, muitas décadas depois, também seria.

Vejo que a questão é exatamente essa: a obrigação. Como um jovem, justamente no momento em que está iniciando sua formação intelectual, pode desenvolver o gosto pela leitura através da imposição de obras datadas, repletas de um coloquialismo que torna o seu próprio idioma praticamente estrangeiro? Ventura cita, como exemplo, um trecho de José de Alencar: “Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva”. Sinceramente, eu mesmo não sei o que é um aljôfar. Então como isso pode ser mais atraente para um moleque de 13 anos do que ficar no facebook? Na época em que era obrigado a ler “Brás Cubas”, “Senhora” e “Iracema”, eu queria mais era ler histórias de detetives. Isso prova que o problema não é o apelo da internet, mas a forma errada e atrasada com que as escolas propõem aos alunos a leitura, anulando toda a condição de uma atividade prazerosa.

Na crônica, Ventura elenca alguns autores contemporâneos que certamente seriam mais atrativos, tais como Rubem Braga e Fernando Sabino. Eu acrescentaria Luiz Vilela, Clarice Lispector, Murilo Rubião e Luiz Fernando Veríssimo. Acredito que o caminho correto é fazer com que os potenciais leitores assimilem que ler não é um dever de casa, algo necessário para se dar bem num teste.

DA – O olhar para dentro, característica forte em seus escritos, é algo deveras significativo num tempo em que a superficialidade das coisas insiste em fazer sombra, sobretudo ao terreno das relações humanas. Esse caminhar pela via intimista é também uma tentativa de resgate, quiçá um ímpeto de resistência?

SÉRGIO TAVARES – Escrever, por si só, já é um ato de resistência. Não há um significado vital para isso, senão um esforço para aliviar um ímpeto particular. Escrever, de certa forma, é uma vaidade. Por isso, me tornei jornalista, pois buscava uma maneira de orbitar pelo universo da escrita, encontrando quem me pagasse para isso. Ainda que longe de qualquer ostentação, é muito mais certo sobreviver como jornalista do que como escritor nesse país. O curioso é que, à medida que me especializava na profissão, percebi o quanto o jornalismo era (e é) importante nas minhas incursões no campo ficcional. Sobretudo no que tange a construção do personagem. Vejo que o escritor não pode transitar pela superfície das coisas e deixar todo o trabalho para a imaginação do leitor. Por isso, há uma predominância, em meus escritos, pela voz narrativa em primeira pessoa. Os meus personagens são hiperativos, as histórias acontecem sob o ponto de vista deles. E isso só é possível porque, antes de partir para a escrita, eu traço todas as características desse personagem, da maneira mais íntima possível; é algo excessivo, abusivo. Um exemplo é a personagem do conto “Fome”, a segunda narrativa do meu primeiro livro, “Cavala”. Estamos diante de uma professora do ensino primário viciada em sexo, ao ponto de seduzir um mendigo e levá-lo para casa. Quem é essa mulher? Por que ela chegou a esse extremo? Como ela funciona emocionalmente e fisicamente nessa situação? Investiguei todas as respostas, antes dela tomar a decisão. Cumpro o papel de jornalista diante de meus personagens. Agora, isso mudou um pouco, pois estou engatinhando pelas vielas do romance, que são mais íngremes e auspiciosas que as do conto. Portanto, além de construir os personagens, há diversas anotações no caderninho de capa xadrez sobre a estrutura da história. Mas o principal continua sendo o protagonista. E, dessa vez, tento algo que, se não for inalcançável, será uma experiência fascinante: desvendar a origem do mal, entender quais fatores incidem sobre alguém, tornando-o capaz de cometer livremente atos hediondos.

DA – Que espécie de busca norteia as palavras de Sérgio Tavares e o faz seguir adiante?

SÉRGIO TAVARES – Escrevo porque preciso, porque é a única coisa que tenho vontade de fazer, porque é o que cala esses personagens que inelutavelmente insistem para que eu conte suas histórias. Depois de duas antologias, apostei que era o momento de escrever um romance. Bem, o que sei da história é que se passa na transição dos anos 80 para os 90, período de surgimento da epidemia do vírus HIV, e tem com ponto central o desmoronamento de um núcleo familiar, a partir do momento em que a mãe contrai a doença, após uma transfusão de sangue, e morre. Essa ausência provoca o desligamento entre pai e filho, cuja negligência trará consequências aterradoras, sobretudo depois que o pai traz uma nova mulher para morar na casa e torna-se um sujeito submisso, emasculado, incapaz de reagir a contínuas traições. Tem também uma mulher chamada Selma e alguns cachorros mortos. É um livro sobre a origem do mal. O meu projeto mais ambicioso, até então.

 

 

 

 

 

 

Categorias
77ª Leva - 03/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

As opiniões se dividem quando o assunto é delimitar as implicações da poesia. Se para alguns o gênero representa uma vasta possibilidade de experimentos e usos da linguagem, outros defendem uma perspectiva que opera no sentido duma transformação do olhar. Especificidades à parte, o fato é que, ainda assim, parece haver uma coexistência tácita entre esses dois modos de pensar o fazer poético. Ao passo que descortinamos leituras das mais diversas, percebemos autores a privilegiar, sobretudo, aspectos formais da criação, construindo uma obra que também congrega elementos dotados de subjetividade. Definitivamente, uma via não anula a outra.

Embora o ato de criar possa conferir uma condição especial a quem escreve, alavancando proezas e notoriedades, há quem renegue tal atributo não por um mero capricho, mas sim pela percepção de que estar no mundo e decodificá-lo de algum modo representa algo mais valioso. Nesse trajeto, imbricada está a noção mais pura de um exercício do olhar, e para gente como Eduardo Lacerda isso significa muito. Gaúcho por nascimento e residindo em São Paulo desde a infância, o moço rejeita ser chamado de poeta. Prefere, ao levar adiante sua feição de editor, ser visto como um alguém que faz nascer livros e autores. Em parceria com Aline Rocha, conduz a Editora Patuá, iniciativa que acaba de completar dois anos de existência e cujo lema confere aos livros um status de verdadeiros amuletos.

Mesmo se considerando um não-poeta, Eduardo ousa com palavras e versos. A prova disso é a reunião de poemas presente em sua cria de estreia, “Outro dia de folia” (Editora Patuá), obra que encerra imagens e tantos outros signos bem típicos de um ser/estar no mundo. Ao mesmo tempo em que apresenta deslocamentos em torno de temas caros à existência, o livro também sugere impulsos pela via da transgressão. Lê-lo é sentir-se um pouco menos confortável diante da parca quantidade de certezas que nos habitam. Assim, um ritual de provocações desfila por cada verso, desafiando os leitores a celebrarem epifanias que nem sempre soam como boas novas. Tendo como companhias inseparáveis o espanto e o estranhamento, Eduardo Lacerda compartilha conosco suas impressões sobre a vida e a literatura, perfazendo um diálogo movido por uma paixão notória: os livros.

 

 

Eduardo Lacerda / Foto: Stefanni Marion

 

DA – “Outro dia de folia”, sua obra de estreia, evoca, de modo especial, uma poesia de imagens, reminiscências e louvores dispersos numa travessia pela vida. Na construção desse caminho, o que lhe parece mais emblemático?

EDUARDO LACERDA – Você tem razão em afirmar que é e há uma poesia de imagens no meu livro ‘Outro dia de folia’. Tento construir em meus poemas aproximações com a prosa, criando cenas, espaços, personagens – embora não explícitos – falas sobrepostas, que podem simular outros planos de discurso e diálogos dentro do poema. A imagem é um dos recursos para a montagem desses pequenos contos em forma de poesia. Então, se há algo emblemático, é que o poema precisa acionar – criar uma ação – no momento da leitura. Precisa criar um impacto de uma história. Não busco exatamente, com estes poemas do livro, despertar sentimentos ou mesmo emoções sentimentais, mas inserir o leitor dentro de uma ação.

Em nem todos os poemas consegui isso de forma efetiva, mas acho que com a maior parte isso foi possível, até mesmo pela ligação temática entre eles, que é, principalmente, a imagem do deslocamento e melancolia do eu-lírico em relação a uma necessidade cada vez maior de felicidade, quase como uma obrigação de se comemorar, festejar.

Talvez dois versos possam ser emblemáticos para a definição desse deslocamento, o primeiro é o desfecho do poema “A Última Ceia”: “já não me encaixo / depois que aprendi / a olhar de lado / e sair por baixo”. O personagem do poema, uma criança, é colocado sentado à esquerda dos pais no meio da mesa, essa marcação espacial ‘à esquerda’ (uma referência bíblica alterada, que é a de Jesus sentado à direita de Deus) e ‘no meio’ já revelam um deslocamento, uma não adequação do personagem, que como um ‘prato que se enche’ vai procurar ‘lugar entre as pessoas’. O personagem não encontra esse lugar, ele não aceita esse lugar imposto, ele aprende a olhar de lado. O ‘sair por baixo’, que poderia remeter a uma inferioridade desse ‘pequeno’, como chamo o personagem, na verdade pode significar que é possível uma fuga. Que sair por baixo, quando estamos cercados por todos os lados, pode ser uma fuga.

O outro verso é do poema ‘Outro dia de folia’, que dá título ao livro (embora escrito após o título do livro já estar definido há muitos anos). Nesse poema eu questiono: “quanto há / de / penetra / no dono / de sua / própria / festa?”. É uma provocação. E é um deslocamento, mas é também, talvez, uma forma de transgredir nossas certezas de espaço no mundo.

DA – É interessante você pontuar essa noção de transgressão a serviço da poesia. Nesse sentido, percebe a existência como um misto de espanto e estranhamento?

EDUARDO LACERDA – O poeta Ferreira Gullar afirmou exatamente isso sobre sua poesia: “A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida”. Gosto disso, do espanto, do estranhamento, mas também da descoberta. Descobrir algo, conhecer e, principalmente, reconhecer são passos além do estranhamento. É entrar em contato com aquilo, mesmo sem um entendimento completo. Podemos estranhar algo a vida toda e aquilo não e nunca significar absolutamente nada, não é? Um estranhamento só terá valor se me revelar algo. Então é também uma revelação. Fazer um poema é também encher de significados o que queremos dizer. E será um bom poema aquele que conseguir criar outros espantos e novos significados a partir disso. Um bom poema precisa ter uma eternidade (e não infinidade) de interpretações, eu acho.

Mas acho que existem muitas interpretações para a minha percepção de existência. A minha existência, como pessoa, é uma coisa muito simples. Gosto de livros, amigos e cerveja. E é diferente da minha existência como poeta, da minha existência como editor de livros. Aliás, sempre afirmei que eu não sou um poeta. Eu não romantizo a figura do poeta. Eu não existo como poeta. Publicar foi uma consequência de mais de onze anos escrevendo alguns poemas que acabaram premiados para a publicação em livro. Publicar se tornou uma obrigação, acho.

Mas eu romantizo a minha importância de editor. Eu existo como editor. Talvez isso seja estranho e espantoso. Espero que seja. Mas não estou dando um sentido de uma importância para os outros, não sei se tem essa importância. É importante para mim. O que eu sinto com a edição é exatamente o que deve sentir um escritor. E que o Rilke definiu tão bem: “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ”Sou mesmo forçado a escrever?”. Eu só morreria se não pudesse mais, de alguma maneira, trabalhar com os livros.

DA – Ao declarar-se um não-poeta, você abre margem para algumas reflexões ligadas ao ofício, sobretudo se formos levar em conta a multiplicidade de escritos que eclodem cotidiana e freneticamente em nosso tempo. Guardadas as devidas proporções daquilo que pode ser considerado como de efetiva qualidade, acredita que a criação literária anda um tanto banalizada?

EDUARDO LACERDA – Entramos em um campo onde tenho feito muitas inimizades. E, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Tenho defendido, nos últimos anos, a ideia de que existem mais poetas do que leitores. Um paradoxo, no mínimo. Um absurdo, para dizer a verdade. Todo poeta deveria ser um leitor. Eles não são, infelizmente. Claro, não quero generalizar. Alguns ainda são leitores, mas é uma parte muito ínfima. Mas se realmente todo poeta fosse leitor de poesia, poesia venderia muito.

Então, sim, a criação literária está banalizada.

Gostaria de dizer, entretanto, que acredito que todos têm o direito de exercer a criação literária. A banalização da literatura não está no fato da popularização da escrita. Poesia não é para as elites, assim como não é para as massas. Ela é para todos. A poesia deve estar acessível para todas as pessoas. Algumas das manifestações mais interessantes de criação e divulgação literária estão ocorrendo nas periferias de São Paulo, por exemplo.

A banalização, a meu ver, é o descaso dos poetas com outros poetas, com outros livros, com outras linguagens, com tudo que está ao nosso redor.

Vou dar um exemplo simples: a Editora Patuá, da qual sou coeditor, recebe cerca de 100 originais por mês. Desse total, muitas vezes, nenhum desses autores sequer conhecem um livro da editora. Nunca se interessaram em comprar nenhum livro de nenhum autor, muito menos pedir um e-book de graça (os quais sempre oferecemos). Eu não entendo, então, como alguém pode se interessar por uma editora que não conhece. E talvez isso explique como tantos escritores pelo país são enganados por editoras sem nenhuma qualidade.

A necessidade de publicação se tornou maior que a necessidade de leitura e de diálogo com o outro. Todos só querem falar. E eu acho que é o momento de pararmos para também ouvir o outro.

Então, acho que essa se tornou a banalização da poesia, mas também é a banalização das relações em toda a sociedade. Mas esse é o discurso de um otimista, embora não pareça. O meu otimismo está nas minhas ações, em acreditar nos poetas. Em acreditar ainda na literatura, na poesia.

DA – Talvez uma das causas desse insulamento literário seja a tendência atual de laços de compadrio estabelecidos na internet, principalmente via blogs e sites pessoais. Muitos se visitam e se comentam mantendo uma seara de cordialidade que parece alimentar um círculo vicioso. Daí, essa, digamos assim, frágil aprovação, com seus controvertidos códigos de ética, oferecer um ambiente perigoso para a criação. Vivemos uma era de relativizações?

EDUARDO LACERDA – Sérgio Buarque de Holanda formulou a ideia do homem cordial. Acho que ela explica uma parte do que você chamou de ‘era de relativizações’. Na verdade, essa ‘cordialidade’ não é – sempre – essencialmente ruim. Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque, comenta / resume em um vídeo essa teoria: “Mas a ideia é a do homem cordial como o homem que reage conforme seu coração, né? Capaz pro bem e pro mal, capaz de grandes efusões amorosas, capaz de inimizades até violentas. E o brasileiro tem um pouco, acho que ainda tem, de levar tudo pra esse lado, de ser incapaz às vezes de seguir uma hierarquia, de obedecer uma disciplina muito rígida. A vontade que ele tem de travar contatos amistosos, criar intimidade, encurtar distâncias. Isso continua existindo, essa informalidade, avesso as formalidades, não gosta (…) o brasileiro criou essa informalidade natural. Isso continua existindo. Agora, como eu dizia, é pro bem e pro mal, dependendo da circunstância o brasileiro pode dar numa raça generosa, né? Ou num povo até triste e amargurado.


Como já afirmei anteriormente, minha tendência é para o otimismo. Acredito na literatura, acredito nos livros, acredito na poesia. As relativizações, as cordialidades, eu não poderei mudá-las dentro do sistema. O que podemos fazer é trabalhar seriamente e de forma honesta, com comprometimento. Eu busco muito isso de nossos parceiros – autores, por exemplo – comprometimento.

Evitamos, dentro da Patuá, quem queira estabelecer relações apenas cordiais, de amizade. Eu costumo dizer que não publicamos os amigos, embora todos os autores se tornem nossos amigos. A amizade é fundamental. Mas o texto, o texto é, para a publicação, mais importante. Nem sempre acertamos. É impossível, sem conhecer um autor, saber qual o comprometimento dele com o livro, com a literatura, com a editora. Mas acho que formamos, em menos de dois anos, um grupo de autores que ultrapassam a publicação do próprio livro. Isso é fantástico!

DA – A Editora Patuá completa agora dois anos de existência e vem, pelo que se pode observar, construindo um caminho cada vez mais sólido. O surgimento dela trouxe embutido algum desafio em especial? Vocês vislumbraram uma ruptura de padrões editoriais?

EDUARDO LACERDA – Após dois anos de trabalho, com quase 80 autores publicados e mais 100 títulos que queremos lançar apenas este ano, além de um prêmio de R$ 50.000,00 do Proac – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo – destinado à realização da Coleção Patuscada, que publicará 12 títulos de 12 poetas inéditos, sendo que os livros terão uma tiragem de 1500 exemplares, com 20% destinados à distribuição gratuita nas bibliotecas do estado, acredito que conseguimos romper com alguns padrões, tanto editoriais como de mercado editorial, agora os desafios são outros e muitos.

Mas existem dois desafios especiais nesse momento. O primeiro é editorial, queremos sempre apresentar livros diferentes e únicos. Então estamos sempre pensando em como inovar de alguma forma. Cada livro na Patuá tem um projeto gráfico especial, ilustrações exclusivas, formatos e acabamentos diferenciados (capa-dura em alguns títulos, por exemplo). Então, esse é um desafio prazeroso: como podemos fazer algo ainda melhor e surpreendente? Como fazer isso mantendo também os preços de nossos títulos abaixo dos praticados pelas outras editoras?

O segundo desafio é o da Patuá como empresa. Em dois anos conseguimos vencer uma série de dificuldades, mas a editora ainda não nos dá lucro. É claro que o lucro não é nosso objetivo principal, mas precisamos dele até para continuar o projeto. É bom ter autonomia financeira para investirmos em novos projetos, em coisas mais ambiciosas (editorialmente). Essencialmente esse desafio nem é financeiro, mas será bom ter mais livros sendo vendidos e distribuídos, isso também pode nos fortalecer editorialmente.

DA – Quando se fala em era digital versus a manutenção do livro impresso, muitos assumem um discurso apocalítico quanto a este último. Na sua visão de editor, de que modo podemos fomentar uma coexistência harmoniosa entre os dois suportes?

EDUARDO LACERDA – Há muitas formas de se entender essa questão, infelizmente muita gente ainda não entendeu nada.

O escritor Umberto Eco deu uma definição muito simples e certeira sobre o que é um livro “O livro é como a roda, depois que foi inventado, não há como melhorar”. E é isso. O livro digital é apenas um suporte (na verdade, o livro digital pede um suporte – os leitores eletrônicos -, enquanto o livro impresso é o próprio suporte do texto: são ambos, texto e suporte, uma única coisa).

Assim, o livro digital não veio substituir o livro impresso, que ainda é infinitamente superior, mas pode ser – nem sempre ele é – uma opção a mais para a leitura e acesso ao conhecimento. Não há nada, porém, no livro digital, que o torne mais atraente do que o livro impresso.

Pensando de forma prática, um bom livro também é um produto, mas é um produto na contramão da lógica capitalista. Um bom livro pode durar uma vida inteira – pode durar dezenas de vidas inteiras e passar vários séculos. Um livro não fica obsoleto. Um livro impresso pode ser emprestado e lido por várias pessoas (pode-se argumentar que o livro digital também permite o compartilhamento, mas não é verdade. Um livro digital comprado legalmente não pode ser revendido, emprestado, compartilhado. Podemos fazer isso apenas ‘pirateando’ o livro digital. O que é diferente, porém, em tudo que é independente no digital). Um livro pode ser revendido, pode ganhar valor, com o passar dos anos.

E pensando de forma subjetiva, um livro pode ter marcas das nossas vivências: impressões digitais, manchas, orelhas, riscos, anotações, dedicatórias. Ele pode nos trazer memórias. Ele pode ser autografado.

Fazer um livro impresso é também mais barato, acredite. O que é caro no livro impresso não é a impressão, mas o que há de humano no processo: revisão, edição, ilustrações, projeto gráfico. E isso deverá continuar no livro digital – deveria continuar, pelo menos. Não sei se vai. Sinto, muitas vezes, que poucas pessoas se importam com essas partes de um livro.

Os entusiastas do livro digital, em geral grandes corporações como a Amazon, querem que o livro entre na roda do jogo capitalista. Querem nos obrigar, com vários discursos estúpidos como o preço (que não é menor) ou como a praticidade (que não é maior), a comprarmos, a cada dois anos, um novo leitor eletrônico e a recomprar, centenas de vezes durante nossas vidas, os mesmos títulos que, de forma impressa, teríamos que comprar uma única vez. É isso o que acontece com a música, por exemplo, e que nunca aconteceu com o livro. Os suportes vão mudando e somos obrigados constantemente a renovar nossas coleções.

Existem outros argumentos ainda, mas recomendo para uma compreensão maior sobre o assunto o texto “O futuro do livro impresso e das editoras”, do professor e editor Plínio Martins Filho.

Agora, se entendermos o livro digital como maneira de disseminação independente do conhecimento, como forma de compartilhamento de informações, cultura, textos, literatura, então eu acho que ele vem para somar. A Diversos Afins, e centenas de novas revistas, por exemplo, são digitais. Tenho lido muitos livros digitais, mas a maneira como essas publicações são feitas vêm para renovar a antilógica capitalista do livro que mencionei. E isso é incrível.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

DA – Certa feita, o poeta Manoel de Barros afirmou que a gente escreve para se descobrir e, lembrando o dito de alguém, ressaltou que nossas maiores verdades são inventadas. O que acha disso? Escrever seria também um truque para o existir?

EDUARDO LACERDA – Gullar também diz que “a arte existe porque a vida não basta”. Mas discordo, para mim a vida só existe porque a própria vida não basta.

E, como já disse, escrevo muito pouco. Então não posso dizer que isto, que escrever, é o meu truque para existir. Realizar coisas é o meu truque para existir. Mas eu não estou dizendo que são coisas importantes, são importantes para mim. Eu gosto muito de falar com poesia, então isso de realizar coisas, de dizer que eu realizo para existir, posso expressar com esse poema do Leminski: “das coisas / que eu fiz a metro / todos saberão / quantos quilômetros / são / / aquelas / em centímetros / sentimentos mínimos / ímpetos infinitos / não?”. Acho que é isso. Eu tenho ímpetos infinitos, mas são tão importantes. E acredito que se há um truque para existir, ele está nisso. Mas está também, concordo, nas verdades inventadas. Toda realização é também uma verdade inventada. Gosto de pensar, qual Itamar, “Que tal o impossível?”. Mas o impossível pode ser mínimo, pode ser só meu. É isso.

DA – A poesia está a serviço de quê?

EDUARDO LACERDA – Vou citar o Leminski novamente: “A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê”. Mas estou citando para discordar um pouco, só um pouco. A poesia realmente não está a serviço – ela não é máquina – de nada e de ninguém, ela não existe sem os poetas, sem os leitores, e não existe mesmo sem os críticos. E todos estes estão a serviço de algo. Veja, estar a serviço não significa que estamos servis, que estamos escravos, que estamos qualquer coisa que nos desumanize na relação de um trabalho. Mas escrever, mas editar, mas criticar… mas ler, afinal, é um trabalho. É uma forma de transformar a realidade, de transformar as percepções.

Poesia serve para transformar a minha percepção. Ela serve, para mim, para transformar a realidade. Ela é útil.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

EDUARDO LACERDA – Vamos brincar com uma pergunta anterior? A pós-modernidade é uma verdade inventada. É apenas uma necessidade, e até muito carregada de romantismo, de se delinear percepções sobre a realidade histórica que vivemos, mas todas essas tentativas são bem falhas ainda. Essa construção, e essa percepção, da nossa condição atual, não estão bem claras. Não estão para mim. E o que eu não endosso no que chamam de pós-modernidade é o que eu não endossaria nos entendimentos de realidades anteriores: a exploração, a injustiça, a desumanização, a falta de perspectiva para que a nossa vida possa ser mais do que o trabalho e as obrigações. Isso eu não posso endossar.

 

 

***

 

 

CONDICIONADOR

Eduardo Lacerda

 

Agora

que meus cabelos

cresceram

(e parecem femininos)

tenho menos

medo

que pareça

desespero

minhas duas mãos cravadas

no centro

da

cabeça

:

agora que meus cabelos cresceram

(e constantemente cobrem meus olhos)

penso

que parece o tempo

o tempo todo

que estou negando

algo

(assim, quando os balanço

para o lado).

Mas também

que afirmo

(como se

cisco

para alimento)

quando

insisto

(reticente) em

ir com eles,

para trás e

para frente.

E

embora

agora que meus cabelos

cresceram

e esses gestos

(e minhas mãos ali no centro)

não

pareçam

desesperos

(muitos pensam até que parece um carinho).

Carinho, carinho, carinho, carinho

ninho:

de coceiras

 

 

 

 

 

Categorias
76ª Leva - 02/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Por trás dos percursos de uma obra, abrigam-se motivações das mais diversas. Definitivamente, entendê-las não é a via mais importante a se seguir. Sentir parece ser o termo mais apropriado. Daí, a necessidade de converter os mecanismos da percepção em ferramentas possíveis a um mergulho para dentro de nós mesmos. Afinal, tudo principia nas paisagens que, embora episodicamente relutemos em reconhecer, são cada vez mais redescobertas daquilo que tornamos a visitar, quiçá uma fonte inalienável da existência, alimentada pelas travessias reais ou vividas em sonho. Onde a distinção entre criador e criatura? Quão tênue pode ser a linha que perpassa projeções e concretudes? Mais ainda, como negar a noção de unidade que assoma nossas trajetórias?

Estas e outras tantas indagações estão postas no caminho que compartilhamos com nossos iguais. E ao alçar voo por sobre as humanas idades, somos companheiros de sopro vital de um alguém como o escritor Vicente Franz Cecim. Nascido nas paragens amazônicas, mais precisamente em Belém, no Pará, Vicente tem na mítica e emblemática Andara a pedra fundamental de seu caminhar com as palavras. Com a habilidade de quem faz do olhar sensível sobre o existir um precioso aliado, o autor constrói uma obra cujo apelo filosófico é virtude das mais caras. Do mesmo modo em que o ambiente tido em Andara sugere vias especialmente oníricas, pautadas numa aproximação com a literatura fantástica, também estamos diante da manifestação cotidiana, e nada banal, do real entre nós, algo profundamente transmutado em poesia.

E foi com esta habilidade de nos apresentar trajetos movidos por uma perspectiva de amplitude do ser que Vicente ergueu sua obra. Ao pensarmos no conjunto de suas escrituras, deparamo-nos com o que o autor denomina de livros visíveis e invisíveis. Seu trilhar abarca, dentre outros, feitos como Viagem a Andara oO livro invisível, K O escuro da semente (Ver o Verso, Portugal, 2005), Ó Serdespanto (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2006) e oÓ: Desnutrir a pedra (Tessitura, Minas Gerais, 2008), além dos e-books Desnutrir a pedra (Tertúlia de eBooks, 2012) e Asa de murmúrios (Tertúlia de eBooks, 2012). Como cineasta, é criador dos filmes KinemAndara. No diálogo que agora segue, Vicente Franz Cecim fala um pouco sobre as perspectivas criadas a partir de Andara e de como a simbologia dessa Floresta Sagrada de Palavras está inserida em nós mais do que pensamos. A entrevista, feita por e-mail, possibilitou também o explicitar de todo um singular modo de expressão do escritor no que se refere à grafia, algo que potencializa saberes e sabores inerentes a sua jornada.

 

 

Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim

 

 DA – Andara, ambiente metafórico da vida e que perpassa sua obra, é desejo de reinvenção de nossas existências?

VICENTE FRANZ CECIM – Sim. É a nossa Existência que através de Mim inventa Andara, para ser inventada por Andara. Isso é recíproco. Mas já perdi de vista, agora – Andara começou a se manifestar em 1979 e estamos em 2013 – qual das duas Faces é a do Espelho e qual a que está diante dEle. Ah, não percebo Andara como uma metáfora: percebo/isto é: recebo Andara como o Real. É a nossa existência que entendo como a metáfora de uma realidade que deseja o Real, ou Mais Real, que Andara busca e busca e busca.

 

DA – E o que dizer das linhas que derivam destes signos andarianos? Serão elas uma ode à redenção do humano?

VICENTE FRANZ CECIM – Ah, a Redenção do Humano. Isso é uma pergunta que abala todas as certezas, primeiro, para só depois pretender alguma resposta. A Redenção do Humano? De alguma forma, sim, Andara busca isso. Mas, às vezes, com muitas dúvidas que se ampliam em mais dúvidas sobre como, e por quais vias? É um labirinto de dúvidas que eu preciso percorrer, por onde passam, se entretecendo, a literatura e o humano. Antes de mais nada, Andara busca a redenção de si mesma – como uma Outra realidade: feita do tecido verbal e do tecido existencial dos seres e coisas que faz emergir através das Palavras. Quando parece, aqui e ali, tocar em algo, digamos, como que uma Graça, possivelmente redentor – então, dá um segundo passo: a partir desse ponto consistente quando achado, tenta avançar para fora das palavras e passar a caminhar já através do próprio humano. Não sei o que é mais difícil, se esse passo verbal ou o segundo, que vem depois dele, já em pleno humano. Porque, vê só: assim como Andara é verbal e não-verbal, existe e não existe – pois é um livro nãoescrito de onde brotam os livros escritos de Andara – também o homem e o mundo são existentes e nãoexistentes. E é justamente por isso – porque Andara e a Vida, a Literatura e o Homem são coisas tecidas de ser e nãoser – que, quem sabe, esteja de alguma forma autorizada a buscar redenções. Mas é possível se redimir de um sonho? E eu posso me redimir do próprio Sonho que, humano, sou?

 

DA – Diria que a memória presente em sua obra corre paralela ao que se vive em nosso mundo supostamente real? 

VICENTE FRANZ CECIM – Não, não se trata de um mundo supostamente real – mas de um mundo real como um sonho. Nesse sentido, Andara quis existir para nos lembrar disso, para evocar, permanentemente, essa Memória, este Saber: Mundo – tão real quanto um sonho, logo tão liberto de si mesmo como uma irRealidade da qual não se pode escapar.

 

 

Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim

 

DA – Desde que tudo começou em A asa e a serpente, passando por K O escuro da semente e chegando a oÓ: Desnutrir a pedra, a busca pelo entendimento do Uno, tão apregoada no filósofo Plotino, atravessa intensamente seus caminhos de criador?

VICENTE FRANZ CECIM – Sobre isso só posso falar com as palavras que já disse outras vezes e que em cada Mil e Um Homens todos fingirão não entender, refugiados na Noite Espessa em que, no Medo ou Astúcia da espécie, se ocultam, o que no fundo todos já sabem. Sigamos sem muitas esperanças, então, a resposta: –  O homem é coisa que vive para dentro e para fora de Si. Para fora, ele é o Ente: o Espanto domado pela Civilização. Para dentro, ele É o Ser: o Puro Espanto de Ser, intocável. A Viagem a Andara caminha assim: desperta para essa vida em Ente e combatendo a Civilização como alienação de sermos, e se sonhando em miragens de sermos que nos libertem para Sermos plenamente, o que já somos, mas estamos encarcerados, vivendo como os Humilhados & Ofendidos de Dostoievski, mas em escala cósmica. E quer levar para além desse homem submetido – que se deixa submeter ou é submetido à força e por promessas políticas ilusórias das Forças Sociais Malignas, malinas como dizem as Crianças. Em Andara se dá a Alquimia Verbal da transformação do Humano em Umanoh, lançando para trás da palavra esse H inútil, vazio, aspirado para liberar o Um, o Uno: a abertura para o Ser. Mas aqueles que impelidos pelas Astúcias das Forças Sociais Malinas a viverem somente para fora a vida como Ente continuarão avançando na única direção que conhecem e lhes é consentida no Ocidente, onde se lê da esquerda para a direta: do calcanhar para a ponta dos dedos – e reencontrarão o H no fim da palavra. Que pena. Isso me entristece. Porque caminhar através da irRealidade, despertante, de Andara me mostrou que a direção oposta nos torna levar ao nosso Centro Real. E esse centro se atinge indo na direção inversa: da ponta dos dedos para o calcanhar, em demanda de um Real Total que nos transfigure. Pois o homem é, essencialmente, coisa que caminha Por Dentro. Se quiserem: Da direita para a esquerda. Liberando o Um de Tudo em si. – A Descoberta Fulgurante de Andara em sua Via Imaginal é a Irrealidade da Vida como  manifestação da Pura Irrealidade em Si – ou semSi – do que os homens intuem, advinham ou criam ou recebem como o que chamam > Deus. Mas isso não é coisa para temer:  gerou em Mim a Imensa Alegria. Porque significa, se entendido em um Clarão: libertação, significando: – Liberdade.

 

DA – A perspectiva de escrever invisivelmente nas páginas do livro da vida, abraçada a essa libertação a que você se refere, é uma total vontade de transcendência?

VICENTE FRANZ CECIM – Algo, ou eu mesmo, devo ter me feito essa pergunta no instante Clarão em que nasci – saltei aqui para fora, ou Dentro, como mais um ser de espanto. E a pergunta deve ter vindo me acompanhando até o dia em que, já aos 33 anos, escrevi a primeira página de A asa e a serpente, o primeiro livro de Viagem a Andara oO livro invisível. Até agora, + quase 34 anos depois, nada mudou. A primeira página com a resposta foi esta:

 

   Tu escreves um livro com tinta invisível.
            Por que fazes isso?

            Nós somos homens invisíveis
            Depois de nascidos, visíveis.
            Entre o início visível e o invisível final, nós somos os homens

visíveis.
            Aproveitemos para ver-nos

            E então ir escrevendo outros livros,
            nestes jardins, todas essas asas,
            para que um livro vá se fazendo.
            Mas não em si.
            Dele não se verá nem sombra das palavras no papel.
            Viagem a Andara.
            O não-livro. Não existe, não existe
            Literatura fantasma.
            Não foi escrito.
            Enquanto texto, tudo o que teremos dele é um título

 

Mas, Fabrício, há uma outra pergunta implicada nessa, e que não me fizeste – mas como eu a fiz a Mim, então te passo a página seguinte da abertura de A asa e a serpente, após a pergunta sobre por que escrever um livro invisível:

 

             E a pergunta seguinte é:
            E o que são livros, os livros que se escreve
            Livros de Andara.
           Livros-miragens. Pois uma vez escrita, da vida só resta a alucinação literária

          Situação dos livros de Andara: condenados à vi¬sibilidade para que Viagem a Andara, o livro invisível possa existir como pura ilusão.

            Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.

           E ela está começando assim

 

DA – Chama atenção a presença de uma grafia toda própria quando menciona seus escritos, percursos em Andara. Nesse sentido, vislumbras uma espécie de ressignificação consciente da palavra?

VICENTE FRANZ CECIM – Bem, isso é mais simples do que parece. Quero dizer: é Simples como as coisas simples. Mas passa por estágios. O primeiro, essencial, é: um criador de literatura, de qualquer arte, ou é idêntico a sua impressão digital, único, ou é apenas um artesão. Esse é o estágio do Ser. O segundo é o estágio da Linguagem: a Vida toda é uma Linguagem que nos fala e se fala em nós próprios – todo esse Cosmos visível, um Livro – mas cada coisa, de cada espécie, fala a sua linguagem – mas aqui se dá algo curioso: para falar a partir de si próprio, e falar para todos, é preciso que cada um, dentro de sua espécie, fale uma linguagem tão sua quanto sua própria existência não pode ser a de outro. Aquele que fala a linguagem de todos certamente não fala para todos porque não fala solitariamente. Um terceiro estágio é um exemplo disso: a própria linguagem de Andara: senti que para falar como só a mim seja dado falar – e poder falar para todos – os tempos padronizados do verbo não eram suficientes: passado, presente, futuro – e precisei de um tempo-sem-tempo, que chamei de Tempo da Hipótese – esse é o tempo do Verbo em Andara, o tempo do fosse, seja, estaria – o tempo do talvez, do quem sabe, que acabou se tornando o tempo do Fosse Uma Vez. E de onde veio essa minha necessidade? Da descoberta, evidente, de que o tempo mais profundamente falso na literatura é o tempo do É – na Literatura nada é – por isso mesmo a Literatura pode ser tudo: ela é o menos real para ser o mais real. Entre o percebível Real e o concebível Imaginário, aí se manifesta a Literatura em sua Verdade. Além disso, devo acrescentar que, nesse Tempo da Hipótese, Andara foi me revelando a diferença entre palavras que se referem a coisas passageiras e palavras que dizem de coisas Permanentes: são as coisas como Entes, entidades, diferentes das coisas como coisas. Basta dar aqui um exemplo para ser entendido, acho. Quando em Andara escrevo: a noite, falo do fenômeno que é a noite. Quando em Andara escrevo: a Noite – surge o Ente que é a Noite origem e significado de todas as noites. Assim também: o homem/o Homem, uma árvore/aquela Árvore, a voz/a Voz – podendo às vezes se dar transmutações instantâneas, de uma mesma coisa, quando percebo numa cintilação, nela, sua dimensão de entidade, como em: o vento: o Vento. Mas os livros visíveis de Andara, os que escrevo e vão brotando de Viagem a Andara oO livro invisível, que não escrevo, é que dizem em si mesmo tudo o que eu apenas esbocei dizer.

 

Vicente Franz Cecim / Fotoaquarela: Bruno Cecim

 

 DA – Em sua trajetória, há também a presença de uma íntima relação com o cinema, sobretudo nos filmes produzidos ao longo dos anos. Que reflexão você faz desses percursos com a imagem? A vontade de produzir permanece viva?

VICENTE FRANZ CECIM – Uma vez conversei com o cineasta Carlos Diegues aqui na Amazônia, conversa longa, de amigos. E apontei uma árvore e disse a ele: – O que eu queria mesmo era trazer aquela árvore exatamente como ela é, viva, para dentro dos meus livros. E ele me respondeu: – Pois eu queria era poder trazer a árvore que tu inventas com palavras para dentro dos meus filmes. A resposta essencial a tua pergunta sobre por que faço, também, os filmes KinemAndara, Fabrício, está toda nesse diálogo. Tentemos entender isso que nos dissemos: são duas impotências: na Literatura, posso criar a árvore que eu quiser – e em Andara as árvores falam, caminham, contam histórias para os homens, sobem até as estrelas – mas não posso ter a árvore viva, no Cinema, posso ter a árvore como ela se mostra viva, mas ela, para se manter a árvore viva que percebemos, mesmo só como imagem, não contará histórias, caminhará, subirá até as estrelas. Por muitos motivos, mas esse é o principal – escrevo e filmo.

 

DA – Houve um período em que você encontrou ambiente mais favorável para publicação em Portugal, tanto que alguns de seus livros foram editados por lá. Naqueles tempos, você enfrentou, de fato, dificuldades para publicar no Brasil? Como estão as coisas agora? Um novo livro já estaria em curso aqui?

VICENTE FRANZ CECIM – Melhor, agora, assumir o tom de uma crônica, áspera e um tanto melancólica, para descrever esses já quase 34 anos de resistências, desistências e persistência de Andara, desde deu seu primeiro passo em 1979. Os principais livros visíveis de Andara saíram primeiro no Brasil, pela Iluminuras – Viagem a Andara, em 1988, reunindo os 7 primeiros livros, que recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, antes dado apenas a Cora Coralina, Mário Quintana, Hilda Hilst e, depois de mim, a Manoel de Barros, porque só é atribuído se houver unanimidade dos críticos votantes – e Silencioso como o Paraíso, em 1994, reunindo os 4 seguintes, que Leo Gilson Ribeiro considerou ‘um dos mais perfeitos livros publicados no Brasil nos últimos dez anos’ e muitos outros elogiaram tanto quanto o primeiro volume. Devo revelar isso para que fique muito claro: o impasse do chamado mercado editorial brasileiro não é criado por questões de qualidade literária – é expressamente comercial. Então, após esses dois volumes, foi o exílio nacional de Andara. Não gosto de procurar editoras com meus originais e desisti de vez ao ouvir do meu próprio editor, um amigo e leitor lúcido, Samuel Leon, que ‘os leitores brasileiros ainda não estão preparados para Andara’, quando apresentei à editora Ó Serdespanto, em 1988, reunindo mais quatro novos livros de Viagem a Andara oO livro invisível. Só em 2000 o livro saiu em Portugal, pela Íman, e mais de dez críticos portugueses, consultados pelo jornal Público, o apontaram como o segundo melhor lançamento do ano – o que devo, pelo mesmo motivo acima – questões de qualidade literária – também revelar aqui. Mas nem isso foi suficiente para abalar a indiferença do exílio editorial brasileiro. Um novo inédito de Andara saiu em Portugal em 2005, pela Ver o Verso: K  O escuro da semente. Mais de dez anos após a última publicação de um livro meu no Brasil. Com dois volumes publicados no Brasil e dois em Portugal, comecei a me sentir um escritor tão brasileiro quanto Guimarães Rosa e tão português quanto Fernando Pessoa. Seria cômico, se não fosse doloroso – mas nem uma coisa nem outra, porque sempre me senti um escritor da Amazônia, da Floresta Sagrada – meu essencial país. Então, num espasmo que simulou uma redenção, enfim Ó Serdespanto saiu aqui pela Bertrand Brasil, em 2006. Mas O escuro da semente – e embora a editora tenha assinado comigo nessa época dois contratos de edição, dele e de uma reedição de Silencioso como o Paraíso – jamais foi editado – nem foi feita a reedição – e ninguém conhece O escuro no Brasil até hoje. Guardo os contratos não cumpridos como fantasmas num sótão, assombrações do Mercado Editorial. Enfim, continuei gerando novos livros de Andara. Para o que? Para nada? – Ficar jogando pedras no escuro? Enfim, o último deles saiu aqui pela Tessituras, de Minas Gerais, em 2008: oÓ: Desnutrir a pedra. Quanto ao exílio de Andara – continua. E há cinco anos não é impresso nenhum dos novos livros visíveis.

 

DA – E a alternativa dos e-books, o que acha do livro virtual?

VICENTE FRANZ CECIM – O livro virtual – que em breve deverá ser também devorado pelo sempre faminto Mercado Editorial – é uma radicalização do Exílio de Andara, que agora estou assumindo: editei em e-book, com algumas mutações, Desnutrir a pedra e o mais novo visível de Andara: Asa de murmúrios, pela Tertúlia de E-books – mas atenção: é uma editora de Portugal. Quem sabe, se não há um Lugar físico para os livros visíveis de Andara, não seja mesmo o livro virtual o nãoLugar de Viagem a Andara oO livro invisível?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

VICENTE FRANZ CECIM – Essas divisões do chamado tempo histórico, ah – não me interessam – apenas como curiosos arquivamentos, são um Museu de Miragens dos passos passados da Humanidade que quer nos induzir ao sentimento, coletivo, de que estamos em evolução e que tudo vai bem – sua função, implícita e consoladora, é prometer que os chamados tempos melhores virão, sempre estarão vindo. E que tudo, no fundo, apesar das aparências, está bem. Elias Canetti escreveu um livro impressionante, Massa e Poder, onde você pode ver como em todos as épocas os homens avançaram brutalmente e seus passos têm sido à deriva e cruéis – como quem avança através das Trevas.  Eu vivo no Tempo da Natureza. Porque viagem do homem no Cosmos é uma só, Una, sem divisões em pré e pós. Através da História o homem avança e recua por labirintos de caminhos que em Andara chamo de: o Vários. Mas é no Um que passa, em nós e na Vida, o Caminho – assim, com maiúscula – em sua dimensão de Entidade, diferente desses caminhos nas névoas que também os seres neblina de Andara percorrem em Sua busca. Eu reduzi tudo a uma palavra-imagem: oO – e eu pequeno – eu – e o Eu grande – o semNome. Eu vivo é no O Um Vários.

 

DA – Em que medida o caminhar em Andara transformou o homem Vicente Franz Cecim?

VICENTE FRANZ CECIM – Na medida em que eu quase nem sou mais Vicente Franz Cecim. Andara tem uma meta: – Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim. Atravessando Andara, fui aos poucos me tornando Sonhos de Escritura de mim mesmo. E, a cada novo passo na Viagem a Andara oO livro invisível, vou penetrando mais e mais, no Menos, gosto cada vez mais das páginas em branco, sem nem Sombras de palavras no papel, região dos Silêncios. É a busca – do que me busca? oO. Enfim, sou mais um serneblina de Andara: nascido, como todos, um ser de espanto, meu sonho é ser o próprio Serdespanto. Quando me vejo de costas num espelho, sinto melancolia. Nostalgia da promessa de Asas não cumprida nas omoplatas humanas. aVe

 

 

 

***

 

 

Vozes de Andara I – Muro branco das idades

 

 

 

 

 

***

 

 

K  O escuro da semente / Um fragmento

……(…)

……E seria nessa noite e sob aquele céu de asas negras brancas
que ele, Oniro, fosse se levantando da terra onde caído,

……e então diria:

……– Vê, Orino,
……isso: Isso, que eu agora entendi: essas asas, negras, brancas,
……seus Círculos brancos negros
……não existem. Eles são só uma invenção desse Vicente que nos
escreve,
……só que elas ele escrevendo com asas de palavras,
……e nós ainda inventando com palavras de carne,
……ah as pesadas as humanas, e nelas uns ossos vazios por onde
ele sopra os seus sonhos
……– Não existem, mas existem. Como te dizer isso?
……Escuta.
……E vem comigo

……– É que esse Vicente,
……vindo de um vale onde nasceu, é lá embaixo da vida,
……o que ele quer o que mais quer é ascender, alado, e, leve,
abandonar o Vários por maior Amizade ao Um.
……Pois já não houve um outro, um tal K que
……Diz-se
……antes dele já ascendeu deixando aqui embaixo o Alfabeto
Humano?
……Ou essa é só mais uma das suas histórias
……Esses livros que ele escreve
……Então, todos os seus livros sendo atravessados por asas,
……para ele um lugar não lugar Andara e todos os lugares sendo
para ele uma grande Asa, com a qual ele sonhando isso do Visível ao
Invisível,
……ele faz essa viagem, e já bem longa.
……Isso de andar sem ir ficando indo fosse
……Pois em Andara, tudo está no Vale, embaixo,
……e quer ir para a Montanha, lá no alto.
……Tudo

……– Vê, Orino,
……sendo fantasmas de Andara,
……nessa Neblina
……nós também podendo viajar por Andara inteira, indo através
dos livros que esse Vicente escreve,
……como estamos indo agora através das páginas deste livro que
ele escreve,

……e estão, vem comigo, façamos isso

……– Mas tu, não, dizendo Oniro ao omem de areia. Não vá se
desfazer nos grãos das palavras desse Vicente o que ainda resta do
teu Grão de Ser

……Vem,
……e vê Orino.
……Como parecem se elevar tão altos os seus livros
……À Sombra deles, ah suas sombras assim tão longas e íntimas
das sombras longe lá do horizonte
……as nossas sombrazinhas de Neblina humana

……A asa e a serpente.
……Lês, o título?
……Dos livros assim visíveis de Andara
……este é o primeiro. E vês o que eu te disse? A serpente: o Vale,
a asa: a Montanha. E tudo terminando por uma chuva de asas e
serpentes sobre a terra,
……sobre os homens
……Vem, vê. Entremos também neste
……É Os animais da terra. Aqui, repara,
……aparentemente tudo se dá só no Vale, mas não é o que
acontece, porque o sonho da Montanha vês ele
……nos vôos de Caminá? A mulher alada
……Este outro é Os jardins e a noite. O Vale está nos olhos que
antes um homem tinha para não ver nada, nada sob o sol, e a
Montanha nasce da Noite em que uma ave, a imensa,
……o Curau,
……desce do céu e tira os olhos desse homem
……e ele então começa a ver, é bem longe, e também dentro de si,
a vida
……Este é Terra da sombra e do não.
……Entremos
……Nele, uma criança atravessa o Vale: a vida, levada por dois
outros fantasmas como nós, um querendo ser leve, o outro, pesando
sobre a terra,
……e no final surgem umas borboletas, vês: elas, lá? Umas
cintilações no ar, que voando diante da criança a levam até a
Montanha, que é um montinho de nada de terra onde um morto
dorme e não dorme pois não sabemos se ele ainda está lá ou já se
ergueu de si
……Este é Diante de ti só verás o Atlântico.
……Nele, o Vale será submerso

……(…)

 

 

***

 

 

KinemAndara – PERMANÊNCIA (1976)

 

 

 

 

 

 

Categorias
75ª Leva - 01/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A fotografia tem o condão de vislumbrar perspectivas que se agigantam cada vez que a subjetividade governa seus signos. O modo como um fotógrafo observa a vida e seus complexos fenômenos é especial quando se pode olhar tudo como se fosse a primeira vez. O real, atravessado pelos recursos advindos da alma humana, não é mais o mesmo. Muda sempre, como se estivéssemos mirando um caudaloso e intrépido rio. Assim, flagrar os instantes que nos agarram incessantemente e despertam nossa atenção passa a ser uma missão deveras intuitiva e sensível, mesmo considerando o necessário domínio técnico.

O que será que norteia o olhar frente ao universo de pontos de vista que está diante de nós? Talvez um alguém como a paulistana Mercedes Lorenzo saiba nos responder com a propriedade de quem percebe caminhos singulares por entre os dias. Dona de uma visão que associa poesia à imagem, Mercedes penetra nas sutilezas e retira delas a matéria que dá sentido ao seu ofício. Mesmo no registro da materialidade das coisas e seres, a fotógrafa consegue um resultado que vai além de uma noção concreta e acabada de tudo. Nela, um vigor abstrato e intimista é capaz de redimensionar o foco da criação, fazendo com que um novo impulso seja conferido à existência.

Formada em Desenho Publicitário e Fotografia pela Escola Panamericana de Artes (EPA – SP), Mercedes direciona suas ações para uma reflexão mais humanista das coisas, fato que a estimula a desenvolver novos trabalhos. Na entrevista que agora segue, a artista fala, dentre outros temas, dos motores de sua criação, da especial relação com a palavra e faz algumas reflexões sobre o papel da arte na contemporaneidade.

 

Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti

 

DA –  Não há como passar por suas fotografias sem observar a forma como os espaços são captados. Disso, deriva uma escrita da luz que permeia o ambiente das intervenções humanas, de como divisamos ser e não-ser. Visivelmente habitados ou não, muitos de seus lugares possuem a marca vigorosa dos vestígios. Como lidar com isso na criação da imagem?

MERCEDES LORENZO – Há uma frase de Anais Nin, em meu blog, que resume fantasticamente esta questão: “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”. Isso pra mim implica que a criação fotográfica é uma conversa íntima entre o que é pré-existente no ambiente com o que necessita de via de expressão dentro da mente do fotógrafo. A partir desse diálogo mudo, das concordâncias e dissonâncias entre eles, vai se estabelecendo um ponto fino de equilíbrio e toda essa dinâmica acontece às vezes em questão de segundos. Mas sempre existe essa conversa íntima e ela determina o que será ignorado e o que será ‘focado’, usando metáforas da própria fotografia. É algo no qual não costumo prestar atenção consciente em relação ao processo em si. Por isso, talvez a dificuldade em te responder objetivamente. É intuitivo e orgânico para mim.

 

DA – Falando em caráter orgânico da fotografia, o que mais chama atenção é o menor nível de interferência possível por parte de quem faz os registros. Acredita que a poesia da imagem se inscreve no pacto silencioso entre o fotógrafo e o universo das coisas?

MERCEDES LORENZO – Sim, sua observação é pertinente. De fato, nos trabalhos fotográficos autorais/conceituais eu tento o mínimo de interferência possível, algo como uma busca da “legitimidade” da cena, embora isso seja ilusório: o olhar, o enquadramento, o foco ou qualquer outro elemento de escolha aleatória no ato de captar a imagem já é uma interferência, e ela se prolonga depois no tratamento da imagem em pós-produção. Não sou o tipo de fotógrafa “purista” nesse sentido, estou interessada justamente em transmitir uma linguagem poética. E quando penso em poesia, não penso necessariamente em coisas belas ou benfazejas. Esse pacto entre o meu olhar e o universo das coisas, como você diz, é uma espécie de transgressão ou licença poética. A não-interferência é quase que honrar a veracidade de algo que só eu estou vendo num determinado instante.

DA – Seus caminhos iniciais na arte apontam para um envolvimento com os desenhos. Você traz algum entendimento dessa fase para o olhar de fotógrafa? Diria que houve uma espécie de transição?

MERCEDES LORENZO – Desde pequena eu desenhava. Num determinado momento, na escola, percebi que desenhava um pouco melhor do que os colegas e então pratiquei com mais determinação. A princípio, copiando imagens que gostava e depois criando umas poucas. Mais tarde, nos anos 80, fiz o curso de Desenho Publicitário, especificamente pensando em aplicar aquele “dom” a algo que pudesse também me satisfazer profissionalmente. Trabalhei por alguns anos com desenho-animado comercial até me mudar de São Paulo para Santa Catarina, onde residi por 25 anos.

Nesse intervalo de tempo, tive outras atividades, trabalhei e estudei inúmeras coisas diferentes e me envolvi mais e mais com a linguagem, a palavra. Então, a transição não foi direta, embora eu tenha hoje consciência de que tendo a pensar sempre em termos visuais, quando penso em algo pela primeira vez. Isso é natural em mim, e provavelmente tem tudo a ver com a escolha da fotografia e o fato de me sentir tão à vontade nessa atividade.

Acredito, sim, que a facilidade do “entendimento espacial” das coisas, proporcionado pelo desenho, favoreça de algum modo o exercício da fotografia, bem como a dinâmica do mundo da publicidade seja um treinamento e tanto para determinados desafios da fotografia documental.

 

DA – Há também a Mercedes que se deixa envolver pelos enlaces poéticos, pela feitura de versos que sabem a delicados percursos existenciais. Em que medida a convergência entre palavra e imagem pontua sua trajetória?

MERCEDES LORENZO – O meu envolvimento com a poesia começou mesmo antes da fotografia profissional, e foi em parte incentivado por amigos que leram alguns escritos meus. Acredito que a palavra tomou destaque em minha vida também influenciada pelos meus estudos em Neurolinguística por volta dos anos 90. A poesia, a meu ver, é um imenso exercício de síntese desse mistério que chamamos Vida, com o pior e o melhor que ela possui. Essa síntese se vale da ferramenta “palavra”, assim como a fotografia é também uma outra forma de síntese que se vale da imagem. São signos que na minha vivência pessoal estão intimamente ligados e creio até que se confundem, na medida em que meus escritos carregam em si uma forte dose visual, e as fotos carregam em si uma dose igualmente grande de simbologia poética. De todo modo, não me considero poeta, apenas arrisco expressões escritas aqui e ali como parte da experiência de pensar o mundo.

Mercedes Lorenzo / Foto: Lais Simenikim

 

DA – Na sua opinião, qual o grande desafio da criação fotográfica frente às “facilidades” do mundo digital que nos atravessa? Não nos iludimos com uma revolução muito mais tecnológica do que inventiva?

MERCEDES LORENZO – Como disse anteriormente, não sou “purista” no sentido de evitar a manipulação digital da imagem quando se trata de buscar uma linguagem a ser transmitida e, claro, dependendo do contexto e finalidade do trabalho em questão. Fotojornalismo é diferente de fotografia conceitual. Mas, ao contrário do que muitos acreditam, a manipulação da imagem fotográfica já existia desde os primórdios da fotografia analógica, e muitos dos efeitos digitais hoje propagados têm sua origem justamente nos laboratórios químicos e em grandes nomes como o de Man Ray, para citar um. Isso não invalida de modo algum o trabalho conceitual que é isento de manipulação, acho que há lugar para todos os tipos de expressão individual. A qualidade da ideia final transmitida é o que deveria contar, não propriamente o processo em si, mesmo sendo ele uma parte lúdica e apaixonante do nosso trabalho. Cada fotógrafo tem habilidades específicas e preferências pessoais ao usar suas ferramentas disponíveis para chegar aonde quer. É a sua “paleta de pintor”, que apenas começa na câmera. O grande desafio, a meu ver, reside no mesmo lugar de sempre: a originalidade e consistência do trabalho, seja digital ou analógico.

 

DA – Seus registros para a publicidade possuem uma conotação artística deveras importante. Imagina rupturas ali?

MERCEDES LORENZO – Eu penso que a publicidade é um segmento que acompanha de perto todo tipo de inovação e consegue, talvez mais do que nenhum outro, absorver tendências de novas linguagens. Claro que estou falando da publicidade de alto nível. Então, nesse sentido eu acredito que, mais do que ruptura, é uma evolução constante. Meus registros para publicidade se querem sempre consoantes com essa maneira de assinalar uma valorização da inteligência do cliente e do seu público.

 

DA – Quando a arte não passa impune pelas questões de nosso tempo, seu significado ganha corpo especial. E você traz isso à tona na série Lançar Luz à Indiferença. O que lhe é mais caro nesse percurso?

MERCEDES LORENZO – Fico gratificada por você ter feito menção a esse trabalho, ele me é muito caro em vários sentidos. Acredito que a arte pode refletir as questões de seu tempo de forma implícita ou mais explícita, como uma crítica, que é o caso da série Lançar Luz à Indiferença. Minha experimentação com essa explicitude se deu transitando na linha tênue entre crítica e provocação. Toda a série foi produzida por mim com recursos fotográficos e de edição digital de imagens, de forma a chegar perto de um efeito “publicitário” muito mais do que propriamente “artístico”, pois se valeu dessa linguagem para dar ambiência ao questionamento proposto. A importância deste tipo de trabalho no meu percurso é a de me colocar em contato com todas as realidades sociais que me cercam, mas não apenas isso: pensá-las, propor um pensamento crítico e independente sobre elas, uma aproximação a elas por parte dos que ainda não o fizeram. São muitas ambições, eu sei, mas aprendi com a poesia que nós nunca sabemos exatamente onde uma ideia pode florescer e o quão longe ela pode alcançar.

DA – Chama atenção a forma como você aborda a perspectiva do masculino no ensaio Ecce Homo Nudus. A poesia do corpo revela um olhar especial sobre o homem, desanuviando tensões aborrecidas do gênero e propondo outras leituras. Estamos diante de um resgate necessário?

MERCEDES LORENZO – Sim, sem dúvida, eu acredito que estamos diante de um resgate necessário, em muitos sentidos. Apesar de aclamado na mídia e amplamente exibido na publicidade, o que observo é um recrudescimento em termos de moralismo no que se refere ao corpo na sua expressão natural. Esse recrudescimento se reflete inclusive nos espaços da web com uma censura indiscriminada que coloca a pornografia e o mau gosto no mesmo patamar de um Davi de Michelangelo, por exemplo. Também se reflete na reiteração de dogmas medievais travestidos de condutas contemporâneas. Este ensaio está entre os meus favoritos, não somente pelo resultado estético, mas também pelo que ele simboliza e tenta resgatar. Ele vem acompanhado em meu site de um texto introdutório, onde resumo essa visão que vai além do erótico, do comercializável, do corpo idealizado. O corpo aqui se quer parte indissociável do Ser. É incrível que em pleno século XXI ainda não tenhamos irrestritamente difundida a ideia revolucionária do psicanalista Wilhelm Reich, que nos mostrou que a mente humana está “espalhada” por todo o corpo e não reside apenas no cérebro. Esse conceito é a antítese da dicotomia repressora e moralizante, e mesmo sem essa clareza o ser humano o tem intuído ao longo das eras. Mas aí já vamos descambar em Foucault (risos).  Eu quis que fosse um nu masculino porque também nessa especificidade residem tabus, já que o corpo da mulher é muito mais exposto pela mídia em geral. A inspiração final, o start da coisa, veio quando pude obter num sebo (já que se encontra esgotado) o maravilhoso livro da fotógrafa Vania Toledo: “Homens, um ensaio”. Editado em 1980, ele traz várias personalidades masculinas da época (e ainda atuais) em fotos de nu absolutamente naturais, despojadas, e em situações que evocam particularidades de cada um deles. Fiquei me perguntando por que o livro não foi reeditado, pois existem tão poucos ensaios desse tipo no país. Considero esse trabalho transformador e poético num nível muito sutil, e por isso ele me é caro.

DA – Em termos artísticos, acredita que a contemporaneidade é um convite à transgressão?

MERCEDES LORENZO – Em termos artísticos, só entendo como possível a transgressão (risos). Só consigo conceber a criação como algo que transgride em maior ou menor grau o que é vigente. Isso se aplica, a meu ver, desde o começo dos tempos. Mas contemporaneamente acho que o desafio é maior, na medida em que existem já inúmeros referenciais para a arte de outras épocas. Transgredir sendo criativo, hoje em dia, exige ao menos um superficial conhecimento do que já foi feito, e isso não é pouco. As ferramentas que permitem a auto-expressão criativa podem ter sido ampliadas e/ou facilitadas, mas o conteúdo continua dependendo única e exclusivamente do elemento humano. A multiplicidade de nossos dias talvez dificulte exatamente a observação do cerne daquilo que é vigente, para então poder ser transgredido. Por isso a arte hoje, na minha opinião, tem a importância da síntese. Para chegar a essa síntese é preciso pensar – num momento em que a palavra de ordem é consumir.

Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MERCEDES LORENZO – Vou tentar resumir, porque a pergunta é bastante abrangente. Acredito que muitos comportamentos dessa nossa era chamada pós-moderna são mais reativos do que pró-ativos, eles são consequência de um mundo sem garantias e em pleno processo de transformação de valores. Essa transformação não precisa ser negativa em si mesma, mas requer a todo momento a validação ou não de ideias que eram dadas como certas até o século passado. Nem todos têm a predisposição para esse constante questionamento e alguns se sentem sem chão, sem referências, e as buscam onde for mais conveniente segundo suas afinidades. Nesse sentido, o que eu não endosso de forma nenhuma, são todos os tipos de fundamentalismo: seja religioso, ideológico, político, etc. Também não endosso o automatismo consumista como fórmula de escape para o enfrentamento existencial a que todos estamos sujeitos. É uma vã tentativa anestésica num momento em que a humanidade precisa estar disponível e alerta para todo tipo de ideia que possa promover justiça social e a sustentabilidade do meio ambiente a longo prazo. E isso, na minha opinião, precisa ser feito não só urgentemente, mas com alegria, com vistas à felicidade.

DA – Por tudo o que você já viveu com a fotografia, o exercício do olhar implica mais em estranhamento, contemplação ou espanto frente ao existir?

MERCEDES LORENZO – O exercício do olhar… acho que é uma soma dessas coisas que você disse, e talvez mais algumas. Não poderia me restringir a uma delas, mas isso sou eu. O estranhamento é fundamental, me mobiliza, não me deixa acomodar e provoca a criação de novas sinapses o tempo todo. Sem o estranhamento não haveria o aprendizado. Confesso ter uma verdadeira satisfação diante do estranhamento, pois implica sempre que algo é novo para mim. O espanto é mais emocional, e implica mais na construção íntima daquilo que futuramente vai demandar uma expressão externa. A contemplação, sim, faz parte do exercício do olhar, porém ao contrário: para dentro. É ali que eu tento exercer a contemplação, como quem se pergunta “o que é que tem aí para se expressar?” ou “o que é que já assentou o suficiente aí dentro para ter uma possibilidade de síntese e/ou entendimento?“. Isso tudo se mistura, como você disse, frente ao existir. E acho que a arte não deve nunca dar respostas prontas, mas saber fazer as melhores perguntas, como na Cajuína de Caetano: “existirmos, a que será que se destina?”.

 

* Algumas fotografias de Mercedes Lorenzo fazem parte da nossa 72ª Leva.

 


 

Categorias
74ª Leva - 12/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A inquietude talvez seja uma das ferramentas mais indispensáveis a um criador. Seja por um eixo filosófico ou meramente orgânico, estar vivo já pode ser entendido como uma experiência densamente inquiridora. Esse tipo de reflexão pode conduzir-nos também à instigante ideia de que o produto da arte não é um objeto de um mero e reduzido estado de contemplação das coisas. Achar-se aqui, no meio da “civilização” que construímos até hoje, representa muito mais do que um exercício estético de observação. Por mais acomodados que sejamos, acondicionados em bolhas de isolamento pessoal, o fato é que não passamos impunes pelas urgências do tempo.

No campo da literatura, qual seria, então, a melhor forma de representar a avalanche de sensações que presenciamos através dos dias? Buscar respostas não parece algo razoável. Tudo isso também porque escrever implica penetrar nas camadas mais complexas possíveis, muitas delas envoltas em saberes e sabores que só são viáveis graças a um permanente estado de perplexidade deveras útil aos caminhos da criação. O espanto de se estar vivo e pertencer a uma cadeia de elementos pelas quais não temos domínio absoluto é aspecto que povoa as mais distintas intenções quando o assunto é travar o combate das palavras. E não há como percorrer as paisagens humanas sem retirar das andanças um mínimo que seja de estranhamento. É, por exemplo, um pouco da sensação marcante que nos toma de assalto quando lemos André de Leones. Em sua trajetória, esse jovem escritor goiano penetra de modo denso nas estruturas que permeiam a nossa condição de humanos. De posse disso, faz uso de estratégias narrativas que chamam a atenção pelo modo como seres e lugares convergem para um sentimento de constante perturbação. Assim, perceber-se vivo na ótica do autor é não pactuar com uma acostumada e perniciosa “ordem natural” das coisas.

O caminho de lucidez sobre o qual André edifica sua obra demonstra que após atravessar as vias de Hoje está um dia morto (Romance – Record – 2006), Paz na terra entre os monstros (Contos/Novela – Record – 2008), Como desaparecer completamente (Romance – Rocco – 2010) e, mais recentemente, Dentes Negros (Romance – Rocco – 2011), ele parece estar cada vez mais disposto a pôr em xeque os alicerces em que se funda nossa tenra existência.  Nesta entrevista, o autor pontua aspectos decisivos de sua criação, refletindo um pouco sobre nosso tempo e seus ventos eivados de desassossego.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – “Dentes Negros”, seu último livro, é, digamos assim, um romance caótico, no qual a sensação do derradeiro instante paira por sobre a sina dos personagens de modo a representar muito mais do que uma mera ideia de finitude. Em meio à paisagem desoladora da narrativa, vestígios parecem ser precioso legado. O que lhe é mais emblemático nessa percepção?

ANDRÉ DE LEONES – Não vejo ‘Dentes negros’ como um “romance caótico”. Em termos estritamente estruturais, por exemplo, talvez seja o livro sobre cuja organização eu mais trabalhei. Tudo nele aponta para a finitude, de uma forma ou de outra. O fato de a narrativa ser tão curta é um indício dessa intenção. Ela é constituída por capítulos pequenos, objetivos, crus, mas que eu não encaro como “vestígios” ou coisa que o valha. Também não gosto do termo “sina”, pois tem a ver com certo fatalismo. Não sou fatalista. Não acredito em “sina” ou “destino”. Não era o “destino” de Hugo voltar à sua terra natal, assim como não era o “destino” de Alexandre encontrar Ana Maria. Escolhas são feitas cotidianamente, não importa em que circunstâncias. Nesse sentido, ‘Dentes negros’ tem tudo a ver com meus livros anteriores. Crio os personagens e os coloco em determinadas situações. A narrativa avança a partir do que eles escolhem fazer (ou não), desde as coisas mais simples (ficar em casa ou sair) até as mais difíceis (continuar vivendo ou não).

 

DA – O livro tem uma construção narrativa cujo encadeamento das ações chama atenção pela disposição das situações. Nesse sentido, há algo marcantemente cinematográfico na obra. Quais caminhos nortearam essa perspectiva criativa?

ANDRÉ DE LEONES – De fato, o romance nasceu de um determinado gênero (ou subgênero) de filmes que me interessam muito. São aqueles passados em mundos desolados por uma qualquer hecatombe, como que depois do fim do mundo, com os sobreviventes tendo de se virar com o que restou da civilização, por entre os escombros. Claro, há livros estupendos que se apropriam desse tipo de coisa, e eles também são muito importantes para mim (cito “A Estrada”, de Cormac McCarthy), mas a minha vontade, ao escrever “Dentes negros”, foi me basear num subgênero cinematográfico do qual ‘Mad Max’, de George Miller, talvez seja o exemplo mais perfeito. Não só pela extrema competência com que foi realizado, pela inteligência visual de seu diretor, mas também pela sua aridez, pelo fato de não fazer concessões na maneira como introduz um mundo ou um pós-mundo em que os estamentos da civilização vieram abaixo. Ao escrever “Dentes negros”, eu me permiti contaminar por esse sentimento de desolação, pela aridez dos cenários e situações, pela sensação de que algo deu muito errado e não há muita coisa que se possa fazer a respeito. Por outro lado, e nisso eu me distingo desse tipo de filme, optei por não embarcar numa narrativa de peripécias. Observe que mesmo a violência, em “Dentes negros”, é anti-climática, não há a construção de um emaranhado de ações que culminem num clímax redentor ou coisa que o valha. Os personagens erram por aí, simplesmente. O retorno de um deles à terra natal é abortado logo de cara, por exemplo. O gesto de outro (ir à procura da prima do morto e lhe entregar uma encomenda) não é heróico, cinematograficamente falando. Eu me fixo nesses gestos menores, que, no fim das contas, são aqueles de que somos capazes, quando somos. Fosse um filme, “Dentes negros” não seria cinema de ação, mas teria a lentidão que percebo, por exemplo, nos filmes de Michelangelo Antonioni (um mestre, aliás, em tomar premissas que renderiam ‘thrillers’ para construir narrativas das mais introspectivas – vide “A Aventura” e “Profissão: Repórter”).

 

DA – O modo como você aborda a questão da alteridade no contexto do livro é um aspecto de interessante reflexão. Tens a sensação de que algo ali é posto à prova?

ANDRÉ DE LEONES – A alteridade sempre foi um tema norteador em tudo o que escrevi. Desde os meus primeiros contos até “Dentes negros”, passando pelo “Dia Morto”, o mais importante sempre foi situar os personagens em determinadas situações; para tanto, é imprescindível um ponto de referência, ou seja, o outro. Nos meus textos, tão ou mais importante do que aquilo que os personagens dizem de si é o que eles dizem uns dos outros e para os outros. O outro, portanto, é uma via para alguma espécie de auto-conhecimento. “Dentes negros” traz, também, um esforço dessa natureza, seja para situar-se num mundo transformado em escombros, seja para seguir adiante, ainda que de forma precária. O outro nos pede que o asseveremos de que ele está ali, continua ali, e em troca faz o mesmo por nós.

 

DA – Observando o que vivemos hoje, sobretudo no que se refere ao terreno das relações, acredita que estamos diante de uma crise de humanidade?

ANDRÉ DE LEONES – A humanidade está onde sempre esteve. Não somos grande coisa, nunca fomos, nunca seremos. Compreendo que muitos precisem acreditar num sentido maior para tudo o que há, até para conseguir suportar uma existência que, na maior parte do tempo, é desoladora. Eu, felizmente, não preciso disso. Nada faz sentido. Escrevo porque é algo que aprecio fazer e porque preciso me ocupar enquanto estiver vivo. Acho que, se as pessoas conseguissem se manter ocupadas assim, sem recorrer a quaisquer transcendências, viveriam melhor, prestariam mais atenção em si, nos outros e no mundo ao redor. Até porque não há mais nada, reitero. Você não passa de uma carcaça arremessada para a morte, isto é, para o vazio. Acostume-se com essa ideia e tente aproveitar a viagem, se possível.

 

DA – Lugares como Silvânia e Goiânia integram de modo recorrente seus escritos. Estas referências refletem em você alguma sensação de pertencimento?

ANDRÉ DE LEONES – Não, pelo contrário. Só me senti em casa em dois lugares até hoje, e um deles foi Jerusalém. Silvânia e Brasília (onde residi por três anos e que adoro) são recorrentes, não Goiânia. Nasci em Goiânia, mas só passei temporadas relativamente curtas e em momentos muito distintos da minha vida na cidade, de tal forma que não a conheço bem. Mas, respondendo à pergunta, Silvânia aparece justamente como terra estrangeira, para não dizer alienígena, em meus escritos. Não há sensação de pertencimento. A angústia surda que move os personagens de “Hoje está um dia morto”, por exemplo, surge justamente de uma extrema sensação de desconforto para com aquele ambiente. Não por acaso, sempre descrevo a cidade como um lugar opressivo, desarvorador. Reitero: Silvânia é onipresente em meus escritos porque fui criado ali e também porque, como escritor, querendo ou não, sempre recorro aos lugares que me marcaram de alguma forma, boa ou ruim. A memória engendra a ficção, no meu caso – o que não significa que os meus livros sejam factualmente autobiográficos, acho bom ressaltar.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – Hoje você vive em São Paulo, metrópole que, por mais que pareça colossal e anacrônica, seduz por seus atrativos de toda a ordem. Esse cosmo paulista instaura um novo paradigma em sua escritura?

ANDRÉ DE LEONES – Creio que sim. Os lugares em que estou ou estive são muito importantes para a minha imaginação. Aliás, gostaria de retificar algo: além de Brasília e Jerusalém, também me sinto muito bem em São Paulo. Talvez por se tratar de uma cidade em boa parte constituída por imigrantes como eu e seja, em função disso, muitas cidades numa só (no que isso tem de melhor e pior), ela parece se moldar aos olhos de cada um, de tal maneira que há uma São Paulo, boa ou ruim, ou às vezes boa, às vezes ruim, suportável e/ou insuportável, para cada pessoa que vive nela, dependendo de onde e em que condições se vive. Essa justaposição tresloucada de olhares e vivências constitui, por um lado, a pluralidade tão associada à cidade, mas, por outro, como que isola os que nela habitam em bolhas que mal se comunicam. Somos como sistemas isolados, e é realmente muito fácil (para aludir ao título de meu livro mais paulistano até agora) desaparecer completamente por aqui e deixar de perceber o outro, o diferente, com um mínimo de atenção. Se a pessoa tem interesse e condições de aproveitar o que a cidade oferece, a movimentação cultural, a enorme variedade gastronômica, a colcha de retalhos que a constitui, viver aqui é muito bom. Mas, se a pessoa não tem, pode ser um inferno. O caos urbano e a multiplicidade de personagens que ele engendra são extremamente inspiradores para mim. Não trocaria São Paulo por nenhuma outra cidade brasileira.

 

DA – Seu processo de imersão na criação de um livro compreende algum rigor específico? Entre palavra e imagem, quem normalmente desponta como a centelha inicial?

ANDRÉ DE LEONES – Tenho um processo cheio de manias. A palavra está sempre na origem. O nome de um lugar, de um personagem, uma frase solta, o nome de uma canção. A partir disso, penso numa situação e procuro desenvolvê-la. Se preciso, pesquiso a respeito do lugar onde quero situar a história e outros detalhes que julgar importantes. Ouço música, bastante, porque me ajuda a encontrar o tom, o ritmo que quero imprimir num determinado texto. Pego um caderno e escrevo muito sobre a história que quero contar antes de começar a esboçar a história propriamente dita. As primeiras versões são sempre manuscritas. Depois, digito, imprimo, reviso, volto a digitar, imprimo, reviso, reviso, reescrevo. Escrever, para mim, é reescrever, nunca me canso de dizer isso. E não me canso porque ainda existe a ideia do artista “inspirado” escrevendo um texto assim, de primeira, graças a uma qualquer “febre criativa” ou coisa parecida. Claro, há dias em que o trabalho flui melhor e há dias em que simplesmente não flui. Mas é disso que se trata, sempre: trabalho.

 

DA – Está em curso algum novo projeto literário seu? 

ANDRÉ DE LEONES – Terminei de escrever ‘Terra de casas vazias’, meu novo romance (com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2013 pela Rocco), em julho passado. Foram mais de três anos de trabalho e, bem, eu estou cansado. No entanto, a cabeça nunca para de trabalhar e uma ideia me ocorreu há algumas semanas, para um novo romance. Ocorre que eu não quero nem posso me envolver em um novo projeto agora. Assim, o que estou fazendo é “cozinhar” essa ideia, de tal forma que ela não morra, pois me parece interessante, mas tampouco se imponha e me obrigue a colocar todas as minhas outras atividades em segundo plano, que é o que acontece quando inicio, de fato, a escrita de um novo livro. Como de hábito, tenho anotado algumas coisas que me ocorrem relativas a essa ideia em um caderno. Daqui a um ano, mais ou menos, depois que eu já tiver lançado e, por assim dizer, me livrado de ‘Terra de casas vazias’, voltarei a esse caderno e verei se há mesmo alguma coisa ali. Se houver, aí, sim, embarcarei noutra viagem.

 

DA – Jerusalém, pelo fascínio que exerce em você, figura como uma provável influência criativa?

ANDRÉ DE LEONES – Provável, não. A cidade já integra o meu universo criativo, tanto que parte de ‘Terra de casas vazias’ se passa em Israel e, sobretudo, em Jerusalém.

 

DA – Na literatura e, também, fora dela, o que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

ANDRÉ DE LEONES – Na literatura e fora dela, seja na pós-modernidade, seja quando for, antes ou depois, não endosso ideologismos de qualquer espécie, à direita ou à esquerda. A estupidez é ambidestra.

 

DA – Por tudo o que já viveu até aqui em sua trajetória com as palavras, o que o impele a continuar trilhando o pantanoso ofício de escritor? 

ANDRÉ DE LEONES – O que mais sei fazer? Muito simples: não tenho interesse por fazer mais nada.

Categorias
73ª Leva - 11/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A perspectiva de vislumbrar o mundo suplantando quaisquer questões que reflitam distinções de gênero é um caminho válido para pensar uma obra literária. Mesmo se o tom das premissas apontar para uma escrita que pulsa de uma específica condição do ser, há, sim, significativo espaço para que a voz criativa pautada num determinado ponto de vista faça operar a convergência de sentimentos e outras tantas aferições da existência. Quando nos debruçamos sobre as escrituras de criadores como Marilia Arnaud, logo nos vem à mente a desnecessidade de levantarmos bandeiras de gênero. Muito pelo contrário, o olhar densamente feminino da autora desloca-se para uma noção de harmonização de percepções, tornando leitores cúmplices e atores de suas narrativas como se todos partilhassem o mesmo solo das esperas.

Com uma trajetória marcada pela verve contista, algo que inclui obras como A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Estado da Paraíba – 1994), Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – 1996) e O livro dos afetos (7Letras), Marilia acaba de edificar seu primeiro romance, Suíte de Silêncios (Editora Rocco), livro que demarca de modo bastante especial um percurso por paisagens intimistas embebidas em lembranças, projeções e mistérios. A narrativa, levada a cabo pela personagem Duína, revela-se arrebatadora e singular porque sabe atravessar com pungência alguns desertos que devassam a alma humana. Dentro da camada sensível da ótica feminina, pulsa intenso o jogo das ausências e hesitações, reforçando a ideia de que existir é saber-se fugidio e finito. No breve diálogo que agora segue, Marilia Arnaud fala desse momento especial em torno do seu primeiro romance, do olhar feminino na literatura e de outras questões integrantes de sua vivência no intricado universo das palavras.

 

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

 

DA – “Suíte de Silêncios” é uma verdadeira transversal de tempos, fazendo convergir presente e passado numa narrativa marcantemente intimista. Ali, a alma humana é devastada pela personificação tida em Duína, menina-mulher que suscita esperas e ausências. Na escolha desse caminho repleto do algo intangível instaura-se a via crucis de um criador?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida, a criação é um processo doloroso, na medida em que demanda a total entrega do artista. Sempre me pergunto por que escolhi essa paixão, o que busco nas palavras, na invenção, quando poderia simplesmente viver. Ao mesmo tempo, acho que não escolhi nada, que simplesmente fui tomada pela literatura, assim como fui arrebatada por Duína, por sua história de perdas e desamparo. Escrever é um processo, de certa forma, obsessivo, porque o autor acaba tão impregnado pelo personagem, por sua voz, que tem dificuldades com a realidade.

DA – No livro, chama atenção a densidade que povoa o olhar feminino sobre as coisas e sentimentos. De que forma tal condição se consolidou como uma escolha narrativa?

MARILIA ARNAUD – A literatura, assim como toda criação artística, é o espaço do imprevisível e da imprecisão. É preciso acreditar na voz narrativa e manter-se fiel a ela para trazer à tona o personagem (homem ou mulher) em sua inteireza. Somente uma narrativa densa e coesa, capaz de impactar o leitor, de fazê-lo refletir sobre as coisas do mundo, sobre a condição humana, pode assegurar que um romance não seja lido impunemente. Trabalhei mais de dois anos para isso, para trazer ao mundo a voz de uma mulher marcada por uma infância traumática, para revelar a inadequação e o sentimento de insuficiência de uma irrevelável Duína. Não sei se consegui (os leitores que o digam).

DA – Guardadas as devidas diferenças contextuais, Duína aproxima-se da Macabéa de Clarice Lispector quando a perspectiva é olhar o mundo sob o manto da delicadeza. Ambas têm uma expressão que suplanta qualquer conclusão apressada de ingenuidade. Como é que você percebe tal associação?

MARILIA ARNAUD – Duína e Macabéa são personagens talhadas por faltas. Na infância, faltaram-lhes os pais. Na idade adulta, afetos, alegrias, talentos. O isolamento, a culpa, a saudade, a aparente passividade e o sentimento de fracasso também as aproximam. Em ambas, a vida dói com força, no corpo (Macabéa sofre de tuberculose e de um dente cariado – a dor da polpa exposta é uma das piores – Duína, de um câncer que lhe rói as entranhas) e na alma (inadequação ao mundo e consciência da rasura da própria existência).

DA – Apesar do aparente espaço conquistado pelas mulheres em plena pós-modernidade, conceber a condição de Duína em nosso mundo é, sobremaneira, refletir sobre um contraste entre certa liberdade do corpo, tão apregoada hoje, e as amarras que nos são mais caras, as do pensamento. Acredita que reside aí o principal conflito que atravessa o universo feminino?

MARILIA ARNAUD – Eu diria que houve uma conquista efetiva, mas não, plena. A mulher pós-moderna trabalha (muitas são chefes de família), estuda, exerce seus papéis sociais, traça os próprios caminhos, e especialmente a mulher de classe média investe na carreira e luta bravamente pela independência financeira. Porém, é uma mulher dividida. No plano da subjetividade, ainda há muito a ser conquistado. Ao fazer escolhas que fogem do padrão enraizado, do modelo maternidade/família, ela se enche de culpa e angústia. É compreensível. Durante séculos, viu-se impedida de afirmar a própria existência, de expressar sua identidade através do corpo e da palavra. Nessa busca por um equilíbrio, a mulher segue se construindo, construindo sua identidade.

DA – A seu ver, quando o assunto é o olhar sobre as densidades humanas, qual a diferença marcante entre homens e mulheres? Padecemos muito com os determinismos?

MARILIA ARNAUD – A diferença marcante talvez seja a maneira de um e outro estar no mundo, os papéis sociais que lhes foram atribuídos ao longo da história, o determinismo sexual que durante séculos apontou o homem como um ser de poder e a mulher como um objeto de reprodução. Em sua essência, o homem e a mulher são universos complexos, sobre os quais o ficcionista deve se debruçar com o mesmo olhar de espanto, porque é do espanto que brota a criação literária.

DA – Depois de construir uma trajetória devotada ao conto, você edifica, com vigor e propriedade, seu primeiro romance. Quais percursos foram fundamentais para essa, digamos assim, mudança de rumos?

MARILIA ARNAUD – Entre meu primeiro livro (contos/crônicas – produção independente) e o recente Suíte de silêncios, primeiro romance, caminhei bastante. Nesse meio tempo, mais de vinte anos, participei de algumas coletâneas e publiquei três livros de contos, dois deles (A menina de Cipango e Os campos noturnos do coração), através de concursos públicos. Foi O livro dos afetos, editado pela 7letras, em 2005, que me levou a pensar na possibilidade de escrever um romance. Explico. Luiz Ruffato apresentou minha prosa a Luciana Villas Boas que, à época, era editora na Record, e ela, muito gentilmente, escreveu-me dizendo que, embora tivesse gostado dos meus contos, não pretendia editá-los, tão somente pelo fato de serem contos, gênero pouco comercial, e sugeriu-me que eu escrevesse um romance. Então, a motivação inicial para a construção do Suíte de silêncios foi o conselho da Luciana, que tomei como um desafio. Comecei tateando, às escuras, sem nenhuma certeza de que teria fôlego para ir adiante. Em algum momento, encontrei o tom, e a história começou a fluir. Algumas pessoas têm me perguntado se o romance é de fato o gênero mais braçal, e eu lhes digo que as dificuldades na construção do Suíte de silêncios não me pareceram maiores do que aquelas com que me deparei na elaboração de alguns contos; creio que são de uma outra ordem.

DA – Somos crias de um deus menor, o mercado, quando, presos a ele, submetemo-nos à imposição de modelos. Consegue vislumbrar por qual razão um livro de contos, por exemplo, seja algo pouco comercial? Esse tipo de constatação não lhe soa incômoda?

MARILIA ARNAUD – Não compreendo a lógica comercial das editoras. Há um desprezo declarado pelo conto, como se tratasse de um gênero menor. Antes do Suíte de silêncios, ouvi inúmeras vezes a mesma pergunta, quando finalmente eu escreveria um romance. Leitores, amigos, familiares. Nessa cobrança equivocada, eu enxergava uma dúvida quanto ao meu valor como escritora, como se somente com a publicação de um romance eu pudesse confirmá-lo. Como já falei, encarei a negativa da editora como um desafio, mas eu já vinha percebendo que meus contos estavam cada vez mais longos. A experiência de escrever um romance não me desagradou. Pelo contrário. Tanto, que já tem um outro tomando forma dentro de mim.

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

DA – Acredita que estamos vivendo um tempo no qual as escrituras e seus criadores andam um tanto exasperados por reconhecimento ou afirmação? Não seria melhor lermos mais do que escrevermos?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida. Hoje se tem uma superexposição do autor. Se ele não aparece, não circula, não frequenta festas e feiras literárias, não dá palestras, não fala sobre a própria obra, seus livros simplesmente passam despercebidos. O “escritor espetáculo” não tem mais tempo para escrever; ele viaja o tempo inteiro, correndo de lá para cá, num frenesi e, muito provavelmente, numa ansiedade terrível. Peno demais quando sou convidada para algum desses eventos. Sou tímida. Gosto de ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo. Falar em público me constrange. E me pergunto qual o sentido de se falar sobre o que se escreve se o livro existe para ser lido? Não estaria o autor usurpando o espaço do livro?

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARILIA ARNAUD – A superficialidade das relações, a falta de interesse real pelo outro, isso é o que há de pior. Na literatura, os experimentalismos presunçosos, o barateamento da linguagem, narrativas sem a mínima elaboração, palavras vazias, textos ocos.

DA – Aos poucos, você prepara um novo romance. Depois de percorrer algumas veredas da palavra, tem a sensação de estar mais próxima de uma maturidade criativa?

MARILIA ARNAUD – Não tenho dúvida de que cresci nesses anos todos de escritura. Meu texto tornou-se mais denso, meus personagens, mais complexos, a linguagem, mais elaborada. Já falei, aqui mesmo ou em outra oportunidade, que esse é um processo natural quando se investe na carreira literária, quando o escritor se determina nesse sentido. Desde muito cedo, decidi que queria escrever. E escrever bem. Minha intenção é fazer isso de forma cada vez melhor. Não tome essa afirmação como arrogância. Reconheço minhas limitações. Sou uma eterna aprendiz, na vida e na criação literária. Tenho dó do escritor que se acomoda com a fama, com prêmios, com o reconhecimento dos leitores e da crítica, porque está morto e não sabe.

DA – O que busca a mulher Marilia Arnaud em sua teima com as palavras? 

MARILIA ARNAUD – Também já me fiz essa pergunta. Muitas vezes, para escrever, abro mão de grandes prazeres, como viajar, ir ao cinema ou ao bar/restaurante, estar ao lado de pessoas que amo. De certa forma, deixo de viver experiências reais para me embrenhar no universo da imaginação. Seria essa uma maneira de lidar melhor com esse sentimento, que é um misto de perplexidade e desolação diante do mundo, do absurdo da vida? De me livrar do desamparo existencial de que todos nós somos vítimas? Ou busco a emoção de ser tantos outros, sendo eu mesma? Não sei. Só sei que a palavra é a minha fé, minha verdade, minha beleza. É quando escrevo que me sinto mais próxima de mim mesma.

 

 

 

 

Categorias
72ª Leva - 10/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

 

GRACO BRAZ PEIXOTO & A PERENIDADE DA CANÇÃO POPULAR

Por Floriano Martins

 

O compositor e intérprete Graco Braz Peixoto (Fortaleza, 1955) tem um currículo no mínimo curioso. Possui mais de oitenta gravações de suas músicas por cantores e autores de expressão no cenário da MPB, além de gravações nos EUA e Europa por artistas brasileiros. No entanto, somente em 2000 gravou seu primeiro e único disco, Kizumba-Mass, uma produção dele próprio para o selo Atração Fonográfica. Entre os parceiros mais conhecidos e/ou cantores gravados estão: Belchior, Fagner, Ednardo, Fausto Nilo, Zeca Baleiro, Chico César, Joanna, Oswaldinho do Acordeon, Nubia Lafayette, Altemar Dutra, Cláudia Barroso, Maria Alcina e Anastácia. Um destaque acima de qualquer suspeita é a canção “Noturno” (escrita em parceria com seu irmão, Caio Sílvio), cuja gravação original, pelo Fagner, foi tema central – inclusive lhe dando título – da telenovela Coração Alado, de Janet Clair, para a TV Globo em 1980. Outro bom destaque é a parceria com Daniel Taubkin que rendeu boa parte do disco A Picture of Your Life, do próprio Daniel Taubkin, produzido por Roy Cicala para o selo Blue Jackel, Estados Unidos, 2002. O diálogo a seguir é uma palhinha da serenidade e visão de mundo desse artista apaixonado pela música e a vida.

 

 

Graco Braz Peixoto / Foto: arquivo pessoal

 

 

FLORIANO MARTINS – Há um aspecto que sempre soa curioso em relação à opção estética de um criador, o que o levou a dar mais atenção a uma zona de criação. Em teu caso, a canção popular. Qual é o mapa da mina?

GRACO BRAZ PEIXOTO – Bom, talvez devesse falar antes do território para depois chegar à mina. Antes da ilha-canção, a música como oceano. Alguém já disse que todas as artes aspiram à condição da música, a música que o filósofo Plotino considerava como um caminho para se chegar a Deus, a música que prescindiria da matéria e se tornaria contemplação da harmonia divina, como queria Santo Agostinho. A música, deste ângulo, seria a via de acesso ao Absoluto. Todos nós sentimos isso em relação à música de Bach, de tantos gênios da história. É sempre mais legal falar do aspecto sensorial do que falar da música como técnica. No princípio, existe o mito da canção de Ur, na antiga Caldeia, a canção como sensação do objeto primevo, aquela que o bebê balbucia ainda no berço. Este é um mito romântico, mas no campo das artes eu acho que a metafísica é sempre mais importante, toda arte se move no campo do sensível e para além dele. E nesse aspecto, me parece que a música leva vantagem em relação às outras artes. Quero dizer que é muito mais fácil um garoto se apaixonar primeiro pela música, principalmente se levarmos em conta sua relação com a indústria do entretenimento.

Certamente a ideia de escolha deve ter surgido quando a aventura já estava em pleno curso. Deve ser algo inconsciente, voltando ao caráter atávico da coisa. Falar da música é falar da infância, no caso a nossa infância em Fortaleza, a minha e do Caio, meu irmão, pois ambos nos apaixonamos nas mesmas circunstâncias. Muito cedo ouvimos Chopin quase que simultaneamente aos Beatles e Roberto Carlos. Minhas irmãs estudaram piano clássico e depois veio o Aulo, o mais novo, que já começou compondo canções surpreendentes. Eu falo dos elos porque a música, e mais fortemente a canção tem essa capacidade de oferecer fruição individual e coletiva, da participação do corpo, de quem embarca por um breve momento nessa cápsula sensorial feita de versos, melodia, ritmo e harmonia. A música, e, dentro dela, a canção, nos dá a oportunidade de pertencer a um pequeno casulo de identidade e de uma realidade sobre a qual endossamos o discurso do autor, nos emocionamos. É algo muito real, é pura experiência ou retorno à experiência vivida. Marca uma vida, a vida de todos. O corpo também canta e dela fica impregnado. Enquanto cantamos ou tocamos, estamos em nós mesmos e ao mesmo tempo muito longe, pois enquanto isso acontece nos abstraímos para outra realidade. A canção, para mim, talvez não viesse sem o Caio, pois ele foi o primeiro a compor, a me despertar a vontade de fazer o mesmo. Fazia músicas lindas e eu tentava também conseguir aquilo. Com a cabeça nas meninas e todos os hormônios viajando em Beatles e tantas vozes do rádio, ninguém poderia resistir. Eis a canção, a guitarra e a estrada. Aliás, “Eis a canção”, não por acaso é o título que o compositor Mário Montaut deu à nossa primeira parceria. E, veja que sincronia: por falar em Beatles, na alteração da dinâmica interna da canção ela foi depois rebatizada como “Para sempre campos de algodão”. Não é bonito? Tem também este outro aspecto belíssimo: dependendo da interpretação e da execução, a canção se transforma. Não seria exagero dizer que ela pode operar uma transfiguração do momento. Nesse caso a voz, sua cor, sua malha, suas particularidades têm um papel também decisivo. Uma bela canção é um gesto prolongado, uma declaração da vida ao mundo.

FM – O que chamamos de canção popular já perdeu os vestígios de sua origem. O mercado transformou em canção popular um produto imposto ao consumidor. Isto faz, dentre outros prejuízos, com que ela expresse o roteiro de uma campanha publicitária, e não que surja como referente de uma indigestão social. No entanto, essas preciosas são assinadas por alguém. O que significa hoje ser um compositor de canções populares?

GBP – Mais uma questão difícil, muito aberta. A canção é soberana. Sempre haverá a questão do talento, ou seja, a questão primordial. Não é a alteração das regras do jogo imposto pela indústria que vai enfraquecer o gênero, destruir talentos. Nesse momento, com certeza temos um cenário ruim, um desestímulo aos grandes autores e cantores em favor de uma porcaria assombrosa. A indústria vende o que a sociedade cria. Seu pecado mesmo é a reiteração, a multiplicação do que gera um mal estar vergonhoso. Esse lamaçal acompanha toda a atomização que vêm sofrendo as artes num ambiente onde não há horizonte, apenas o foco do momento, o imediatismo. Não há mais a obra, apenas o “single”, o funk escabroso. Do trovador da vila medieval, quando a canção foi tomando sua forma, ao trovador dos links houve uma dispersão do cenário interno, da identidade. Hoje há um discurso para cada gavetinha do mercado, este senhor sem face, o que parece inviabilizar aquela idéia antiga da MPB como depositária de um discurso da sociedade brasileira. A sociedade está mais complexa, o acesso mais fácil e a elaboração em geral é muito rasteira. Hoje, a relação com a música – não só a canção – perdeu profundidade. O enfraquecimento da indústria e a vulgarização da gravação de discos geraram um nível de produção cuja absorção é impossível. Ironicamente, downloads são feitos numa escala de fruição impossível. Está tudo muito confuso. O discurso publicitário está muito evidente. Por natureza ele é uma redução e isso rima com a pobreza cultural do Brasil, por exemplo. Mas estamos enganados se pensamos ser esse um fenômeno brasileiro. Parece que o Ocidente se transformou num grande pagode com futebol. Talvez seja cedo para procurarmos uma palavra final. É hora de dar à palavra “underground”, por incrível e contraditório que pareça, o seu verdadeiro significado. E devemos reconhecer que há espaço para tanto. É um espaço que parece aos poucos voltar a vibrar. Aliás, é preciso também reconhecer que lá atrás o surgimento do cinema e da indústria fonográfica desempenhou um papel importantíssimo para o florescimento da canção, aquelas canções e rocks e bandas que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. Mas apesar deste cenário, se formos catar as pedrinhas veremos que o pop e sua imensa constelação de subgêneros ainda possuem uma força e presença impressionantes. A canção ainda é o próprio mapa da mina, ou seja, ela é o território, a identidade e o discurso do habitante, mesmo com a vulgarização que presenciamos. Resumindo, da invenção do fonógrafo ao download, a indústria possibilitou uma produção imensa, a criação de várias linguagens musicais. É sempre difícil unir o micro e o macro. Seria impossível imaginar Elvis Presley em outro momento, o grito primal de John Lennon não teria tido o mesmo alcance. O rock já tem sua literatura, a MPB tem sua história e as pedras continuam rolando. Ser compositor, hoje, pode ser também abdicar de uma idéia romântica de estrelato e riqueza e reafirmar sua paixão da infância. Os dilemas da música não estão separados das questões do empobrecimento cultural. Às vezes, também penso que já tivemos a neurose e que hoje vivemos a necrose. Mas posições assim, tão preto no branco, nunca se sustentam.

FM – A máxima publicitária “Deus criou o mundo” fascina a todos os artistas, seres em geral dotados de uma carência afetiva cujo diapasão espiritual não carece de mistério. Não há enigma, mas sim pobreza de espírito. Recordo este documentário sobre o Michael Jackson, que logo no início cita um desejo seu de se tornar o artista mais popular do mundo. O mundo – mundo é linguagem – é uma entidade muito curiosa. Certos substantivos abstratos se tornaram violentamente concretos, como o medo. Em muitos casos a realidade se esfumou, tornando-se uma abstração sem recurso. Não fazemos uma ideia concreta – exceto a ideia aproximada de todas as épocas – do que seja o mundo, de conformidade com nosso desejo. Na primeira metade do século XX o desejo definia o homem. O desejo era evocado em seu sentido de liberdade. Tornou-se depois um argumento de exploração sexual e consumo. O erotismo forçado das campanhas publicitárias foi desaguar na prostituição infantil. Evidente que Deus não criou esse mundo. Dividimos seu legado em três artérias: a ciência, a arte e a religião. Inventamos um deus para cada uma das veias. Como circulas por entre os bastidores dessa opereta?

GBP – Sinto um enlace de questões. É muito difícil chegar a juízos pela subjetividade das pessoas. No caso dos artistas, pior ainda. Olhando bem de perto, é raro encontrarmos um que não tenha suas fragilidades. Paul Gauguin, inseguro por não ter domínio sobre anatomia, desenho, se encontrou no primitivismo da Martinica e acabou sendo um precursor do fauvismo, ele que havia deixado de lado toda a turma do impressionismo. Foi pioneiro e entrou para a história ao lado de caras como Henri Matisse e Maurice Vlaminck. Michael Jackson é criatura da engrenagem, da indústria, mas por ser um grande artista conseguiu inventar a si mesmo, mesmo com toda fragilidade, esta tão gritante. Não me interesso muito por suas fraquezas egóicas, não era isso que ele levava para o palco. O mesmo poderia dizer da fragilidade e insegurança de Marilyn Monroe. Nesse caso, eu vejo muito mistério em cada diapasão. Não é fácil negar o intérprete, dançarino e show-man que foi o Jackson, por exemplo. Ele vem de uma linhagem, uma geração que começa com B. B. King, passa por James Brown e explode para o mundo com a cristalização da Black Music que foi criada pela Motown Records. Isso é uma invenção americana assimilada por grande parte do planeta. Penso que a valorização da liberdade e da expressão self-made man, signos da cultura capitalista americana, deram vazão à criação de um mundo onde a linguagem que o conduz é o erotismo e a valorização da liberdade e do desejo. É a sociedade do espetáculo, do pensador Guy Debord, em que temos que estar atentos para esta passividade e aceitação de toda representação. Talvez no seu oposto, o mundo árabe, onde o culto é proibido, onde não há esse apego excessivo a mensagens publicitárias, gurus de todo tipo, celebridades, atores e políticos não tenha essa inversão de valores causada pelo consumismo. Mas eu tenho esse defeito, o de pender para o que é demasiado humano, para o lado do anjo caído. Não seria capaz de ver essas manifestações apenas como símbolo de degradação. Acho que ciência é conhecimento e domínio desse conhecimento; arte, vejo como criação, invenção, a glória do engenho e da subjetividade que aumentam o repertório da existência. A arte põe no mundo algo que antes não existia. A arte cria mundos, a ciência os descobre. A arte põe os véus, a ciência os decifra. A religião é a terceira margem do rio. A fé talvez seja o fenômeno mais poderoso do ser humano. Quem tem fé não queima o pé. Já passei por fases de ateísmo. Hoje tendo a ver o mistério como manifestação do divino.

FM – O enlace foi proposital. Na medida em que desatavas o nó, fui recordando umas frases do Keith Richards que disponho aqui como uma sugestão para a seqüência de nossa conversa: “O talento é não interferir demais”, “Canções se escrevem sozinhas, você só as transporta”, “Nunca tive dificuldades para compor”. O processo de criação é sempre uma curiosidade referente à obra de cada criador, para mim uma intrigante curiosidade, porque o alimento essencial do espírito é a obra em si, e não seus bastidores. Então, mais do que indagar como crias, sugiro aqui abordar o que pensas desse talento evocado pelo Richards.

GBP – Bom, essas citações são um barato. Realmente, quando ouvimos canções incríveis, mesmo no caso de canções de amor tão radicalmente diferentes em suas estruturas e concepções, como por exemplo, Stand By Me (Bem King/Jerry Leiber/Mike Stoller) e Luíza (Tom Jobim), temos a impressão de que elas existem desde sempre, de tão perfeitas que soam. Existe o mito do autor como um sensitivo que capta as coisas no ar, como se estivessem feitas. É puro romantismo. Quando ele diz “não interferir”, na verdade se refere à observação e controle do que está sendo feito, de forma que a canção ao final soe “redonda”, ou seja, sem arestas, sem elementos gratuitos. Canções não se escrevem sozinhas. Obviamente, não há termos de comparação entre as duas, mas é claro que a primeira tem uma forma muito simplificada em relação à jobiniana Luíza. Aqui, caberia então chamar atenção do meu inconsciente, que acabou de escrever “jobiniana”. O que significa que o criador desenvolveu sua escritura, fundou sua obra com uma linguagem própria, com base em concepções, repertório próprio e talento tais que ela fez surgir uma nova área no universo das canções. Neste caso, o processo de criação no mundo pop usa menor número de recursos. Não ter dificuldades para compor é compor por prazer. O processo da criação é sempre fascinante, por isso há tanto estudo, hoje, na academia, sobre a gênese da criação. O apego às anotações sobre o processo de criação da obra. No meu caso, antes eu demorava pouco tempo para compor uma canção; hoje, minha observação leva um tempo maior, pois geralmente há o anteprojeto da coisa. Às vezes, a composição torna-se uma quase obsessão, os acordes podem ter diferentes desenhos, as palavras também têm sons, vogais que podem soar com pesos diferentes etc. Fazer tudo soar espontaneamente é sempre um desafio. O João Gilberto seria o melhor exemplo de obsessão com estes itens. Fazer a coisa sair da pulsão normal e ser lapidada na execução é algo sem fim. E há também a letra, a poesia que o canto enuncia, da maior importância. No final, como você já disse, o que conta é a obra em si. Destaco aqui minhas canções com Caio Sílvio, com o Floriano Martins, Aulo Sílvio, com Belchior, com o poeta Ricardo Alcântara e os compositores Mário Montaut e Cássio Gava, com estes últimos parcerias que apenas iniciamos. É um processo de afinidade bonito. No meu caso, minhas parcerias com o Caio Silvio, por exemplo, me são muito importantes. Neste caso, minha participação é sempre como letrista, o Caio é um compositor de inúmeros recursos. Já quando componho para os seus versos, por exemplo, tento me embalar na linguagem do poeta Floriano Martins, o que é um outro prazer, pois conhecemos profundamente nossas predileções e eu gosto muito quando recebo uma letra em espanhol.

FM – Em meio a este ambiente das parcerias, eu queria destacar uma delas, no caso da cumplicidade com o Daniel Taubkin, para o disco A Picture Of Your Life, quanto ao aspecto de que as letras foram resultado de mergulho em outro idioma. Escrever em uma língua que não é a sua ajuda a iluminar os argumentos da escrita?

GBP – Escrever em outra língua é transportar-se, antes, para outra cultura. É um atrevimento. Nesse caso, o trabalho resultou de termos uma formação musical muito parecida. Obviamente não foi nada fácil, tivemos sempre a leitura crítica do produtor do disco, o Roy Cicala, americano que produziu discos de grandes celebridades e hoje mora no Brasil. Tanto o inglês como o espanhol têm uma belíssima sonoridade. Conhecer expressões e a tradição daquele cancioneiro ajuda a entrar na levada que tem cada canção, mas é sempre aquela coisa da página em branco. As resenhas sobre o disco, lançado nos EUA, Europa e Japão nos deixaram muito satisfeitos.

Graco Braz Peixoto / Foto: Floriano Martins

FMEm uma conferência que deu em Viena, em 1999, o compositor Nick Cave faz uma bela analogia entre música e silêncio: “Se o mundo fosse ficando silencioso repentinamente Deus seria desconstruído e morreria”. Esta conferência é valiosa, porque ele trata muito sabiamente acerca da canção de amor, do ato criativo visto a partir da tristeza (“a canção de amor é uma música triste, é o próprio som da tristeza”) e da teoria do duende defendida por García Lorca e uma densa tradição na canção de língua inglesa – Bob Dylan, Leonard Cohen, Tom Waits, Neil Young, Van Morrison – que lhe é devedora.

GBP – Que maravilha esta citação do Nick Cave. Acho que também somos herdeiros da tradição inglesa, assim como os EUA, estes de forma mais acentuada. A canção de amor, sendo de alta voltagem é imbatível. É um desses artefatos que me fazem crer na perenidade do gênero. Todos esses caras são fantásticos. Devemos a eles grandes momentos. A canção de amor é um ajuste de contas momentâneo. Como canção, ela acontece na redundância, na chegada ao clímax do refrão, que ganha força na sua reiteração. Não que a canção tenha uma forma definida e imutável. O mistério de canções assim é que depois de feitas parecem tão simples. De fato, há como que uma repetição do esquema, uma quase pobreza harmônica na utilização de poucos acordes, coisa que foi superada entre nós pelo refinamento vindo da bossa nova. Mas quando se vai fazer, meu velho, adeus facilidade. Fosse tão fácil assim, não teríamos todos nós compositores um leque considerável de começos de canções, pedaços delas e outros projetos que ainda não foram concluídos.

Essa metáfora de Nick Cave deve se referir a uma concepção mais oriental da paz e do mistério da existência. É algo muito comum entre músicos que tentam uma iniciação ao zen budismo. Sobre a teoria do duende, do poeta espanhol Garcia Lorca, é uma bela metáfora para falar da arte espanhola, especialmente a música e a dança flamencas como uma fonte de prazer visceral características da cultura espanhola. O duende, para nós, seria como “estar com a macaca” ou “estar possuído”. É, no fundo, uma afirmação do caráter distintivo que tem a interpretação, essa idéia que no linguajar moderno se fala “performance”. Temos poucos cantores entre nós que cantam com esse duende. Aliás, a bossa nova é uma domesticação, um refinamento desse bicho. A dança, o cantar dramático e a poesia espanhola têm na canção de amor uma das grandes manifestações de sua arte.

FM – De onde remontam as tuas afinidades musicais? Que música ouvias na infância e que percebes tenha sido de boa influência em tuas escolhas musicais?

GBP – Como um fenômeno familiar, nossas afinidades – minha, do Caio e do Aulo são as mesmas, com poucas preferências mais distintas. Donde se vê a importância do meio. Não temos nada a ver com samba, chorinho etc. Nossa área é mais da música brasileira a partir dos anos 1960, com uma pegada forte nos ’70, base de nossa formação. No meu caso, com a vinda para São Paulo passei a me interessar muito por uma área de canções sofisticadas feitas por compositores que vinham de um ambiente jazzístico. Tudo isso foi gradativamente soldado à minha formação de música brasileira. É o ciclo comum a todos; a diferença são as preferências. Pode parecer estranho ou esnobe, mas não é. Minha geração não foi afeita à sensibilidade telúrica do canto sertanejo, àquelas visões e formas – bonitas e preciosas – comuns a um universo onde a tradição da poesia moura que há no Nordeste de certa forma ainda se impõe. É neste ponto que podemos acrescentar, porque propomos naturalmente um sincretismo. Não fazemos a repetição, mas criamos um corpo de canções onde esta leitura não se apresenta em primeiro plano. Em situação alguma abrimos mão de nossas referências, da modernidade. Canções de nossas autorias que tiveram sucesso nos deram uma resposta muito feliz acerca dessas músicas. Como, por exemplo, Noturno, conhecida como “Coração Alado”, tema da novela homônima.

FM – Tens uma leitura muito elegante acerca da barbárie que estamos criando em cativeiro privado. Nós que nascemos nos anos ’50 no Brasil fomos atropelados por certa virulência já ajustada em linha nos ’80 e piorada gradativamente. Eu gostaria de te ouvir falando de algumas dessas canções, seu alcance, essa resposta feliz que mencionas.

GBP – Talvez tenhamos sido salvos pela arte, se é que fomos salvos. A barbárie talvez seja a mesma de sempre. Talvez nossa singularidade – que perante o mundo escapa ao trágico como uma manifestação de alegre potência – possa ser expressa numa questão: como um país de baixa cultura como o Brasil pôde transformar um artefato de alta sofisticação como a bossa nova em produto de massa? Hoje, sua influência internacional é indiscutível. Para nossa surpresa, o Paul McCartney declarou que pretende vir ao Brasil e gravar com músicos da bossa nova. É um argumento a que recorro para tentar responder a pergunta, apesar de minha formação pop. Poderia pinçar algumas canções que surgiram como bandeiras, quando geralmente elas aparecem como um delicioso cobertor com o qual nos embalamos. Cito Like a Rolling Stone, do bardo Dylan, uma canção de 1965, com mais de seis minutos de versos demolidores, que demonstrou sua incrível força marcando nossa geração e o mundo de forma inquestionável, com reverberações até nossos dias.

FM – A cronologia é o ambiente natural da história e a exploração conveniente do mercado. Entre o novo demais para morrer e velho demais para viver, a retórica oscila sem desconectar o cinismo automático. São reais as conexões que já mencionaste com a pobreza espiritual brasileira e o desgaste de certa mecânica cultural do Ocidente. Qual o relato possível de sobrevivência a tudo isto?

GBP – Alguém já falou que a retórica é a mais perigosa de todas as armas. Este assunto – a decadência – me parece sempre uma questão da ética. O cinismo a que você se refere antes é a regra, não somente no Brasil. Não sou economista, mas toda essa crise na Europa e na comunidade do Euro, por exemplo, me parece antes um problema da ética. Como diz o Belchior, numa de nossas parcerias, “O dinheiro é um deus cruel”, e a política seu servo fiel. Precisaríamos de homens, no lugar dos políticos. Acho que esse é um movimento circular. A rigor não há novidade, nos iludimos com as surpresas e as possibilidades que chegam com as tecnologias, mas a tortura e o massacre de crianças, como vemos hoje na Síria sempre podem estar no horizonte.

FM – Chegamos ao Kizumba-Mass como quem abre a página de um manifesto. Em um ambiente de novas mídias, como tornar esse disco acessível atualmente?

GBP – Tenho mais de 80 gravações, mas o Kizumba-Mass é meu primeiro e único disco, exceto por algumas participações coletivas as quais não curto. Gravei 21 músicas, das quais 15 foram para o CD, cuja ideia foi criar um móbile cujas peças seriam distintas entre si. O disco saiu pela gravadora Atração e tem as participações do Ednardo, Daniel Taubkin e Anastácia. A exposição do trabalho gratuitamente na internet é bacana e muito importante, mas é preciso resolver o problema da remuneração do compositor, que já era difícil pelos meios antigos.

 

 

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

 

 

 

 

Categorias
71ª Leva - 09/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Antes de um tudo, o vazio e suas improváveis imagens. Antes de tudo, o silêncio, a ausência do verbo a rasgar instantes. Depois de tudo, a palavra a atravessar espaços e habitar a matéria do nosso concreto de cada dia. Como conceber a existência sem a poesia que antecede e esgota o sopro? Onde o intervalo mínimo entre projeção e realização?

Com tais percursos que remexem as entranhas da vida, a criação revela-se a musa das musas, representante imprecisa de nossa sina pelas tresloucadas paragens terrenas. Os poetas são seus mais legítimos porta-vozes, transformando desvãos da alma em versos pungentes, catando o despercebido e ofertando-nos tudo em doses nada terapêuticas. É atraente pensar que criadores vagam conosco no meio da multidão e, mais adiante, sugerem veredas. Nesse ofício, encontramos gente como o escritor paulista José Geraldo Neres, homem cuja sina celebra permanentemente a liquidez do verbo. Dono de um estilo que contempla um intangível olhar sobre os lampejos humanos, o autor abraça o silêncio como causa, mas não consente que nele se façam vãs inscrições. Para ele, importa a revelação escondida nas sucessivas camadas onde habitam as palavras. Se o resultado disso é mirar o abismo, a queda é perspectiva real.

Autor de obras poéticas como “Pássaros de papel” (Dulcinéia Catadora, 2007) e  “Outros silêncios” (Escrituras Editora, 2009), José Geraldo Neres alimenta agora sua travessia com a instigante reunião de contos presente em “Olhos de Barro” (Editora Patuá). Trata-se de um livro no qual as imagens inauguram as densas vias de uma prosa poética que sabe a queda e fronteiras. Seu trânsito no terreno cultural é múltiplo, compreendendo também as feições de roteirista, dramaturgo, produtor e gestor. Como curador do Projeto Quinta Poética, em São Paulo, articula encontros valiosos entre autores, artistas e produtores dos mais variados campos, num claro propósito de harmonizar linguagens múltiplas. Falando um pouco sobre suas andanças literárias e outros temas correlatos, Neres revela-nos agora alguns aspectos que movem a sua obstinada travessia pelas palavras.

José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal

DA – O silêncio é um tema que está entranhado, de modo especial, em parte significativa de sua obra. Seria ele um exercício recorrente de escutas e, portanto, a gênese desafiadora da criação?

JOSÉ GERALDO NERES – A procura deste “silêncio” acaba por facilitar o deslocamento de tempo necessário para esta criação. Não existe limite ou obstáculo relacionado a ele. Passado (infância/natureza), presente, futuro, e, como costumo tratar, a travessia.

O “silêncio” é um paradoxo, pois tenho por hábito mergulhar ao máximo no universo musical/sonoro, quando estado de criação, e pesquisa/leitura, grande facilitador/aliado na revelação do ritmo interno do texto. A melodia das palavras líquidas é parte de minha busca, sim. Escuta, pesquisa e criação, principalmente tratando-se de um cenário cosmopolita em que estou radicado.

DA – Sua expressão poética possui a fluidez decisiva sobre as marcas da existência, como se as palavras percorressem espaços sensíveis de nossa materialidade buscando aplacar estranhamentos da condição humana. Seria um flerte fundamental com a perspectiva da transcendência?

JOSÉ GERALDO NERES – Como observador do cotidiano, tento retirar dele sinais que possibilitem o mergulho nas marcas que carregamos nos ossos. Tenho uma imagem inaugural e, a partir dela, busco expandir seu universo de alternativas ficcionais: a de um menino a perambular e brincar na beira de abismo, sem ter qualquer preocupação com a queda ou se retornará deste mergulho, transformado ou não. Gosto de tratar a criação literária desta maneira: experimentar ao máximo os riscos e não perder a infância ou essa imagem inaugural. Apanhar os desperdícios e o delírio do verbo tão presente em Manoel de Barros. Acompanhar o afinador de silêncios na obra de Mia Couto. Passar através dos ponteiros do relógio, lá onde o silêncio põe um capuz branco (Murilo Mendes), ou o conjunto de acontecimentos e processos que nos rodeia nos engendra e nos devora. Cúmplice e confidente (Octavio Paz). Desafiar os limites do corpo e da palavra. Cito alguns autores que provocam estados criativos, mas o mergulho é sempre renovado e um novo autor acompanha a queda.

DA – A síntese é um traço vigoroso em seus percursos poéticos, divisando imagens reais e quiçá oníricas. Harmonizar em versos um sentimento do mundo é pensar no inatingível?

JOSÉ GERALDO NERES – O exercício da síntese começou com leituras e estudos de autores haicaístas: Bashô, Buson, Issa e aqueles por eles influenciados. Cito um livro revelador de Mestre Bashô: Trilha Estreita ao Confim. Entretanto, o tempo e outros autores me mostraram que a síntese de um texto pode passar por trilhas e encruzilhadas diferentes. Desde então, procuro lapidar o texto, mas com o cuidado de não retirar a essência ou alma dele.

Com relação ao “inatingível”, não consigo pensar desta forma durante o processo de criação. Tenho na imagem poética uma grande aliada para desenterrar palavras/versos na ressignificacão do momento/mundo representado em um texto. É a procura da palavra debaixo da palavra. E continuo a tentar descobrir esta palavra latente (Vicente Huidobro) e o delírio do verbo (Manoel de Barros). Procura e exercício interminável. É um gozo divino, no sentido de êxtase, quando um leitor completa e dá sua interpretação a esse texto. Essa leitura reforça meu desejo de continuar por essas trilhas e encruzilhadas.

DA – “Olhos de Barro”, seu mais recente livro, dedica-se a uma prosa que se manifesta intensamente poética. O título, por sinal, é bastante sugestivo, apontando para um criador que, ao mesmo tempo, é criatura a mirar os trajetos da existência. Quais signos você elenca como sendo os mais emblemáticos nessa sua nova incursão pelas palavras?

JOSÉ GERALDO NERES – Sim, criador e criações. Tudo começou com uma provocação imagética: uma grande boca a perambular uma casa vazia, sem portas ou janelas, e, mesmo assim, ela não conseguia sair desta casa. A boca, corpo não tinha, e sua voz preenchia todo este ambiente. Essa imagem inaugural persistiu no grupo de textos produzidos e insistiu a provocar outras inquietações. Utilizei a estrutura da casa para os primeiros passos (a casa tinha quatro cômodos. Então, os signos elementais serviram de bússola, depois o embate do criador e criações: a casa como limite e parte deste corpo, corpo construído por palavras. Depois, o tempo: passado, presente, futuro e a travessia). A queda, os limites do corpo, as fronteiras que cercam os pensamentos e criações são partes dos signos utilizados. Os outros estão naquele que completa o livro: o leitor. Antes deste círculo se completar, é claro que fui procurar beber em outros autores que dialogam com este tema: queda e fronteiras.

DA – Essa sua menção a queda e fronteiras pode ser compreendida também como uma projeção da finitude, talvez um dos maiores temores humanos?

JOSÉ GERALDO NERES – Gosto deste temor, principalmente inserido no campo da criação, mas, particularmente, não acredito nesta projeção, e sim em transformação e travessia. Quando da realização e escolhas de leituras para “Olhos de Barro”, uma obra me chamou muita atenção: “Gringo Velho”, do mexicano Carlos Fuentes. Encantou-me a trajetória do personagem que, antes de “cumprir sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra” (diálogo dos personagens Chicó e João Grilo no Auto da Compadecida, obra imortal de Ariano Suassuna), atravessa a fronteira dos Estados Unidos da América para participar da revolução mexicana. Ele sabe o que o tempo planeja para ele, e, assim, abandona tudo para poder vivenciar este seu desejo heróico. É certo que o livro é muito mais que esta simplificação que acabo de fazer, mas é essa travessia que me impregnou durante a leitura da obra.

DA- Nesta travessia pela palavra, escrever seria também uma via de redenção?

JOSÉ GERALDO NERES – A literatura sempre me salva. Não sei dizer ou mencionar quantas vezes aconteceu isso, mas terminar um texto é um prazer que não há como definir. Poderia citar vários exemplos, e mesmo assim não atingiria a proporção correta. Terminar um texto nos dois sentidos: leitura e escrituração. Quando recebo a indicação de leitura de alguém, faço uma excursão pelos sebos (virtuais e tradicionais) até encontrar o livro. Gosto do desafio, da procura.

A literatura já me levou para inúmeros lugares que jamais pensei conhecer, e, a cada retorno, sou “o outro” que habita a mesma casa. Sei que tenho muito por caminhar, aprender e descobrir. Cada novo projeto/livro me dá essa possibilidade.

José Geraldo Neres / Foto: arquivo pessoal

DA – Em meio à sua trajetória incansável de articulador cultural, habita o  projeto Quinta Poética, do qual você é curador, e que agora está completando 50 edições. O que tem sido decisivo para a consolidação desta iniciativa?

JOSÉ GERALDO NERES – Nasci, literariamente falando, em Diadema, final dos anos 90 (pertence à região do grande ABCD daqui do estado de São Paulo), onde tive o privilégio de conhecer uma oficina de criação literária (ministrada pela poeta Beth Brait Alvim). Nesse período, aconteceu minha primeira revelação: descobri que tinha apenas o desejo poético, mas poesia mesmo, não. Descobri que não era poeta, mas também descobri o desejo e determinação de procurar pela poesia e seus realizadores. Esteticamente e poeticamente, tudo começou em Diadema. O fazer era agregado à vivência, convivência, coletividade, intercâmbio e experimentação. Neste clima, criou-se o grupo Palavreiros, e nós nos apresentávamos em leituras pela cidade, outras cidades, e espaços sócioculturais (aqui é só um brevíssimo resumo: há muito por falar). Desde então, peguei gosto por produção cultural e não parei mais.

O Quinta Poética chega a 50 edições na Casa das Rosas (anteriormente, o projeto habitou outros lugares), e é idealizado e promovido pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, onde se apresentou um mosaico com mais de quinhentos produtores culturais de todas as regiões brasileiras e exterior do país. Existe uma permanente mescla/diálogo com as demais linguagens artísticas. Por ser um projeto que existe e se mantém numa periodicidade ininterrupta, aliado à cumplicidade e qualidade destes produtores culturais, creio que sejam esses alguns dos ingredientes desta consolidação (a programação deste ano está pronta desde o mês de maio, e, atualmente, recebo indicações e sugestões de participantes para o ano de 2013).

É uma grande surpresa o desdobramento de cada edição: os participantes realizam além do costumeiro intercâmbio de saberes/contatos. Criam novas parcerias e andanças. Isso estimula e muito, além de aumentar a responsabilidade de estar na curadoria deste projeto (aqui quero deixar meu agradecimento aos curadores anteriores. Como certamente vou esquecer os nomes de todos, cito-os na figura emblemática do poeta Celso de Alencar).

DA – É possível dizer que os escritores contemporâneos, em prosa ou verso, detêm um estilo peculiar capaz de solidificar algum movimento? 

JOSÉ GERALDO NERES – Não acredito nessa possibilidade, pois não sabemos quem são nossos poetas ou escritores (isso em âmbito nacional ou estadual). Conhecemos certo número de autores, porém não todos. No Brasil, não há um mecanismo ou mapeamento dos produtores culturais, como, por exemplo, o Sistema de Información Cultural, CONACULTA, México. Acho que ganharíamos mais se nossa literatura fosse sistematicamente divulgada (obra e autor) internamente e, é claro, no exterior. Hoje, sinto uma movimentação, mas é um tanto tímida e, quando sabemos de uma obra traduzida para outro idioma, não há surpresa nos livros ou autores escolhidos ou selecionados. O assunto requer um debate amplo, e essas poucas linhas não seriam suficientes para discorrer ou apontar soluções. No entanto, quero deixar claro que conheço escritores e poetas sérios e competentes, mas lamento não ter este painel de nossa literatura nacional.

DA – Quais critérios norteiam a participação dos autores no Quinta Poética?

JOSÉ GERALDO NERES – Basicamente, qualidade, apresentação pública, disponibilidade para troca de saberes, e diálogo entre diferentes linguagens artísticas. O maior exemplo deste intercâmbio de saberes, estética e linguagens artísticas foi a 43ª edição, em Novembro de 2011, Especial diálogos – Diversidade cultural. Há um extenso acervo disponível para visitação e pesquisa na internet, relacionado a outras edições.

DA – O estado de coisas a que chamamos pós-modernidade talvez tenha trazido a frágil sensação de que é possível subverter tudo em matéria de gênero literário. O que você pensa sobre isso?

JOSÉ GERALDO NERES – Encontro essa desconstrução em autores do passado. Cito seis que tenho por hábito reler: Lautréamont, Gérard de Nerval, Charles Baudelaire, Octavio Paz, Jorge de Lima e Campos de Carvalho (se procurar um pouco mais no abismo de leituras, vou encontrar outros exemplos). Nessas leituras, fico a questionar os limites e fronteiras do gênero literário. Longe de mim afirmar que esses autores inauguram essa ruptura, pois a história literária é longa e bebemos na tradição para conhecê-la e poder subvertê-la. Não acredito em criação no vazio.

DA –  O que você não endossa na dita pós-modernidade?

JOSÉ GERALDO NERES – Apenas para reflexão: qual a preocupação com o tempo? Ele é o tempo e, assim, sempre será. Penso na capacidade criativa do ser humano, e tudo aquilo ou movimento que o influi e provoca para uma nova criação. Acredito no movimento cíclico. A escrituração começa nos primeiros registros na pintura ou gravura rupestre. Fica uma provocação: como inventar a roda sem beber na tradição?

DA – Para o homem das palavras José Geraldo Neres, escrever seria uma necessidade de expressão íntima ou a busca por uma interlocução com o mundo?

JOSÉ GERALDO NERES – Sim, escrever é tentar dialogar ou compreender os símbolos do cotidiano, sentir a pulsação, o ritmo, todos os sentimentos (positivos e negativos), e procurar uma solução estética que possa abrigar todos esses desejos. Os menores detalhes do mundo, aquilo que passa despercebido pela maioria, mas que está lá, aguardando uma significação (aqui, uma livre interpretação de Manoel de Barros: apanhar desperdícios). Nesta macrocomunicação, também me encontro. E citando-me no poema manifesto O eco das árvores, que encerra o livro “Outros silêncios”: Sou a roupa de arbustos onde um poeta tenta se equilibrar. / A vida despe o relógio, os ponteiros dissolvem o poeta em sua figura negra e única. / Sombra na busca do poema. // Dança de símbolos na eterna busca do homem que um dia poderei ser. // Corpo dividido, dispersando-se na medida que leio o que escrevo. / Eu não existo aqui mesmo. O poema mal sabe de mim.

 

 

 

O livro pode ser adquirido no site da Editora Patuá